Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015
A lei da atração opõe-se a ideologias de esquerda e ao catolicismo tradicionalista?

 A lei da atração, teorizada por vários pensadores da psicologia de massas e do controlo mental, sustenta que atraímos a nós as coisas e qualidades em que pensamos frequentemente: se pensarmos que é mau ser rico atrairemos a pobreza ou um grau de conforto muito moderado, se pensarmos em vinganças ou em prejuízos para pessoas abater-se-ão sobre nós vinganças de outrém, se pensarmos em ser ricos e agirmos em conformidade a riqueza material virá ter connosco. Mas isto não dispensa a acção que temos de desenvolver para materializar as ideias. Esta lei parece opor-se às ideologias de esquerda revolucionária centradas na pobreza e na sua denúncia sistemática.  Escreve Camilo Cruz sobre a necessidade de nos mantermos de mente saudável e optimista, gratos sobre tudo o que de bom nos sucede:

 

«No campo da informática, é sabido que se programar o seu computador com lixo, a única coisa que vai de lá tirar é o lixo»-

«A lei da atração diz-nos que o mesmo acontece com a mente: se puser nela lixo, só obterá dela lixo.»(...)

«Não basta querer mudar ou estar consciente da necessidade de fazê-lo. A vontade ou o desejo de mudar não bastam. A única opção é fazê-lo. Se pretende ver alterações no seu comportamento, e na sua vida, talvez precise de rever os programas que até hoje orientaram a sua mente.»

«Orison Swett Marden recorda-nos de que o pensamento recto é um íman poderoso, pelo que quando quiser ser ou ter algo, só o obterá programando a sua mente com a informação correcta. Afirme com fé o que quer ser ou ter. Se anseia ter saúde e vigor, se quiser abundância e não miséria, repita constantemente: «Estou são, sou forte, vivo em abundância, não pode haver penúria, nem pobreza, nem necessidade na minha vida. Sou rico porque obedeço às leis e princípios do êxito.»

(Dr. Camilo Cruz, A verdade sobre a lei da atração, Pergaminho, pág 75; o destaque a bold é de nossa autoria).

 

«Depois de identificar as suas metas, crie imagens claras delas. Apoie-se em fotografias, postais, vídeos ou no que achar que pode ajudar a visualizá-las mais claramente. »

«Não existe nenhuma força mágica ou sobrenatural, a operar, trata-se apenas das funções fisiológicas do cérebro. Na medida em que se concentre em qualquer sonho, por mais impossível que possa parecer, pense nele, o visualize, o envolva em emoções fortes e desenvolva um profundo desejo de obtê-lo, activará a sua formação reticular, agudizando assim todos os sentidos para que consigam captar com maior facilidade toda a informação sensorial proveniente do meio ambiente que possa estar relacionado com essa meta». (Dr. Camilo Cruz, A verdade sobre a lei da atração, Pergaminho, pág 75; o destaque a bold é de nossa autoria).

 

«A gratidão mantém a sua mente numa harmonia mais próximas das energias criativas do universo. Se analisar com atenção verá que é verdade. As coisas boas que tem chegaram-lhe obedecendo a certas leis. A gratidão levará a sua mente àquilo que origina a riqueza, mantê-lo-á em harmonia próxima do pensamento criativo e avisá-lo-á quando estiver próximo de cair no pensamento errado.»(...)

«Se permite que a sua mente mergulhe no desespero das angústias da vida quotidiana, começa a duvidar e a perder a firmeza. Quando fixa a sua atenção, no pobre, no fraco e no mau, a sua mente toma a forma destes elementos negativos. Como resultado disso, o pobre, o fraco e o mau sentir-se-ão atraídos para si. Se permite que a a sua mente se afunde no inferior, tornar-se-á inferior e ficará rodeado de coisas inferiores. Mas se se fixar no melhor, irá rodear-se do melhor e ser o melhor» 

«Também a fé cresce com a gratidão. A mente agradecida espera sempre coisas boas e esta esperança gera fé. A atitude de gratidão produz uma maior fé e cada vez que agradecemos aumentamo-la.»

(Dr. Camilo Cruz, A verdade sobre a lei da atração, Pergaminho, pág 128; o destaque a bold é de nossa autoria).

 

Este modo de pensar positivo, que lembra o de Cristiano Ronaldo, desprezando a concentração na atenção na pobreza e na debilidade física, opõe-se às ideologias de esquerda que mostram sistemáticamente, as condições de vida degradantes em que cerca de 20% da população vive e levam a cabo estudos sobre isso. E opõe-se também ao catolicismo tradicional baseado no temor a Deus, ao Inferno e ao Diabo e na mortificação do corpo. Há objeções a colocar a esta lei do pensamento positivo, negando~lhe um poder absoluto::

 

1º Os planetas determinam o nosso comportamento e tudo o que nos sucede. Se Saturno ao passar sobre o nosso Marte de nascimento causa em dado dia um acidente no automóvel em que viajamos, como pode o pensamento luminoso evitar isso?

 

2º De que serve o pensamento optimista aos passageiros de um avião em queda livre de uma altura de 10 000 metros? Quando muito, ajuda a encarar a morte com serenidade...

 

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Sexta-feira, 13 de Junho de 2014
O desvio de Hegel da tradição da visualização grega

 

Hegel dividiu a sua ontologia e teodiceia em três vertentes diacrónicas: o ser, a essência, o conceito, equivalendo a tese, antítese e síntese.

 

«Pelo facto  de que o conceito (a noção) envolve, por este lado, o ser e a essência que aparecem como suas condições precedentes e que se afirmam como sua razão de ser absoluta (lado ao qual correspondem em outro ponto de vista a sensibilidade, a intuição e a representação) fica o outro lado que traz este terceiro livro de Lógica e cujo objecto consiste em expor de que modo o conceito constrói em si mesmo extraíndo de si mesmo esta realidade absorvida nele.» (Georg W.F. Hegel, Lógica II y III, Folio, Barcelona, pág 103).

 

De facto, na teoria geral da ideia absoluta parece haver um desvio de Hegel em relação à tradição grega platónica e mesmo aristotélica: do ser, que é o puro existir abstracto (Deus antes de criar o mundo,o espaço e o tempo)  passa-se à essência, que é um existir material concreto (Deus transformado em planetas, estrelas, rios, árvores, animais não humanos)  e desta última, passa-se ao conceito que é uma forma esvaziada de matéria (Deus incarnado em humanidade pensante), um regresso (enriquecido) ao existir abstracto do ser. Em Parménides, nunca se sai do ser, que além de consubstanciar o existir, é uma essência-forma: uma esfera homogénea, una, imutável, invisível, impalpável. Em Aristóteles, o ser (einai) é um atributo, o existir ou o pertencer a algo, que está acima das essências ou formas específicas: o Ente, no sentido de essência divina, é a forma pura sem matéria, o acto sem a potência.

 

Se, em Hegel, Deus ou ideia absoluta pensa o mundo que irá criar não pode ser, meramente, o ser. Tem de ser sujeito, essência, pois alberga em si a totalidade das formas em que se virá a converter nas fases seguintes.

 

Hegel distingue a essência do ser determinado e considera-a o fundamento deste, o que coincide, aparentemente,  com o pensamento aristotélico:

 

«A essência deve manifestar-se, uma vez porque o ser determinado se dissolve em si mesmo e retorna ao seu fudamento -o fenómeno negativo; e outra vez, porquanto a essência como fundamento é simples imediatidade e, portanto, ser em geral - Por mor da identidade do fundamento e da existência, nada há no fenómeno que não esteja na essência e, inversamente, nada há na essência que não esteja no fenómeno» (Georg Hegel, Propedêutica Filosófica, Edições 70, pág. 228; o destaque a negrito é posto por mim). 

 

O problema da formulação «a essência como fundamento é simples imediatidade e, portanto, ser em geral» é o seu carácter paradoxal. Aristóteles nunca diria isto: distinguiria o tó on (o ser-existência) do tó tí (a forma acidental ou essencial). Hegel reduz a uma amálgama a distinção entre ser imediato e essência. O ser em geral imediato não tem forma. Ora a essência, o eidos aristotélico, é uma forma de uma dada espécie. Não é possível a dissolução da essência no inessencial ser em geral - são contrários e os contrários não se dissolvem um no outro, permanecem numa irreconciliável oposição, embora possam trocar de posição (dominante e dominado). A essência é um sujeito geral ou individual e o ser um predicado (exemplo: a rosa é, existe). Não é possível dissolver o sujeito no predicado, a menos que se confunda essência com matéria. E esta confusão subsiste em Hegel.

 

A MATÉRIA COMO CATEGORIA DA ESSÊNCIA EM HEGEL, AO CONTRÁRIO DE ARISTÓTELES

 

Note-se a confusão terminológica de Hegel:

                                                                                   

(11-43)

«b-  As categorias da essência são a matéria, a forma e o fundamento.»

 

(12-44)

«A matéria é a essência enquanto igualdade consigo mesmo.»

 

(Georg Hegel, Propedêutica Filosófica, Edições 70, pág. 110). 

 

Hegel está longe de Aristóteles ao incluir a matéria na essência. Aristóteles usou o termo substância (ousía) como síntese entre a forma (eidos) e a matéria (hylé) mas Hegel introduz a matéria na essência. O que é o fundamento, senão a forma original, o protótipo? Nem se percebe a frase «A matéria é a essência enquanto igualdade consigo mesmo» - e a forma não é uma igualdade consigo mesma? Decerto, Hegel define substância mas de forma algo retórica sem enfatizar a matéria nela contida:

 

«O efectivamente real é substância. É essência que contém em si as determinações do seu ser determinado como simples atributos e leis e põe os mesmos como um jogo existente determinantemente ou como os seus acidentes, cuja ab-rogação não constitui um desvanecimento da substância, mas o seu retornar a si mesma» (Georg Hegel, Propedêutica Filosófica, pág 29).

 

Aquilo que é artificial e, em certa medida, chocante, na divisão hegeliana do movimeno da ideia em ser-essência-conceito  é o facto de a matéria física conferir a essência, constituir a essência. É uma concessão ao materialismo, uma subversão do conceito grego da preexistência da forma. Tanto em Platão como em Aristóteles a forma é ontologicamente anterior à matéria na formação do ente. Em Hegel, aparentemente, não é assim: ele antepõe o ser à essência, a qualidade abstracta do existir à essência, à substância. O seu pensamento assemelha-se ao taoísmo: do não-ser provêm todas as coisas.

 

 

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Sábado, 22 de Junho de 2013
Da ambiguidade do «ser no mundo» em Heidegger e do surrealismo em «Ser e Tempo»

Heidegger fala do «ser no mundo» como uma das divisões do ser. Mas a expressão é equívoca:  pressupõe que o ser é uma coisa e o mundo é outra, totalmente independente. Ora o mundo desabrocha a partir do ser, e não o inverso como sugere a expressão «ser no mundo», isto é, ser situado ou colocado no mundo. E ser tem, obviamente – o que Heidegger não esclarece - o sentido de o grande Ente, isto é, a essência geral e universal como, por exemplo, o «Eu» em Kant, portador do espaço e do tempo, e gerador dos objectos materiais que são percepções objectivas suas, ou a «Ideia absoluta» de Hegel, isto é, Deus que, ora está em si como Espírito puro, ora devém transformado em árvores e natureza biofísica ou em humanidade, espírito de cada povo, formas de Estado, religião, etc. 

 

 

Acresce a isto que «mundo» não é, na terminologia heidegeriana, uma região de entes (uma planície com árvores e campos de trigo, um planeta com continentes e oceanos, uma ou várias galáxias) independente do sujeito mas sim uma parte do ser humano, uma ponte, uma abertura entre o sujeito humano (o ser-aí, o Dasein) e os objectos situados no espaço à sua volta (o ser diante dos olhos).

 

«O "mundo" não é ontologicamente uma determinação de aqueles entes que o "ser aí", por essência, não é, mas um carácter do próprio «ser aí» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 77, Fondo de Cultura Económica).

 

 

Só o homem tem mundo. Os animais e as plantas não têm mundo. Assim o mundo é uma correlação entre substâncias - a substância do «eu» Da-sein e as substâncias exteriores como montanha, planície, rebanho de ovelhas, casas, nuvens, rios, etc - e não uma colecção de substâncias.

 

«A analítica existenciária do "ser aí" tem por tema directivo no seu estado preparatório a constituição fundamental de este ente, o "ser no mundo". (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 147, Fondo de Cultura Económica).

 

«O "ser junto" ao mundo, no sentido de absorver-se no mundo, sentido que haverá que interpretar de modo ainda melhor, é um existenciário fundado no ser em. (...)

«O "ser junto" ao mundo em sentido existenciário não significa nunca nada de semelhante ao "ser diante dos olhos junto" às coisas que vêm a estar diante dentro do mundo. Não há nada semelhante a uma "contiguidade" de um ente chamado "ser aí" a outro ente chamado "mundo". (pag.67)

 

A contradição do pensamento heideggeriano é usar a expressão "junto de" para dizer, depois, que ela não significa "junto de", contiguidade. Esta desapropriação da linguagem dos seus referentes é uma técnica surrealista, uma subversão do sentido que transcende por vezes a fronteira do conhecimento filosófico. Heidegger considera inacessível a estrutura do "ser em", ou seja, não dá uma definição clara desta:

 

«O conhecimento (noein) do mundo ou o dizer (lógos) do "mundo" funciona, portanto, como o modo primário do "ser no mundo", sem que se conceba este "ser no mundo" enquanto tal. Esta "estrutura de ser" permanece ontologicamente inacessível, enquanto que onticamente se experimenta como a "relação" entre um ente (o mundo) e outro ente (a alma), e ao mesmo tempo se compreende imediatamente o ser apoiando-se ontologicamente nos entes intramundanos...» (Heidegger, El Ser y el Tiempo, pagina 71).

 

Afinal, aqui, Heidegger acaba por postular que o ser no mundo é incognoscível. Sabe o que não é mas não sabe o que é - numa espécie de ontologia ou teologia negativa, na linha dos místicos cristãos alemães. Não faz sentido dizer que «o ser junto a se funda no ser em» se não se define este último. 

 

 

 

«A LONJURA NÃO SE TOMA COMO DISTÃNCIA» E OUTRAS SUBVERSÕES DA LINGUAGEM

 

 

Uma das estratégias surrealistas de Heidegger em «O ser e o tempo» - porque se trata, de um livro com traços surrealistas coberto de uma camada de açúcar de racionalismo e vocabulário clássico- é levar o leitor a reflectir com uma dada terminologia e depois negar ou inverter essa terminologia usada. Eis um exemplo:

 

«O des-afastar não implica necessariamente uma expressa estimativa da lonjura de algo "à mão" em relação ao "ser aí". Antes de tudo, a lonjura não se toma nunca como distância. Se houvesse de se calcular o afastamento, far-se-ia relativamente a des-afastamentos em que se mantèm o "ser aí" quotidiano. »(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 121, Fondo de Cultura Económica).

 

A lonjura não se toma nunca como distância? É verdadeiramente ridículo. A lonjura interpreta-se sempre como distância, seja esta física, real, ou ideal, imaginada. A espacialização empírica corresponde, de certo modo, não mecânico, à espacialização mental e um dos traços comuns às duas é as noções de lonjura, de desafastamento, de aproximação.

 

«O ocupar um sítio tem de conceber-se como um des-afastar o "à mão" no mundo circundante dentro de um lugar previamente descoberto pelo "ver em torno". O "ser aí" compreende o seu "aqui" pelo "ali" do mundo circundante. O "aqui" não significa o "onde" de algo "diante dos olhos" mas o junto a um «quê» de um ser "desafastador" junto a, em uníssono com esse desafastamento.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 123, Fondo de Cultura Económica).

 

"O permitir que entes estejam frente a frente dentro do mundo, constitutivo do "ser no mundo", é um "dar espaço". Este dar espaço, que também chamamos "espacializar", é dar liberdade ao "à mão" na sua espacialidade. Este "espacializar" é o prévio descobrimento de uma possível totalidade de sítios determinada pela conformidade que torna possível a orientação fáctica do caso.»(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 127, Fondo de Cultura Económica).

 

Eis, pois, a ontologia desenhada com base na espacialidade: o "ser aí" está aqui  - espaço mais próximo, interior - é o «eu» de cada um, e tem fora de si ou diante de si os entes "à mão" (os automóveis, as casas, as ruas, as ferramentas, etc). E como o espacializar é obra do sujeito que cria o espaço temos um decalque da doutrina de Kant da estética transcendental, - o espaço é uma forma a priori do sujeito, não é real em si mesmo - com a diferença de que, em Kant, o espaço, enquanto depósito de formas, cria os objectos materiais e em Heidegger não cria mas separa os objectos materiais que estariam como que num estado de caos ou promiscuidade. E Heidegger prossegue:

 

«Nem o espaço está no sujeito, nem o mundo está no espaço. O espaço está, mais precisamente, "no mundo" , enquanto  o "ser no mundo", constitutivo do "ser aí" , abriu um espaço. O espaço não se encontra no sujeito, nem este contempla o mundo "como se" estivesse em um espaço, mas o "sujeito" ontologicamente bem compreendido, o "ser aí", é espacial.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 127, Fondo de Cultura Económica).

 

Ora este pensamento é incoerente: o ser-aí é o sujeito, é cada pessoa, e uma vez que a sua dimensão de ser no mundo abriu um espaço e o sujeito é espacial não tem sentido dizer que o espaço não está no sujeito: está, ao menos em parte, no sujeito.  Por outro lado, o mundo não está no espaço mas o espaço está no mundo. É, ao menos à primeira vista, o absurdo elevado ao estatuto de "grande filosofia". O espaço aparece como a forma estruturadora, o sopro de ar emitido pelo sujeito que levanta do chão o balão vazio dobrado sobre si mesmo que é o mundo e faz aparecer os entes deste, como pseudópodes de um balão não esférico, diferenciados e distantes entre si.  Eis um exemplo da retórica sofística de Heidegger:

 

«No fenómeno do espaço não pode encontrar-se nem a única determinação ontológica do ser dos entes intramundanos, nem sequer a primária. Ainda menos constitui o fenómeno do mundo. O espaço unicamente pode conceber-se retrocedendo para o mundo. »(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 129, Fondo de Cultura Económica).

 

O mundo é ontologicamente anterior ao espaço - é a tese de Heidegger. Imaginemos que casa, esfera, montanha são seres intramundanos primordiais. São, primitivamente, isentos de espaço, na visão heideggeriana. Mas como poderiam sê-lo, se não forem mónadas, isto é, pontos sem localização? As formas implicam espaço, não são anteriores a este. Logo, não poderia existir um mundo feito de objectos, sem espaço.

 

Outro exemplo da subversão da terminologia filosófica  que Heidegger leva a cabo - legítima, até certo ponto - é o de interpretar o termo fenómeno como númeno ou estrutura existenciária, oculta e profunda, que os sentidos e o realismo natural não conseguem apreender  :

 

«"Fenómeno" em sentido definiu-se formalmente assim: o que se mostra como ser e estrutura do ser.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 76, Fondo de Cultura Económica).

«A forma de estar diante do ser e das suas estruturas no modo de fenómeno tem de começar por ser arrancada aos objectos da fenomenologia. Portanto o ponto de partida da análise tal como o acesso ao fenómeno e a passagem através dos encobrimentos dominantes exigem ser assegurados sob um ponto de vista metódico. Na ideia de apreensão e explanação "intuitiva" e "original" dos fenómenos está implícito o contrário da ingenuidade de uma acidental "visão" "directa"  e irreflexiva.» (Martin Heidegger, ibid, pag. 47; o destaque a bold é posto por mim).

 

A INTUIÇÃO E O PENSAMENTO SÃO DERIVADOS LONGÍNQUOS DO COMPREENDER?

 

Heidegger abusa das roupagens barrocas de uma retórica sofística, isto é, enganosa. Sustenta que o compreender é o existenciário -o alicerce  oculto mais fundo - do "ser no mundo" e que consiste no "estado de aberto", isto é, de correlação entre o sujeito e outros entes:

 

«Posto que o compreender e a interpretação constituem a estrutura existenciária do "ser aí" , tem de conceber-se o sentido como a armação existenciário-formal do "estado de aberto" inerente ao compreender.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 170, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

«"Intuição" e "pensamento" são ambos derivados já longínquos do compreender. ». (ibid, pag 165)

 

Eis uma contradição flagrante: como pode o compreender, que implica sempre pensamento e intuição sensível-inteligível, estar isento destes que seriam «derivados longínquos» daquele? Heidegger não explica como pode o compreender não incluir pensamento nem intuição. É surrealismo puro: compreender... sem pensar nem intuir.

 

 

O COMPREENDER É UM "VER" E... ESTE FUNDA-SE NO COMPREENDER?

 

 

Em passagens de "O Ser e o Tempo" Heidegger identifica o compreender com o "ver":

 

«Em seu carácter de projecção, o compreender constitui existenciariamente aquilo que chamamos o "ver do "ser aí". (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 164, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Mas, em outras passagens, o "ver" aparece fundado no compreender, derivado de este:

 

«Mostrando como todo o "ver" se funda primariamente no compreender - e o "ver em torno" do "cuidar de" é o compreender no sentido do que se chama "compreender do que se trata" - despoja-se o puro intuir da sua primazia, que responde noeticamente à tradicional primazia do "diante dos olhos" (...) Também a "intuição eidética" da fenomenologia se funda no compreender existenciário. Sobre esta forma do ver só cabe decidir depois de ter obtido os conceitos explícitos de ser e estrutura do ser, que são as únicas coisas que podem chegar a ser fenómenos em sentido fenomenológico. »(Heidegger, ibid, pag. 165).

 

Uma coisa é "ser" algo, outra é "fundar-se em" esse algo. Um filho não é o seu pai: funda-se, geneticamente, no seu pai. Heidegger oscila: o "ver" ora é um compreender, ora não é mas funda-se neste.

 

O SENTIDO É POSTERIOR AO COMPREENDER?

 

Heidegger sustentou que o sentido é posterior ao compreender e sustentou o contrário disso:

 

«Quando os entes intramundanos são descobertos ao mesmo tempo que o ser do "ser aí", quer dizer, chegaram a ser compreendidos, dizemos que têm sentido. Mas o compreendido não é, tomadas as coisas com rigor, o sentido, mas os entes e o ser. Sentido é aquilo em que se apoia o "estado de compreensível" de algo. O articulável no abrir compreensor é o que chamamos sentido.»(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 169, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Neste fragmento, Heidegger teoriza que os entes e o ser podem ser compreendidos mas isso não implica descobrir sentido ou haver neles sentido. Questão: compreender não será atribuir sentido? E na frase seguinte estabelece o paradoxo: o "estado de compreensível", isto é, um dos polos do acto de compreensão repousa no sentido. Este seria, pois, prévio à compreensão e não posterior a ela. São estas guinadas teóricas incoerentes, - entre um sentido ou nexo objectivo das coisas, anterior ao pensar, e um sentido subjectivo, interpretativo, distinção que Heidegger não faz - blindadas num discurso difícil, que passam despercebidas ao grande público e à canalha filosófica institucional (os licenciados, os mestres e os doutores que carecem de pensamento profundo mas não de vaidade..).

 

O PROJECTAR DO COMPREENDER GERA OS ENTES INTRAMUNDANOS?

 

A obscuridade heideggeriana na ontologia atravessa «O ser e o tempo». Heidegger tem derivas idealistas (redução do mundo ao sujeito) no meio da teoria fenomenológica da intercorporeidade (o eu e os entes externos são coetâneos e indissociáveis):

 

«No projectar do compreender está aberta a possibilidade dos entes. O carácter de possibilidade responde em todos os casos à forma de ser dos entes compreendidos. Os entes intramundanos são projectados sem excepção sobre o fundo do mundo, isto é, sobre um todo de significação a cujas relações de referência se fixou previamente o «curar de » («cuidar de») enquanto "ser no mundo". (Heidegger, ibid, pag. 169; o bold é colocado por mim)

 

Quem projecta os entes intramundanos? O ser-aí ? O ser ? Ou eles mesmos, os entes? Heidegger não esclarece.

 

A SUPOSTA PROVA DA EXISTÊNCIA DE UM MUNDO "FORA DE MIM" PELO TEMPO, ATRIBUÍDA A KANT

Heidegger interpreta erroneamente Kant ao sustentar que este faz do tempo, uma forma a priori da sensibilidade, uma dimensão subjectiva, a alavanca da prova da existência de um mundo real exterior:

 

«O tempo é quem dá o ponto de apoio para o salto demonstrativo ao "fora de mim".».»(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 225, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Ora Kant nega isso:

«Não querendo considerar o espaço e o tempo formas objectivas de todas as coisas, resta apenas convertê-las em formas subjectivas do nosso modo de intuição, tanto externa como interna; modo que se denomina sensível, porque não é originário, quer dizer, não é um modo de intuição tal que por ele nos seja dada a própria existência do objecto da intuição (modo que se nos afigura só poder pertencer ao Ser supremo)..» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag. 86, Fundação Calouste Gulbenkian; o bold é colocado por mim).

 

Em Kant, o tempo é apenas idealidade transcendental, fluxo mutável de aparências e fenómenos, sentido interno, sucessão, duração e simultaneidade. Ver o nascer e o põr do sol no tempo de doze horas, ver um rio a correr durante uma hora ou todos os dias não prova que sol, céu, rio e demais objectos materiais existam fora da nossa mente. Ao contrário do que Heidegger diz, em Kant o tempo não prova a existência de mundo exterior ao ser humano.

 

Heidegger foi um filósofo em que o talento elevado se misturou com charlatanismo retórico que não resiste a uma análise cuidada da sua teoria. Bertrand Russell e a filosofia analítica não foram capazes de fazer esta crítica a Heidegger porque viveram sempre no fascínio do paradoxo e careceram de alguma visualização intelectual ontológica.

 

 

 

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