Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013
Confusões de José Reis sobre ser e ver em Kant, Hegel e Heidegger

No seu livro «Nova Filosofia», publicado em 1990, José Reis, um catedrático de filosofia da universidade de Coimbra, produz um vórtice de confusão sobre o que são ser e ver nas doutrinas de Kant, Hegel, Heidegger e outros filósofos. Aferrando-se ao pressuposto idealista de que o ver do sujeito tem a primazia sobre o ser dos objectos físicos exteriores, Reis revela-se incapaz de perceber, verdadeiramente, o ponto de vista de alguns filósofos consagrados como Kant e Hegel.

 

Uma tese basilar de Reis, de recorte fenomenológico, decalcada de «O ser e o nada» de Sartre, é a de que não há conhecimento.

 

«E agora sim, se não há conhecimento e se, como é óbvio, também não o havia ao princípio, como surgiu ele? Se ao princípio não havia nem sujeito nem objecto, não havia nem o ver de um lado nem o ser para ver do outro, antes só havia o ser já visto (que, por ser já visto, recordemo-lo, dispensa o ver) como surgiram eles? É o problema: o problema da origem do conhecimento, com toda a história subsequente.» (José Reis, Nova Filosofia, pag 169, Edições Afrontamento, Porto).

 

Sustentar que o conhecimento não existe porque não há a dualidade sujeito-objecto é dizer:

A) Que havia ou há o autoconhecimento instintivo,. que não admite dúvida, por intuição.

B) Ou, em alternativa,  que há apenas as coisas, desaparecendo o sujeito. Esta é, explicitamente, a posição de José Reis.

 

É, numa certa interpretação, a tese de Parménides de que «ser e pensar são um e o mesmo», o pensamento é o autoconhecimento do ser. Isto é, no fundo, a tese de Heidegger de que o conhecimento é a desocultação do ser, ser que vive em grande parte dentro do ser-aí ou consciência individual de cada homem. José Reis não parece sublinhar a paternidade heideggeriana desta tese que ele mesmo veicula.

 

Mas enquanto Heidegger mantem como fontes de investigação o passado e o futuro, Reis reduz o ser a uma mera percepção-inteleção actual (nem sequer existe o «eu») e ao respectivo referente visível (as coisas: a casa, o automóvel, etc) no momento presente, suprimindo o «ser para ver», a metafísica, o prescrutar a transcendência ou simplesmente o desconhecido:

 

«O ser é já visto, não só sempre mas também de si mesmo, e, não há, em absoluto, mais ver nenhum. (...) Quando se tiver percebido - justamente através dessa fórmula - que não havendo mais nenhum ser para ver (quer no tempo, quer de si mesmo) também não há mais ver nenhum, será claro que tudo o que há é tão-simplesmente o ser e que podemos, que podemos, que devemos, pura e simplesmente varrer o ver do nosso vocabulário.  Se se quiser, e entretanto, substitua-se o ver por haver; embora nem sempre dê frases particularmente elegantes (sobretudo se se mantèm o sujeito do ver: eu vejo a porta= eu há a porta), poderá ajudar-nos a compreender o que há.

«Não desapareceu tudo portanto. Só desapareceu o para ver e consequentemente o ver, do ser para ver.» (José Reis, Nova filosofia, pag 128, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Temos, pois, uma ontologia instantaneísta actualista: tudo o que existe está no agora, visível e palpável. Nem Deus cabe nisto. Nem a consciência humana geradora do mundo material, como no idealismo de Berkeley, Kant e outros, subsiste. É o materialismo do instante presente.

 

 

 

UMA INCOMPREENSÃO SOBRE A REVOLUÇÃO KANTIANA NA GNOSIOLOGIA

 

Sobre Kant, José Reis escreveu, após distinguir, sem exemplificar, númenos de fenómenos:

 

«A representação foi pois, historicamente, o grande problema do conhecimento. Já que este último, no seu essencial, isto é, no ver e no ser para ver, é uma impossibilidade que em si nada tem a ver com a representação, poderia sem dúvida chegar-se à sua destruição sem se passar por esta representação. Mas isso é o reino dos possíveis, não é o real; o que é facto é que foi pela representação que tal aconteceu: foi por ela que em Descartes se descobriu o ver e foi por ela que em Kant se descobriu o ser como o absolutamente outro.» (...)

«E então o nosso problema agora é este: onde está a revolução kantiana? Já o dissemos. Em ter descoberto o ser como o absolutamente outro.» (José Reis, Nova Filosofia, páginas 203-204, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Tomemos o ser no seu sentido mais plenamente usado em filosofia: essência permanente, principial e eterna. Note-se que Reis fala no "ser" sem o definir claramente. Chama-se a isto vagueza, imprecisão conceptual.

 

 É um erro dizer que «a revolução kantiana consiste em ter descoberto o ser como absolutamente outro». É justamente o inverso que sucedeu: a revolução gnosiológica de Kant consistiu em reduzir o universo das coisas materiais a mera criação da mente humana, a um conjunto de fenómenos (montanhas, mesas, rios, animais, corpos humanos, etc) interiores à vastíssima mente humana. O ser permanente e eterno para Kant é dual: por um lado, é os númenos; e por outro lado, é o espírito de cada homem composto de sensibilidade (onde se formam os fenómenos materiais), de entendimento (onde se formam os conceitos e juízos de base empírica como, por exemplo, o conceito de casa, ou de base matemática a priori, como, por exemplo, o juízo "Dois mais sete é igual a nove") e de razão transcendental (onde se formam as ideias de Deus, liberdade, alma imortal e de outros númenos).

 

Por conseguinte,  Kant descobriu e postulou, na linha do idealista George Berkeley, o homem como inventor e criador, dentro da sua imensa mente, da matéria, do mundo material - idealismo. Logo, o ser para Kant não é absolutamente outro: se exceptuarmos os númenos, o ser para Kant é o sujeito cognoscente em si mesmo, pois não é posto ou criado por Deus, mas é autosubsistente e nele, no seu campo perceptivo chamado sensibilidade, se geram as paisagens urbanas e rurais ou marítimas e os entes visíveis.

 

NA TEORIA DE KANT, O HOMEM CRIA OS FENÓMENOS, NÃO OS RECEBE

 

José Reis supõe erroneamente que, na doutrina de Kant, o homem recebe os fenómenos, como imagem distorcida, dos númenos. Escreve:

 

«A substância, em Kant, não é como ainda em Locke, uma coisa criada por Deus à imagem e semelhança da Sua ideia, uma coisa exterior à ideia que dela tem Deus, mas, ao contrário, há só a ideia. Criar, com efeito, é ver originariamente.  Por isso, a substância pelo seu lado positivo (nós só a pensamos de forma vazia) se chama númeno. E por isso o que nós conhecemos se chama fenómeno, aquilo que nos aparece: nós, ao contrário de Deus, cujo ver cria as coisas, só as recebemos.  Para Deus, não pode haver coisas: aquilo que, aparecendo-lhe, lhe seria transcendente.»(José Reis, Nova Filosofia, pag 201)

 

Ao contrário do que sustenta José Reis, para Kant, não há só a ideia, não há só uma ideia: Deus. Há vários númenos ou ideias reais, objectivas mas incognoscíveis: Deus, almas racionais, liberdade, mundo como um todo. Reis atribui a Kant a tese de que «o ver de Deus cria as coisas». É um erro. Para Kant, que nisto é distinto de Hegel e de Berkeley, Deus não criou as coisas, os céus, os mares, as árvores, os animais, o corpo do homem. Estas coisas são criações do sujeito cognoscente, de cada espírito humano, dotado de formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo),  de fornas a priori do entendimento (categorias e juízos puros),  e de ideias da razão, metafísicas, livres.

Sobre o espaço, por exemplo, Kant sustentou que ele é criação subjectiva do sujeito homem e não de Deus:

 

«a. O espaço não representa qualquer propriedade das coisas em si, nem essas coisas nas suas relações recíprocas; quer dizer que não é nenhuma determinação das coisas inerentes aos próprios objectos e que permaneça mesmo abstraindo de todas as condições subjectivas da intuição. (...)

« b. o espaço não é mais do que a forma de todos os fenómenos dos sentidos externos, isto é, a condição subjectiva da sensibilidade, única que permite a intuição externa.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 67, Fundação Calouste Gulbenkian)

 

 

Ademais, o texto de Reis acima sofre de incoerência: Deus «cria as coisas ao ver originariamente», mas para Ele, «não há coisas porque lhe seriam transcendentes. 

 

KANT ERA REALISTA?

 

José Reis considera erroneamente Kant um realista:

 

«Significa, em primeiro lugar, que Kant continua um realista, e um realista que não vê nada do problema cartesiano, porque nem a absoluta alteridade do ser (para além da sua simples transcendência) o leva a duvidar da sua existência.» (José Reis, Nova Filosofia, pag. 204, Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Um realista postula que a matéria é exterior aos espíritos humanos e subsistente por si mesma, seja criada por deuses ou não. Kant, que se intitulou «realista empírico» que é o mesmo que «idealista transcendental»,  negou a realidade da matéria em si mesma:

 

«Deve, portanto, haver certamente algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno a que chamamos matéria. Porém, na qualidade de fenómeno, não está fora de nós, mas simplesmente em nós, como um pensamento» (Kant, Crítica ds Razão Pura, pagina 362, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

Kant é idealista: a matéria é como pensamento, isto é mera sensação. Kant duvida do ser material como duvida do ser espiritual transcendente, o númeno. Foi, portanto, mais longe que Descartes. Este colocou a res extensa - a forma espacial, sem cor, nem peso, nem cheiro, nem densidade - fora da mente do sujeito ou res cogitans e, nessa medida ainda figura no campo do realismo, quase idealista, mas Kant colocou dentro da res cogitans a res extensa. Reis é que não percebeu, deveras, a ontognosiologia idealista de Kant.

 

 

HEGEL DESTRUIU O SER ABSOLUTAMENTE OUTRO?

 

José Reis escreveu ainda sobre a doutrina de Hegel:


 

«§ 71  Hegel


 

«E estamos em Hegel. Que levando a sério o ser absolutamente outro de Kant, o destruiu. E o destruiu, sem dúvida, em nome do ver: é porque ele é nada para nós que ele é nada. Mas, precisamente, esse ver é só suposto, não é tematizado e em consequência problematizado. O problema em Hegel, tal como em Kant, é só o da recepção-alteração do ser. É porque esse ser, ao ser recebido em nós, se altera radicalmente, que ele é nada. (...) O ser não se destrói pois porque pura e simplesmente não se vê - o ver nem se tematiza -  mas porque, tendo de ser recebido, é em absoluto alterado. (...)»

 

«Hegel, como pós-kantiano que é, passa pois também completamente ao lado do verdadeiro problema do conhecimento. O seu sistema, por mais monumental que seja, continua a ser um desvio. Se Hegel não se desviasse, se tematizasse o vere prestasse atenção ao que efectivamente se vê (para só nos referirmos ao problema do conhecimento) nem sequer daria o primeiro passo.» (José Reis, Nova Filosofia, pag. 205, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Há diversos erros capitais neste texto de Reis. Começa por não definir o que é para Hegel, o ser.

 

Ora este termo tem dois sentidos para o grande filósofo alemão: ser-existência que na sua pureza absoluta é igual ao nada, porque apenas é, sem qualidades nenhumas; ser-essência universal ou ideia absoluta em Hegel -ou Eu Absoluto, não humano - que é prévio ao ver humano e se desdobra em três fases, a do ser em si (Deus antes de criar o universo, o espaço e o tempo) , a do ser fora de si (panteísmo: Deus transformado em astros,montanhas, plantas e animais, ou seja, em natureza biofísica) e a do ser para si (panenteísmo: Deus renascido em humanidade que progride em direção à liberdade de espírito. Nada disto José Reis compreendeu.

 

 

A frase «O ser não se destrói pois porque pura e simplesmente não se vê» é uma adulteração do pensamento de Hegel: a humanidade - os antigos aristocratas e escravos  gregos e romanos, os senhores feudais e os servos da Idade Média, os artífices da Renascença, o proletariado moderno - é o ser para si, o ser que volta a si, e é e foi visível e tangível.

 

A frase «(o ser) tendo de ser recebido, é em absoluto alterado» é incompreensível no quadro da doutrina de Hegel. Recebido por quem, se a própria humanidade, o sujeito cognoscente é ser, é uma parte do ser?

 

Hegel escreveu:

«Deus é a Ideia absoluta da razão, não um ser-posto, fantasia, não simplesmente algo de possível; é Ideia necessária não posta por um pensar estranho.

«O conhecimento de Deus é imediato e mediato»  ( Georg Friederich Hegel, Propedêutica Filosófica, pag 235, Edições 70, Lisboa) .

 

«Deus é 1. o ser em todo o ser, simplesmente primeiro e imediato. Este ser é apenas a abstração de toda a determinidade, o indeterminado, o imóvel (Hegel, ibid, pag. 336).

 

«A natureza vegetal é o começo do processo individual ou subjectivo de autoconservação ou efectivamente orgânico que, no entanto, não possui ainda a força plena da unidade individual, porque a planta, a qual é um indivíduo, possui apenas partes que podem, por seu turno, considerar-se como indivíduos independentes.» (Hegel, Propedêutica filosófica, pag 52, Edições 70; o destaque a bold ).

 

Nestes excertos de Hegel há a teoria realista do conhecimento, culminando 1800 anos de história das igrejas cristãs: a natureza vegetal é anterior ao homem, Deus não é uma fantasia, uma possibilidade, é uma realidade anterior aos homens e geradora destes que são incarnação de Deus, na terceira fase. E neste ponto Hegel é radicalmente diferente de Kant visto que este duvida da existência de Deus que rotula de númeno, ser incognoscível. Como pode José Reis dizer que Hegel, que lhe é superior intelectualmente, passou ao lado do verdadeiro problema do conhecimento? Em Hegel, o ser suplanta o ver e este é apenas uma dimensão do ser. Isto é uma ontologia e uma teoria do conhecimento: uma ontognosiologia, a que Hegel chama «idealismo absoluto» mas que, em rigor, é um ideal-realismo.

 

HEIDEGGER QUIS PENSAR O SER COMO NADA OU RECONHECEU O PODER DE O SER NADIFICAR?

 

Sobre Heidegger escreve José Reis :

 

 «Heidegger quis e bem pensar o ser como nada, porque quis pensar o ser antes do ver. E levado por essa evidência que conhecer é ver o que antes não se via, manteve, com uma consciência absolutamente tranquila, apesar de se tratar de um nada, o seu projecto até ao fim». (José Reis, Nova Filosofia, pag. 213; o destaque a negrito é posto por mim ).

 

Não é exacto que Heidegger pensasse o ser como nada. O ser tem uma estrutura, tem regras próprias que impõe ao homem:

 

«O ser é a protecção que guarda o homem em sua essência ex-sistente, de tal maneira, para a sua verdade, que ela instala a ex-sistência na linguagem. É por isso que a linguagem é particularmente a casa do ser e a habitação do ser humano.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, pag. 118, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa). 

 

Se o ser é uma protecção do homem não é um nada, obviamente. E se vive na linguagem como sua casa é porque é o conjunto de referentes da linguagem ou, pelo  menos, as regras internas linguísticas. O nadificar ou reduzir a nada, próprio de um momento da dialética, exerce-se no seio do ser mas não é todo o ser. Escreveu Heidegger:

 

 

«O nadificar desdobra o seu ser no ser, e de maneira alguma, no ser aí, na medida em que este ser aí é pensado como a subjectividade do ego cogito(...)

«O nadificar no ser é essência daquilo que eu nomeio o nada. Por isso, porque pensa o ser, o pensar pensa o nada.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, pag. 116-117, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa; o destaque a negrito é posto por mim).

 

    

Os grandes filósofos são raros nas cátedras universitárias de hoje. E José Reis não é um grande filósofo, sem embargo de ser uma inteligência acima da média entre os académicos. A grande maioria das cátedras são dominadas por indivíduos medianos, razoavelmente ou mesmo altamente eruditos, mas intelectualmente confusos, em maior ou menor grau, com apreciável poder retórico. Na área da filosofia, pode dizer-se que as universidades são inimigas da grande filosofia, da verdade, pois os absurdos, as deturpações do pensamento original de certos filósofos e os lugares-comuns são frequentes nas teses de doutoramento e nas lições de cátedra.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 23:25
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 3 de Junho de 2013
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (último do 3º período, de 2013)

No final do ano lectivo de 2012-2013, eis um teste de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal que evita as perguntas de resposta de escolha múltipla com um "X" que criam, em regra, inúmeras injustiças na avaliação dos alunos, prejudicando muitos dos que sabem filosofar.  A anti filosofia ou sub filosofia denominada «filosofia analítica», com distorsões frequentes no plano lógico e um grande vazio ontológico-metafísico, impera no ensino secundário e quase impera no ensino universitário.

 

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B

      Professor: Francisco Queiroz

28 de Maio de 2013

I

 

“A obra de arte é um heterocosmos. Platão estabeleceu seis degraus na dialética de amar o Belo. A teoria da luz e da cor em Hegel é realismo crítico»
1) Explique concretamente este texto.

 

II

 

 

A) As três fases da Ideia Absoluta na História segundo Hegel e as três modalidades do sublime segundo Kant.
B)  Realismo e irrealismo estético, objectivismo e subjectivismo estéticos.

 

III

 

3)Disserte sobre os seguintes temas:

 

«O conteúdo e a forma na obra de arte, segundo Hegel. O que é arte (pondere exemplos como: o urinol de Marcel Duchamp intitulado «A fonte», a pedra extraída da ribeira e posta na sala de museu por Alberto Carneiro, os quadros surrealistas, etc) a função de catarse da obra de arte,  a arte pela arte, o princípio hermético macrocosmos-microcosmos.

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE

(COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A obra de arte é um outro (hetero, em grego) mundo organizado (cosmos, em grego). Se pintarmos um quadro surrealista, em que a figura central é um tronco de árvore com uma cabeça de homem, estamos a criar um outro mundo, imaginário, plasmado na tela. (VALE DOIS VALORES). Na sua dialéctica ascensional para conhecer e amar o Belo, Platão apontou os seguintes procedimentos: começar por amar um só corpo belo, depois amar vários corpos belos, em seguida amar a beleza das almas, depois amar a beleza das leis e dos costumes, amar então as ciências e por último amar o Belo em Si, isto é, o arquétipo (VALE DOIS VALORES).  Hegel sustentou que a luz do sol é incolor e que forma as diferentes cores ao embater nas diferentes escuridades, isto é, zonas da matéria que absorvem a luz em graus diferentes. Se vemos a cor do céu como azul é porque a luz solar ao embater na atmosfera se dispersa e torna claro o céu que em si mesmo é negro. Isto é realisno crítico, doutrina segundo a qual há o mundo de matéria exterior a nós que não é tal como os sentidos no-lo mostram. (VALE DOIS VALORES).

 

2) A) Para Hegel, a ideia absoluta ou Deus desenvolve-se em três fases: a primeira é o Ser em si, ou Deus espírito, sozinho, antes de criar o universo, o espaço, o tempo, a matéria e pode equiparar-se ao sublime nobre em Kant, isto é, um ente grandioso e simples, que suscita espiritualidade; a segunda é o Ser fora de Si ou transformação de Deus no seu oposto (alienação), a matéria física, em astros, céus, montanhas, oceanos, vulcões, plantas e animais e pode equiparar-se ao sublime terrível - algo de grandioso que suscita horror ou medo - como no caso de um vulcão expelindo lava ou de um precipício imenso; a terceira é o Ser para si ou transformação de Deus em humanidade que vai progredindo lentamente em direcção à liberdade - desde o mundo oriental, em que só um homem é livre, até ao cristianismo reformado por Lutero e completado pela revolução francesa de 1789, em que todos os homens são livres - que é o fim da história, fase que pode comparar-se ao sublime magnífico, em Kant - algo de grandioso que integra múltiplas riquezas materiais como o palácio de Versailles ou a Capela Sistina (VALE QUATRO VALORES; HÁ OUTRAS MANEIRAS DE RELACIONAR).

 

2) B) O realismo estético assegura que o belo e o feio existem fora das mentes humanas, ou num mundo de arquétipos no caso do belo (platonismo) ou nos próprios objectos físicos (aristotelismo). O irrealismo estético assevera que o belo e o feio existem só na imaginação e na conceptualização da mente humana. Ambos podem ser objectivistas - o belo e o feio são percebidos do mesmo modo por todas as pessoas; o objectivismo pode ser extra anima ou intra anima - e ambos podem ser subjectivistas - o belo e o feio variam de pessoa a pessoa. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) Segundo Hegel, o conteúdo de uma obra de arte é a ideia e o sentimento que suscita nos que a contemplam. A forma é os materiais empregues na obra de arte - o mármore da estátua, a tela do quadro, etc - e os contornos da figura. (VALE DOIS VALORES). A arte é uma actividade de criação que visa suscitar a sensação do belo, ou por antítese, a sensação do feio. As fronteiras entre a arte e a indústria esbatem-se como no caso do urinol de Duchamp exposto num museu - só o título «A fonte» eleva o urinol à categoria de arte. As fronteiras entre a arte e a natureza biofísica esbatem-se como no caso da pedra retirada por Alberto Carneiro de uma ribeira e colocada numa sala de museu enquanto a exposição durar - a pedra só é arte naquele contexto da sala.(VALE DOIS VALORES). A função de catarse da obra de arte é o facto de ela permitir soltar as emoções e sentimentos recalcados no actor ou no espectador e purificar as almas. Exemplo: há espectadores que choram ao ver as cenas da flagelação do filme «A paixão de Cristo». (VALE UM VALOR). A arte pela arte é a corrente que afirma que a obra de arte não tem fins morais, políticos ou religiosos mas apenas busca suscitar a emoção estética (VALE UM VALOR). O princípio hermético macrocosmo-microcosmo estabelece que o que está em cima, o grande universo, espelha-se no que está em baixo, o pequeno universo. Por exemplo: a catedral medieval (microcosmos) espelha na sua planta com o transepto como os braços horizontais de uma cruz o corpo cósmico (idealizado) de Cristo crucificado com uma gigantesca dimensão (macrocosmos), que, supostamente, atravessaria o universo (VALE UM VALOR).

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:40
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (Novembro de 2012)

Eis mais um teste de filosofia para o 10º ano de Filosofia em Portugal. Estou entre  os professores que não cedem à vaga simplista das perguntas de escolha múltipla que os adeptos da intelectualmente pobre filosofia analítica, lobby poderoso junto do Ministério da Educação e das Editoras, conseguiram impor no modelo de exames nacionais. Ensinamos conceitos, conteúdos aos alunos e não apenas regras da lógica, ossos sem carne a revesti-los. Produzimos, suscitamos  a relacionação dos conceitos, sem os complexos de «ensinar hstória da filosofia» que minam a impensante maioria dos professores de filosofia actuais.

  

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

30 de  Novembro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

 

 

 

I

 

«O ethos, o pathos e o logos são ingredientes do discurso retórico. A falácia ad hominem e a falácia do homem de palha não parecem recorrer à ideia da indução amplificante como o faz a falácia depois de por causa de. A tese relativista de que «o homem é a medida de todas as coisas», de Protágoras, não conduz necessariamente ao cepticismo

 

 

 

1) Explique, concretamente, este texto.

 

  

2) Relacione, justificando:

 

 

A) As quatro formas de Estado na história, segundo Hegel, e tese de que «o finito deve ser superado», em Hegel.

  

B) A astúcia da razão, em Hegel, e a lei dos dois aspectos da contradição.

 

 

C) Princípio do terceiro excluído e silogismo disjuntivo..

 

 

3) Disserte livremente sobre o seguinte tema:

 

 

«As diferenças entre o ser de Parménides, o ser em Hegel, e a substância, essência e acidente em Aristóteles

 

 

 

 

 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) O discurso retórico é uma construção linguística de bem falar mas nem sempre de bem pensar: por isso, importa distinguir entre a retórica falaciosa, enganosa, como Platão a entendia, e a retórica correcta,não falaciosa. O ethos é o carácter do orador (exemplo: «Toda a minha vida defendi a ecologia, denunciei as fábricas poluentes»), o pathos é o sentimento de paixão posto no discurso (exemplo: «Lutai! Não deixeis que vos tirem o que é vosso), o logos é a razão, o conteúdo racional do discurso (exemplo:«Em toda a coisa, está presente o uno e o múltiplo») (NOTA: ESTA FRASE VALE TRÊS VALORES). A falácia ad hominem é o erro de raciocínio que consiste em atacar pessoalmente o interlocutor em vez de atacar as suas ideias (exemplo: «Quando era jovem ele era militante da extrema-esquerda, fanático...»), a falácia do homem de palha é o vício de argumentação que consiste ao atribuir ao interlocutor posições que ele não defende (exemplo a respeito de um teórico que quer introduzir a acupunctura e a naturopatia nos hospitais públicos: «Ele quer acabar com os hospitais e a classe médica que receita químicos e faz cirurgias»). Nenhuma delas recorre à indução amplificante que é a generalização, em lei infalível, de alguns exemplos empíricos (exemplo: «Aplicamos a cura de beber água destilada em 1000 pessoas e todas melhoraram, logo beber um litro e meio ou dois de água destilada por dia melhora a saúde de todos os seres humanos»). Mas esta ideia é manejada na falácia depois de por causa de, que transforma dois fenómenos vizinhos por acidente numa «lei de causa-efeito necessária» (exemplo: «No domingo vi um gato preto e perdi 50 euros, hoje vi um gato preto e parti um farol da moto, logo ver gatos pretos dá azar». (NOTA: ESTA FRASE VALE TRÊS VALORES). O relativismo diz que a verdade e os valores variam de acordo com os homens de cada classe social, de cada sociedade, etnia, época mas isso não leva obrigatoriamente ao cepticismo, corrente que duvida de tudo ou de quase tudo (as percepções empíricas fornecem alguma verdade, no cepticismo antigo). (NOTA : ESTA FRASE VALE DOIS VALORES).

 

2 - A) As quatro formas de Estado, na fase do ser para si ou Deus incarnado em humanidade são, na teoria de Hegel: mundo oriental, em que só um homem é livre, o imperador, e todos são seus súbditos; mundo grego, em que só alguns homens são livres e há uma multidão de pequenos Estados com leis próprias; mundo romano, em que só alguns homens são livres e há uma lei única sobre um vasto império; mundo cristão reformado, em que todos os homens são livres, o que principiou com a revolta do monge Lutero em 1517 proclamando o direito de qualquer homem interpretar livremente a bíblia e culminou com a revolução francesa de 1789-1799 que instaurou a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A tese de Hegel de que «o finito deve ser superado», isto é, ultrapassado, exprime-se no facto de os Estados serem finitos e se sucederem uns aos outros: o Estado Oriental despótico cessou, vieram as democracias esclavagistas gregas, etc. (VALE TRÊS VALORES).

 

2- B) A astúcia da razão é a manipulação das paixões e dos raciocínios dos homens de Estado feita pela razão universal (Deus) para levar a cabo o seu plano. Exemplo: como a revolução francesa de 1789 imergia no caos, a razão universal escolheu um general ambicioso, Napoleão Bonaparte, para golpear as direitas monárquicas e as esquerdas republicanas e levar a França a invadir o resto da Europa espalhando os princípios do liberalismo. A lei dos dois aspectos diz que numa contradição (em rigor: numa contrariedade) há dois aspectos, em regra desiguais, o dominante e o dominado, que podem trocar de posição. Neste caso, o aspecto dominante é a Razão Universal e o dominado os homens de estado como Napoleão ou outros mas a Razão será sempre o polo dominante (VALE TRÊS VALORES). 

 

2- C) O princípio do terceiro excluído diz que uma qualidade ou um ente ou pertence ao grupo A ou ao grupo não A, excluindo terceira hipótese . O silogismo disjuntivo possui também uma disjunção que, em regra, não é a do terceiro excluído mas outra. Exemplo:

«Ou és filósofo de profissão ou és músico.

És músico.

Logo,não és filósofo». (VALE DOIS VALORES)

 

3) O ser de Parménides é uma essência una, eterna, imutável, homogénea, contínua, limitada, incriada, invisível, - simbolizada na esfera. O nascimento e a morte, as cores, o devir, são ilusões.«O ser é e o não ser não é» afirmou Parménides, rejeitando a dialética de Heráclito. «Ser e pensar são um e o mesmo» -dizia Parménides. Neste ponto, coincide com Hegel. Este, ao contrário de Parménides, apresentou o Ser em movimento formando uma tríade: tese, Ser em si ou Deus antes de criar o mundo; antítese, Ser fora de si ou Deus alienado em natureza biofísica (reinos vegetal, animal); síntese, Ser para si, ou Deus encarnado em humanidade e progredindo, através da moral, do direito, do Estado, da filosofia, em direção à liberdade de espírito, fim da . Em Aristóteles, o ser, isto é, o existir, o pertencer a algo, participa nas essências ou formas eternas - que não estão no inexistente mundo inteligível de Platão mas sim nos objectos materiais, nas substâncias, que são um composto formado da forma da espécie (eidos) e da matéria-prima universal (hyle). A substância é a essência individualizada, isto é, a essência mais os acidentes, isto é, aspectos acessórios e transitórios das coisas (exemplo: Rir e chorar são acidentes na essência do rosto humano que, em regra, se mantém sério). Logo, só em Hegel o ser sai fora de si. (A RESPOSTA VALE QUATRO VALORES: HÁ OUTRAS RESPOSTAS VÁLIDAS POSSÍVEIS).

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:50
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012
Estética de Hegel: a luz, a cor e a pintura no quadro das artes

 

A Estética, de Hegel, é um livro de um grande pensador, atento àos aspectos multiformes das artes plásticas (pintura, escultura, arquitectura) e não plásticas (poesia, teatro, música, dança). Hegel escreveu na sua teoria da cor e da luz incolor:

 

«Com efeito, a luz como dissemos não existe, senão em relação a outra coisa diferente dela, e particularmente à treva. Mas nesta relação os dois princípios, longe de se oporem um ao outro, formam uma unidade, uma combinação de luz e treva. A luz, assim toldada e obscurecida, mas penetrando e iluminando, por sua vez, a treva, forma o princípio da cor, que é o material próprio da pintura.A luz em si é incolor;é a indeterminação pura da identidade consigo mesma; a cor que, em relação à luz, é já qualquer coisa de relativamente escuro, e, por conseguinte, diferente da luz, é um obscurecimento a que se associa o princípio da luz, para formar uma unidade, e é ter-se uma falsa e péssima ideia da luz o considerá-la como composta de diferentes cores, quer dizer de diferentes escuridades.»

 

(Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 42-43, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é de minha autoria)

  

Assim, Hegel opõe-se à ideia de que a luz (branca) se decompõe, ao refractar-se num prisma, nas sete cores do arco-íris. Estas seriam pois externas à luz, brotariam das diferentes escuridades das diversas zonas do prisma.  

 

Prossegue Hegel:

 

«As formas, as distâncias, a delimitação, os contornos, enfim todas as relações espaciais e todos os diferentes modos de manifestação no espaço, são produzidos na pintura pela cor, cujo princípio ideal está igualmente em condições de representar conteúdos ideais e permite traduzir, com o auxílio de oposições mais ou menos profundas, de delicadezas e transições várias, os mais ligeiros matizes dos objectos representados. O que podemos assim obter, graças à cor, é verdadeiramente admirável. Eis, por exemplo, dois homens totalmente diferentes: cada um representado pela consciência que tem de si prórprio e pelo seu organismo animal, uma totalidade espiritual e corporal, e todavia, toda esta diferença se reduz num quadro a simples diferenças de cores. Aqui termina uma cor, ali começa outra e, graças a isto, tudo surge ante a nossa vista: a forma, a distância, os jogos fisionómicos, a expressão, tudo o que cada homem tem de mais sensível e mais espiritual. E esta redução, dissemos já, não deve ser considerada como um expediente, como um defeito, mas antes pelo contrário: a pintura negligencia intencionalmente a terceira dimensão, para substituir a realidade puramente espacial pelo princípio mais elevado e mais rico da cor.» (...) (Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 42-43, Guimarães Editores, 1962)

 

Eis, no texto acima, duas teses extraordinariamente interessantes de Hegel: é a cor que produz as formas - a cor que estamos habituados a encarar como um conteúdo que preenche o espaço vazio da forma, já é, em si, uma forma; o princípio da cor substitui a representação tridimensional do espaço, sendo mais rico que esta, o que significa que a cor é porta de acesso ao mundo espiritual mais do que a forma trimidensional de uma estátua.

 

A PINTURA É A ARTE QUE MELHOR LIGA A INTERIORIDADE À EXTERIORIDADE

 

Hegel compara entre si, do ponto de vista da forma e do conteúdo, as diferentes artes:

 

«A primeira coisa a considerar e sobre a qual importa chamar a atenção é que a pintura restringe as três dimensões do espaço à superfície. A concentração total dessas dimensões seria representada por um ponto, o que significaria a supressão da justaposição e a instabilidade consecutiva desta supressão que corresponde a um ponto do tempo. Mas é somente na música que esta negação se encontra realizada de uma forma consequente. A pintura, pelo contrário, deixa subsistir o espacial, ao suprimir apenas uma das três dimensões, e ao fazer da superfície o elemento das suas representações. Esta redução das três dimensões às duas da superfície está implicada no princípio da interiorização que se não pode manifestar no espacial como interioridade senão reduzindo a totalidade exterior, em vez de a deixar subsistir na sua completa extensão. (...)»

«Já a escultura, em lugar de ser uma simples reprodução, imitativa da realidade natural, corporal, era uma criação do espírito exercendo-se sobre a natureza e eliminando, por esta razão, das suas figuras, tudo o que não correspondia ao conteúdo que se tratava de exprimir.  Entre as particularidades eliminadas pela escultura, a cor era uma delas, de modo que permanecia apenas a abstração da figura sensível. Na pintura sucede o contrário, porque ela tem por conteúdo a interioridade espiritual que não pode manifestar-se exteriormente senão como parecendo retirar-se do exterior para reentrar em si mesma

(Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 32-34, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).

 

A fina inteligência deste texto acima destaca que a música corresponde à ausência de espacialidade, tal como o ponto, ao passo que a pintura implica o espaço a duas dimensões. Enquanto a escultura é uma exterioridade, um fora de si, a pintura é um passar do exterior ao interior,  porque não é tridimensional e força a imaginar a realidade através de aparências.

A comparação entre música, pintura e escultura sugere-me a analogia com as três fases da Ideia Absoluta ou Deus concebidas por Hegel: a primeira, a fase do ser em si, ou Deus sozinho antes de criar o mundo, em que não há espaço nem tempo, poderia ser associada à música; a segunda, a fase do ser fora de si, ou Deus exteriorizado, alienado em natureza física e biofísica, em estrelas, montanhas, plantas e animais, seria simbolizada pela escultura; a terceira, a fase do ser para si, em que Deus encarna em humanidade a qual através do pensamento e da acção intenta volver a Deus espírito seria simbolizada pela pintura.

 

 

« Do ponto de vista da generalidade, existem diferenças entre as artes; têm umas um carácter mais ideal, são outras mais acessíveis à percepção exterior. As produções da escultura, por exemplo, são mais abstractas do que as da pintura; a poesia, os poemas épicos são, por um lado, dotados de menor vida exterior do que uma verdadeira representação dramática mas, por outro lado, ultrapassam a arte dramática graças ao seu conteúdo concreto...»

«Como todavia, é o espírito que realiza numa forma exterior, o conteúdo que tem um interesse intrínseco, cabe perguntar, também neste caso, qual seja o significado preciso da oposição entre o ideal e o natural. » (Hegel, Estética, o belo artístico ou o ideal, pag. 32, Guimarães editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O espírito a que o texto se refere é o espírito do mundo, ou seja, a ideia absoluta (Deus) incarnada em humanidade, a ideia absoluta na sua terceira fase, de ser para si. As outras duas fases anteriores são como já disse: o ser em si ou ideia absoluta, Deus antes de criar o universo, o espaço e o tempo; o ser fora de si, isto é, Deus alienado em natureza biofísico, transformado em astros, montanhas, planícies, minerais, vegetais e animais, à excepção do homem.

 

 

E prossegue Hegel:

 

«Assim, com efeito, a pintura não deve introduzir no seu domínio senão o que, contariamente à escultura, à poesia e à música, ela é capaz de representar mediante e através das figuras e das formas exteriores, quer dizer, a concentração do espírito, cuja expressão permanece inacessível à escultura, enquanto que a música é incapaz de dar uma concreta expressão exterior da interioridade e a própria poesia se limita a uma imagem imperfeita da forma sensível. A pintura, pelo contrário, está em condições de lançar uma ponte entre a interioridade e a exterioridade, de ligar um ao outro o interior e o exterior, de exprimir exteriormente a interioridade total. Portanto tem por conteúdo, tanto a vida da alma com toda a profundidade dos sentimentos que nela se agitam, como as particularidades vincadas dos caracteres e tudo o que é característico em geral; (...) todavia a particularidade específica deve  estar como que gravada, enraízada na fisionomia, e ser parte integrante da forma exterior.» (Hegel, Estética, Pintura e Música, pag 51, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Na obra de pintura, o conteúdo é o sentimento geral, o ideal universal, - tese - a forma são os traços e as cores do quadro, o exterior-antítese. A síntese é o carácter do indivíduo, a particularidade específica, misto de visível e de invisível, que se espelha nos traços do rosto, nas cores da figura.

 

 

 

 O VERMELHO É A COR MASCULINA DA REALEZA, O AZUL A COR FEMININA DA MATERNALIDADE

 

 

 

As cores exprimem o espírito, o ideal universal e o subjectivo particular.

 

«A cor comporta igualmente uma oposição do claro e do escuro que vão reagindo um contra o outro, reforçando-se ou aniquilando-se reciprocamente. Apesar da sua intensidade, o vermelho e o amarelo são em si mais claros que o azul. Isto diz respeito à própria natureza das diferentes cores que Goethe expôs com mestria. Efectivamente, no azul é o escuro que domina e só aparece como azul depois de ter atravessado um meio mais claro, mas não inteiramente transparente. O céu, por exemplo, é escuro, tanto mais escuro, quase negro, quanto mais nos elevamos; mas visto através de um meio transparente, embora perturbador, como é o do ar atmosférico das regiões mais baixas, parece azul, e tanto mais azul quanto o ar é menos transparente. No amarelo, pelo contrário, é o claro que age através dum meio nublado, mas que o deixa transparecer. O fumo, por exemplo, é um destes meios; quando olhamos através do fumo qualquer coisa negra que atrás dele se encontra, mas que ele deixa ainda transparecer, o fumo toma uma cor azulada; toma pelo contrário uma cor amarelada ou avermelhada, quando se encontra ante um meio claro. O vermelho em si é a cor real e concreta, resultando da interpenetração do azul e do amarelo que formam, por seu turno, um par de cores opostas. O verde pode igualmente ser considerado como o produto de uma combinação análoga, mas de uma combinação que não vai até à fusão total, até à formação de uma unidade concreta; resulta muito simplesmente de uma supressão das diferenças, que se traduz por uma neutralidade calma, saturada. Estas cores são as mais puras, as mais simples, as cores fundamentais. »

 

«Há um simbolismo das cores. Devemos procurar um sentido simbólico na maneira como as aplicavam os antigos pintores, sobretudo no emprego do azul e do vermelho. O azul, pelo facto de ter por princípio o escuro que não opõe qualquer resistência ( enquanto que é o claro que resiste, que produz, que vive e anima) corresponde a uma maneira de considerar as coisas mais doce, mais reflectida, mais calma; o vermelho simboliza o princípio varonil, dominador, real; o verde, o indiferente e o neutro. Conformemente a esta simbólica, Santa Maria, quando é representada sentada sobre um trono na qualidade de Rainha do céu, está revestida de um manto vermelho, ao passo que traz um manto azul, quando é representada como Mãe

 

(Hegel, Estética, Pintura e Música, pags 96-98, Guimarães Editores, 1962; o destaque a negrito é posto por mim).


 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 19:18
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
A essência como algo material na teoria de Hegel


 

Na "Fenomenologia do Espírito" Hegel escreveu:

 

« Mas o espírito não se mostrou ante nós como simples recolhimento da autoconsciência na sua pura interioridade, nem como o mero afundamento da autoconsciência na substância e no não ser da sua diferença, mas como este movimento do si mesmo que se aliena de si mesmo e se afunda na sua substância que, como sujeito, se adentrou em si partindo dela e convertendo-a em objecto e conteúdo, ao superar esta diferença da objectividade e do conteúdo. Aquela primeira reflexão partindo da imediatez é o diferenciar-se o sujeito da sua substância ou o conceito que se cinde, o ir para dentro de si e o devir do eu puro. Enquanto esta é um puro operar do eu=eu, o conceito é a necessidade e o surgir do ser aí (Dasein) que tem a substância como sua essência e subsiste para si. Mas o subsistir do ser aí para si é o conceito posto na determinabilidade e, portanto, o seu movimento nele mesmo, consiste em afundar-se na simples substância, que somente é sujeito como esta negatividade e este movimento. O eu não tem razão para aferrar-se à forma da autoconsciência contra a forma da substancialidade e objectividade, como se tivesse medo da sua alienação; a força do espírito consiste em permanecer igual a si mesmo na sua alienação e, como que é em si e para si, em pôr o ser para si somente como momento, como se punha o ser em si.» (Hegel, Fenomenología del espíritu, Fondo de Cultura Económica, México, pags 470-471; o negrito é posto por mim).

 

 

Note-se que, neste excerto de Hegel, o termo substância possui um sentido fisicalista: a matéria é substância, o espírito em si não. Estamos, pois, em termos de terminologia, longe da res divina ( substância divina) expressão que Desacartes usava ao referir-se a Deus. Temos, no texto acima, as três fases do espírito, estático e em movimento,- as que compõem a dialéctica espiralar, quase circular, de Hegel - assim expressas:

 

1. Autoconsciência em si. O ser em si. O espírito, Deus, um pensamento universal abstracto, o ser, antes de criar o mundo físico, o espaço e o tempo. A imediatez, em sentido ontológico e protológico.

2. A substância da autoconsciência ou a autoconsciência alienada: o ser fora de si, na sua diferença como substância material, a matéria, o mundo da natureza biofísica, que é uma alienação do espírito puro, o objecto e o conteúdo (material) do espírito, substancialidade e objectividade. É negatividade porque a matéria nega o espírito, ao não possuir ideias, raciocínio, imaginação.

3. A autoconsciência como conceito: o ser para si, ou a consciência que, após mergulhar na matéria, reentra em si, na primeira fase, mas enriquecida com o saber da experiência.

 

 

O termo imediatez em Hegel parece ter um significado duplo: há a imediatez do ser puro, que é espírito ainda virgem, abstracto, ao qual nada foi acrescentado, uma imediatez ontológica, por assim dizer; e a imediatez da sensação, que é natureza biofísica "reflectida"  instantaneamente na consciência humana, sem a reflexão própria do conceito, do intelecto, uma imediatez gnosiológica.

 

Hegel dá ao termo essência um sentido material. Isto é expurgar a essência, do seio do ser puro. Ser = espírito, essência= matéria, conceito = ser para si, ser individuado (Dasein) que é reflexão, regresso do pensar a si mesmo. Em Aristóteles, a essência (eidos) era uma forma eterna, destituída de matéria. Aristóteles designava a essência incarnada na matéria por substância primeira (proté ousía). Mas com Hegel, a essência passa a designar a substância, a forma preenchida por matéria. E isso abre caminho já ao materialismo de Marx e Engels.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:21
link do post | comentar | favorito

Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
Ter tempo para algo: A gestação das formas do intelecto, da acção interpessoal, dos objectos

Ao dizer «tenho tempo para isto ou para aquilo» significo: posso efectuar tal ou tal acção ou deixar que tal coisa actue sobre mim– toda a acção é criação ou transformação de uma forma material, vital, social ou espiritual. Dar uma aula é uma sucessão de formas mentais e verbais – o discurso do professor e dos alunos, as definições, as correlações entre estas – que exige tempo, isto é, duração dessas formas. Portanto, ter tempo é criar, em potência, ou deixar desenvolverem-se formas, em potência: produzir ideias, raciocínios, imagens ou deixar que aconteçam, e no plano material e social, é manipular ou fabricar objectos, movimentar-se, fazer discursos, interpelar ou abraçar pessoas, etc. O tempo de que se dispõe é a duração da execução de uma tal acção ou seja o acto de plasmação de uma tal forma. O tempo é actualização do ser, passagem da potência ao acto. É manifestação do ser.

 

 

O tempo de trabalho na produção de ideias, serviços ou bens culturais e materiais determina, em princípio, ou deveria determinar, o nível de remuneração do trabalhador. Essas ideias, serviços ou bens culturais e materiais, são formas, minimamente estáveis, executadas e vigentes no tempo. Uma cadeira ou um automóvel são pensados automaticamente na sua coisidade, no ser das suas formas essenciais, e, secundariamente, são também pensados em termos de tempo de trabalho que exigiu a produção das suas formas.

 

  

 

HEIDEGGER NÃO CONCEBEU O TEMPO COMO PROPRIEDADE DA FORMA ESPACIAL

 

  

 

Heidegger esforçou-se por retirar o tempo do campo dos instrumentos de análise ontológica:

 

 

«O "tempo" funciona há muito como critério ontológico, ou melhor ôntico, da distinção ingénua entre as diversas regiões dos entes. Deslindam-se os entes "temporais" (os processos da natureza e a gesta da história) dos entes "intratemporais" (as relações espaciais e numéricas). Costuma-se destacar o sentido "intemporal" das proposições  em relação  ao curso "temporal" das orações que as enunciam. Encontra-se ademais um "abismo" entre o ente "temporal" e o eterno "supratemporal" e tenta-se franqueá-lo.»  (Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económica, Pág. 27).

 

 

Mas toda a crítica de Heidegger, de que «a ontologia tradicional confundiu o ser com o tempo», passa por alto a natureza do tempo como propriedade das formas, isto é, permanência destas, passa por ignorar o carácter intrinsecamente temporal do ser. Heidegger continua prisioneiro do dualismo de Kant que postula o  espaço, como sentido externo, e o tempo como sentido interno. Por isso, a concepção heideggeriana do ser é estática, imobilista como seria a de Platão se circunscrevesse rigorosamente o ser ao mundo do Mesmo. E a sua distinção entre ôntico-existente - por exemplo: «o tempo é infinito onticamente» - e ontológico-existencial ou existenciário - no exemplo: «o tempo real é finito ontologicamente» - é algo artificial porque o ôntico é a manifestação do ontológico que transporta dentro de si.

 

É por isso que, ao caracterizar a ontologia de Nietzschze, Heidegger distingue como ser a vontade de poder e como sua modalidade o eterno retorno que seria a existentia, a manifestação temporal externa. O equívoco heideggeriano está em que o ser é tanto a vontade de poder (ser em si) como o eterno retorno (ser por si e para si). Como seria possível conhecer o ser como vontade de poder, que, na teoria de Nietzschze, tem duas faces - a vontade de poder dos aristocratas esclavagistas ou feudais, antiliberais até à medula, e a vontade de poder da plebe, incluido a burguesia liberal e a populaça democrática ou mesmo anarquista e comunista na sua forma extrema - se na serpente circular do tempo não se manifestassem, alternadamente, estas duas faces? O ser inclui o tempo, desdobra-se neste.

 

O vínculo entre tempo e forma é indissociável: o tempo é a permanência, mais ou menos efémera, das formas das coisas, formas que são o ser. Como a permanência ou duração pertence às formas das coisas, ao ser, o tempo pertence ao ser, constitui a camada periférica deste.

 

Faz sentido distinguir um tempo psicológico de um tempo extra animam, objectivo, pois as formas psíquicas gozam de grande autonomia em relação às formas físicas.

 

Max Scheler falou na existência de uma duração sem sucessão. Tal só é possível na duração eterna ou eternidade, fora do tempo mutável, sinuoso. Porque a eternidade é da mesma natureza - ou seja duração - que o tempo historicamente delimitado: é a infinitude deste. Aliás, um dos problemas centrais da filosofia é justamente o de saber se a eternidade é real em acto ou apenas uma fantasia, uma potência ilusória.

 

A duração é a característica essencial do tempo.

 

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 08:50
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
15
16
17
18

19
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


posts recentes

Confusões de José Reis so...

Teste de filosofia do 10º...

Teste de filosofia do 11º...

Estética de Hegel: a luz...

A essência como algo mate...

Ter tempo para algo: A ge...

arquivos

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds