Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2017
Teste de filosofia do 11º ano (1 de Fevereiro de 2017)

 

 Eis um teste de filosofia para o 11º ano do ensino secundário em Portugal.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

1 de Fevereiro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“.O espaço não é um conceito empírico extraído de experiências externas…O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica e é condicionado, ao passo que a razão é incondicionada e produz antinomias» (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1) Explique estes pensamentos de Kant.

 

 2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno ESCOLA, o conceito empírico de ESCOLA e o juízo a priori «Cinco mais seis é igual a onze».

      

3) Relacione, justificando:

A) As sete relações filosóficas em David Hume e as formas a priori da sensibilidade e do entendimento na teoria de Kant

B) As três res e três tipos de ideias em Descartes

C) Holismo e astúcia da razão em Hegel.

D) Idealismo, empirismo, teoria da tábua rasa e ideias de «eu», «alma» e «substância» em David Hume.

 

1) O espaço não é um conceito empírico extraído de experiências exteriores porque para o idealista Kant o espaço é a priori, existe antes de qualquer objecto físico, como sendo o lado externo, exterior ao nosso corpo, da sensibilidade. (VALE DOIS VALORES).O entendimento, faculdade que pensa os fenómenos mas não os sente, faz a síntese do diverso das intuições porque recebe milhares de intuições sensoriais de fenómenos (exemplo: muitas imagens de rosas brancas, vermelhas, etc) que sobem ao entendimento e este com as categorias de pluralidade, unidade, realidade, etc, reduzem-nas a um conceito único de rosa. É condicionado porque a sua atenção está centrada no mundo visível dos fenómenos (comboios a circular, salários dos trabalhadores, etc). A razão, faculdade que pensa os númenos ou objectos incognoscíveis (Deus, imortalidade da alma, a totalidade do mundo, não os objectos físicos) é livre, incondicionada porque vai além da experiência e entra na metafísica, pode «inverter» a ordem da natureza e imaginar que o filho nasça antes da mãe, etc. Balança ao gerar as antinomias, leis ou teses opostas, como por exemplo «Deus existe, Deus não existe, a liberdade existe, a liberdade não existe» (VALE TRÊS VALORES).

 

 

2) O númeno ou objecto metafísico afecta de alguma maneira a sensibilidade fazendo nascer nesta um caos empírico de matéria indeterminada e as formas a priori de espaço (figuras, extensão) e tempo (duração, simultaneidade, sucessão) moldam essa matéria transformando-a no fenómeno escola, que é o objecto visível ou coisa para nós. As imagens do fenómeno são levadas pela imaginação às categorias de unidade, pluralidade, realidade e outras do entendimento ou intelecto ligado ao mundo empírico e aí são reduzidas à unidade, a um conceito único de escola. Na forma a priori do tempo, na sensibilidade existem os números cinco, seis, onze e outros, estas intuições são elevadas ao entendimento, às categorias de unidade, pluralidade, totalidade, necessidade e estas categorias com a ajuda da tábua de juízos puros, em particular do juízo apodíctico, produzem o juízo a priori «Cinco mais seis é igual a onze» (VALE TRÊS VALORES).

 

3) A) As sete relações filosóficas são, segundo David Hume: identidade, semelhança, relações de tempo e de lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É discutível saber se são noções a posteriori, ou seja, que surgem na experiência sensorial e não antes desta, ou se são formas a priori, isto é, estruturas vazias que estão antes da primeira experiência. As formas a priori da sensibilidade, em Kant, são: o espaço, cujo conteúdo é extensão e figuras geométricas, e o tempo, cujas determinações são duração, sucessão, simultaneidade e números.

É fácil detectar correspondências entre Hume e Kant: as relações de tempo e de lugar, em Hume, correspondem ao espaço e tempo à priori em Kant; a proporção de quantidade ou número, em Hume, equivale aos números contidos no tempo, em Kant.

 

As categorias, em Kant,  são formas a priori do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade). São 12 e constituem a seguinte tábua:

«TÁBUA DAS CATEGORIAS»

I

Da quantidade:

Unidade

 Pluralidade

   Totalidade

           2                                                                                   3

Da Qualidade                                                              Da relação

Realidade                                                                    Inerência e subsistência

Negação                                                                      ( substancia et accidens)

Limitação                                                                    Causalidade e dependência

                                                                                                     (causa e efeito)

.....................................................................................Comunidade

                                                                                    (acção recíproca entre

                                                                                     o agente e o paciente)

                                                                         4

Da Modalidade:

Possibilidade-Impossibilidade

Existência-Não-existência

Necessidade-Contingência

 

 

Podemos fazer corresponder a relação filosófica de causação (determinismo), em Hume, à categoria de necessidade (lei infalível de causa-efeito)  em Kant. Também podemos estabelecer correspondência entre a relação filosófica de identidade e a categoria de inerência e subsistência (substância e acidente). As formas a priori do entendimento incluem as categorias e os juízos puros (afirmativos, negativos, assertóricos, apodícticos, etc) que são doze (VALE TRÊS VALORES).

 

B) As três res ou substâncias primordiais em Descartes são: a res divina, Deus, espírito criador do universo, fonte das outras duas; a res cogitans ou pensamento humano sobre ciências, filosofia, senso comum, etc; a res extensa, isto é, a matéria, abstracta e indeterminada, constituída por comprimento, largura e altura dos corpos, destituída de cor, som, cheiro. Os três tipos de ideias são : inatas, nascem connosco (ideias de triângulo, corpo, número, etc); adventícias, isto é, percepções empíricas; factícias, isto é, forjadas na imaginação. Podemos fazer corresponder as ideias adventícias à res extensa, por exemplo, ou as inatas, conforme o ponto de vista.(VALE QUATRO VALORES).

 

C) Holismo é a teoria que diz que a verdade é o todo e que o comportamento de cada parte só pode ser explicado em função do Todo. A astúcia da razão universal é a utilização das ambições pessoais de cada homem de Estado pela razão extra hunana ou Deus  de modo a fazer avançar a história para onde a razão quer. Sendo a astúcia da razão uma estratégia holística de manipular os homens ela é holismo, (VALE DOIS VALORES).

 

D) O idealismo, isto é, a doutrina que diz que o mundo material exterior à mente humana não existe, é ilusório, é base da teoria de Hume. Por exemplo, o"eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória, uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». Do mesmo modo, a   substância (exemplos: as substâncias cadeira ou nuvem) é uma ideia fabricada pela nossa imaginação servindo-se das sete relações filosóficas que são disposições sensório-intelectuais a priori da mente humana: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. A ideia de permanência, de continuidade entre as percepções empíricas forja as ideias de eu e de substância. As relações de tempo e lugar não estão em objectos materiais fora de nós mas são um modo de ver e pensar inerente à nossa mente - e isto é idealismo. David Hume é empirista  porque sustenta que as nossas impressões de sensação ou percepções empíricas (exemplo: a visão de um gato, o sabor da açorda alentejana) são a fonte das nossas ideias. Sustenta a teoria da tábua rasa que diz que ao nascer a mente humana vem vazia de conhecimentos. (VALE TRÊS VALORES).

 

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Segunda-feira, 14 de Novembro de 2016
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (9 de Novembro de 2016)

 

Este é o primeiro teste escrito de filosofia de uma turma do 11º ano de escolaridade na capital do Baixo Alentejo, Portugal. O teste é centrado na lógica aristotélica, na retórica e na gnoseologia.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

9 de Novembro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Algumas mulheres são doutoradas..

As feministas são mulheres..

As feministas não são doutoradas.».

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo.

 

2)Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição:

«As vilas alentejanas possuem castelos»».

 

3)Distinga realismo crítico de Descartes do idealismo não solipsista subjetivo e da fenomenologia.

 

4)Tendo como primeira premissa a proposição «Se for a Évora, visito a Pousada dos Lóios», construa:

A) Um silogismo condicional modus ponens.

B)Um silogismo condicional modus tollens.

    

5)Relacione ethos, pathos e logos da retórica com argumentação, persuasão manipulatória e persuasão aleteiológica.

6) Defina e construa um exemplo de cada uma das seguintes falácias: depois de por causa de, do boneco de palha, da divisão, ad hominem, ad ignorantiam.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima foram: de duas permissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (algumas doutoradas, na permissa maior/ nenhumas doutoradas, na conclusão); o termo médio ( mulheres) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente e está tomado apenas no sentido de «algumas» e não de «todas». (VALE TRÊS VALORES).

 

1-B) O modo do silogismo é IAE, a figura é SP (sujeito e predicado refere-se à  posição do termo médio nas premissas) ou 1ª figura.(VALE UM VALOR).

 

2) O quadrado lógico é o seguinte:

 

As vilas alentejanas possuem castelos.  As vilas alentejanas não possuem castelos

(TIPO A- Universal Afirmativa)      (TIPO E- Universal Negativa)

 

 

. Algumas vilas alentejanas possuem castelos Algumas vilas alentejanas não possuem castelos

(TIPO I - Particular Afirmativa)       (TIPO O -  Particular negativa)

 

As proposições A e E são contrárias entre si. As proposições I e O são subcontrárias entre si. As proposições I e O são subalternas respectivamente a A e E. A proposição A é contraditória com O e a proposição E é contraditória com I. (VALE DOIS VALORES)

 

3) O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O idealismo não solpsista ou pluralista e subjetivo é a teoria que sustenta que o mundo material é ilusório, existe apenas dentro de uma multiplicidade de mentes humanas e cada uma delas constrói esse mundo de modo diferente das ( «A torre de Belém que eu invento/vejo não é igual à torre de Belém que tu inventas/ vês»), A fenomenologia é a ontologia, nem realista nem idealista, mas cética no seu fundo, que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. (VALE QUATRO VALORES).  

 

                  

4) a)  Se for a Évora, visito a Pousada dos Lóios.

          Vou a Évora.

          Logo, visitarei a Pousada dos Lóios.     (VALE UM VALOR)

 

4.b)  Se for a Évora visito a Pousada dos Lóios..

         Não visitei a Pousada dos Lóios.

         Logo, não fui a Évora.

         (VALE UM VALOR)

 

 

5) A retórica é a arte de bem falar e argumentar de modo a convencer os interlocutores. Tem três dimensões: o logos, isto é, a racionalidade do discurso, articulando ideias e raciocínios; o pathos, o sentimento de arrebatamento ou paixão posto na oratória e reflectido no público; o ethos, isto é, o currículo e o carácter exibido  pelo orador. A persuasão ou arte de convencer outrém é essência da retórica e reveste.se de duas modalidades: manipulatória, quando convence com sofismas e paralogismos; aleteiológica (aletheia, em grego, é desvelação da verdade) quando conduz o auditório a descobrir a verdade.  A argumentação ou arte de encadear juízos e raciocínios, com certa dose de subjetividade ou intersubjectividade (ideologia), inclui a persuasão em ambas as modalidades. (VALE TRÊS VALORES).

 

6) A falácia depois de por causa de é o erro de raciocínio  que atribui uma relação necessária de causa efeito a dois fenómenos vizinhos por acaso (exemplo: «Há 10 dias vi um gato preto e caí da bicicleta, há 5 dias vi outro gato preto e perdi a carteira, ontem vi um gato preto e o meu telemóvel avariou, logo ver gatos pretos dá-me azar).  (VALE UM VALOR). A falácia do boneco de palha é aquela que falsifica a posição, os argumentos do adversário, de modo a assustar o auditório. Exemplo: «O governo de António Costa vai impor um imposto extraordinário sobre casas de valor patrimonial superior a 600 000 euros. Esse tipo de imposto é exigido pelos comunistas. Logo, o governo de António Costa vai dar aos comunistas o domínio do país.» A falácia da divisão ou indutiva é aquela que particulariza, de forma abusiva, do todo para a parte. Exemplo: «Os espanhóis falam todos muito alto. Juanito é nome de muitos espanhóis. Logo, esse Juanito (qualquer que seja) fala muito alto» (VALE UM VALOR). A falácia ad hominem é aquela que desvia a argumentação racional para o campo do ataque pessoal ao adversário (exemplo: «Ele´ganhou o concurso para gestor de empresas, mas é gay, vamos impedi-lo de subir a gestor da empresa»).(VALE UM VALOR). A falácia do apelo à ignorância ou ad ignorantiam é a que raciocina sobre um fundo desconhecido e o usa de forma tendenciosa, sustentando que uma tese fica demonstrada se a não se conseguiu demonstrar a sua contrária (exemplo: Nunca ninguém demonstrou que Deus existe, logo Deus não existe).(VALE UM VALOR)

 

 

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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade, turma A (Outubro de 2016)

Eis um teste de filosofia do 10º ano que explora a rubrica «Os grandes temas da filosofia».

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

20 de Outubro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Poderá classificar-se a teoria de Platão como um dogmatismo crítico, de teor metafísico e ético. O modo de pensar e viver dos filósofos-reis, na Polis ideal de Platão, opunha-se, pelo menos aparentemente, ao ceticismo, pragmatismo e ao subjetivismo propagado pelos sofistas.”

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Relacione, justificando

A) Yang, Yin e Tao no taoísmo

B) Mundo do Mesmo ou Inteligível, Mundo do Semelhante e demiurgo em Platão.

C) Unidade da essência e multiplicidade das aparências empíricas nas teorias cosmológicas de Heráclito de Éfeso e Anaxágoras.

D).Ascese em Platão e as teses de que «filosofar é aprender a morrer» e «o corpo é o cárcere da alma.

 

 

1) Dogmatismo crítico é toda a teoria que assenta em certezas construídas com a ajuda de dúvidas, do ceticismo, uma teoria que exigiu reflexões profundas. As teorias científicas em geral são dogmatismos críticos: afirmar que o número atómico do hidrogénio é 1 e o do oxigénio 8 exigiu experiências e cálculos matemáticos, são dogmas que passaram o crivo da crítica. O dogmatismo de Platão é metafísico, trata do invisível e inaudível, na medida em que postula que há um mundo de modelos perfeitos, imóveis e eternos (Bem, Belo, Justo, Sábio, Cubo, Esfera, Homem, Mulher, etc) acima do céu visível. É crítico porque sustenta teses que exigem muita reflexão como, por exemplo, «o tempo é a imagem móvel da eternidade», «conhecer é recordar». É ético porque fala dos modelos eternos do Bem e do Justo. (VALE QUATRO VALORES). Os filósofos-reis ou arcontes, na pólis de Platão, eram homens e mulheres, dotados de alta virtude intelectual e moral, que faziam as leis e governavam a cidade. Não podiam ter prata nem ouro nem privilegiarem os seus filhos, por isso viviam em comum e faziam troca de casais, de modo a não saber quem era o pai de cada criança. Ao inspirarem-se nos arquétipos do Mundo Inteligível rejeitavam o ceticismo, doutrina  que duvida de tudo, incluindo o mundo dos Arquétipos, o pragmatismo, doutrina que diz que a verdade se limita ao mundo empírico e prático, devendo pôr-se de parte os princípios metafísicos mais ou menos impossíveis de serem postos em prática e o subjectivismo, doutrina que afirma que a verdade não é objetiva, varia de pessoa a pessoa. Estas doutrinas eram comuns entre os sofistas, filósofos do período antropológico da Grécia antiga, em regra professores, advogados, juristas e políticos que ensinavam retórica e cobravam dinheiro (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) O Tao é a mãe do universo, algo de obscuro e silencioso que circula por toda a parte e é o modelo do céu e divide-se em duas ondas formando uma sinusoidal: o Yang (alto, calor, dilatação, verão, som, sol, vermelho, movimento, exterior) e o Yin (baixo, frio, contração, inverno, silêncio, lua, azul, imobilidade, interior). A sucessão dos dias e das noites, do trabalho e do repouso, das sementeiras e colheitas, representa o ritmo yang-yin, faz parte do Tao do universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) Mundo Inteligível (kosmos noéthos) é o mundo dos Arquétipos ou modelos eternos de Bem, Belo, Justo, Sábio, Números, Homem, Mulher, etc, acima do céu visível. É incriado. Mundo do Semelhante (kosmos homóios) é o mundo do céu visível, do tempo e das operações matemáticas, composto pelo Sol e astros incorruptíveis em movimento. O demiurgo é o deus operário que fez o Mundo do Semelhante e o mundo do Outro ou Sensível, este último feito de corpos físicos corruptíveis (pedras, árvores, rios, planícies, animais, etc) tomando como modelo os arquétipos de Astro, Árvore, Montanha, Rio, etc. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)C) Na teoria de Heráclito, há uma essência una (unidade da essência) em todas as coisas: o fogo. As árvores, as pedras, os animais, a terra, etc.,- ou seja as múltiplas aparências empíricas, as coisas que vemos e tocamos - são fogo condensado, arrefecido, às vezes liquidificado ou sublimado. Na teoria de Anaxágoras, um mesmo objecto visível, macroscópico - exemplo uma cenoura- é composto de milhares de princípios ou formas minúsculas da mesma natureza,chamados princípios homeoméricos, - a cenoura é composta de milhares de pequeníssimas cenouras invisíveis. Um mesmo princípio homemomérico - a essência fígado humano, por exemplo - pode estar presente microscopicamento na multiplicidade das cenouras, e das beringelas, que são aparências empíricas ou objectos visíveis que, ingeridas, fortalecem o fígado humano.(VALE TRÊS VALORES)

 

2) D) A ascese é a ascensão da parte superior da alma humana, o Nous, ao Mundo Inteligível, enquanto está ligada ao corpo humano vivo.  Há vários métodos de ascese: filosofia, porque esta nos ensina a morrer para os bens materiais e a fama («Que importa passares a vida a acumular ouro se ao morrer deixas tudo? Pensa, filosofa sobre a rapidez da vida»); matemática, porque se baseia na contemplação dos Arquétipos de Números Um, Dois, Três, Quatro Cinco, etc, e de Cubo, Esfera, Cone, etc; música, na medida em que nos eleva espiritualmente, não se trata de qualquer tipo de música; ginástica, em particular o ioga; jejum, na medida em que domina a gula e outras paixões do corpo. (TRÊS VALORES)

 

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Domingo, 25 de Janeiro de 2015
Ambiguidade de Hannah Arendt sobre o «ser»

 

Hannah Arendt (14 de Outubro de 1906- 4 de Dezembro de 1975), judia alemã, discípula de Heidegger, usou, como este, a palavra «ser» com uma certa ambiguidade:

 

«A destruição do conceito antigo de ser só foi levada até ao meio. Kant destruiu a velha identidade do ser e do pensamento e com ele a ideia da harmonia préestabelecida entre o homem e o mundo. O que não destruiu, o que implicitamente preservou, foi o não menos antigo conceito, intimamente ligado à ideia de harmonia do ser preexistente cujas leis, em todos os casos, se impõem aos homens. » (Hannah Arendt, Compreensão política e outros ensaios, Antropos, Outubro de 2001, pág. 52; o destaque a negrito é posto por mim.)

 

Por que razão Kant só "destruiu metade do velho conceito de ser"? A que ser se refere Hannah Arendt: ao mundo material com suas leis? A Deus, espírito primordial? Não esclarece. Ambígua, tal como o seu mestre Martin Heidegger...É este o tipo de discurso habitual dos retóricos que triunfam entre as nuvens da imprecisão no céu institucional da filosofia.

 

A visão germanófila da filosofia, que Heidegger e Hannah Arendt possuíam,  apaga o papel do bispo irlandês George Berkeley, predecessor de Kant, e verdadeiro autor, no século XVII, da revolução idealista que destruiu a exterioridade do ser, entendido como mundo de matéria, face ao pensamento, incluindo-o dentro deste último, reduzindo-o a ideia.

Kant é um imitador de Berkeley que desdenha este, falsificando o seu pensamento.

 

Prossegue H. Arendt:

« Sem dúvida, o homem de Kant tem a possibilidade de determinar os seus actos na base da sua boa vontade; ora esses actos encontram-se, eles próprios, submetidos à lei da causalidade, uma esfera essencialmente estranha ao homem. A partir do momento em que um acto do homem sai da esfera subjectiva, entra na esfera objectiva que é a causalidade, perdendo assim a sua qualidade de liberdade (...)»

«Quando Kant fez do homem o senhor e a medida do homem, rebaixou-o simultaneamente à condição de escravo do Ser. Cada um dos filósofos que se lhe seguiram a partir de Schelling, protestou contra esta degradação. A filosofia moderna ocupa-se ainda hoje com esta humilhação do homem acabado de se emancipar. É como se ainda o homem nunca se tivesse elevado tanto nem caído tão baixo...» (Hannah Arendt, Compreensão política e outros ensaios, Antropos, Outubro de 2001, pág. 93.o destaque a negrito é posto por mim. ) 

 

Há vários erros de Hannah Arendt nestes textos. 

 

Um deles consiste em que a liberdade não se limita à esfera subjectiva, como diz Hannah, mas objectiva-se em acções políticas, económicas, etc., da esfera exterior: um sinal da liberdade, relativa, do povo grego, é a votação de 25 de Janeiro de 2015 que dá a vitória ao Syriza. Portanto, a liberdade entra na lei da causalidade social, exterior, e influi ou retorce esta enquanto lhe for possível.

 

Ao definir a lei da causalidade, como «uma esfera essencialmente estranha ao homem» Hannah Arendt equivoca-se: sendo o homem composto por dois «eu», o numénico e o fenoménico, encontra-se, este último, isto é, o eu corpóreo, físico, sujeito às leis de causalidade da fome, da sede, respiração, sono e vigília. Portanto, a causalidade necessária é inerente ao corpo humano que é parte integrante do homem. Não é estranha ao homem, como sustenta H.Arendt.

 

A afirmação «Quando Kant fez do homem o senhor e a medida do homem, rebaixou-o simultaneamente à condição de escravo do Ser.» é absolutamente ambígua, inconsistente. Que Ser é este? A natureza física? Deus? Ou nem um nem outro, como sustentava o seu mestre Heidegger, sem contudo definir o ser que caracterizava como «o mais próximo e o mais distante»? Arendt não é clara, joga na ambiguidade do termo.

 

Hannah Arendt não passa de uma vulgar filósofa de segunda categoria, ao alcance dos medianos que hoje dominam a quase totalidade das cátedras de filosofia.

 

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Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
Teste de filosofia do 11º A (Dezembro de 2014)

 

 Eis um teste de filosofia de final de 1º período lectivo, em Beja, Portugal, onde a filosofia atingiu, no plano mundial, o mais alto grau, ao conceber por leis histórico-astronómicas a presdestinação de todas as coisas - um teste sem perguntas de escolha múltipla que, habitualmente, espelham a pobreza do pensamento de uma grande parte dos docentes e dos autores dos manuais escolares.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
12 de Dezembro de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 

 I

“Algum idealismo é realismo crítico”.
 “A falácia do falso dilema é realismo crítico”.
“ O idealismo não é falácia do falso dilema”.


1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

.
1-B) Com base nas definições respectivas, mostre como ambas as premissas deste silogismo estão erradas no seu conteúdo, isto é, estão materialmente erradas.

 

2) Exponha os quatro passos gnoseológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica, defina e aplique a lei da contradição principal a este conjunto.

 

3 ) Relacione, justificando:

 

A) Res cogitans em Descartes e ideia de “eu” em David Hume.

 

B) Ciências empírico-formais, ciências hermenêuticas, retórica e ideologia.

 

4) Interprete o seguinte texto e mostre dois sentidos possíveis para o termo “ser”:

 

« Existem miríades de sinais demonstrativos de que o Ser é, incriado, imperceptível, perfeito, imóvel e eterno, não sendo lícito afirmar que o Ser foi ou que será…. Ser e pensar é um e o mesmo.» (PARMÉNIDES).

 

CORRECÇÂO DO TESTE COTADO PARA UM MÁXIMO DE VINTE VALORES

 

1-A) Eis três regras do silogismo formalmente válido que foram violadas: o termo médio (neste caso: realismo crítico) tem de ser tomado pelo menos uma vez, universalmente; nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas, ora o termo idealismo é universal na conclusão e particular na primeira premissa (algum idealismo); de duas premissas afirmativas não se pode extrair uma conclusão negativa. (VALE DOIS VALORES).

 

1-B) O idealismo ontológico é a doutrina segundo a qual o mundo de matéria é um conjunto de ideias ou sensações a flutuar na mente de um ou vários sujeitos e por isso não se inclui no realismo, doutrina que diz que o mundo de matéria é real em si mesmo e exterior às mentes humanas. O realismo crítico defende que o mundo de matéria exterior é real em si mesmo mas não o percepcionamos sem deformação (exemplo: vemos uma rosa vermelha, mas o vermelho só está na nossa mente não na rosa). (VALE DOIS VALORES). O idealismo, corrente ontognoseológica, não é a falácia do falso dilema porque esta é uma disjunção lógica entre dois termos um dos quais está contido no outro, ora o ontológico não deve confundir-se com o lógico-formal ( exemplo da falácia do falso dilema: "Ou és ser humano ou és homem alentejano")  (VALE DOIS VALORES).

 

2) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

 

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

 

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»).

 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). 

 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de figuras, tamanhos, números, movimentos, existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, subjectivas, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos e uma matéria indeterminada. 

 

A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição, constituída por dois grandes blocos ou pólos e deixando, às vezes, uma zona neutra na fonteira entre ambos os pólos. Neste caso, a contradição principal pode ser concebida de várias maneiras: num pólo, a dúvida absoluta (1º passo)  e no outro polo o conjunto idealismo solipsista/ idealismo não solipsista/ realismo crítico que possuem certo grau de certeza em comum; em um polo os dois idealismos (2º e 3º passos) e no outro polo o realismo crítico (4º passo) ficando o cepticismo absoluto na zona intermédia ou neutra; em um polo o realismo crítico, no polo oposto o conjunto cepticismo absoluto/idealismos  (VALE CINCO VALORES).

 

3-A) A res cogitans, em Descartes, é o pensamento humano, é uma realidade (a filosofia, as ciências, o senso comum) ao passo que o "eu" em David Hume não é uma realidade, mas uma ideia ilusória uma vez que somos apenas uma corrente de percepções empíricas a que a memória e a imaginação atribuem um núcleo invariável chamado «eu». (VALE TRÊS VALORES).

 

3-B) Ciências empírico-formais são aquelas que se baseiam em factos da experiência desvendando as leis necessárias, infalíveis, que os ligam e atravessam. Exemplo: a física com a lei da gravidade, a química com a relação ácido-base, a biologia, a geologia, etc. Habitualmente, supõe-se que estas ciências são neutras, estão isentas de ideologia, isto é, interpretações do mundo intersubjectivas, próprias de certas classes sociais e grupos étnicos (exemplo: cristianismo, budismo, liberalismo, comunismo, europeísmo, pan-arabismo, filosofias da igualdade de direitos universais ou do domínio da aristocracia sobre a plebe são ideologias).  Ciências hermenêuticas são aquelas que se baseiam em factos empíricos interpretando-os segundo princípios e intuições subjectivas, cheios de simbolismos, sem leis infalíveis (exemplo: a psicanálise e o complexo de Édipo, a filosofia, a história e o papel dos grandes homens, a sociologia, a antropologia, etc). Sendo retórica a arte de argumentar ou demonstrar certas ideias ou teses, a retórica está presente em ambos aqueles tipos de ciência, em especial nas hermenêuticas que são marcadamente ideológicas - por exemplo, a teoria marxista da histórica que postula que as sociedades caminham todas em direcção ao comunismo, ou sociedade igualitária sem Estados, é muito mais ideológica do que a teoria da evolução das espécies de Darwin na biologia ou do que o cálculo integral em matemática, este último isento de ideologia (VALE QUATRO VALORES).

 

4) Há um número infinitamente grande (miríades) de sinais que demonstram que o Ser - essência esférica do universo - não foi criado por ninguém, não foi nem será porque é eternamente o mesmo, sem alterações. É perfeito e invisível, inaudível, por isso só pode ser apreendido pelo pensanento racional - daí que ser e pensar sejam um e o mesmo. O ser pode ser ideia ou pode ser algo material, o texto não é esclarecedor. Dois sentidos do Ser são: existência infinita no tempo; essência ou forma geral do universo. (VALE DOIS VALORES).

 

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Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010
É o Ethos uma prova técnica na retórica? (Crítica de Manuais Escolares-XXXVIII)

 

No Manual português «Filosofia 11º» de Luís Rodrigues, lê-se o seguinte a respeito das técnicas de persuasão da retórica:

 

«Para persuadir, o orador pode recorrer a dois tipos de provas: as provas não técnicas e as provas técnicas. As provas não técnicas são as provas que já existem e que o orador se limita a usar no seu discurso, como as leis, os testemunhos, os contratos, as confissões sob tortura e os juramentos.

«As provas técnicas são aquelas que podem ser preparadas pelo orador e são de três espécies:

1. As que residem no carácter do orador (ethos).

«A persuasão é obtida quando o discurso é proferido de maneira a deixar no auditório a impressão de que o carácter (e não o aspecto físico ou a riqueza) do orador o torna digno de crédito.»  (Luís Rodrigues, Filosofia 11º, Plátano Editora, Lisboa, pag. 117; a letra negrito é quase toda colocada por mim ).

 

Luís Rodrigues equivoca-se. Por que razão os contratos e os testemunhos seriam  provas não técnicas e o ethos, que em si mesmo é um testemunho - por exemplo, o carácter devotado aos pobres de Teresa de Calcutá - seria uma prova técnica ou conteria em si provas técnicas? O ethos não constitui uma prova técnica nem possui em si provas técnicas. O ethos é um modo de ser: é não técnico. Exemplo: o falecido líder do Partido Comunista Português, Álvaro Cunhal (1913-2005), possuía um ethos -um carácter inflexível de lutador pelo socialismo marxista-leninista- que irradiava naturalmente da sua presença em público e nos discursos (retórica) que produzia. O que é técnico na retórica é o modo de transmitir esse "ethos" ao auditório, não é o ethos nem as suas componentes. Assim, o PCP ao transmitir o ethos de Álvaro Cunhal acentuava o seu comportamento de brilhante resistente às torturas da PIDE e de preso político notável sob o regime fascista de Salazar e obscurecia certos aspectos desse ethos como  o silêncio cúmplice de Cunhal com a repressão estalinista em 1930-1953, o esmagamento da revolução húngara de Outubro-Novembro de 1956 e da revolução checoslovaca de Abril-Agosto de 1968 pelas tropas da URSS, etc.

 

Luís Rodrigues não distingue entre o ethos em si, real, e o "ethos" fabricado como imagem pública, e tende a amalgamar aquele neste.

Escreve ainda:

«2.3 O ethos

Este tipo de prova técnica é a que depende do carácter do orador.» (Luís Rodrigues, Ibid, pag 120)

 

Esta frase é, aliás, confusa porque duplica o significado do termo ethos: prova técnica (exibição do "ethos" ou construção mediática de um falso "ethos")  e carácter em si ("ethos"). O autor do manual não distingue, pois, claramente, o "em si" do "para os outros", a coisa da transmissão da sua imagem. O ethos não é uma técnica de persuasão mas uma fonte de persuasão.

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
Intersubjectividade e retórica ou o comunismo filosófico de Manuel Maria Carrilho

O catedrático de filosofia Manuel Maria Carrilho, partidário do pragmatismo e da ontologia linguística - o mundo é um dizer - exprimiu uma panóplia de equívocos no seu livro «O que é a filosofia» publicado há 16 anos. Sobre a natureza da linguagem, afirmou, ao analisar as tendências contemporâneas da filosofia :

 

«Na perspectiva que considera a crença um hábito de acção, o que a linguagem faz não é relacionar a palavra e o mundo mas, antes, articular o seu uso com um determinado hábito. Trata-se de uma relação interna, que dispensa as pretensões representativas da linguagem e sublinha o seu carácter holista: o uso da linguagem consiste na articulação de pedaços da linguagem com outros pedaços de linguagem, e não existe nada fora da linguagem que possa ser dito a não ser, ainda, pela linguagem; a linguagem não comporta um exterior dizível, ela é, em suma, ubíqua.» ((Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.108; a letra negrita é posta por mim).

 

Ora há aqui um erro essencial de Carrilho: a linguagem não é o ser, não é linguagem isolada, é seta apontando ao alvo-mundo, seja este mundo virtual, fantasista, seja o mundo real da natureza biocósmica e não é totalmente ubíqua como quer Carrilho. Ser ubíqua não significa ser englobante de tudo ou constituição absoluta de tudo. Por exemplo, a palavra nuvem comporta um exterior dizível que lhe corresponde: o objecto esbranquiçado ou escuro, em forma de flocos, feito de vapor de água, que paira no céu visível. Nunca a linguagem perde a função representativa, ainda que haja um esqueleto lógico, não representativo do mundo, em cada proposição. Como diz Heidegger, «a linguagem é advento velador-iluminador do ser.» Há mais mundo além da linguagem. Não há linguagem sem referente, isto é, sem objecto, imaginário ou real: a linguagem articula sempre uma palavra e um mundo e, se articula palavras e frases entre si, é sempre tendo como pano de fundo a estruturação de um mundo ou a articulação de mundos.

 

Mesmo a frase poética: «Um galo amarelo riscou o vidro da madrugada e a ampulheta do céu girou» não é uma simples articulação de palavras mas uma reconstrução do mundo na imaginação. Ampulheta, céu, galo amarelo, vidro, madrugada são objectos reais, referentes, que foram retirados pela mente do seu contexto real e lançados na construção de um mundo onírico. Ao construir a frase poética, construímos um mundo onírico extra linguístico.

 

A linguagem não existe no vazio nem constitui o mundo, ainda que seja um mundo: é apenas um mundo fenoménico, vocal, gráfico e gestual, a recobrir um outro mundo, interior ou exterior. Detrás da linguagem há algo, -  realidade ou imaginação - que ela reproduz correctamente ou falsifica. A palavra «Deus» que Nietzschze referiu como tendo sido causa da criação de um ente ilusório, de um erro filosófico, refere-se de facto a um ente: a questão é saber se é um ente de imaginação -  ente de razão, na terminologia da escolástica - ou um ente real, objectivo, embora espiritual e invisível. Antes da palavra «Deus», estava a respectiva ideia, ainda inominada. A linguagem brota da intuição dos objectos exteriores ou interiores, é derivada do ser ou estrutura geral do universo e do homem. A linguagem é como o amor: em primeiro lugar, a sua matéria-prima vem de fora para dentro, entra na consciência em forma de imagem e aí recebe a sonoridade, o signo gráfico, tornando-se linguagem de facto, e depois vai de dentro para fora, nomeando os entes.

 

No princípio está o ser, o silêncio absoluto, não a palavra. Carrilho equivoca-se. A sua idolatria da palavra - como se esta pudesse nascer sem referência exterior-  em detrimento da realidade primordial, extra linguística, fá-lo deslizar ao nível da superficialidade de um Rorty, de um Putnam e outros, ou mesmo a um nível inferior a eles visto que é um simples epígono. A filosofia analítica nesta versão extrema da linguagem como o ser, como totalidade que nada deixa de fora, é uma metafísica comparável ao idealismo ontológico. É o linguismo ontológico ou ontologia linguística: o ser das coisas está dentro das palavras que as nomeiam e as coisas só existem enquanto capturadas na rede da linguagem. A realidade não é assim: embora nascida e vertida na intersubjectividade, a linguagem – ou seja a imagem autónoma das coisas, vocal-gráfico-pensante – possui um referente último nas próprias coisas, isto é, fora dela.

 

A tese de que «a  linguagem é ubíqua, não comporta um mundo exterior dizível» parece ter sido bebida por Carrilho em Dummet mas é rejeitada pelo próprio Rorty que permanece num cepticismo «pragmático»:

 

«Consideraremos errada a noção de Dummet de filosofia da linguagem   como "filosofia primeira", não porque alguma outra área seja "primeira", mas porque a noção de filosofia com fundamentos é tão errada como a de conhecimento com fundamentos.» (Richard Rorty, Philosophy in the Mirror of Nature, VI, I). 

 

Justamente porque considera as palavras como signos convencionais, Carrilho entende poder manipulá-las a seu bel prazer. Ora as palavras são e não são signos convencionais: num primeiro momento, são, no que respeita à carapaça, que pode ser de qualquer côr; posteriormente, não são, porque se integram como peça insubstituível na máquina das correlações entre o pensamento humano e o mundo objectual exterior ou interior.

Nietzshze dissociou, em certa medida, o pensamento da palavra, no pressuposto de que há um mundo metalinguístico:

«244- Pensamento e palavra. - Nem sequer os nossos pensamentos podemos traduzir inteiramente por meio de palavras. » (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 173).

 

OS VALORES NÃO SÃO PERSPECTIVOS POR A LINGUAGEM «SER RETÓRICA», MAS AO INVÉS

 

Ao falar de uma retórica filosoficamente concebida, Carrilho escreve:

 

«Foi ela que, como Paul de Man apontou, viabilizou e orientou a sua crítica da metafísica tradicional, dado que, para ele, a retórica não é um uso, de intuitos manipulatórios ou ornamentais, da linguagem, é a "natureza" da própria linguagem, seja qual for o uso - corrente, estético, científico, etc - que se considere. O perspectivismo é solidário desta concepção da linguagem: todo o conhecimento, todos os valores, são perspectivos, porque toda a linguagem é retórica.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág. 93).

 

Carrilho coloca o carácter retórico da linguagem como origem do perspectivismo dos valores e do conhecimento, mas o que sucede é o inverso: a linguagem deriva da estrutura ontológica dos mundos físico e espiritual dos valores, se ela é «perspectiva, retórica» é justamente porque os valores e a realidade são «perspectivos», como que cristais de múltiplas faces que nunca podem ser vistos na totalidade em simultâneo mas sim vistos desde uma perspectiva, um ângulo limitado.

 

A INTERSUBJECTIVIDADE SUPERA A FILOSOFIA DA «CONSCIÊNCIA ISOLADA», OU É COMUNISMO FILOSÓFICO?

 

 

Carrilho escreveu sobre o conceito de racionalidade argumentativa intersubjectiva em Habermas: 

 

«O que Habermas defende de modo que tem marcado fortemente a filosofia, sobretudo desde o começo da década de 80, é uma perspectiva que se desvie do trajecto percorrido pela filosofia da consciência nas suas obsessões pela figura do sujeito, e aposte numa compreensão da intersubjectividade que renove a compreensão do mundo e da razão. Uma tal compreensão passa pela atenção a uma dimensão que a modernidade – e esse teria sido o seu erro de raiz – sempre descurou, a da comunicação. (…) Um mundo vivido que aqui não tem os contornos existenciais que lhe deu Husserl, e que Heidegger no fundamental partilhou, porque não é pensado a partir de um eu mais ou menos solipsista mas, antes, como emergindo da intersubjectividade que a linguagem propicia e consolida no exercício dos vários regimes de acção (teleológico, dramatúrgico, axiológico e comunicacional) a que nos referimos.»Manuel Maria Carrilho, O que é Filosofia, Difusão Cultural, Pág.84- 85; a letra negrita é posta por mim).

 

Neste campo da afirmação do valor da intersubjectividade, isto é, do acordo entre duas ou mais pessoas sobre a existência e a natureza de algo, Carrilho subscreve a posição de Habermas. É a posição dominante hoje na sociedade capitalista liberal no campo da política, da informação e das ciências sociais: o diálogo, o meio termo, a negociação entre posições desemboca numa «verdade» que não era nenhuma das «verdades» que originalmente os adversários perfilhavam. Ora se o meio termo funciona bem no campo da ética, da comunicação de massas e da política, assim não sucede no campo da ontologia e das ciências naturais.

Foram, com Habermas e outros,  «as obsessões pela figura do sujeito» substituídas pela intersubjectividade e pela comunicação, como pretende Carrilho? Não.  A comunicação entre dois ou muitos não apaga, a maioria das vezes,  a individualidade do sujeito hegemónico: projecta a sua subjectividade deste nos outros, manipula-os.

 

Nietzsche, que Carrilho cita abundantemente, desmascarou o mecanismo da intersubjectividade como validação da «verdade» do seguinte modo:

«260- Tábua de multiplicar- Um, nunca tem razão; a dois, começa a verdade. Um, não se pode provar; dois, já não podem continuar a refutar-se.» (Nietzsche, A Gaia Ciência).

.

A teoria de Einstein já era científica, já era uma grande construção filosófica e científica, quando ainda só era conhecida por Einstein e não tinha o acordo intersubjectivo de Bohr e de outros cientistas. Suponhamos que a comunidade científica recusava a teoria de Einstein: deixava esta de ser ciência, pelo facto de lhe faltar o patamar de apoio da intersubjectividade? Não. Deixou a teoria heliocêntrica criada por Aristarcos de Samos na antiguidade, de ser ciência só porque o triunfo social coube durante séculos à teoria geocêntrica de Ptolomeu e Aristóteles? Não. É evidente que a ciência é um em si e, só depois, um para os outros. O pensador isolado vale mais do que o pensamento da multidão que é também comandado por um ou outro pensador isolado hábil em cativar os menos pensantes. A perspectiva de Carrilho de elevar a intersubjectividade e a retórica a pedra de toque do que é válido e verdadeiro na filosofia e nas ciências é puro «comunismo filosófico». Ora o comunismo é o apagamento das diferenças entre os pensadores entre si e entre estes e a multidão quase impensante. É a vulgaridade, a demagogia. O comunismo é a ideologia do estômago, das necessidades básicas vitais. É útil neste plano, é perjudicial no plano espiritual da descoberta da verdade filosófica porque esta descoberta se faz com voos individuais, com rasgos dos pensadores de elite.

 

Com os neosofistas da linha de Manuel Maria Carrilho, a filosofia deixa de ser ciência ontológica, fenomenológica, gnosiológica e epistemológica e transforma-se em argumentação, em retórica, em comunicação hábil e, frequentemente, paralógica. Em vez de saber pensar com rigor, vale o saber falar, ser eloquente! As definições «essencialistas» desaparecem-se ou esbatem-se ante a fluidez enganosa do discurso. 

 

FILOSOFIA GENEALÓGICA VERSUS FILOSOFIA EPISTEMOLÓGICA: CONFUSÃO DE CARRILHO

 

Algum mérito tem Carrilho em reduzir a dois campos as correntes fundamentais da história da filosofia:

 «É possível distinguir na problemática que assim se instaura dois desenvolvimentos bem distintos, que atravessam toda a filosofia contemporânea, um de inspiração genealógica, outro de intenções epistemológicas. Eles talham dois modos de articular o conhecimento e a verdade, caracterizando-se a abordagem epistemológica pelo facto de tornar o conhecimento científico como modelo de todos os tipos de conhecimento e por valorizar os seus procedimentos de justificação, enquanto a orientação genealógica não só contesta este modelo como questiona a pretensão à verdade, com que ela, em boa medida, se identifica. Kant optou pela primeira via e foi nela que se situaram não só os principais autores da tradição analítica (Frege, Carnap, Quine) mas, também, embora de um modo mais matizado, filósofos de outras inspirações, como Apel ou Habermas. Na segunda, integram-se, metamorfoseando de modos diversos, o lance inaugural de Nietzschze, pensadores como Heidegger ou Foucault, Derrida ou Rorty.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.49-50; o negrito é posto por mim). 

 

Epistemológico opõe-se a genealógico? De modo nenhum. A epistemologia ou filosofia das ciências inclui uma genealogia do conhecimento. Carrilho não é feliz, não tem clareza, nas dicotomias que estabelece. Epistemológico opõe-se por um lado, a noológico ou noético (próprio da intuição inteligível), e por outro lado, a estético ou sensorial (próprio da intuição sensível).

Quando diz que Kant optou pela via epistemológica, Carrilho levanta uma nuvem de poeira. Kant investigou a génese do conhecimento: as formas a priori no sujeito, a "radiação" ou influência desconhecida do númeno sobre o "eu".  Por que razão Kant não deveria figurar na via genealógica ao passo que Heidegger, credor da teoria de Kant sobre o tempo, já figura nesta via?

 

Aliás note-se que o próprio Nietzshze, que Carrilho, admira como um pensador profundo e ímpar, coloca Kant e Schopenhauer na génese da filosofia anti racionalismo socrático e epistemológico:

 

«Recordemo-nos então de como, graças a Kant e a Schopenhauer, foi possível à filosofia alemã, derivada dos mesmos princípios, aniquilar o contente gosto de existir do socratismo científico, determinando-lhe os limites; como esta demonstração teve por resultado uma concepção incomparavelmente mais profunda e mais séria dos problemas éticos e estéticos, concepção que com toda a segurança podemos definir por sabedoria dionisíaca expressa em ideias.» (Nietzschze, A origem da tragédia, Guimarães Editores, 5ª edição, Pág. 158; a letra negrita é posta por mim).

 

NIETZSHE NÃO TROCOU A EPISTEMOLOGIA PELA RETÓRICA

 

Sobre o perspectivismo ou subjectivismo inultrapassável em cada homem, e cujo dilema é aceitar-se como visão enviesada ou negar-se a si mesmo como tal, escreveu Carrilho:

 

«A esta apertada tenaz só se escapa mudando de terreno ou de paradigma, e foi isso que Nietzschze fez e propôs que se fizesse ao trocar a epistemologia pela retórica, ao abandonar a análise das condições de validade da linguagem pela avaliação dos seus poderes.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Pág 92). 

 

Não se percebe muito bem como é que se escapa à tenaz da dicotomia perspectivismo / antiperspectivismo «mudando de paradigma». Seja como for, não é exacto que Nietzschze tenha trocado a epistemologia pela retórica: ele conferiu ao racionalismo socrático, pai das ciências modernas e contemporâneas, um estatuto de «retórica» e «visão superficial do mundo» e procurou, ao invés, criar uma ontologia da vontade de poder, uma ciência intuitiva da vida que está muito longe de ser mera retórica. A epistemologia ou reflexão sobre as ciências só é alvo dos ataques de Nietzschze na medida em que se oponha à vida, à afirmação dos instintos vitais da luta pelo poder, da sexualidade, e outros. Aliás, podemos classificar a doutrina de Nietzsche como uma epistemologia visto que julga, no tribunal de Diónisos, as ciências existentes no século XIX e o grosso das proposições metafísicas dos séculos anteriores.

Nietzschze escreveu:

 

«Mais ainda: as velhas proposições tornaram-se mesmo, no íntimo do conhecimento, normas a patir das quais se avaliou o "verdadeiro" e o "não verdadeiro" , mesmo nos domínios mais recuados da lógica pura. Portanto: a força do conhecimento não reside no seu grau de verdade, mas no seu grau de antiguidade, na sua assimilação mais ou menos adiantada, no seu carácter de condição vital.» (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 131-132; a letra negrita é posta por mim).

 

FEYERABEND NÃO SUBSTITUI A EPISTEMOLOGIA PELA RETÓRICA

 

Sobre o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, escreveu Carrilho:

 

«O passo dado por Kuhn, mas que só realmente Feyerabend dá, é o que conduz à substituição da epistemologia pela retórica: isto é, da justificação das teorias de um ponto de vista que lhes é exterior e se pretende a-temporal e a-contextual passa-se à sua avaliação em função da argumentação desenvolvida e do auditório a que ela se dirige.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Pág. 48; a letra negrita é posta por mim).

 

Longe de substituir a epistemologia pela retórica, contra o que Carrilho afirma, o que Feyerabend fez foi alargar o campo da epistemologia permitindo a entrada nele das ciências antigas e das práticas não ortodoxas como a astrologia, a magia ritual, a naturopatia, o culto religioso oficial, etc. Feyerabend não combateu todo o método científico mas apenas o monopólio de um método ensinado nas universidades, em particular nas faculdades de medicina, que subalterniza todos os outros métodos. Questionou, por exemplo, os cientistas que ridicularizam a eficácia da "dança da chuva" praticada por tribos primitivas:

 

«Onde está a teoria incompatível com a ideia de que a dança da chuva traz a chuva? (...) Não há um conjunto de observações que contradiga esta ideia. E, cuidado, não basta observar que as danças da chuva fracassam hoje em dia. Uma dança da chuva deve executar-se com a preparação adequada e nas circunstâncias apropriadas, entre as que se encontram a antiga organização tribal e as atitudes mentais correspondentes.» (Paul K. Feyerabend, Dialogo sobre el metodo, Ediciones Cátedra, Madrid, Pág. 89).

 

Foi pela prática histórica - não pela retórica - que se verificou e se consagrou a dança da chuva como método eficaz para fazer chover em zonas semi desérticas ou de escassa pluviosidade. Feyerabend, um verdadeiro pragmático de mente aberta, advogou a pluralidade de métodos que possuam eficácia - mesmo que não possam ser explicados racionalmente - em lugar de um método único que faz enriquecer os homens eticamente maus que governam as universidades, os ministérios da saúde e das ciências e as indústrias que prosperam com esta ditadura "científica" em vigor em todos os países.

 

A FILOSOFIA FORNECE SOLUÇÕES, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ CARRILHO, QUE NÃO FAZEM DESAPARECER O PROBLEMA

 

Na linha de um Popper e de um Rorty, Carrilho constitui a filosofia , essencialmente, como o lado interrogativo-crítico, indagador do pensamento humano. Escreve:

 

«Expus já em Jogos de Racionalidade (Asa, 1994 em particular no capítulo 3) o modo como se pode pensar a filosofia dispensando a muleta do método e dissipando o nevoeiro das soluções. O que a filosofia, nesta perspectiva, faz é problematizar o mundo, porque é na tensão problemática que - na medida em que o problema traduz sempre uma dissonância entre o homem e o mundo - se traduzem os esforços de compreensão, de transformação ou de interrogação dos homens. Seja qual for a matriz pela qual elas se orientem (cientista ou pragmática, hermenêutica ou epistemológica, por exemplo) os problemas são tematizados através de dispositivos retórico-argumentativos que permitem sugerir, hipotética ou conclusivamente, as respostas que julguem as mais adequadas. Mas respostas não são soluções, porque o que caracteriza uma solução é que ela faz - e é justamente nisso que consiste o método científico - desaparecer o problema, o que não acontece em filosofia.» (Manuel Maria Carrilho, O que é a filosofia, Pág. 103; a letra negrita é posta por mim).

 

Não pode haver filosofia sem método. Como pode então Carrilho dispensar «a muleta do método»? O método é o modo como se filosofa. É evidente que não há um só método em filosofia mas diversos métodos específicos.

O problema é indissociável da solução, ainda que esta seja provisória e verosímil. Estabelecer a  dicotomia resposta-solução carece de exactidão: todas as soluções são respostas embora o inverso não seja verdadeiro. Carrilho esquece o outro lado da filosofia, a vertente sem a qual não seria filosofia: a construção meta-empírica de conceitos, de cenários, a teoria simultaneamente racional e intuitiva. A filosofia postula, afirma: é na dialéctica hegeliana, o terceiro momento, o da síntese, mas Carrilho fica pelo segundo momento, o da antítese, pois aí estaciona o problematizar. Se a filosofia se limitasse a problematizar ficaria muito incompleta, tal como o ficaria o método socrático se fosse apenas ironia - pôr à luz as incoerências de certas ideias e teses - e não comportasse a maieutica - dar à  luz a verdade, postular, edificar teses, conclusões. O dogmatismo não é exclusivo da ciência, pertence igualmente à filosofia que se prolonga para lá do horizonte visível, fora do campo visual panorâmico que constitui o tronco das ciências, naturais ou sociais.

 

FORMAL NÃO SE OPÕE A LOCAL 

 

Ao caracterizar a retórica de Toulman, Carrilho escreve:

 

«O que é importante é considerar não o carácter formal mas o carácter local dos argumentos, bem como a sua diversidade conforme aos campos em que a sua argumentação se exerce, configurando-se assim uma ideia de racionalidade que rompe com a estereotipada concepção que a identificava com o domínio da validade formal.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.78; a letra negrita é por mim colocada).

 

Seja esta dicotomia formal-local desenhada por Toulmin, ou por Carrilho, está errada. O formal não se opõe ao local: o que se opõe a este é o regional ou, mais ainda, o universal. Formal opõe-se a informal. No contexto local, há elementos formais e elementos informais. Carrilho não possui um pensamento verdadeiramente dialéctico, não determina com clareza os autênticos contrários. É apenas um exemplo da pequenez filosófica elevada às cátedras universitárias.

 

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