Sexta-feira, 23 de Abril de 2021
Equívocos no manual «Ágora 10º», da Porto Editora (Crítica de Manuais Escolares- LXII)

 

O manual de filosofia " Ágora 10", da Porto Editora, da autoria de Susana Teles de Sousa, Isabel Pinto Ribeiro e Rui Areal contém várias confusões conceptuais.

 

A TOLERÂNCIA NÃO É RELATIVA ÀS SOCIEDADES?

 

Expondo o argumento da tolerância, diz o manual:

 

«A tolerância é um valor objetivo, não é um valor relativo às sociedades. Se o juízo moral de que devemos ser tolerantes fosse apenas relativo à nossa sociedade, seria aceitável que outras sociedades fossem intolerantes. Mas isso é inaceitável. Por isso, esse juízo não é apenas relativo à nossa sociedade. »(...)

«O relativismo permite a existência de sociedades, que são intolerantes, que atentam contra o bem-estar do ser humano, e que são imunes à crítica. Mas não podemos tolerar sociedades que são, elas próprias, intolerantes

 

(Susana Teles de Sousa, Isabel Pinto Ribeiro e Rui Areal " Ágora 10", da Porto Editora, pág. 163; o destaque a negro é posto por nós).

A incoerência desta conceptualização é visível: opõe o conceito de objectivo entendido como universal e absoluto, invariável, ao conceito de objectivo como norma ou valor dominante em cada sociedade. Ora, objectivo pode ter estes dois sentidos, o de validade universal absoluta e o de validade dentro de uma só sociedade (por exemplo: é objetivo que na Bélgica o voto dos cidadãos em eleições nacionais é obrigatório).

 

Ao contrário do que o texto acima diz, a  tolerância é um valor relativo às sociedades além de, numa perspectiva platónica, ser um ideal universal como pretendem os autores. Aliás, mais abaixo, estes falam em sociedades intolerantes. Ora se estas últimas existem é porque há sociedades tolerantes, logo a tolerância é relativa a cada sociedade.

 

Quando no texto acima se afirma que «O relativismo permite a existência de sociedades, que são intolerantes, que atentam contra o bem-estar do ser humano, e que são imunes à crítica», a formulação é imperfeita: o relativismo, doutrina segundo a qual os valores variam de sociedade a sociedade ou de classe a classe social e de etnia a etnia dentro de cada sociedade, não permite, constata a existência de diversidade. Provavelmente, os autores interpretam relativismo como cepticismo nivelador («Não é possível chegar à verdade visto haver tanta diversidade»).

 

O SUBJETIVISMO RESPEITA AS DIFERENTES OPINIÕES? SÓ ALGUM, NÃO TODO.

 

Sobre o subjetivismo diz o manual:

 

«2.Argumento do respeito pela liberdade moral

«O subjetivismo promove o respeito entre as pessoas com convições morais diferentes. Na base da moralidade subjetivista está a liberdade de expressão dos sentimentos morais de cada um. Não há juízos morais objetivamente certos ou errados, porque todos são legítimos e exprimem apenas diferentes avaliações morais. Temos de aceitar e respeitar a expressão livre da individualidade de cada um, ainda que discordemos dela.»

 

(Susana Teles de Sousa, Isabel Pinto Ribeiro e Rui Areal " Ágora 10",  Porto Editora, pág. 153).

 

A definição aqui dada não exprime em toda a sua essência o que é subjetivismo, falseia este em parte. Subjetivismo é a teoria que sustenta que a verdade é íntima a cada pessoa e de algum modo ou em certa medida é intransmissível às outras pessoas. Ora há dois tipos de subjetivismo: monocêntrico e policêntrico.

 

Aquele que o manual define é o policêntrico: há múltiplos centros de verdade, um em cada pessoa, e temos de os respeitar a todos porque a verdade é fragmentada, variável pela individuação. Mas há o subjetivismo monocêntrico, dogmático, desafiador que se arroga como único detentor da verdade que os autores do manual e a filosofia analítica não concebem. Exemplo: «Vários políticos portugueses são seres reptilianos, annunaki, com um duplo código genético, humano e réptil, e, em privado, transformam-se em lagartos gigantes, só eu tenho esta intuição, subjetiva e verdadeira, todos os outros   não pensam assim porque são subjetividades enganadas pela matrix ou realidade aparente.»

 

NENHUM TEMA VERDADEIRAMENTE FRACTURANTE COMO SERIA EXIGÍVEL EM FILOSOFIA

 

Estes manual e estes autores são meros instrumentos de propaganda da redutora filosofia oficial: a filosofia analítica, com a sua errónea lógica proposicional (só mentes estúpidas dizem que «Vou ao Porto ou vou a Lisboa» é diferente na estrutura lógica de «Ou vou ao Porto ou vou a Lisboa»). Fazem o discurso politicamente correcto, longe dos "extremismos", se exceptuarmos a dúvida hiperbólica cartesiana ou a teoria das conjecturas e refutações de Karl Popper. Não são filósofos mas funcionários de uma medíocre filosofia com a qual moldam a mente de alunos inteligentes.

 

Nenhum texto sobre astrologia histórica e não falta assunto filosófico: se o Partido Socialista venceu as eleições legislativas de 25 de Abril de 1983, com Júpiter em 9º do signo de Sagitário, e venceu as eleições legislativas de 1 de Outubro de 1995, com Júpiter em 10º do signo de Sagitário, e venceu as eleições de 6 de Outubro de 2019, com Júpiter em 18º-19º do signo de Sagitário, poderá dizer-se que Júpiter no signo de Sagitário (arco de 240º a 270º do Zodíaco) gera necessariamente vitórias do PS?

 

Nenhum texto questionando a vacinação e é tão oportuno fazê-lo.David Icke escreveu. «O processo de fabricação de vacinas inclui o uso de macacos, embriões de frangos e fetos humanos, além de estabilizadores como a estreptomicina, o cloreto de sódio, o hidróxido de sódio, o alumínio, o cloridrato, o sorbitol, a gelatina hidrolisada, o formaldeído,e um derivado do mercúrio chamado timerosal ...» (David Icke, «La conspiración mundial y como acabar con ella», Ediciones Obelisco, Barcelona, pag 819).

 

Os autores deste manual, como bons servos das multinacionais de farmácia, não contrapõem nada à teoria oficial.

 

Nenhum texto de Fernando Pessoa, poeta e filósofo da fenomenologia ou de outros pensadores portugueses metafísicos. Os autores deste manual de filosofia são estrangeirados, no mau sentido do termo. Não se dá importância ao que Pessoa escreveu:

«Não é possível uma futura civilização espanhola, nem uma futura civilização portuguesa. O que é possível é uma futura civilização ibérica formada pelos esforços da Espanha e de Portugal.»

«Todas as forças que se oponham a uma aliança, a um entendimento entre Portugal e Espanha devem ser desde já condenadas como inimigas. Essas forças são: os conservadores, sobretudo os católicos, e a Igreja Católica acima de tudo, que têm por ânsia íntima a união ibérica; a maçonaria, que é também estrangeira de origem, e é agora um organismo estranho metido na carne da Ibéria; a França, que com a sua cultura especial, tem envenenado, por excesso, a alma, ou as almas da Ibéria. A Inglaterra que politicamente tem espezinhado os países ibéricos.» (...)

«Para a criação da civilização ibérica é preciso a rigorosa independência das nações componentes dessa civilização. É um erro crasso supor que a fusão imperialista facilita a actividade civilizacional.»

 

(Fernando Pessoa, «Obra em prosa, Páginas de Pensamento Político-1, 1910-1919», Livros de Bolso Europa-América, páginas 135-136)

 

 

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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2021
Intersubjectivismo é relativismo?

 

Relativismo é o mesmo que intersubjectivismo? A filosofia analítica em voga define relativismo de forma duplamente errada.

 

Primeiro erro:  « É a corrente que sustenta que a verdade, os valores variam de país a país, de religião a religião e, por isso, não é possível chegar à verdade». Isto é adicionar a relativismo (variação dos valores e graus de verdade) o cepticismo (impossibilidade de chegar à verdade). É uma definição confusa. Eis um exemplo de relativismo não céptico: «No mundo há regimes políticos variados, ditaduras comunistas, ditaduras militares de direita e democracias parlamentares, estas últimas são os regimes preferíveis às outras». 

 

Segundo  erro: «É a corrente que sustenta que a verdade, os valores, variam de país a país e dentro de cada um destes é a verdade única  ou os valores homogeneamente partilhados por todos os estratos sociais». Exemplo: «Portugal é católico, a Arábia Saudita é islâmica, a Índia é hinduísta». Isto é negar a diversidade de valores (relativismo) no seio da mesma sociedade. Há valores capitalistas no seio dos EUA («Ganhar dinheiro e investir na bolsa, comprar um bom carro descapotável. etc.) e valores anti capitalistas «hippies» nos EUA («Viver no campo e cultivar a terra, não frequentar as escolas institucionais, praticar a troca de casais no seio da comuna», etc.) Há uma boa quantidade de ateus e agnósticos em Portugal como na Índia, tal como há milhares de pessoas que, dissonantes da medicina oficial que tudo controla (televisão, ministérios, presidência da república, programas escolares, etc.)sustentam que «vacinar é introduzir doença no organismo, a fase crónica e surda da doença, como sustentou o virologista Julius Tissot, e a imunização não existe, é uma ficção de mentes estáticas».

 

O que é intersubjetivismo? É a teoria que sustenta que a verdade, os valores,  são os mesmos não para a humanidade inteira mas para grupos de pessoas, classes sociais, etnias, etc. Por exemplo, a intersubjetividade ou consciência/ crença  comum de milhões de católicos inclui a tese de que Jesus Cristo está presente na hóstia consagrada e a tese de que é útil rezar pelas almas do purgatório ao passo que a intersubjectividade consciência/ crença  comum de milhões de ateus é a tese de que não há Deus, nem deuses, nem reencarnação, nem paraíso/nirvana, purgatório ou infernos, nem almas e espíritos no «Além» mas que a vida humana se extingue com a morte física. 

 

Assim, o intersubjectivismo é, em regra, uma modalidade do relativismo, tal como o subjectivismo e uma grande parte do objectivismo ( objectivismo e intersubjectivismo são como argolas presas uma à outra, interpenetram-se em certa medida). Mas há um intersubjetivismo que é absolutista, isto é, não relativista. Exemplo: a corrente  hinduísta que diz que tudo - os prazeres da comida, da bebida, do sexo, da conversação, da posse de casas, belos automóveis, etc. - é veu de Maya, ilusão, e que a única realidade, oculta, é o Brama, o Senhor Absoluto.

 

há um relativismo objectivista que não implica intersubjectividade porque constitui a própria essência das leis da natureza. Exemplo: a lei da gravidade terrestre funciona até certo ponto de altitude no caso das naves espaciais, ela desaparece e verifica-se a gravidade zero em órbitas terrestres circulares situadas a uma altitude de 500 quilómetros,isto é, uma esfera metálica lançada da nave espacial em vez de cair em direção à Terra entraria em órbita circular. Isto é relativismo (variação da ação da gravidade) objectivista (não é uma percepção subjectiva ou intersubjectiva, é uma realidade exterior, a mesma para todos).

 

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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
Questionar José Trindade Santos: fluxismo, sensismo e relativismo

 

No prefácio ao «Teeteto», José Trindade Santos expõe o seu estudo em que destaca os conceitos de fluxismo, sensismo e relativismo. Escreve sobre este importante texto de Platão que, a meu ver, inaugura a fenomenologia na Antiguidade:

 

«O exemplo da cor que não está nos olhos nem nas coisas, gerando-se entre ambos, concretiza a teoria de diversas perspectivas. Em primeiro lugar a cor não é em si, no sentido em que não é algo definido, que se acha em qualquer lugar concreto, pois resulta do impacto de um certo movimento no olho (153e-154a). Em segundo lugar, não é "uma coisa" "algo" ou de certo modo . Portanto não poderá aparecer a mesma a diversos sentintes ou até ao mesmo sentinte, pelo facto de resultar de concurso de distintos percipiente e percebido já que nem aquele será do mesmo modo, de si para si.»

 

«Vemos assim que a ontologia fluxista - tudo é movimento - não só constitui uma boa explicação da epistemologia relativista - as coisas são para cada um como lhe parecem - como a ultrapassa, a ponto de a reconfigurar por completo. Inicialmente, a dificuldade era a de compatibilizar as diferenças na percepção (aisthêsis) de um mesmo percepcionado (aisthêton) por diversos sentintes (aisthanomenoi) com a infalilibilidade, requerida pela equação da percepção da percepção com o saber.»

(José Trindade Santos, in prefácio de Teeteto, de Platão, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.62-63; o bold é acrescentado por nós).

 

«Mas não há continuidade entre as duas doutrinas, pois a coerência e consistência do sensismo nada devem ao relativismo. "As coisas não podem ser para cada um como lhe parecem", porque não há "coisas", não há "cada um", nem nada que se assemelhe a parecer. O sensismo constitui a epistemologia possível num real submetido a um fluxo infrene, totalmente alheio a uma operação cognitiva. (ibid pág. 171; o destaque a bold é nosso).

 

E Trindade Santos define assim o sensismo:

«É o princípio sensista (PS) de acordo com o qual nada há além da percepção, constituindo "percipiente", "percebido" e "percepção" meras referências (154 a-b; 156-e- 157c, vide 1823b).»

«A fundamentá-lo encontramos apenas o "princípio fluxista" (PF) segundo o qual a realidade se reduz ao movimento, sem que seja possível dizer "o que" se move, pois careceria de identidade (152d).»

 

(José Trindade Santos, in prefácio de Teeteto, de Platão, Fundação Calouste Gulbenkian, pág 70; o bold é acrescentado por nós).

 

Convém dizer, ao invés do que acima escreveu Trindade Santos, que o sensismo - o ser reduz-se a um fluxo de sensações - é uma modalidade do relativismo, entendido como teoria que sustenta que a verdade varia incessantemente com as épocas, os lugares, as classes sociais, as etnias religiosas e políticas, etc. Trindade Santos interpreta relativismo como variação da percepção de indivíduo para indivíduo e parece não conceber que, ao contrário do que diz, não há trânsito do relativismo para o sensismo uma vez que este último é, em si mesmo, relativismo. Relativismo, no sentido que Trindade Santos lhe dá,  pertence ao género sociognosiológico (quem ou quantos conhecem...) e sensismo pertence ao género ontognosiológico ( o quê, o que se conhece). Mas relativismo em sentido mais amplo, teoria de que a  verdade não é absoluta, mas varia, pertence ao género modalidade ontológica( ser estático, ser mutável) engloba o sensismo, o fluxo das sensações, a impermanência sensorial que, no século XVIII, David Hume retomaria no seu fenomenismo de impressões de sensação em fluxo e de  ideias sem objecto real no mundo exterior.

Sensismo não se opõe a relativismo. O sensismo fluxista é relativismo e o sensismo imobilista - se é que tal posição existe; corresponde a imobilizar a imagem de um vídeo, a ver sempre algo imóvel eimutável - é absolutismo.

 

ONTOLOGIA SENSISTA OU EPISTEMOLOGIA SENSISTA?

 

Uma primeira questão é saber se é lícito usar o termo ontologia sensista. Trindade Santos usa-o tal como usa, com mais propriedade quanto a nós, o termo epistemologia (teoria do conhecimento) sensista. Ora a sensação permanece sempre na esfera da gnosiologia, não constitui ser, não é ontológica.

 

Quanto à designação de ontologia fluxista não a contestamos. Apenas destaco que fluxismo não é o ser mas um modo intrínseco ao ser. O ser é: matéria exterior em si mesma (realismo), matéria interior ao espírito, ideia (idealismo), correlação matéria em si-espírito humano (fenomenismo /fenomenologia) sob a égide do cepticismo. José Trindade Santos está certo quando afirma:

 

«Neste contexto, a análise do fluxo não parece servir qualquer propósito construtivo, limitando-se a mostrar que um mundo dominado pela fenomenologia fluxista não alberga um mínimo de estabilidade que lhe permita ser acessível à percepção, logo, à linguagem e ao saber. (José Trindade Santos, in prefácio de Teeteto, de Platão, Fundação Calouste Gulbenkian, pág.106-107).

 

É necessário frisar que o fluxismo não conduz necessariamente a uma «ontologia» sensista. O materialismo dialético, tal como a doutrina de Heráclito, é fluxista, considera que todas as coisas estão em devir, em perpétuo fluxo, mas sustenta uma ontologia realista, isto é, há um mundo de objectos materiais para lá da consciência do sujeito, independente desta e anterior a ela. O fluxisno não é por si só uma ontologia mas um modo de ser desta. Contrapõe-se a imobilismo. Fluxismo pode conduzir a três ontologias distintas: realismo, idealismo ou fenomenismo/fenomenologia. O sensismo ou empirismo sensista- a realidade exterior não passa de um fluxo de imagens sensoriais - é uma espécie acidental, isto é, não contida na totalidade dentro do género fenomenismo. Há um fenomenismo sensório-intelectual - o de David Hume - que reduz a realidade exterior a um fluxo de imagens e ideias e que pode ser interpretado como idealismo.

  

E relativismo tem dois sentidos, o que não é clarificado por Trindade Santos: um deles, no género sociológico, é o de cada homem ou grupo de pessoas ver a realidade e os valores de forma diferente de outros homens ou grupos de pessoas;  o outro é o da mutação incessante da realidade em si mesma.

 

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Sexta-feira, 8 de Julho de 2016
O relativismo contradiz-se?

Antes de mais, o que é o relativismo ? É a concepção segundo a qual a verdade, seja a realidade material ou as teorias sobre ela, é relativa, emite raios de diferentes dimensões para diversas áreas do ser ou do conhecimento ou mede estas áreas com raios de diferentes dimensões e valorações.

O relativismo não é, em si mesmo, cepticismo. Não é, em si mesmo, relativo. Relativismo é uma noção absoluta e como tal não varia, não se contradiz, obedece ao princípio da identidade. Representa variabilidade mas, em si mesmo, é invariável. É um dogma absoluto que toda a verdade moral, política, religiosa, científica, artística, é relativa à época, à sociedade, à classe social, à etnia - neste sentido o relativismo é inatacável e invariável na sua forma essencial. O que varia é a forma acidental, existencial, do relativismo.  A forma acidental ou concreta do relativismo é um sair fora de si do absoluto da definição. E é verdade que as doutrinas ou verdades relativas, sectoriais - exemplo: o combate entre o ateísmo e a crença religiosa- se combatem entre si, se contradizem, mas isso não é o relativismo que se contradiz pois este constitui a sinopse, o quadro global dos diferentes matizes. O relativismo é como uma roda da bicicleta cujos raios estivessem todos pintados de tonalidades diferentes.

 

O absoluto do relativismo é a tese de que tudo varia e o relativo do relativismo são as formas concretas que ele assume: comunismo, liberalismo, social-democracia são expressões do relativismo sócio-económico; doutrina corpuscular da luz versus teoria ondulatória da luz são expressões do relativismo cosmofísico;  teísmo, ateísmo, deísmo e panteísmo são expressões do relativismo (ar)religioso;

 

O cepticismo anda encostado ao relativismo mas não se confundem. O cepticismo nasce no interstício entre duas emanações dogmáticas diferentes no mesmo tema. Exemplo: o casamento monogâmico cristão, ao ser comparado com o casamento aberto dos swingers e com o casamento poligâmico faz nascer a dúvida (cepticismo) sobre qual será o melhor modelo de casamento. Estão próximos mas são distintos. O relativismo é ontognosiológico, o ceticismo é meramente gnosiológico. Assim, o relativismo é dogmático flexível.

 

No relativismo, a forma geral permanece a mesma - a verdade é um mosaico - o que muda é o conteúdo das partes.

 

 

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Sexta-feira, 17 de Junho de 2016
Equívocos na prova 714 de exame nacional de Filosofia, de 15 de Junho de 2016

 

 

O exame nacional de filosofia, prova 714 /1ª fase,  de 15 de Junho de 2016, apresenta inconsistências na formulação das questões de escolha múltipla, que pedem selecionar uma só «resposta correta» de entre quatro hipóteses, a exemplo de outros anos. Vejamos alguns exemplos extraídos da versão 1 da prova.

 

GRUPO I 

5. Considere as frases seguintes.

1. O italiano é a língua oficial da Itália.

2. Todos os sólidos ocupam espaço.

É correcto afirmar que:

(A) ambas exprimem conhecimento a priori.

(B) ambas exprimem conhecimento a posteriori.

(C) 1 exprime conhecimento a priori, 2 exprime conhecimento a posteriori.

(D) 1 exprime conhecimento a posteriori, 2 exprime conhecimento a priori.

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta D a única correta.

 

Crítica: Não há resposta absolutamente objectiva e única a esta questão. É erróneo dizer que só uma destas hipóteses é correta e as outras erradas. Um empirista puro, como David Hume, dirá que todo o conhecimento é a posteriori e subscreveria como certa a hipótese B: na verdade, saber o que é a Itália implica um conhecimento proveniente da experiência, isto é a posteriori, exige ver o mapa do país com a forma de bota e ver imagens de Roma, Florença, Veneza, etc. E o facto de o italiano ser a língua da Itália é extraído da experiência porque, por hipótese, poderia ser a língua latim ou a língua inglesa o idioma oficial da Itália. De igual modo, um tal empirista puro diria que só pela observação a posteriori de cubos, esferas e outros sólidos se conclui que estes ocupam espaço.

Um empiro inatista - ou empiro-racionalista - como Kant diria que a hipótese D é a correcta: um juízo que fala da Itália, país que é um fenómeno, um objecto empírico, é a posteriori mas um juízo de geometria pura como «todos os sólidos ocupam espaço» é a priori, formado pelo entendimento puro sem recurso às sensações, ao ver ou tocar esferas ou cubos físicos, palpáveis, recorrendo apenas à intuição pura de espaço e de figuras geométricas. Os autores do exame considera, correta esta última resposta D

 

Vejamos outra questão.

 

6. Suponha que um vendedor incentiva um cliente a comprar um telemóvel nos seguintes termos.

 

«Eu, no seu caso, comprava este telemóvel. Pode parecer um pouco caro, mas os seus colegas vão de certeza ficar cheio de inveja, pois este modelo não está ao alcance de qualquer um e é o escolhido por pessoas que já têm um certo estatuto. Assim, até vai atender as chamadas dos seus amigos com mais gosto».

Este discurso é uma tentativa de

(A) persuasão racional, pois são apresentadas razões que permitem uma avaliação objetiva do produto.

(B) persuasão por meio de manipulação, pois pretende-se convencer apelando unicamente às emoções.

(C) persuasão racional, pois os factos apresentados nas premissas são evidentes e todos os reconhecem.

(D) persuasão por meio de manipulação, pois incentiva as pessoas a consumirem bens dispensáveis.

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta

 

Crítica:duas respostas corretas e não apenas uma como pretendem os autores do exame: a B e a D. Há, decerto, manipulação por via das emoções (vaidade, inveja)  no texto do vendedor acima mas há igualmente um incentivo a consumir um bem dispensável, um telemóvel caro.

 

Passemos a outra questão.

 

7. Os relativistas acerca dos valores defendem que:

(A) a correção dos juízos de valor depende da cultura e, assim, o que é correto numa cultura pode não o ser noutra.

(B) todos os valores são relativos e, por isso, nenhum juízo de valor é correto ou incorreto.

(C) nenhuma cultura tem valores coincidentes com os valores de outra cultura.

(D) a correção dos juízos de valor depende inteiramente do que é aprovado nas sociedades mais evoluídas

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta.

 

Crítica: há duas respostas corretas, A e B, ainda que a A seja mais perfeita que a B. Esta última exprime a posição de uma parte dos relativistas, aquela que desemboca no ceticismo, no nivelamento igualitário de todas as culturas.

 

O que é o relativismo? É a doutrina que diz que a verdade, os valores variam de época a época, povo a povo, cultura a cultura, classe a classe social, etc. E é só isto. A alínea A da versão 1 (a correção dos juízos de valor depende da cultura e assim o que é correto numa cultura pode não o ser noutra) é a definição correcta de relativismo.

 

A alínea B (todos os valores são relativos e por isso nenhum juízo de valor é correto ou incorreto) mistura duas definições: relativismo e ceticismo.

 

Se eu digo «No mundo há democracias liberais, fascismos, ditaduras comunistas, os regimes políticos são relativos, mas eu acho que o melhor é a democracia» estou a ser relativista sem ceticismo, com dogmatismo, estou a diferenciar. A igreja católica romana que há séculos era absolutista («ninguém se salva fora da igreja de Roma») evoluiu para um relativismo diferencial, não cético; «Pode haver salvação no budismo ou no hinduísmo, as crenças em Deus são relativas às áreas geográficas, povos, etc.,  mas a melhor religião é a de Nosso Senhor Jesus Cristo centrada no Vaticano, nem todas valem o mesmo».

 

Ora este relativismo diferencial só está implícito na alínea A da versão 1, mas é negado pela alínea B.

 

Consideremos outra questão.

 

10. Kuhn considera que há períodos de consenso e períodos de divergência na comunidade científica. O fim de um período de consenso e a consequente entrada num período de divergência devem-se

(A) ao aprofundamento do paradigma.

(B) à acumulação de anomalias.

(C) à resolução de enigmas.

(D) à atitude crítica própria da ciência normal.

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta

 

Crítica: há duas respostas corretas, A e B, e não apenas uma, a B. Não é só a acumulação de anomalias o motor da mudança de paradigmas. O aprofundamento do paradigma - surgimento de novas ideias que completam e desenvolvem o paradigma vigente - é outra fonte da revolução científica e abre, quase sempre, um período de divergências entre os cientistas. A teoria da relatividade de Einstein não comporta, originalmente, a noção de matéria escura (buracos negros como portas de um multiverso) mas discípulos de Einstein como Roger Penrose e Stephen Hawking aprofundaram o paradigma, acrescentando-lhe o conceito de matéria negra. Há aqui acumulação de anomalias? Mas este aprofundamento do paradigma instalou a divergência no seio dos astro físicos: por exemplo, Alan Grants e Ted Woods, materialistas dialéticos, não aceitam que a relatividade einsteiniana implique o multiverso.

 

O MÉTODO DA DÚVIDA NÃO É MÉTODO CRÍTICO? PORQUÊ DIFERENCIÁ~LOS?

Na questão 2 do grupo IV,  diz o seguinte:

Tanto Descartes como Popper consideram que a submissão das nossas crenças ou opiniões a um severo exame crítico é um aspecto central do método de procura da verdade. Porém, Descartes e Popper divergem quanto aos resultados da aplicação desses métodos.

Justifique as afirmações anteriores.

Na sua resposta explicite os aspectos relevantes do método defendido por Descartes e do método defendido por Popper.

A correção oficial desta prova diz o seguinte:

«Descartes recomenda o método da dúvida para procurar a verdade....

«Popper recomenda o método crítico para procurar a verdade...

Crítica minha: Esta nomenclatura é confusa. Então o método crítico de Popper não é um método da dúvida? Claro que é...A crítica pressupõe a dúvida e o dogma que sobrevive às dúvidas. E o método de Descartes não é um método crítico já que pressupõe a dúvida metódica e afirma dogmas como «Eu penso, logo existo», «Se em vez de um Deus verdadeiro existisse um génio maligno que me enganasse em tudo, eu não conheceria que o mundo é verdadeiro e de que modo o é» ? É óbvio que é...

 

Os autores desta prova de exame carecem de um verdadeiro pensamento de síntese, padecem de racionalidade fragmentária, isto é, de «ver a árvore e não ver a floresta». Estranho é que se repitam sempre os mesmos erros na concepção da prova de exame nacional de filosofia, erros que temos denunciado aqui em anos sucessivos.

 

Doutoramentos e mestrados em filosofia não dão garantias de pensamento correcto e criador. A docência universitária em filosofia, pública ou privada, está dominada por pequenos pensadores inflacionados socialmente pela retórica e a burocracia que confere títulos. A universidade é uma instituição de massas, onde o erro e uma certa mediocridade se infiltram, não é a cúpula do pensamento mais elevado.

 

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Domingo, 26 de Julho de 2015
Erros na prova 714 do exame Nacional de Filosofia de 21 de Julho de 2015

 

A prova 714 de exame nacional de filosofia, 2ª fase, de 21 de Julho de 2015, padece dos erros habituais nas questões de escolha múltipla. É o espelho da indigência teórica dos partidários da filosofia analítica que dominam a Sociedade Portuguesa de Filosofia e diversas cátedras em muitas universidades portuguesas. Vejamos alguns exemplos de perguntas mal construídas em que se garante haver apenas uma hipótese correcta entre quatro.

 

«2. Para um relativista, a liberdade de expressão será um valor:
(A) se tiver uma justicação objetiva.
(B) se resultar de uma escolha imparcial.
(C) se gozar de aprovação social.
(D) se for uma preferência informada.

 

Crítica minha: a questão está em absoluto mal formulada. Dependendo do que se entende por relativista, todas as respostas estão correctas, não são incompatíveis. Não há uma definição unânime de relativismo, entre os filósofos e os professores de filosofia. O que é relativismo? Para Simon Blackburn, Peter Singer, Luís Ribeiro e os pensadores analíticos relativismo é um cepticismo, uma doutrina segundo a qual, por exemplo, o catolicismo, o islamismo, o budismo e o ateísmo valem o mesmo no plano do valor de verdade, e um dogmatismo nacional, por exemplo, o valor «o capitalismo liberal é mau» é verdadeiro em todas as camadas sociais na Coreia do Norte, marxista-leninista, mas é falso nos EUA.. A frase «se for uma preferência informada» é uma expressão técnica dos analíticos que não é obrigatório os alunos saberem. Se eu fosse convidado a elaborar uma prova de exame nacional da filosofia que incluísse a teoria de Platão com conceitos como os três mundos de Platão, arquétipo, reminiscência, ascese, indicaria previamente o significado destes termos. O autor desta prova evidencia uma visão sectária e confusa. Uma coisa é ensinar a pensar com clareza outra é propagar a estupidez com pseudo-raciocínios.

 

Vejamos outra questão, cotada em 5 pontos.

 

«3. A maximização da utilidade, defendida por Mill, obriga a:
(A) dar prioridade às pessoas que nos são mais próximas.
(B) considerar imparcialmente o bem de cada pessoa.
(C) valorizar mais a comunidade do que o indivíduo.
(D) satisfazer apenas o nosso interesse próprio racional.»

 

Crítica minha: há duas respostas correctas, a B e a C, e não uma só como apontam os critérios de correção da prova. De facto, Mill teoriza que se considere imparcialmente o bem de cada pessoa: «Porque o utilitarismo exige a cada um que, entre a sua própria felicidade e a dos outros, seja um espectador tão estritamente imparcial como desinteressado e benevolente- No aureo preceito de Jesus de Nazaré lemos todo o espírito da ética da utilidade. Proceder como desejaríamos que procedessem connosco e amar o próximo como a nós mesmos - eis o ideal de perfeição da moral utilitarista ». (John Stuart Mill, Utilitarismo, Editora Atlântida, Coimbra, 1961, pág. 34).

 

Passemos à questão 4.

 

«4. A perspetiva ética de Mill enfrenta a objeção seguinte.
(A) Temos de ser responsáveis pelas consequências do que fazemos.
(B) Dar sempre prioridade à felicidade geral é demasiado exigente.
(C) É errado não dar prioridade aos interesses da maioria das pessoas.
(D) A felicidade não pode ser uma questão meramente quantitativa.»

 

Crítica minha: há duas respostas correctas, a B e a D, e não apenas uma como pretende o autor da prova (Luís Rodrigues? Ricardo Santos? Pedro Galvão? Outro?). De facto uma das objeções ao princípio de Mill de que a felicidade deverá ter um carácter de satisfação da maioria é a dos anti utilitaristas liberais, dos existencialistas defensores do individualismo radical que proclamam que «dar sempre prioridade à felicidade geral é demasiado exigente, há que respeitar a prioridade do egoísmo pessoal».

 

(artigo em construção: continua) 

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Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2015
Aires Almeida e Desidério Murcho: janelas para a confusão

 

 Em «Janelas para a filosofia», Aires Almeida e Desidério Murcho, autores de manuais escolares do 10º e 11º ano de escolaridade em Portugal, membros influentes do «lobby» da filosofia analítica que inclui Ricardo Santos, João Branquinho, Pedro Galvão, Sara Bizarro e outros académicos, ensaiam uma exposição sobre os problemas centrais da filosofia. Acontece que as janelas que aqueles dois autores abriram dão para o pátio da sofística e, acidentalmente, para a planície vasta da filosofia, olhada de viés, neste livro.

 

UMA EQUÍVOCA DEFINIÇÃO DE RELATIVISMO

 

Um dos erros teóricos de Almeida e Murcho patentes neste livro, seguindo aliás o célebre Peter Singer, é o seu conceito de relativismo. Escrevem:

 

«1. Relativismo

«O relativismo defende que os juízos de valor são relativos às sociedades. Quando uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor não pode estar enganada. Isto contrasta com os juízos de facto...» (Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 40; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

Esta definição é parcialmente incorrecta: diz que os juízos de valor variam de sociedade para sociedade, o que é verdade, em princípio, mas oculta ou escamoteia o facto de relativismo ser a variação de valores no interior de uma mesma sociedade, segundo as classes sociais, os grupos políticos, religiosos e artísticos.  É relativismo haver em Portugal uma lei que consagra o casamento de gays e lésbicas e uma maioria social que condena este tipo de casamento, é relativismo haver dentro da mesma sociedade portuguesa defensores dos valores de esquerda e defensores dos valores de direita, religiosos católicos, islâmicos, budistas, agnósticos e ateus,etc.

 

A frase «Quando uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor não pode estar enganada», incluída na definição de relativismo, é um verdadeiro absurdo. É apresentar relativismo como um dogmatismo absolutista e prova a debilidade do pensamento de Aires Almeida e Desidério Murcho, pseudo-filósofos que fazem «copy paste» de Simon Blackburn, de Peter Singer e outros. Eles não pensam: dizem coisas sem nexo como, por exemplo, que "segundo o relativismo, uma sociedade não pode estar enganada ao condenar ou aceitar algo"...

 

A PSEUDO-REFUTAÇÃO DA DEFINIÇÃO DE CONHECIMENTO COMO «CRENÇA VERDADEIRA JUSTIFICADA»

 

Edmund Gettier refutou, aparentemente, a definição clássica de conhecimento como «crença verdadeira justificada». Almeida e Murcho dão razão a Gettier e escrevem:

 

« Vejamos um exemplo diferente do de Gettier mas que estabelece o mesmo resultado filosófico. A Rita é apreciadora de carros antigos e tem reparado no Citroen boca-de-sapo estacionado num dos lugares reservado à administração, na garagem do edifício da empresa onde trabalha. Ela forma a crença de que um dos administradores da empresa tem um boca-de-sapo. Algum tempo depois, a Rita veio a descobrir, com grande surpresa, que o boca-de-sapo que viu era afinal de um morador daquela zona que se aproveitava para estacionar discretamente ali o seu estimado carro. O morador oportunista só tinha conseguido estacionar ali o seu cargo simplesmente porque o segurança julgava ser o boca-de-sapo de colecção que, por coincidência, a administradora Paula possuía. Até ter sido apanhado».

«O que mostra esta história? Em primeiro lugar, mostra-nos que a Rita formou uma crença verdadeira: que um dos administradores tem um boca-de-sapo. Em segundo lugar, que a Rita tem uma justificação razoável para esta crença: ela própria viu um boca-de-sapo vários dias estacionado num lugar onde apenas podem ser estacionados veículos dos administradores.(...) Parece, pois, que a Rita tem uma crença verdadeira justificada mas não tem conhecimento. Isto parece mostrar que não basta que uma crença verdadeira esteja justificada para haver conhecimento.»(Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 180-181; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

Qual é o erro de raciocínio de Gettier, de Almeida e Murcho relativo a este exemplo da Rita?

 

É o facto de considerarem que a Rita tinha uma crença verdadeira justificada ao saber que uma administradora tinha um Citroen boca-de-sapo e que um destes automóveis estava estacionado no lugar reservado junto ao edifício da administração da empresa. Pobres Gettier, Almeida e Murcho!  A Rita não tinha uma crença verdadeira justificada porque não conhecia a matrícula do boca-de-sapo da administradora Paula e, portanto, não podia garantir, com segurança que o boca-de-sapo, afinal pertença de um vizinho, pertencesse à administradora. Portanto, o argumento de Gettier/ Aires/ Desidério  é uma pseudo-refutação da tese de que o conhecimento  é crença verdadeira justificada: o conhecimento da Rita é insuficiente, não está justificado.

 

 

FALTA DE CLAREZA SOBRE O QUE SÃO OBJECTIVISMO E VALORES OBJECTIVOS

 

Escrevem Almeida e Murcho:

«Valores objectivos

«O objectivismo defende que alguns valores são objectivos (e não que todos o são). Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto.» (Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 44; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O facto de ser falível  a condenação por uma pessoa de um juízo de valor, isto é, o facto de uma pessoa se poder enganar nesse juízo, não acarreta que este juízo seja objectivo. A definição de objectivismo dada por estes autores é obscura. Afirmar que objectivismo é o facto de que« quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor pode estar enganada» é um absurdo. Desidério Murcho e Aires Almeida são incapazes de fornecer uma definição clara de objectivismo dos valores: metem-se por vielas escuras e obscuras do pensamento, onde não há a luz da clareza racional. Não sabem distinguir objectivismo intra-anima ( por exemplo: o número 7 só existe nas mentes humanas mas é objectivo por ser comum a quase todas as mentes) de objectivismo extra-anima (por exemplo: o Mosteiro dos Jerónimos existe em Belém, como edifício de pedra, e é fisicamente objectivo).

 

Escrevem ainda no mesmo estilo retorcido de contornar as definições claras:

 

 

«Para compreender melhor o objectivista, temos de compreender melhor o próprio conceito de objectividade. Há várias concepções de objectividade, mas a mais relevante no que respeita à natureza dos valores considera que a imparcialidade é uma condição necessária da objectividade. O que isto significa é que os juízos de valor que são objectivos são imparciais. Por exemplo, imaginemos que a Daniela defende o juízo de valor de que quem tem olhos azuis deve ter mais direitos do que os outros. Quando lhe perguntamos porquê, responde, com toda a honestidade, que tem olhos azuis, e por isso essa medida iria beneficiá-la. É óbvio que a justificação do seu  juízo de valor não é imparcial»

(Aires Almeida, Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 44; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Há aqui incoerências: Desidério e Aires falam em haver vários conceitos de objectividade, mas não explicitam mais que um, a imparcialidade, e isto é vaguismo; os juízos de valor objectivos não são imparciais, porque são juízos de valor, mas estes dois autores proclamam a sua imparcialidade; o exemplo da Daniela e do seu juízo parcial de favorecer quem tem olhos azuis está envolto numa nuvem de ambiguidade, não se percebe, com clareza, se ilustra o objectivismo ou o subjectivismo dos valores. 

 

Almeida e Murcho não pensam dialecticamente, escarnecem da autêntica filosofia: escrevem de forma elíptica, rodeando o cerne dos assuntos, à maneira dos filósofos analíticos actuais. São o exemplo da anti-filosofia entronizada nas universidades portuguesas e brasileiras e nas grandes editoras que as secundam. Que leva a Gradiva de Guilherme Valente a editar estes frágeis pensadores?  Ah, pois: o professor Aires Almeida é o responsável da secção de filosofia da editora Gradiva...Pode ser um pensador medíocre, mas tem poder editorial.

 

Se querem mergulhar na confusão e citar definições erróneas, no todo ou em parte, assimilem e citem acriticamente o conteúdo deste pobre livro «Janelas para a Filosofia».

 

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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014
Cuestionar a Hessen: ¿Subjetivismo, pragmatismo y relativismo son escepticismo?

 En su célebre tratado «Teoría del conocimiento» el filósofo alemán J. Hessen plantea las corrientes de gnoseología bajo cierta confusión. Escribió:

 

«El subjetivismo, el relativismo y el pragmatismo son, en el fondo escepticismo. La antítesis de éste es, como hemos visto, el dogmatismo. Pero hay una tercera posición, que resolvería la antítesis en una síntesis. Esta posición intermedia entre el dogmatismo y un escepticismo se llama el criticismo (...) El criticismo comparte con el dogmatismo la fundamental confianza en la razón humana. El criticismo está convencido de que es posible el conocimiento, de que hay una verdad.» (J.Hessen, Teoría del conocimiento, Espasa Calpe Argentina, Buenos Aires-México, Tercera Edición, 1944, pág. 49; lo destacado en negrito es de mí labor).

 

Nadie consiguió discernir los errores conceptuales de Hessen en este passaje. El subjectivismo, doctrina según la cual la verdad es subjetiva, íntima, propria de un solo indivíduo, variable de persona a persona es un dogmatismo: tiene la certeza de que la verdad se circunscribe a cada persona y no es para nada objetiva, común. Es cierto que el subjetivismo para constituirse empleó el escepticismo - «Tengo dudas de que hay una verdad común y universal sobre lo que sea» - pero se assentó como um dogmatismo. Subjetivismo pertenece al género dogmatismo y no al género escepticismo porque afirma una certeza: la verdad es individualizada, variable según cada persona.

 

En modo similar, relativismo, doctrina según la cual la verdad es relativa, es decir, variable con las clases y grupos sociales, países, épocas, etc., - por ejemplo: «Díos es uno y trino para los cristiano», «Díos es solo uno y único para los musulmánes», «Díos es un espejismo para los ateos», «Díos es varios diosos diferentes para los hindús»- es un dogmatismo flexible, policentrico

 

En modo similar, pragmatismo, doctrina según la cuál la verdad se halla en las cosas visibles y tangibles, empiricamente demostrables y útiles, despreciando la metafísica y los ideales inalcançables - ejemplo, «soy pragmático, estaba enamorado de una chica locutora de televisión, muy deseada por millones de hombres, pero voy a casarme con la chica de una tienda de mi barrio, mucho más assequible que la locutora que, para mí, es inalcançable»»- es un dogmatismo, a veces combinado con algún escepticismo.

 

Hessen escribe sin la suficiente claridad:

 

« En la cuestión de la possibilidad de conocimiento, el criticismo es la única posición justa. Pero esto no significa que sea preciso admitir la filosofía kantiana. Es menester distinguir entre el criticismo como método y el criticismo como sistema. En Kant el criticismo significa ambas cosas: no sólo el método del que el filósofo se sirve y que se opone al dogmatismo y al escepticismo, sino también el resultado determinado a que llega con la ayuda de ese método.»

(J.Hessen, Teoría del conocimiento, Espasa Calpe Argentina, Buenos Aires-México, Tercera Edición, 1944, pág. 50; lo destacado en negrito es de mí labor).

 

Hessen postula que el criticismo es un  término medio entre dogmatismo y escepticismo. Pero no existe ese intermedio. Dogmatismo es como ser y cepticismo es como no ser, no hay mediación entre los dos: o crees en algp o no te lo crees. Cási todo es dogmatismo: el criticismo de Kant es un dogmatismo, puesto que asegura que el espacio y el tiempo son subjetivos, esto es, formas a priori de la sensibilidad y que el entendimiento se compone de 12 categorías o conceptos puros (unidad, pluralidad, totalidad, realidad, limitación, negación, etc.) y que la razón, sin conocimiento, prescruta el mundo incognoscible de los númenos (Díos, alma, libertad, mundo como totalidad). 

 

Hessen siguió erróneamente a Kant al postular la tríada dogmatismo-escepticismo-criticismo y la tríada racionalismo-empirismo-criticismo. El criticismo no es ninguna tercera posición autónoma, sino una modalidad del dogmatismo: el dogmatismo crítico sostenido por muchos filósofos desde la Antiguedad clásica. Por ejemplo, la teoría de Demócrito de que las cosas se componem de átomos indivisibles e invisibles rodando en el vacío ya era un criticismo, un dogmatismo crítico, un realismo crítico.

 

Kant cometió también una falacia al pretender situar el criticismo entre el racionalismo y el empirismo. Criticismo es idealismo crítico y está, sin duda, en una esfera diferente de la que se basa en la dicotomía racionalismo-idealismo y esta es la esfera gnoseológica. Criticismo/ Idealismo crítico está en la esfera ontológica, del ser, y no meramente en la gnoseológica, del modo de conocer,

 

 

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Sábado, 4 de Maio de 2013
Equívocos no manual «Reflexões, Filosofia 10º ano» da editora Asa (Crtica de Nanuais Escilares- LII)

 

O manual da ASA «Reflexões, Filosofia 10º ano» de Isabel Bernardo e Catarina Vale, tendo como consultor científico Alexandre (Franco de) Sá, contém vários erros teóricos.

 

DETERMINISMO NÃO É HAVER CAUSA ANTERIOR A UM FACTO

 

 

Não se encontra um único manual de filosofia para o 10º ou 11º anos de escolaridade que saiba definir correctamente determinismo. Este manual não é excepção:

 

«A conceção segundo a qual todos os acontecimentos resultam de causas que os antecedem chama-se determinismo.» (Isabel Bernardo e Catarina Vale,«Reflexões, Filosofia 10º ano», pagina 71, ASA).

 

Ora o determinismo não é isto. Diariamente, a cada passo, exerço o meu livre-arbítrio que é causa de acontecimentos mas isso não é determinismo. Exemplo: escolho sentar-me numa esplanada e pedir um chocolate quente em vez de um sumo natural e o acontecimento chocolate quente num copo irrompe depois na minha mesa, por mão do empregado, mas não foi, globalmente falando, fruto do determinismo; depois acedo ao interior do bar e decido conversar um ou dois minutos com a funcionária do balcão, essa conversa (acontecimento) não resulta do determinismo mas sim do meu livre-arbítrio e do dela.

 

O determinismo é, nas  mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzirem sempre os mesmos efeitos mas este princípio, tão simples de entender, não é enunciado nem por Thomas Nagel, nem por Peter Singer, James Rachels ou Neil Warburton nem pela generalidade dos professores de filosofia, cujo pensamento é muito superficial.

 

Corrijamos, através do pensamento dialéctico,  as autoras do manual e Alexandre Franco de Sá: a concepção segundo a qual todos os acontecimentos resultam de causas que os antecedem chama-se causalismo,  e é género de duas espécies, o determinismo e o indeterminismo.

 

O MULTICULTURALISMO NÃO ASSENTA NECESSARIAMENTE NO RELATIVISMO CULTURAL?

 

Escrevem os autores:

 

«O multiculturalismo defende que, dentro de um mesmo país, as diferentes culturas têm o direito de coabitar, aceitando-se assim a possibilidade de existirem dentro de um mesmo espaço político padrões de cultura diferentes. Por exemplo, um país cuja religião dominante seja a cristã e no qual sejam aceites práticas religiosas distintas: muçulmanas, judaicas, hindus ou outras.»

«O multiculturalismo pode ter na sua base (embora não tenha necessariamente) o relativismo cultural.

 

«Trata-se de uma posição que defende a tese de que cada povo e cada cultura têm sistemas de valores e padrões de culturas diferentes, que não devem ser julgados como bons ou maus a partir de nenhuma outra cultura e de que não pode haver, portanto, qualquer hierarquização de culturas como mais ou menos aceitáveis ou preferíveis.»

 

(Isabel Bernardo e Catarina Vale,«Reflexões, Filosofia 10º ano», paginas 126-127, ASA).

 

A definição de multiculturalismo está, basicamente, correcta mas a de relativismo não. Desconhecendo, possívelmente, o princípio dialético «um divide-se em dois», os autores do manual ignoram que há dois tipos de relativismo, doutrina segundo a qual a verdade ética, política, religiosa, estética., etc, varia de sociedade a sociedade ou de classe a classe ou grupo a grupo social:

 

1) Relativismo igualitarista, nivelador. Há, no mundo ou em cada sociedade nacional, diversidade de culturas, valores, logo não é possível hierarquizá-las entre si ao compararmos os diferentes padrões.

 

2) Relativismo não igualitarista, diferenciador. Há, no mundo ou em cada sociedade nacional, diversidade de culturas, valores, mas é possível estabelecer uma hierarquia entre os diferentes padrões. Exemplo: o padrão laicista da Maçonaria, ao aceitar colocar em plano de igualdade os agnósticos, os ateus e os crentes, os defensores e os adversários do aborto voluntário,  é superior ao padrão religioso dos católicos que proibe o aborto voluntário e este último padrão, católico, é superior ao dos fundamentalistas islâmicos que não permitem a construção de templos cristãos nos países em que reinam.

 

Os autores do manual apenas conhecem relativismo segundo a definição 1 e por isso, opõem-no a multiculturalismo mas a verdade é que todo o multiculturalismo é relativismo: nivelador ou diferenciador. Ao aceitar a coexistência de culturas diferentes num mesmo espaço social, o multiculturalismo relativiza a importância de cada uma das culturas, retira-lhes, em maior ou menor grau, o carácter absoluto e excludente.

 

UM JUÍZO ÉTICO IMPLICA UNIVERSALIDADE, COMO DIZ THOMAS NAGEL?

 

Após citarem Thomas Nagel na sua proposição de que «a base da moral é a crença de que o que é bom ou mau não apenas do seu ponto de vista, mas de um ponto de vista mais geral..» (Nagel, Que quer dizer tudo isto? Uma iniciação à filosofia) escrevem as autoras:

 

«O que Nagel quer dizer é que emitir um juízo ético, considerar uma acção boa ou má, implica passar dos interesses pessoais, e dos interesses dos que nos são mais chegados, para a consideração dos interesses de um ponto de vista universal, atribuindo-se a mesma importância aos interesses dos outros que se atribui aos nossos interesses.»

«Um juízo ético é, assim, a consideração sobre a correção ou incorreção de um acto, analisado de um ponto de vista universal.»

 

(Isabel Bernardo e Catarina Vale,«Reflexões, Filosofia 10º ano», paginas 145, ASA; o destaque em itálico é colocado por mim).

 

Há uma incorreção neste texto: o juízo ético não implica universalidade, mas sim comunidade (nacional, regional, local, de classe social ou casta). Os juízos éticos dos patrícios romanos esclavagistas eram juízos de classe, não tinham a pretensão da universalidade: «Chicoteio os meus escravos quando me apetecer, sou livre mas não concederei liberdade a nenhum deles».

O ethos implica sempre o outro, mas qual é a extensão desse outro? Pode ser a universalidade mas na maioria dos casos não é.

 

  

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Sábado, 29 de Setembro de 2012
A filosofia analítica não analisa bem o relativismo

 

Os filósofos analíticos, como Peter Singer ou John Searle, interpretam relativismo como relativismo transformado em cepticismo. O erro está espalhado universalmente. Assim se considera que «os relativistas não podem dizer, em coerência, que a cultura agnóstica europeia é superior à cultura islâmica ou a qualquer outra nem vice versa». E as provas de exame aos alunos do 11º ano de escolaridade reproduzem este paralogismo.

 

Eis o paradoxo: a filosofia analítica não analisa com clareza. Confunde o relativismo, doutrina segundo a qual os valores éticos, estéticos, científicos, políticos, religiosos, etc, variam de sociedade a sociedade ou de classe a classe social, com o cepticismo, doutrina que nada afirma, duvida. São duas posições diferentes. Uma não leva necessariamente à outra. Há relativistas não cépticos, de um dogmatismo diferenciador. Por exemplo: «Os valores éticos, políticos e religiosos variam de sociedade a sociedade, considero que os meus valores políticos europeus de democracia liberal, laicismo, são superiores aos valores políticos não europeus do fundamentalismo religioso, sou relativista, a maior parte da verdade está comigo e só uma pequena parte da verdade se aloja no fundamentalismo como, por exemplo, a assistência aos pobres e aos doentes.»  

 

Nós pensamos dialeticamente. Há três géneros - relativismo, cepticismo e dogmatismo - e intersectam-se da seguinte forma: o do meio, isto é, o relativismo engloba ou «argola» parte do cepticismo e parte do dogmatismo diferenciador. Os filósofos analíticos reduzem o relativismo ao cepticismo: confundem  o tronco do animal com a cauda. Só vêem um dos lados.

 

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