Domingo, 20 de Novembro de 2016
Crítica a Hessen: realismo volitivo não pode nivelar-se com realismo crítico

 

Johannes Hessen sustentou que há diversas formas de realismo e coloca-as todas ao mesmo nível: realismo ingénuo, realismo natural, realismo crítico, realismo volitivo. Escreveu no seu célebre tratado de gnoseologia:

 

«Entendemos por realismo a posição epistemológica segundo a qual há coisas reais, independentes da consciência. Esta posição admite diversas modalidades. A primeira, tanto histórica como psicologicamente, é o realismo ingénuo. Este realismo não se acha ainda influenciado por nenhuma reflexão crítica acerca do conhecimento.» (Johannes Hessen, Teoria do Conhecimento, Arménio Amado- Editor Sucessor, Coimbra, 7ª edição, 1978, página 93; o bold é posto por nós).

 

E continua Hessen:

«Diferente do realismo ingénuo é o realismo natural. Este já não é ingénuo mas está influenciado por reflexões críticas sobre o conhecimento. Isto revela-se no facto de que já não identifica o conteúdo da percepção e o objecto, mas sim distingue um do outro.» (...)

 «A terceira forma de realismo é o realismo crítico porque assenta em considerações de crítica ao conhecimento. O realismo crítico não acredita que convenham às coisas todas as propriedades inseridas nos conteúdos da percepção mas é, pelo contrário, da opinião que todas as propriedades ou qualidades das coisas que apreendemos só por um sentido, como as cores, os sons, os odores, os sabores, etc, existem unicamente na nossa consciência.» (Hessen, ibid, pag 94; o bold é posto por nós)

 

Finalmente, apresenta a quarta espécie de realismo, o realismo volitivo, que afirma que há mundo material fora de nós e que o percebemos pela nossa vontade de viver:

 

«Se fossemos puros seres intelectuais, não teríamos consciência alguma da realidade. Devemos exclusivamente esta à nossa vontade. As coisas opõem resistência às nossas volições e desejos, e nestas resistências vivemos a realidade das coisas. Estas apresentam-se à nossa consciência como reais, justamente porque se fazem sentir como factores adversos na nossa vida volitiva. A esta forma de realismo é costume chamar-se realismo volitivo. »

«O realismo volitivo é um produto da filosofia moderna. Encontramo-lo pela primeira vez no século XIX. Pode-se considerar como seu primeiro representante o filósofo francês MAINE DE BIRAN. O que depois mais se esforçou por o fundamentar e desenvolver foi GUILHERME DILTHEY.» (Johannes Hessen, Teoria do Conhecimento, Arménio Amado- Editor Sucessor, Coimbra, 7ª edição, 1978, página 101; o bold é posto por nós).

 

 

Esta seriação horizontal de modalidades do realismo, todas no mesmo plano, como se fossem extrínsecas entre si,  contém um erro. O erro de Hessen consiste em misturar o género ontognoseológico, que engloba o realismo natural e o realismo crítico, com o género fonte ou motor do conhecimento ( quinesognoseológico, poderia dizer-se), que engloba volição versus representação (espelhamento). São dois planos, dois géneros diferentes: o do ser-conhecer e o do ser-originar. Na verdade, pode haver um realismo natural voltivo e um realismo natural representativo (que reflecte, como um espelho, a realidade exterior). A volição ou vontade de viver e assimilar o mundo pode estar subjacente às três formas de realismo, ingénuo, natural e crítico. Volitivo opõe-se a não voltivo, a representativo ou perceptivo.

 

Volição e inteleção só são contrárias como modalidades do género fontes do conhecimento. O nivelamento, isto é, a colocação das diversas entidades ao mesmo nível dentro do mesmo género implica exclusão mútua. A tese de Aristóteles de que cada coisa só tem um contrário é absolutamente errónea. Por exemplo, a espécie homem tem como contrárias as espécies elefante, leão, abelha, cavalo e uma infinidade de outras. Dentro de um mesmo género, as suas componentes (correntes, espécies) são extrínsecas entre si. Volição e inteleção são colaterais na relação com as correntes do realismo - a introdução de um terceiro elemento numa relação pode transformar os contrários em colaterais - isto é, podem coexistir na mesma modalidade de realismo. A classificação de Hessen é mais um exemplo da ignorância da dialética que sempre reinou entre os filósofos, em particular da lei dos géneros e das espécies que o autor deste blog formulou.

 

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Sábado, 19 de Março de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano, turma A (Março de 2016)

 

Eis um teste de filosofia fora do estereótipo dos testes que os autores dos manuais escolares da Porto Editora, Leya, Santillana, Areal Editores, etc, divulgam. E sem questões de escolha múltipla que, frequentemente, são incorrectamente concebidas por quem não domína o método dialético e desliza para a horizontalidade da filosofia analítica vulgar.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

3 de Março de 2016. Professor: Francisco Queiroz.

 I

  “A lei do salto de qualidade está presente na passagem da percepção empírica ao respectivo conceito empírico. O mítico Adão Kadmon possui na essência a luta entre Yang e Yin. O totaliratismo, de direita ou de esquerda, parece coadunar-se com a moral utilitarista de Stuart Mill, num certo aspeto, e com o imperativo categórico de Kant, sob outro aspeto.”

 

1) Explique, concretamente este texto.

 

2)Escolha e caracterize (qualidade, número, cor, planeta) cada uma de cinco esferas da árvore dos Sefirós e distribua-as segundo a lei da contradição principal, enunciando esta.

 

3) Construa um diálogo sobre a propriedade e a gestão das empresas e sobre a democracia parlamentar entre um anarquista, um comunista leninista, um socialista democrático, um liberal, um conservador e um fascista.

 

4) Relacione, justificando:

A) Temura, Gematria e Metafísica.

B) Realismo natural realismo crítico e idealismo.

C)  Pragmatismo e cepticismo.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A lei do salto qualitativo postula que a acumulação lenta e gradual em quantidade de um dado aspecto de um fenómeno leva a um salto brusco ou nítido de qualidade nesse fenómeno. Acumulando percepções empíricas similares (ver um cavalo baio, ver um cavalo branco, ver um cavalo negro) chega-se a um salto qualitativo que é a formação da ideia ou conceito empírico de cavalo no intelecto  (VALE DOIS VALORES). O Adão Kadmon, mítico antepassado da humanidade, era andrógino, a sua metade direita era masculina e a metade esquerda feminina, por isso a sua essência é uma  luta entre Yang (fogo, luz, expansão, masculino, alto, crescimento) e Yin (água, escuridão, contração, feminino, baixo, diminuição)  (VALE DOIS VALORES). O totalitarismo, de direita (caso da ditaduras de Hitler e Mussolini) ou de esquerda (ditadura de Estaline ou de Kim Il Sung na Coreia do Norte) é todo o regime que suprime a autogestão e a democracia parlamentar, regime de liberdade de imprensa, greve, religião, associação política e sindical e impõe uma ditadura brutal de partido único, e não se coaduna com a filosofia da Stuart Mill porque este defendia que se deve agir visando proporcionar a felicidade à maioria das pessoas e a democracia é um regime de maiorias, em princípio, ao passo que o totalitarismo favorece a felicidade da elite ditatorial, uma minoria opressora da maioria. Também não se coaduna com o imperativo categórico de Kant porque este diz «Age de modo a considerares cada pessoa como um fim em si e não um meio» e o totalitarismo não respeita a individualidade de cada  um, não deixa falar e votar livremente(VALE TRÊS VALORES).

 

2) A lei da contradição principal diz que um sistema de múltiplas contradições pode ser reduzido a uma só, organizando-as em dois blocos, podendo haver uma ou outra contradição na zona neutra. Ora ao contemplarmos a árvore das 10 sefirós da Cabala podemos agrupar duas esferas do pilar direito - Chesed (Misericórdia, Júpiter, cor azul e número 4) e Netzac ( Vitória-Emoção, Vénus, cor verde e número 7) num bloco oposto a duas esferas do pilar esquerdo- Gueburah (Justiça, Marte, cor vermelha, número 5) e Hod (Intelecto, Mercúrio, cor laranja e número 8), ficando Thiphetet (Sol) na zona neutra, fora de ambos os blocos. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) Anarquista: «A propriedade das fábricas e de todas as empresas deve ser dos trabalhadores. Instituímos a autogestão, isto é, a assembleia geral de todos os operários, engenheiros e contabilistas toma decisões sobre salários, investimentos, vendas, etc. O patrão desaparece e desaparece o Estado de democracia parlamentar que não é mais que ditadura disfarçada dos capitalistas.»

Comunista: «A propriedade de todas ou quase todas as fábricas deve ser do Estado, dirigido por um partido marxista-leninista, que impedirá os patrões de extorquirem a mais valia à classe operária. A democracia burguesa que actualmente apoiamos, concorrendo às eleições e usando as liberdades, deve ser substituída pela ditadura do proletariado onde não há eleições livres nem imprensa livre como no capitalismo liberal».

 

Socialista democrático/ social-democrata: «A propriedade da grande maioria das empresas deve ser privada, isto é, estar na mão dos patrões que, em certos casos, devem aceitar a cogestão. Mas há empresas de sectores fundamentais - siderurgia, electricidade, televisão, etc - que devem estar na mão do Estado democrático. Este deve impor impostos progressivos aos capitalistas de modo a ter serviço nacional de saúde e escolaridade pública gratuita até ao final do curso universitário. Defendo a democracia parlamentar».

 

Liberal: «A propriedade das empresas deve ser privada pois os empresários são os criadores de emprego os motores primeiros da economia. Os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção deviam acabar ou ser reduzidos para estimular o mercado de trabalho. Defendo as privatizações, democracia parlamentar, a liberdade de imprensa, o capitalismo puro e duro.»

 

Conservador: «A propriedade das empresas deve ser privada pois os empresários são os criadores de emprego os motores primeiros da economia. Os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção deviam acabar ou ser reduzidos para estimular o mercado de trabalho. Defendo as privatizações, a democracia parlamentar, a liberdade de imprensa. Mas a democracia não deve permitir o aborto livre, o casamento de gays e lésbicas, a eutanásia: deve ser guiada por bons princípios religiosos, cristãos.»

 

Fascista: «As empresas devem ser de patrões nacionais e do Estado fascista e corporativo que, através da polícia política e da censura à imprensa impedirá a luta de classes, o sindicalismo livre, a imoralidade sexual. Não deve haver democracia parlamentar mas ditadura nacionalista que expulse a generalidade dos imigrantes e tenha por princípios «Deus, pátria, família» como princípios fundamentais». (VALE QUATRO VALORES).

 

4-A) A temura é a disciplina ou método da Kaballah (ensinamento secreto de itelectuais judeus) que estabelece correspondências de ideias entre palavras diferentes alterando a posição das letras e por vezes substituindo uma ou outra dessas letras ou abolindo-a. Exemplo: ROMA equivale a AMOR; BEJA equivale a IAVE porque se transforma em JABE e depois em IABE. A gematria é a disciplina da Kaballah que estabelece a correspondência entre cada letra e um número (exemplo: A=1, B=2, C=3, D=4, E=5, F=6, G=7, H=8, I,J,Y=9, K=10, L=20, M=30, N, ~ =40) de modo a obter o número que traduz a essência de cada palavra. BEJA (B=2, E=5, J=9 e A=1) vale 2+5+9+1=17, isto é DEZASSETE. Ambas estas disciplinas, temura e gematria, são metafísicas na medida em que ultrapassam a ciência experimental e trabalham com teses especulativas, de uma racionalidade holística discutível, a raiar a mística.(VALE UM VALOR)

             

2-B)- O realismo natural é a teoria segundo a qual a matéria é real e exterior às nossas mentes e estas espelham-na como ela é (exemplo: a erva é verde, o céu é azul). Realismo crítico é a teoria segundo a qual a matéria é real e exterior às nossas mentes mas estas não espelham como ela é. O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas).  O idealismo é a corrente que afirma que o universo material não é real em si mesmo mas está dentro da nossa mente, como imagens e ideias.  (VALE TRÊS VALORES)

 

2.C) Pragmatismo é a teoria que diz que devemos lidar, de forma útil, com os factos empíricos palpáveis e devemos pôr de parte a metafísica, os grandes princípios morais ou políticos inaplicáveis de momento. O cepticismo é a corrente que põe tudo ou uma parte das coisas em dúvida e é usado pelo pragmatismo. (VALE DOIS VALORES)

 

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Sábado, 28 de Maio de 2011
Crítica a Sellars e a James Pratt: só o realismo crítico admite a ilusão e o erro?

Por "realismo crítico" entendeu-se, nos EUA, uma corrente que sustenta que as nossas percepções empíricas e o nosso intelecto não apreendem cada um dos objectos físicos do mundo real exterior no seu todo, mas deixam de fora alguns aspectos, desconhecidos ou incognoscíveis. As definições de "realismos crítico, natural e ingénuo" dada por "realistas críticos" como Roy Wood Sellars são pouco claras, padecem de confusões:

 

«O realismo ingénuo tem a pretensão impossível de intuir o objecto; impossível, porque suporia um salto sobre as barreiras do espaço e do tempo, contrário à natureza. O realismo crítico, pelo contrário, contenta-se com admitir o facto da mediação causal, ainda que proclamando que o objecto afirmado e proposto se conhece mediante o conteúdo que se oferece à pessoa que conhece.» (...)

«A posição a que chegamos é realista, e tão próxima ao realismo natural quanto o permitem as condições do conhecimento. Coisas materiais são o objecto do conhecimento, se bem que só podem conhecer-se em função dos dados que determinam dentro de nós. O postulado do conhecimento é o valor cognoscitivo e e revelador da ideia tomada como conteúdo ou conjunto de características, não como um ser com existência mental. Por outras palavras, o conteúdo que apreendemos deve ter a propriedade de reproduzir algo do objecto, e de transmitir com os seus próprios meios a forma do mesmo.»( Roy Wood Sellars, citado in Paul Kurtz, Filosofía norteamericana en el siglo veinte, páginas 344, Fondo de Cultura Económica, México, 1972; o negrito é colocado por mim).

 

Nesta definição de Sellars, há confusão, porque o realismo ingénuo não funde a consciência e o objecto real exterior, não confunde representação com objecto referente, exterior. Ao falar em ideia como "ser com existência mental" Sellars visa o realismo ingénuo, mas nem se percebe claramente o que esta expressão quer dizer. E ao falar em realismo natural parece designar a realidade exterior em si mesma e não um dos modos de apreensão desta como vários teóricos da gnoseologia o fazem. Não faz sentido a classificação de Sellars porque usa o termo realismo de forma ambivalente: o realismo natural seria a realidade em si mesma, o realismo crítico a apreensão crítica, algo céptica, dessa realidade, e o realismo ingénuo a apreensão dogmático-infantil dessa realidade.

 

Outro filósofo norte-americano da escola do "realismo crítico", James Bissett Pratt (22 de Junho de 1875, Elvira, Nova Iorque; 15 de Janeiro de 1944) escreveu:

 

«Os elementos agnósticos (se assim se quiser chamar-lhes) que o realismo crítico efectivamente inclui seriam em minha opinião mais um mérito do que um inconveniente. O realismo crítico vangloria-se, como São Paulo, das suas debilidades posto que, graças a elas, é capaz de dar melhor conta da verdade. Pois o que tanto o idealismo como o pragmatismo e o neorrealismo sejam insustentáveis é precisamente o facto de que nenhum deles pode acolher a ilusão ou o erro. Estruturaram-se com vista a "evitar o agnosticismo"  e o resultado foi que, por ser um mundo ideal de deuses e anjos que nunca se equivocam, não podem aplicar-se minimamente a seres tão falíveis como nós.»

«Ao contrário, o realismo crítico acolhe de forma adequada o erro e a ilusão...»(James Bissett Pratt , citado in Paul Kurtz, Filosofía norteamericana en el siglo veinte, páginas 341-342, Fondo de Cultura Económica, México, 1972; a letra a negrito é da minha autoria).

 

Não se percebe por que razão Pratt garante que o pragmatismo não tem lugar para a ilusão e o erro. Afinal o pragmatismo admite que há uma realidade metafísica incognoscível, só que não se ocupa dela mas da acção prática. É falso que o idealismo não acolha a dúvida. Existe um idealismo crítico, de que o de Kant é o paradigma, que admite que as cores, sabores, cheiros, etc, não existem nos fenómenos materiais mas apenas no nosso modo de os percepcionar. E existe um idealismo natural.

 

  

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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
Realismos directo e indirecto - equívocos de Jonathan Dancy

 Para designar realismo natural ou ingénuo, isto é, doutrina segundo a qual a mente humana apreende sensorialmente o mundo exterior da matéria tal como ele é, alguns epistemólogos empregam o termo «realismo directo».

É o caso de Dancy, que escreveu (o negrito é nosso):

 

«O realismo directo defende que na percepção dos sentidos estamos directamente conscientes da existência e natureza do mundo físico que nos rodeia. Todos os realistas directos concordam acerca disto, do carácter directo das coisas. Diferem, todavia, no grau de realismo que estão dispostos a abraçar. O realista, no nosso sentido presente, defende que os objectos físicos são capazes de existir e retêm pelo menos algumas das propriedades que apreendemos terem, mesmo quando inapreendidos. A frase crucial é «pelo menos algumas» , e a questão é saber exactamente quais. Distinguiremos dois tipos de realismo, o ingénuo e o científico; dependendo da natureza do caso, contudo, pode haver muitas posições intermédias possíveis.»

 

«O realista directo ingénuo defende que os objectos inapreendidos são capazes de reter propriedades que apreendemos terem. Com isto, ele quer dizer que um objecto inapreendido pode ainda ter não só uma forma e tamanho mas também ser quente ou frio, ter uma cor, um gosto ou um cheiro, ser rugoso ou liso e fazer barulho ou ser silencioso. A ingenuidade desta posição está na palavra «todos». A posição torna-se menos ingénua à medida que «todos» se reduz a «quase todos» e depois a uma «maior parte» e assim por diante, mas é para nós mais simples vê-la no caso mais completo e mais extremo.»

 

«Oposto à forma ingénua de realismo directo, está o realismo directo científico. Esta versão científica considera que a ciência demonstrou que os objectos físicos não retêm, quando inapreendidos, todas as propriedades que apreendemos terem; pois a existência dessas propriedades depende da existência de um sujeito percipiente. Assim a cor, o gosto, o som e o cheiro não são propriedades independentes do objecto que ele possa reter inapreendido. O objecto só as possui em relação ao sujeito percipiente. O realista directo científico aceita o carácter directo da nossa percepção do mundo, mas restringe o seu realismo a um grupo especial de propriedades.»

«A distinção elaborada está próxima da distinção de Locke entre qualidades «primárias» e secundárias (ver J.Locke, 1961, Lv. 2, cap. 8). Locke defendia que as qualidades primárias da forma, tamanho, textura molecular e movimento têm um status diferente das qualidades «secundárias» como a cor, o calor, o cheiro, o gosto, etc (poderíamos chamar a estas propriedades «sensoriais»). ( Jonathan Dancy, Epistemologia Contemporânea, Edições 70, pag. 186-187).

 

O problema de Dancy é o de falta de espírito de síntese, de uma arquitectónica de pensamento dialéctica: aquilo que designa por realismo directo científico não é directo, mas indirecto porque é científico, isto é, porque descobriu que a cortina das cores, sons, cheiros, etc, não permite ver directamente o objecto físico exterior que é despido destas qualidades secundárias. Ele mesmo afirma que o realista científico «restringe o seu realismo (directo, subentende-se) a um grupo especial de propriedades» - por outras palavras, é um realista indirecto.

 

O mais grave é que Dancy duplica as definições a partir de diferenças milimétricas que, de facto, não existem: fala em realismo directo, ingénuo e natural; e em realismo indirecto, ingénuo e natural. É uma obscuridade de pensamento disfarçada num vasto entrançado de definições, com bifurcações que nunca mais acabam. Um exemplo de catedrático erudito, muito comum nas universidades, que subjuga os alunos pela monumentalidade da sua verborreia, das suas infinitas classificações mais ou menos desconexas… Monumentos não de pedra mas de cartão, facilmente desmontáveis por um pensamento lúcido e crítico.

 

Nota- Dentro de dias estará à venda na internet o nosso livro bilingue (escrito em português e em inglês) «Os acidentes em Lisboa na Astronomia Astrologia , Astrology and Accidents in U.S.A.» de 276 páginas, formato 17x 23 cm, capa de cartolina, contendo 15 mapas do céu com planetas em datas históricas -preço: 29,00 euros. Uma obra inovadora na Astrologia Mundial, com a nova teoria dos graus minutos homólogos entre si. Reserve o seu exemplar desta obra única, de edição restrita, fora dos circuitos comerciais da astrologia superficial e falseada. Enviamos por correio aos interessados. O que de mais avançado se descobriu na Astrologia mundial plasma-se neste livro surpreendente. A teoria da predestinação emerge com plausibilidade forte nos estudos explicitados neste livro.

 

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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2006
Um erro de Platão: separar crença verdadeira de conhecimento

Os erros de hiper-análise - fragmentar, dissociar em partes isoladas ou duplicar artificialmente uma ideia ou essência una - atravessam toda a história da filosofia ocidental.

Platão equivocou-se em certa medida ao distinguir entre crença verdadeira ou opinião verdadeira (alethès doxa), por um lado, e conhecimento ou ciência (epistéme) , por outro lado, dizendo que só o segundo possui Logos (Razão).

Atente-se nos argumentos desenvolvidos neste excerto do «Teeteto» (as palavras em itálico correspondem a outra tradução que não a da Inquérito):

 

«SÓCRATES- Então, quando há juízes que se acham justamente persuadidos de factos que só uma testemunha ocular, e mais ninguém, pode saber, não é verdade que, ao julgarem esses factos por ouvir dizer, depois de terem formado deles uma opinião (crença) verdadeira, pronunciam um juízo desprovido de ciência (conhecimento), embora tendo uma convicção justa, se deram uma sentença correcta? »

 

«TEETETO- Com certeza. »

 

« SÓCRATES- Mas, meu amigo, se a opinião (crença) verdadeira dos juízes e a ciência fossem a mesma coisa, nunca o melhor dos juízes teria uma opinião correcta sem ciência (conhecimento). A verdade, porém, é que se trata de duas coisas diferentes.»

 

«TEETETO- Eu mesmo já ouvi alguém fazer essa distinção, Sócrates; tinha-me esquecido dela, mas voltei a lembrar-me. Dizia essa pessoa que a opinião (crença)verdadeira acompanhada de razão (Logos) é ciência e que, desprovida de razão, a opinião (crença)está fora da ciência (conhecimento)e que as coisas que não é possível explicar são incognoscíveis ( é a expressão que empregava)e as que é possível explicar são cognoscíveis». (Platão, Teeteto, Editorial Inquérito, Lisboa, 1990, pags. 158-159).

 

O exemplo que constitui o argumento de Platão para distinguir entre crença/opinião verdadeira e conhecimento/ciência é falacioso: os juízes raciocinaram bem e sentenciaram bem, com base em um testemunho do crime, que ignoram ser falso, e isso seria a «opinião verdadeira» mas não o «conhecimento» porque lhes teria faltado.. o Logos(Razão).

 

De facto, se reflectirmos, o Logos não faltou aos juízes, ao contrário do que Platão, pela voz de Teeteto, sustenta: faltou-lhes sim, a Empeiria (a Experiência Sensorial Directa) do crime. Os juízes tiveram conhecimento da versão da testemunha; não tiveram conhecimento das circunstâncias reais em que se deu o crime. Contudo, pensaram bem, de um ponto de vista lógico ideal. Obtiveram o conhecimento de um cenário, teoricamente possivel, mas que não teve lugar, e da correspondente sentença.

 

Dizer que o conhecimento é a adição do Logos à crença verdadeira é, ao menos neste exemplo, um erro do pensamento mecanicista, hiper-analítico. O Logos está presente, com gradações diversas, em todas as formas de pensamento. Decerto a distinção «crença verdadeira» (alethès doxa) e «ciência» (epistéme) tem fundamento se consideramos a primeira como o realismo natural (exemplo: o tampo desta mesa é liso) e a segunda como o realismo crítico (exemplo: o tampo desta mesa parece liso mas não o é, está cheio de espaços vazios entre os átomos, imperceptíveis à vista e ao tacto).

 

Se Platão errou ao exemplificar acima a distinção entre conhecimento de opinião verdadeira, como não haveríamos de esperar estas enormes confusões dos Manuais de Filosofia em voga que dizem enormidades analíticas como os postulados «acreditar e saber são coisas distintas» e «saber e conhecer não é o mesmo»?

 

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