Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012
Teste de Filosofia do 11º ano de escolaridade (Outubro de 2012)

 

Eis um teste de filosofia para o 11º ano de escolaridade em Portugal, dado a meio do primeiro período lectivo.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
30 de  Outubro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

 

I
1) Considere o seguinte silogismo:

 

 

«Alguns homens são filósofos.»
«Alguns filósofos são pensadores.»
«Os homens são pensadores.»

 

 

A) Indique, concretamente, três regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

B)  Indique o modo e a figura do silogismo. Justifique.

 

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à proposição «As mulheres de Moura são independentes».

 

 

3) Aplique, justificando, o princípio do terceiro excluído à tríade realismo-idealismo-fenomenologia.

 

 

4)Construa um silogismo modus ponens e um silogismo modus tollens a partir da seguinte premissa: «Se filosofar, ultrapassarei o senso comum.»

 

 

5) Distinga lógica formal de lógica informal.
 
6) Disserte livremente sobre o seguinte tema:

 

«A metafísica e a ontologia: baseiam-se em percepções empíricas, em conceitos empíricos, em raciocínios ou em intuições noéticas?  Usam mais a dedução, a indução (amplificante necessitarista, probabilística) ou a analogia?  Justifique.»

 

 

 

« CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA DE 20 VALORES)»

 

1) A) Três regras da validade formal de um silogismo regular infringidas no silogismo são: de duas permissas particulares («Alguns») nada se pode concluir; o termo médio tem de estar tomado universalmente ao menos uma vez nas premissas( ora, o termo médio «filósofos» é sempre particular, «alguns filósofos», em ambas as premissas); a conclusão não pode ter maior extensão que as premissas ( «Todos os homens» na conclusão é um termo universal e as premissas são particulares).  (NOTA: A RESPOSTA VALE TRÊS VALORES). 

 

1) B) O modo do silogismo é a sua classificação mediante três letras (A,E, I, O), espelhando o tipo de proposição de cada premissa e da conclusão. Neste caso o modo é IIA (premissas particulares afirmativas, proposição tipo I, conclusão universal afirmativa, A). (NOTA: ESTA PARTE DA RESPOSTA VALE UM VALOR) . A figura do silogismo é a sua classificação consoante a posição do termo médio nas premissas. Há 4 figuras possíveis e a deste silogismo é PS ( Predicado, Sujeito), isto é, a quarta figura, em que o termo médio ("filósofos") é predicado na primeira premissa e sujeito na segunda. (NOTA: ESTA PARTE DA RESPOSTA VALE UM VALOR).

 

 

2)    A                        E

       


         I                         O


O quadrado lógico tem no vértice superior esquerdo a proposição «As mulheres de Moura são independentes», proposição tipo A, universal afirmativa, e no vértice superior direito a proposição «Todas as mulheres de Moura não são independentes», proposição tipo E, universal negativa. A relação entre A e E é: contrárias. No vértice inferior esquerdo está a proposição «Algumas mulheres de Moura são independentes», proposição de tipo I, particular afirmativa. No vértice inferior direito figura a proposição «Algumas mulheres de Moura não são independentes», proposição de tipo O, particular negativa. A relação entre as proposições I e O é subcontrárias. As relações de diagonal entre as proposições A e O, por um lado,  e E e I, por outro lado, são (imperfeitamente) designadas por contraditórias. A proposição I é subalterna à proposição de tipo A, a proposição de tipo O é subalterna à proposição de tipo E. (NOTA: A RESPOSTA VALE DOIS VALORES)

 

3) O realismo ontológico, enquanto doutrina da existência de um mundo real de matéria separado das consciências humanas, opõe-se ao idealismo ontológico, enquanto doutrina de que o mundo de matéria não é mais que ideias e imagens a flutuar fora do corpo do sujeito. A fenomenologia, enquanto ontologia heideggeriana, é céptica: não apoia o realismo nem o idealismo. O princípio do terceiro excluído diz que em cada tema só há dois campos. Neste caso, a gnosiologia (por alguns chamada epistemologia) ou é realismo ou não é realismo (idealismo + fenomenologia), não havendo a terceira hipótese. (NOTA: ESTA RESPOSTA VALE QUATRO VALORES)

 

4) Silogismo condicional tipo modus ponens:

     «Se filosofar, ultrapassarei o senso comum.»

      «Filosofo.»

       «Logo, ultrapasso o senso comum» .    (NOTA: VALE UM VALOR)

 

      Silogismo condicional tipo modus tollens:

      «Se filosofar, ultrapassarei o senso comum»

       «Não ultrapassei o senso comum.»

        «Logo, não filosofei.»         (NOTA: VALE UM VALOR)

 

5)  A lógica formal é a ciência das regras abstractas do pensamento, do «esqueleto» do pensar. Usa três princípios: identidade, não contradição, terceiro excluído. A lógica informal é a ordenação do pensamento com base em percepções empíricas e conceitos empíricos ou metafísicos, isto é, o conteúdo concreto do pensamento empírico e racional, a «carne do pensar». Exemplos: «Os deuses criaram o universo», «O universo é incriado e eterno», «O Alentejo tem paisagens lindíssimas de sobreiros e azinheiras». A lógica informal engloba a lógica formal mas adiciona-lhe o alógico das intuições empíricas ou inteligíveis.  (NOTA: VALE DOIS VALORES).

 

 

6) Metafísica é a região invisível e impalpável que (supostamente) está além do mundo físico, visível, audível e palpável. Ontologia é a teoria do ser, do ente (ón, em grego). Se tomarmos ontologia no sentido geral, esta é a teoria de tudo o que existe, na matéria, no raciocínio ou na imaginação, e então a metafísica, do mesmo modo que as teorias científicas, os mitos e os próprios objectos físicos se incluem na ontologia.  A ontologia geral, enquanto base das ciências e do senso comum, baseia-se em percepções empíricas (Visão, audição, tacto de algo) e forma juízos (frases declarativas simples, ligando dois ou mais conceitos; exemplo: «o átomo de hidrogéneo é o mais abundante no universo») e também raciocínios (articulação lógica e inferencial de dois ou mais juízos), sendo muitos desses juízos induções amplificantes necessitaristas que generalizam a partir de alguns casos ( exemplo, da Astrologia Histórica que investigo e elaboro: em 23 de Janeiro de 1909, quando Vénus deslizou em 8º-9º do signo de Capricórnio, um sismo em Fars, no Irão, matou 7000 pessoas, em 22 de Fevereiro de 2005, com Marte a transitar os graus 10º-11º do signo de Capricórnio, um sismo abalou Kerman, no Irão, fazendo 602 mortos, em 20 de Dezembro de 2010, quando Marte transitava 8º-9º do signo de Capricórnio, eclodiu um sismo em Bam, no Irão, matando 11 pessoas, portanto, induzo que o trânsito de um planeta na área 7º-10º de Capricórnio é factor gerador de  sismos no Irão e infiro que, de 26 de Novembro a 1 de Dezembro de 2012,  quando Marte transitar a área 7º-10º de Capricórnio eclodirá um novo sismo no Irão).

 

Há também a indução probabilística, mais incerta que a necessitarista (exemplo: o dono de um restaurante serviu 35 refeições num sábado, 45 no sábado seguinte, 39 no terceiro sábado e induz poder vir a servir cerca de 40 refeições no próximo sábado).  A metafísica pode usar a percepção empírica como ponto de partida (exemplo: olhar as abóbadas góticas de uma catedral é uma percepção empírica que pode levar a intuir noeticamente, isto é, através da idealização metafísica, da captação intelectual de uma essência invisível,  o que será Deus ou se há deuses no alto) mas constrói raciocínios de analogia, que estabelecem semelhanças entre objectos bastante diferentes entre si ( exemplo: Deus construiu o mundo como um relojoeiro constrói um relógio) e raciocínios dedutivos, inferências que partem do geral para o particular (exemplo: «Deus ama todos os homens, logo também ama os bejenses e a mim»). (NOTA: VALE CINCO VALORES).

 

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Domingo, 22 de Abril de 2012
Equívocos nos testes intermédios de filosofia de 20 de Abril de 2012

 

Sem os erros gritantes da prova de exame nacional de filosofia de 2007, o teste intermédio de filosofia realizado em Portugal  em 20 de Abril de 2012 - curiosamente o aniversário do nascimento de Adolf Hitler, o tal que mandava queimar em autos de fé os livros com as teorias metafísicas e científicas que o desafiavam e ao nazismo; a lembrar alguns ditadores da análise lógica de hoje, com os inspectores de circunstâncias e o raciocínio mecânico, robótico... - enferma, sem embargo, de alguns equívocos e da mesma estreiteza antimetafísica e antifilosófica que caracterizou a prova de exame de 2007. O teste intermédio não permite distinguir, com clareza, os alunos muito bons dos alunos bons, e estes dos suficientes elevados: não dá espaço à criatividade filosófica e faz da filosofia, exclusivamente, uma disciplina de memorização de conteúdos que são despejados no teste. Descartes e Hume são os filósofos sobre os quais se pede um saber nas perguntas 2.1 e 2.2 (da versão 1 do teste): mas as orientações de correção revelam que os  autores do teste não dominam a filosofia de David Hume, o que sucede, aliás, com pelo menos 95% dos professores de filosofia do ensino secundário em Portugal. 

 

PERGUNTA SOBRE O ARGUMENTO DE ANALOGIA MAL CONCEBIDA

 

A questão 1.6 do teste, confusamente elaborada, é a prova de que os autores - do mesmo modo que os manuais escolares em voga - não intuem com clareza o que é raciocínio de analogia. Vejamos:

  

1.6.

  

 

 Um argumento por analogia é um argumento

 

(A) dedutivo que parte de uma boa comparação entre realidades diferentes.

 

 

(B) não dedutivo que parte de semelhanças entre realidades diferentes.

 

 

(C) dedutivo que parte de certo número de semelhanças entre realidades diferentes.

 

 

(D) não dedutivo que parte de diferenças relevantes entre realidades semelhantes.

 

 

 O erro desta pergunta reside no facto de ignorar que o argumento por analogia, baseado na comparação entre dois ou mais entes, é multiforme: numa modalidade, consiste em  raciocínios indutivos unificados por uma intuição noética e na outra modalidade reduz-se ao raciocínio dedutivo unificado noeticamente (inteligivelmente). Portanto, as quatro respostas A, B, C e D estão razoavelmente correctas - e razoavelmente incorrectas. Aliás a resposta B é, no fundo, o mesmo que a resposta D: semelhanças entre realidades diferentes (exemplo: o mesmo tipo de intestino e de dentição e de vocação frugívora entre o homem e o gorila) e diferenças relevantes entre realidades semelhantes (exemplo: a crueldade primitiva da criança de 6 anos que agride fisicamente outra, e a crueldade refinada do homem adulto que faz intimidação e acosso psicológico ao seu semelhante) vai desaguar no mesmo, isto é, numa relação de identidade e diferença...

 

Há raciocínios de analogia que são quase puramente dedutivos como, por exemplo, a analogia do ente (tó ón) e do uno (tó tí) que Aristóteles estabelece na "Metafísica". Como verificar que se trata de uma dedução adicionada de intuição noológica unificadora? O ente é uno : unidade deduz-se do conceito abstracto de ente. O uno é ente, isto é, existe - é outra dedução. Trata-se de duas deduções que confluem neste argumento de analogia construído mediante uma intuição unificadora. As respostas A) e C) do texto encaixam nesta modalidade.

 

Consideremos agora o seguinte raciocínio de analogia: «O homem e o chimpanzé possuem semelhanças evidentes na sua anátomo-fisiologia: 32 dentes na boca, um intestino de 6 a 8 metros de comprimento diferente do intestino dos carnívoros que é de 2,5 a 3 metros e uns rins fracos. Portanto, o homem deve alimentar-se de modo similar ao chimpanzé em liberdade: frutos frescos ou gordos (nozes, amêndoas), hortaliças, ovos e pequenos mariscos.» Esta analogia parte da indução, de uma observação empírica do homem e do chimpanzé e por abstração unifica as duas espécies no género antropóides. A analogia inclui pois, nesta modalidade, indução e  aglutinação noética (intuição inteligível unificadora). Nada disto é ensinado nos manuais escolares nem nos dicionários de filosofia. Assim, a pergunta 1.6 está mal construída, borbulha no magma da confusão intelectual.

 

ERRÓNEA ORIENTAÇÃO PARA CORRIGIR AS PERGUNTAS SOBRE DAVID HUME

 

Veja-se agora uma pergunta sobre David Hume cuja teoria os autores desta prova - e a generalidade dos professores de filosofia - não dominam. Reza assim o final do enunciado do teste intermédio:

 

 

2.2.

 

Compare as posições de Hume e de Descartes relativamente à origem do conhecimento humano.

Na sua resposta deve integrar, pela ordem que entender, os seguintes conceitos:

 

 

razão;


 

sentidos;


 

ideias.

 

 

E para o cenário da resposta desenha, entre outras, a seguinte orientação:

 

Caracterização do papel da razão e dos sentidos no conhecimento da realidade, de acordo com a filosofia de Hume, segundo a qual a razão sem os sentidos não pode ajuizar ou fazer inferências sobre a realidade.

 

 

Nota-se neste critério de correção a ignorância dos autores desta prova sobre a doutrina de Hume. David Hume não considerou uma só razão nem afirmou que a razão sem os sentidos não pode ajuizar ou fazer inferências sobre a realidade. Escreveu:

 

«Pareceria ridículo aquele que dissesse que é somente provável que o sol nascerá amanhã, ou que todos os homens têm de morrer, embora seja claro que não temos outros factos além da que nos fornece a experiência. Por esta razão, talvez fosse mais exacto, para conservar logo o sentido correcto das palavras, e marcar os vários graus da evidência, distinguir três espécies de razão humana, a saber, a que resulta do conhecimento, a  que resulta das provas e a  que resulta das probabilidades. Por conhecimento, entendo a certeza que nasce da comparação de ideias. Por provas, os argumentos tirados da relação de causalidade e que são inteiramente livres da dúvida e incerteza. Por probabilidade, a evidência que ainda é acompanhada de certeza. É esta última espécie de raciocínio que passo a examinar. »

 

«A probabilidade ou raciocínio de conjectura pode dividir-se em duas espécies, a saber, a que se baseia no acaso e a que nasce de causas. Consideremos uma e outra por ordem. A ideia de causa e efeito é tirada da experiência que, apresentando-nos certos objectos constantemente conjugados, produz um hábito tal de os considerar nessa relação que não podemos sem sensível violência considerá-los em qualquer outra relação. Por outro lado, visto que o acaso não é em si nada de real e, falando com propriedade, é apenas a negação de uma causa, a sua influência na mente é contrária à da causação; e é essencial que deixe a imaginação perfeitamente indiferente para considerar a existência ou não-existência do objecto tomado como contingente.»

(David Hume, Tratado sobre a investigação humana, pag 163-164, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Para David Hume, a relação de causação ou causalidade necessária vem da experiência: é por vermos diariamente o nascer do sol e os nossos antepassados o terem visto sempre durante milhares de anos, que podemos dizer, com toda a segurança, que o sol nascerá amanhã. Essa é a razão das provas. Mas as outras duas razões ou vertentes de uma razão tridimensional - a razão do conhecimento, isto é meramente teórica, que compara ideias e formula, por exemplo, a teoria dos buracos negros do universo, feita de juízos e raciocínios especulativos; e a razão das probabilidades, céptica,  que conjuga o acaso com o determinismo - fogem da alçada dos sentidos, ainda que as ideias que manejam se originassem neles, e portanto ajuizam em "roda livre", sem controlo da experiência.

O que importa é que a razão opera e ajuíza sem os sentidos, ao contrário do que se afirma no critério de correção acima - opera com base na imaginação.

 

Nenhum dos manuais escolares de filosofia adoptados em Portugal nem os respectivos autores e revisores (Desidério Murcho, Pedro Galvão, Aires Almeida, Célia Teixeira, Paula Mateus, Luis Rodrigues, Pedro Madeira, Alexandre Franco de Sá, Michel Renauld, Marcelo Fernandes, Nazaré Barros, António Pedro Mesquita, Luís Gottschalk, Amândio Fontoura, Mafalda Afonso, Maria de Fátima Gomes, J.Neves Vicente, Catarina Pires, Maria Antónia Abrunhosa, Miguel Leitão, Margarida Moreira, Adília Maria Gaspar, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Fátima Alves, José Arêdes, José Carvalho, Rui Alexandre Grácio, José Manuel Girão, etc) compreenderam bem e explanaram correctamente a teoria de David Hume. Não falam desta tridimensionalidade da razão ou destas três razões. A doutrina de Hume é mais complexa do que o simplismo redutor com que a pintam. Como poderão então os professores correctores, sob a deficiente influência dessses autores e supervisores, corrigir com verdade as respostas dos alunos sobre a teoria de Hume e ter uma perspectiva correcta sobre a relação razão- sentidos segundo este filósofo?

 

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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010
Sobre o raciocínio de analogia (Crítica de manuais escolares - XXXIX)

 

Os manuais de filosofia no ensino secundário em  Portugal não sabem, em regra, definir analogia e raciocínio de analogia. No Manual português «A Arte de pensar, Filosofia 11º»  lê-se o seguinte:

 

«Num argumento por analogia pretende-se concluir que algo é de certo modo porque esse algo é semelhante a outra coisa que é desse modo. Por exemplo:

 

As mulheres são como os homens.

Os homens têm o direito de votar.

Logo, as mulheres tambèm têm o direito de votar.

 

«Não se deve confundir os argumentos por analogia com as analogias propriamente ditas. Uma analogia é apenas uma semelhança entre coisas; os argumentos por analogia baseiam-se nesta semelhança mas não são, eles mesmos, analogias. Como se pode ver, nos argumentos por analogia uma das premissas é uma analogia.» ( Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, pag 94).

 

Até aqui, a explanação é aceitável. Lê-se, linhas abaixo, no mesmo manual:

 

«Vejamos duas das regras necessárias, mas não suficientes, para que um argumento por analogia seja válido:

 

1. As semelhanças têm de ser relevantes e numerosas.

2. Não pode haver diferenças relevantes. »

 (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, pag 94).

 

Aqui reside um erro deste manual. O que é analogia? À letra, significa raciocínio ou discurso (logos) superior, dirigido para cima (ana). A analogia é, pois, um tipo de semelhança estabelecida no intelecto superior, ou num plano ontológico mais elevado, entre dois ou mais entes, duas ou mais qualidades bastante diferentes entre si. Na analogia entre dois ou mais entes há sempre uma ou muitas diferenças relevantes, ao contrário do que afirma «A arte de pensar.» A criança que brinca com uma lata de sardinhas de conserva como se fosse um barco intuiu uma analogia de forma entre a lata e o barco, apesar das relevantes diferenças entre estes.

A poesia baseia-se em analogias, plasmadas em metáforas. Por exemplo: «coração de oiro»  estabelece analogia entre o coração como fonte dos afectos valiosos e o ouro como sede de valor. É uma quádrupla analogia coração-bondade-oiro-validade. Apesar de serem entes muito diferentes, há uma analogia de forma entre homem e árvore: os ramos da árvore sugerem os braços do homem, o tronco da árvore sugere o tronco e pernas do homem.

 Vejamos o seguinte raciocínio de analogia:

 

1. O homem erecto é, na sua configuração, análogo a uma árvore, sendo os ramos análogos aos braços, e a cabeça à folhagem superior.

2. O homem possui um centro nervoso superior, situado no cérebro, que lhe dá conta do mundo exterior.

3. Logo, a árvore deve possuir uma espécie de "cérebro vegetal", através do qual intui a realidade circundante.

 

Quem pode garantir que está errado  este raciocínio de analogia? Decerto, é especulativo, mas não implausível de todo. Os defensores da naturopatia estabelecem uma analogia entre o homem e o gorila e raciocinam concluindo que o homem se deve alimentar, em termos biológicos como o gorila. Pierre Marchesseau e Gregóire Jauvais, eminentes naturopatas franceses, escreveram:

 

«B) Fundamentos do Método Biológico

As observações fundamentais que presidiram ao nascimento deste método são ao mesmo tempo filosóficas e científicas e, como acabamos de dizer, saídas de um raciocínio de analogia (onde o pensamento procede por comparação). » (...)

«Primeira observação: Não há animais «omnívoros». Cada animal tem um regime que lhe é próprio, ou seja, "específico". O tigre come carne; o boi, erva; a ave (galináceos), grãos; a hiena, cadáveres; o escaravelho, excrementos; a termita, madeira, etc.«(...)                     

« Terceira observação: o homem é um macaco, na série animal. Portanto, deve alimentar-se como o macaco.

a)  A dentadura, o tubo digestivo dos macacos, com a bolsa estomacal única, de paredes finas e ácidos fracos, o seu intestino de tamanho médio (situado entre o do herbívoro e o do carnívoro, o seu fígado pequeno, não muito irrigado, e os seus rins impermeáveis ao amoníaco, indicam claramente o seu destino alimentar.(...) É lógico pensar: para orgãos semelhantes, funções semelhantes. E quem diz funções digestivas semelhantes, subentende obrigatoriamente os mesmos alimentos.» (Pierre Marchesseau e Gregóire Jauvais,Curso Completo de Biologia Naturopática, Nova Editorial Natura, Lisboa, pags 227-228 e 233).

 

Neste excerto acima, está o exemplo de um perfeito raciocínio de analogia: «o homem, tal como o macaco, possui um tubo digestivo de 6 a 8 metros de comprimento, ao contrário dos carnívoros, com tubos digestivos de 2,5 metros; logo, se o gorila em liberdade se alimenta de 80% a 90% de frutos e afins (maçãs, mangas, bananas, amendoins, caules de cana do açúcar, bolbos e raízes diversas) e 10 % a 20% de subprodutos animais (ovos, pequenos mariscos, leite coalhado), esta deve ser a alimentação humana, baseada no dualismo grande frugivorismo- pequeno carnivorismo não sangrento».

 

 A antiga ciência astronómico-astrológica estabeleceu analogias entre um grupo de estrelas e um touro, designando-o de constelação do Touro, entre outro grupo de estrelas e um escorpião, designando-o de constelação do Escorpião, e entre o homem-microcosmos e o homem-Zodíaco macrocosmos: a cabeça humana estaria na constelação de Carneiro, o pescoço na de Touro, os ombros e braços na de Gémeos, o peito e estômago na de Caranguejo, o coração e as costelas na constelação de Leão, os intestino na da Virgem, etc. "Ver" na faixa do Zodíaco com doze constelações as doze partes de um homem gigantesco é obra da imaginação que compara e é mola crucial da analogia. Não se pode aqui falar de "falsa analogia". É uma analogia, nada mais.

 

O raciocínio de analogia que, em regra, superiorizou a filosofia às ciências parcelares e alargou o horizonte de cada uma destas, possui um poder multiplicador, holístico. E não é fácil classificar peremptoriamente as analogias em verdadeiras e falsas. Por exemplo, a teoria da vacinação sustenta-se numa analogia deficiente entre vírus/ toxinas e atacantes de um castelo, por um lado, e anticorpos gerados no organismo e defensores de um castelo. A deficiência reside no facto de que os anticorpos são defensores feridos já pela intrusão do inimigo no castelo (a picada da vacina) e não podem, pois, combater eficazmente o veneno instalado já dentro de portas: não é um combate de igual para igual.

 

O manual «A arte de pensar» reduz a analogia a uma semelhança óbvia, quase uma indução amplificante - ou seja, como multiplicação de cópias - não percebendo que a analogia se dá entre contrários e entidades muito díspares entre si, como o caso do homem e do gorila, do homem e das constelações do Zodíaco, etc. Por exemplo, o estalinismo é análogo ao nazismo na estrutura piramidal de submissão totalitária do indivíduo ao Estado-partido. A analogia é essencial parcial. Há diferenças substanciais: os capitalistas alemães preferiam Hitler a Estaline, os operários "avançados" preferiam o inverso. O nazismo não é, em termos substanciais, o mesmo que o comunismo estalinista, ainda que, no esqueleto formal, possuam muito em comum. A analogia subsiste entre as cores vivas da diferença.

 

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