Sábado, 7 de Janeiro de 2012
Questionar Kant: a totalidade é categoria de quantidade?

 

Kant definiu doze categorias ou conceitos puros do entendimento que permitem modelar e pensar os fenómenos. Como categorias da quantidade colocou:

 

 

Unidade.

Pluralidade.

Totalidade.

 

(Kant, Crítica da Razão Pura, página 110, Fundação Calouste Gulbenkian).  

 

Mas a totalidade é uma categoria da quantidade? Qual é a quantidade que há num todo? Unidade sugere um, pluralidade designa dois, três, quatro, cinco, vinte, mil, um milhão, etc. A totalidade opõe-se à parcialidade, o todo opõe-se à parte. Por que razão o todo não é uma qualidade mas sim uma quantidade? Parece-me que o todo é simultaneamente uma quantidade determinada (um) e uma qualidade (por exemplo: energia; alma; turma de alunos; sabedoria; vitalidade, etc). Note-se que emprego o termo qualidade num sentido distinto, mais vasto, do que o usado em Aristóteles - neste a qualidade é um predicado, um acidente da substância, como por exemplo a cor branca é uma qualidade da substância "este cavalo" - abrangendo as substâncias ou entes individuais (exemplo: esta cidade de Beja, esta região do Alentejo, são qualidades do ente ou «ser» Portugal, etc, etc). Mas, no todo, aquilo que o faz ser todo é a continuidade e contiguidade das suas partes entre si, ou seja, uma qualidade unitária que subjaz à pluralidade das partes, se as houver.

 

Em suma: se Kant colocou a totalidade como categoria da quantidade, deveria igualmente colocá-la como categoria da qualidade. E deveria emparelhar a totalidade com a parcialidade, visto que estão dialeticamente ligadas.

 

O todo é uma espécie dentro do género unidade, é uma modalidade de unidade. A parte é outra espécie do género unidade.

 

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Segunda-feira, 29 de Maio de 2006
Escoto Eriúgena, a quantidade como o primeiro dos acidentes

 

João Escoto Eriúgena, filósofo, supostamente irlandês, do século IX, foi um dos mais brilhantes pensadores do período escolástico.

 

Sustentou que a base do mundo criado é a ousía (substância, entidade), incorpórea, incorruptível, inextensa, transcendente aos corpos materiais, e que todas as outras determinações a ela associadas são acidentes. Homem, por exemplo, é ousía, mas esta não existe em cada homem ( João, Mariana, Carlos) que são, antes, dotados de formas substanciais, que imitam a ousía indivisível.

Ouçamos Eriúgena (o negrito é nosso):

 

«A ousía, que não se estende em comprimento, largura e altura porque - e além do mais - repousa na indivisível simplicidade da sua natureza, é incorporal. Assim, pois nenhuma ousía é corporal porque carece de espaço, como nenhum corpo, porque  se estende no espaço, é ousía.» (Juan Escoto Eriúgena, División de la naturaleza, Folio, Barcelona, 2002, pag 113).

 

É óbvio que aqui se deve colocar uma questão: como pode Homem ser ousía e esta não possuir comprimento, largura e altura, ao menos em termos qualitativos, relacionais? O Homem não é um ser informe e possui estas três dimensões, inclusive na sua natureza transcendente ou ousía. Quando se retira desta a determinação da forma, que lhe resta?

 

Abaixo da ousía, desdobram-se as diversas categorias ou predicamentos que conferem ser e configuração aos entes.

 

«Certamente a quantidade é uma espécie de  sujeito segundo, depois da ousia; e em

consequência, situamo-la em primeiro lugar depois dela na ordem das categorias, já que sem a quantidade a qualidade não pode ser manifestada.» (ibid, pag 120).

 

É interessante notar que, ao invés dos que sustentam ser a qualidade superior à quantidade, Eriúgena opta pela hierarquização inversa.

 

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2006
O universal é qualidade sem quantidade , como sustentou José Reis?

A questão dos universais - conceitos ou realidades gerais que abarcam multidões de indivíduos da mesma natureza - notabilizou a Idade Média na Europa.

De acordo com o grego Aristóteles, um mestre simultaneamente brilhante pela vasta erudição e, por vezes, confuso pela hiper-análise, há a substância primeira, o indivíduo (por exemplo: «Aristóteles»), que se integra na espécie (por exemplo: homem) e esta no género (por exemplo: animal).

 

Apesar de os universais, para Aristóteles não incluirem a espécie (um grupo intermédio a que pertence o indivíduo, por exemplo: «o grupo dos filósofos gregos em que Aristóteles se integra») mas sim o género ( o grupo maior que engloba o indivíduo e a espécie; por exemplo: «o grupo dos homens, em que se inserem Aristóteles e os filósofos gregos»), a translação desta temática para a Idade Média fez com que espécie e género fossem classificados como universais.

 

Existem os universais? Ou são erros do pensamento? Se existem, onde existem? Na matéria? Em um mundo de arquétipos áparte desta? Na mente humana?

Estas foram questões correntes na disputa medieval dos universais.

 

José Reis, professor catedrático de Filosofia na Universidade de Coimbra - a meu ver, um dos poucos académicos portugueses de Filosofia que pensam com profundidade, num mundo universitário recheado de pequenos «pensadores», mais ou menos eruditos, ciosos dos seus títulos de «mestres» e «doutores»- postulou que os universais existem na matéria, constituem as essências gerais dos seres materiais e distinguem-se dos singulares porque são pura qualidade, ao passo que estes são qualidade adicionada de quantidade, de números. Ouçamo-lo:

 

«E eis tudo: o universal é uma pura qualidade, isto é, uma qualidade sem a determinação numérica, e o singular, essa qualidade com a determinação numérica. Sem esta, a qualidade diz só o que uma coisa é, não diz ainda os casos em que ela existe; ela é precisamente o aberto em relação aos seus casos. Com a determinação numérica, ela é ainda imediatamente cada caso e, como tal, não é mais o aberto mas o fechado a qualquer outro, e em relação ao universal, que é o aberto por definição.» (José Reis, Nova Filosofia, Afrontamento, Porto, 1990, pag 150).

 

E comentando o facto de, na tradição filosófica, o universal ser um duplo do singular, continua José Reis:

 

«As razões que assim o fizeram nascer foram aquelas: já a tendência que advém da simples abstracção, mas sobretudo o não se ver que a multiplicidade das coisas não está na sua própria realidade, antes está na diferença numérica. Esta a razão profunda por que, embora Aristóteles e depois S. Tomás ponham o singular no número, afinal logo o percam reduzindo-o à matéria; e essa a razão por que Husserl, embora dizendo claramente que o singular está no hic et nunc, logo o esqueça por completo e diga, impressivamente, que se a casa arder não arde o seu universal. Agora, porém, é claro que, se o universal é a pura qualidade e o singular a sua diferença numérica, a sua situação, o universal não é mais duplo nenhum. E então, não sendo senão justamente a própria realidade dos singulares (só que unificada), ele é função de todos os seus casos e já arde na exacta medida em que um deles arder; se arderem todas as casas, pura e simplesmente não há mais o respectivo universal. Este é só e exclusivamente do mundo sensível; ele não é senão o mundo sensível sem as suas diferenças numéricas» (ibid,pag 157).

 

O texto de José Reis é brilhante: coloca a numeração, e não a matéria, como princípio de individuação, tem um sabor neopitagórico. Para Pitágoras de Samos, as essências dos entes são os números-figuras, isto é, as quantidades-qualidades: o 1 designa o ponto (qualidade espacial), o 2 traduz-se na recta (qualidade espacial), o 3 exprime-se no plano (qualidade espacial) e o 4 entifica-se na pirâmide de três lados (qualidade espacial). Contabilizando estes quatro números físicos primordiais nos diversos entes, Eurito de Crotona, um pitagórico, definiria o homem pelo número 250 e as plantas pelo número 360. A sugestão-objecção neopitagórica que coloco à teoria de José Reis é a seguinte: a qualidade não é senão quantidade «arredondada», não discriminada numericamente aos nossos sentidos.

 

Tomando o exemplo do universal Casa, coloco a questão, numa perspectiva de recorte neopitagórico, do seguinte modo: a ideia ou essência de Casa exprimir-se-ia, por hipótese, pelo número 55 milhões (55 000 000) e cada casa singular por um número oscilando entre 55 000 000 e 55 999 999. Assim haveria uma casa singular A, situada em Montalegre, cuja essência se exprimiria pelo número-figura 55 232 856, e outra casa singular B, situada em Alcalá de Henares, cuja essência se consubstanciaria pelo número-figura 55 654 321. A essência comum de ambas seria o 55 000 000, a qualidade Casa, com o correspondente número idiossincrásico, diferentemente do que postulou José Reis, que separa a qualidade da quantidade e parece não admitir, por conseguinte, que o universal Casa contenha,em si, um número.

 

Para a Física contemporânea, a côr vermelha, uma qualidade, é ou equivale a um comprimento de onda de 6200 angströms. A côr verde, outra qualidade, possui o comprimento de onda de 4120 angströms e a côr azul, também uma qualidade, tem o comprimento de onda de 4750 angströms. Toda a qualidade exprime um conjunto de quantidades combinadas de uma determinada maneira.

 

A quantidade é intrínseca à qualidade e não extrínseca - embora no texto de José Reis pareça  correcta a

dissociação entre a qualidade como essência e a quantificação desta desta nos existentes. Se a quantidade não fosse intrínseca à qualidade, como poderia esta dotar-se de quantidade e variar segundo a quantidade? Um triângulo equilátero não é aquele em que cada um dos ângulos mede 60º de arco? E isto nãoé quantidade dentro de uma essência que é qualidade ou forma?

 

 

Separar, pois, a qualidade da quantidade na determinação do universal é, a nosso ver, um equívoco antidialéctico, na linha de Kant, Bergson, Husserl e Heidegger.

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

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