Sexta-feira, 17 de Junho de 2016
Equívocos na prova 714 de exame nacional de Filosofia, de 15 de Junho de 2016

 

 

O exame nacional de filosofia, prova 714 /1ª fase,  de 15 de Junho de 2016, apresenta inconsistências na formulação das questões de escolha múltipla, que pedem selecionar uma só «resposta correta» de entre quatro hipóteses, a exemplo de outros anos. Vejamos alguns exemplos extraídos da versão 1 da prova.

 

GRUPO I 

5. Considere as frases seguintes.

1. O italiano é a língua oficial da Itália.

2. Todos os sólidos ocupam espaço.

É correcto afirmar que:

(A) ambas exprimem conhecimento a priori.

(B) ambas exprimem conhecimento a posteriori.

(C) 1 exprime conhecimento a priori, 2 exprime conhecimento a posteriori.

(D) 1 exprime conhecimento a posteriori, 2 exprime conhecimento a priori.

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta D a única correta.

 

Crítica: Não há resposta absolutamente objectiva e única a esta questão. É erróneo dizer que só uma destas hipóteses é correta e as outras erradas. Um empirista puro, como David Hume, dirá que todo o conhecimento é a posteriori e subscreveria como certa a hipótese B: na verdade, saber o que é a Itália implica um conhecimento proveniente da experiência, isto é a posteriori, exige ver o mapa do país com a forma de bota e ver imagens de Roma, Florença, Veneza, etc. E o facto de o italiano ser a língua da Itália é extraído da experiência porque, por hipótese, poderia ser a língua latim ou a língua inglesa o idioma oficial da Itália. De igual modo, um tal empirista puro diria que só pela observação a posteriori de cubos, esferas e outros sólidos se conclui que estes ocupam espaço.

Um empiro inatista - ou empiro-racionalista - como Kant diria que a hipótese D é a correcta: um juízo que fala da Itália, país que é um fenómeno, um objecto empírico, é a posteriori mas um juízo de geometria pura como «todos os sólidos ocupam espaço» é a priori, formado pelo entendimento puro sem recurso às sensações, ao ver ou tocar esferas ou cubos físicos, palpáveis, recorrendo apenas à intuição pura de espaço e de figuras geométricas. Os autores do exame considera, correta esta última resposta D

 

Vejamos outra questão.

 

6. Suponha que um vendedor incentiva um cliente a comprar um telemóvel nos seguintes termos.

 

«Eu, no seu caso, comprava este telemóvel. Pode parecer um pouco caro, mas os seus colegas vão de certeza ficar cheio de inveja, pois este modelo não está ao alcance de qualquer um e é o escolhido por pessoas que já têm um certo estatuto. Assim, até vai atender as chamadas dos seus amigos com mais gosto».

Este discurso é uma tentativa de

(A) persuasão racional, pois são apresentadas razões que permitem uma avaliação objetiva do produto.

(B) persuasão por meio de manipulação, pois pretende-se convencer apelando unicamente às emoções.

(C) persuasão racional, pois os factos apresentados nas premissas são evidentes e todos os reconhecem.

(D) persuasão por meio de manipulação, pois incentiva as pessoas a consumirem bens dispensáveis.

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta

 

Crítica:duas respostas corretas e não apenas uma como pretendem os autores do exame: a B e a D. Há, decerto, manipulação por via das emoções (vaidade, inveja)  no texto do vendedor acima mas há igualmente um incentivo a consumir um bem dispensável, um telemóvel caro.

 

Passemos a outra questão.

 

7. Os relativistas acerca dos valores defendem que:

(A) a correção dos juízos de valor depende da cultura e, assim, o que é correto numa cultura pode não o ser noutra.

(B) todos os valores são relativos e, por isso, nenhum juízo de valor é correto ou incorreto.

(C) nenhuma cultura tem valores coincidentes com os valores de outra cultura.

(D) a correção dos juízos de valor depende inteiramente do que é aprovado nas sociedades mais evoluídas

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta.

 

Crítica: há duas respostas corretas, A e B, ainda que a A seja mais perfeita que a B. Esta última exprime a posição de uma parte dos relativistas, aquela que desemboca no ceticismo, no nivelamento igualitário de todas as culturas.

 

O que é o relativismo? É a doutrina que diz que a verdade, os valores variam de época a época, povo a povo, cultura a cultura, classe a classe social, etc. E é só isto. A alínea A da versão 1 (a correção dos juízos de valor depende da cultura e assim o que é correto numa cultura pode não o ser noutra) é a definição correcta de relativismo.

 

A alínea B (todos os valores são relativos e por isso nenhum juízo de valor é correto ou incorreto) mistura duas definições: relativismo e ceticismo.

 

Se eu digo «No mundo há democracias liberais, fascismos, ditaduras comunistas, os regimes políticos são relativos, mas eu acho que o melhor é a democracia» estou a ser relativista sem ceticismo, com dogmatismo, estou a diferenciar. A igreja católica romana que há séculos era absolutista («ninguém se salva fora da igreja de Roma») evoluiu para um relativismo diferencial, não cético; «Pode haver salvação no budismo ou no hinduísmo, as crenças em Deus são relativas às áreas geográficas, povos, etc.,  mas a melhor religião é a de Nosso Senhor Jesus Cristo centrada no Vaticano, nem todas valem o mesmo».

 

Ora este relativismo diferencial só está implícito na alínea A da versão 1, mas é negado pela alínea B.

 

Consideremos outra questão.

 

10. Kuhn considera que há períodos de consenso e períodos de divergência na comunidade científica. O fim de um período de consenso e a consequente entrada num período de divergência devem-se

(A) ao aprofundamento do paradigma.

(B) à acumulação de anomalias.

(C) à resolução de enigmas.

(D) à atitude crítica própria da ciência normal.

 

Nota: A Grelha de correção oficial diz ser a resposta B a única correta

 

Crítica: há duas respostas corretas, A e B, e não apenas uma, a B. Não é só a acumulação de anomalias o motor da mudança de paradigmas. O aprofundamento do paradigma - surgimento de novas ideias que completam e desenvolvem o paradigma vigente - é outra fonte da revolução científica e abre, quase sempre, um período de divergências entre os cientistas. A teoria da relatividade de Einstein não comporta, originalmente, a noção de matéria escura (buracos negros como portas de um multiverso) mas discípulos de Einstein como Roger Penrose e Stephen Hawking aprofundaram o paradigma, acrescentando-lhe o conceito de matéria negra. Há aqui acumulação de anomalias? Mas este aprofundamento do paradigma instalou a divergência no seio dos astro físicos: por exemplo, Alan Grants e Ted Woods, materialistas dialéticos, não aceitam que a relatividade einsteiniana implique o multiverso.

 

O MÉTODO DA DÚVIDA NÃO É MÉTODO CRÍTICO? PORQUÊ DIFERENCIÁ~LOS?

Na questão 2 do grupo IV,  diz o seguinte:

Tanto Descartes como Popper consideram que a submissão das nossas crenças ou opiniões a um severo exame crítico é um aspecto central do método de procura da verdade. Porém, Descartes e Popper divergem quanto aos resultados da aplicação desses métodos.

Justifique as afirmações anteriores.

Na sua resposta explicite os aspectos relevantes do método defendido por Descartes e do método defendido por Popper.

A correção oficial desta prova diz o seguinte:

«Descartes recomenda o método da dúvida para procurar a verdade....

«Popper recomenda o método crítico para procurar a verdade...

Crítica minha: Esta nomenclatura é confusa. Então o método crítico de Popper não é um método da dúvida? Claro que é...A crítica pressupõe a dúvida e o dogma que sobrevive às dúvidas. E o método de Descartes não é um método crítico já que pressupõe a dúvida metódica e afirma dogmas como «Eu penso, logo existo», «Se em vez de um Deus verdadeiro existisse um génio maligno que me enganasse em tudo, eu não conheceria que o mundo é verdadeiro e de que modo o é» ? É óbvio que é...

 

Os autores desta prova de exame carecem de um verdadeiro pensamento de síntese, padecem de racionalidade fragmentária, isto é, de «ver a árvore e não ver a floresta». Estranho é que se repitam sempre os mesmos erros na concepção da prova de exame nacional de filosofia, erros que temos denunciado aqui em anos sucessivos.

 

Doutoramentos e mestrados em filosofia não dão garantias de pensamento correcto e criador. A docência universitária em filosofia, pública ou privada, está dominada por pequenos pensadores inflacionados socialmente pela retórica e a burocracia que confere títulos. A universidade é uma instituição de massas, onde o erro e uma certa mediocridade se infiltram, não é a cúpula do pensamento mais elevado.

 

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Quinta-feira, 20 de Março de 2014
Equívocos de autores da «Raíz Editora»: o falsificacionismo opõe-se a paradigma?

 

As fichas de apoio ao Filosofia 11º da «Raíz Editora»  revelam falta de clareza dialética dos autores. Vejamos um exemplo dessas fichas enviadas por e-mail a centenas ou milhares de professores de filosofia, no modo como comparam as ideias de Popper com as de Kuhn:

 

"Análise comparativa das duas perspectivas

INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA

 

POPPER

Suportada no critério da falsificabilidade

"As «teorias» devem ser refutadas(testadas criticamente) no sentido de detectar e eliminar erros que eventualmente contenham. Valorização do método hipotético-dedutivo."

 

KUHN

Suportada em paradigmas

 

"O paradigma fornece o modelo de investigação científica para toda a comunidade cuja acção incide numa espécie de resolução de enigmas segundo as regras fornecidas pelo paradigma."  (fim de citação)

 

Crítica minha: esta divisão é confusa; temos uma essência (o paradigma, em Kuhn) contra uma transição de essências (da verosímil à falsa, em Popper). Que é a falsificabilidade de Popper senão a substituição em potência de um paradigma por outro?

 

As conjecturas científicas de Popper são paradigmas instáveis, transitórios, mas os autores do manual do 11º ano de Filosofia da «Raíz Editora» parecem entender que não...acham que Popper não se baseia em paradigmas (modelos teóricos e teórico-práticos). Reservam o conceito de paradigma só para Kuhn. Ora a investigação científica em Popper assenta em paradigmas e tem a falsificabilidade e a testabilidade como princípios guias, o que os autores em questão não compreendem.

 

É assim que "pensam" os analíticos: confusamente, sem hierarquizar géneros diferentes e espécies no seio do mesmo género ou em géneros diferentes...A lógica proposicional nada pode ensinar-lhes nesse capítulo porque não é uma lógica intuitiva, que atinja o cerne da verdade.

 

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014
Teste de filosofia do 11º C, Fevereiro de 2014

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
7 de Fevereiro de 2014.         Professor: Francisco Queiroz

 

Os juízos matemáticos são todos sintéticos…O próprio homem é fenómeno…Compreendo por idealismo transcendental de todos os fenómenos a doutrina que os considera, globalmente, simples representações e não coisas em si… O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica… ” (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1-A) Explique, concretamente, cada uma destas frases de Kant.

 

1-B) Explique como, segundo a doutrina de Kant, se formam o fenómeno ÁRVORE e o conceito empírico de ÁRVORE.

 

II

 

2) Relacione, justificando:

 

2-A) Empirismo/racionalismo e doutrina de Parménides sobre o ser.

 

2-B) Método hipotético-dedutivo das ciências e teoria de Popper sobre as ciências.

 

2-C) Três tipos de substâncias na ontologia de Descartes e três tipos de ideias na gnosiologia de Descartes.

 

2-D) Argumento dedutivamente válido e argumento sólido.

 

2-E) Fenomenologia, idealismo solipsista, realismo crítico e lei do salto de qualidade.

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES)

 

 

1-A) Ao dizer que os juízos matemáticos são todos sintéticos, Kant pretendia significar que o predicado desses juízos acrescenta algo novo ao sujeito. Exemplo: «Sete vezes sete é igual a quarenta e nove» - o predicado «é 49» adiciona um novo conhecimento ao sujeito «7 vezes 7». Todo o homem é fenómeno significa que o corpo humano, a figura do rosto, o tamanho dos membros são fenómenos, ou seja, objectos empíricos que nada são em si mesmos porque são criados na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, e desaparecem com a extinção do espírito humano. O idealismo transcendental considera que os fenómenos (exemplo: cadeiras, casas, árvores) são apenas representações, isto é, percepções empíricas, imagens, conceitos, mas não são coisas reais em si mesmas. A coisa em si é o númeno, objecto metafísico sem matéria nem forma. O entendimento, função que pensa os fenómenos, reduz à unidade, a um resumo, o diverso, as múltiplas intuições empíricas. Exemplo: depois de a sensibilidade ver centenas de rosas que ela mesma cria em si mesma, o entendimento recebe as imagens da sensibilidade e, munido de categorias ou conceitos puros como «unidade», «pluralidade», «totalidade», constrói uma única rosa intelectual, um conceito empírico de rosa, abstraindo de pormenores como a cor, o perfume, etc. (VALE CINCO  VALORES)

 

1-B) O númeno afecta «do exterior» a sensibilidade e cria, nesta, um caos de matéria (madeira, terra, ferro, etc). Este caos é moldado pelo espaço que nele imprime figuras geométricas e pelo tempo que lhe confere duração, sucessão. Assim nasce o fenómeno árvore, na sensibilidade «externa», isto é, no espaço. O entendimento intervém na medida em que confere à árvore o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: tronco, raízes, ramos, etc). São enviadas ao entendimento imagens de diferentes fenómenos árvore - sobreiros, pinheiros, faias, macieiras, etc - e as categorias ou conceitos puros do entendimento como pluralidade, unidade e realidade misturam e tratam essas imagens empíricas transformando-as num só conceito empírico, o de árvore, abstraindo dos pormenores das árvores particulares. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)  A) Em Parménides  a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, homogéneo, imprincipial, invisível, esférico, eterno. É portanto, uma teoria  racionalista, que não dá crédito às percepções empíricas mas sim ao raciocínio ("Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). Esse racionalismo pode ser um realismo crítico  -  a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos - ou um idealismo crítico como em Kant.   No empirismo, as ideias nascem das impressões sensíveis e imitam a forma destas, o que não corresponde à via da verdade de Parménides.  (VALE TRÊS  VALORES)

 

2) B) O método hipotético-dedutivo decompõe-se em quatro etapas: observação, hipótese (indução amplificante), dedução da hipótese e experimentação que confirma ou desmente a hipótese. Karl Popper opõe-se à indução amplificante, pois sustenta que a observação de casos particulares, por muito numerosos que sejam, não autoriza a formular leis gerais universais. Para Popper, as ciências empíricas são conjuntos de conjecturas, suposições, que podem ser temporariamente aceites enquanto não forem refutadas  pelo debate de ideias e pelos testes experimentais que não verificam as leis mas apenas corroboram, isto é, confirmam exemplos. O princípio da falsificabilidade estabelece que só pode merecer o título de "ciência" provisória a doutrina que se exponha a testes e propicie a sua auto-destruição ou rectificação. O conhecimento é uma perpétua aproximação à verdade, que nunca se atinge por completo. (VALE DOIS VALORES)

 

2) C) Descartes admitia três tipos de ideias: adventícias, factícias e inatas. E três substâncias ontológicas: a res divina (Deus), a res cogitans (o pensamento humano) e a res extensa (o espaço com as figuras geométricas). Pode-se fazer corresponder a res divina Deus às ideias inatas porque estas são absolutamente seguras: as ideias de corpo, alma, Deus, figuras geométricas, números. 

Por ideias adventícias, Descartes entendia as sensações e percepções empíricas. Exemplo: ver uma jarra de flores, saborear gaspacho, ouvir música. Ora, as percepções empíricas serão parcialmente ilusórias segundo Descartes: as cores (exemplo:o vermelho da rosa), os cheiros (exemplo: o perfume da rosa), os sabores, a dureza e a moleza, o calor e o frio, são qualidades secundárias, isto é não existem na realidade objectiva, no mundo material exterior ao corpo humano, surgem apenas na mente como ilusão, resultando do embate nos orgãos sensoriais de «poeiras» exteriores emanadas dos objectos. No entanto, as ideias adventícias, na medida em que reflectem as formas, o tamanho e o movimento dos objectos exteriores, isto é, as qualidades primárias, não transmitem ilusão mas sim verdade. Pode-se fazer corresponder as ideias adventícias à rex extensa.

Por ideias factícias, entende-se as ficções da imaginação (exemplo: uma sereia, um elefante com patas de leão, etc). Podemos fazê-las corresponder à res cogitans. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) D) Argumento ou raciocínio dedutivamente válido é aquele que não apresenta incoerência formal nem falibilidade, isto é, o que, por via da razão, passa de uma premissa geral para uma conclusão particular implícita nas premissas ou para uma conclusão geral necessária (exemplo: «dois mais dez é igual a doze, doze mais cinco é dezassete, logo dois mais dez mais cinco é igual a dezassete»). Argumento sólido é aquele que ou é dedutivamente válido ou é indutivamente válido e possui lógica material- um exemplo, deste último caso: «A dieta de maçãs, consistindo em ingerir de um a três quilos de maçã por dia, já melhorou mais de dois milhões de doentes de reumatismo e úlcera gástrica, por conseguinte Joaquim e Ausenda melhorarão das suas doenças reumáticas se  praticarem essa dieta». O argumento dedutivamente válido, no plano formal, «As batatas são aviões, os sobreiros são batatas, logo os sobreiros são aviões» não é sólido porque viola a lógica material.(VALE UM VALOR)

 

2) E) A fenomenologia é um cepticismo moderado: cingindo-se aos fenómenos - o que é visível, o que se manifesta- ela não se pronuncia a favor do idealismo ontológico nem do realismo ontológico. O idealismo solipsista afirma que o mundo de matéria é irreal e interior a uma única mente, a minha. O realismo crítico sustenta que o mundo de matéria é real, exterior às mentes humanas, mas estas captam-no de forma distorcida (exemplo: a cores violeta, amarela e castanha não existem no mundo exterior, são fabricadas na minha mente). A lei do salto de qualidade diz que a acumulação lenta e gradual, em quantidade, (devir) de um aspecto num fenómeno leva a uma mudança qualitativa repentina nesse fenómeno. Aplicando esta lei, podemos dizer que uma acumulação de raciocínios e ideias pode levar alguém a passar do realismo crítico para o idealismo solipsista ou viceversa. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Segunda-feira, 7 de Março de 2011
Equívocos de Rambaldi sobre o Pirronismo e a Teoria Conjecturalista de Popper

 

Em «Oposição/ Contradição», um artigo muito interessante sobre a dialéctica, Enrico Rambaldi desenvolveu variados equívocos.  Passemos a analisar alguns.

 

O REALISMO DA CONTRADIÇÃO NÃO É EXCLUSIVO DA DIALÉCTICA (INTERNALISTA) 

 

Após descartar o senso comum por rejeitar a racionalidade da existência de contradições e oposições e "não ser significativo", Rambaldi escreve:

 

«Entre os modos de entender a oposição e a contradição que, pelo contrário, são significativos, um é o de evidenciá-las, para negar que seja possível um juízo de verdade, ou para contradizer um discurso e sobre ele construir outro; um segundo é o de analisá-las para delimitar o campo do saber; um terceiro, realista, é o de considerá-las o motor de todo o desenvolvimento.» (Enrico Rambaldi, Oposição/Contradição, Enciclopédia Einaudi, volume 10, pag 45, Casa da Moeda).

 

Esta distinção está confusa: há realismo da contradição - ou seja existência autónoma desta, fora da mente humana - tanto na segunda posição como na terceira, esta última heraclitiana/ hegeliana /marxista. O realismo não pode restringir-se à doutrina que coloca a contradição como motor interno de desenvolvimento de todos os entes e processos. É realista também a doutrina que reconhece a contradição como forma externa às coisas e entre estas mas não situada na essência interna de cada coisa.

 

Quanto ao cepticismo, não se trata de privação absoluta: o cepticismo apenas nos priva da certeza ontológica, mas não da imagem sensorial gnoseológica. Assim, o céptico possui algo, a verdade da aparência em si mesma e a dúvida metódica sobre a meta-aparência, a essência oculta, o ser do fenómeno.

 

O CEPTICISMO PIRRÓNICO É SUBJECTIVISMO RADICAL NEGATIVO? E O CONJECTURALISMO DE POPPER É SUBJECTIVISMO MODERADO CONSTRUTIVO?

 

Rambaldi designa o cepticismo de subjectivismo radical negativo:

 

«Subjectivismo radical negativo»

«(...) Na sua forma mais rigorosa (pirronismo), o cepticismo não deixa qualquer possibilidade de que este ou aquele juízo possa, mesmo fortuitamente, ser verdadeiro, mas demonstra , pelo contrário,  a necessidade da dúvida universal. » (Enrico Rambaldi, Oposição/Contradição, Enciclopédia Einaudi, volume 10, pag 45-46, Casa da Moeda; o negrito é colocado por mim).

 

Esta definição de cepticismo é parcialmente errónea: o cepticismo comporta juízos verdadeiros, para o cepticismo pirrónico o juízo «sinto calor neste dia de verão» é verdadeiro, porque se reporta a sensações, a percepções empíricas. Para os cépticos, a dúvida não é universal no sentido de extensão total, de abrangente de todo o tipo de representação e ideação. A dúvida hiperbólica desenvolvida por Descartes, essa sim, foi total, mas não coincide com o pirronismo. Descartes duvidou das percepções empíricas, do "eu", de tudo, Pirron duvidou só do lado oculto, física ou especulativamente falando.

 

Na verdade, o cepticismo pirrónico não é um subjectivismo radical negativo: Pirrón não negava que vissemos o céu como azul e sentíssemos como salgada a água do mar, simplesmente negava que pudéssemos saber (intelectualmente ou sensório-idealmente)  o que é o sabor salgado e se a côr existe mesmo no céu ou não. É um objectivismo antimetafísico e anti-racionalista: objectivismo no seu duplo sentido, porque a doutrina é perfilhada por muitos e porque capta o objecto exterior tal como é, na sua aparência visível e palpável; anti-racionalismo porque nega à razão o poder de arquitectar certezas por si mesma, para além da evidência sensorial E a teoria de Popper de que «as ciências são conjuntos de conjecturas, inverificáveis como teses» não é, senão, um cepticismo pirrónico.

 

Rodolfo Mondolfo escreveu:

 

«Os primeiros cépticos, PIRRÓN e TIMÓN, colocam três problemas capitais para o sábio: qual é a natureza das coisas; que atitude devemos assumir face a elas; que resultará dessa atitude. À primeira questão respondem (desenvolvendo motivos do relativismo de Heráclito e de Protágoras): só conhecemos o que sentimos; podemos afirmar que o fenómeno tal como nos aparece, por exemplo que o mel nos parece doce, mas que tal seja o seu ser em si. E por isso, a resposta à segunda questão é que devemos reconhecer e seguir os fenómenos, mas suspender o juízo sobre o que está oculto (a coisa em si); desta maneira temos no fenómeno o critério necessário para a conduta prática, sem possuir o inalcançável critério da verdade objectiva.» ( Rodolfo Mondolfo, Breve Historia del pensamento antiguo, Editorial Losada, pág 75, Buenos Aires, 1953; o negrito é posto por mim).

 

E Rambaldi classifica, de forma errónea, a teoria das conjunturas e refutações de Karl Popper de subjectivismo moderado construtivo:

 

«1.2 Subjectivismo moderado construtivo»

«Nem todas as perspectivas que excluem (ou se recusam a examinar a examinar se) os conceitos podem recapitular o mundo exterior implicam, no entanto, um tal pessimismo. Existem, pelo contrário, algumas que desenvolvem um uso heurístico positivo de contradições e oposições. Assim, Popper critica grande parte da epistemologia sua contemporânea porque ela lhes não concedia espaço adequado.» (Enrico Rambaldi, Oposição/Contradição, Enciclopédia Einaudi, volume 10, pag 46, Casa da Moeda; o negrito é colocado por mim).

 

Popper não é, em termos de princípio filosófico, mais construtivo do que Pirron ou Carnéades, autor do probabilismo, um cepticismo diferencial. Sucede que Popper é um céptico pragmático e, como tal, valoriza a acção, os exemplos corroborados, mas nega certeza a qualquer doutrina científica fundada na indução, excepto à matemática e à ontologia realista (o mundo material subsiste fora do meu espírito). Não há, pois, razão para esta distinção entre subjectivismo radical negativo e subjectivismo moderado construtivo, quando se põe Pirron num prato da balança e Popper no outro. Decerto, a obra de Popper é muito mais substancial do que a de Pirron mas a posição filosófica é, talvez salvo uma ou outra diferença, a mesma: cepticismo.

 

Nem o cepticismo pirrónico clássico nem a teoria de Popper são espécies do género subjectivismo. Subjectivismo pertence ao género "número de sujeitos que perfilham uma doutrina" e cepticismo é espécie do género «grau de certeza de uma doutrina».

 

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
Intersubjectividade e retórica ou o comunismo filosófico de Manuel Maria Carrilho

O catedrático de filosofia Manuel Maria Carrilho, partidário do pragmatismo e da ontologia linguística - o mundo é um dizer - exprimiu uma panóplia de equívocos no seu livro «O que é a filosofia» publicado há 16 anos. Sobre a natureza da linguagem, afirmou, ao analisar as tendências contemporâneas da filosofia :

 

«Na perspectiva que considera a crença um hábito de acção, o que a linguagem faz não é relacionar a palavra e o mundo mas, antes, articular o seu uso com um determinado hábito. Trata-se de uma relação interna, que dispensa as pretensões representativas da linguagem e sublinha o seu carácter holista: o uso da linguagem consiste na articulação de pedaços da linguagem com outros pedaços de linguagem, e não existe nada fora da linguagem que possa ser dito a não ser, ainda, pela linguagem; a linguagem não comporta um exterior dizível, ela é, em suma, ubíqua.» ((Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.108; a letra negrita é posta por mim).

 

Ora há aqui um erro essencial de Carrilho: a linguagem não é o ser, não é linguagem isolada, é seta apontando ao alvo-mundo, seja este mundo virtual, fantasista, seja o mundo real da natureza biocósmica e não é totalmente ubíqua como quer Carrilho. Ser ubíqua não significa ser englobante de tudo ou constituição absoluta de tudo. Por exemplo, a palavra nuvem comporta um exterior dizível que lhe corresponde: o objecto esbranquiçado ou escuro, em forma de flocos, feito de vapor de água, que paira no céu visível. Nunca a linguagem perde a função representativa, ainda que haja um esqueleto lógico, não representativo do mundo, em cada proposição. Como diz Heidegger, «a linguagem é advento velador-iluminador do ser.» Há mais mundo além da linguagem. Não há linguagem sem referente, isto é, sem objecto, imaginário ou real: a linguagem articula sempre uma palavra e um mundo e, se articula palavras e frases entre si, é sempre tendo como pano de fundo a estruturação de um mundo ou a articulação de mundos.

 

Mesmo a frase poética: «Um galo amarelo riscou o vidro da madrugada e a ampulheta do céu girou» não é uma simples articulação de palavras mas uma reconstrução do mundo na imaginação. Ampulheta, céu, galo amarelo, vidro, madrugada são objectos reais, referentes, que foram retirados pela mente do seu contexto real e lançados na construção de um mundo onírico. Ao construir a frase poética, construímos um mundo onírico extra linguístico.

 

A linguagem não existe no vazio nem constitui o mundo, ainda que seja um mundo: é apenas um mundo fenoménico, vocal, gráfico e gestual, a recobrir um outro mundo, interior ou exterior. Detrás da linguagem há algo, -  realidade ou imaginação - que ela reproduz correctamente ou falsifica. A palavra «Deus» que Nietzschze referiu como tendo sido causa da criação de um ente ilusório, de um erro filosófico, refere-se de facto a um ente: a questão é saber se é um ente de imaginação -  ente de razão, na terminologia da escolástica - ou um ente real, objectivo, embora espiritual e invisível. Antes da palavra «Deus», estava a respectiva ideia, ainda inominada. A linguagem brota da intuição dos objectos exteriores ou interiores, é derivada do ser ou estrutura geral do universo e do homem. A linguagem é como o amor: em primeiro lugar, a sua matéria-prima vem de fora para dentro, entra na consciência em forma de imagem e aí recebe a sonoridade, o signo gráfico, tornando-se linguagem de facto, e depois vai de dentro para fora, nomeando os entes.

 

No princípio está o ser, o silêncio absoluto, não a palavra. Carrilho equivoca-se. A sua idolatria da palavra - como se esta pudesse nascer sem referência exterior-  em detrimento da realidade primordial, extra linguística, fá-lo deslizar ao nível da superficialidade de um Rorty, de um Putnam e outros, ou mesmo a um nível inferior a eles visto que é um simples epígono. A filosofia analítica nesta versão extrema da linguagem como o ser, como totalidade que nada deixa de fora, é uma metafísica comparável ao idealismo ontológico. É o linguismo ontológico ou ontologia linguística: o ser das coisas está dentro das palavras que as nomeiam e as coisas só existem enquanto capturadas na rede da linguagem. A realidade não é assim: embora nascida e vertida na intersubjectividade, a linguagem – ou seja a imagem autónoma das coisas, vocal-gráfico-pensante – possui um referente último nas próprias coisas, isto é, fora dela.

 

A tese de que «a  linguagem é ubíqua, não comporta um mundo exterior dizível» parece ter sido bebida por Carrilho em Dummet mas é rejeitada pelo próprio Rorty que permanece num cepticismo «pragmático»:

 

«Consideraremos errada a noção de Dummet de filosofia da linguagem   como "filosofia primeira", não porque alguma outra área seja "primeira", mas porque a noção de filosofia com fundamentos é tão errada como a de conhecimento com fundamentos.» (Richard Rorty, Philosophy in the Mirror of Nature, VI, I). 

 

Justamente porque considera as palavras como signos convencionais, Carrilho entende poder manipulá-las a seu bel prazer. Ora as palavras são e não são signos convencionais: num primeiro momento, são, no que respeita à carapaça, que pode ser de qualquer côr; posteriormente, não são, porque se integram como peça insubstituível na máquina das correlações entre o pensamento humano e o mundo objectual exterior ou interior.

Nietzshze dissociou, em certa medida, o pensamento da palavra, no pressuposto de que há um mundo metalinguístico:

«244- Pensamento e palavra. - Nem sequer os nossos pensamentos podemos traduzir inteiramente por meio de palavras. » (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 173).

 

OS VALORES NÃO SÃO PERSPECTIVOS POR A LINGUAGEM «SER RETÓRICA», MAS AO INVÉS

 

Ao falar de uma retórica filosoficamente concebida, Carrilho escreve:

 

«Foi ela que, como Paul de Man apontou, viabilizou e orientou a sua crítica da metafísica tradicional, dado que, para ele, a retórica não é um uso, de intuitos manipulatórios ou ornamentais, da linguagem, é a "natureza" da própria linguagem, seja qual for o uso - corrente, estético, científico, etc - que se considere. O perspectivismo é solidário desta concepção da linguagem: todo o conhecimento, todos os valores, são perspectivos, porque toda a linguagem é retórica.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág. 93).

 

Carrilho coloca o carácter retórico da linguagem como origem do perspectivismo dos valores e do conhecimento, mas o que sucede é o inverso: a linguagem deriva da estrutura ontológica dos mundos físico e espiritual dos valores, se ela é «perspectiva, retórica» é justamente porque os valores e a realidade são «perspectivos», como que cristais de múltiplas faces que nunca podem ser vistos na totalidade em simultâneo mas sim vistos desde uma perspectiva, um ângulo limitado.

 

A INTERSUBJECTIVIDADE SUPERA A FILOSOFIA DA «CONSCIÊNCIA ISOLADA», OU É COMUNISMO FILOSÓFICO?

 

 

Carrilho escreveu sobre o conceito de racionalidade argumentativa intersubjectiva em Habermas: 

 

«O que Habermas defende de modo que tem marcado fortemente a filosofia, sobretudo desde o começo da década de 80, é uma perspectiva que se desvie do trajecto percorrido pela filosofia da consciência nas suas obsessões pela figura do sujeito, e aposte numa compreensão da intersubjectividade que renove a compreensão do mundo e da razão. Uma tal compreensão passa pela atenção a uma dimensão que a modernidade – e esse teria sido o seu erro de raiz – sempre descurou, a da comunicação. (…) Um mundo vivido que aqui não tem os contornos existenciais que lhe deu Husserl, e que Heidegger no fundamental partilhou, porque não é pensado a partir de um eu mais ou menos solipsista mas, antes, como emergindo da intersubjectividade que a linguagem propicia e consolida no exercício dos vários regimes de acção (teleológico, dramatúrgico, axiológico e comunicacional) a que nos referimos.»Manuel Maria Carrilho, O que é Filosofia, Difusão Cultural, Pág.84- 85; a letra negrita é posta por mim).

 

Neste campo da afirmação do valor da intersubjectividade, isto é, do acordo entre duas ou mais pessoas sobre a existência e a natureza de algo, Carrilho subscreve a posição de Habermas. É a posição dominante hoje na sociedade capitalista liberal no campo da política, da informação e das ciências sociais: o diálogo, o meio termo, a negociação entre posições desemboca numa «verdade» que não era nenhuma das «verdades» que originalmente os adversários perfilhavam. Ora se o meio termo funciona bem no campo da ética, da comunicação de massas e da política, assim não sucede no campo da ontologia e das ciências naturais.

Foram, com Habermas e outros,  «as obsessões pela figura do sujeito» substituídas pela intersubjectividade e pela comunicação, como pretende Carrilho? Não.  A comunicação entre dois ou muitos não apaga, a maioria das vezes,  a individualidade do sujeito hegemónico: projecta a sua subjectividade deste nos outros, manipula-os.

 

Nietzsche, que Carrilho cita abundantemente, desmascarou o mecanismo da intersubjectividade como validação da «verdade» do seguinte modo:

«260- Tábua de multiplicar- Um, nunca tem razão; a dois, começa a verdade. Um, não se pode provar; dois, já não podem continuar a refutar-se.» (Nietzsche, A Gaia Ciência).

.

A teoria de Einstein já era científica, já era uma grande construção filosófica e científica, quando ainda só era conhecida por Einstein e não tinha o acordo intersubjectivo de Bohr e de outros cientistas. Suponhamos que a comunidade científica recusava a teoria de Einstein: deixava esta de ser ciência, pelo facto de lhe faltar o patamar de apoio da intersubjectividade? Não. Deixou a teoria heliocêntrica criada por Aristarcos de Samos na antiguidade, de ser ciência só porque o triunfo social coube durante séculos à teoria geocêntrica de Ptolomeu e Aristóteles? Não. É evidente que a ciência é um em si e, só depois, um para os outros. O pensador isolado vale mais do que o pensamento da multidão que é também comandado por um ou outro pensador isolado hábil em cativar os menos pensantes. A perspectiva de Carrilho de elevar a intersubjectividade e a retórica a pedra de toque do que é válido e verdadeiro na filosofia e nas ciências é puro «comunismo filosófico». Ora o comunismo é o apagamento das diferenças entre os pensadores entre si e entre estes e a multidão quase impensante. É a vulgaridade, a demagogia. O comunismo é a ideologia do estômago, das necessidades básicas vitais. É útil neste plano, é perjudicial no plano espiritual da descoberta da verdade filosófica porque esta descoberta se faz com voos individuais, com rasgos dos pensadores de elite.

 

Com os neosofistas da linha de Manuel Maria Carrilho, a filosofia deixa de ser ciência ontológica, fenomenológica, gnosiológica e epistemológica e transforma-se em argumentação, em retórica, em comunicação hábil e, frequentemente, paralógica. Em vez de saber pensar com rigor, vale o saber falar, ser eloquente! As definições «essencialistas» desaparecem-se ou esbatem-se ante a fluidez enganosa do discurso. 

 

FILOSOFIA GENEALÓGICA VERSUS FILOSOFIA EPISTEMOLÓGICA: CONFUSÃO DE CARRILHO

 

Algum mérito tem Carrilho em reduzir a dois campos as correntes fundamentais da história da filosofia:

 «É possível distinguir na problemática que assim se instaura dois desenvolvimentos bem distintos, que atravessam toda a filosofia contemporânea, um de inspiração genealógica, outro de intenções epistemológicas. Eles talham dois modos de articular o conhecimento e a verdade, caracterizando-se a abordagem epistemológica pelo facto de tornar o conhecimento científico como modelo de todos os tipos de conhecimento e por valorizar os seus procedimentos de justificação, enquanto a orientação genealógica não só contesta este modelo como questiona a pretensão à verdade, com que ela, em boa medida, se identifica. Kant optou pela primeira via e foi nela que se situaram não só os principais autores da tradição analítica (Frege, Carnap, Quine) mas, também, embora de um modo mais matizado, filósofos de outras inspirações, como Apel ou Habermas. Na segunda, integram-se, metamorfoseando de modos diversos, o lance inaugural de Nietzschze, pensadores como Heidegger ou Foucault, Derrida ou Rorty.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.49-50; o negrito é posto por mim). 

 

Epistemológico opõe-se a genealógico? De modo nenhum. A epistemologia ou filosofia das ciências inclui uma genealogia do conhecimento. Carrilho não é feliz, não tem clareza, nas dicotomias que estabelece. Epistemológico opõe-se por um lado, a noológico ou noético (próprio da intuição inteligível), e por outro lado, a estético ou sensorial (próprio da intuição sensível).

Quando diz que Kant optou pela via epistemológica, Carrilho levanta uma nuvem de poeira. Kant investigou a génese do conhecimento: as formas a priori no sujeito, a "radiação" ou influência desconhecida do númeno sobre o "eu".  Por que razão Kant não deveria figurar na via genealógica ao passo que Heidegger, credor da teoria de Kant sobre o tempo, já figura nesta via?

 

Aliás note-se que o próprio Nietzshze, que Carrilho, admira como um pensador profundo e ímpar, coloca Kant e Schopenhauer na génese da filosofia anti racionalismo socrático e epistemológico:

 

«Recordemo-nos então de como, graças a Kant e a Schopenhauer, foi possível à filosofia alemã, derivada dos mesmos princípios, aniquilar o contente gosto de existir do socratismo científico, determinando-lhe os limites; como esta demonstração teve por resultado uma concepção incomparavelmente mais profunda e mais séria dos problemas éticos e estéticos, concepção que com toda a segurança podemos definir por sabedoria dionisíaca expressa em ideias.» (Nietzschze, A origem da tragédia, Guimarães Editores, 5ª edição, Pág. 158; a letra negrita é posta por mim).

 

NIETZSHE NÃO TROCOU A EPISTEMOLOGIA PELA RETÓRICA

 

Sobre o perspectivismo ou subjectivismo inultrapassável em cada homem, e cujo dilema é aceitar-se como visão enviesada ou negar-se a si mesmo como tal, escreveu Carrilho:

 

«A esta apertada tenaz só se escapa mudando de terreno ou de paradigma, e foi isso que Nietzschze fez e propôs que se fizesse ao trocar a epistemologia pela retórica, ao abandonar a análise das condições de validade da linguagem pela avaliação dos seus poderes.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Pág 92). 

 

Não se percebe muito bem como é que se escapa à tenaz da dicotomia perspectivismo / antiperspectivismo «mudando de paradigma». Seja como for, não é exacto que Nietzschze tenha trocado a epistemologia pela retórica: ele conferiu ao racionalismo socrático, pai das ciências modernas e contemporâneas, um estatuto de «retórica» e «visão superficial do mundo» e procurou, ao invés, criar uma ontologia da vontade de poder, uma ciência intuitiva da vida que está muito longe de ser mera retórica. A epistemologia ou reflexão sobre as ciências só é alvo dos ataques de Nietzschze na medida em que se oponha à vida, à afirmação dos instintos vitais da luta pelo poder, da sexualidade, e outros. Aliás, podemos classificar a doutrina de Nietzsche como uma epistemologia visto que julga, no tribunal de Diónisos, as ciências existentes no século XIX e o grosso das proposições metafísicas dos séculos anteriores.

Nietzschze escreveu:

 

«Mais ainda: as velhas proposições tornaram-se mesmo, no íntimo do conhecimento, normas a patir das quais se avaliou o "verdadeiro" e o "não verdadeiro" , mesmo nos domínios mais recuados da lógica pura. Portanto: a força do conhecimento não reside no seu grau de verdade, mas no seu grau de antiguidade, na sua assimilação mais ou menos adiantada, no seu carácter de condição vital.» (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 131-132; a letra negrita é posta por mim).

 

FEYERABEND NÃO SUBSTITUI A EPISTEMOLOGIA PELA RETÓRICA

 

Sobre o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, escreveu Carrilho:

 

«O passo dado por Kuhn, mas que só realmente Feyerabend dá, é o que conduz à substituição da epistemologia pela retórica: isto é, da justificação das teorias de um ponto de vista que lhes é exterior e se pretende a-temporal e a-contextual passa-se à sua avaliação em função da argumentação desenvolvida e do auditório a que ela se dirige.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Pág. 48; a letra negrita é posta por mim).

 

Longe de substituir a epistemologia pela retórica, contra o que Carrilho afirma, o que Feyerabend fez foi alargar o campo da epistemologia permitindo a entrada nele das ciências antigas e das práticas não ortodoxas como a astrologia, a magia ritual, a naturopatia, o culto religioso oficial, etc. Feyerabend não combateu todo o método científico mas apenas o monopólio de um método ensinado nas universidades, em particular nas faculdades de medicina, que subalterniza todos os outros métodos. Questionou, por exemplo, os cientistas que ridicularizam a eficácia da "dança da chuva" praticada por tribos primitivas:

 

«Onde está a teoria incompatível com a ideia de que a dança da chuva traz a chuva? (...) Não há um conjunto de observações que contradiga esta ideia. E, cuidado, não basta observar que as danças da chuva fracassam hoje em dia. Uma dança da chuva deve executar-se com a preparação adequada e nas circunstâncias apropriadas, entre as que se encontram a antiga organização tribal e as atitudes mentais correspondentes.» (Paul K. Feyerabend, Dialogo sobre el metodo, Ediciones Cátedra, Madrid, Pág. 89).

 

Foi pela prática histórica - não pela retórica - que se verificou e se consagrou a dança da chuva como método eficaz para fazer chover em zonas semi desérticas ou de escassa pluviosidade. Feyerabend, um verdadeiro pragmático de mente aberta, advogou a pluralidade de métodos que possuam eficácia - mesmo que não possam ser explicados racionalmente - em lugar de um método único que faz enriquecer os homens eticamente maus que governam as universidades, os ministérios da saúde e das ciências e as indústrias que prosperam com esta ditadura "científica" em vigor em todos os países.

 

A FILOSOFIA FORNECE SOLUÇÕES, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ CARRILHO, QUE NÃO FAZEM DESAPARECER O PROBLEMA

 

Na linha de um Popper e de um Rorty, Carrilho constitui a filosofia , essencialmente, como o lado interrogativo-crítico, indagador do pensamento humano. Escreve:

 

«Expus já em Jogos de Racionalidade (Asa, 1994 em particular no capítulo 3) o modo como se pode pensar a filosofia dispensando a muleta do método e dissipando o nevoeiro das soluções. O que a filosofia, nesta perspectiva, faz é problematizar o mundo, porque é na tensão problemática que - na medida em que o problema traduz sempre uma dissonância entre o homem e o mundo - se traduzem os esforços de compreensão, de transformação ou de interrogação dos homens. Seja qual for a matriz pela qual elas se orientem (cientista ou pragmática, hermenêutica ou epistemológica, por exemplo) os problemas são tematizados através de dispositivos retórico-argumentativos que permitem sugerir, hipotética ou conclusivamente, as respostas que julguem as mais adequadas. Mas respostas não são soluções, porque o que caracteriza uma solução é que ela faz - e é justamente nisso que consiste o método científico - desaparecer o problema, o que não acontece em filosofia.» (Manuel Maria Carrilho, O que é a filosofia, Pág. 103; a letra negrita é posta por mim).

 

Não pode haver filosofia sem método. Como pode então Carrilho dispensar «a muleta do método»? O método é o modo como se filosofa. É evidente que não há um só método em filosofia mas diversos métodos específicos.

O problema é indissociável da solução, ainda que esta seja provisória e verosímil. Estabelecer a  dicotomia resposta-solução carece de exactidão: todas as soluções são respostas embora o inverso não seja verdadeiro. Carrilho esquece o outro lado da filosofia, a vertente sem a qual não seria filosofia: a construção meta-empírica de conceitos, de cenários, a teoria simultaneamente racional e intuitiva. A filosofia postula, afirma: é na dialéctica hegeliana, o terceiro momento, o da síntese, mas Carrilho fica pelo segundo momento, o da antítese, pois aí estaciona o problematizar. Se a filosofia se limitasse a problematizar ficaria muito incompleta, tal como o ficaria o método socrático se fosse apenas ironia - pôr à luz as incoerências de certas ideias e teses - e não comportasse a maieutica - dar à  luz a verdade, postular, edificar teses, conclusões. O dogmatismo não é exclusivo da ciência, pertence igualmente à filosofia que se prolonga para lá do horizonte visível, fora do campo visual panorâmico que constitui o tronco das ciências, naturais ou sociais.

 

FORMAL NÃO SE OPÕE A LOCAL 

 

Ao caracterizar a retórica de Toulman, Carrilho escreve:

 

«O que é importante é considerar não o carácter formal mas o carácter local dos argumentos, bem como a sua diversidade conforme aos campos em que a sua argumentação se exerce, configurando-se assim uma ideia de racionalidade que rompe com a estereotipada concepção que a identificava com o domínio da validade formal.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.78; a letra negrita é por mim colocada).

 

Seja esta dicotomia formal-local desenhada por Toulmin, ou por Carrilho, está errada. O formal não se opõe ao local: o que se opõe a este é o regional ou, mais ainda, o universal. Formal opõe-se a informal. No contexto local, há elementos formais e elementos informais. Carrilho não possui um pensamento verdadeiramente dialéctico, não determina com clareza os autênticos contrários. É apenas um exemplo da pequenez filosófica elevada às cátedras universitárias.

 

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Terça-feira, 19 de Maio de 2009
Uma equívoca divisão de Popper: Essencialismo / Instrumentalismo/ Teoria das Conjecturas e Refutações

Karl Popper estabeleceu, de forma equívoca, uma divisão triádica da perspectiva científica: essencialista, instrumentalista e conjecturalista (teoria das conjecturas e refutações, posição de Popper).

 

Escreveu Popper:

 

«O essencialismo, a primeira das três perspectivas da teoria científica a ser discutida, faz parte da filosofia galilaica da ciência. Dentro desta filosofia podemos distinguir três elementos ou doutrinas que nos dizem aqui respeito: o essencialismo (a nossa “primeira perspectiva”) é aquela parte da filosofia galilaica que não desejo defender e que consiste numa combinação das doutrinas (2) e (3). São estas as três doutrinas:

 

1)      O cientista tem por finalidade descobrir uma teoria ou descrição verdadeira do mundo (e, em especial, das suas regularidades ou leis), que constituirá igualmente uma explicação dos factos observáveis. (Isto significa que a descrição desses factos tem de ser dedutível da teoria, em conjunção com determinados enunciados, as chamadas “condições iniciais”).

 

«Esta é uma doutrina que desejo apoiar. Faz parte da nossa terceira perspectiva.»

 

2)      O cientista consegue comprovar em definitivo a verdade dessas teorias, para além de qualquer dúvida razoável .

 

«Esta segunda doutrina, segundo creio, necessita de correcção. Tudo o que o cientista pode fazer, em minha opinião, é testar as suas teorias e eliminar todas aquelas que não consigam fazer face aos testes mais rigorosos que for capaz de conceber. Mas não pode estar nunca inteiramente seguro de que os novos testes (ou mesmo uma nova discussão teórica) não possam levá-lo a modificar, ou a abandonar, a sua teoria. Neste sentido, todas as teorias são e permanecem hipóteses: são conjecturas (doxa), por contraste com o conhecimento indubitável (epistemé).»

 

3)      As melhores teorias, as teorias verdadeiramente científicas, descrevem as “essências”  ou as “naturezas essenciais” das coisas – as realidades que subjazem às aparências. Esta terceira doutrina (em conexão com a segunda) é aquela a que chamei “essencialismo”. Estou convencido de que, à semelhança da segunda, é uma doutrina errónea.

 

«Ora o que os filósofos instrumentalistas da Ciência, de Berkeley a Mach, Duhem e Poincaré, têm em comum é o seguinte: todos eles afirmam que a explicação não é um objectivo da ciência física, dado que esta não pode descobrir “a essência oculta das coisas”. (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 147-148; o bold é de nossa autoria)

 

«O instrumentalismo pode ser formulado como a tese de que as teorias científicas – as teorias das chamadas ciências “puras” – não são mais do que as regras de computação (ou regras de inferência), que têm, fundamentalmente, o mesmo carácter que as regras de computação das ciências “aplicadas”. (Poderíamos inclusivamente formulá-lo como a tese de que a Ciência “pura” é uma designação imprópria, e que toda a Ciência é “aplicada”). (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 157; o bold é nosso.)

 

«Poderíamos formular esta “terceira perspectiva” das teorias científicas de forma breve, dizendo que são conjecturas genuínas  suposições altamente informativas acerca do mundo que, apesar de não verificáveis, (isto é, susceptíveis de ser demonstradas como verdadeiras) podem ser submetidas a rigorosos testes críticos. São sérias tentativas de descobrir a verdade. Neste aspecto, as hipóteses científicas são exactamente como a famosa conjectura de Goldbach na teoria dos números. Goldbach pensava que essa conjectura podia ser eventualmente verdadeira. E é efectivamente possível que o seja, ainda que nós não saibamos e possamos talvez, nunca vir a saber se ela é ou não verdadeira.» (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 162; o bold é nosso)

 

 

Que confusões impregnam Popper?

 

Em primeiro lugar, a imprecisão do conceito de essencialismo. Na verdade, essencialismo não se opõe, como contrário, a instrumentalismo. O que se opõe a este é não instrumentalismo, ou racionalismo especulativo. É óbvio que entendemos o que Popper quer dizer – por essencialismo, ele pretende designar um platonismo epistemológico em que as explicações últimas (essências) ou pelo menos algumas destas não se podem testar – mas pensa confusamente e utiliza um termo inapropriado.

 

Não há um, mas dois essencialismos, pelo menos. A teoria de Platão é um essencialismo transcendente-  as essências estão situadas num mundo inteligível fora da experiência – mas a teoria de Aristóteles é um essencialismo imanente – as essências ou formas comuns estão nos objectos físicos e no  pensamento que as abstrai deles. Assim, há um instrumentalismo essencialista, que reduz as essências a regras procedimentais gerais, a métodos práticos, sem metafísica, e um instrumentalismo não essencialista, isto é, acidentalista.

 

O contrário de instrumentalismo é racionalismo especulativo, não experimental ou não instrumental, e não essencialismo como Popper sustenta equivocamente.

 

 

A TEORIA DAS CONJECTURAS E REFUTAÇÕES É UM ESSENCIALISMO NÃO DOGMÁTICO

 

Por outro lado, a incapacidade de Popper manejar habilmente o princípio do terceiro excluído – três ou mais domínios reduzem-se à dualidade A ou não-A – é visível. Aplicando este princípio, infere-se que, sob certa óptica, as teorias podem dividir-se em : essencialistas e não essencialistas. É lógica aristotélica inultrapassável, que Popper não aplica.

 

Escreveu:

 

«O essencialismo olha para o nosso mundo quotidiano como uma mera aparência, por detrás da qual descobre o mundo real. Esta perspectiva tem de ser abandonada assim que tomamos consciência do facto de que cada uma das nossas teorias pode ser, por seu turno, explicado por outros mundos, que são descritos por outras teorias – teorias de um mais elevado nível de abstracção, universabilidade e testabilidade. A doutrina de uma realidade essencial ou última desmorona-se juntamente com a doutrina da explicação última.»

 

«Na medida em que, de acordo com a nossa terceira perspectiva, as novas teorias científicas são, à semelhança das antigas, verdadeiras conjecturas, elas constituem verdadeiras tentativas de descrever esses outros mundos. Somos assim levados a tomar todos esses mundos, incluindo o nosso mundo quotidiano, como igualmente reais; ou talvez, melhor dizendo, como aspectos ou estratos igualmente reais no mundo real.» (…)(Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, pag 162-163; o bold é nosso)

 

 

Em primeiro lugar, não é verdade que todo o essencialismo olhe para o nosso mundo quotidiano como mera aparência: só algum essencialismo - o de Platão, o de Kant, por exemplo o faz. O próprio Galileu, que Popper classifica como essencialista, vê o mundo como um sistema de fenómenos e coisas reais, considerando apenas as cores, sons, cheiros e sabores como aparências.

 

Em segundo lugar, Popper admite que as novas teorias científicas as suas, em especial -  são, à semelhança das antigas, que eram essencialistas, verdadeiras conjecturas, isto é, essências teóricas, especulativas, verosímeis. Que é a conjectura, senão um conjunto de essências indemonstráveis ou não demonstradas até agora?

 

 

Assim, a teoria das conjecturas e refutações de Popper integra-se no dualismo essencialismo- não essencialismo (instrumentalista ou não) que o princípio do terceiro excluído impõe: o conjecturalismo de Popper é um essencialismo não dogmático, mutabilista, que se distingue do essencialismo dogmático de Galileu, Newton e outros e se opõe ao não essencialismo instrumentalista.

 

A divisão triádica feita por Popper essencialismo, instrumentalismo, teoria das conjecturas e refutações popperiana subsiste, pois, na névoa de confusão.

 

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