Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017
Neocátaros versus budismo e Nova Era

O cristianismo neocátaro ou catarismo do século XXI emanado da Rússia e vivo na Catalunha e Valencia e no sudeste de França opõe-se ao budismo e às doutrinas da Nova Era em geral (a tarologia, a cura pelos cristais, a medicina quântica, etc.) As (supostas) mensagens do Além de Santa Eufrosínia, mística cátara russa falecida em finais do século XX, ao patriarca da igreja cátara identificam Elohim, deus do antigo Testamento, como corruptor da humanidade, incluem o seguinte:

 

«Grita para que não entrem pelo arco de Lúcifer. Isto é o mais perigoso. As portas luciferinas são: o karma, o progresso, as reencarnações, o nirvana (como saída da ordem terrena para um planeta morto) elohim propõe a sua própria arca, a caixa de Pandora. Em volta desta há serpentes. A entrada pelas portas luciferinas implica a perdição eterna. A quem passa por elas espera-o o destino mais desafortunado: a paulatina desintegração, a explosão nos planetas mortos. Dispersar-se-á na inexistência como poeira cósmica.»

«O Pai do Puro Amor é o Rei do Universo, é o Rei misericordioso. Nas suas mãos estão o destino e o futuro.»

«Não façais compromissos com a «Nova Era»! A façanha hoje é a oração, a catarse, a liturgia. O fariseísmo está vencido mas tendes um novo inimigo - o cosmismo.»

(Juan de San Grial, «Madre Eufrosinia. la guia del nuevo catarismo», Associaciò per l´estudì de la cultur catàr, 2012, pag. 378).

«Não saias da oração. Dedica à oração dois-três dias, a uma oração incessante e verás que frutos haverá.»
«A oração com o coração lavado pelas lágrimas é improfanável. Aqui mesmo está a chama, na oração.»
«Durante a terceira hora de oração revelou-se o mundo do silêncio, a paz dulcíssima.» (ibid, pág. 421).

 

É de notar que a Nova Era inclui os mágicos, os bruxos, os astrólogos comerciais, os tarólogos, os mestres de Reiki que prometem ajudar a pessoa nos seus desejos carnais. Esta oração constante ao Deus verdadeiro e à Virgem deve ser feita fora dos templos das igrejas católica, ortodoxa-bizantina, protestante, judaica, islâmica, etc, porque em todas elas «reinam sacerdotes, bispos ou imãs do Anti Cristo».

 

REJEIÇÃO DO PROGRESSO MATERIAL

O cristianismo ascético dos cátaros implica fazer muitos sacrifícios para alcançar o Reino, o pleroma do Altíssimo. Assim, há uma rejeição de princípio dos automóveis, dos televisores e computadores, pelos riscos que comportam de adormecimento do espírito que deve estar vigilante num mundo material que pertence a Elohim-Adonai, o demiurgo, identificado com Lúcifer, deus do Mal. 

 

«Os automóveis são demónios materializados; por isso são tão difíceis nas horas de afluência do tráfego. Reza as orações de exorcismo para expulsar, outros te ajudarão . Os condutores que se protejam benzendo-se com a cruz, com a oração, com os ícones, com os rosários, como os guerreiros no campo de batalha, senão perderão a saúde, a graça e as forças. O sacerdote melquisedequiano, se usa o carro, não tem que perder a oração».(Juan de San Grial, «Madre Eufrosinia. la guia del nuevo catarismo», pag. 278).

 

 «O grande ancião Anfiloquio, curador e fazedor de milagres, contava-nos como um enxame de demónios basta para povoar os televisores, fazendo ninhos; como fazem troça das pessoas; como semeiam as doenças, a loucira; como atiram para as hienas. O ecrã de televisão é a janela para os mundos infernais, o computador é ainda pior. O televisor lança-nos ao precipício abismal, aos planetas mortos. E o computador convida-nos ao diálogo com elohim, este é o seu altar pestilento. Quantas doenças vêm do computador e da técnica moderna!»
(Juan de San Grial, «Madre Eufrosinia. la guia del nuevo catarismo», Associaciò per l´estudì de la cultur catàr, 2012, pp 133-134).

 

 

DEMARCAÇÃO FACE AO CATOLICISMO ROMANO E ORTODOXO, AO PROTESTANTISMO E OUTROS

 

Sendo, na perspectiva cátara, as igrejas católica romana, católica ortoxa ou protestante sedes do anti Cristo, uma vez que todas perseguiram os cátaros, com relevo para a sanguinária igreja do papa de Roma, não se deve visitar os seus templos.

 

«Não te afeiçoes particularmente às aparições da Rainha Celeste no mundo católico. Na Rússia, a Mãe Divina não se revela com menos frequência ou menos generosamente, ela é a Czarina da Rússia».(Juan de San Grial, «Madre Eufrosinia. la guia del nuevo catarismo», pag. 58).

 «Os pais perfeitos e imortais e os santos nos céus não abençoam visitar os actuais templos. Como predisseram os grandes santos há séculos, chegará a hora em que os templos serão abertos, as cúpulas serão doiradas, mas não se poderão visitar já que a abominação e a devastação se instalarão neles: as serpentes, os escorpiões e os espíritos infernais. Não há graça neles mas uma contínua iniquidade e os paroquianos perecem espiritualmente. Tira-se-lhes a última fé e recebem os selos do anti Cristo na fonte». (Juan de San Grial, «Madre Eufrosinia. la guia del nuevo catarismo», pag. 423).

O ensinamento é claro: a teologia católica e a prática de uma igreja romana em que os fiéis não jejuam semanalmente, idolatram um papa apóstata (tal como idolatram Cristiano Ronaldo) e os sacerdotes comem bons bifes e têm bons carros está manipulada desde há séculos por Lúcifer, o pai da mentira e do mundo material. Deve o cristão cátaro orar continuamente e não entrar nos templos católicos, ortodoxos, protestantes, judaicos e outros pois o verdadeiro Deus, o Altíssimo, não está neles.

 

O ponto de divergência filosófica com judeus, católicos, protestantes e islâmicos está na natureza do mundo material e do seu autor: segundo os judeus, os católicos e os protestantes foi o Deus do Bem que fez a natureza física onde há beleza e crimes constantes e animais e homens se devoram, invejam e oprimem uns aos outros; segundo os cristãos cátaros, a natureza física e os corpos humanos foram feitos pelo Demiurgo, Adonai- Elohim um deus castigador e maléfico, Satã, a Serpente, e o Deus da Luz, no Pleroma, apenas fez os nossos espíritos. A Árvore da Cabala judaca tem um problema teórico: o panenteísmo, a descida das qualidades divinas à matéria, expressa na última esfera, Malkuth, o reino material. Ora para os cátaros isso é doutrina de Elohim-Jeová, mistifica a existência do Pleroma, mundo divino que só gerou as nossas almas e nada gerou de material.

 

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Domingo, 9 de Julho de 2017
Breves reflexões de Julho de 2017

 

Eis algumas reflexões relativamente banais, porque circunstanciais, que afloram neste Julho de 2017.

 

A MEDITAÇÃO TRANSCENDENTAL. A meditação transcendental suspende a mente e entreabre o vazio mental. Desliga-nos, por momentos, das preocupações da mente raciocinante («Tenho de ganhar dinheiro, tenho que apresentar um projecto, tenho que estimular o meu filho a tirar melhores notas, tenho de queixar-me do roubo de que fui vítima») e conduz alguns ao nirvana, ao repouso espiritual absoluto, mas não resolve o facto de estarmos vivos, de termos de nos alimentar e sobreviver. Porque cada um de nós é corpo, ao menos enquanto estivermos vivos. A meditação não cria casas nem alimentos nem acaba com a exploração capitalista (EUA, Europa, Portugal, etc.) e comunista (China, Coreia do Norte, etc.) do proletariado. É um comprimido para baixar a «tensão alta» da vida.

 

Também ter uma namorada ou uma esposa bela é um «comprimido» que, através do erotismo, nos leva ao orgasmo, mas não resolve o problema de sermos corpo individual, sujeito a morrer ou a ser abandonado.

 

DUAS PROVAS DE QUE AS ACTUAIS MISSAS CATÓLICAS ESTÃO CORROMPIDAS. Uma: a comunhão é dada na mão e muitas vezes por leigos, o que dessacraliza a hóstia como sede do Corpo Místico de Cristo (lembro-me que em 14 de Abril de 2009 comunguei das mãos de uma freira e, no dia seguinte, um familiar meu muito próximo faleceu de repente). Outra: o vestuário sexy que mulheres e homens podem usar na missa (decotes e saias curtas nelas, maquilhagem, t-shirts e calças de ganga neles e nelas). A missa perdeu o carácter sacro, centrado na morte do Senhor, é um convívio mais ou menos alegre, é só «Amor sem Temor». É, pois, de influência luciferina: o amor do corpo, a sensualidade, é a base desta ideologia e rito modernistas e ecuménicos (o objectivo é a religião única mundial, de recorte maçónico).

 

OS HOMENS, COM O PASSAR DA IDADE, GOSTAM SEMPRE DE «MIÚDAS» NOVAS (23-31 ANOS DE IDADE). É o normal: gostar do corpo perfeito da mulher, da sua pele lisa e macia, dos seus olhos sonhadores e vivos. Se os homens envelhecem com esposas da mesma idade é porque amam estas sem paixão, com uma grande componente de companheirismo. Há uns bons 17 anos, um editor meu amigo, que teria 56 ou 58 anos confidenciou-me: «A filha da minha actual esposa (era casado em segundas núpcias) tem 15 anos, é um encanto, é a mulher da minha vida». Era um amor platónico, ele respeitava a adolescente, claro.

 

COPULAMOS, COPULAMOS, COPULAMOS ATÉ DESCOBRIR O GRANDE VAZIO DA EXISTÊNCIA, QUE É O VAZIO DA VAGINA DA MULHER. E depois percebemos que o amor não existe, que estamos infinitamente sós neste universo e temos que chamar em nosso auxílio os deuses ou inventá-los. Só a conversa ou a palavra escrita nos aligeira a solidão. De repente, o mundo tornou-se instável e opaco. Vamos amar quem? Para quê?

 

AFINAL, VIVES PARA QUÊ? PARA TRABALHAR, JUNTAR DINHEIRO, IRES A BARES, LEVAR PARA A CAMA MULHERES (OU HOMENS)? Vê o vazio da tua vida: vazio porque não crês no poder da oração e da redenção por Cristo. Que é um corpo belo de mulher comparado com a beleza do teu Anjo da Guarda ou de Jesus? Nada. A vida é muito mais do que o trabalho, a diversão sem fim, o culto do dinheiro e das vaidades da roupa. Renuncia a muitos dos prazeres do mundo, reza constantemente a Deus (não com pedidos mesquinhos do tipo «dá-me aquela mulher, dá-me um automóvel novo, torna-me famoso indo à televisão», etc). Reza por amor do próximo, para que tais pessoas deixem de fumar, de se drogar, de sofrer cancros e outras doenças, desemprego, fome, humilhações, etc. Une-te a Jesus na luta contra Satanás que está a criar um mundo perverso onde a boa educação e os bons princípios de honestidade, respeito pela vida, etc., estão a desaparecer, e o ódio, a inveja, a intoxicação alimentar e moral da população aumentam sem cessar.

 

CONSELHOS DO PADRE PIO DE PIETRELCINA, GRANDE MÍSTICO ITALIANO (1887-1968) QUE TINHA OS DONS DA BILOCAÇÃO E DA CURA .

1.«A mentira é filha do diabo. A humildade é verdade; verdade é humildade.»
2.«Rezai, mesmo contra vontade. Quem reza muito salva-se, quem reza pouco está em perigo, quem não reza condena-se. A vontade conta e é recompensada, mas o sentimento não.»
3. «Que a Virgem Maria seja o vosso refúgio e o vosso conforto nas horas tristes da vida.»
4. «Amo o sofrimento. Não pelo sofrimento em si. Peço a Deus para poder sofrer e desejo-o pelos frutos que daí advêm e pela glória que dá a Deus. Pelo sofrimento, os meus irmãos são salvos e os sofrimentos das almas do purgatório encurtados. Que mais posso desejar?»

 

PADRE PIO VERSUS OSHO, MARX E GUY DEBORD. O padre Pio estigmatizado dizia: «Eu amo-te e peço a Jesus que te faça conhecer o amor porque pelo amor chegamos ao sofrimento. Nós nascemos para sofrer.» Esta visão, de que este mundo é lugar de sofrimento que devemos aceitar, é combatida por Osho que disse que Deus era o universo, não há paraíso nem inferno nem é necessário sofrer. E Marx, pai do comunismo do século XIX, e Guy Debord, teórico do internacional situacionismo, defenderam também que esta vida é para desfrutar dos prazeres materiais e não para sofrer e aceitar o sofrimento.
 

PADRE PIO DE PIETRELCINA, O ESTIGMATIZADO, E AS CRÍTICAS AO ABORTO, À HOMOSSEXUALIDADE E ÁS MODAS.

Sobre o místico franciscano Pio de Pietrelcina, santo católico (1887-1968), escreveu o seu biógrafo P. Nello Castelo:

 

«Contraceptivos, pilulas, abortos: são argumentos infernais, sobre os quais não admitia discussão.
Logicamente, era inimigo acérrimo do divórcio. São palavras suas: «É a estrada mestra que leva ao inferno. É a criação...pelo homem destruída». (...)
«Recordo os episódios de pecados de masturação, homossexualidade, a que inexoravelmente negava a absolvição, aos quais dizia: «Não vos emporcalheis», «Precisamente porque não reza, cai neste pecado». (...)

A imprensa várias vezes falou dele (Padre Pio, franciscano de Itália, 1887-1968) como o único sacerdote, na cristandade, firme na luta contra a moda, em defesa do pudor. Se a sua não tivesse sido «voz no deserto» não teríamos chegado ao cataclismo hodierno, que foi iniciado pela mini-saia.» (...)
«Queria a saia até à barriga da perna. Despedia sem absolvição e nem sequer permitia que se avizinhassem do confessionário Era inexorável, tinha palavras de fogo:
«Vai vestir-te! Incivil! Porcalhona! Despudorada!». Um dia a uma filha: «Serrar-te-ei os braços...porque sofrerias menos do que sofrerás no Purgatório». A uma outra: «As carnes nuas serão queimadas».
Às suas filhas (espirituais) explicava: «Deves vestir-te segundo a própria condição social. Tu deves vestir-te de modo a agradar aos anjos e aos homens. O Senhor condena a moda indecente e escandalosa que tantas almas leva à ruína».

(P. Nello Castelo, «Jesus crucificado no padre Pio», Editorial Cavaleiro da Imaculada, pp. 129-130; o bold é posto por nós).

 

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Terça-feira, 4 de Junho de 2013
Teste de filosofia do 10º ano, incluindo valores religiosos ( 2013)

Eis um teste de final de 3º período de uma turma que escolheu tratar os valores religiosos no programa de 10º ano de filosofia em Portugal. Um teste sem perguntas de escolha múltipla, que permite aos alunos exprimir uma opinião própria, relacionar criativamente conteúdos e mostrar que sabem filosofar.  

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

3 de Junho de 2013.            Professor: Francisco Queiroz
I

“A religião, segundo Freud, implica neurose e sublimação e terá tido origem num parricídio. Nietzshe, no século XIX, defendeu a teoria do eterno retorno e propôs a transmutação dos valores

 

1) Explique concretamente este texto.

II

2) Relacione, justificando:

A) As três fases da Ideia Absoluta na História segundo Hegel e o dualismo do Tao.
B)  Os três estádios da existência segundo Kierkegaard, o existencialismo e o essencialismo.

 

 III

3) Exponha, em síntese, os seguintes temas:

«Como a gnose resolveu filosoficamente o problema da existência do mal no mundo.  Os dharmas e o nirvana no budismo. O argumento ontológico de Santo Anselmo para demonstrar Deus. O panteísmo, o teísmo e a metafísica.»

.

 
 

    CORRECÇÃO DO TESTE (COTADO PARA 20 VALORES)

                                                                     

                                                                                                   

1) A religião, isto é, a veneração de deuses ou Deus, da natureza física como sagrada ou de anjos e almas metafísicas, implica a neurose, isto é, a  tristeza ou frustração resultante da repressão da energia sexual e a sublimação ou seja espiritualização de instintos recalcados, em especial do instinto sexual. Exemplo: «Procura ser pura, abstém-te de práticas sexuais, imita a Virgem Maria». Segundo Freud, em tempos primordiais, no seio de um clã, os filhos, cansados da autoridade do pai que os proibia de possuir as mulheres que quisessem, mataram o pai (parricídio) e comeram o corpo em banquete. Depois, arrependeram-se imaginando que o espírito do Pai os perseguia desde o «Além» e aplacaram-no mediante preces e sacrifícios religiosos que, no caso do catolicismo, se exprimem no «comer o meu Corpo» (a hóstia na missa) e «beber o meu sangue» (o vinho no cálice). (VALE TRÊS VALORES). Nietzsche defendeu o eterno retorno: a história repete-se, o tempo gira em círculo. Aos «gloriosos» tempos dos valores nobres, em que a aristocracia, feliz e cruel, reinava (escravatura, feudalismo) sucedem-se os «tenebrosos» tempos da civilização dos escravos e da plebe, isto é, da democracia liberal, em que a burguesia, classe intermédia reina, ou do socialismo, do comunismo e do anarquismo, episódios em que o proletariado reina e que são o ponto «mais baixo» da escala de valores. Mas o regresso ao antigo é inevitável e para isso Nietzsche propõe a transmutação ou inversão dos valores: o bem, que para os cristãos era cuidar dos fracos, dos doentes e idosos, estabelecer a igualdade social, fazer a paz, passa a ser, na preferência de Nietzsche, esmagar os fracos, os velhos e os doentes e impor a desigualdade social, os direitos desiguais, com a ditadura dos nobres e fazer a guerra; o mal passa a ser a piedade cristã, a repressão dos instintos sexual e guerreiro, o sacrifício da cruz, o niilismo (reduzir a vida ao nada) em nome do «Além». (VALE TRÊS VALORES).

 

2) a) Para Hegel, a ideia absoluta ou Deus desenvolve-se em três fases: a primeira é o Ser em si, ou Deus espírito, sozinho, antes de criar o universo, o espaço, o tempo, a matéria e pode comparar-se ao Tao, a mãe do Universo, algo invisível e misterioso que circula por toda a parte; a segunda é o Ser fora de Si ou transformação de Deus no seu oposto (alienação), a matéria física, em astros, céus, montamnhas, oceanos, vulcões, plantas e animais e pode equiparar-se ao Yang, dilatação, sair fora de si, visto que Deus se exteriorizou em matéria; a terceira é o Ser para si ou transformação de Deus em humanidade que vai progredindo lentamente em direcção à liberdade - desde o mundo oriental, em que só um homem é livre, até ao cristianismo reformado por Lutero e completado pela revolução francesa de 1789, em que todos os homens são livres - que é o fim da história, fase que pode comparar-se ao Yin, isto é, à contracção ou movimento para dentro, uma vez que, através da humanidade, Deus volta a si mesmo.Yang-Yin, ou seja, dia-noite, sol-lua, alto-baixo, verão-inverno, expansão-contracção, são as duas partes da onda que perpetuamente agita o universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o  modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) A gnose é uma filosofia de carácter dualista que explica o mal no mundo através da existência da matéria e do seu criador, o demiurgo ou Satã ou Iavé, e o bem através da existência de um mundo espiritual, da Luz (o Pleroma) acima da sete esferas de planetas, mundo aquele onde vivem Cristo, Sofia e os Éons . Assim, o mal é intrinseco ao corpo, ao mundo material. Estes não são obra do verdadeiro deus da Luz. (VALE DOIS VALORES). Os dharmas são qualidades psíquicas e psicofísicas (inteligência, imaginação, memória, visão, audição, olfacto, tacto, etc) que existem por si mesmas no espaço e quando se reunem num feixe formam a personalidade de uma pessoa. Desaparecem ou dispersam-se com a morte corporal, restando apenas a consciência que pode estar, ou não, apta para atingir o nirvana, espaço vazio de repouso absoluto, sem desejos, segundo o budismo. (VALE DOIS VALORES). O argumento ontológico de Santo Anselmo diz o seguinte: Deus é um ser sumamente perfeito, é omnipotente, omnisciente, bondade, justiça e misericórdia absolutas, possui todas as perfeições, logo tem de ter a perfeição de existir (VALE DOIS VALORES). O panteísmo identifica a natureza biofísica com Deus ou deuses. O teísmo diz que Deus ou deuses são transcendentes à natureza biofísica, podendo ser os criadores desta. Ambas as correntes são metafísicas, isto é, doutrinas que descrevem o invisível, o impalpável, o transcendente, ainda que o teísmo seja, aparentemente, mais metafísico.(VALE DOIS VALORES).

 

 

 

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Segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011
Utilitarismo não é consequencialismo: consequência e término da acção não são o mesmo

O termo «consequencialismo» não é inteiramente apropriado para definir o utilitarismo. Há que distinguir entre o término da acção, que muitas vezes é a sua causa final - em sentido aristotélico - ou objectivo final, e consequência da acção, que é posterior à acção.  

 

Ora, para o utilitarismo o essencial é o término da acção, em que se colhem os frutos do movimento empreendido, e não a consequência mais ou menos distante.

 

Decerto, pode dizer-se que o término da acção é uma consequência do seu início. Mas há a consequência externa, a posteriori, que está totalmente fora da acção e o termo "consequencialismo" pode referir-se a esta. Por isso, é um termo ambíguo.

Há muitos actos utilitaristas que não são consequencialistas, mas de imediatismo hedonista, de actualismo (a realidade reduz-se ao acto, à acção presente). Por exemplo, a política seguida pelo Estado português na última década do século XX e na primeira década do século XXI de recorrer massivamente ao crédito junto da União Europeia a fim de investir e desenvolver económica e tecnologicamente o país foi utilitarista - de um utilitarismo capitalista, bem entendido - mas não, em rigor, consequencialista. As consequências chegam agora: os pesados encargos da dívida externa, que levarão o país à falência, a curto prazo.

 

Se um grupo de pessoas esfomeadas assalta um pomar privado e rouba grandes quantidades de fruta para saciar a fome, é um acto utilitarista, visto que visa o princípio da maior felicidade para esse grupo. Mas, subjectivamente, não é um acto consequencialista: as consequências não foram devidamente meditadas ou, se o foram, ficaram secundarizadas. A consequência dessa acção de apropriação de fruta- diferente do término, que é a ingestão hedónica da fruta - é o julgamento em tribunal dos autores dessa violação de propriedade privada agrícola e a sua provável condenação.

 

O utilitarismo não é, portanto, na essência, um consequencialismo: às vezes é-o, outras vezes não. É um actualismo hedonista, um fruicionismo. Ao invés, as morais cristã, budista, islâmica, na medida em que freiam os prazeres sensíveis imediatos, são consequencialistas: pensam nas consequências do «pecado» ou «vício» do adultério, da luxúria, da gula ou da ira, actos e estados de espírito que não permitirão ao crente alcançar o Paraíso ou o Nirvana. A deontologia das religiões - cumprir a Bíblia, o Alcorão ou os Vedas - deriva exactamente da percepção das consequências de certos actos e estados de alma. O dever funda-se pois no prazer prometido da beatitude celeste e na dor anunciada do inferno metafísico ou da roda das reencarnações.

 

Também a moral de Kant se funda no prazer da equidade ou cidadania universal supostamente vivido pelos outros como objecto e consequência da nossa acção imparcial e não no «dever» ou «respeito ao dever» como dizia o filósofo alemão de Konisberg. A intenção em Kant está subordinada à consequência que é a irradiação de um sentimento de justiça universal e igualdade entre as pessoas. O "dever" na moral de Kant é a máscara da subordinação do prazer do indivíduo ao prazer e às regras, reais ou imaginárias, do colectivo.

 

 

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