Quinta-feira, 20 de Outubro de 2016
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade, turma A (Outubro de 2016)

Eis um teste de filosofia do 10º ano que explora a rubrica «Os grandes temas da filosofia».

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

20 de Outubro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Poderá classificar-se a teoria de Platão como um dogmatismo crítico, de teor metafísico e ético. O modo de pensar e viver dos filósofos-reis, na Polis ideal de Platão, opunha-se, pelo menos aparentemente, ao ceticismo, pragmatismo e ao subjetivismo propagado pelos sofistas.”

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Relacione, justificando

A) Yang, Yin e Tao no taoísmo

B) Mundo do Mesmo ou Inteligível, Mundo do Semelhante e demiurgo em Platão.

C) Unidade da essência e multiplicidade das aparências empíricas nas teorias cosmológicas de Heráclito de Éfeso e Anaxágoras.

D).Ascese em Platão e as teses de que «filosofar é aprender a morrer» e «o corpo é o cárcere da alma.

 

 

1) Dogmatismo crítico é toda a teoria que assenta em certezas construídas com a ajuda de dúvidas, do ceticismo, uma teoria que exigiu reflexões profundas. As teorias científicas em geral são dogmatismos críticos: afirmar que o número atómico do hidrogénio é 1 e o do oxigénio 8 exigiu experiências e cálculos matemáticos, são dogmas que passaram o crivo da crítica. O dogmatismo de Platão é metafísico, trata do invisível e inaudível, na medida em que postula que há um mundo de modelos perfeitos, imóveis e eternos (Bem, Belo, Justo, Sábio, Cubo, Esfera, Homem, Mulher, etc) acima do céu visível. É crítico porque sustenta teses que exigem muita reflexão como, por exemplo, «o tempo é a imagem móvel da eternidade», «conhecer é recordar». É ético porque fala dos modelos eternos do Bem e do Justo. (VALE QUATRO VALORES). Os filósofos-reis ou arcontes, na pólis de Platão, eram homens e mulheres, dotados de alta virtude intelectual e moral, que faziam as leis e governavam a cidade. Não podiam ter prata nem ouro nem privilegiarem os seus filhos, por isso viviam em comum e faziam troca de casais, de modo a não saber quem era o pai de cada criança. Ao inspirarem-se nos arquétipos do Mundo Inteligível rejeitavam o ceticismo, doutrina  que duvida de tudo, incluindo o mundo dos Arquétipos, o pragmatismo, doutrina que diz que a verdade se limita ao mundo empírico e prático, devendo pôr-se de parte os princípios metafísicos mais ou menos impossíveis de serem postos em prática e o subjectivismo, doutrina que afirma que a verdade não é objetiva, varia de pessoa a pessoa. Estas doutrinas eram comuns entre os sofistas, filósofos do período antropológico da Grécia antiga, em regra professores, advogados, juristas e políticos que ensinavam retórica e cobravam dinheiro (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) O Tao é a mãe do universo, algo de obscuro e silencioso que circula por toda a parte e é o modelo do céu e divide-se em duas ondas formando uma sinusoidal: o Yang (alto, calor, dilatação, verão, som, sol, vermelho, movimento, exterior) e o Yin (baixo, frio, contração, inverno, silêncio, lua, azul, imobilidade, interior). A sucessão dos dias e das noites, do trabalho e do repouso, das sementeiras e colheitas, representa o ritmo yang-yin, faz parte do Tao do universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2) B) Mundo Inteligível (kosmos noéthos) é o mundo dos Arquétipos ou modelos eternos de Bem, Belo, Justo, Sábio, Números, Homem, Mulher, etc, acima do céu visível. É incriado. Mundo do Semelhante (kosmos homóios) é o mundo do céu visível, do tempo e das operações matemáticas, composto pelo Sol e astros incorruptíveis em movimento. O demiurgo é o deus operário que fez o Mundo do Semelhante e o mundo do Outro ou Sensível, este último feito de corpos físicos corruptíveis (pedras, árvores, rios, planícies, animais, etc) tomando como modelo os arquétipos de Astro, Árvore, Montanha, Rio, etc. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)C) Na teoria de Heráclito, há uma essência una (unidade da essência) em todas as coisas: o fogo. As árvores, as pedras, os animais, a terra, etc.,- ou seja as múltiplas aparências empíricas, as coisas que vemos e tocamos - são fogo condensado, arrefecido, às vezes liquidificado ou sublimado. Na teoria de Anaxágoras, um mesmo objecto visível, macroscópico - exemplo uma cenoura- é composto de milhares de princípios ou formas minúsculas da mesma natureza,chamados princípios homeoméricos, - a cenoura é composta de milhares de pequeníssimas cenouras invisíveis. Um mesmo princípio homemomérico - a essência fígado humano, por exemplo - pode estar presente microscopicamento na multiplicidade das cenouras, e das beringelas, que são aparências empíricas ou objectos visíveis que, ingeridas, fortalecem o fígado humano.(VALE TRÊS VALORES)

 

2) D) A ascese é a ascensão da parte superior da alma humana, o Nous, ao Mundo Inteligível, enquanto está ligada ao corpo humano vivo.  Há vários métodos de ascese: filosofia, porque esta nos ensina a morrer para os bens materiais e a fama («Que importa passares a vida a acumular ouro se ao morrer deixas tudo? Pensa, filosofa sobre a rapidez da vida»); matemática, porque se baseia na contemplação dos Arquétipos de Números Um, Dois, Três, Quatro Cinco, etc, e de Cubo, Esfera, Cone, etc; música, na medida em que nos eleva espiritualmente, não se trata de qualquer tipo de música; ginástica, em particular o ioga; jejum, na medida em que domina a gula e outras paixões do corpo. (TRÊS VALORES)

 

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Terça-feira, 3 de Novembro de 2015
Teste de filosofia do 10º B ( Outubro de 2015)

 

Eis um teste de filosofia produzido no Alentejo, palavra que evoca aletheia ou desocultação da verdade, filosofia.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
29 de Outubro de 2015.
Professor: Francisco Queiroz
I

 

"A filosofia combina, de um modo particular, metafísica com empiricidade e racionalidade. A doutrina dos arquês de Anaxágoras, de Tales e de Empédocles são subjetivas ou intersubjetivas. Aristóteles defendeu que há dois princípios fundamentais anteriores ao composto (synolon) que produzem este, sendo isto o hilemorfismo.”

1) Explique, concretamente este texto.

 

2) Relacione, justificando:

A) As três partes da alma e as três partes da pólis na doutrina de Platão.
B)  Mundo do Mesmo e reminiscência, em Platão.
C) Unidade e multiplicidade na teoria da participação, em Platão.
D) Essência (eidos), acidente e tó tí em Aristóteles..

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

 

1) A filosofia, interpretação livre e especulativa da vida, do universo e do homem, implica metafísica, isto é, mergulhar no reino do que transcende a natureza física ( deus ou deuses, suposta vida após a morte, reencarnação, partículas subatómicas, origem do universo e da vida, etc) e também empiricidade ( ver, tocar, saborear com os orgãos sensoriais que captam o mundo empírico ou da experiêmcia) e ainda racionalidade, ou ordem lógica no pensamento (VALE TRÊS VALORES). O arquê é a substância ou matéria primordial que originou o universo: para Tales era a água, que estava no caos, e foi modelada por Deus convertendo-se em cosmos, para Anaxágoras o arquê eram os princípios homeoméricos, o infimitamente pequeno que se amplia à escala macrocóspica ( exemplo: uma cenoura é composta por milhares de cenouras invisíveis muito pequenas e por milhares de olhos humanos muito pequenos porque fortalece a vista) e para Empédocles os arquês eram quatro, fogo, ar, terra e água, sendo isto doutrinas subjectivas, isto é, convições íntimas de uma só consciência humana ou intersubjectivas, isto é, crenças não universais mas partilhadas por um grupo de pessoas (VALE TRÊS VALORES). Aristóteles sustentou que o composto, a proté ousía ( por exemplo: esta árvore) resulta da união de dois princípios universais, a hylé ou matéria-prima universal, indeterminada ( não é água, nem ar, nem fogo, nem terra, etc.) que não existe, com as formas das espécies (eidos), neste caso, com a forma comum de árvore. O hilemorfismo é o nome desta teoria que sustenta que as coisas nascem da união da matéria (hylé, matéria indeterminada e abstracta; hylé eskaté, matéria última, determinada, como ferro, madeira, terra, etc) e da forma (morfos).(VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) A alma humana divide-se em três partes: o Nous, o Tumus e a Epithymia. A cidade estado ou pólis divide-se em três estratos. A parte mais alta da alma humana é o Nous ou razão intuitiva que apreende os arquétipos de Bem, Belo, Justo, etc. Equivale na pólis aos filósofos-reis que fazem as leis, vivem em uma casa do Estado, não podem ter ouro nem prata, e trocam de companheiras sexuais de modo a não saber de quem são os filhos e não se corromperem com favoritismos. A parte média da alma é o Tumus ou Tymus ou coragem e honra e brio militar. Equivale aos guerreiros ou arcontes auxiliares que policiam a cidade, cobram os impostos, punem os malfeitores vivem em uma casa do Estado, não podem ter ouro nem prata, e trocam de companheiras sexuais de modo a não saber de quem são os filhos. A parte inferior da alma é a Epithymia ou Concupiscência, isto é, o desejo imoderado de comer, beber, possuir ouro e prata e propriedades fundiárias, entregar-se a orgias, etc. Equivale aos diferentes estratos da população desde os proprietários agrários de escravos até aos escravos, passando pelos comerciantes e artesãos. De um modo geral, podem enriquecer mas não podem eleger os filósofos-reis e os guerreiros para que estes governem de forma exemplar, incorruptível. ( VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) Em Platão, o Mundo do Mesmo é o Inteligível composto pelos arquétipos de Bem, Belo, Justo, Número Um, Número Dois, Triângulo, Homem, etc. Os arquétipos estão acima do céu visível, por isso são transcendentes, estão além (trans) do universo físico e foram observados pela alma humana, Nous, quando esta esteve no Inteligível. A alma desceu em direção ao Mundo Sensível, banhou-se no rio Letes e aí esqueceu tudo o que vira, à excepção de vagas lembranças chamadas reminiscências. A alma entra no corpo de um bebé e quando o menino vai à escola e aprende que seis mais seis é igual a doze não está a aprender nada de novo mas sim a recordar, pela reminiscência, os arquétipos de Seis e Doze que contemplou no Mundo Inteligível (VALE TRÊS VALORES).

 

2) C) A teoria da participação, em Platão, refere que os entes de uma mesma espécie do mundo físico da matéria ou mundo do Outro são cópias imperfeitas do respectivo arquétipo ou essência que se encontra no Mundo Inteligível acima do céu visível. Assim, por exemplo, os milhões de cavalos existentes no mundo terrestre (multiplicidade) imitam a forma única de cavalo eterno (unidade) que está no Mundo do Mesmo. (VALE DOIS VALORES)

 

2) D) A essência (eidos), segundo Aristóteles, é a forma comum de uma dada espécie de entes. Todos os homens possuem a mesma essência, homem. A essência árvore tem um tó tí: os ramos, as folhas, o tronco, etc. O tó tí é o quê-é ou seja a forma, essencial ou acidental, de algo. Exemplo: o tó tí da espiga de trigo é a forma desta e distingue-se do tó tí da espiga de milho e do tó tí do rosto humano. Se Joana se distingue de Mariana e de Francisca isso deve-se aos acidentes, isto é, as particularidades singulares que as distinguem entre si e que são tó tís: o naiz arrebitado de uma e o nariz aquilino de outras, os olhos azuis de uma e os olhos verdes de outra, etc. O tó ón é o ente, o que é, o existente, qualidade que é comum às coisas ou seres com diferentes tó tís. O Mundo do Mesmo ou mundo dos arquétipos ou Ideias ou Modelos perfeitos, acima do céu visível, possui tó on e tó tí no que respeita a cada arquétipo: o tó tí do Triângulo é diferente do tó tí do Círculo e do tó tí do Belo. (VALE DOIS VALORES)

  

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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (1º período, ano de 2012/2013)

 Eis um teste de filosofia do meio do primeiro período lectivo de 2012-2013 numa escola do ensino secundário, em Portugal, onde o fogo sagrado da grande filosofia, do pensamento dialético, se mantém.  Contra os ventos "analíticos" e "lógico/ ametafísicos" da pequena ou mesmo da anti filosofia que sopram fortes em muitas escolas e em muitos sistemas de ensino por esse mundo fora.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

31 de  Outubro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

I

“Filósofos como Tales de Mileto e Hipócrates de Cos compreendiam que a multiplicidade das aparências empíricas no cosmos ocultava uma só essência que se apreende através do conceito. Embora ambas sejam essencialismos, as filosofias de Aristóteles e Platão diferem entre si na questão da transcendência e imanência dos valores e das essências.”

 

1) Explique concretamente este texto.

 

II

2) Relacione, justificando:

 

A) Reminiscência e participação, em Platão.

B) Teoria das quatro causas em Aristóteles e acção humana de construir uma casa.

C) Hierarquia e polaridade dos valores na ética e na estética, por um lado, e lei do uno, por outro.

 

III

3)  Disserte sobre o seguinte tema:

   “ O tó tí e o tó on, a lei da luta de contrários e a lei das causas internas e causas externas na escola ou na minha vida fora da escola.”

 

.

 

CORREÇÃO DO TESTE, DE COTAÇÃO MÁXIMA DE 20 VALORES

 

1) Tales de Mileto postulou ser a água o princípio de tudo, (arquê), a essência primordial, eterna, incriada. Era o caos inicial. Moldada, depois por uma inteligência chamada Deus, a água deu origem ao cosmos, universo hierarquizado: as múltiplas aparências empíricas, isto é, as montanhas, os céus, as nuvens, as rochas os animais, são dotados de uma mesma essência oculta, que é água - solidificada, condensada, em estado puro ou sublimada. Isto apreende-se através do intelecto, do conceito ou ideia formada por abstração de percepções empíricas similares. Hipócrates de Cos, o pai da medicina, teorizou a unicidade de todas as (múltiplas) doenças locais: as doenças de fígado, rins, coração, articulações, etc, são apenas máscaras, manifestações locais de uma mesma doença geral, a intoxicação do sangue e da linfa (formulação dos neo-hipocráticos) que circulam por todo o corpo e depositam as partículas tóxicas (dos alimentos, medicamentos, etc) neste ou naquele orgão ou músculo (ESTA PARTE DA RESPOSTA VALE 4 VALORES). Embora as filosofias de Platão e Aristóteles sejam ambas essencialismos, isto é, doutrinas que dizem que as essências ou formas estáveis dos entes são anteriores a estes, elas diferem entre si: para Platão os valores (qualidades subjectivas ou intersubjectivas, hierarquizáveis e polarizáveis, como Bem, Belo, Justo) e outras essências (Triângulo, Número Dois, etc) são transcendentes à matéria, estão acima desta, num mundo inteligível; para Aristóteles, os valores de Bem, Belo e outras essências (Árvore, Cavalo, Mulher, etc) são imanentes, existem dentro do mundo da matéria e nas pessoas que nele vivem (NOTA: ESTA PARTE DA RESPOSTA VALE 4 VALORES).

 

2) A) Reminiscência é a recordação vaga dos arquétipos de Bem, Belo, Justo, Igual, Número, Círculo, etc, que a alma humana guarda depois de se encerrar num corpo físico, uma vez descida do mundo Inteligível, que é metafísico, espiritual, invisível e impalpável.  Participação é a imitação dos arquétipos ou formas puras operada no mundo do Outro, ou mundo sensível da  matéria: as árvores participam (imitam) no arquétipo de árvore que existe acima do céu visível, etc. A reminiscência é uma forma de participação mental porque, como «fotografia» dos arquétipos liga o homem físico do mundo terreno aos arquétipos do mundo superior ( NOTA: VALE DOIS VALORES).

 

2) B) Aristóteles definiu quatro causas de um ente: formal (exemplo: a forma da casa), material (no mesmo exemplo: tijolos, cimento, ferro, areia), eficiente (exemplo: quem fez a casa , isto é, os pedreiros e o arquitecto) e final (exemplo: para que serve a casa, isto é, para habitação e trabalho abrigado do homem).No caso da acção humana de construir uma casa a resposta, algo complexa, pode ser a seguinte: causa formal - a forma dos braços e da mão humana no movimento de assentar os tijolos, a placa da casa; causa material - os músculos do braço e da mão, a colher  e a talocha, o cimento, na medida em que são a "matéria-prima" da acção; causa eficiente - o homem, porque é o agente da acção; causa final, a casa como lugar para o homem habitar e trabalhar abrigado.  (NOTA: VALE TRÊS VALORES; OUTRAS RESPOSTAS CERTAS DE TEOR ALGO DISTINTO DESTA SÃO POSSÍVEIS). 

 

2) C)  Hierarquia de valores é a ordem, do superior ao inferior, dos valores. Polaridade dos valores é a contrariedade de valores, como polos opostos, em cada tema ou área. Na ética, o Bem (no comportamento humano) é o valor mais alto e o Mal o valor mais baixo (hierarquia) sendo entre si polos antagónicos (polaridade). Na estética, o Belo e o Sublime são os valores mais altos e o Feio e o Horrível os valores mais baixos (hierarquia) existindo antagonismos ente sublime e horrível e entre belo e feio (polaridade). A lei do uno diz que tudo se relaciona no universo e no pensamento, por isso ética e estética formam um uno, o reino dos valores humanos. (NOTA: VALE TRÊS VALORES; OUTRAS RESPOSTAS CERTAS DE TEOR ALGO DISTINTO DESTA SÃO POSSÍVEIS).

 

3) Tó ón significa o ente, algo indeterminado que existe. Tó tí significa o quê é, a característica ou forma de algo, a essência (neste último caso é tó tí en einai, o quê é o se r). O tó on da escola é a sua existência. O tó tí é a arquitectura dos edifícios e os espaços exteriores, a forma das salas, das carteiras, do pátio dos alunos, da cantina, etc. A lei da luta de contrários ensina que em cada coisa ou ente há uma luta de contrários que constitui a essência e o motor de de desenvolvimento dessa coisa ou ente. A escola é, na sua essência, uma luta de contrários: entre o conhecimento (de que professores e alunos são portadores) e a ignorância; entre os tempos de aula e os tempos de recreio, etc. A lei das causas internas e externas postula que há dois tipos de causas de um fenómeno ou ente, as internas, que são determinantes, e as externas, secundárias, sendo, embora, ambas indispensáveis. Exemplos: nas aulas as consciências dos alunos (causas internas) são mais importantes que o discurso explanativo do professsor (causa externa), se o aluno quiser estar desatento invalida a eficácia  da transmissão do conhecimento pelo  professor; um aluno bem alimentado com proteínas, frutas e verduras em boa quantidade purifica o sangue (causa interna) e assim os vírus e toxinas vindos do exterior (causa externa) não podem instalar a doença no corpo, excepção feita às vacinas, caldos muito agressivos que violam a parede da pele e dos vasos sanguíneos ao ser inoculadas artificialmente, o que coloca novas causas internas artificiais e temporárias.  (NOTA: VALE QUATRO VALORES; OUTRAS RESPOSTAS CERTAS, DE TEOR ALGO DISTINTO DESTA, SÃO POSSÍVEIS).

 

 

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012
Crítica de Aristóteles a Platão: o Relativo não é uma Forma, uma Substância separada

 

Em «Metafísica», livro de oiro da filosofia, Aristóteles critica a doutrina platónica do Uno e da Díade do Grande e do Pequeno como princípios geradores dos entes. Escreveu:

 

«Os que põem o Desigual como algo uno e constituem a Díada Indefinida a partir do Grande e do Pequeno dizem coisas demasiado afastadas do comunmente admitido e do possível. Sucede que essas coisas, melhor do que sujeitos, são afeções e acidentes dos números e do tamanho - o Muito e o Pouco do número, o Grande e Pequeno do tamanho - do mesmo modo que Par e Ímpar, Liso e Rugoso, Recto e Curvo. A este erro há que somar que Grande e Pequeno e todas as coisas que são tal, são necessariamente termos relativos. Ora bem, o relativo é, de todas as categorias, a que tem natureza e substância em muito menor grau, e é posterior à qualidade e à quantidade. E, como se disse, a relação é uma afeção da quantidade, mas não matéria, já que outra coisa é a matéria que serve de substrato tanto ao relativo em geral como às suas partes e espécies» ( Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1088a, 15-25; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

No fundo, Aristóteles critica Platão não só por teorizar uma região de essências aparte - o mundo Inteligível, acima do céu visível - mas também por não hierarquizar, em termos de anterioridade e posterioridade, a essência- substância (exemplo: a árvore) como anterior à essência- acidente (exemplo: o belo) no mundo dos arquétipos.  Platão coloca o arquétipo de Belo como anterior ao arquétipo de Árvore, ressalvando que em algum dos seus textos coloca em dúvida a existência da forma arquetípica árvore, e Aristóteles faz o inverso: coloca a essência ou forma eterna de Árvore como anterior à qualidade de Belo que apenas surge nas coisas belas. Aristóteles considera o mundo platónico das essências uma abstração onde as formas aparecem desarticuladas entre si, todas num mesmo plano,  como as peças de Lego que servem para construir uma casa. No pensamento aristotélico, o relativo não é sequer uma substância (ousía) uma forma substancial,  e esta é, em princípio, anterior ao acidente.

 

Aristóteles hipostasiou as Ideias de Platão nos próprios objectos sensíveis da matéria, ao passo que Platão hiperestasiou a essência e os acidentes dos objectos sensíveis num mundo inteligível, situado acima do céu visível.

 

Aristóteles opôs-se à ontogénese matemática definida por Platão:

 

«Desde logo, nem a Díada Indefinida nem o Grande e o Pequeno ´são causas de que haja dois «brancos», o de que haja muitas cores, sabores e figuras. Mas em tal caso, essas coisas seriam também números e unidades. » (..)

«Este erro é causa também de que, ao buscar o oposto de O que é e do Uno (de aquele e deste proviriam as coisas que são) propuseram o Relativo e o Desigual, que não é nem o contrário nem a negação de eles, mas é uma das coisas que são, uma natureza particular como o quê e a qualidade. E isto haveria também que investigar, como os relativos são muitos e não só um.» (Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1089a, 35/ 1089b, 1-5; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 Por lacuna parcelar de pensamento dialético, Aristóteles coloca o relativo fora da oposição uno-múltiplo, ignorando que o relativo engloba o uno e o múltiplo, e é portanto o uno e o seu contrário, uma determinação holística. Continuando a referir-se aos platónicos, escreveu Aristóteles:

 

«E falam de mais espécies ainda do Relativo. Qual é, então, a causa de que estas sejam muitas? Assim, pois, é necessário, como dizíamos, estabelecer aquilo que é potência a respeito de cada tipo de realidade ( o que propôs esta teoria explicou o que é potencialmente um isto (tóde tí) e uma substância, sem sê-lo por si mesmo, dizendo que tal coisa é o Relativo; ao mesmo teria podido ocorrer dizer que tal coisa é a qualidade, a qual nem é potencialmente o Uno nem O que é, nem é tampouco negação do Uno e de O que é, mas uma, em particular das coisas que são) e muito mais ainda, como se disse, se se trata de  investigar como são muitas as coisas que são, e não de investigar, dentro da mesma categoria, como é que são muitas as substâncias, ou muitas as qualidades, mas como é que são muitas as coisas que são». (Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1089, 15-20, )

 

É contestável o que Aristóteles aqui escreveu. A identificação de Uno com O que é permanece equívoca, constitui um dos calcanhares de Aquiles da «Metafísica» de Aristóteles: o Múltiplo é, tanto como o Uno, o que é. Esta é a visão dialética que sustento: não há uno sem múltiplo, ambos são em igual grau. O relativo abarca uno e múltiplo: os contrários são relativos entre si, os contraditórios são relativos entre si, o que Aristóteles não soube equacionar correctamente no Livro X da Metafísica, uma vez que classificou os relativos como uma espécie extrínsexca às espécies contraditórios e contrários.  Por que razão a Qualidade é uma das coisas do Uno? Não é o Uno uma Qualidade? De acordo com a filosofia aristotélica o uno ou é substância, ou é acidente, e neste último caso, será Qualidade, Quantidade ou Relação ou as três coisas ao mesmo tempo.

 

Diga-se o que se disser, a «Metafísica» de Aristóteles é um livro mais importante que «Ser e Tempo» de Heidegger ou de que «O Ser e o Nada» de Sartre. Aristóteles é muito mais preciso nos pormenores de definição, do polimento das faces do "diamante" do ser, o diamante ontológico, que a generalidade dos filósofos posteriores.

 

 

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