Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015
A «heterossexualidade natural da mulher», uma invenção dos esclavagistas sexuais masculinos

 

 Segundo a ideologia feminista a tese de que as mulheres são, na sua grande maioria, heterossexuais por natureza é uma falsidade, uma criação da ideologia patriarcal que domina desde há séculos a sociedade mundial. Toda a sociedade está construída de forma a tornar a mulher num objecto sexual do homem, numa escrava ou numa prostituta legal que é, afinal, a sua condição de esposa, «fiel ao marido, mãe e esteio do lar», santificada pelas igrejas católica, mórmon, judaica, etc. Ninguém nasce mulher, afirmam algumas feministas, - nasce-se com seios e vagina mas isso não basta para ser mulher - porque a categoria de mulher faz parte da divisão em classes da sociedade, sendo homem a classe opressora e mulher a classe oprimida.

 

O facto de milhares de mulheres ameaçadas de morte e agredidas com frequência por maridos e ex maridos, namorados e ex namorados não terem proteção policial vinte e quatro horas por dia em Portugal e na generalidade dos países e não verem na prisão os seus maltratadores é a prova de que as leis e a sua aplicação, o direito e a administração de justiça estão sob o poder masculino que encobre ou desculpa a violência dos homens sobre as mulheres. Escreve uma autora feminista:

 

«Isto nos permite conectar aspectos da identificação das mulheres tão diversos como as amizades das meninas de oito ou nove anos, tão íntimas e impudentes, e as associações daquelas mulheres dos séculos doze e quinze, conhecidas como Beguines, que “dividiam e alugavam casas umas para as outras, as deixavam de herança para suas companheiras de quarto… casas baratas subdivididas nas áreas dos artesãos da cidade”, que “praticavam a virtude cristã por si mesmas, vestindo-se e vivendo de maneira simples e não se associando com homens”, que ganhavam a vida como fiandeiras, doceiras, enfermeiras, ou mantinham escolas para meninas, e que conduziram – até a Igreja as forçarem a dispersar – uma vida independente tanto do casamento quanto das restrições dos conventos. Isso nos permite conectar estas mulheres com as mais celebradas “Lésbicas” da escola de mulheres ao redor de Safo do sétimo século A.C., com as irmandades e redes econômicas presentes entre mulheres Africanas, e com irmandades Chinesas de resistência ao casamento – comunidades de mulheres que recusaram o matrimônio ou que, se casadas, frequentemente se recusavam a consumar o casamento e logo abandonavam seus maridos – as únicas mulheres na China que não tiveram seus pés amarrados e que, segundo Agnes Smedley, festejavam os nascimentos de meninas e organizavam greves bem-sucedidas de mulheres nas fábricas de seda. Isso nos permite conectar e comparar exemplos individuais díspares de resistência ao casamento: por exemplo, o tipo de autonomia reivindicado por Emily Dickinson, uma mulher branca genial do século XIX, com as estratégias disponíveis a Zora Neale Hurston, uma mulher negra genial do século XX. Dickinson nunca se casou, teve amizades intelectuais bem tênues com homens, viveu autoenclausurada na casa distinta de seu pai e passou toda a sua vida escrevendo cartas apaixonadas a sua amiga Kate Scott Anthon. Hurston casou duas vezes, mas logo abandonou seus dois maridos, enfrentou um longo caminho da Flórida para Harlem e para a Universidade de Columbia, daí para o Haiti, e finalmente de volta à Flórida, movendo-se para dentro e para fora do patronado branco e da pobreza, do sucesso profissional e do fracasso. Suas relações de sobrevivência foram todas com mulheres, começando com sua mãe. Essas duas mulheres, em suas circunstâncias imensamente diferentes, resistiram ao casamento, comprometidas com seu próprio trabalho e com sua pessoalidade, mas depois foram caracterizadas como “apolíticas”, arrastadas para homens com qualidades intelectuais. Para ambas, as mulheres forneceram a fascinação e o apoio constantes em vida.»

https://antipatriarchy.wordpress.com/author/antipatriarcado/

 

Monique Wittig, escritora, poetisa e militante lésbica-feminista, nascida na França em 1935, escreveu no seu célebre ensaio «O pensamento hétero»:

 

«Os discursos que acima de tudo nos oprimem, lésbicas, mulheres, e homens homossexuais, são aqueles que tomam como certo que a base da sociedade, de qualquer sociedade, é a heterossexualidade. Estes discursos falam sobre nós e alegam dizer a verdade num campo apolítico, como se qualquer coisa que significa algo pudesse escapar ao político neste momento da história, e como se, no tocante a nós, pudessem existir signos politicamente insignificantes. Estes discursos da heterossexualidade oprimem-nos no sentido em que nos impedem de falar a menos que falemos nos termos deles. Tudo quanto os põe em questão é imediatamente posto de parte como elementar. A nossa recusa da interpretação totalizante da psicanálise faz com que os teóricos digam que estamos a negligenciar a dimensão simbólica. Estes discursos negam-nos toda a possibilidade de criar as nossas próprias categorias. Mas a sua ação mais feroz é a implacável tirania que exercem sobre os nossos seres físicos e mentais.
Ao usarmos o termo demasiado genérico “ideologia” para designar todos os discursos do grupo dominante, relegamos estes discursos para o domínio das Ideias Irreais; esquecemos a violência material (física) que diretamente fazem contra as pessoas oprimidas, violência essa produzida pelos discursos abstratos e “científicos”, assim como pelos discursos dos mass media.»

 

«Sim, a sociedade hétero está baseada na necessidade, a todos os níveis, do diferente/outro. Não pode funcionar economicamente, simbolicamente, linguisticamente ou politicamente sem este conceito. Esta necessidade do diferente/outro é uma necessidade ontológica para todo o aglomerado de ciências e disciplinas a que chamo o pensamento hétero. Mas o que é o diferente/outro se não a(o) dominada(o)? A sociedade heterossexual é a sociedade que não oprime apenas lésbicas e homossexuais, ela oprime muitos diferentes/outros, oprime todas as mulheres e muitas categorias de homens, todas e todos que estão na posição de serem dominadas(os). Para constituir uma diferença e controlá-la é um ato de poder, uma vez que é essencialmente um ato normativo. Todos tentam mostrar o outro como diferente. Mas nem todos conseguem ter sucesso a fazê-lo. Tem que se ser socialmente dominante para se ter sucesso a fazê-lo. »(Monique Wittig, O pensamento hetero; o destaque a bold é posto por nós).

 

Os próprios manuais de filosofia em vigor no ensino público em Portugal e em outros países evitam tematizar esta questão em pormenor,  o que demonstra que a filosofia oficial não é livre mas ressuma ideologia machista, opressora das mulheres. 

 

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Sábado, 6 de Março de 2010
Nietzsche: Àcerca da mulher e da «gravidez» dos intelectuais ou «mães masculinas»»

Pensador da tradição contra-revolucionária, Frederico Nietzschze (1844-1900) desenhou da mulher um retrato curioso, com pinceladas psicológicas de grande originalidade que espantaram Sigmund Freud.

 

Segundo o pensamento citado abaixo, o amor paterno seria, aparentemente, uma peculiaridade da espécie humana e, implicitamente, estaria ligado ao papel produtivo do homem, num século XIX em que a grande maioria das mulheres trabalhava em casa sem salário e era o homem quem trazia dinheiro para casa depois de laborar na fábrica, na mina, na pesca, no escritório, na loja ou no armazém:

 

 

 

«72- As Mães. – Os animais têm da mulher uma opinião diferente daquela que pertence aos humanos; a fêmea é para eles o elemento produtivo. Ignoram o amor paterno; encontra-se neles alguma coisa parecida com o afecto que se pode ter pelos filhos de uma amante e com o hábito que se ganha deles. Nas fêmeas os filhotes satisfazem um apetite de domínio, de propriedade; eles ocupam-nas, elas compreendem-nos inteiramente, são parceiros de conversa; tudo isso é o amor materno, comparável ao amor do artista pela sua obra. A gravidez torna as fêmeas mais suaves, mais pacientes, mais receosas, mais submissas; do mesmo modo a gravidez intelectual cria o carácter contemplativo que se aparenta com o das mulheres; os contemplativos são as mães masculinas. Nos animais o belo sexo é o dos machos.» (Nietzschze, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 92; a letra negrita é por mim colocada).

 

 

 

É interessante notar a comparação entre as mulheres grávidas e os intelectuais masculinos: ambos os géneros estão grávidos, elas de crianças, eles de ideias; a contemplação dos intelectuais ou espera do nascimento de ideias e teses equipara-se à gravidez feminina, e torna as pessoas mais suaves, pacientes, submissas. De facto, os intelectuais, em regra, controlam as suas reacções espontâneas de mau humor ou afrontamento verbal com alguém, o que não sucede com muitas pessoas comuns de reacções primárias. O intelectual é mais suave nas suas reacções do que o manual porque os seus neurónios activos, forjando representações dilatórias, esvaziam a explosão imediata de violência: veja-se, por exemplo, a diferença entre as manifestações de rua dos professores espanhóis, indignadas mas pacíficas, e as manifestações de rua de operários dos estaleiros navais espanhóis, frequentemente deslizantes para violência física contra a polícia.

 

 

 

Nietzschze escreveu ainda, revelando um carácter algo misógino, alertando contra o feminismo que triunfaria na segunda metade do século XX:

 

«232- A mulher quer emancipar-se: e para isso começa a esclarecer os homens sobre a “mulher em si” – isto constitui um dos piores afeamentos da Europa. Pois quanta coisa não se revelará nestas tendências desajeitadas do cientifismo e auto-desnudamento femininos! A mulher tem tantas razões para ficar envergonhada: na mulher há tanto de pedantismo, de superficial, doutrinário, de presunção mesquinha, de pequenez desenfreada e imodesta – analise-se o seu convívio com crianças! – o que, no fundo, até agora, só o medo do homem refreou e reprimiu. (…)»

 

«Desde a origem, nada é mais estranho, mais avesso, mais odioso à mulher do que a verdade – a sua grande arte é a mentira, o que mais lhe interessa é a aparência e a beleza. Confessemo-lo, nós homens: nós honramos e amamos na mulher precisamente essa arte e esse instinto: nós que temos uma vida difícil, e para nos alijarmos, gostamos de nos juntar a seres sob cujas mãos, olhares e tolices ternas, a nossa seriedade, o nosso peso, a nossa profundidade quase nos aparecem como uma tolice. Finalmente pergunto: jamais uma mulher concedeu profundidade a um cérebro de mulher, justiça a um coração de mulher?» (Nietzschze, Para além do bem e do mal, Guimarães Editores, Págs 154-155; a letra negrita é posta por mim).

 

 

 

A tradição contra-revolucionária vê na mulher uma criatura graciosa, superficial, centrada na beleza e nas aparências, tal como o deus Apolo concebido por Nietzschze, com uma função reprodutora e conservadora de mãe, esposa, por um lado, e uma função hedónica de amante devotada ou concubina, por outro lado. No entanto, para a tradição machista, a faceta de racionalidade e espírito geométrico atribuída por Nietzsche ao deus Apolo não seria característica principal do modo de ser feminino.

 

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