Quarta-feira, 21 de Outubro de 2015
Equívocos de Jonathan Dancy: Fiabilismo equipara-se a Coerentismo e Fundacionalismo?

 

 Por justificacionismo, noção popularizada pela filosofia analítica, entende-se a atitude filosófica de fundamentação, isto é, estabelecimento de um sistema de explicações de uma teoria, tese ou visão do mundo, baseado em leis de causa-efeito, em analogias ou outro modelo de raciocínio. Não se pode colocar o justificacionismo ao mesmo nível do fundacionalismo e do coerentismo. Estes dois últimos são, por assim dizer, tipos de arquitectura filosófica – «casa fixa ao solo» o fundacionalismo; «casa rolante», o coerentismo- ao passo que o justificacionismo é empregue por ambos como método ideológico.

A justificação é uma explicação ou comprovação de uma ideia, raciocínio ou teoria a partir de outra instância, é uma razão ou prova, teórica ou empírica.

«Mas a justificação é o processo que consiste em apelar para uma instância independente.» (L. Wittengstei, Tratado Lógico-Filosófico e Investigações Lógico-Filosóficas, pag 345)

 

«638. “Não posso estar em erro” é uma frase normal que serve para indicar o valor da certeza de uma declaração . E, somente no seu uso quotidiano, ela é justificada.»
(Ludwig Wittgenstein, Da Certeza, Edições 70, Lisboa, 1998, pag 179)
Ao justificacionismo opõe-se o não justificacionismo

 

.Dancy assevera haver três vias de justificação:


«Então o que faz, neste caso, uma crença ser justificada?
«Há várias respostas. Uma é a resposta fiabilista: a crença justifica-se porque é o resultado de um processo fiável. Outra é a resposta coerentista: a crença justifica-se porque o meu mundo é mais coerente  com ela do que seria sem ela. Uma terceira é a alegação fundacionalista clássica, que entende que a crença não é de facto não-mediata, mas inferida de uma crença sobre como as coisas me aparecem neste preciso momento.» (Jonathan Dancy, texto extraído de Oxford Companion to Philosophy, organizado por Ted Honderich (OUP, 1995, pp. 809-812; o destaque a negrito é posto por nós).

 

Esta é uma confusão de Dancy, um dos «grandes» da filosofia analítica: apresentar três respostas, onde só há duas. Não se percebe o que é o fiabilismo, separado do coerentismo ou do fundacionalismo. Estes dois são fiabilistas...Fiabilismo é, pois, uma atitude geral de espírito e coerentismo e fundacionalismo são modos de arquitectar a construção de uma teoria, ambos impregnados dessa atitude de confiança.  

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 13:26
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
Realismos directo e indirecto - equívocos de Jonathan Dancy

 Para designar realismo natural ou ingénuo, isto é, doutrina segundo a qual a mente humana apreende sensorialmente o mundo exterior da matéria tal como ele é, alguns epistemólogos empregam o termo «realismo directo».

É o caso de Dancy, que escreveu (o negrito é nosso):

 

«O realismo directo defende que na percepção dos sentidos estamos directamente conscientes da existência e natureza do mundo físico que nos rodeia. Todos os realistas directos concordam acerca disto, do carácter directo das coisas. Diferem, todavia, no grau de realismo que estão dispostos a abraçar. O realista, no nosso sentido presente, defende que os objectos físicos são capazes de existir e retêm pelo menos algumas das propriedades que apreendemos terem, mesmo quando inapreendidos. A frase crucial é «pelo menos algumas» , e a questão é saber exactamente quais. Distinguiremos dois tipos de realismo, o ingénuo e o científico; dependendo da natureza do caso, contudo, pode haver muitas posições intermédias possíveis.»

 

«O realista directo ingénuo defende que os objectos inapreendidos são capazes de reter propriedades que apreendemos terem. Com isto, ele quer dizer que um objecto inapreendido pode ainda ter não só uma forma e tamanho mas também ser quente ou frio, ter uma cor, um gosto ou um cheiro, ser rugoso ou liso e fazer barulho ou ser silencioso. A ingenuidade desta posição está na palavra «todos». A posição torna-se menos ingénua à medida que «todos» se reduz a «quase todos» e depois a uma «maior parte» e assim por diante, mas é para nós mais simples vê-la no caso mais completo e mais extremo.»

 

«Oposto à forma ingénua de realismo directo, está o realismo directo científico. Esta versão científica considera que a ciência demonstrou que os objectos físicos não retêm, quando inapreendidos, todas as propriedades que apreendemos terem; pois a existência dessas propriedades depende da existência de um sujeito percipiente. Assim a cor, o gosto, o som e o cheiro não são propriedades independentes do objecto que ele possa reter inapreendido. O objecto só as possui em relação ao sujeito percipiente. O realista directo científico aceita o carácter directo da nossa percepção do mundo, mas restringe o seu realismo a um grupo especial de propriedades.»

«A distinção elaborada está próxima da distinção de Locke entre qualidades «primárias» e secundárias (ver J.Locke, 1961, Lv. 2, cap. 8). Locke defendia que as qualidades primárias da forma, tamanho, textura molecular e movimento têm um status diferente das qualidades «secundárias» como a cor, o calor, o cheiro, o gosto, etc (poderíamos chamar a estas propriedades «sensoriais»). ( Jonathan Dancy, Epistemologia Contemporânea, Edições 70, pag. 186-187).

 

O problema de Dancy é o de falta de espírito de síntese, de uma arquitectónica de pensamento dialéctica: aquilo que designa por realismo directo científico não é directo, mas indirecto porque é científico, isto é, porque descobriu que a cortina das cores, sons, cheiros, etc, não permite ver directamente o objecto físico exterior que é despido destas qualidades secundárias. Ele mesmo afirma que o realista científico «restringe o seu realismo (directo, subentende-se) a um grupo especial de propriedades» - por outras palavras, é um realista indirecto.

 

O mais grave é que Dancy duplica as definições a partir de diferenças milimétricas que, de facto, não existem: fala em realismo directo, ingénuo e natural; e em realismo indirecto, ingénuo e natural. É uma obscuridade de pensamento disfarçada num vasto entrançado de definições, com bifurcações que nunca mais acabam. Um exemplo de catedrático erudito, muito comum nas universidades, que subjuga os alunos pela monumentalidade da sua verborreia, das suas infinitas classificações mais ou menos desconexas… Monumentos não de pedra mas de cartão, facilmente desmontáveis por um pensamento lúcido e crítico.

 

Nota- Dentro de dias estará à venda na internet o nosso livro bilingue (escrito em português e em inglês) «Os acidentes em Lisboa na Astronomia Astrologia , Astrology and Accidents in U.S.A.» de 276 páginas, formato 17x 23 cm, capa de cartolina, contendo 15 mapas do céu com planetas em datas históricas -preço: 29,00 euros. Uma obra inovadora na Astrologia Mundial, com a nova teoria dos graus minutos homólogos entre si. Reserve o seu exemplar desta obra única, de edição restrita, fora dos circuitos comerciais da astrologia superficial e falseada. Enviamos por correio aos interessados. O que de mais avançado se descobriu na Astrologia mundial plasma-se neste livro surpreendente. A teoria da predestinação emerge com plausibilidade forte nos estudos explicitados neste livro.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:18
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11

13
14
15
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


posts recentes

Equívocos de Jonathan Dan...

Realismos directo e indir...

arquivos

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
blogs SAPO
subscrever feeds