Terça-feira, 27 de Outubro de 2020
Teste de filosofia 11º ano (Outubro de 2020)

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de escolha múltipla de que as provas de exame nacional usam e abusam e que, em geral, são redutoras ou mesmo mal concebidas e não permitem desvendar a profundidade filosófica de cada aluno. Não somos treinadores dos alunos para exame, damos prioridade à filosofia, à autonomia do professor com saber enciclopédico que pensa e faz pensar num horizonte muito mais vasto que os conteúdos de Descartes, Hume, Kant, Stuart Mill, Popper, Kuhn habitualmente tratados em exame.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C

27 de Outubro de 2020. Professor: Francisco Queiroz


Demiurgo e reminiscência são elementos da teoria da participação de Platão. O Mundo do Mesmo em Platão é metafísico e engloba Ética e Estética.

 

1)Explique concretamente este texto.

 

2) Explique os quatro passos do raciocínio célebre de Descartes desde a dúvida hiperbólica à demonstração da existência do mundo exterior.

 

3) Estabeleça a hierarquia dos entes, segundo Aristóteles, tomando como proté ousía (primeira substância) a cidade de Beja.

 

4) Aplique a teoria das quatro causas e a teoria do acto e da potência à cidade de Beja.

 

 5) Relacione, justificando:

  1. A) A teleologia dos movimentos dos corpos, na cosmologia aristotélica, e Deus.
  2. B) Ideias inatas e ideias adventícias, em Descartes.

 

CORREÇÃO DO TESTE COM COTAÇÃO MÁXIMA DE 20 VALORES 

1) A teoria da participação em Platão é a tese de que os seres do mundo da matéria participam, isto é, imitam os Arquétipos ou Modelos Eternos acima do cèu Visível, no Mundo Inteligível. Assim, por exemplo, as árvores materiais são cópias imperfeitas do Modelo Eterno de Árvore que está, imóvel e perfeito no Inteligível. O demiurgo é o deus operário que desce do mundo Inteligível e, com a ajuda dos deuses do Olimpo (Zeus, Ares, Afrodite, Hefestos, etc.) vem moldar na matéria obscura e caótica (Chora) formas semelhantes à dos arquétipos. A reminiscência é a vaga lembrança que a alma superior conserva dos Arquétipos de Belo, Bem, Triângulo, Cubo, etc. que contemplou no Mundo Inteligível ou do Mesmo e lhe permitem guiar-se no Mundo Sensivel da Matéria e constitui outro aspecto da teoria da participação. (VALE QUATRO VALORES). O Mundo do Mesmo ou Mundo imóvel dos Arquétipos é metafísico porque é invisível e transcende o mundo físico e engloba os arquétipos de Justo e Igual, que traduzem metade da  Ética, como doutrina do Bem e do Mal, do Correcto e do Incorrecto, e o arquétipo de Belo, fonte da Estética ou doutrina do Belo e do Feio (VALE TRÊS VALORES).

 

2) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

 

1º Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

 

2º Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»).

 

3º Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe).

 

4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de figuras, tamanhos, números, movimentos, existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, subjectivas, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos e uma matéria indeterminada (VALE QUATRO VALORES).

 

3) A proté ousía é a substância primeira, individual, única e está no fundo da escala dos entes, em Aristóteles. Sendo neste caso cidade de Beja, a hierarquia que dela nasce é a seguinte,  de cima a baixo:

 

SUPRA GENÉRICOS:  Ente (On)ou qualidade geral de existir (Beja é) e Uno (Hen), propriedade geral dos Entes (Beja é uma unidade de diferentes bairros).

GÉNERO:  cidade do mundo

ESPÉCIE (Eidos ou forma comum): cidade portuguesa

PROTÉ OUSÍA: cidade de Beja.

(VALE TRÊS VALORES)

 

4) A causa formal da cidade de Beja é a sua configuração, em particular a elipse do seu centro histórico. A causa material é o cimento, a pedra, o tijolo, o aço e o ferro dos edifícios e das ruas e praças. A causa eficiente (quem fez a cidade) é o povo do distrito, em particular os pedreiros, os carpinteiros, os arquitectos, os engenheiros. A causa final ou finalidade de Beja é consituir um centro aprazível de vida política, cultural, laboral, habitacional, industrial e de serviços de uma vasta comunidade de dezenas de milhar de pessoas.  Beja em acto é o que é no presente: uma cidade com 22 000 residentes, capital do Baixo Alentejo, dotada de monumentos como a torre do castelo da época de D. Dinis, a igreja da Misericórdia, etc. Beja em potência é o que poderá vir a ser: cidade europeia de média dimensão com indústrias de tecnologia de ponta que hoje ainda não tem.  (VALE DOIS VALORES) .

 

5-1)  A teleologia ou existência ou estudo de finalidades  inteligentes nos processos da natureza é a seguinte na cosmologia de Aristóteles: no mundo sublunar, composto por 4 esferas imóveis (terra ao centro,água, ar e fogo) os corpos movem-se com a finalidade de regressar à sua esfera de origem ( a chama sobe no ar em direção à quarta esfera, a do fogo); no mundo celeste, composto de 54 esferas de cristal, em 7 das quais está incrustado um planeta (esfera da Lua, esfera de Mercúrio, esfera de Vénus, esfera do Sol, esfera de Marte, esfera de Júpiter, esfera de Saturno, etc.) estrelas e planetas, seres inteligentes,  puseram a girar as respectivas esferas com a finalidade de alcançar Deus, o pensamento puro que se pensa a si mesmo e se acha imóvel para além do cosmos. (VALE DOIS VALORES).

 

5-2) Ideias inatas são as que ao nascer jà vêm impressas na nossa mente, claras e distintas. São as ideias de Deus, corpo, alma, figuras geométricas e números. Ideias adventícias, pelo contrário, são a posteriori, derivam dos orgãos dos sentidos, e transportam o erro, a ilusão de que há fora de nós cores, sons, cheiros, sabores, calor ou frio, graus de dureza nos objectos materiais (VALE DOIS VALORES).

 

NOTA: COMPRA O NOSSO «DICIONÁRIO DE FILOSOFIA E ONTOLOGIA», inovador em relação a todos os outros dicionários, repleto de transcrições literais de textos dos filósofos. Aproveita, a edição já esgotou nas livrarias excepto na livraria Modo de Ler, Praça Guilherme Gomes Fernandes, na cidade do Porto. Contém 520 páginas, custa só 20 euros (portes de correio para Portugal incluídos),

 

This blog requires thousands of hours of research and reflection and produces knowledge that you won't find anywhere else on the internet. In order for us to continue producing it please make a donation to our bank account with the IBAN PT50 0269 0178 0020 4264 5789 0

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Copyright to Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:15
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 6 de Junho de 2019
Equívocos na Prova 714 de Exame Nacional de Filosofia, 2ª fase, Julho de 2018

Na Prova 714 de Exame Nacional de Filosofia, 11º ano de escolaridade em Portugal,  2ª fase, de Julho de 2018, algumas das 8 perguntas de escolha múltipla, valendo 8 pontos cada, estão construídas sem clareza dialética.

 

Consideremos, por exemplo, a questão 4 do Grupo I, na qual só uma das quatro alíneas deverá ser a resposta correcta.

 

4. Considere o argumento seguinte.

Os enormes custos ecológicos do transporte aéreo deveriam ser integrados nos bilhetes de avião, pois

essa é a única coisa sensata a fazer.

 

Quem apresenta o argumento anterior

(A) não incorre numa falácia, porque todos os custos de um serviço devem ser pagos por quem o usa.

(B) incorre numa falácia, porque dá como provado o que pretende provar.

(C) incorre numa falácia, porque critica injustamente as transportadoras aéreas.

(D) não incorre numa falácia, porque dá razões, em vez de procurar explorar as emoções do auditório.

 

Os critérios de correção indicam que a resposta certa é a B.

 

Crítica nossa. Está errada a correção oficial ao indicar a B. A resposta A está correcta, porque de facto não é falácia nenhuma dizer que os passageiros devem pagar todos os custos de um serviço. É uma visão liberal economicista.

 

Vejamos a questão 7 do grupo I

 

7. A dúvida cartesiana também se aplica às crenças a priori. O argumento que permite pôr em causa as

crenças a priori é o argumento:

(A) das ilusões dos sentidos.

(B) do sonho.

(C) do génio maligno.

(D) da existência de Deus.

 

Segundo os critérios de correção a resposta correcta seria a C.

 

Crítica nossa: há 3 respostas correctas, A, B e C. Vejamos: no seu mais célebre raciocínio Descartes exprime o seguinte : «Se quando estou a sonhar me parecem verdadeiros os sonhos que tenho (argumento do sonho), posso pensar que continuo a sonhar quando estou de olhos abertos, logo duvido, ponho em causa as crenças a priori de que existem o mundo físico, o meu corpo, Deus.... » O argumento da ilusão dos sentidos nega também crenças a priori: «Uma vez que os sentidos me enganam muitas vezes posso presumir que me enganem sempre, logo duvido do meu corpo, do mundo físico, etc. Mesmo sem recorrer ao argumento da existência de um génio maligno que me enganasse em tudo o que vejo e sinto, os argumentos A e B bastam para negar as crenças a priori.

A questão está mal construída.

 

Vejamos a questão 8 do grupo I.

 

8. Imagine que Descartes era forçado a concluir que, afinal, Deus pode ser enganador; nesse caso, para ser

coerente, ele teria de aceitar que

(A) apenas as sensações corporais podem ser falsas.

(B) as ideias claras e distintas podem ser falsas.

(C) é falsa a ideia de que ele próprio existe enquanto pensa.

(D) os sentidos são mais importantes do que a razão.

 

Segundo os critérios de correção a única resposta certa é a B.

 

Crítica nossa: há duas respostas correctas, a B e a C. A ideia do penso logo existo está contida na hipótese C e é uma intuição, uma ideia clara e distinta, portanto está também implicada na hipótese B. Portanto, se a resposta B está certa a C está também certa porque está englobada na B.  Que raciocínios tortuosos são os de quem gizou estas questões...É isto a filosofia analítica corrente, um emaranhado de arbitrariedades...

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

 f.limpo.queiroz@sapo.pt



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 09:46
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13

15
18
19
20
21

23
25
26
27
28

29
30


posts recentes

Teste de filosofia 11º an...

Equívocos na Prova 714 de...

arquivos

Novembro 2020

Outubro 2020

Setembro 2020

Agosto 2020

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
blogs SAPO
subscrever feeds