Terça-feira, 14 de Março de 2017
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade (10 de Março de 2017)

 

Eis um teste de filosofia, sem questões de escolha múltipla, o segundo teste do segundo período lectivo de uma turma do ensino secundário, no Baixo Alentejo, Portugal. 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja, Escola Secundária Diogo de Gouveia,

Beja,

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B

10 de Março de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“Se se aprecia a ciência pelos seus resultados, dever-se-ia apreciar os mitos cem vezes mais já que as suas conquistas foram incomparavelmente maiores: os inventores dos mitos…livres do jugo da especializaçãoderam início à cultura, enquanto que os cientistas apenas modificaram esta» (Paul Feyerabend)

 

1) Explique estes pensamentos de Paul Feyerabend, interligando-os com os conceitos de ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO, IDEOLOGIA E CIÊNCIA UNIVERSITÁRIA e outros deste filósofo.

 

2) Explique, como, segundo a gnosiologia de Kant, se formam o fenómeno BARCO, o conceito empírico de BARCO e o juízo a priori «Todos os pontos da circunferência estão à mesma distância do centro ».

      

3) Relacione, justificando:

 

A) Incomensurabilidade dos paradigmas em Thomas Kuhn, de um lado, e conjecturas científicas e corroboração em vez de verificação, em Karl Popper, de outro lado.

 

B) Positivismo lógico do círculo de Viena, e três níveis de um Programa de Investigação Científica segundo Lakatos.

 

C) Realismo crítico e  na teoria de Albert Einstein e ultra-objecto em Bachelard.

 

CORREÇÃO DO TESTE DE AVALIAÇÃO COM COTAÇÃO GLOBAL DE 20 VALORES

 

1) Os homens do mito deram início à cultura porque, por exemplo, inventaram uma cura de plantas para cada doença ao passo que os cientistas do século XXI apenas modificaram essa cura, criando um composto químico, com base nessas plantas e em minerais. Os primitivos descobriram uma ciência dos astros (fases da lua, conjunção de Marte com Júpiter ou Saturno, eetc) ao passo que os astrónomos de hoje apenas a modificaram usando telescópios e outros instrumentos. A inteligência do cientista do século XX-XXI é, para Feyerabend, fragmentária, de um racionalismo deficiente porque não apreende a realidade como um todo físico e metafísico. Isso é o que significa estar sob o jugo da especialização: ter um saber parcelar, como o médico de rins que só sabe deste orgão e não sabe nada de dietética, acupunctura, astrologia, fitoterapia, história social e política, geografia, etc. Para Feyerabend, a dança da chuva feita por povos indígenas do México funciona desde que feita no seu contexto natural invocando os deuses com sinceridade e com o ritualismo apropriado, mas para o cientista universitário actual é «mera estupidez», «crença anticientífica». Embora incorporando forças irracionais, o mito tem uma concepção mais racional, holística, do cosmos do que a ciência especializada que «só vê a árvore e não vê a floresta».

O anarquismo epistemológico de Feyerabend - anarquismo é ausência de hierarquia - diz que há múltiplos métodos válidos, incluindo os das ciências tradicionais que deveriam entrar as universidades e ter tanto estatuto  como as tecnociências que lá estão instaladas: a cura pelos cristais, a cura pelas pirâmides, a fitoterapia, o feng shui, a acupunctura, a astrologia, etc, são tão ou mais importantes que os raios laser, as cirurgias, as análises laboratoriais. Isto é o anarquismo epistemológico, a ausência de doutrinas-chefes: todas estão, em princípio, ao mesmo nível de poder social, não há um conjunto de ciências «superiores» que excluem as outras rotulando-as de «atrasadas, anticentíficas,  perigosas» e absorvem os financiamentos estatais e privados. Quanto ao facto de a ciência universitária estar misturada com ideologia há que dizer que, segundo Feyerabend, para os cientistas de hoje «a ciência é a nossa religião» o que significa que a mentalidade científica actual é dogmática, ideológica, como a teologia, acreditando em dogmas que não podem ser postos em causa, como por exemplo, « O Big Bang deu-se há 15 000 milhões de anos e foi o começo do universo», «as vacinas conferem imunidade», «os astros não comandam o comportamento humano». Os cientistas de hoje são os bispos e papas da nova religião da ciência. As ciências actuais nasceram com o emergir da burguesia industrial e financeira actual e por isso estão impregnadas de ideologia - sistema de ideias e valores de uma classe social- neste caso, a burguesia. A ciência e a tecnologia do automóvel como veículo de transporte individual ou familiar insere-se na ideologia individualista da burguesia: «Enriquece, compra um carro próprio, viaja livremente». Feyerabend recusou o «critério de demarcação» invocado por Popper que dizia, por exemplo, que a biologia molecular e a física quântica eram ciências e a astrologia era pseudo-ciência...

A inteligência do homo sapiens primitivo do mito é holística: ligado à natureza, percebendo o bater do relógio cósmico, o primitivo escuta o silêncio e rejeita uma civilização de tecnologia avançada em que milhares de automóveis atravessam a cada minuto as ruas de uma cidade, os túneis e viadutos, fazendo ruído e poluindo o ar com gases. Os homens do mito tinham uma medicina holística com a utilização de plantas curativas que purificam o sangue e qualquer orgão do corpo, e reflectida ainda na medicina dos séculos XVII-XIX que usava métodos tradicionais como medir as pulsações, ou utilizar as sanguessugas para chuparem sangue das pessoas e reduzir os riscos de AVC.  Feyerabend opõe-se de certo modo à medicina actual, cheia de análises, biópsias e radiografias que classifica como «estupidez». (VALE CINCO VALORES).

 

2) Segundo a gnoseologia de Kant, o fenómeno barco forma-se na sensibilidade, no espaço exterior ao meu corpo físico, do seguinte modo: de '«fora» da sensibilidade, os númenos afectam esta fazendo nascer nela um caos de matéria (exemplo: madeira, ferro, areia, etc, em um magma) que as duas formas a priori da sensibilidade, o espaço (com figuras geométricas) e o tempo (com a duração, a sucessão e a simultaneidade) moldam, fazendo nascer um ou mais fenómenos de barcos. O entendimento, com as categorias de unidade, pluralidade, necessidade, confere consistência ao fenómeno barco. Não existe númeno barco, galo é fenómeno na sua totalidade. O  conceito de barco forma-se no entendimento, faculdade que pensa mas não sente, do seguinte modo: a imaginação, situada entre a sensibilidade e o entendimento, transporta desde aquela a este as imagens de barco e as categorias do entendimento de pluralidade e unidade, realidade, recebem as diversas imagens e transformam-na numa só imagem abstracta, o conceito empírico de barco.

O juízo «todos os pontos da circunferência estão à mesma distância do centro» forma-se no entendimento, na tábua dos juízos, após este ir buscar a intuição pura de circunferência que se encontra no espaço a priori e transformá-la, pelas categorias de unidade, pluralidade, erc, num conceito puro de circunferência (VALE TRÊS VALORES).

 

3.A) A incomensurabilidade dos paradigmas é a impossibilidade de medir exactamente o valor de cada doutrina científica e das suas rivais: não se pode dizer, por exemplo, que o heliocentrismo é melhor que o geocentrismo, em termos globais, ainda que se possa dizer que, neste ou naquele aspecto (exactidão/experimentação, fecundidade, simplicidade, etc) um deles é superior ao outro. É compatível com a teoria das revoluções científicas em Kuhn. Esta consiste em afirmar que as ciências se desenvolvem segundo a lei do salto de qualidade: durante décadas ou séculos uma ciência é aceite pela comunidade científica e designa-se por ciência normal mas vão-se acumulando lentamente anomalias até que surge um paradigma ou modelo teórico oposto, chamado ciência extraordinária que acaba por substituir a ciência até então dominante (revolução científica) .Karl Popper ao contrário de Kuhn, não acha que os paradigmas sejam incomensuráveis entre si, escolhe provisoriamente um em detrimento de outros, mas sustenta que as ciências empíricas ou empírico-formais não passam de conjuntos de conjecturas, hipóteses. Na linha de David Hume, Popper duvida da indução amplificante, achando que há sempre excepções a uma dada lei da natureza e considera ser impossível verificar essa lei pois teríamos de estudar centenas de milhar ou milhões de exemplos concretos. Popper diz que só é possível a corroboração ou confirmação de alguns exemplos através da testabilidade, isto é, realização de testes experimentais que se integram no princípio da falsificabilidade (todas as ciências são potencialmente falsas). Tanto Popper como Kuhn revelam um certo grau de ceticismo sobre as teses das ciências.(VALE QUATRO VALORES)

 

3-B) O positivismo lógico do círculo de Viena considera sem sentido a metafísica e afirmações desta como «Deus criou o Paraíso e o Inferno e pune os maus» porque não podem ser comprovadas empiricamente. Para este positivismo, só os factos empíricos ( exemplo: maçã, tornado, etc) e as suas relações lógico-matemáticas são verdade e a indução amplificante - generalização segundo uma lei necessária de alguns casos empíricos semelhantes entre si - é perfeitamente legítima. Imre Lakatos, epistemólogo húngaro, aceita igualmente a indução amplificante e defendeu que a ciência se estrutura em Programas de Investigação Científica (PIC). Cada um destes tem três níveis: o núcleo duro, conjunto das teses imutáveis; o cinto protector, conjunto das teses revisíveis, que podem ser rectificadas ou substituídas; a heurística, conjunto dos métodos de investigação livre, teórica e prática, que pode confirmar ou anular o PIC. (VALE QUATRO VALORES)

 

3-C) O realismo crítico é a teoria que afirma que há um mundo material anterior às mentes humanas e independente destas que o captam de maneira distorcida. O realismo crítico em Descartes consiste em postular o seguinte: há um mundo de matéria exterior às mentes humanas, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor. Podemos dizer que a doutrina de Einstein é um realismo crítico na medida em que sustenta as seguintes teses, entre outras, contra-intuitivas, contra as aparências:

1) O espaço e o tempo não são realidades separadas, existe o espaço-tempo variável de lugar a lugar, não há um tempo absoluto universal.

 

2) O espaço-tempo não é feito de planos sobrepostos e linhas rectas como sustenta a geometria euclidiana e a física de Newton, é irregular e encurva na proximidade de grandes massas (exemplo: a esfera de metal deforma o lençol esticado, criando uma cova no centro).

 

3) A luz cuja velocidade é 300 000 quilómetros por segundo acompanha a curvatura do espaço tempo, não viaja em linha recta (um raio de luz lançado em direção a uma estrela tenderia a voltar à Terra dado que o universo é fechado) 

4) Quem viajasse a uma velocidade próxima da da luz envelheceria muito mais lentamente do que os habitantes da Terra;

 

5) A massa de um corpo aumenta com o aumento da sua velocidade de deslocação.

 

O ultra-objecto de Bachelard é o objecto ideal construído racionalmente com base em dados empíricos indirectos como, por exemplo, os quanta, o quark e o Big Bang. A curvatura do espaço-tempo, na teoria de Einstein, é um ultra-objecto.(VALE QUATRO VALORES).

 

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Domingo, 5 de Março de 2017
Sánchez Meca no entendió qué es objeto material para Kant

Diego Sánchez Meca, aunque es un catedrático español de gran valía en la Filosofía, no interpreta correctamente, al igual que sus pares, el pensamiento de Kant, en la cuestión fundamental de la naturaleza de la materia. En 34 páginas que escribió sobre la doctrina de Kant en su libro Teoría del Conocimiento (Dikinson, Madrid, 2001) Sánchez Meca no hace una sola referencia a la idealidad/ inmaterialidad de los cuerpos materiales como, por ejemplo,  árboles, nubes, piedras, en la teoría de Kant.

 

Escribe:

«El objeto de la investigación de Kant es el estudio de los elementos o funciones a priori que dan orden y unidad a las impresiones. Kant los encuentra en tres níveles distintos de la estructura del sujeto:

a) En el nivel de la sensibilidad (Estética transcendental) como formas del espacio y del tiempo, formas de organización que intervienen en los juicios sintéticos del conocimiento sensible.

b) En el nível del entendimiento (Analítica transcendental). Kant descubre las categorías como elementos que configuran las percepciones sensibles elevándolas a conocimento intelectual (...).

c) En la Dialéctica transcendental, Kant analiza las ideas de la razón, las cuales, referidas a cosas absolutas (Dios, alma, mundo) engendran ficciones o ilusiones.»

(Diego Sánchez Meca, Teoría del Conocimiento, Dykinson, Madrid, pp 276-277). 

 

Lo que faltó decir es que la investigación de Kant se basa en la idea que la materia, el caos de la materia donde provienen los objetos como água, tierra, casa, etc, se halla dentro de la sensibilidad del sujeito, es decir, del espírito de éste, aunque fuera de su cuerpo físico, y, por lo tanto, la matéria es invención de la mente y es mental.

 

Pero en Sánchez Meca no hay ni una sola palabra sobre el carácter incorpóreo de los objetos visibles y tangibles. Una absoluta ignorancia sobre esta tesis fundamental de la ontognosiología de Kant:

 

«Deberíamos, sin embargo, recordar que los cuerpos no son objetos en sí mismos, que están presentes a nosotros, pero  una simple manifestación fenoménica, no se sabe de que objeto desconocido ... que, por lo tanto,no es el movimiento de la materia que produce en nosotros representaciones, sino que él mismo (y por lo tanto también la materia que deviene cognoscible) es mera representación ... "(Kant, Crítica de la razón pura, Fundación Calouste Gulbenkian, Lisboa, pp 363-364 nota: la negrita es puesta por mí).

 

Esta crítica a Sánchez Meca es extensible a la universidad mundial dónde, al parecer, no hay siquiera un solo catedrático que haya intuído este aspecto esencial del idealismo de Kant, igual al de Berkeley en esta cuestión: la irrealidad de la materia.

 

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014
Teste de filosofia do 11º C, Fevereiro de 2014

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
7 de Fevereiro de 2014.         Professor: Francisco Queiroz

 

Os juízos matemáticos são todos sintéticos…O próprio homem é fenómeno…Compreendo por idealismo transcendental de todos os fenómenos a doutrina que os considera, globalmente, simples representações e não coisas em si… O entendimento faz a síntese do diverso da intuição empírica… ” (Kant, Crítica da Razão Pura)

 

1-A) Explique, concretamente, cada uma destas frases de Kant.

 

1-B) Explique como, segundo a doutrina de Kant, se formam o fenómeno ÁRVORE e o conceito empírico de ÁRVORE.

 

II

 

2) Relacione, justificando:

 

2-A) Empirismo/racionalismo e doutrina de Parménides sobre o ser.

 

2-B) Método hipotético-dedutivo das ciências e teoria de Popper sobre as ciências.

 

2-C) Três tipos de substâncias na ontologia de Descartes e três tipos de ideias na gnosiologia de Descartes.

 

2-D) Argumento dedutivamente válido e argumento sólido.

 

2-E) Fenomenologia, idealismo solipsista, realismo crítico e lei do salto de qualidade.

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES)

 

 

1-A) Ao dizer que os juízos matemáticos são todos sintéticos, Kant pretendia significar que o predicado desses juízos acrescenta algo novo ao sujeito. Exemplo: «Sete vezes sete é igual a quarenta e nove» - o predicado «é 49» adiciona um novo conhecimento ao sujeito «7 vezes 7». Todo o homem é fenómeno significa que o corpo humano, a figura do rosto, o tamanho dos membros são fenómenos, ou seja, objectos empíricos que nada são em si mesmos porque são criados na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, e desaparecem com a extinção do espírito humano. O idealismo transcendental considera que os fenómenos (exemplo: cadeiras, casas, árvores) são apenas representações, isto é, percepções empíricas, imagens, conceitos, mas não são coisas reais em si mesmas. A coisa em si é o númeno, objecto metafísico sem matéria nem forma. O entendimento, função que pensa os fenómenos, reduz à unidade, a um resumo, o diverso, as múltiplas intuições empíricas. Exemplo: depois de a sensibilidade ver centenas de rosas que ela mesma cria em si mesma, o entendimento recebe as imagens da sensibilidade e, munido de categorias ou conceitos puros como «unidade», «pluralidade», «totalidade», constrói uma única rosa intelectual, um conceito empírico de rosa, abstraindo de pormenores como a cor, o perfume, etc. (VALE CINCO  VALORES)

 

1-B) O númeno afecta «do exterior» a sensibilidade e cria, nesta, um caos de matéria (madeira, terra, ferro, etc). Este caos é moldado pelo espaço que nele imprime figuras geométricas e pelo tempo que lhe confere duração, sucessão. Assim nasce o fenómeno árvore, na sensibilidade «externa», isto é, no espaço. O entendimento intervém na medida em que confere à árvore o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: tronco, raízes, ramos, etc). São enviadas ao entendimento imagens de diferentes fenómenos árvore - sobreiros, pinheiros, faias, macieiras, etc - e as categorias ou conceitos puros do entendimento como pluralidade, unidade e realidade misturam e tratam essas imagens empíricas transformando-as num só conceito empírico, o de árvore, abstraindo dos pormenores das árvores particulares. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)  A) Em Parménides  a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, homogéneo, imprincipial, invisível, esférico, eterno. É portanto, uma teoria  racionalista, que não dá crédito às percepções empíricas mas sim ao raciocínio ("Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). Esse racionalismo pode ser um realismo crítico  -  a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos - ou um idealismo crítico como em Kant.   No empirismo, as ideias nascem das impressões sensíveis e imitam a forma destas, o que não corresponde à via da verdade de Parménides.  (VALE TRÊS  VALORES)

 

2) B) O método hipotético-dedutivo decompõe-se em quatro etapas: observação, hipótese (indução amplificante), dedução da hipótese e experimentação que confirma ou desmente a hipótese. Karl Popper opõe-se à indução amplificante, pois sustenta que a observação de casos particulares, por muito numerosos que sejam, não autoriza a formular leis gerais universais. Para Popper, as ciências empíricas são conjuntos de conjecturas, suposições, que podem ser temporariamente aceites enquanto não forem refutadas  pelo debate de ideias e pelos testes experimentais que não verificam as leis mas apenas corroboram, isto é, confirmam exemplos. O princípio da falsificabilidade estabelece que só pode merecer o título de "ciência" provisória a doutrina que se exponha a testes e propicie a sua auto-destruição ou rectificação. O conhecimento é uma perpétua aproximação à verdade, que nunca se atinge por completo. (VALE DOIS VALORES)

 

2) C) Descartes admitia três tipos de ideias: adventícias, factícias e inatas. E três substâncias ontológicas: a res divina (Deus), a res cogitans (o pensamento humano) e a res extensa (o espaço com as figuras geométricas). Pode-se fazer corresponder a res divina Deus às ideias inatas porque estas são absolutamente seguras: as ideias de corpo, alma, Deus, figuras geométricas, números. 

Por ideias adventícias, Descartes entendia as sensações e percepções empíricas. Exemplo: ver uma jarra de flores, saborear gaspacho, ouvir música. Ora, as percepções empíricas serão parcialmente ilusórias segundo Descartes: as cores (exemplo:o vermelho da rosa), os cheiros (exemplo: o perfume da rosa), os sabores, a dureza e a moleza, o calor e o frio, são qualidades secundárias, isto é não existem na realidade objectiva, no mundo material exterior ao corpo humano, surgem apenas na mente como ilusão, resultando do embate nos orgãos sensoriais de «poeiras» exteriores emanadas dos objectos. No entanto, as ideias adventícias, na medida em que reflectem as formas, o tamanho e o movimento dos objectos exteriores, isto é, as qualidades primárias, não transmitem ilusão mas sim verdade. Pode-se fazer corresponder as ideias adventícias à rex extensa.

Por ideias factícias, entende-se as ficções da imaginação (exemplo: uma sereia, um elefante com patas de leão, etc). Podemos fazê-las corresponder à res cogitans. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) D) Argumento ou raciocínio dedutivamente válido é aquele que não apresenta incoerência formal nem falibilidade, isto é, o que, por via da razão, passa de uma premissa geral para uma conclusão particular implícita nas premissas ou para uma conclusão geral necessária (exemplo: «dois mais dez é igual a doze, doze mais cinco é dezassete, logo dois mais dez mais cinco é igual a dezassete»). Argumento sólido é aquele que ou é dedutivamente válido ou é indutivamente válido e possui lógica material- um exemplo, deste último caso: «A dieta de maçãs, consistindo em ingerir de um a três quilos de maçã por dia, já melhorou mais de dois milhões de doentes de reumatismo e úlcera gástrica, por conseguinte Joaquim e Ausenda melhorarão das suas doenças reumáticas se  praticarem essa dieta». O argumento dedutivamente válido, no plano formal, «As batatas são aviões, os sobreiros são batatas, logo os sobreiros são aviões» não é sólido porque viola a lógica material.(VALE UM VALOR)

 

2) E) A fenomenologia é um cepticismo moderado: cingindo-se aos fenómenos - o que é visível, o que se manifesta- ela não se pronuncia a favor do idealismo ontológico nem do realismo ontológico. O idealismo solipsista afirma que o mundo de matéria é irreal e interior a uma única mente, a minha. O realismo crítico sustenta que o mundo de matéria é real, exterior às mentes humanas, mas estas captam-no de forma distorcida (exemplo: a cores violeta, amarela e castanha não existem no mundo exterior, são fabricadas na minha mente). A lei do salto de qualidade diz que a acumulação lenta e gradual, em quantidade, (devir) de um aspecto num fenómeno leva a uma mudança qualitativa repentina nesse fenómeno. Aplicando esta lei, podemos dizer que uma acumulação de raciocínios e ideias pode levar alguém a passar do realismo crítico para o idealismo solipsista ou viceversa. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Luís Rodrigues e Luís Gottschalk não compreendem o idealismo de Kant (Crítica de Manuais Escolares- XL)

 

No seu manual para o ensino secundário, adotado em dezenas ou mesmo centenas de escolas em Portugal, Luís Rodrigues demonstra, à semelhança de Karl Popper, de Bertrand Russell e dos professores universitários portugueses e estrangeiros em geral, uma incompreensão fundamental da ontognosiologia de Kant. Escreve Rodrigues:

 

«Assim todo o conhecimento começa com a intuição sensível, ou seja, com a recepção de dados ou impressões sensíveis mediante duas formas com as quais a sensibilidade está equipada: o espaço e o tempo. Intuir é, portanto, receber dados empíricos, espacializando-os e temporalizando-os.»

 

«Exemplificando:

 

«Um automóvel passa frente à minha casa ao meio-dia, fazendo muito barulho e buzinando constantemente. O automóvel provoca em mim uma determinada impressão sensível. Eu recebo esta impressão sensível de uma determinada forma, isto é, espacializo-a e temporalizo-a porque me refiro ao barulho do automóvel como verificando-se em frente à minha casa (espacialização) e a uma determinada hora (temporalização). Assim, vê-se que a intuição sensível consiste em estabelecer uma relação espácio-temporal entre as impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo, do automóvel).» (Luís Rodrigues, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, página 198, consultor, Luís Gottschalk; a letra a negrito é um sublinhado meu).

 

O erro de Luís Rodrigues é não perceber que o automóvel não é uma coisa exterior ao espírito humano mas uma construção dentro deste, um fenómeno cuja consistência é ideal-sensorial, ou seja, é um conjunto de intuições empíricas geradas no espaço que constitui a «mente exterior do sujeito». Rodrigues e Gottschalk interpretam Kant como se este fosse um realista ontológico - no caso: como se o automóvel existisse fora do espírito do sujeito e circulasse por uma rua exterior ao espírito humano- quando Kant é um idealista ontológico ou idealista transcendental, isto é, alguém que diz que os objetos materiais são conjuntos de sensações ou ideias forjadas na parte da minha mente que extravasa o meu corpo físico e engloba o universo inteiro.

 

Que diz Kant sobre a matéria que compreende, no caso que estamos a considerar, a chapa, o volante, o motor, os estofos, os pneus do automóvel? Que a matéria é uma simples representação, um conjunto de imagens e conceitos no nosso espírito:

 

«Com efeito, a matéria cuja unidade com a alma levanta tão grandes dificuldades não é outra coisa que uma simples forma ou um simples modo de representação de um objeto desconhecido, formado por aquela intuição que designamos por sentido externo. Deve, portanto, haver algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria.» (Immanuel Kant, Crítica da razão pura, páginas 361-362, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra a negrito é colocada por mim).

 

A matéria não é um «em si». Não é algo que exista independente de nós. O fenómeno (automóvel, casa, gato, etc) não está fora de nós, do nosso eu-espírito-cosmos: está somente fora do nosso corpo físico. Mas Rodrigues e Gottschalk apresentam-nos o automóvel, que é matéria, como coisa em si, independente de nós. É ainda um erro falar nas «impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo: o automóvel) », coisas estas que estariam fora de nós. Os objetos fora de nós (númenos) não nos enviam sensações: estas são produzidas na nossa sensibilidade, dentro de nós, sob o influxo de uma desconhecida excitação exterior emanada dos númenos, o que é diferente.

 

Este equívoco de supor que segundo a gnosiologia de Kant, há um objeto material fora de nós é geral no meio dos professores universitários e leva-me a interrogar: há verdadeiros filósofos nas cátedras universitárias de hoje ou apenas reprodutores, algo inábeis porque deformantes, da tradição filosófica?  

 

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Domingo, 26 de Junho de 2011
Equívocos de Barata-Moura e Lenine sobre o imaterialismo de Kant

 

José Barata-Moura, catedrático da Universidade de Lisboa e filósofo marxista-leninista, escreveu:

 

«O idealismo teologicamente assistido do "esse es percipi" (ser é ser percebido) de George Berkeley começa, certamente, por operar a dissolução da materialidade do ser naquilo que, em alternativa, é designado por uma "colecção de ideias" (collection of ideas) - e por isso, se assume deliberadamente e efectivamente como um "imaterialismo";

«no entanto, por outro lado, este idealismo não pretende negar nem nega a "existência objectiva" (objectual) do mundo - requerida, nomeadamente, para que seja possível o empreendimento de recorte "empirista", a qual, nos respectivos termos, é feita depender, precisamente, da "percepção" continuada e providencial do seu "Criador" (José Barata-Moura, Lenine e a Filosofia, pag 69, Edições Avante!)

 

 

Que significa dizer que este idealismo de Berkeley não nega "a existência objectiva (objectual) do mundo? Que a matéria sob todas as formas - aquelas nuvens no céu, a torre de Belém e a cidade de Lisboa, os corpos das pessoas e animais, etc - está fora do meu corpo físico, ainda que seja uma "colecção de ideias" flutuando fora do meu corpo.. mas dentro do meu espírito-cosmos, que é tudo. Ora, isto é exactamente o que Kant pensava, embora nem Lenine nem Barata-Moura possuam uma noção clara disso.

 

A primeira confusão de Barata-Moura e do seu mestre Lenine é supor que o idealismo de Berkeley é distinto, no essencial, do idealismo de Kant. Não é. São a mesma coisa. As diferenças são apenas de grau de precisão de pormenores gnosiológicos: Kant fala de formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e do entendimento (categorias e juízos puros), Berkeley não.

 

Kant afirma a imaterialidade da matéria, diz que esta que não é real em si mesma, que é fenómeno e que está em nós e não é essencialmente heterogénea em relação à alma :

 

«Deve, haver, portanto, certamente algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria. Porém, na qualidade de fenómeno, não está fora de nós, mas sim em nós, como um pensamento, se bem que esse pensamento o represente, pelo chamado sentido externo, como situado fora de nós. Assim, a matéria não significa uma espécie de substância tão inteiramente diferente e heterogénea ao objecto do sentido interno (alma) mas somente fenómenos sem conformidade com os seus objectos (que em si mesmos nos são desconhecidos) cujas representações designamos por externas, por oposição àquelas que atribuímos ao sentido interno.»(Kant, Crítica da Razão Pura, nota de rodapé, pag 362, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

 

A matéria é fenómeno, é pensamento, é representação, isto é imagem  tridimensional nascida no espaço ou sentido externo- isto é puro idealismo imaterialista, igual ao de Berkeley, para quem os objectos materiais são «colecções de ideias». Os corpos materiais são pensamentos-sensações que preenchem o espaço ou sentido externo - área fora do nosso corpo físico mas interior à esfera cósmica que é a nossa mente. Kant nunca explicou isto com a clareza que uso aqui mas o seu pensamento era, inequivocamente, como o descrevo. 

 

Sem discernir claramente isto, em nota 123 da página 85  do seu livro "Sobre Lénine e a filosofia" Barata-Moura escreve:

 

«É neste quadro que resulta indispensável, designadamente, perceber certas diferenças que, embora num marco idealista, não deixam de separar o idealismo dos empiro-criticistas (de extracção berkeleyana) do idealismo transcendental de Kant:

 

" O idealismo (empirio-criticista) só começa quando o filósofo diz que as coisas são sensações nossas; o kantismo começa quando o filósofo diz: a coisa em si existe, mas é incognoscível » (LÉNINE, Materialismo e emprio-criticismo (1909), II, 2, pag 83; a citação em itálico é de Lenine).

 

Nesta citação em itálico de Lenine, este ilude responder à questão do que é a matéria na perspectiva de Kant (coisa para mim, substracto palpável dos fenómenos ou objectos empíricos) e salta para o númeno, a coisa em si. A diferença, na concepção de matéria, entre Kant e os empiro-criticistas que Lenine ataca  é, essencialmente, nenhuma: para Kant, a matéria é um conjunto de sensações organizado e interpretado, no espaço e no tempo, pelas categorias do entendimento (substância, causalidade, realidade, etc); para Mach e Avenarius, a matéria é um conjunto de sensações.

 

Mas Lenine e Barata Moura não captaram a identidade essencial das posições de Kant, Berkeley e dos empirio-criticistas sobre a matéria e o idealismo imaterialista. Nem a "desonestidade" de Kant ao demarcar, falaciosamente, o seu idealismo transcendental (dogmático) do idealismo dogmático de Berkeley.

 

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Sábado, 9 de Janeiro de 2010
O equívoco de Heidegger ao interpretar a ontognoseologia de Kant

 

Em «Que é uma coisa?» (Título original: Die Frage nach dem Ding), Martin Heidegger analisa a Crítica da Razão Pura de Kant, em particular a Estética Transcendental, teoria do espaço e do tempo e dos objectos (fenómenos) neles nascidos e situados. E aí denota não ter compreendido a perspectiva de Kant sobre a natureza dos objectos físicos e psíquicos, os primeiros exteriores ao corpo físico, os segundos interiores ou imanentes (imanente pode significar não só «interior»  também «exterior muito próximo de», «colado a») ao mesmo corpo físico.

 

 

 

Na verdade, Heidegger não foca e ignora o seguinte pilar da ontognosiologia de Kant: a natureza biofísica - árvores, montanhas, céus, oceanos, casas, cidades, etc - está toda, sem qualquer redução de tamanho, dentro do eu do sujeito perceptivo. Heidegger, como aliás mais de 95% dos catedráticos de filosofia actuais, nunca afirma esta tese capital de Kant. Este sustentou que a matéria é irreal em si mesma, mas Heidegger passa ao lado desta concepção idealista imaterialista que, verdadeiramente, não compreendeu.

 

 

O que Heidegger escreve é o que a generalidade dos intérpretes superficiais da gnoseologia de Kant afirmam:

 

«"Coisa" é o objecto da nossa experiência. Na medida em que a natureza é a mais alta representação do que é possível experimentar, a coisa deve ser, em verdade, concebida como coisa da natureza. Kant, de facto, distingue a coisa, da coisa-em-si. Mas a coisa-em-si, quer dizer independente de nós e retirada de qualquer relação de manifestação para connosco, permanece, para nós mesmos, um mero X. Em cada coisa como fenómeno pensamos inevitavelmente esse X; mas apenas a coisa da natureza, que nos aparece, é verdadeiramente determinável e possível de conhecer, a seu modo, como coisa. Resumimos, a partir de agora, em duas proposições, a resposta de Kant acerca da coisa acessível para nós; 1) a coisa é uma coisa da natureza; 2) a coisa é o objecto de uma experiência possível. Aqui, cada palavra é essencial e é-o, de facto, no sentido determinado que obteve através do trabalho de Kant.» (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, Pág. 129)

 

 

Note-se que Heidegger escamoteia aqui a natureza da natureza biofísica, isto é a sua coisalidade: não diz se as árvores e as planícies são materialmente reais ou apenas ideias, percepções tridimensionais ilusórias a flutuar fora do corpo do sujeito (esta segunda é a posição de Kant, doa a quem doer).

 

 

E o equívoco de Heidegger é patente na seguinte frase:

 

«Tendo em vista a determinação kantiana da essência da coisa, como coisa da natureza, podemos avaliar que, desde o princípio, Kant não levanta a questão da coisalidade das coisas que nos rodeiam. Para ele, tal questão não tinha nenhuma importância. O seu olhar dirige-se imediatamente à coisa como objecto da ciência físico-matemática.» (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, Pág. 130)

 

 

EM KANT, SER CASA É SER INTUÍDO, CONTRA O QUE DIZ HEIDEGGER

 

Heidegger não entendeu que os objectos físicos, na teoria de Kant, são em absoluto constructos, construções dentro do balão cósmico que é a sensibilidade do sujeito que não estão, de nenhum modo, fora, além desta, como «númenos» ou como objectos materiais. Por isso escreveu:

 

«A casa é intuída na medida em que é encontrada; mas ser casa não significa ser intuído. Kant nunca teria determinado a essência da casa deste modo». (Martin Heidegger, «Que é uma coisa?», Pág 192).

 

 

Equivoca-se Martin Heidegger. Na doutrina de Kant «ser casa» é «ser intuído» - exactamente como na doutrina de Berkeley «ser é ser percebido» - caso contrário Kant seria realista e não idealista transcendental.

 

O fenómeno casa não é senão um conjunto de intuições «objectivas», geradas na sensibilidade pura, isto é no espaço e tempo a priori com uma matéria (cores, sons, cheiros, dureza, substância) a posteriori nascida na mesma sensibilidade sob o impacto exterior do númeno.

 

«Assim, quando separo da representação de um corpo o que o entendimento pensa dele, como seja substância, força, divisibilidade, etc, e igualmente o que pertence à sensação, como seja, impenetrabilidade, dureza, cor, etc, algo me resta ainda dessa intuição empírica: a extensão e a figura. Estas pertencem à intuição pura que se verifica a priori no espírito, mesmo independentemente de um objecto real dos sentidos ou da sensação, como simples forma da sensibilidade.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Pág 62; o negrito é de minha autoria).

 

 

Que é um corpo físico, para Kant?  Um conjunto de linhas, figuras, sem substância (madeira, ferro, pedra ou outra coisa) existentes na intuição pura que é o espaço ou «meu eu exterior». A extensão e a figura de uma nuvem ou de um moinho de vento, por exemplo, pertencem, de acordo com o texto acima, à intuição pura - ao formal-sensível - que forra as paredes da sensibilidade. Estamos, pois, em puro idealismo ou imaterialismo: os corpos da natureza são figuras matemáticas, preenchidas pela nossa imaginação subjectiva com cores, conteúdos materiais, etc. A matéria é pura sensação, dado subjectivo. Logo, toda a natureza biofísica, material, é um vasto aglomerado de sensações constituintes dos fenómenos ou objectos para mim, sejam estes oceano, montanha, floresta, planície ou céu - facto que Heidegger passa em silêncio. A matéria, para Kant, não é real em si mesma fora do sujeito: a matéria está fora do corpo físico do «eu» mas dentro do imenso eu-espírito. Isto não é frisado nem compreendido com clareza por Heidegger nem pela generalidade dos intérpretes de Kant. Uma honrosa excepção é Hegel, que escreveu a propósito da matéria e das duas forças, atracção e repulsão, que a impregnam:

 

 

«Además, Kant ha enseñado expresamente que no hay materia en si misma, y después de haber dotado, sí se puede decir así, a la materia de estas dos fuerzas, ha enseñado también que se debe tener su unidad exclusivamente en ellas.» (George W.F. Hegel, Lógica I, Ediciones Folio, Pág. 167; a letra negrita é posta por mim).

 

A matéria não existe em si mesma - eis uma tese kantiana que a imensa maioria dos intérpretes de Kant não assimilou.

 

 

PARA KANT, O ESPAÇO E OS OBJECTOS MATERIAIS NELE EXISTENTES SÃO IRREAIS, COMO UM FILME PROJECTADO NA TELA DA MINHA SENSIBILIDADE EXTERIOR AO MEU CORPO

 

 

 

Não é verdade, pois, que Kant não levante a questão da coisalidade das coisas que nos rodeiam:

 

 

 

 

 «..o próprio espaço não é outra coisa que simples representação, portanto nele apenas pode haver de real o que é representado...» ( Kant, “Crítica da Razão Pura”, pag.354, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra negrita é nossa)

 

«.. o próprio espaço, com todos os seus fenómenos como representações, só existe em mim; mas, nesse espaço, contudo, é dado o real ou a matéria de todos os objectos da intuição externa, verdadeira e independente de toda a ficção; e é também impossível que, nesse espaço, seja dada qualquer coisa de exterior a nós ( no sentido transcendental) porque o próprio espaço nada é fora da nossa sensibilidade. Por conseguinte, o idealista mais rigoroso não pode exigir que se prove que à nossa percepção corresponda o objecto exterior a nós (no sentido estrito)...” “ O real dos fenómenos externos é, portanto, apenas real na percepção e não pode sê-lo de nenhuma outra maneira” (CRP, página 54-355) .

 

“ O espaço não é mais do que a forma de todos os fenómenos dos sentidos externos, isto é, a condição subjectiva da sensibilidade, única que permite a intuição externa” (CRP, pág. 67).

 

“O espaço não representa qualquer propriedade das coisas em si, nem essas coisas nas suas relações recíprocas; quer dizer, não é nenhuma determinação das coisas inerente aos próprios objectos e que permaneça, mesmo abstraindo de todas as condições subjectivas da intuição” (CRP, pág. 67).

 

 

 

Isto significa apenas o seguinte: o espaço, isto é, o mundo da natureza terrestre, com seus continentes e oceanos, e o espaço cósmico sideral, com estrelas e galáxias, só existe em mim, possui uma coisalidade ideal e perceptiva, meramente mental. Por outras palavras, o meu “eu” (mental) engloba o mundo inteiro como uma imensa redoma de vidro e produz esse mesmo mundo, produz inclusive o meu minúsculo organismo físico, dentro de si, com as ferramentas das intuições puras da sensibilidade (o espaço- extensão e figuras geométricas -  e o tempo, que sou eu mesmo, a priori) e do entendimento ( os conceitos puros ou categorias).

 

Kant trata, pois, da coisalidade dos fenómenos, das coisas da natureza, ao contrário do que postulou Heidegger: para Kant, o espaço e a matéria nele existente (árvores, casas, animais, nuvens, etc) nada são fora de nós, isto é, são ideias ou percepções a flutuar dentro da nossa mente que se estende até aos confins do universo e é a realidade por si (além dos númenos: Deus, almas imortais, mundo não físico como totalidade, liberdade).

 

Heidegger não viu isto e interpretou Kant como se este fosse um realista ontológico que sustentasse haver um mundo de matéria real fora do nosso espírito, embora oculto na sua essência («númeno»). Esta é aliás a interpretação que mais de noventa e cinco por cento dos catedráticos de filosofia de todo o mundo dão da ontognoseologia de Kant: em termos simples, dizem, por exemplo, que há um copo de vidro que vejo e é fenómeno e um copo de vidro real, material, incognoscível, que é númeno; ora, contraponho eu, não há nenhum copo de vidro númeno, porque, de acordo com Kant, toda a matéria é fenómeno, palpável, visível, e ao mesmo tempo ilusória, não real em si mesma (idealismo transcendental).

 

 

O idealismo de Kant é, no fundamental, o mesmo que o idealismo de George Berkeley - um idealismo ou irrealismo da matéria -, ainda que nem Kant tenha querido reconhecer isso nem Heidegger se tenha apercebido disso.

 

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