Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014
A crítica falaciosa de Kant a Berkeley

 

Na Crítica da Razão Pura, Kant desembainha a espada da crítica contra George Berkeley, a quem classifica de idealista dogmático. Atentemos  entre outras passagens,  na seguinte,  em que diz ser absurdo considerar que o espaço e o tempo existam em si mesmos, como reais, se se considera que os objectos materiais são irreais:  

 

«Com efeito, se considerarmos o espaço e o tempo como propriedades que, segundo a sua possibilidade, deveriam encontrar-se nas coisas em si e se reflectirmos nos absurdos em que se cai, desde que se admitam duas coisas infinitas, que não são substâncias, nem algo realmente inerente às substâncias, mas que devem ser contudo algo de existente e mesmo a condição necessária da existência de todas as coisas, já que subsistiriam, mesmo que todas as coisas desaparecessem, não se poderia mais censurar o bom do Berkeley por ter reduzido os corpos a simples aparência.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pag 85-86; o negrito é posto por mim).

 

Kant tenta diferenciar fenómeno de aparência ou ilusão e atribuiu esta última categoria ao idealismo de Berkeley. É uma falácia. Já tratei este tema em outros artigos deste blog. Escreveu Kant:

 

«Seria culpa minha se convertesse em simples aparência o que deveria considerar como fenómeno. Eis o que não acontece segundo o nosso princípio de idealidade de todas as nossas intuições sensíveis; só quando se atribui realidade objectiva a essas formas de representação é que se não pode evitar que tudo se transforme em simples aparência.»(Kant, Crítica da Razão Pura´, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pag 85; o negrito é posto por mim ).

 

 

Mas o que é atribuir realidade objectiva à representação? Kant fá-lo? Há uma objectividade realista e uma objectividade idealista. E Kant não as distingue, sequer... Aliás Kant diz o mesmo que Berkeley sobre os objectos físicos, pois não considera reais em si mesmos corpos como mesas, casas, árvores, átomos, sol, galáxia:

 

«Devíamos contudo lembrar de que os corpos não são objectos em si, que nos estejam presentes, mas uma simples manifestação fenoménica, sabe-se lá de que objecto desconhecido...de que, portanto, não é o movimento da matéria que produz em nós representações, mas que ele próprio (e, portanto, também a matéria que se torna cognoscível) é mera representação...»(Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, nota da pag 363-364;o negrito é posto por mim). )

 

Eis a confissão de Kant: o fenómeno, o objecto ou a força material (o vento, o mar, a gaivota, a rocha, etc) é representação, é aparência de algo desconhecido. Se não são objectos em si, os corpos físicos são aparências. Não há meio termo: o fenómeno não é coisa em si, é ilusão tridimensional, é um conjunto de aparências. Kant tem exactamente a mesma posição de Berkeley, embora tente disfarçar o facto ao colocar «fenómeno» como meio termo entre coisa em si e aparência/representação. Mas de duas uma: o fenómeno ou é real ou não.

 

 O idealismo de Kant é, no essencial, o mesmo de Berkeley, com a diferença essencial de Berkeley afirmar Deus como real e Kant atribuir a Deus uma existência duvidosa (agnosticismo) classificando-o como númeno.  E as diferenças de Kant admitir a distinção ontológica entre qualidades primárias e secundárias e Berkeley não. E Kant construiu ainda as tábuas de categorias e de juízos puros, que são variações inessenciais do idealismo de Berkeley.

 

De duas uma: ou Kant era menos inteligente do que se pensa e interpretou mal Berkeley ou quis menorizar Berkeley, colhendo os louros de fundador do idealismo moderno,  e foi desonesto, deturpando a filosofia do bispo irlandês. Aposto nesta última hipótese.

 

Uma das provas da indigência intelectual dos filósofos consagrados dos séculos XX e XXI - como Heidegger, Russell, Sartre, Quine, Kripke, Goodman e tantos outros - e dos professores de filosofia em geral é não perceberem sequer esta identidade essencial: o idealismo de Kant é, ontologicamente, igual ao idealismo de Berkeley.  Que universidades são estas, incapazes de desmontar as falácias de Kant? Fechem-se as Faculdades de Filosofia! Não há nelas profundidade suficiente de pensamento. Só há títulos imerecidos, vaidades - exceptuando os títulos de alguns raros catedráticos de real valor, ultra minoritários no corpo docente.

 

 

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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012
Confusões de Eduardo Lourenço sobre Kant: é a apercepção transcendental distinta do Cogito cartesiano?

 

Eduardo Lourenço, filósofo universitário e prémio Pessoa em 2011, não compreendeu a ontologia de Kant em alguns pontos essenciais. Escreveu a propósito da síntese que é o conhecimento forjado no entendimento (Verstand), uma das divisões do espírito humano segundo Kant:

 

«Qual é então o fundamento da síntese? É o cogito, não no sentido cartesiano de algo subsistente e real, mas de consciência que acompanha todos os conceitos e representações, pura condição a priori do conhecimento. »

"O eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações; porque de outro modo haveria em mim qualquer  coisa de representado que não poderia ser pensado, o que equivaleria a dizer que ou a representação seria impossível ou pelo menos não seria nada para mim...Designo ainda a unidade desta representação sob o nome de  unidade transcendental da consciência de si" (Nota 79: Kant, Crítica da Razão Pura, pag.138)".  

 

«Detenhamo-nos na concepção kantiana da unidade da apercepção transcendental. Ela marca toda a distância que separa a filosofia crítica da metafísica de Fichte, Schelling, Reinold e Hegel. O seu tipo de existência é puramente lógico e não ontológico como o cogito cartesiano ou husserliano cuja realidade indubitável e concreta é apreendida numa intuição original. Ora, para Kant, a única espécie de intuição que existe é a intuição sensível e essa é uma representação que é dada anteriormente a todo o pensamento. O cogito, pelo contrário é um "acto de espontaneidade , quer dizer que não se poderá olhá-lo como pertencente à sensibilidade." (Crítica da Razão Pura, ibid, pag 138).

«Chama-se por isso apercepção pura distinguindo-a da apercepção empírica que caracteriza o acto de apreensão de um eu empírico, coleção de sensações e representações, contraditórias com a unidade que caracteriza o eu transcendental.» 

(Eduardo Lourenço, Heterodoxias I, página 115-116, Gradiva; o negrito é colocado ).

 

 

Isto revela uma grande confusão do laureado com o prémio Pessoa 2011 sobre a ontognosiologia de Kant.  O cogito de Descartes é uma estrutura a priori do espírito humano, ontológica, e a apercepção pura da consciência em Kant não é senão esse mesmo cogito, porque é anterior ao representado, é a priori. Mas Eduardo Lourenço não se apercebe dessa identidade. A lógica é inseparável da ontologia não pode haver uma estrutura lógica que não seja ontológica, a lógica é a radiografia óssea do corpo no qual se inserem os nexos lógicos, os «ossos». Dizer que a apercepção transcendental pura é lógica e não ontológica é não compreender que o entendimento e a razão - molas ou constituintes da apercepção pura - são ontológicos, sendo o entendimento a estrutura e função lógica e a razão a estrutura e função ilógica e supra-lógica.

 

Para diferenciar o cogito da apercepção pura Eduardo Lourenço usa, confusamente o argumento de que Kant nega haver outra intuição além da sensível, esquecendo que Descartes e Husserl deram ao termo intuição um sentido diferente, o de apreensão intelectual e instantânea da verdade.

 

Aliás como se chegaria à certeza de que o entendimento segundo Kant possui as categorias (formas lógicas) a não ser por apreensão intelectual que é a própria apercepção transcendental? Chamar a esta apreensão intuição é o que Husserl fez e Kant não, mas não é motivo para dizer que  cogito e apercepção transcendental sejam distintos...Não é a lógica que descobre a lógica, mas a estrutura ontológica, material ou espiritual, que descobre a lógica. As categorias do entendimento são estruturas ontológicas, e lógicas, de carácter imaterial inerentes ao eu humano.

 

Se Eduardo Lourenço argumentar que é o próprio Kant que postula ser a apercepção transcendental, etérea e formal, diferente de um cogito cartesiano substancial, contraporei o seguinte: a opinião de Kant em várias matérias é incoerente, não é de fiar, como no caso do seu falacioso ataque ao "idealismo dogmático" de Berkeley que é, na essência, o mesmo que o idealismo transcendental de Kant.

 

Mas isto nem Eduardo Lourenço nem os mais famosos catedráticos de filosofia, perdidos na hiper-análise fragmentária (exemplificando o que é hiper-análise: o não reconhecer que uma moeda de prata é, no essencial geral, o mesmo que uma moeda de cobre, ou que um gato preto e um grato branco são da mesma classe) não são capazes de ver.

 

Estou, pois, com Schopenhauer contra a falsidade das cátedras universitárias em filosofia e o sistema de favores mútuos de carreira entre a camada dos professores de filosofia de cátedra- ainda que eu não acompanhe as críticas de «charlatanismo»  com que ele mimoseou Hegel e Schelling.

 

  

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