Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
São Tomás de Aquino: três teorias sobre a génese das formas corpóreas

A génese das formas corporais segundo Tomás de Aquino é explicada de três modos diferentes: internalista, externalista e «misto».

 

«A respeito das formas corporais, alguns disseram que procedem totalmente de dentro, pensando assim os que punham formas latentes. Outros pelo contrário, disseram que procedem literalmente de fora, como aqueles que pensavam que as formas corporais procedem de alguma causa separada. Outros, por fim, disseram que procedem a partir de dentro, enquanto existem potencialmente na matéria, e em parte de fora, enquanto são reduzidas ao acto por um agente. »

 

(Santo Tomas de Aquino, Suma de Teologia II, Parte I-II, pag 475, Cuestion 63, Artículo 1, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 2006; o bold é nosso)

 

A primeira posição, internalista, refere-se a Anaxágoras segundo o qual as formas dos objectos visíveis, macroscópicos, são obtidas por composição de miniaturas invisíveis de formas algo similares, os princípios homeoméricos. Exemplo: Uma cenoura é composta de milhares de cenouras muito pequenas invisíveis e também de algumas miniaturas invisíveis de olhos se se parte do princípio que a cenoura fortalece a vista, melhora a visão. «Anaxágoras de Clazomene, filho de Hegesibulo, sustentou que os primeiros princípios das coisas eram as homeomarias. Pois parecia-lhe impossível que alguma coisa chegasse a ser a partir do que não é o que nisso se dissolvesse. Em todo o caso, alimentamo-nos do que é simples e homogéneo, como pão e água, e com isso se nutrem o cabelo, as veias, as artérias, a carne, os nervos, os ossos e as demais partes do corpo. Em consequência, há que reconhecer que, no alimento que tomamos, estão todas as coisas e que tudo deriva o seu crescimento das coisas que existem. Nesse alimento deve haver algumas partes produtoras de sangue, de nervos, de ossos, partes que só a razão pode contemplar.» (Aecio, I, 3,5 (DK 59 a 46), citado em Kirk y Raven, Los Filósofos presocráticos, Editorial Gredos, Madrid, pag 535; o bold é nosso).

 

A segunda posição, externalista, é a de Platão, segundo a qual as formas dos corpos materiais procedem do mundo imóvel e eterno dos arquétipos (formas incorruptíveis sem matéria) que são as causas separadas a que alude São Tomás. Por exemplo, as formas das cabeças e corpos humanos são cópias, projecções à distância sobre a matéria informe (hylé) da forma ideal de cabeça e do corpo humano existente no Mundo do Mesmo ou inteligível suprafísico.

 

A terceira posição, aparentemente mista, é a de Aristóteles e São Tomás: as formas corporais estão potencialmente, invisivelmente ou virtualmente, em parte dentro, isto é, na matéria prima ou hylé - como troncos na água do mar, sem moldar ou aprisionar esta - e, na outra parte, estão fora da matéria prima, ou seja, estão na matéria última, em acto, que é cada objecto físico, ou na mente de um agente (o homem, as formas espirituais autosubsistentes, Deus no caso de São Tomás). Não é absolutamente clara a frase de São Tomás: «Outros, por fim, disseram que procedem a partir de dentro, enquanto existem potencialmente na matéria, e em parte de fora, enquanto são reduzidas ao acto por um agente. » Aqui confunde-se causa formal - o desenho no interior da matéria-prima - e causa eficiente - a força motora que fabrica ou activa a forma. A forma está dentro da matéria-prima: o que vem de fora é o impulso modelador, tanto na doutrina de Anaxágoras (o Nous, ou Espírito universal que tudo move, une e desune) como na doutrina de Aristóteles (o Homem, que através da arte, fabrica casas, mesas, carros, etc).

 

Resta saber se haverá em rigor a terceira via, isto é, se a posição de Aristóteles de as formas eternas estarem imanentes à hylé é tão diferente como se supunha da teoria dos princípios homeoméricos de Anaxágoras a ponto de se estabelecer a seguinte tríade, algo equívoca: «se a teoria dos princípios homeoméricos (formas internas à matéria, invisíveis e miniaturais) é a tese, a teoria de Platão das formas imóveis e separadas exteriores à matéria é a antítese e a teoria aristotélico-tomista das formas imanotranscendentes à matéria é a síntese»... É que a forma em Aristóteles nunca se separa da matéria, excepto na mente humana: a forma de um vaso em acto, aqui presente, exigiu que uma forma se separasse, em certa medida, da matéria-prima ao transformar esta em barro e, numa segunda operação, a forma eterna vaso imprimiu-se sobre a matéria segunda que é o barro. A única diferença visível entre Anaxágoras e Aristóteles, neste campo da ontogénese, é que o primeiro abre a via do atomismo ao postular arquétipos miniaturais, invisíveis, no seio dos objectos físicos macroscópicos ao passo que o segundo situa esses arquétipos na hylé sem reduções atomísticas.

 

De facto, se recusarmos a tríade hegeliana, reduzimos a dois campos apenas as posições de Platão, Aristóteles e Anaxágoras: para Platão, as formas incorruptíveis subsistem num mundo áparte da matéria, para Anaxágoras e Aristóteles não.

Note-se que Aristóteles e São Tomás não coincidem sobre o papel de Deus ou forma suprema, acto puro: São Tomás entende Deus como causa final e como causa eficiente, isto é, fabricante do mundo, ao passo que Aristóteles, em cujo pensamento se filiam algumas correntes gnósticas, concebe Deus como causa final do mundo (é para Deus que estrelas e planetas olham ao colocarem-se em movimento nas esferas celestes, com o fim de o alcançar) e não como causa eficiente.

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 

 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:03
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