Sexta-feira, 7 de Fevereiro de 2020
Teste de filosofia 10º ano (Fevereiro de 2020)

 

Eis um teste de filosofia gizado por quem não perfilha as erróneas tabelas de verdade da lógica proposicional, esse refúgio dos que ainda não pensaram a fundo ontologia e metafísica.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA F

3 de Fevereiro de 2020, Professor: Francisco Queiroz


I

«O determinismo biofísico com livre-arbítrio (dito: determinismo moderado) distingue-se do determinismo sem livre-arbítrio (dito: determinismo radical) e do fatalismo. O dualismo estóico de Marco Aurélio inclui a epokê e pode comparar-se ao dualismo do ser humano  em Kant e da sua moral. As essências na teoria de Platão ocupam um lugar diferente das essências na teoria de Aristóteles. Os valores dispõem de hierarquia e polaridade.»

 

1)Explique concretamente este texto.

 

2)Explique concretamente o seguinte texto:

“O ser em Parménides equivale ao mundo do ser em Platão. O princípio do terceiro excluído não é a mesma coisa que o princípio da não contradição.”

 

3)Relacione, justificando:

A ) Cosmologia de Heráclito e racionalidade.

B) Esfera dos valores vitais e sentimentais e esfera dos valores espirituais em Max Scheler. 

C) Multiculturalismo versus Etnocentrismo em duas modalidades.

D) Esfera dos valores do santo e do profano e esfera dos valores sensíveis em Max Scheler.

 

1) O determinismo biofísico com livre arbítrio é a teoria que sustenta que na natureza física as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos mas o homem dispõe de livre-arbítrio, isto é, o poder de reflectir e escolher racionalmente um caminho. Exemplo: apetece-me comer (determinismo) mas raciocino e delibero  jejuar para emagrecer (livre-arbítrio). O determinismo biofísico sem  livre arbítrio é a teoria que sustenta que na natureza física as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos e o homem não dispõe de livre-arbítrio, age por instinto, sem reflexão e livre-arbítrio. Esta segunda teoria não exclui o acaso na natureza ou no comportamento humano e nisso se distingue do fatalismo, doutrina diz que tudo o que acontece está predestinado nos astros, na genética ou no pensamento de Deus ou no destino, não havendo livre-arbítrio nem acaso. (VALE TRÊS VALORES).

 

O dualismo estóico de Marco Aurélio divide o ser humano em duas partes: o eu racional, o guia interior, que é a nossa verdadeira essência e que corresponde ao eu numénico ou racional em Kant produtor do imperativo categórico («Age de modo que a tua ação seja como uma lei universal na natureza, sem favorecer especialmente a ti ou a teus amigos ou paridários»; o corpo físico que é algo exterior à essência e é capaz de suportar as maiores dores e tortura desde que controlado pelo eu racional e que em Kant corresponde ao eu empírico ou fenoménico, o eu dos instintos egoístas (comer, beber, favorecer os familiares e amigos em detrimento de outros, etc). A epokê é a suspensão do juízo preconizada por Marco Aurélio para manter a tranquilidade de espírito: «Calma! Dizem-te que o teu filho está doente mas não te dizem que vai morrer. Fica-te pois pelas primeiras impressões e nada lhe acrescentes». (VALE TRÊS VALORES).

 

As essências, na teoria de Platão - exemplo: o Belo, o Bem, o Homem, a Mulher, a Árvore, o triângulo - são modelos perfeitos, imóveis e eternos, arquétipos, invisíveis, situados acima do céu visível. Em Aristóteles, as essências são igualmente imóveis e incriadas mas existem no mundo de baixo: a essência Homem (eidos) está presente em cada um dos homens, a essência Árvore subjaz em todas as árvores, é a sua forma comum. (VALE DOIS VALORES).

 

Os valores, isto é, qualidades éticas, estéticas, filosóficas, económicas, políticas, biofísicas, etc., existentes por toda a parte possuem hierarquia, isto é, escala desde cima a baixo. Exemplo: saúde é mais importante que título universitário e este está acima de ausência de estudos e ser iletrado. Possuem também polaridade, isto é, para cada valor há um ou mais contra-valores: justiça em um pólo injustiça no outro, bondade em um pólo maldade no outro. (VALE UM VALOR)

 

2) O ser em Parménides é o que é, o que dura eternamente, não foi criado nem será extinto, é uno, indivisível, homogéneo, contínuo como uma esfera, invisível, imperceptível aos sentidos e só pode ser apreendido pelo pensamento (ser e pensar é um e o mesmo). Este conceito corresponde ao mundo inteligível de Platão tomado em bloco abstraindo das formas (arquétipos de Bem, Belo, Triângulo, Justo, etc.), excepto da de esfera (VALE DOIS VALORES). O princípio do terceiro excluído sustenta que cada coisa ou qualidade pertence ao grupo A ou ao grupo não A, excluindo a terceira hipótese. Isto é diferente do princípio da não contradição que diz que uma coisa não pode ser ela e o seu contrário ao mesmo tempo e no mesmo aspecto. (VALE UM VALOR).

 

3) A cosmologia de Heráclito estabelece que a substância origem do mundo, o arkê, é o fogo que constitui o caos que depois,orientado por um Logos (Inteligência Cósmica) se transforma em cosmos por processos de arrefecimento em diferentes graus produzido os astros, o planeta Terra, as árvores, os animais, os seres humanos. Este cosmos ao fim de milhares de anos voltará a ser fogo puro, isto é caos, este originará um novo cosmos. Há nisto racionalidade ou seja lógica: a oscilação pendular caos-cosmos, a omnipresença do fogo como essência oculta de homens, animais, mares, céus. (VALE DOIS VALORES)

 

3-B) A esfera dos valores vitais e sentimentais tem como principais valores o nobre e o vulgar. Engloba ainda os pares amor-ódio, sentimento de juventude e sentimento de velhice, alegria e tristeza, sentimento de vitória ou derrota, paixão e ciúme, orgulho versus humildade, desassobro versus vergonha, coragem versus cobardia, etc. A esfera dos valores espirituais engloba, segundo Scheler, os valores éticos (bem e mal) , estéticos, jurídicos (correcto, incorrecto, legal e ilegal) , filosóficos (verdade e erro) e os valores de referência, subordinados aos filosóficos,  que são os científicos (verdade e erro). Cada valor desdobra-se em três níveis. Exemplo para um valor filosófico: valor de coisa, o livro «Metafísica» de Aristóteles; valor de função, ler e meditar a «Metafísica»; valor de estado, sentir-se esclarecido e feliz por adquirir vastas noções filosóficas aristotélicas(VALE DOIS VALORES).

 

3-C) Multiculturalismo é a ideologia que defende que em cada Estado devem coexistir em plano de absoluta igualdade de direitos políticos e sociais as diferentes etnias, a original do território, e as imigrantes, podendo, por hipótese, um imigrante mexicano ser eleito presidente dos EUA e todas as comunidades - estadounidense de raça branca, portuguesa, mexicana, chinesa, indiana, etc. - receberem igual financiamento para celebrarem as suas festas tradicionais e terem aulas para os seus filhos. Etnocentrismo é a ideologia que defende que em cada país há uma etnia dominante, como por exemplo, o povo católico de etnia caucasiana em Portugal. Reveste duas modalidades: etnocentrismo democrático, que concede direitos às etnias imigrantes e a minorias culturais e sexuais; etnocentrismo nazi, racista ou religioso intolerante ou de outro tipo, que esmaga outras etnias, expulsa imigrantes em massa, prende e persegue homossexuais etc. (VALE DOIS VALORES).

 

3-D) A esfera dos valores do santo e do profano engloba os valores de salvação, próprios do crente em Deus, e de desespero ou indiferença religiosa próprios do ateu. Cada valor desdobra-se em três níveis. Exemplo: valor de coisa, um crucifixo; valor de função, beijar ou crucifixo ou contemplá-lo devotamente; valor de estado, sentir-se salvo e protegido por Deus. A esfera dos valores sensíveis é a inferior: contém os valores de prazer e dor física e os valores subordinados de referência . o útil e o inútil. (VALE DOIS VALORES).

 

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Terça-feira, 30 de Maio de 2017
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (26 de Maio de 2017)

 

Contrariamente à nossa posição habitual de não fazer perguntas de escolha múltipla nos testes de filosofia às quais se responde com uma simples cruz, construímos, por razões de disciplina comunitária, uma matriz comum solicitada pela Inspeção Geral de Ensino, e construímos um teste em que entra este tipo de perguntas. Este teste centra-se nos valores religiosos, opção escolhida pelos alunos desta turma em alternativa aos valores estéticos.

 

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

26 de Maio de 2017 Professor: Francisco Queiroz

 

GRUPO I (10 pontos x 5, 50 PONTOS)

Em cada questão, indique a única resposta correcta de entre 4 hipóteses.

 

1) A corrente que sustenta que todos os emigrantes da Ásia e África devem ser expulsos de um país europeu é a do:

A) Etnocentrismo relativista.

B) Multiculturalismo.

C) Etnocentrismo absolutista.

D) Relativismo.

 

2) Na psicanálise de Freud o id é:

A) O polícia da consciência. 

B) O super-ego.

C) O ego.  

D) Os instintos e desejos inconscientes.

 

3) A filosofia de Osho:

A) Defende a validade das diferentes religiões.

B) Acredita no valor benéfico dos sacerdotes.

C) Diz que o bem e o mal não existem.

D) Sustenta que o casamento torna as pessoas infelizes.

 

4) O panenteísmo sustenta que

A) Deus está só acima da natureza física.

B) Deus e deuses não existem.

C) Deus é unicamente a natureza material, biofísica.

D) Deus é unicamente a natureza material, biofísica mais um espírito universal acima desta.

 

5)Na religião egípcia:

A)Acredita-se na reencarnação de todos os seres.

B) O céu é masculino e a terra é feminina.

C) O céu é feminino e a terra é masculina.

D) Seth não matou Osíris, os deuses são todos amigos.

 

GRUPO II (2x50 pontos)

1)Explique concretamente o seguinte texto:

 

«O budismo admite a lei do karma, o nirvana e os dharmas na origem do eu e aponta três pecados capitais A teoria da História de Hegel consiste em três etapas e na última comporta três formas de estado».

 

2)Explique os três estádios da existência humana segundo Kierkegaard.

 

GRUPO III (50 pontos)

 

1) Explique concretamente o seguinte texto:

«Entre o materialismo e o espiritualismo há o ideomaterialismo. A ontologia tem três correntes principais: o realismo, o idealismo e a fenomenologia. De um modo geral, a ciência afasta-se da mística

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 200 PONTOS (20 VALORES)

 

GRUPO I (50 PONTOS)

 

1-C)......................................10 PONTOS

2-D).......................................10 PONTOS

3-D).......................................10 PONTOS

4-D)........................................10 PONTOS

5-C).........................................10 PONTOS

 

GRUPO II (100  PONTOS)

1) O budismo, religião que veio reformar o hinduísmo com o seu sistema de 4 castas de pessoas, é um espiritualismo ateísta na medida em que admite que não há deuses eternos mas espíritos eternos (o Atman, o espírito superior de cada indivíduo) que reencarnam em sucessivos corpos segundo a lei do karma que diz o seguinte, grosso modo: se fores bom e justo nesta vida reencarnarás mum sábio, numa pessoa saudável com muito boa sorte, se fores mau e injusto nesta vida reencarnarás num cego de nascença, num boi ou num escorpião. O nirvana é o estado de extinção do eu, das paixões egoístas e poderá abranger o mundo das formas puras, extraterrestre, e o mundo das não formas onde há divindades imersas em meditação desde há séculos. Os dharmas são qualidades psicofísicas, predicados sem sujeito, como por exemplo, memória, sensações visuais, auditivas, tácteis, inteligência, consciência, etc, que flutuam no cosmos e se juntam, por acaso, formando um «eu» de cada invidíduo que encarna no mundo terrestre. Os três pecados capitais do budismo são: ódio, avareza e vaidade (VALE TRINTA PONTOS). Para Hegel, a essência da história é Deus ou Ideia Absoluta que se desenvolve segundo um percurso circular    desdobrando-se em três fases, segundo a lei da tríade: fase lógica, Deus sozinho antes de criar o universo o espaço e o tempo (é a tese ou afirmação, o primeiro momento da tríade); fase da natureza ou do ser fora de si, na qual Deus se aliena ou separa de si mesmo ao transformar-se em espaço, tempo, astros, pedras, montanhas, rios, plantas e deixa de pensar (é a antítese ou negação, o segundo momento da tríade, panteísmo, Deus é a natureza ); fase da humanidade ou do espírito ou do ser para si, em que a ideia absoluta/Deus emerge com a aparição da espécie humana, que é Deus encarnado evoluindo em direção a si mesmo, por sucessivas formas de estado, desde o despótico mundo oriental (um só homem livre, o faraó ou o imperador oriental) passando pelo mundo greco-romano (alguns homens são livres, os escravos e os servos não) até ao mundo cristão da Reforma protestante onde todos os homens são livres porque Lutero, no século XVI, apelou à tradução da bíblia de latim para alemão, de modo a torná-la compreensível ao povo, e à revolta contra a corrupta igreja romana com seu papa e bispos (esta fase da humanidade é a síntese ou negação da negação, panenteísmo, Deus é espírito isolado e é tudo, natureza e humanidade) (VALE 40 PONTOS).

 

2)Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo. Kierkegaard acentuava a noção de angústia, essa liberdade bloqueada, essa intranquilidade que surge antes ou durante muitos actos decisivos (exemplo: a angústia do aluno antes de saber a nota do teste, a angústia da mãe antes do parto, etc). Kierkegaard situa o paradoxo no interior do estado religioso e diz que se deve amar e seguir a vontade de Deus apesar de não compreendermos esta. (VALE TRINTA PONTOS).

 

GRUPO III

1) Entre o materialismo, doutrina que diz que a matéria física é eterna, incriada e origem de todo o universo, sendo até o pensamento uma forma subtil de matéria, não havendo Deus nem deuses nem espíritos desencarnados, e o espiritualismo, doutrina que diz que o universo procede do Espírito (um ou vários deuses ou almas eternas) e que a matéria deriva do espírito, há o ideomaterialismo,também chamado dualismo, que diz que os princípios simultâneos do universo são dois, o Espírito e a Matéria (VALE 20 PONTOS). A ontologia ou teoria do ser e dos entes divide-se em: realismo (o mundo material existe para além das mentes humanas); idealismo (o mundo material é um conjunto de sensações, só existe dentro das mentes humanas); fenomenologia (não sabemos se o mundo material subsiste por si mesmo fora de nós). (VALE 20 PONTOS). A mística é um estado subjectivo de alma, um sentimento humano de que se está intimamente unido a Deus ou deuses, de que se «vê» a Virgem Maria, anjos, etc, e isso é rejeitado pela ciência que busca leis objectivas, factos comprováveis por toda a gente (VALE 10 PONTOS).

 

 

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Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014
Teste de filosofia do 10ºB, Fevereiro de 2014

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo. A temática da filosofia hermética e do simbolismo das catedrais/ geometria sagrada  justifica-se porque serve de base à visita de estudo a monumentos de Sevilha e enquadra-se nos pontos do programa do 10º ano de filosofia em Portugal «O que é a filosofia»,  «Valores Estéticos/ Artísticos» e «Valores Religiosos».

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
6 de Fevereiro de 2014.            Professor: Francisco Queiroz

 

"A filosofia hermética é holística e baseava-se no princípio das correspondências macrocosmos-microcosmos, de que a catedral medieval é um exemplo de aplicação prática. A essência, segundo Platão, não está no mesmo nível que a essência segundo Aristóteles. A lei do devir encaixa-se na lei do salto de qualidade.”

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

2) Construa um diálogo de valores ético-políticos ( mínimo: 12 linhas) entre um anarquista, um comunista leninista, um socialista democrático, um liberal, um fascista, de modo a que no diálogo explicite as definições dos conceitos de «nacionalização de empresas», «privatização de empresas», «autogestão», «cogestão»,  «estado de direito democrático», «ditadura do proletariado», «totalitarismo».

 

 

3) Relacione, justificando:

 

A) Imperativo categórico em Kant e princípio da ética de Stuart Mill.
B)  Contratualismo de Hobbes  e de John Locke.
C) Etnocentrismo absolutista, multiculturalismo, subjectivismo.   

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE DE FILOSOFIA (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A filosofia hermética, nascida na Antiguidade e atribuída ao mítico Hermes Trimegistus, é holística porque considera as coisas integradas numa totalidade (holo) cósmica em que tudo se relaciona. Baseia-se na fórmula «o que está em baixo é como o que está em cima, o microcosmo é um espelho do macrocosmo». Exemplo: a catedral medieval é um microcosmo, na medida em que a sua planta reproduz em pedra, o corpo cósmico de Cristo, gigantesco (macrocosmo) que atravessa o universo. A abside equivale à cabeça de Cristo, o transpeto aos braços,  o altar ao coração, as naves ao tronco e pernas. (VALE TRÊS VALORES). A essência, em Platão, é o arquétipo (de Belo, Bem, Homem, Árvore, etc) e encontra-se no mundo supraceleste, inteligível, mas em Aristóteles as essências, formas eternas,estão nos próprios objectos materiais («O Belo só está na rosa e nas coisas belas», «a essência rosa não está fora de cada rosa existente no real físico») e não há mundo inteligível separado. (VALE DOIS VALORES) A lei do devir defende que tudo está em mudança, a cada instante, e está incluída na lei do salto qualitativo porque esta diz que a acumulação lenta e gradual, em quantidade, (devir) de um aspecto num fenómeno leva a uma mudança qualitativa nesse fenómeno (VALE DOIS VALORES).

 

 

2) Anarquista: «Sou contra o capitalismo e todas as formas de Estado. Defendo a autogestão, isto é, as fábricas, hipermercados, empresas agrícolas, de transportes, pescas, deixam de ter patrões e passam a ser geridas por assembleias de trabalhadores (operários, economistas, engenheiros), nivelando-se os salários.»

Comunista: «Sou contra o capitalismo mas, ao contrário dos anarquistas, defendo a nacionalização, isto é, a passagem para as mãos do Estado das grandes e médias empresas ou mesmo de todas. Defendo a ditadura do proletariado: desaparecem as eleições livres porque os partidos da direita ou centro-esquerda as ganham graças ao financiamento dos ricos, só o partido marxista concorre e domina o Estado.»

Socialista democrático: «Não sou contra o capitalismo, porque permitre criar riqueza em grande quantidade, sou contra o capitalismo selvagem que não protege os operários. Defendo a cogestão, isto é, a empresa é propriedade dos patrões mas o conselho de administração inclui um representante dos trabalhadores ou do sindicato. Defendo as eleições livres, base do estado de direito democrático.»

Liberal: «Sou a favor do capitalismo, da privatização das empresas, isto é, de estas passarem a pertencer a patrões (privados), sou apoiante da livre concorrência entre as empresas, da liberdade de o patrão despedir operários. Sou contra o comunismo que é um totalitarismo de esquerda, isto é, um estado de partido único com censura à imprensa,  e contra o fascismo que é um totalitarismo de direita. Defendo o Estado de direito democrático ou democracia pluralista.»

Fascista: «Sou a favor do capitalismo nacional sob uma ditadura de extrema-direita tradicional na qual o povo inteiro obedece ao chefe de Estado e ao partido único, não há liberdade de greve e manifestação de rua, os imigrantes são expulsos do país, a censura é estabelecida na televisão, na imprensa e no ensino, gays e lésbicas são perseguidos e neutralizados. Sou contra o Estado de direito democrático, criação da maçonaria liberal e socialista.» (VALE SEIS VALORES).

 

Nota: Este diálogo pode ser estruturado de outras maneiras.

 

3) A) O imperativo categórico é a verdadeira lei moral em Kant: age como se quisesses que a tua acção fosse uma lei universal da natureza. Por outras palavras: ou comem (ou pagam) todos por igual ou não há moralidade. O princípio da maior felicidade, base da ética de Start Mill, defende que se deve preferir a felicidade da maioria dos envolvidos numa situação à felicidade da minoria  e que os prazeres superiores (filosofia, literatura, ciência, amizade, solidariedade, etc) são preferíveis aos prazeres inferiores (comer, beber, possuir oiro ou dinheiro, etc). Kant e Mill opõem-se, em certa medida. Se um barco com 150 passageiros naufraga e só se podem salvar 30 vidas em salva-vidas, o imperativo de Kant é, aparentemente, impraticável mas não o utilitarismo de Stuart Mill:  salvam-se as mulheres e as crianças (estas são potencialmente, as portadoras de maior felicidade porque têm um largo futuro diante de si) e ficam para morrer os homens e o capitão (VALE DOIS VALORES).

 

3)B) O contratualismo é a filosofia que justifica o Estado como resultado de um contrato social. No caso do filósofo inglês Hobbes, este defendeu um contratualismo base da monarquia absoluta ou ditadura do rei: os cidadãos entregam os seus direitos e liberdades nas mãos de um monarca absoluto que lhes garante a propriedade privada dos seus bens e o direito à vida reprimindo as revoluções, o banditismo, o roubo, etc. No caso do filósofo inglês do século XVIII John Locke, este sustentou que o Estado brota de um contrato social entre os proprietários livres para superar o "estado de natureza" (país sem lei) e reveste a forma de Estado liberal, baseado na livre eleição de um parlamento multipartidário de onde sai o governo e baseado na liberdade de imprensa e na separação tripartida de poderes. (VALE DOIS VALORES).

 

3) C) O etnocentismo absolutista é a corrente e a atitude que sustenta que uma dada etnia, nação ou raça é, genetica e culturalmente, superior a outros povos e raças e por isso tem o direito de humilhar, escravizar ou eliminar estas. Exemplo: os colonizadores portugueses e espanhóis nos séculos XV e XVII , escravizando os negros de África ou os índios da América do Sul e Central, impondo-lhes a religião católica, o vestuário europeu, etc. O multiculturalismo é a corrente e a atitude que sustenta que todas as etnias, raças ou povos são iguais, devem conviver na mesma sociedade sem que nenhuma se superiorize a outra. Exemplo: a democracia portuguesa não deve ser de influência cristã nem dar a hegemonia à raça branca mas acolher o laicismo e todas as pessoas imigrantes (brasileiros, cabo-verdianos, ingleses, indianos, etc) dando direitos iguais a todos. É subjectivo ser etnocentrista absolutista ou multiculturalista, isto é, o acto de optar varia de pessoa a pessoa. Subjectivismo é a corrente que sustenta que a verdade, os valores, são íntimos a cada um, variam de pessoa a pessoa. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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