Terça-feira, 18 de Outubro de 2016
Teste de Filosofia do 10º ano, turma C (Outubro de 2016)

Eis um teste de filosofia do 1º período que se insere nas linhas abertas do programa de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C

 

18 de Outubro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Heráclito era panteísta mas Platão defendia um teísmo. A filosofia comporta metafísica, ética, estética e epistemologia. A racionalidade dos filósofos reduz a uma unidade ou a uma dualidade a multiplicidade das aparências empíricas.”

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2) Relacione, justificando:

A) Yang, Yin e Tao no taoísmo.

B) Epithymia em Platão e corpo como cárcere da alma.

C) Demiurgo, Arquétipo e teoria da participação, em Platão.

D) Subjectivismo e ideologia.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

1) Heráclito era panteísta, isto é, defendia que os deuses não existem acima e fora da natureza biofísica mas fundem-se com esta,estão dentro desta. Declarou: «Deus é a abundância e a fome, o dia e a a noite, o Inverno e o Verão; embora assuma múltiplas formas, à semelhança do fogo que, aspergido por aromas, toma o nome dos perfumes que exala». Platão era teísta, isto é, sustentava que Deus ou arquétipo do Bem estava fora da natureza física, num mundo inteligível, acima do céu visível e que um deus inferior, o demiurgo, desceu à matéria moldando nesta cópias das formas dos arquétipos de Árvore, Cavalo, Montanha, Homem, etc, criando assim o Mundo Sensível (Kósmos Asthetos) (VALE TRÊS VALORES). A filosofia ou arte de pensar racionalmente e especulativamente a vida, o mundo, o homem e as divindades comporta metafísica, isto é, especulação sobre o suprafísico e o infrafísico, o mundo incognoscível do «além» ou da psique humana, ética, isto é, doutrina do bem e do mal, do justo e do injusto na ação humana, estética, isto é, doutrina do belo e do feio, epistemologia, isto é, interrogação e reflexão sobre as ciências (ex: será que as vacinas previnem as doenças ou infectam o corpo?) (VALE TRÊS VALORES). A racionalidade, isto é, o pensamento lógico dos filósofos reduz a uma unidade, a uma só essência, as muitas aparências das coisas, os milhões de objectos físicos - é o caso da filosofia de Tales que diz que a água, uma única essência, é o constituinte de tudo, árvores, pedras, terra, animais, etc - ou a uma dualidade,isto é, a dois princípios opostos - é o caso da ontologia de Platão em que a dualidade engloba os arquétipos do Mundo Inteligível e a matéria caótica do Sensível (VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) O Tao é a mãe do universo, algo de obscuro e silencioso que circula por toda a parte e é o modelo do céu e divide-se em duas ondas formando uma sinusoidal: o Yang (alto, calor, dilatação, verão, som, sol, vermelho, movimento, exterior) e o Yin (baixo, frio, contração, inverno, silêncio, lua, azul, imobilidade, interior). A sucessão dos dias e das noites, do trabalho e do repouso das sementeiras e colheitas, representa o ritmo yang-yin, faz parte do Tao do universo. (VALE TRÊS VALORES)

 

2)B) Epithymia ou concupiscência é, segundo Platão, a parte inferior da alma que contém os prazeres da carne (comer, beber, possuir propriedades agrícolas, ouro e prata) e acaba por prender o Nous ou parte superior da alma que aspira a subir ao Inteligível. Assim o corpo, a epithymia, com o peso das suas paixões materiais aprisiona a alma espiritual (VALE TRÊS VALORES).

 

2)C) Arquétipo é um modelo de perfeição - há os arquétipos de Bem, Belo, Justo, Número Um, Número Dois, Triângulo, Cubo, Cone, Esfera, Homem, Mulher, Árvore, etc- imóvel, espiritual e eterno, num mundo acima do céu, que serve de modelo ao deus operário ou demiurgo na construção do mundo Sensível inferior. Este desce à matéria caótica e molda nela formas semelhantes às de cada arquétipo. Assim os cavalos físicos, as montanhas físicas participam ou imitam os arquétipos de cavalos e montanhas. (VALE TRÊS VALORES).

 

2)D)  Subjectivismo é a teoria que afirma que a verdade varia de pessoa a pessoa, é íntima, subjectiva. Ideologia é uma doutrina, um conjunto de ideias e valores, característicos de uma dada classe ou grupo social - exemplos: o liberalismo, o fascismo, o comunismo, o judaísmo, o islamismo -  que, podendo ser objectivos, isto é, professados por milhões de pessoas, implicam escolhas subjectivas (VALE DOIS VALORES).

 

 

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Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015
Feyerabend e a fraqueza das ciências contemporâneas universitárias

Paul Feyerabend (Viena, 13 de Janeiro de 1924- Genolier, 11 de Fevereiro de 1994)  talvez o maior filósofo do século XX, desmistificou as ciências contemporâneas, mostrando que elas brotam de um fanatismo «religioso» sectário. São, na sua raíz, ideologia, visão partidária própria de certas classes ou camadas sociais. Nada é absolutamente indiscutível nas ciências académicas: os diagnósticos médicos, os tratamentos hospitalares, os fármacos e as vacinas são métodos questionáveis e não podem ser apresentados como «a verdadeira ciência»; a astrologia não pode ser marginalizada ou reduzida a deturpações como «horóscopos generalistas de jornais», se os sábios antigos ou renascentistas, como Galileu e Kepler, a utilizavam na previsão de ciclos políticos, pessoais, etc. 

 

A ASTROLOGIA, CONDENADA SEM PROVAS, POR UMA «CIÊNCIA» QUE É A NOVA RELIGIÃO

 

Escreveu Feyerabend:

«A ciência é a nossa religião. O que sucede no seu interior é a Boa Nova. O que sucede extramuros de ela são idiotices pagãs. Não obstante, dito isto, devo pedir desculpa aos teólogos pela comparação porque, enquanto eles realizaram cuidadosos estudos sobre todo o tipo de heresias e crenças pagãs, os cientistas só possuem uma noção um tanto vaga das disciplinas que ridicularizam. A condenação da astrologia por cento e oitenta e seis cientistas - uma verdadeira encíclica científica - é um exemplo disso. Por complexa que seja a crítica, limita-se sempre à afirmação de que uma opinião ou um argumento não são correctos porque não são científicos, do mesmo modo que as teologias antigas se limitavam a afirmar que uma religião não era boa porque não era cristã e não era a religião da Santa Igreja Romana. E as palavras utilizadas na condenação - porque não posso qualificar como raciocínio o procedimento seguido - são quase as mesmas. Os padres da Igreja denominavam as teses pagãs de «superstições irracionais», precisamente a mesma expressão utilizada pelos Pais da Ciência para condenar o que não gostam nela. Assim, como não há nada que dispute a sua supremacia, hoje em dia a ciência parece, naturalmente, um assunto muito mais sublime que os demais e os acontecimentos científicos parecem os acontecimentos mais importantes, depois dos assuntos políticos e as bodas das estrelas de rock...« (Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 69-70; o destaque a negrito é posto por mim).

 

OS FILÓSOFOS SÃO MEROS AGENTES DE UMA OU MAIS CLASSES SOCIAIS

 

Acerca do triunfo dos filósofos sobre os poetas na Grécia antiga, Feyerabend escreveu:

«Ora bem, o problema é o seguinte: porque tiveram os filósofos tanto êxito? Que foi o que assegurou o seu predomínio, de modo que, posteriormente, a poesia pareceu simples emotividade ou simbolismo desprovido de todo o conteúdo? Não pode ter sido a força argumentativa, pois a poesia, adequadamente interpretada, já implicava por si uma argumentação. Podem realizar-se observações similares àcerca da origem da ciência no século XVII. Neste caso, a força motriz foi o nascimento de novas classes que se tinham visto excluídas do campo do conhecimento e que converteram a dita exclusão em proveito próprio, afirmando que o conhecimento era o que elas possuíam, e não o dos seus adversários. Uma vez mais esta ideia foi aceite por todos, nas artes, na ciência, na religião, até ao ponto de que hoje temos uma religião sem ontologia, uma arte sem conteúdos, e uma ciência sem sentido».

(Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 86-87; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Que significa dizer que hoje temos uma religião sem ontologia?  Significa que temos um conjunto de ritos cujo simbolismo profundo já perdemos, em cuja filosofia já não penetramos. Por exemplo, ignoramos que o facto de a pia de baptismo de antigas ser . Constroem-se hoje igrejas com uma arquitectura moderna ignorando o número de oiro (1,618), número mágico de proporção entre o comprimento e a largura e a altura de um compartimento. Que significa dizer que hoje impera uma arte sem conteúdos? Significa, por exemplo, que uma tela branca salpicada de pontos vermelhos é um quadro sem conteúdo, um significante sem significado. Que significa dizer que há uma ciência sem sentido? Significa, por exemplo, que há uma medicina que não percebe o sentido da febre - acção de autodefesa do organismo, expulsando as toxinas através do suor ou de urinas escuras - e manda reprimir os sintomas, tomando anti piréticos.

 

E os filósofos de hoje são, na esmagadora maioria, os arautos da civilização tecnológica avançada e biologicamente atrasada em muitos campos que a burguesia promove - as vacinas infectam milhões de pessoas e os filósofos do establishment não as denunciam como erro médico, o omnivorismo é vendido como a natureza biodigestiva do homem quando este é um grande frugívoro como o chimpanzé ou o gorila, etc.

 

 

CONTRA A MEDICINA QUÍMICA QUE REDUZ O PACIENTE A ÁTOMOS E NÚMEROS DE ´GLÓBULOS VERMELHOS E BRANCOS, CONTRA A CONCEPÇÃO FRAGMENTÁRIA DA DOENÇA LOCAL

 

A medicina dos diagnósticos feitos por aparelhos complexos, incluindo computadores, praticada por médicos que não ouvem os pacientes, e os tratam apenas como aglomerados de átomos vivos, ignorando a psicossomática - como as tristezas psíquicas geram doenças físicas - é uma ciência fragmentária, errada. Há pessoas que as análises clínicas revelam estar nos «valores normais» que estão doentes, a ponto de morrerem de ataque de coração ou AVC, e outros com excesso de colesterol ou ácido úrico que estão mais saudáveis que as primeiras.

 

«Já te disse que os conceitos de saúde e doença variam dependendo das culturas e dos indivíduos. Curar significa restituir o estado desejado pelo paciente e não restabelecer uma condição abstracta que parece desjável a partir de um ponto de vista teórico. O tipo de doutor em que estou pensando mantém uma estreita relação pessoal com o paciente, não só porque é médico e o médico devia ser um amigo mais que um engenheiro do corpo, mas também porque necessita do contacto pessoal para aprender o seu ofício: a aprendizagem e as relações pessoais progridem a um ritmo semelhante. Sem embargo, o médico de formação científica observa o paciente através da lente de uma teoria abstracta; conforme a teoria que se adopte, o paciente converte-se num sistema de condutos, em um agregado molecular ou em um recipiente de humores».

(Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 110-111; o destaque a negrito é colocado por mim).

Feyerabend coloca em causa a teoria da doença localizada ou local que dá origem a tantas especialidades médicas quantos os orgãos do corpo: médico de rins, médico do fígado, médico gastro-intestinal, médico do coração, etc. Na verdade, a doença é geral, segundo os neo-hipocráticos e manifesta-se localmente. Exemplifiquemos: ingerir sal em excesso faz com que este circule no sangue que banha todos os orgãos do corpo e se deposite aqui ou ali causando sintomas e doenças locais diversas, dores nos rins, dores de cabeça, dores nas articulações, etc. A doença é uma só doença geral do organismo mas assume várias máscaras locais. Como diria o falecido biologista Pierre Marchesseau, os vírus não são a causa das doenças mas sim a consequência destas e afinal as doenças  consistem no terreno orgânico sujo por colas (açúcares, gorduras) e cristais (sais úricos e sulfúricos vindos das carnes, peixes, etc). Escreveu Feyerabend:

 

«Estreitamente ligada com essa fé, encontra-se a ideia de que toda a doença tem uma causa próxima, que é altamente teórica e se deve descobrir. Como se supõe que o diagnóstico revela a causa próxima, eis que se fazem radiografias, explorações cirúrgicas, biópsias e outras estupidezes do mesmo estilo. » (....)

«Mas quem nos diz que a causa da doença estriba num fenómeno localizável? Pode acontecer que a doença seja uma modificação estrutural do processo vital, que não tenha uma causa localizável, e a melhor forma de diagnosticá-la poderia consistir em prestar atenção às mudanças gerais do corpo, como por exemplo, o pulso, o tónus muscular...»

(Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 41; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

OS HOMENS DA IDADE DA PEDRA ERAM MAIS INTELIGENTES QUE OS HOMENS DA CIVILIZAÇÃO TECNOLÓGICA DO SÉCULO XXI

 

Feyerabend insistiu em que a visão especializada, fragmentária, das actuais ciências dos séculos XIX a XXI perdeu a percepção holística, global dos fenómenos:

 

«Segundo o mito hopi da criação, a crescente abstração do pensamento humano e o crescente interesse do homem por si mesmo provocou um afastamento deste da natureza e, por consequência, os velhos ritos, que se baseavam na harmonia deixaram de funcionar. Não devemos estranhar em absoluto que os nossos antepassados estivessem em condições de descobrir ideias e procedimentos que são potenciais rivais das nossas teorias científicas mais avançadas. Por que teriam de ser menos inteligentes do que ´nós? O homem da idade da pedra já era um homo sapiens plenamente desenvolvido, tinha diante de si problemas e resolveu-os com grande engenho. Mede-se a ciência pelas suas conquistas, assim não esqueçamos que os inventores dos mitos descobriram o fogo e os meios para o conservar. Domesticaram os animais, criaram novas classes de plantas e identificaram as espécies melhor do que o poderia fazer a actual agricultural científica. Inventaram a rotação das culturas agrícolas e desenvolveram uma arte  que pode competir com as melhores criações do homem ocidental. Livres do jugo da especialização, estavam conscientes da grande quantidade de relações entre os homens e entre estes e a natureza, e serviam-se delas para fazer progredir a ciência e a sociedade: a melhor filosofia ecológica encontra-se na idade da pedra. Se se aprecia a ciência pelos seus resultados, dever-se-ia apreciar os mitos cem vezes mais, e com maior entusiasmo, já que as suas conquistas foram incomparavelmente maiores: os inventores dos mitos deram início à cultura, enquanto que os cientistas só a modificaram, e nem sempre para melhor. Já mencionei um exemplo: o mito, a tragédia e a velha épica tratavam, de forma simultânea, de emoções e estruturas reais e exerceram um profundo e benéfico influxo sobre as sociedades que os criaram.  Separaram-se o pensamento e a emoção, inclusive o pensamento e a natureza, e mantiveram-se afastados por decreto («elaboremos a astronomía sem ter em conta os céus», diz Platão »(Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 103-105; o destaque a negrito é posto por mim ).

 

A DANÇA DA CHUVA FUNCIONA

 

Feyerabend afirma, contra o racionalismo estreito de agnósticos e ateus, que cerimónias mágicas como a dança da chuva podem funcionar:

«Onde está a teoria incompatível com a ideia de que a dança da chuva traz a chuva? Como é lógico este modo de pensar baseia-se em algumas convicções fundamentais, mas, segundo eu entendo, as ditas convicções não encontram a sua expressão em teorias concretas, que pudessem ser utilizados para excluir os mitos. Tudo o que temos é uma vaga ainda que intensíssuma sensação de que no mundo da ciência a dança da chuva não pode funcionar. Não há um conjunto de observações que contradiga esta ideia». (Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 88-89; o destaque a negrito é posto por mim ).

 

OS FILÓSOFOS DA CIÊNCIA NÃO SABEM O QUE É CIÊNCIA

 

A informação que nos dão diariamente as televisões e as aulas nas diferentes escolas sobre o que é ciência e o que não é ciência é falaciosa, está contaminada pela ideologia dos filósofos de «mente quadrada» como Karl Popper, John W.Watkins ou Imre Lakatos. Popper, por exemplo, classificou a astrologia de pseudociência e a medicina de ciência que a conjectural - mas que sabia ele de astrologia para a eliminar, sumariamente, do campo das ciências? Nada. Popper ignorava, por exemplo, que a 1ª Guerra Mundial começou em 1 de Agosto de 1914, com Neptuno em 28º de Caranguejo (grau 118 de longitude eclíptica), e que a guerra do Golfo começou em 17 de Janeiro de 1991, com o Nodo Sul da Lua em 28º de Caranguejo. Não ligava factos terrestres similares e factos astronómicos similares. Feyerabend escreveu:

 

«A ciência não é mais que um "depósito" de conhecimentos, mas o mesmo se pode dizer dos mitos, fábulas, tragédias, relatos épicos, e muitas outras criações das tradições não científicas. (...) «És um optimista se crês que os filósofos da ciência têm alguma ideia da complexidade da ciência. (...) Eu diria, pelo contrário, se se trata de explicar ciência a gente de uma inteligência média, os divulgadores como Assimov fazem, no máximo, um trabalho melhor. Quem ler o Assimov sabe mais ou menos o que é ciência mas quem ler Popper, Watkins ou Lakatos aprenderá um tipo de lógica mais precisamente simplista, mas não o que é ciência. Ademais, ainda que a filosofia da ciência fosse melhor do que efectivamente é, continuaria a ver-se afectada pelo problema comum a todas as ciências, já que aceita pressupostos não facilmente comprováveis, que caem fora da esfera de competência dos seus seguidores.Portanto, complementar a ciência com a filosofia da ciêncianão elimina os problemas de que estamos falando, se acaso acrescenta problemas adicionais do mesmo tipo. A pesar de se poder ter opinião contrária, a confusão aumenta, não diminui, devido à ignorância e à mentalidade simplista dos filósofos» (Paul K. Feyerabend, «Dialogo sobre el metodo», Ediciones Cátedra, 1989, Madrid, pág 103-105; o destaque a negrito é posto por mim ).

 

Note-se a desproporção : em todos os manuais escolares de filosofia para o ensino secundário em Portugal dá-se um grande destaque às ideias de Karl Popper, ao passo que as ideias de Paul Feyerabend são omitidas ou truncadas, não havendo em regra nenhum texto deste último filósofo em cada manual. Longe de ser um terreno livre, a filosofia que se ensina aos adolescentes está condicionada, balizada, por escolas de sectários denominados «filósofos analíticos», «positivistas lógicos» e «fenomenólogos» que agem por meio de manuais escolares, da prova de exame nacional para formatar as mentes dos alunos. Os manuais e os programas estão, ao memos em abstracto, ao serviço da ideologia da burguesia democrática mundialista e dos seus agentes nas faculdades de filosofia e cabe a cada professor consciente desmontar este embrutecimento da capacidade de pensar.

 

 

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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
Intersubjectividade e retórica ou o comunismo filosófico de Manuel Maria Carrilho

O catedrático de filosofia Manuel Maria Carrilho, partidário do pragmatismo e da ontologia linguística - o mundo é um dizer - exprimiu uma panóplia de equívocos no seu livro «O que é a filosofia» publicado há 16 anos. Sobre a natureza da linguagem, afirmou, ao analisar as tendências contemporâneas da filosofia :

 

«Na perspectiva que considera a crença um hábito de acção, o que a linguagem faz não é relacionar a palavra e o mundo mas, antes, articular o seu uso com um determinado hábito. Trata-se de uma relação interna, que dispensa as pretensões representativas da linguagem e sublinha o seu carácter holista: o uso da linguagem consiste na articulação de pedaços da linguagem com outros pedaços de linguagem, e não existe nada fora da linguagem que possa ser dito a não ser, ainda, pela linguagem; a linguagem não comporta um exterior dizível, ela é, em suma, ubíqua.» ((Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.108; a letra negrita é posta por mim).

 

Ora há aqui um erro essencial de Carrilho: a linguagem não é o ser, não é linguagem isolada, é seta apontando ao alvo-mundo, seja este mundo virtual, fantasista, seja o mundo real da natureza biocósmica e não é totalmente ubíqua como quer Carrilho. Ser ubíqua não significa ser englobante de tudo ou constituição absoluta de tudo. Por exemplo, a palavra nuvem comporta um exterior dizível que lhe corresponde: o objecto esbranquiçado ou escuro, em forma de flocos, feito de vapor de água, que paira no céu visível. Nunca a linguagem perde a função representativa, ainda que haja um esqueleto lógico, não representativo do mundo, em cada proposição. Como diz Heidegger, «a linguagem é advento velador-iluminador do ser.» Há mais mundo além da linguagem. Não há linguagem sem referente, isto é, sem objecto, imaginário ou real: a linguagem articula sempre uma palavra e um mundo e, se articula palavras e frases entre si, é sempre tendo como pano de fundo a estruturação de um mundo ou a articulação de mundos.

 

Mesmo a frase poética: «Um galo amarelo riscou o vidro da madrugada e a ampulheta do céu girou» não é uma simples articulação de palavras mas uma reconstrução do mundo na imaginação. Ampulheta, céu, galo amarelo, vidro, madrugada são objectos reais, referentes, que foram retirados pela mente do seu contexto real e lançados na construção de um mundo onírico. Ao construir a frase poética, construímos um mundo onírico extra linguístico.

 

A linguagem não existe no vazio nem constitui o mundo, ainda que seja um mundo: é apenas um mundo fenoménico, vocal, gráfico e gestual, a recobrir um outro mundo, interior ou exterior. Detrás da linguagem há algo, -  realidade ou imaginação - que ela reproduz correctamente ou falsifica. A palavra «Deus» que Nietzschze referiu como tendo sido causa da criação de um ente ilusório, de um erro filosófico, refere-se de facto a um ente: a questão é saber se é um ente de imaginação -  ente de razão, na terminologia da escolástica - ou um ente real, objectivo, embora espiritual e invisível. Antes da palavra «Deus», estava a respectiva ideia, ainda inominada. A linguagem brota da intuição dos objectos exteriores ou interiores, é derivada do ser ou estrutura geral do universo e do homem. A linguagem é como o amor: em primeiro lugar, a sua matéria-prima vem de fora para dentro, entra na consciência em forma de imagem e aí recebe a sonoridade, o signo gráfico, tornando-se linguagem de facto, e depois vai de dentro para fora, nomeando os entes.

 

No princípio está o ser, o silêncio absoluto, não a palavra. Carrilho equivoca-se. A sua idolatria da palavra - como se esta pudesse nascer sem referência exterior-  em detrimento da realidade primordial, extra linguística, fá-lo deslizar ao nível da superficialidade de um Rorty, de um Putnam e outros, ou mesmo a um nível inferior a eles visto que é um simples epígono. A filosofia analítica nesta versão extrema da linguagem como o ser, como totalidade que nada deixa de fora, é uma metafísica comparável ao idealismo ontológico. É o linguismo ontológico ou ontologia linguística: o ser das coisas está dentro das palavras que as nomeiam e as coisas só existem enquanto capturadas na rede da linguagem. A realidade não é assim: embora nascida e vertida na intersubjectividade, a linguagem – ou seja a imagem autónoma das coisas, vocal-gráfico-pensante – possui um referente último nas próprias coisas, isto é, fora dela.

 

A tese de que «a  linguagem é ubíqua, não comporta um mundo exterior dizível» parece ter sido bebida por Carrilho em Dummet mas é rejeitada pelo próprio Rorty que permanece num cepticismo «pragmático»:

 

«Consideraremos errada a noção de Dummet de filosofia da linguagem   como "filosofia primeira", não porque alguma outra área seja "primeira", mas porque a noção de filosofia com fundamentos é tão errada como a de conhecimento com fundamentos.» (Richard Rorty, Philosophy in the Mirror of Nature, VI, I). 

 

Justamente porque considera as palavras como signos convencionais, Carrilho entende poder manipulá-las a seu bel prazer. Ora as palavras são e não são signos convencionais: num primeiro momento, são, no que respeita à carapaça, que pode ser de qualquer côr; posteriormente, não são, porque se integram como peça insubstituível na máquina das correlações entre o pensamento humano e o mundo objectual exterior ou interior.

Nietzshze dissociou, em certa medida, o pensamento da palavra, no pressuposto de que há um mundo metalinguístico:

«244- Pensamento e palavra. - Nem sequer os nossos pensamentos podemos traduzir inteiramente por meio de palavras. » (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 173).

 

OS VALORES NÃO SÃO PERSPECTIVOS POR A LINGUAGEM «SER RETÓRICA», MAS AO INVÉS

 

Ao falar de uma retórica filosoficamente concebida, Carrilho escreve:

 

«Foi ela que, como Paul de Man apontou, viabilizou e orientou a sua crítica da metafísica tradicional, dado que, para ele, a retórica não é um uso, de intuitos manipulatórios ou ornamentais, da linguagem, é a "natureza" da própria linguagem, seja qual for o uso - corrente, estético, científico, etc - que se considere. O perspectivismo é solidário desta concepção da linguagem: todo o conhecimento, todos os valores, são perspectivos, porque toda a linguagem é retórica.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág. 93).

 

Carrilho coloca o carácter retórico da linguagem como origem do perspectivismo dos valores e do conhecimento, mas o que sucede é o inverso: a linguagem deriva da estrutura ontológica dos mundos físico e espiritual dos valores, se ela é «perspectiva, retórica» é justamente porque os valores e a realidade são «perspectivos», como que cristais de múltiplas faces que nunca podem ser vistos na totalidade em simultâneo mas sim vistos desde uma perspectiva, um ângulo limitado.

 

A INTERSUBJECTIVIDADE SUPERA A FILOSOFIA DA «CONSCIÊNCIA ISOLADA», OU É COMUNISMO FILOSÓFICO?

 

 

Carrilho escreveu sobre o conceito de racionalidade argumentativa intersubjectiva em Habermas: 

 

«O que Habermas defende de modo que tem marcado fortemente a filosofia, sobretudo desde o começo da década de 80, é uma perspectiva que se desvie do trajecto percorrido pela filosofia da consciência nas suas obsessões pela figura do sujeito, e aposte numa compreensão da intersubjectividade que renove a compreensão do mundo e da razão. Uma tal compreensão passa pela atenção a uma dimensão que a modernidade – e esse teria sido o seu erro de raiz – sempre descurou, a da comunicação. (…) Um mundo vivido que aqui não tem os contornos existenciais que lhe deu Husserl, e que Heidegger no fundamental partilhou, porque não é pensado a partir de um eu mais ou menos solipsista mas, antes, como emergindo da intersubjectividade que a linguagem propicia e consolida no exercício dos vários regimes de acção (teleológico, dramatúrgico, axiológico e comunicacional) a que nos referimos.»Manuel Maria Carrilho, O que é Filosofia, Difusão Cultural, Pág.84- 85; a letra negrita é posta por mim).

 

Neste campo da afirmação do valor da intersubjectividade, isto é, do acordo entre duas ou mais pessoas sobre a existência e a natureza de algo, Carrilho subscreve a posição de Habermas. É a posição dominante hoje na sociedade capitalista liberal no campo da política, da informação e das ciências sociais: o diálogo, o meio termo, a negociação entre posições desemboca numa «verdade» que não era nenhuma das «verdades» que originalmente os adversários perfilhavam. Ora se o meio termo funciona bem no campo da ética, da comunicação de massas e da política, assim não sucede no campo da ontologia e das ciências naturais.

Foram, com Habermas e outros,  «as obsessões pela figura do sujeito» substituídas pela intersubjectividade e pela comunicação, como pretende Carrilho? Não.  A comunicação entre dois ou muitos não apaga, a maioria das vezes,  a individualidade do sujeito hegemónico: projecta a sua subjectividade deste nos outros, manipula-os.

 

Nietzsche, que Carrilho cita abundantemente, desmascarou o mecanismo da intersubjectividade como validação da «verdade» do seguinte modo:

«260- Tábua de multiplicar- Um, nunca tem razão; a dois, começa a verdade. Um, não se pode provar; dois, já não podem continuar a refutar-se.» (Nietzsche, A Gaia Ciência).

.

A teoria de Einstein já era científica, já era uma grande construção filosófica e científica, quando ainda só era conhecida por Einstein e não tinha o acordo intersubjectivo de Bohr e de outros cientistas. Suponhamos que a comunidade científica recusava a teoria de Einstein: deixava esta de ser ciência, pelo facto de lhe faltar o patamar de apoio da intersubjectividade? Não. Deixou a teoria heliocêntrica criada por Aristarcos de Samos na antiguidade, de ser ciência só porque o triunfo social coube durante séculos à teoria geocêntrica de Ptolomeu e Aristóteles? Não. É evidente que a ciência é um em si e, só depois, um para os outros. O pensador isolado vale mais do que o pensamento da multidão que é também comandado por um ou outro pensador isolado hábil em cativar os menos pensantes. A perspectiva de Carrilho de elevar a intersubjectividade e a retórica a pedra de toque do que é válido e verdadeiro na filosofia e nas ciências é puro «comunismo filosófico». Ora o comunismo é o apagamento das diferenças entre os pensadores entre si e entre estes e a multidão quase impensante. É a vulgaridade, a demagogia. O comunismo é a ideologia do estômago, das necessidades básicas vitais. É útil neste plano, é perjudicial no plano espiritual da descoberta da verdade filosófica porque esta descoberta se faz com voos individuais, com rasgos dos pensadores de elite.

 

Com os neosofistas da linha de Manuel Maria Carrilho, a filosofia deixa de ser ciência ontológica, fenomenológica, gnosiológica e epistemológica e transforma-se em argumentação, em retórica, em comunicação hábil e, frequentemente, paralógica. Em vez de saber pensar com rigor, vale o saber falar, ser eloquente! As definições «essencialistas» desaparecem-se ou esbatem-se ante a fluidez enganosa do discurso. 

 

FILOSOFIA GENEALÓGICA VERSUS FILOSOFIA EPISTEMOLÓGICA: CONFUSÃO DE CARRILHO

 

Algum mérito tem Carrilho em reduzir a dois campos as correntes fundamentais da história da filosofia:

 «É possível distinguir na problemática que assim se instaura dois desenvolvimentos bem distintos, que atravessam toda a filosofia contemporânea, um de inspiração genealógica, outro de intenções epistemológicas. Eles talham dois modos de articular o conhecimento e a verdade, caracterizando-se a abordagem epistemológica pelo facto de tornar o conhecimento científico como modelo de todos os tipos de conhecimento e por valorizar os seus procedimentos de justificação, enquanto a orientação genealógica não só contesta este modelo como questiona a pretensão à verdade, com que ela, em boa medida, se identifica. Kant optou pela primeira via e foi nela que se situaram não só os principais autores da tradição analítica (Frege, Carnap, Quine) mas, também, embora de um modo mais matizado, filósofos de outras inspirações, como Apel ou Habermas. Na segunda, integram-se, metamorfoseando de modos diversos, o lance inaugural de Nietzschze, pensadores como Heidegger ou Foucault, Derrida ou Rorty.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.49-50; o negrito é posto por mim). 

 

Epistemológico opõe-se a genealógico? De modo nenhum. A epistemologia ou filosofia das ciências inclui uma genealogia do conhecimento. Carrilho não é feliz, não tem clareza, nas dicotomias que estabelece. Epistemológico opõe-se por um lado, a noológico ou noético (próprio da intuição inteligível), e por outro lado, a estético ou sensorial (próprio da intuição sensível).

Quando diz que Kant optou pela via epistemológica, Carrilho levanta uma nuvem de poeira. Kant investigou a génese do conhecimento: as formas a priori no sujeito, a "radiação" ou influência desconhecida do númeno sobre o "eu".  Por que razão Kant não deveria figurar na via genealógica ao passo que Heidegger, credor da teoria de Kant sobre o tempo, já figura nesta via?

 

Aliás note-se que o próprio Nietzshze, que Carrilho, admira como um pensador profundo e ímpar, coloca Kant e Schopenhauer na génese da filosofia anti racionalismo socrático e epistemológico:

 

«Recordemo-nos então de como, graças a Kant e a Schopenhauer, foi possível à filosofia alemã, derivada dos mesmos princípios, aniquilar o contente gosto de existir do socratismo científico, determinando-lhe os limites; como esta demonstração teve por resultado uma concepção incomparavelmente mais profunda e mais séria dos problemas éticos e estéticos, concepção que com toda a segurança podemos definir por sabedoria dionisíaca expressa em ideias.» (Nietzschze, A origem da tragédia, Guimarães Editores, 5ª edição, Pág. 158; a letra negrita é posta por mim).

 

NIETZSHE NÃO TROCOU A EPISTEMOLOGIA PELA RETÓRICA

 

Sobre o perspectivismo ou subjectivismo inultrapassável em cada homem, e cujo dilema é aceitar-se como visão enviesada ou negar-se a si mesmo como tal, escreveu Carrilho:

 

«A esta apertada tenaz só se escapa mudando de terreno ou de paradigma, e foi isso que Nietzschze fez e propôs que se fizesse ao trocar a epistemologia pela retórica, ao abandonar a análise das condições de validade da linguagem pela avaliação dos seus poderes.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Pág 92). 

 

Não se percebe muito bem como é que se escapa à tenaz da dicotomia perspectivismo / antiperspectivismo «mudando de paradigma». Seja como for, não é exacto que Nietzschze tenha trocado a epistemologia pela retórica: ele conferiu ao racionalismo socrático, pai das ciências modernas e contemporâneas, um estatuto de «retórica» e «visão superficial do mundo» e procurou, ao invés, criar uma ontologia da vontade de poder, uma ciência intuitiva da vida que está muito longe de ser mera retórica. A epistemologia ou reflexão sobre as ciências só é alvo dos ataques de Nietzschze na medida em que se oponha à vida, à afirmação dos instintos vitais da luta pelo poder, da sexualidade, e outros. Aliás, podemos classificar a doutrina de Nietzsche como uma epistemologia visto que julga, no tribunal de Diónisos, as ciências existentes no século XIX e o grosso das proposições metafísicas dos séculos anteriores.

Nietzschze escreveu:

 

«Mais ainda: as velhas proposições tornaram-se mesmo, no íntimo do conhecimento, normas a patir das quais se avaliou o "verdadeiro" e o "não verdadeiro" , mesmo nos domínios mais recuados da lógica pura. Portanto: a força do conhecimento não reside no seu grau de verdade, mas no seu grau de antiguidade, na sua assimilação mais ou menos adiantada, no seu carácter de condição vital.» (Nietzsche, A gaia ciência, Guimarães Editores, Pág. 131-132; a letra negrita é posta por mim).

 

FEYERABEND NÃO SUBSTITUI A EPISTEMOLOGIA PELA RETÓRICA

 

Sobre o anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend, escreveu Carrilho:

 

«O passo dado por Kuhn, mas que só realmente Feyerabend dá, é o que conduz à substituição da epistemologia pela retórica: isto é, da justificação das teorias de um ponto de vista que lhes é exterior e se pretende a-temporal e a-contextual passa-se à sua avaliação em função da argumentação desenvolvida e do auditório a que ela se dirige.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Pág. 48; a letra negrita é posta por mim).

 

Longe de substituir a epistemologia pela retórica, contra o que Carrilho afirma, o que Feyerabend fez foi alargar o campo da epistemologia permitindo a entrada nele das ciências antigas e das práticas não ortodoxas como a astrologia, a magia ritual, a naturopatia, o culto religioso oficial, etc. Feyerabend não combateu todo o método científico mas apenas o monopólio de um método ensinado nas universidades, em particular nas faculdades de medicina, que subalterniza todos os outros métodos. Questionou, por exemplo, os cientistas que ridicularizam a eficácia da "dança da chuva" praticada por tribos primitivas:

 

«Onde está a teoria incompatível com a ideia de que a dança da chuva traz a chuva? (...) Não há um conjunto de observações que contradiga esta ideia. E, cuidado, não basta observar que as danças da chuva fracassam hoje em dia. Uma dança da chuva deve executar-se com a preparação adequada e nas circunstâncias apropriadas, entre as que se encontram a antiga organização tribal e as atitudes mentais correspondentes.» (Paul K. Feyerabend, Dialogo sobre el metodo, Ediciones Cátedra, Madrid, Pág. 89).

 

Foi pela prática histórica - não pela retórica - que se verificou e se consagrou a dança da chuva como método eficaz para fazer chover em zonas semi desérticas ou de escassa pluviosidade. Feyerabend, um verdadeiro pragmático de mente aberta, advogou a pluralidade de métodos que possuam eficácia - mesmo que não possam ser explicados racionalmente - em lugar de um método único que faz enriquecer os homens eticamente maus que governam as universidades, os ministérios da saúde e das ciências e as indústrias que prosperam com esta ditadura "científica" em vigor em todos os países.

 

A FILOSOFIA FORNECE SOLUÇÕES, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ CARRILHO, QUE NÃO FAZEM DESAPARECER O PROBLEMA

 

Na linha de um Popper e de um Rorty, Carrilho constitui a filosofia , essencialmente, como o lado interrogativo-crítico, indagador do pensamento humano. Escreve:

 

«Expus já em Jogos de Racionalidade (Asa, 1994 em particular no capítulo 3) o modo como se pode pensar a filosofia dispensando a muleta do método e dissipando o nevoeiro das soluções. O que a filosofia, nesta perspectiva, faz é problematizar o mundo, porque é na tensão problemática que - na medida em que o problema traduz sempre uma dissonância entre o homem e o mundo - se traduzem os esforços de compreensão, de transformação ou de interrogação dos homens. Seja qual for a matriz pela qual elas se orientem (cientista ou pragmática, hermenêutica ou epistemológica, por exemplo) os problemas são tematizados através de dispositivos retórico-argumentativos que permitem sugerir, hipotética ou conclusivamente, as respostas que julguem as mais adequadas. Mas respostas não são soluções, porque o que caracteriza uma solução é que ela faz - e é justamente nisso que consiste o método científico - desaparecer o problema, o que não acontece em filosofia.» (Manuel Maria Carrilho, O que é a filosofia, Pág. 103; a letra negrita é posta por mim).

 

Não pode haver filosofia sem método. Como pode então Carrilho dispensar «a muleta do método»? O método é o modo como se filosofa. É evidente que não há um só método em filosofia mas diversos métodos específicos.

O problema é indissociável da solução, ainda que esta seja provisória e verosímil. Estabelecer a  dicotomia resposta-solução carece de exactidão: todas as soluções são respostas embora o inverso não seja verdadeiro. Carrilho esquece o outro lado da filosofia, a vertente sem a qual não seria filosofia: a construção meta-empírica de conceitos, de cenários, a teoria simultaneamente racional e intuitiva. A filosofia postula, afirma: é na dialéctica hegeliana, o terceiro momento, o da síntese, mas Carrilho fica pelo segundo momento, o da antítese, pois aí estaciona o problematizar. Se a filosofia se limitasse a problematizar ficaria muito incompleta, tal como o ficaria o método socrático se fosse apenas ironia - pôr à luz as incoerências de certas ideias e teses - e não comportasse a maieutica - dar à  luz a verdade, postular, edificar teses, conclusões. O dogmatismo não é exclusivo da ciência, pertence igualmente à filosofia que se prolonga para lá do horizonte visível, fora do campo visual panorâmico que constitui o tronco das ciências, naturais ou sociais.

 

FORMAL NÃO SE OPÕE A LOCAL 

 

Ao caracterizar a retórica de Toulman, Carrilho escreve:

 

«O que é importante é considerar não o carácter formal mas o carácter local dos argumentos, bem como a sua diversidade conforme aos campos em que a sua argumentação se exerce, configurando-se assim uma ideia de racionalidade que rompe com a estereotipada concepção que a identificava com o domínio da validade formal.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, Pág.78; a letra negrita é por mim colocada).

 

Seja esta dicotomia formal-local desenhada por Toulmin, ou por Carrilho, está errada. O formal não se opõe ao local: o que se opõe a este é o regional ou, mais ainda, o universal. Formal opõe-se a informal. No contexto local, há elementos formais e elementos informais. Carrilho não possui um pensamento verdadeiramente dialéctico, não determina com clareza os autênticos contrários. É apenas um exemplo da pequenez filosófica elevada às cátedras universitárias.

 

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Segunda-feira, 30 de Abril de 2007
Subjectivismo Axiológico, Filosofia e Questões de Facto (Crítica de Manuais Escolares-XIII)

O magma da confusão de conceitos ético-filosóficos impera nos manuais de filosofia para o ensino secundário em Portugal, Brasil, Espanha e outros países. Um exemplo é o conceito de subjectivismo axiológico no manual «Phi», do 10º ano, da Texto Editores, no qual se pode ler: 

 

«Se as coisas não são valiosas em si, porque valem ? (...)

«À mesma questão, o subjectivismo axiológico, por seu lado, responde que os valores não existem independentemente dos sujeitos que avaliam. São os seres humanos com as suas necessidades, emoções, experiências e contextos pessoais que atribuem valores ao real».

(Agostinho Franklin, Isabel Gomes «Phi , Filosofia 10º ano», manual dp professor, Revisão Científica de Victoria Camps, Texto Editora, Lisboa, 2007, pag. 106)

 

Subjectivismo axiológico está erroneamente definido nesta passagem do manual. De facto, existe um objectivismo fenomenológico que sustenta que os valores são os mesmos para todos numa dada época e conjuntura civilizacional ( Exemplo: «A pedofilia é eticamente má em todo o mundo porque vitimiza as crianças e menores», e isto é objectivismo) mas não existem independentemente dos sujeitos que avaliam (isto é fenomenologia, indissociabilidade sujeito-objecto).

 

Subjectivismo axiológico é a corrente que sustenta que os valores («bem», «mal», «belo», «feio», «certo», «errado»etc) variam de pessoa a pessoa, não têm objectividade. Isto é omitido na confusa definição do manual «Phi».

 

AS QUESTÕES FILOSÓFICAS SÃO QUESTÕES DE FACTO E DE ESPECULAÇÃO 

 

 

Afirma ainda o citado manual «Phi»:

 

«As questões filosóficas não são questões de facto

«A primeira questão ( 1. Qual é o momento considerado pelos especialistas para o momento da morte?) é de tipo científico, uma vez que é uma questão de facto: isto é, a resposta que dela se espera é positiva, baseada em dados de observação experimental e reconhecida pelos cientistas da especialidade.»

«As questões científicas apontam para as causas de um determinado fenómeno observável, seja ele natural, como a questão anterior ou humano (ciências históricas, por exemplo). A questão - O que esteve na origem da I Guerra Mundial? - é uma questão de facto.»

(Phi, 10º ano», Texto Editores, página 41)

 

É um erro sustentar que as questões filosóficas não são questões de facto. Decerto, a questão filosófica de saber se existem deuses não é de carácter empírico mas a maioria das questões filosóficas -como por exemplo: Será que existem átomos? Será que em todo o ser humano existe a dualidade santo/assassino? Será que o trânsito do planeta Vénus no signo de Gémeos favorece os Partidos socialistas português e francês? - são questões de facto e não só, isto é, são empírico-especulativas - perspectiva dialéctica, da unidade de contrários, que a generalidade dos autores e muitos filósofos conceituados não possuem.

 

A questão de determinar o momento exacto da morte não é apenas científica: é filosófica, dado que há divergências entre médicos, biólogos e especialistas de ética. A questão de determinar as causas que originaram a I Guerra Mundial é parcialmente científica - há dados inquestionáveis: o assassinato do arquiduque Francisco Fernando em 28 de Junho de 1914, os interesses imperialistas da Grã-Bretanha, França, Alemanha, Rússia, etc - e parcialmente filosófica.

 

A filosofia analisa os factos empíricos que constituem o cerne da generalidade das ciências e especula sobre eles. Por exemplo, é um facto histórico que «no dia 25 de Abril de 1974, na Rua do Arsenal, em Lisboa, as tropas revoltosas comandadas pelo capitão Salgueiro Maia enfrentaram tropas fiéis ao governo de Marcelo Caetano comandadas pelo brigadeiro Maia».

 

Este facto histórico transforma-se num facto filosófico quando alguém reflecte do seguinte modo: «Será um acaso o facto de os dois chefes militares que se defrontam na Rua do Arsenal nesse dia da revolução dos cravos terem como apelido Maia? Haverá uma lei ontofonética detrás destes acontecimentos?»

 

Dizer que «a filosofia não trata questões de facto» significa reduzir a filosofia à metafísica, à ética e à lógica formal. É negar o carácter da filosofia enquanto epistemologia e entregar ingenuamente às ciências o domínio da objectividade experiencial, sem se dar conta que toda a ciência comporta um revestimento interno filosófico-ideológico.

 

O VALOR PODE NÃO SER UMA RUPTURA COM A NEUTRALIDADE

 

Diz ainda o manual:

 

«Sendo o valor a ruptura com a neutralidade e a indiferença, concluímos que o mundo humano é um mundo de valores.» ( «Phi», Texto Editores, pag. 107).

 

Não é verdade que o valor, universalmente considerado, seja uma ruptura com a neutralidade e a indiferença: muitos valores são-no de facto, mas não todos. O hinduísmo, o budismo e o zen utilizam amplamente o valor de indiferença face à política, à miséria social desta ou daquela comunidade para possibiltar ao espírito do indivíduo atingir o Eu Superior, desindividualizado, o Atmã. A indiferença é também um valor.

 

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