Sábado, 29 de Novembro de 2014
Teste de Filosofia do 10º C (Novembro de 2014)

 

 Eis um teste de Filosofia do 10º ano da escolaridade, em final do primeiro período lectivo do ensino secundário em Portugal. As leis da lógica dialética, que figuram neste teste,  são ignoradas pela generalidade dos autores de manuais escolares e, no entanto, estão contidas virtualmente no ponto 1.2 do programa de filosofia do 10º ano «Quais são as questões da filosofia?» e no ponto 1.3 «A dimensão discursiva do trabalho filosófico».  Por que razão a grande maioria dos docentes lecionam aos alunos os princípios da lógica formal (identidade, não contradição e terceiro excluído)  e não leccionam as leis da lógica dialética (uno, devir, contradição principal, etc) geradas no taoísmo, em Heráclito, Hegel, Marx, Althusser?  Porque não sabem lógica dialéctica, deixando-se submergir, no seu limitadíssimo saber, pela maré sectária da chamada filosofia analítica com a sua lógica proposicional .

 

:Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C
26 de Novembro de 2014.            Professor: Francisco Queiroz

 I

 

“Nalguns casos, a filosofia em acto é ciência em potência e vice-versa. As percepções empíricas originam os conceitos mediante a lei do salto qualitativo. É costume dizer que a metafísica se situa na transcendência mas as essências, na visão de Aristóteles, são metafísica na imanência. »

 

1) Explique concretamente este texto.

 

2) Defina determinismo com livre-arbítrio («moderado»), determinismo sem livre-arbítrio («radical»), indeterminismo (biofísico) sem livre-arbítrio e fatalismo indeterminista e aplique a estas quatro correntes a lei da contradição principal, lei que deve também definir.

 

3) Defina e aplique a lei dialéctica da luta de contrários à sua vida pessoal. como estudante adolescente em Beja, e às matérias da Biologia, da Química, da Matemática, do Português.
 

4)   Relacione, justificando:

 

A) Proté Ousía, Forma Eterna (Eidos) e Hylé, em Aristóteles, e lei da tríade.
     

B)  Esfera dos valores espirituais na teoria de Max Scheler, e Mundo do Mesmo em Platão.

 

CORRECÇÃO DO TESTE DE AVALIAÇÃO (COTADO MAXIMAMENTE PARA 20 VALORES)

 

1) Aquilo que hoje é  filosofia, isto é, interpretação especulativa do mundo, em acto, ou seja, na realidade presente, é ciência em potência, isto é, no futuro previsível. Assim aconteceu com a filosofia atomista de Demócrito e Leucipo na antiguidade grega: converteu-se em ciência detalhada nos séculos XIX e XX, desenvolvendo as noções de protão, electrão, neutrão, núcleo, órbitas e outras. Inversamente, uma ciência em acto, como por exemplo, a vacinação pode vir a reduzir-se a uma mera filosofia no futuro - em potência - quando se descobrir que a «imunização não existe, é uma tentativa de falsear a lei biológica de causa-efeito, lei que inclui o facto de que vírus ou toxinas inoculados no organismo humano prejudicam sempre este criando anticorpos» (VALE DOIS VALORES). A percepção empírica, isto é, um conjunto de sensações visuais, auditivas, tácteis, etc - exemplo: ver uma árvore - origina o conceito, isto é, a ideia de uma classe de coisas - exemplo: a ideia de árvore, que se tem de olhos fechados - através da lei do salto de qualidade que teoriza que a acumulação gradual e lenta, em quantidade, de um certo factor num fenómeno gera, em dado instante, um salto nítido de qualidade nesse fenómeno: vejo um pinheiro, depois um sobreiro, depois uma macieira e abstraindo (salto qualitativo) nasce em mim o conceito ou ideia de árvore (VALE DOIS VALORES). Diz-se que a metafísica, isto é, o reino das essências (formas) ou entes invisíveis, impalpáveis, que está além do mundo físico visível e palpável se situa na transcendência, isto é no Além - no Mundo Inteligível, acima do céu visível, em Platão - mas Aristóteles sustentou que as essências ou formas eternas estão inerentes aos objectos físicos (exemplo: a essência cavalo existe apenas em todos os cavalos físicos, reais) por isso são metafísica (formas imóveis, além da phisis ou região do movimento) na imanência, isto é, dentro das coisas físicas (VALE DOIS VALORES).

 

2) Determinismo com livre-arbítrio (vulgo: determinismo moderado) é a teoria segundo a qual, na natureza, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos e o homem dispõe de liberdade racional de escolha (livre-arbítrio). Exemplo: um homem decide, racionalmente, atirar-se do alto de um avião em páraquedas, sabendo que se sujeita ao determinismo na lei da gravidade, que o faz cair para a Terra. Determinismo sem livre-arbítrio (vulgo: determinismo radical) é a teoria segundo a qual, na natureza, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos e o homem não dispõe de liberdade racional de escolha (livre-arbítrio). Exemplo: movido por uma força irracional, sem liberdade de escolha,  um homem atira-se do alto de um arranha-céus, sujeitando-se determinismo na lei da gravidade, que o faz cair para a Terra e morrer esmagado. Indeterminismo sem livre-arbítrio  é a teoria segundo a qual, na natureza, as mesmas causas não produzem sempre os mesmos efeitos e o homem não dispõe de liberdade racional de escolha (livre-arbítrio). Exemplo: beber água nem sempre faz funcionar os rins, às vezes paralisa-os (indeterminismo) e um grupo de pessoas ingere água por motivo de uma sede abrasadora, sem decisão livre e meditada. Fatalismo indeterminista é a teoria segundo a qual tudo na vida está predestinado segundo forças do capricho, incompreensíveis, e os homens não dispõem de livre-arbítrio. Exemplo: tudo estava e está predestinado, incluindo que Hitler escapasse com vida no atentado à bomba de 20 de Julho de 1944 e em outros e não há explicação racional, determinista, para esses «acasos» predestinados. A lei da contradição principal estabelece que um sistema de múltiplas contradições (em rigor deveria dizer-se: contrariedades; exemplo: a contrariedade entre a URSS e os EUA, a contrariedade entre a França e a Espanha, etc.) pode ser reduzido a uma só grande contradição, formada por dois grandes blocos ou pólos, denominada contradição principal. Assim, no caso das quatro correntes acima definidas a contradição principal pode ser a que opõe as correntes deterministas (determinismos com e sem livre-arbítrio) às correntes indeterministas (indeterminismo sem livre-arbítrio, fatalismo indeterminista) (VALE CINCO VALORES).

 

3) A lei dialéctica da luta de contrários diz que cada ente ou fenómeno se compõe de um par de contrários que lutam entre si e constituem uma unidade instável que é a essência e o motor de desenvolvimento desse ente ou fenómeno. Na vida de estudante, a luta entre a consagração ao estudo das disciplinas escolares e comparência nas aulas, por um lado, e a diversão extraescolar e faltas às aulas, por outro lado. Na Biologia, a luta entre as células procariontes, que carecem de membrana nuclear e as células eucarióticas, que possuem essa membrana, a luta entre assimilação e a desassimilação nos organismos, a luta entre genótipo e fenótipo. Na Química, a luta entre ácidos e bases, electrões e protões, metais e não metais. Na Matemática, a luta entre números negativos e números positivos, entre multiplicação e divisão, etc. No Português, a oposição entre prosa e poesia, substantivo e adjectivo, voz activa e voz passiva. (VALE TRÊS VALORES).

 

4) A) A lei da tríade diz que um processo dialéctico se divide em três momentos: a tese ou afirmação, a antítese ou negação e a síntese ou negação da negação, sendo a síntese não a soma das duas anteriores mas um resumo, um termo intermédio e convertendo-se em tese de um novo processo. Aplicando à teoria de Aristóteles temos o seguinte: as formas eternas ou eidos são a tese, a hylé ou matéria-prima universal ( eis uma imagem imperfeita da hylé: uma espécie de nevoeiro que não existe e espera condensar-se nas formas eternas) é a antítese e a proté ousía ou substância primeira, coisa individualizada, é a síntese já que nasce da união do eidos e da hylé (VALE TRÊS VALORES).

 

4) B) A esfera dos valores espirituais em Max Scheler engloba os valores éticos (bem, mal, justo, injusto), estéticos (belo, feio), filosóficos (verdade, falsidade) e os valores de referência das ciências empíricas (verdade e falsidade utilitárias) e do direito (legal, ilegal, etc.). Parte destes valores figuram no Mundo do Mesmo ou Mundo Inteligível de Platão como arquétipos ou essências perfeitas e imóveis: o Bem, o Belo, o Justo, o Triângulo, o Círculo, o Número (VALE TRÊS VALORES).

 

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Quinta-feira, 9 de Junho de 2011
Platão contra a dialéctica: o equívoco dos cinco géneros supremos

 

Platão teve o mérito de definir a dialéctica como a divisão por géneros de uma forma geral que tudo abrange:

 

«O ESTRANGEIRO- Dividir por géneros e não confundir a mesma forma com outra, ou a outra com a mesma, não diremos que é próprio da ciência dialéctica?

«TEETEO- Sim dizemos.» (Platão, Sofista, in Diálogos, pag 78, Publicações Europa-América).

 

Os cinco géneros teorizados por Platão em «Sofista» são: o ser, o repouso, o movimento, o mesmo e o outro.

 

«O ESTRANGEIRO - Ora, os mais importantes destes géneros são três: o próprio ser, o repouso e o movimento.

«TEETETO - Sim, extremamente importantes.» 

«O ESTRANGEIRO - Dizemos ainda que estes dois últimos não se podem misturar um com o outro.

«TEETETO- Certamente.

«O ESTRANGEIRO - Mas o ser pode misturar-se com os dois porque, penso, os dois são

«TEETETO - Incontestavelmente.

«O ESTRANGEIRO - Portanto, temos três.»

«TEETETO- Seguramente.

«O ESTRANGEIRO - Portanto, cada um deles é outro relativamente aos outros, mas o mesmo relativamente a si mesmo.

«TEETETO- Sim.

«O ESTRANGEIRO- Mas o que queremos dizer com as palavras que acabamos de pronunciar, o mesmo e o outro? São dois géneros diferentes dos três primeiros, embora sempre misturados necessariamente com eles? E devemos concluir o nosso inquérito como se fossem cinco e não três, ou o mesmo e o outro são nomes que damos inconsciente a algum dos nossos três géneros?»

(Platão, Sofista, in Diálogos, pag 79-80, PEA; o negrito é posto por mim ).

 

 

Há erros antidialécticos nesta classificação de cinco géneros construída por Platão: o ser não está ao nível do movimento e do repouso mas Platão nivela-os. Estes dois últimos são espécies do género supremo ser. Platão reconhece que o ser pode misturar-se com o movimento e o repouso mas erra ao considerá-los como três géneros enquanto correlacionados: trata-se de um género e duas espécies. Do mesmo modo, o mesmo e o outro são espécies do ser, colocadas, embora. acima da dicotomia movimento-repouso: o mesmo é, o outro é, no sentido de ser como existência. O  «mesmo» é género lógico das espécies movimento e repouso - há o mesmo movimento e o mesmo repouso - e o «outro» é também género lógico das espécies movimento e repouso - há outro movimento e outro repouso.

 

A grande confusão terminológica e ideal de Platão, prosseguida em muitos outros filósofos incluindo Heidegger, é a duplicidade do termo «ser» atribuido indiferentemente a duas dimensões distintas: existência e essência (forma, to tí, quid). Heidegger, apesar de delinear uma ruptura com a tradição ontológica, continuou preso de uma ambígua interpretação do termo "ser". Platão usa o termo "ser" em dois sentidos distintos: forma ou formas eternas, existência. E assim, nos seus diálogos, elabora brilhantes argumentos sofísticos, como por exemplo:

 

«O ESTRANGEIRO- Contudo, nem o movimento nem o repouso são o outro nem o mesmo.

«TEETETO- Como é isso?

«O ESTRANGEIRO - Seja o que for que atribuamos ao movimento e ao repouso, isso não pode ser nem um nem o outro dos dois.»

(Platão, Sofista, in Diálogos, pag 80, PEA).

 

A falácia reside na dissociação entre a parte e o todo: o movimento é espécie dos géneros lógicos outro e mesmo e o repouso é espécie dos géneros lógicos outro e mesmo. Não é verdade dizer que «o movimento não é outro nem o mesmo» - o movimento é outro e mesmo, ainda que não abarque a totalidade das qualidades outro e mesmo - do mesmo modo que não é verdade dizer que a parte não é o todo reduzido ou amputado.

Note-se que movimento e repouso são nomes ou substantivos comuns e mesmo e outro são pronomes demonstrativos, isto é, substitutos dos nomes, mais abstratos que estes. Aparentemente, os pronomes pertencerão, em regra, a uma classe mais abstrata, um género mais elevado, do que substantivos como couve, alegriacalor. A determinação mesmo encontra-se em todas as couves ou em todas as alegrias possíveis mas a determinação couve e a determinação alegria não se encontram em todas as conceptualizações ou aplicações de mesmo.

 

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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009
Um erro de «A arte de pensar»: Basear a «invalidade» de um silogismo num acidente da existência material (Crítica de Manuais Escolares-XXXVI)

No manual português de Filosofia do 11º ano «A arte de pensar» lê-se o seguinte:

«Classes vazias»

«Considere-se o seguinte argumento:

Todas as fadas são simpáticas.  

 Logo há fadas simpáticas .

«Como vimos a premissa é verdadeira, embora não o pareça. Mas a conclusão é evidentemente falsa. Logo o argumento é inválido (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Didáctica Editora, pag 62; o bold é nosso).

 

Crítica: Depois de ter postulado que «um argumento dedutivo é válido quando é impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa» (pag 14), este manual contradiz-se. Como é que, sendo verdadeira a premissa «Todas as fadas são simpáticas» pode ser falsa a conclusão «Logo há fadas simpáticas» ( ou : «Logo algumas fadas são simpáticas»)?

 

Não pode. Assim, o argumento (silogismo) é necessariamente válido. O que sucede é que os autores do manual «A arte de pensar» descem a escada obscura de um raciocínio falacioso: saltam da essência para a existência, isto é, passam do raciocínio dedutivo - plano da validade ou verdade formal do pensamento - para a indução que lhes  sugere, pelo testemunho dos sentidos, que não existem fadas - plano da verdade material. Violam as próprias regras da lógica dedutiva que proclamaram, recorrendo ao argumento indutivo da «classe vazia» (uma classe sem elementos: não há fadas, logo a classe das fadas é vazia…) Passam do essencial ao acidental que o contradiz e produzem um raciocínio que é uma amálgama, uma incoerência.

E são estes autores que repetem incansavelmente que «validade e invalidade nada têm a ver com verdade e não verdade…» ! Mas como, se para negarem a validade a este silogismo, tiveram de descer ao plano da verdade material perceptível? Afinal, acabam por declarar a invalidade com base na não verdade (inexistência) material. O que equivale a dizer o que sempre postulamos: em lógica, inválido é não verdadeiro no plano abstracto do raciocínio;  e válido é verdadeiro, em termos abstractos de regras do pensamento (Exemplo: a regra válida "a>b, então b<a " é verdadeira). O válido é uma espécie dentro do género verdadeiro.

 

Ignorantes da dialéctica, que hierarquiza os conceitos em géneros e espécies de forma holística e discriminada, os autores de «A arte de pensar» nem se dão conta do erro que cometem ao proclamar a dissociação entre válido e verdadeiro. Isto é mais um exemplo de como a lógica, inserida no programa de 11º ano de Filosofia no ensino secundário em Portugal, é mal explicada nos manuais em voga, repletos de confusões.

 

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Domingo, 26 de Abril de 2009
Karl Popper e o ataque incoerente à Dialéctica

 Karl Popper ataca a dialéctica sem a compreender integralmente. Tal como Kant, Popper toma a dialéctica como uma erística, capaz de sair fora da lógica, uma arte sofística de argumentar, uma visão eclética paradoxal e não uma ciência holística e hierarquizadora de géneros, espécies e dos diversos aspectos de cada fenómeno.

 

Escreveu Popper:

 

 «A dialéctica (no sentido moderno, isto é, especialmente no sentido em que Hegel usou o termo) é uma teoria que afirma que algo – mais particularmente o pensamento humano – se desenvolve de uma forma caracterizada por aquilo a que se chama a tríade dialéctica: tese, antítese e síntese. (…)»

 

 «E é quanto basta relativamente ao que se chama tríade dialéctica. Não pode haver grandes dúvidas de que a tríade dialéctica descreve razoavelmente bem determinadas fases da história do pensamento, em especial certos desenvolvimentos de ideias e teorias, bem como dos movimentos sociais que neles se inspiram. Esse desenvolvimento dialéctico pode ser “explicado” demonstrando que se processa em conformidade com o método de ensaio e erro que atrás analisámos. Mas temos de admitir que não é exactamente o mesmo que o desenvolvimento (atrás descrito) de uma teoria por ensaio e erro. A nossa anterior descrição do método de ensaio e erro envolvia apenas uma ideia e a sua crítica, ou, usando a terminologia dos dialécticos, a luta entre uma tese e a sua antítese. Originalmente, não fizemos quaisquer sugestões acerca de um desenvolvimento ulterior, não indicámos que a luta entre uma tese e uma antítese desembocaria numa síntese. Sugerimos antes que a luta entre uma ideia e a sua crítica, ou entre uma tese e uma antítese, conduziria à eliminação da tese (ou talvez da antítese), se esta não se revelasse satisfatória; e que a competição entre teorias só conduziria à adopção de novas teorias se estas existissem em número suficiente e pudessem ser postas à prova .(…)»

 

 «Temos de ter cuidado, por exemplo, relativamente a uma série de metáforas usadas pelos dialécticos e muitas vezes levadas, infelizmente, demasiado a sério. Um exemplo é a afirmação do dialéctico de que a tese “produz” a sua antítese. Na verdade, é apenas a nossa atitude crítica que produz a antítese, e onde uma tal atitude não esteja presente – o que é muitas vezes o caso – nenhuma antítese se produzirá. Do mesmo modo, temos que ter cuidado para não pensar que é a “luta” entre uma tese e a sua antítese que “produz” uma síntese. »

 

 «Tendo deste modo observado que as contradições – especialmente, como é óbvio, a contradição entre uma tese e uma antítese, que «produz» um progresso sob a forma de síntese – são extremamente fecundas e constituem, na verdade, as forças motrizes de qualquer progresso do pensamento, os dialécticos concluem – erradamente como veremos – que não há necessidade de evitar essas fecundas contradições. E afirmam mesmo que as contradições não podem ser evitadas, dado que surgem em toda a parte no mundo.»

 

 «Uma tal afirmação equivale a um ataque contra a chamada “lei da não-contradição” (ou, mais concretamente, contra a “lei da exclusão das contradições”) da lógica tradicional: uma lei que determina que dois enunciados contraditórios nunca podem ser ambos verdadeiros, ou que um enunciado que consista na conjunção de dois enunciados contraditórios deve ser sempre rejeitado como falso por razões puramente lógicas. Fazendo apelo à fecundidade das contradições, os dialécticos afirmam que esta lei da lógica tradicional deve ser rejeitada. E declaram que a dialéctica conduz deste modo a uma nova lógica – uma lógica dialéctica. Assim sendo, a dialéctica, que eu até aqui apresentei como uma doutrina meramente histórica – uma teoria do desenvolvimento histórico do pensamento – revelar-se-ia uma doutrina muito diferente: seria em simultâneo uma teoria lógica e (como veremos) uma teoria geral do mundo.»

 

 «Estas são afirmações portentosas, mas sem o mínimo fundamento. Não se baseiam, na verdade, em nada melhor do que uma maneira de falar vaga e confusa.»

 

 «Os dialécticos dizem que as contradições são fecundas, férteis ou produtivas em termos de progresso, e nós admitimos que isso não deixa de ser, em certo sentido, verdadeiro. Será verdadeiro, porém, unicamente na medida em que estejamos dispostos a não tolerar contradições e a modificar qualquer teoria que as envolva. Por outras palavras, determinados a não aceitar nunca uma contradição. É somente em virtude dessa nossa determinação que a crítica, isto é, a indicação de contradições nos induz a modificar as nossas teorias e, nessa medida, a progredir.»

 

  (Karl Popper, Conjecturas e Refutações, Almedina, Coimbra 2006, pag 419-422; o bold é colocado por nós)

 

 Popper tem alguma razão neste texto. Mas carece de razão numa parte substancial dele. A interpretação da síntese como um terceiro momento do círculo ou espiral que se desenvolve é uma limitação hegeliana, ao menos de carácter terminológico,  na definição da dialéctica. Nesse ponto, Popper parece certo.

 

Kierkegaard, por exemplo, negou a existência da síntese circunscrevendo a dialéctica ao Aut/Aut (Ou..Ou) da tese-antítese. Também não parece que a antiga filosofia chinesa, em particular o taoísmo, que divide a Vida e o Cosmos em dois princípios opostos, relativos, o Yang (Luz, Calor, Expansão, Fogo, Masculino) e o Yin (Escuridão, Frio, Contração, Água, Feminino) consagre a síntese (de Hegel) como instância independente no processo dialéctico. E na teoria psicanalítica de Freud, nitidamente dialéctica, discernimos o Ego – o mediador, a síntese, de certo modo - como uma instância não posterior mas simultânea com o Id ou Infra-Ego (tese) e o Super-Ego (antítese)- sem embargo de o Ego preceder geneticamente o Super-Ego. De facto, a síntese – ou chamar-lhe-emos síncrese, neste caso? - pode existir e existe em simultâneo com a tese e a antítese e constitui:

 

 1)      A mediação ou mistura parcial destas.

 

 2)      O conjunto das duas. Neste caso, não existiria separada delas ou de uma parte delas, mas englobá-las-ia, seria a soma exacta das duas. Hegel chama a isto o tôdo como unidade dos contrários, não o designa por síntese.

 

 Parece que Platão admitiu a mediação, o intermédio entre os contrários  – que Hegel chama síntese –mas não o situou isoladamente num momento posterior. A crítica de Popper à tríade é, pois, parcialmente justa no que se refere à tríade diacrónica estabelecida por Hegel mas injusta, errada, no que se refere à tríade sincrónica estabelecida por dialécticos como Lao Tse, Platão, Kierkegaard e muitos outros, também chamada lei da unidade e luta de contrários formulada por Heráclito e Hegel, entre outros.

 

Popper reconhece aliás, acima, que a luta entre uma ideia e a sua crítica é uma luta entre tese e antítese e que conduz, muitas vezes, à eliminação da tese. Estamos de acordo. É, pois, um movimento dialéctico. O método de ensaio e erro, é ao contrário do que sugere Popper, perfeitamente dialéctico: o ensaio é a antítese da formulação teórica, como o acto é a antítese da potência (na terminologia aristotélica); o erro constatado pelo ensaio é a antítese da formulação teórica original, destrói parcial ou totalmente esta, impõe a sua rectificação ou eliminação. Ao dizer que a dialéctica não impregna o método de ensaio e erro, como seu carácter intrínseco, mas que é algo de «extrínseco» à falsificabilidade, à eliminação indefinida do erro pelo «racionalismo crítico», Popper mostra não compreender a universalidade da dialéctica como lógica multilateral.

 

 Ademais, Popper deturpa a dialéctica ao dizer que esta nega o princípio da não-contradição ( ou «lei de exclusão das contradições»). É uma absoluta falsidade. Isso é interpretar dialéctica como sofística – como o fazia Kant com as suas antinomias da razão pura que dão lugar ao paradoxo (incoerência do raciocínio como por exemplo: «Deus existe e não existe no mesmo instante e sob o mesmo aspecto»; «2+2 é igual 4 e 2+2 é igual a -4»).

 

 Popper ignora que «toda a diferença é uma contradição» - – a diferença insere-se no princípio do terceiro excluído; exemplo, verde e azul contradizem-se porque azul pertence ao conjunto não verde – - e interpreta o termo contradição como erro lógico, paradoxo, não como realidade multilateral de contrários e contraditórios. Há contradição dentro da lógica (a dialéctica) e contradição fora da lógica, (paralogismo, sofisma, a sofística, o ecletismo paradoxal). Esse é o equívoco de Popper: não distingue estas duas formas de contradição, ao menos no plano teórico.

 

 A dialéctica autêntica engloba os três princípios da lógica clássica: identidade, não contradição e terceiro excluído. Não se desfaz deles. Não os atropela. Aliás o princípio da não contradição é eminentemente dialéctico: uma coisa não pode ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto duas qualidades ou estados contrários entre si; mas pode ser qualidades ou estados contrários ao mesmo tempo em aspectos diferenciados.

 

Por exemplo, a dialéctica marxista –- note-se que a teoria marxista não é dialéctica em toda a sua extensão, o comunismo mundial final é uma ideia metafísica que foge à lei dialéctica de «um divide-se em dois» (o proletariado divide-se em dois: governantes e governados e isso gera uma nova sociedade de classes desfazendo o comunismo ideal) –-  diz o seguinte: a burguesia é uma classe progressista no aspecto de combater a classe feudal e, simultaneamente, é uma classe reaccionária no aspecto de combater as reivindicações socialistas revolucionárias do proletariado. Isto respeita perfeitamente o princípio da não contradição: a burguesia é, ao mesmo tempo, uma classe revolucionária, num aspecto, e uma classe reaccionária, noutro aspecto. Não há aqui confusão nenhuma.

 

 Não restrinjamos a dialéctica ao marxismo. Há muito mais dialéctica para além da visão marxista do mundo.

 

 Existe, por exemplo, uma contradição – que neste caso assume a forma de contrariedade (termo aristotélico) isto é oposição directamente bipolar como branco/negro e grande/pequeno -  a cada fracção de segundo, entre a força centrífuga do electrão do átomo do hidrogénio e a força centrípeta do núcleo. É essa contradição ou luta de forças contrárias que mantém o átomo uno. Popper seria imbecil se negasse que se trata de uma contradição e, mais ainda, se tivesse a pretensão de suprimi-la.

 

 A dialéctica impregna a fisiologia humana e a naturopatia (teoria médico-higienista e metodologias práticas) que visa preservá-la: a doença, aguda ou crónica, é uma luta entre a força vital, centrífuga (que actua de dentro para fora) e as toxinas (sais de ácido úrico, sulfúrico; colóides, etc) centrípetas (que se deslocam de fora para dentro e entopem o organismo). Assim a febre é simultaneamente um mal e um bem: um mal, na medida em que gera mal-estar e impede, em regra, as pessoas de se comportarem de forma prazenteira e normal; um bem, na medida em que a crise de suores e urinas carregadas existente na febre, faz sair do corpo, pela pele e pelo aparelho urinário, as substâncias tóxicas, restabelecendo a saúde.

 

 Bem e mal são contrários entre si mas, neste caso, não há qualquer violação do princípio da não contradição, pois bem e mal na febre aplicam-se a diferentes aspectos da fisiologia humana. Segundo parece, Popper, nem sequer conhecia a visão dialéctica da naturopatia científica neo-hipocrática sobre a saúde e a doença. É natural que não reconhecesse que a luta de contrários – e a lógica multilateral que lhe corresponde – atravessa por completo a natureza física e biocósmica nos seus infinitos aspectos, é a essência desta.

 

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Sábado, 24 de Janeiro de 2009
Contradições de Thomas Nagel: A filosofia não assenta na observação?

A caracterização da filosofia é feita por Thomas Nagel da seguinte maneira:

 

«Escreve-se àcerca destes problemas desde há milhares de anos, mas a matéria-prima filosófica vem directamente do mundo e da nossa relação com ele, e não de escritos do passado. (...)»

«A filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da ciência, não assenta em experimentações, nem na observação, mas apenas no pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de prova»

(Thomas Nagel, Que quer dizer tudo isto? Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, pag 8).

 

Há, neste texto, uma inconsistência: por um lado, diz, correctamente, que «a matéria-prima da filosofia vem directamente do mundo» (através da percepção empírica, da observação, é óbvio); por outro lado, diz, erradamente, que «a filosofia não assenta na observação, mas apenas no pensamento.» Gostaríamos de saber como haveria filosofia em torno do aborto se não houvesse observação das várias fases da gravidez feminina, do aspecto, tamanho e reacções do feto no ventre, etc. E como haveria uma filosofia apologista do capitalismo e outra apologista do socialismo, se não houvesse observação das sociedades, do modo de vida dos capitalistas liberais, dos operários, dos burocratas comunistas, dos mercados, dos bairros, da escala de salários, etc?

 

Além do mais, ao contrário do que sustenta Nagel, a filosofia tem métodos formais de prova: os princípios da lógica formal aristotélica; as leis da dialética. Não falo da lógica proposicional, uma ciência imperfeita do pensamento, com numerosas lacunas.

 

O corte brutal entre filosofia e ciência operado por Nagel prova que este não compreende a conversão dialética de uma na outra. Uma tese científica - exemplo: a molécula da água tem dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio - pode dar lugar a uma questão de filosofia - exemplo: Como se chegou à conclusão que a relação é 2-1 entre o hidrogénio e o oxigénio da molécula de água, se é impossível ver o átomo?.

Elevar um Nagel a um prestigiado Prémio de Filosofia da Academia Sueca que atribui o Nobel foi, seguramente, um artifício de alguns, o triunfo do lobby da superficialidade universitária norte-americana no campo filosófico.

 

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