Segunda-feira, 15 de Junho de 2015
Erros no Exame Nacional de Filosofia de 15 de Junho de 2015

 

O exame final nacional de filosofia do ensino secundário em Portugal, 11º   ano de escolaridade, prova 714/ 1ª fase, realizado em 15 de Junho de 2015, enferma de erros teóricos. Eis alguns desses erros na versão 2 da Prova 714/1ª fase, nas questões de escolha múltipla em que só se dá como correcta uma das quatro opções.

 

GRUPO I

 

«2. Em qual das seguintes opções é referida, de forma inequívoca, uma acção:

(A) A Mariana foi picada por um mosquito.

(B) O Rui esqueceu-se de tirar o boné da cabeça.

(C) Um mosquito picou a Mariana.

(D) A professora mandou o Rui tirar o boné.»

 

Crítica minha: Os critérios de correção apontam que a resposta D é a única certa. Mas a resposta C está igualmente certa: picar uma pessoa é uma acção... de um animal, um mosquito. Há três tipos de acções: da natureza geofísica (exemplo: a erupção de um vulcão), dos animais inumanos (exemplo: o leão persegue e mata a gazela) do homem (exemplo: um condutor atropela involuntariamente uma pessoa). Se o autor do exame queria que só a resposta D fosse certa, a pergunta devia falar de acção humana e não somente de acção. Não é ridículo considerar acção o facto de um homem comer frango e não considerar acção o facto de um leão comer uma gazela? É assim o espírito minucioso e míope, sem visão global, dos analíticos...

 

«6. Segundo a UNICEF, devido à epidemia de ébola que, em 2014, atingiu o continente africano, 4 000 crianças perderam ambos os pais e 13 000 crianças perderam um dos pais. Portanto, a epidemia de ébola causou 17 000 orfãos em África.»

O argumento anterior é:

(A) um mau argumento de autoridade.

(B) um bom argumento de autoridade.

(C) uma indução a partir de um número insuficiente de casos.

(D) uma indução a partir de uma amostra representativa.»

 

Segundo os critérios de correção a resposta correcta é a opção B: é um bom argumento da autoridade já que a Unicef tem prestígio na matéria.

 

Crítica minha: nenhuma das respostas está correcta. Embora a Unicef invocada seja uma autoridade mundial no problema das crianças, e pareça que se trata de um bom argumento de autoridade, o essencial do argumento está na correção da operação matemática referente aos meninos e meninas que ficaram orfãos ou  duplamente orfãos de África em 2014. Trata-se de uma indução completa, sem salto no vazio, isto é, de uma inferência que consiste em  chegar ao resultado por enumeração, contando a totalidade dos casos singulares. Ou, se se quiser, trata-se de uma dedução - a operação matemática 4 000 + 13 000= 17 000 é uma dedução, não necessita de uma amostra empírica- fundada numa indução completa ou contagem exaustiva de todos os elementos de um conjunto. Se o autor da prova queria que a opção B fosse a resposta correta devia te-la formulado assim: «um argumento de autoridade e uma dedução fundada numa indução completa».

 

«7. Considere os textos seguintes:

        1. A ciência está na base das tecnologias que mudaram as nossas vidas. Por conseguinte, para que o avanço tecnológico não abrande, os investimentos da ciência não devem ser reduzidos.

         2. Após a Segunda Guerra Mundial, importava assegurar a recuperação económica dos países europeus envolvidos. Além disso, os líderes das principais nações europeias pretendiam impedir um novo conflito armado. Foi esta dupla ambição que esteve na origem da União Europeia.

 

(A) 1 e 2 são textos argumentativos.

(B) 1 e 2 não são textos argumentativos.

(C) 2 é um texto argumentativo; 1 não é um texto argumentativo.

(D) 1 é um texto argumentativo; 2 não é um texto argumentativo.»

 

A resposta considerada correcta nos critérios de correção é a (D).

Crítica minha: A resposta correcta é a A: ambos os textos, um e dois, são (parcialmente) argumentativos, se por argumentativo se entende uma afirmação ideológica, que exprime o ponto de vista de uma classe social, de um grupo cultural, político ou religioso, ou de um povo, não sendo absolutamente neutra ou isenta. Ao dizer «para que o avanço tecnológico não abrande, os investimentos da ciência não devem ser reduzidos»  está-se a argumentar, no texto 1, a favor do investimento com dinheiro nos programas científicos e tecnológicos, e isto é ideologia do capitalismo, privado ou estatal, posição que não merece o acordo dos grupos ecologistas defensores do «crescimento zero», da paralisação do fabrico de automóveis, barcos, aviões, telemóveis, postes de energia eléctrica, etc. Ao dizer no texto dois que «Após a Segunda Guerra Mundial, importava assegurar a recuperação económica dos países europeus envolvidos. Além disso, os líderes das principais nações europeias pretendiam impedir um novo conflito armado» está-se a argumentar com as intenções supostamente pacifistas dos líderes europeus como base da criação do Mercado Comum Europeu, o que é discutível, isto é, argumentativo. Alguns dirão que as burguesias francesa e alemã tinham por objectivo não uma recuperação económica dos países comunitários mas um aumento da sua hegemonia no mundo e a realização do máximo lucro..

 

«8. Em qual das opções seguintes se apresenta um exemplo do conhecimento a priori?

(A) Sei que nenhum irmão é filho único.

(B) Sei qual é o meu nome.

(C) Sei que alguns pais não são casados.

(D) Sei que idade tenho.»

 

Os critérios de correção apontam como resposta «certa» a opção A

 

Crítica minha: nenhuma das respostas é correcta. O que é o conhecimento a priori? É aquele que se opera independentemente das sensações, das percepções de objectos do mundo empírico. Segundo Kant só os conceitos matemáticos e alguns da física pura são a priori: os conceito de números Dois, Três, Quatro, etc., são a priori e os juízos «Três mais Quatro é igual a Sete» ou «Dois Vezes Dois é igual a Quatro» são a priori, mas os conceitos de «Irmão» de «Filho Único», de «Pai», de «Idade» , de «Casado», de «Nome» e o juízo «Ter irmãos implica não ser filho único» são a posteriori, isto é, derivam da experiência sensorial, de pessoas e situações qiue vemos e ouvimos. Ora, em todas as quatro frases acima citadas há conceitos a posteriori.

 

Os critérios de correção apontam como resposta «certa» a opção A. Mas a frase «Sei que nenhum irmão é filho único» é tão a priori - se assim me posso exprimir; em rigor não é a priori - como a frase C «Sei que alguns pais não são casados». Ser irmão implica não ser filho único e ser pai, em muitos casos, implica não ser casado.

 

«9. Identifique o par de termos que permite completar a afirmação seguinte.

       A dúvida cartesiana é_________; por isso, Descartes não é um filósofo____________

(A) metódica...racionalista

(B) metódica.....cético

(C) hiperbólica....empirista

(D) cética..... empirista.»

 

Os critérios de correção da prova apontam como única opção correcta a resposta B: A dúvida cartesiana é metódica  por isso, Descartes não é um filósofo cético.

 

Crítica minha: há duas respostas certas, as opções B e C, e não apenas uma. A opção C diz o seguinte:  «A dúvida cartesiana é hiperbólica   por isso, Descartes não é um filósofo empirista». Isto está correto. O que é a dúvida hiperbólica? É aquela que se estende a tudo e duvida mesmo do próprio corpo físico do sujeito e do eu pensante. Formula-se assim: «Os sentidos , fonte da verdade segundo o emprismo, enganam-me e é possível que tudo o que vejo, toco e penso não exista, duvido da existência das árvores, das casas e cidades,  da paisagem , da realidade dos animais, dos homens, dos céus e da terra, de Deus, das verdades matemáticas e outras e do meu próprio eu. Ora esta dúvida hiperbólica faz com que Descartes não seja um filósofo empirista já que estes dão crédito às percepções empíricas e tomam-nas como a base, ao contrário de Descartes. 

 

 

A existência de tantos erros neste exame nacional é a prova da incompetência da universidade portuguesa na área da filosofia, porque a tutela da comissão que fabrica a prova nacional de filosofia é, tanto quanto se sabe, da universidade portuguesa. Fechem-se as faculdades de filosofia porque os doutoramentos e as cátedras - dignidades «clericais» que não existiam no tempo de Platão e Aristóteles - são centros de poder pessoal onde reinam incompetentes adeptos da filosofia analítica, do positivismo lógico ou da fenomenologia que distorcem, em regra, a verdade da qual julgam ser donos. Precisa-se de uma revolução estudantil-operária como a de Maio de 1968 em França, em que os estudantes destituem os catedráticos da burguesia, os papas da igreja laica que é a universidade das humanísticas (filosofia, história, sociologia, antropologia, etc.), carregados de ideologia contra a dialética, a  ciência da astrologia histórica, as medicinas naturais, etc.

 

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Terça-feira, 29 de Abril de 2014
Equívocos no manual da Santilhana «O projecto desafios, 11º ano de Filosofia», (Crítica de Manuais Escolares- LVI)

 

Alguns equívocos enformam o manual do professor «O projecto desafios, 11º ano de Filosofia», da Santilhana Editores, de Faustino Vaz e Marta Brites, com revisão científica de Adriana Silva Graça e João Cardoso Rosas.

 

 

O VERDADEIRO CONHECIMENTO IMPLICA CRENÇA?

 

Sobre a definição da filosofia analítica àcerca do conhecimento como  «crença verdadeira justificada» diz o manual:

 

CRENÇA

«Este requisito é óbvio. Não é concebível termos conhecimento de factos em que não acreditamos. O conhecimento não pode ser-nos atribuido se não acreditarmos nos factos em questão. Esse é um dos méritos do sujeito que tem uma relação com o mundo bem-sucedida. No entanto, por mais esperançada que seja a crença, se não for verdadeira e se para ela  não tivermos uma justificação adequada, não é um caso de conhecimento». (Faustino Vaz e Marta Brites, «O projecto desafios, 11º ano de Filosofia», revisão científica de Adriana Silva Graça e João Cardoso Rosas, Santilhana Editores, página 154).

 

«Não é concebível termos conhecimento de factos em que não acreditamos», dizem os autores. Ora, ao contrário dessa posição, não acreditar nos factos em questão é, muitas vezes, uma forma superior de conhecimento. O céptico descrê porque conhece intuitivamente que muitos juízos são pura fantasia. Tanto a crença como a descrença - que é uma crença negativa - são ingredientes do conhecimento. Por isso, é redundante e, em muitos casos erróneo, dizer que o conhecimento implica crença. Porque a crença implica um certo distanciamento entre o sujeito e o objecto - daí o «ver para crer» - ao passo que o conhecimento pleno é a pura adesão do sujeito ao objecto, acto no qual a crença se dissipa.

 

Em Platão, a crença é a pistis, que faz parte da doxa ou opinião. Ao nível da episteme (raciocínio científico) ou da noese (apreensão intuitiva do arquétipo) não há crença, há certeza. A certeza é inimiga da crença. Crer em Deus é não ter a certeza absoluta da Sua existência ou dos Seus predicados. Conhecer é estar com as coisas sem crença, é ter intimidade intelectual ou sensorial com essas coisas, materiais ou espirituais.

 

Quando se diz que o conhecimento é crença verdadeira comete-se um erro de paralaxe filosófica.

 

FALTA DE CLAREZA SOBRE ARGUMENTO DE ANALOGIA

Diz o manual:

 

«Consideremos o seguinte argumento por analogia:

 

«Argumento 7

1)  De há muitos anos a esta parte que o verão é a época do ano em que está mais calor, há mais turismo e a economia portuguesa melhora.

 

2) Este verão também há mais calor e mais turismo.

    Logo, a economia portuguesa melhora.»

 

(Faustino Vaz e Marta Brites, «O projecto desafios, 11º ano de Filosofia», revisão científica de Adriana Silva Graça e João Cardoso Rosas, Santilhana Editores, página 120).

 

Crítica minha: o argumento acima não é de analogia mas sim uma dedução de base empírica. A conclusão está implícita na premissa. Os autores não compreendem bem o que é a analogia. Um bom exemplo desta é a seguinte inferência: «O homem é análogo a uma árvore: os pés equivalem às raízes, as pernas e o tronco equivalem ao tronco da árvore, os braços correspondem aos ramos e a cabeça à copa».

 

 

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Quinta-feira, 7 de Março de 2013
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade (2º teste do 2º período, 2013)

 

 Eis um teste de filosofia de final de 2º período lectivo do 10º ano de escolaridade, em Portugal, na linha do ensino da filosofia baseado na compreensão, invenção e relacionação de conteúdos metafísicos, éticos, gnosiológicos, etc, evitando a redução ao deserto da lógica formal e a interpretação minimalista do programa.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA C
4 de Março de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

 

"Aparentemente, pelo menos, o imperativo categórico de Kant é mais difícil de pôr em prática do que a moral utilitarista de Stuart Mill. Lao Tse, filósofo do taoísmo, escreveu que  «o santo conhece sem viajar, compreende sem olhar, realiza sem agir.» e isto liga-se ao combate entre racionalismo e empirismo e tem alguma semelhança com a ética do estoicismo.”

 

1) Explique, concretamente, este texto.

II

2) Relacione, justificando:

A) Lei dialéctica da contradição principal e binómio esquerdas/direitas em política.
B) Hierarquia dos valores, esfera dos valores vitais e esfera dos valores espirituais na doutrina de Max Scheler.
C) Indução amplificante, dedução e percepção empírica.

                                                                                                                    III

3) Construa um diálogo entre um anarquista, um comunista leninista, um social-democrata (socialista democrático), um liberal e um fascista sobre a propriedade das fábricas e quem as deve gerir, e sobre o valor da democracia parlamentar ou liberal (burguesa).

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO EM 20 VALORES

 

1) O imperativo categórico em Kant sustenta a equidade, o agir respeitando todos como pessoa humana: «Age como se quisesses que a tua acção seja uma lei universal da natureza». Isto é impraticável em certos casos como, por exemplo, o de um capitão de um navio que se afunda e tem de escolher entre 200 passageiros em risco de morrer os 30 que devem ir no único salva-vidas disponível. A ética utilitarista de Stuart Mill rege-se pelo princípio da maior felicidade, isto é, a acção deve proporcionar felicidade à maioria dos envolvidos numa situação, mesmo prejudicando algumas pessoas, a minoria. E no caso dos 30 passageiros a ser salvos entre 200 cujas vidas se perderiam, o utilitarismo não conseguiria sequer aplicar o princípio da felicidade da maioria dos envolvidos na situação (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). Lao Tse, filósofo do taoísmo, uma doutrina quietista que assenta na oscilação entre o Yang (dia, luz, movimento) e o Yin (noite, escuridão, repouso), defendeu que se conhece sem viajar, e se compreende sem olhar, isto é, defendeu o racionalismo - a grande fonte dos nossos conhecimentos é o raciocínio, a razão - e minimizou o empirismo - doutrina que diz que as percepções empíricas são a fonte dos conhecimentos e moldam as nossas ideias. O taoísmo, doutrina que preconiza, racionalmente, o não agir, isto é, o não ser ambicioso, não lançar guerras, não seguir as carreiras de político e universitário, é semelhante ao racionalismo estóico porque este preconiza o autodomínio, não ser ambicioso nem colérico, não lançar guerras, não se importar com a opinião injusta dos outros, aguentar e abster-se. (ESTAS FRASES VALEM QUATRO VALORES).

 

2) A) A lei dialéctica da contradição principal sustenta que um sistema de múltiplas contradições/ contrariedades pode ser reduzido a uma única contradição, chamada contradição principal, agrupando num dos polos um bloco de contradições, secundárias entre si, e no outro polo as restantes ou quase todas as restantes contradições. A contradição principal manifesta-se, muitas vezes, entre as esquerdas - o bloco social e político desconfiado dos ricos capitalistas ou mesmo inimigo destes enquanto classe social- e as direitas - o bloco das pessoas amigas dos capitalistas privados, em geral, e do valor liberdade empresarial por cima do valor igualdade social. Em momento de eleição presidencial em segunda volta, como sucedeu em 16 de Fevereiro de 1986, as esquerdas socialista, comunista, trotskista e alguns semi amarquistas uniram-se num polo da contradição principal e votou Mário Soares (51% dos votos); as direitas PSD, CDS, monárquica e outa formaram o outro polo da contradição principal, votando Freitas do Amaral (49% dos votos). (VALE TRÊS VALORES)

 

2)  B) Hierarquia de valores é uma escala ou escadaria de valores, dos mais altos aos mais baixos. Nas quatro esferas de valores idealizadas por Max Scheler há uma hierarquia: em baixo, a esfera dos valores sensíveis (o prazer e a dor; o útil e o inútil), um patamar acima está a esfera dos valores vitais (o nobre e o vulgar, os sentimentos de alegria e tristeza, ciúme, orgulho, humilhação, saúde e juventude, doença e velhice, etc), um patamar acima está a esfera dos valores espirituais (estética: o belo e o feio; ética: o bem e o mal e o concomitante direito, o legal e o ilegal; filosofia ou descoberta da verdade em si e as concomitantes ciências, fundadas na utilidade, verdades por referência). (VALE TRÊS VALORES)

 

2) C) A indução amplificante - inferir de alguns casos particulares, empíricos, uma lei geral; exemplo, observo 200 sobreiros e verifico que em todos se forma uma casca de cortiça e induzo que «Todos os sobreiros do mundo produzem cortiça»- baseia-se na percepção empírica ou observação directa pelos sentidos (visão, tacto, etc; vejo a cortiça nos sobreiros). A dedução- inferir de uma lei ou tese geral para outra tese geral ou para casos particulares - também se relaciona com a percepção empírica (o ver, o tocar, o cheirar, etc) na medida em que esta última confirma ou não a dedução. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) Anarquista: «A propriedade das fábricas deve ser dos trabalhadores e elas devem ser geridas pela assemleia geral de todos os trabalhadores. Queremos a autogestão e não a nacionalização (o Estado patrão) nem a privatização (o patrão capitalista privado).

Comunista : «A propriedade das fábricas deve ser de todo o povo, elas devem ser nacionalizadas a fim de garantir emprego aos trabalhadores e dirigidas por funcionários comunistas que asseguram a realização do plano de produção colectivista decidido pelo governo leninista».

Social-democrata: «As fábricas devem estar, em grande parte na mão de capitalistas privados, aos quais serão aplicados altos impostos progressivos, mas algumas (minas, siderurgia, armamento, etc) devem estar nacionalizadas, ser propriedade do Estado, a fim de fortalecer a classe média.»

Liberal: «As fábricas devem estar todas ou quase todas nas mãos de capitalistas privados, que são o motor da economia.»

Fascista: «As fábricas devem ser dos patrões mas estes não poderão fechá-las nem despedir operários a seu bel-prazer. O Estado nacional fascista terá algumas empresas nacionalizadas - electricidade, minas, siderurgia, etc - e  zelará para que não haja greves nem protestos de esquerda ou outros nas fábricas em geral.»

 

Anarquista: « A democracia parlamentar é um Estado e todos os Estados são ditaduras da classe capitalista ou das classes feudais e semifeudais sobre os trabalhadores. Os anarquistas desprezam as eleições ao parlamento pois estas nunca levam à autogestão, ao poder do povo.»

Comunista leninista:« A democracia parlamentar é melhor que o fascismo mas é um regime que protege os capitalistas privados e a desigualdade social. Os comunistas concorrem às eleições legislativas e autárquicas locais mas gostariam mais de uma ditadura de esquerda, em que a economia fosse nacionalizada sob um governo comunista.»

Socialista democrático: «A democracia parlamentar é o melhor regime político porque os cidadãos gozam de liberdades de greve, imprensa, manifestação de rua, iniciativa empresarial e escolhem livremente através do voto quem os deve governar.»

Liberal: «A democracia parlamentar é o melhor regime político porque os cidadãos gozam de liberdades de greve, imprensa, manifestação de rua, iniciativa empresarial e escolhem, livremente, através do voto quem os deve governar.»

Fascista: «A democracia parlamentar é um regime de fraca qualidade porque permite a liberdade de acção de anarquistas, comunistas, socialistas, gays, lésbicas, emigrantes indesejados, e entrega aos riquezas da pátria áo capital estrangeiro. Os fascistas desejam um Estado nacional, de partido único, uma ditadura de direita.» (VALE QUATRO VALORES)

 

  

 

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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012
Teste de filosofia do 10º ano de escolaridade-I (Dezembro de 2012)

Eis um teste de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal, explorando as potencialidades de um programa que confere elevada autonomia a um professor do secundário.  

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B

4 de  Dezembro de 2012.            Professor: Francisco Queiroz

I

“O fatalismo e o determinismo sem livre-arbítrio ( vulgo: determinismo radical) são doutrinas muito semelhantes mas distinguem-se na questão do acaso. As noções de arquétipo, de participação e de ascese, na teoria de Platão, implicam dogmatismo e, para alguns pensadores, exprimem  subjectivismo. “

 

1) Explique concretamente este texto.

 

II

2) Relacione, justificando:

A)  Indução amplificante e lei do salto qualitativo.

B)  Forma, matéria e substância individual, em Aristóteles, e três termos do silogismo regular.

C) Dedução, filosofia e ideologia.

 

III

 

3)Disserte sobre o seguinte tema, de modo a estabelecer quatro correspondências:

   “As quatro causas de um ente segundo Aristóteles e as quatro esferas de valor segundo Max Scheler

 

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA UM TOTAL DE VINTE VALORES

 

1) O fatalismo é a corrente que sustenta que todos os acontecimentos estão predestinados e não existe acaso nem livre-arbítrio humano. O determinismo radical, ou sem livre-arbítrio, sustenta que o homem não tem liberdade de escolha e que tudo se rege por leis necessárias de causa-efeito, havendo, no entanto, lugar para o acaso que impede a predestinação absoluta. (VALE TRÊS VALORES). As noções de Arquétipo, uma forma eterna e perfeita, existente acima do céu visível, no mundo inteligível, que serve de modelo ao mundo sensível da Terra e aos homens, de Participação, ou seja, a imitação que os entes da matéria são em relação aos arquétipos e de Ascese, ou seja, a ascensão da alma, estando vivo o corpo, ao mundo inteligível mediante a filosofia, a matemática, a ginástica, a música, implicam dogmatismo, isto é, crença, ter certezas ( sobre os arquétipos, a participação, etc). Segundo alguns, estas noções exprimem subjectivismo, isto, é uma visão íntima e particular da verdade, que varia de pessoa a pessoa e que, em muitos casos, se identifica com ilusão, fantasia. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) A) Indução amplificante é o raciocínio que transforma alguns exemplos empíricos similares numa lei universal infalível ( exemplo: « 10 doentes do estômago melhoraram com a dieta de bananas e leite magro, logo a totalidade dos doentes de estômago do mundo melhorará com a mesma dieta»). O salto qualitativo é a passagem de dez exemplos a milhões de exemplos possíveis similares e corresponde à lei que se enuncia assim: a acumulação gradual e lenta, em quantidade, de um factor num fenómeno ( neste caso: o conhecimento médico-dietético de alguns casos) leva a que num dado instante se produza um salto de qualidade (neste caso: a teoria geral) nesse fenómeno. (VALE DOIS VALORES).

 

2) B) O silogismo regular é um raciocínio dedutivo de três frases que possui três termos: maior, médio e menor. Associam-se dois a dois em cada uma das três proposições do silogismo. Exemplo:

      «Os homens são animais.

       Platão é homem.

       Platão é animal.»

 

Neste silogismo o termo maior é animal, o médio é homem e o menor é Platão.

 

Aristóteles defendia que a substância individual - equivalente, no silogismo ao termo menor (Platão) - é um composto que resulta da união da forma da espécie, o eidos - neste caso: homem, a forma comum homem - com a matéria-prima universal (hylé), absolutamente indeterminada, isto é, sem forma. Por exclusão de partes, o termo maior do silogismo corresponde, de certo modo, à matéria-prima indeterminada, que não tem limites, e é mais extensa que a forma. (VALE TRÊS VALORES).

 

2)C) A dedução é um raciocínio em que a conclusão está implícita nas premissas e processa-se por necessidade lógica, de uma premissa  geral a uma conclusão particular ou do geral ao geral. A filosofia, pensamento racional e intuitivo que visa descobrir o lado oculto do mundo, do ser humano e da existência e interpretar o lado visível, usa muitíssimo a dedução porque raciocina continuamente. A ideologia é um sistema de ideias e valores próprio de um grupo social, de uma classe social, de um povo, de uma civilização: a ideologia do capitalismo, a ideologia do comunismo, a ideologia hippie, a ideologia gótica, a ideologia islâmica, a ideologia cristã, etc . Podemos dizer que a ideologia é uma filosofia particular, mas não toda a filosofia. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) As quatro causas de um ente, segundo Aristóteles, são: formal, material, eficiente e final. Max Scheler estabeleceu quatro esferas ou modalidades de valor e em cada uma delas valores de coisa, de função e de estado:

- Esfera dos valores sensíveis (prazer e dor físicos, agradável e desagradável, sendo o útil e o inútil valores de referência). Corresponde à causa material (matéria constituinte de algo), em Aristóteles, porque os valores de coisa são estritamente materiais. Exemplo: nesta esfera, sopa de feijão é um valor de coisa, apetite e capacidade digestiva é um valor de função e sensação de saciedade com o estômago cheio ou semi cheio é um valor de estado.

- Esfera dos valores vitais ( sentimento do nobre e do vulgar, coragem e cobardia, saúde e doença, juventude e velhice, sentimento de vitória ou de derrota, ciúme, inveja). Corresponde à causa eficiente, porque esta é a fabricante do ente e a coragem, a vontade de vitória são fabricantes, motores de actos. Exemplo: nesta esfera, um castelo ou cidade a conquistar pelas armas é um valor de coisa, apetite guerreiro e capacidade de luta  é um valor de função e sentimento  de vitória ou de derrota após a batalha é um valor de estado.

-Esfera dos valores espirituais ( bem e justo,mau e injusto, ética; belo e feio, estética; verdadeiro e falso, filosofia, e como domínio derivado, ciências ). Corresponde à causa formal em Aristóteles, porque esta é o modelo de cada coisa ou fenómeno.  Exemplo: nesta esfera, o livro «Metafísica» de Aristóteles é um valor de coisa, a capacidade de ler e entender as suas teses é um valor de função e sentimento  de sabedoria filosófica alcançado é um valor de estado.

- Esfera dos valores do santo e do profano ( deuses ou Deus ou espíritos eternos, numa perspectiva; o universo sem Deus nem deuses, noutra perspectiva). Corresponde à causa final em Aristóteles, porque Deus ou a matéria geradora de tudo são a finalidade das especulações. Exemplo: nesta esfera, o santuário cátaro de Montsegur é  um valor de coisa, a capacidade de sentir o divino ou o mágico desse lugar montanhoso é um valor de função e o sentimento  de integração com a divindade ou o cosmos inteiro, alcançado aí, é um valor de estado. (VALE CINCO VALORES; OUTRAS RESPOSTAS CORRECTAS SÂO POSSÍVEIS)

 

 

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