Quarta-feira, 5 de Março de 2014
Equívocos em «O essencial em actividades» de Ser no Mundo 10º ano de Filosofia (Crítica de Manuais Escolares- LIV)

 

O livro  de exercícios "O essencial em actividades"  anexo ao manual de filosofia 10º ano "Ser no mundo"  de André Leonor e Filipe Ribeiro, da Areal Editores, é um espelho da confusão instalada pela filosofia analítica anglo-norte-americana entre as universidades e os professores de filosofia do ensino secundário. As famosas perguntas de escolha múltipla possuem, frequentemente, duas ou três respostas certas mas os autores deste manual acham que só há uma resposta certa para cada grupo das quatro respostas possíveis que elaboram...

 

O DETERMINISMO DIZ QUE O LIVRE-ARBÍTRIO É ILUSÃO?  QUE CONFUSÃO...

 

Vejamos a primeira questão do grupo I da ficha 02 deste manual de exercícios "Ser no mundo, 10º ano", centrada num texto de Durkheim:

 

 

"Quando desempenho a minha tarefa de irmão, de esposo ou de cidadão, quando executo os compromissos que tomei, cumpro deveres que estão definidos, para além de mim e dos meus actos, no direito e nos costumes. Mesmo quando eles estão de acordo com os meus sentimentos próprios e lhes sinto interiormente a realidade, esta não deixa de ser objectiva, pois não fui eu que os estabeleci, antes os recebi pela educação. (...)

«Estes tipos de conhecimento ou de pensamento não são só exteriores ao indivíduo, como dotados dum poder imperativo e coercivo en virtude do que lhe impõem, quer queira, quer não. Sem dúvida, quando a ela me conformo de boa vontade, esta coerção não se faz, ou faz-se pouco, sentir, por inútil.»

(..................................................................................................................................................)

(E.Durkheim, As regras do método sociológico, Presença , pp 29-31)

 

 

 

Grupo I

 

Relacione a frase destacada no texto com o argumento determinista de acordo com o qual o livre-arbítrio é ilusão.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, página 15)

 

Resposta dos autores: Segundo os defensores do determinismo, a liberdade do ser humano não passa de uma ilusão. Nos casos em que julgamos agir por vontade própria, esta liberdade apenas resulta de causas objectivas que desconhecemos.

Da mesma forma, na frase destacada no texto, mesmo quando julgamos agir de acordo com a nossa vontade, o móbil da acção não está no sujeito. (in "O essencial em actividades", pág. 60).

 

Crítica minha: É um erro dizer que, «segundo os defensores do determinismo, a liberdade do ser humano não passa de uma ilusão». Há defensores do determinismo, designados radicais, que sustentam que não há espaço para existir livre-arbítrio e há defensores do determinismo, baptizados de moderados ou compatibilistas - na equívoca classificação dos "analíticos" - que sustentam que há livre-arbítrio mais além da vasta rede do determinismo. O que André Leonor e Filipe Ribeiro deveriam dizer é: «segundo os defensores do fatalismo, e segundo os defensores  do "determinismo radical" a liberdade do ser humano não passa de uma ilusão», mas confundem determinismo, doutrina segundo a qual, nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, com fatalismo, doutrina segundo a qual tudo está predestinado e não existe livre-arbítrio.

 

SÓ HÁ ACÇÃO HUMANA QUANDO HÁ VONTADE CONSCIENTE E DELIBERAÇÃO? SE ASSIM FOSSE OS HOMENS SERIAM ANJOS...

 

Prossigamos a análise do livro de exercícios da Areal Editores 10º ano de filosofia, na ficha 2:

 

 

Grupo II

 

«Na resposta a cada um dos itens de 1.1 a 1.4. , selecione a única opção correcta.

 

1.1. Consideramos que se trata de acção humana quando:

 

(A) O sujeito tem papel passivo naquilo que acontece.

(B)  Aquilo que sucede implica um movimento realizado por um ser humano, ainda que involuntariamente.

(C)  O que sucede resulta da decisão consciente, voluntária de um agente.

(D)  Algo é realizado por um ser humano.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 16)

 

Resposta dos autores: Só a hipótese "C" está certa.

 

Crítica minha: As hipóteses B, C e D estão correctas. Existe acção humana voluntária e acção humana involuntária. Que é o homicídio involuntário senão uma acção humana? Se um condutor de um autocarro adormece ao volante e o autocarro se precipita por uma ravina, morrendo dezenas de passageiros, podemos dizer que não houve acção humana, nesse acontecimento, como sustentam Leonor e Ribeiro? É óbvio que houve. O motorista foi o agente dessa tragédia. Se não se tratasse de uma acção humana, os juízes não poderiam julgar o motorista. Restringir a acção humana aos actos que brotam de uma deliberação racional (livre-arbítrio) é considerar que o homem não pertence à animalidade - e isto está em paralelo com a estúpida noção de libertismo segundo a qual o homem decidiria como um anjo no céu, sem sofrer pressão alguma das suas células, do nível de açúcar no sangue, da pressão exterior económica, política, etc, da sociedade. Com que legitimidade vêm Leonor e Ribeiro impor, taxonomicamente, que uma explosão de fúria e violência de um homem num bar, após ser empurrado, não é uma acção humana só porque não foi deliberada, pensada, sujeita a livre-arbítrio?

 

CONDICIONANTES BIOLÓGICAS É CLARAMENTE DISTINTO DE CONDICIONANTES FÍSICAS?

 

 E prossegue a ficha 2 do livro de exercícios de André Leonor e Filipe Ribeiro:

 

«1.3  Analise as afirmações que se seguem sobre as condicionantes da acção humana. Selecione, em seguida a opção correcta:

 

A) As condicionantes biológicas estão associadas aos limites físicos de cada indivíduo, enquanto as psicológicas se referem a traços de personalidade.

 

B) As condicionantes físicas estão associadas aos limites físicos de cada indivíduo, enquanto as psicológicas se referem a traços de personalidade.

 

C) As condicionantes biológicas  estão associadas aos limites característicos da espécie humana, enquanto as psicológicas se referem às limitações do organismo humano.

 

D) As condicionantes físicas  estão associadas aos limites característicos da espécie humana, enquanto as psicológicas se referem às limitações do organismo humano.» 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, página 17)

 

Resposta dos autores: A única resposta certa é a "B".

 

Crítica minha: Esta questão exprime uma grande miopia de raciocínio. É um exemplo de como não se devem fazer perguntas de escolha múltipla de respostas que quase nada diferem ou nada diferem entre si. Todas as respostas estão certas. A resposta "A" está certa: as condicionantes biológicas de um indivíduo - por exemplo, a capacidade respiratória reduzida de uma pessoa operada a um pulmão - ligam-se aos seus limites físicos -no exemplo: a pessoa dispor apenas de um pulmão, tendo-lhe sido amputado o outro. A resposta "B" também está certa: o físico identifica-se com o biológico, basicamente.

 

A resposta "C" também está certa, por muita surpresa que isso cause: é óbvio que as condicionantes biológicas  estão associadas aos limites característicos da espécie humana, -  a espécie humana não tem guelras , por isso cada homem não pode ter vida subaquática permanente - e, adoptando o ponto de vista behaviorista, que nega a subsistência de uma psique congénita em cada pessoa, é verdade que as condicionantes psicológicas se referem às limitações do organismo humano - por exemplo: a tristeza, a depressão estão ligadas, ao menos nos idosos, à falta de vitamina "D".

 

A resposta "D" está igualmente certa, pois é praticamente igual à "C".

 

O FAZER NÃO IMPLICA OBJECTIVOS DEFINIDOS E CONSCIENTES?

 

E eis outra deformada questão da ficha 2, Grupo 2, do manual que estamos a analisar:

 

«1.4 Analise as afirmações que se seguem acerca da distinção entre agir e fazer. Selecione, em seguida, a opção correcta.

 

A) O agir tem em vista um objectivo enquanto o fazer é voluntário.

 

B)  O agir não implica qualquer decisão, enquanto o fazer implica uma decisão consciente.

 

C) O fazer é exclusivo dos animais e o agir é exclusivo do ser humano.

 

D) O agir é voluntário, ao passo que o fazer não implica objectivos definidos e conscientes.»

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 17).

 

Resposta dos autores: A única resposta correcta é a "D".

 

Crítica minha: Seria preciso definir cientificamente o que é fazer e o que é agir. É o fazer uma modalidade (espécie) do agir (género)? É o agir uma modalidade do fazer? São dois géneros mutuamente independentes?. Não há unanimidade sobre isto. Logo é arbitrário construir e avaliar perguntas com esta terminologia. A maioria dos autores de manuais dá como exemplos do  "agir"  actos como conversar (mas conversar não é fazer diálogo?), filosofar, viajar, escrever (mas escrever não é fazer um texto?), dizer mal de alguém ou reconciliar-se com alguém  e como exemplos do "fazer" actos como lavrar os campos, colher frutos das árvores, fabricar objectos com maquinaria, guiar automóvel, digerir comida (fazer a digestão), excretar resíduos, etc. O fazer teria um sentido mais prático, mais imerso no mundo material, do que o agir. Assim se diz: «Tenho de fazer dinheiro, a trabalhar» e não se diz : «Tenho de agir dinheiro, a trabalhar».

 

Quando André Leonor e Filipe Ribeiro apontam como resposta certa «O agir é voluntário, ao passo que o fazer não implica objectivos definidos e conscientes.» equivocam-se. Então, um carpinteiro que faz ou fabrica mesas não tem o objectivo definido de materializar o modelo que tinha em mente e de o vender por um preço compensador?  É óbvio que tem. A resposta "D" está (parcialmente) errónea.

 

Nenhuma das quatro respostas se pode considerar correcta sem se definir à partida, com clareza, agir e fazer.Para Lao Tsé, o filósofo chinês do taoísmo, agir e fazer é a mesma coisa, por isso usou o termo não-agir. 

 

O INTERCULTURALISMO IMPEDE O TOTAL DIÁLOGO COM VALORES INTOLERÁVEIS?

 

Na ficha 3, figura a seguinte questão:

 

1-4  Segundo o interculturalismo:

(A)  É possível universalizarem-se todos os valores.

 

(B)  Há lugar à constituição de valores transculturais.

 

(C) Os valores universalizáveis devem depender da cultura mais forte.

 

(D)  Devemos ter uma atitude de total diálogo com valores que nos são alheios, mesmo que não sejam toleráveis. »

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 22).

 

Resposta dos autores: a única resposta certa é a "B".

 

 

Crítica minha: Se por interculturalismo entendermos a troca de ideias e informações entre diversas culturas e ideologias e a exposição dos valores de todas elas, isso implica um total diálogo com os valores alheios aos nossos. Se sou interculturalista, que me impede de dialogar com um nazi, com um estalinista, com um fundamentalista islâmico ou com um fundamentalista judeu? Há, portanto, duas respostas certas: a "B" e a "D" .

 

O JUÍZO ESTÉTICO NÃO É UM JUÍZO DE CONHECIMENTO?

 

Na ficha 6 do manual, está a seguinte questão do grupo II:

 

1.2  Analise as afirmações que se seguem sobre o juízo estético. Seleccione em seguida a opção correcta.

 

(A) O juízo estético resulta da avaliação dos críticos de arte.

 

(B) O  juízo estético não é um juízo de conhecimento nem obedece a normas morais.

 

(C)  O juízo estético é um juízo de valor que obecece a normas éticas.

 

(D) O juízo estético é um juízo de conhecimento. »

 

(André Leonor, Filipe Ribeiro, O essencial em actividades, Filosofia 10º ano, Ser no Mundo, Areal Editores, página 44).

 

Resposta dos autores: a correcta é a afirmação "B".

Crítica minha: A resposta correcta é a "D". A resposta "B"  está errada. Então o juízo estético não é de conhecimento? Se assim fosse, não seria possível um júri de cinema dizer, com um mínimo de fundamento, que «12 anos escravo» ou «Gravidade» foram os melhores filmes do ano, nem se poderia dizer que o poeta A é superior, a versejar,  ao poeta B. O que é o conhecimento? É a apreensão, sensorial-intuitiva ou intelectual-racional,  de uma realidade material, ideal ou outra por uma mente. O juízo estético exprime o conhecimento da arte e da natureza física na sua vertente artística. É um juízo essencialmente sensorial mas constitui conhecimento.

 

Este tipo de perguntas, mal concebidas, fruto de mentes analíticas que vêem a árvore isolada mas não a floresta (hiper-análise),   conduzem a respostas ambíguas ou erróneas e só contribuem para confundir alunos e professores.  É isto o teor do "ensino da filosofia" dominante hoje em Portugal no ensino secundário e no sector universitário da filosofia analítica: definições unilaterais impostas ditatorialmente aos alunos (por que razão os alunos têm de distinguir actos humanos de actos do homem, uma vez que essa é versão particular de São Tomás de Aquino, se acto humano é, semanticamente, o mesmo que acto do homem?), incapacidade de pensar dialecticamente, erros notórios de lógica informal.

 

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
David Hume considerava a matemática um conhecimento a priori? (Crítica de manuais escolares - XLI)

 

Diversas imprecisões sobre David Hume são veiculadas nos manuais de filosofia para o ensino secundário. Um exemplo é o do manual «A arte de pensar» da Didáctica Editora, no qual se lê que «David Hume reconhece que há conhecimento a priori»:

 

 

«A priori e a posteriori»

 

«Os exemplos mais óbvios de verdades necessárias são as verdades matemáticas, as quais se limitam a exprimir relações de ideias. Mas são também conhecidas a priori, pois basta-nos usar o conhecimento para conhecê-las ou o raciocínio dedutivo para demonstrá-las. Por sua vez as verdades sobre questões de facto são contingentes e são conhecidas a posteriori, defende Hume. Mas o que significa tudo isto? »

«Significa que o conhecimento a priori, apesar de absolutamente certo, não é acerca do mundo, pois a sua verdade é independente de qualquer observação do mundo. Portanto, Hume reconhece que há conhecimento a priori, mas acrescenta que este conhecimento não é substancial, no sentido em que nada nos diz sobre o que existe fora do pensamento, nem nos diz como são as coisas no mundo. Isso só a posteriori podemos sabê-lo. » (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 158, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ora, David Hume disse exatamente o oposto: em matemática, não há conhecimentos a priori. Vejamos o que escreveu:

 

«Geralmente, os matemáticos alegam que as ideias que lhes servem de objeto são de natureza tão refinada e tão espiritual que não entram na concepção da imaginação, mas devem ser compreendidas por uma visão pura e intelectual, de que só as faculdades da alma são capazes. A mesma opinião anda espalhada pela maior parte da filosofia e é principalmente utilizada para explicar as nossas ideias abstratas e para formar a ideia de um triângulo que, por exemplo, não seja nem isósceles, nem escaleno, nem se restrinja a um determinado comprimento e proporção dos lados. É fácil de ver por que é que os filósofos gostam tanto desta teoria das percepções espirituais e refinadas: é que por este meio encobrem muitos dos seus absurdos e podem recusar submeter-se ao juízo das ideias claras, recorrendo a ideias obscuras e incertas. Porém, para destruir este artifício não temos senão que refletir no princípio tantas vezes repetido de que todas as nossas ideias são cópias das nossas impressões.»( David Hume, Tratado da natureza humana, pags 106-107, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

 

Hume diz que é um absurdo pretender, como o fazem muitos matemáticos e filósofos, que as ideias abstratas são obtidas por uma visão pura e intelectual, que não derivam de dados empíricos, isto é, que são obtidas a priori. Para Hume, esta teoria das percepções espirituais ou refinadas, a priori, esquece que as ideias são sempre singulares e a ideia de triângulo isósceles é cópia de impressões sensíveis de um triângulo isósceles determinado. Não há, segundo Hume, ideias nem cálculos matemáticos a priori, ao contrário do que acima afirmam os autores de «A arte de pensar».

 

HUME É CÉTICO OU NÃO?

Escreve ainda a «Arte de pensar»:

 

 

«Cepticismo moderado»

 

«Apesar das suas conclusões céticas, Hume não é um cético. Isto porque, ao contrário dos céticos, Hume defende que não devemos abandonar as nossas crenças intuitivas na existência do mundo exterior ou na existência de relações causais reais. Isto porque abandonar as nossas crenças tornaria a nossa vida impossível e poria em causa o nosso instinto de sobrevivência.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 163, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Assim, segundo este texto, Hume produz conclusões céticas mas não é um cético. É cético e não é cético, diz a «Arte de pensar». É um pouco confuso, convenhamos...Quererão os autores dizer que Hume é cético em algumas áreas e dogmático noutras? É preciso ser claro. Em quais? É realista? É idealista? Sobre isto, a «Arte de Pensar» é omissa. Basta dizer que é cético? Não, porque, pelos vistos, o nevoeiro do ceticismo não cobre a totalidade das afirmações de Hume.  

 

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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
Luís Rodrigues e Luís Gottschalk não compreendem o idealismo de Kant (Crítica de Manuais Escolares- XL)

 

No seu manual para o ensino secundário, adotado em dezenas ou mesmo centenas de escolas em Portugal, Luís Rodrigues demonstra, à semelhança de Karl Popper, de Bertrand Russell e dos professores universitários portugueses e estrangeiros em geral, uma incompreensão fundamental da ontognosiologia de Kant. Escreve Rodrigues:

 

«Assim todo o conhecimento começa com a intuição sensível, ou seja, com a recepção de dados ou impressões sensíveis mediante duas formas com as quais a sensibilidade está equipada: o espaço e o tempo. Intuir é, portanto, receber dados empíricos, espacializando-os e temporalizando-os.»

 

«Exemplificando:

 

«Um automóvel passa frente à minha casa ao meio-dia, fazendo muito barulho e buzinando constantemente. O automóvel provoca em mim uma determinada impressão sensível. Eu recebo esta impressão sensível de uma determinada forma, isto é, espacializo-a e temporalizo-a porque me refiro ao barulho do automóvel como verificando-se em frente à minha casa (espacialização) e a uma determinada hora (temporalização). Assim, vê-se que a intuição sensível consiste em estabelecer uma relação espácio-temporal entre as impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo, do automóvel).» (Luís Rodrigues, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, página 198, consultor, Luís Gottschalk; a letra a negrito é um sublinhado meu).

 

O erro de Luís Rodrigues é não perceber que o automóvel não é uma coisa exterior ao espírito humano mas uma construção dentro deste, um fenómeno cuja consistência é ideal-sensorial, ou seja, é um conjunto de intuições empíricas geradas no espaço que constitui a «mente exterior do sujeito». Rodrigues e Gottschalk interpretam Kant como se este fosse um realista ontológico - no caso: como se o automóvel existisse fora do espírito do sujeito e circulasse por uma rua exterior ao espírito humano- quando Kant é um idealista ontológico ou idealista transcendental, isto é, alguém que diz que os objetos materiais são conjuntos de sensações ou ideias forjadas na parte da minha mente que extravasa o meu corpo físico e engloba o universo inteiro.

 

Que diz Kant sobre a matéria que compreende, no caso que estamos a considerar, a chapa, o volante, o motor, os estofos, os pneus do automóvel? Que a matéria é uma simples representação, um conjunto de imagens e conceitos no nosso espírito:

 

«Com efeito, a matéria cuja unidade com a alma levanta tão grandes dificuldades não é outra coisa que uma simples forma ou um simples modo de representação de um objeto desconhecido, formado por aquela intuição que designamos por sentido externo. Deve, portanto, haver algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno que chamamos matéria.» (Immanuel Kant, Crítica da razão pura, páginas 361-362, nota de rodapé, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra a negrito é colocada por mim).

 

A matéria não é um «em si». Não é algo que exista independente de nós. O fenómeno (automóvel, casa, gato, etc) não está fora de nós, do nosso eu-espírito-cosmos: está somente fora do nosso corpo físico. Mas Rodrigues e Gottschalk apresentam-nos o automóvel, que é matéria, como coisa em si, independente de nós. É ainda um erro falar nas «impressões sensíveis (sensações) provenientes das coisas (por exemplo: o automóvel) », coisas estas que estariam fora de nós. Os objetos fora de nós (númenos) não nos enviam sensações: estas são produzidas na nossa sensibilidade, dentro de nós, sob o influxo de uma desconhecida excitação exterior emanada dos númenos, o que é diferente.

 

Este equívoco de supor que segundo a gnosiologia de Kant, há um objeto material fora de nós é geral no meio dos professores universitários e leva-me a interrogar: há verdadeiros filósofos nas cátedras universitárias de hoje ou apenas reprodutores, algo inábeis porque deformantes, da tradição filosófica?  

 

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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
A experiência estética não é uma atitude cognitiva? (Crítica de Manuais Escolares -XXXV)

No manual Filosofia 10º ano de Luís Rodrigues lê-se:

 

«A atitude estética...

b) Não é uma atitude cognitiva (de conhecimento).

A relação com os objectos naturais e artísticos na experiência estética não é motivada primordialmente pela vontade de adquirir e de ampliar conhecimentos.» (Luís Rodrigues, Filosofia 10º ANO, 2º volume, Plátano Editora, pag 70)

 

A atitude estética não é cognitiva?  Luis Rodrigues, tal como John Hospers, Pedro Galvão, Desidério Murcho e outros, está claramente equivocado nesta matéria.

Toda a experiência estética é conhecimento sensorial ou sensorial-intelectual. Sem ver - isto é conhecer através da visão, obter cognição - um quadro de Rafael ou de Leonardo da Vinci, não há emoção estética àcerca desse quadro. Sem ouvir - isto é conhecer sensorialmente através da audição- os sons de uma música de Mozart, não se experiencia esteticamente esta.

 

O conceito de cognitivo é deformado por Luís Rodrigues e outros. Há o cognitivo sensorial e o cognitivo intelectual. Não se pode reduzir o cognitivo ao intelectual-racional.

 

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008
Acções «causadas» e «não causadas», confusões de um manual de Filosofia (Crítica de manuais escolares-XXXI)

No manual português Filosofia 10º ano, de Luís Rodrigues, da Plátano Editora, manifesta-se uma confusão entre as noções de «acção causada» e de «acção não causada». Diz o manual:

 

«Transformar o indeterminismo em posição filosófica é defender que as acções livres são acções não causadas. Por mais que esta ideia possa parecer simpática ao defensor do livre-arbítrio, encerra vários problemas:

1- Acções não causadas são simplesmente algo que nos acontece, o que não parece coadunar-se com a noção de acção como algo que acontece por nossa iniciativa.

2- Acções não causadas ou imprevisíveis são acções que escapam ao nosso controlo, o que não parece coadunar-se com a ideia de livre-arbítrio, isto é, de que há acções que dependem da nossa vontade.

3- Se uma acção não é causada então propriamente não é da minha autoria e por ela não posso ser responsabilizado. Só somos responsáveis pelas acções que resultam da nossa vontade e não do acaso. »( Luis Rodrigues, Filosofia 10º ano, pag 90).

 

Luís Rodrigues, como aliás outros autores, adultera o conceito de acção não causada identificando-o com o de acção não causada por mim (sujeito). É subverter a semântica: ninguém pensa bem se distorcer o significado das palavras. A semântica (lógica informal) prevalece sobre a lógica formal.

 

Ora, afinal, ao contrário do que defendem Rodrigues e os seus amigos, são também causadas as acções geradas por outrém, ou pelo sistema de causas e efeitos invariáveis designado por determinismo, ou pelo destino. A queda de uma maçã é uma acção «incausada»? Ou é uma acção causada pela lei da gravidade e pela deterioração do pedúnculo da maçã?

Ao sustentar que há acções não causadas, Luís Rodrigues nega o princípio da razão suficiente formulado por Schopenhauer segundo o qual «nada acontece sem causa, sem uma razão que lhe dê origem.»

É óbvio que a principal fonte filosófica que informa Luís Rodrigues, Desidério Murcho, Aires Almeida, Pedro Galvão, Paula Mateus, Pedro Madeira, António Paulo Costa e outros autores de manuais é o tão famoso quanto confuso catedrático Simon Blackburn cuja definição de indeterminismo Luís Rodrigues cita:

 

INDETERMINISMO

Concepção segundo a qual alguns acontecimentos não têm causa: limitam-se a acontecer e nada há no estado prévio do mundo que os explique. Segundo a mecânica quântica, os acontecimentos quânticos têm esta propriedade.   (BLACKBURN, Simon, (1997.)  Dicionário de Filosofia, Lisboa, Gradiva, pag 226).

 

A mecânica quântica, segundo parece, não sustenta a inexistência de causas: afirma, sim, que as causas são livres, isto é, a mesma causa produz efeitos diversos, não sendo possível estabelecer regularidades exactas. Indetermismo não é, pois, a não existência de causas. É a não existência da série de causas A ligadas infalivelmente à série de efeitos B, isto, é, a negação do determinismo.

Inexistência de causas designa-se por acausalismo.

É também errónea a definição de determinismo dada por Luís Rodrigues:

 

«O determinismo é a doutrina segundo a qual todos os acontecimentos têm uma causa. Por outras palavras, tudo sem excepção é  resultado ou efeito de causas anteriores.» (Luis Rodrigues, Filosofia 10º ano, pag 88).

 

Isto corresponde ao conceito de causalismo. O princípio do determinismo é outro e formula-se assim: nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.

Com tantas nuvens de confusão nos manuais de Filosofia adoptados em Portugal - e certificados por uma autoridade nacional! -  não é de estranhar que os professores e alunos deslizem, como aviões desgovernados, nos céus da Filosofia e se despenhem no pântano do pensamento caótico.

 

 

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