Sábado, 17 de Novembro de 2012
Questionar Aristóteles: possessão-privação é distinto de contradição?

Aristóteles foi, a meu ver, o maior filósofo dialético da Antiguidade clássica grega. Definiu quatro tipos de opostos: os contrários, os contraditórios, os relativos e os privativos/possessivos. Há ainda os intermédios que fazem a mediação entre os contrários. Mas nesta divisão desdobrada num mesmo plano afigura-se-me haver, pelo menos, um paralogismo.

 

Ser e não ser é uma oposição de contradição mas é também uma oposição de posse e privação: o ser possui ser mas está privado de não ser e viceversa, o não ser está privado de ser. Afinal qual é a diferença? A oposição entre a possessão e a privação não é senão o lado formal da contradição, o enunciado abstracto desta, da dicotomia A  e não-A. Ou se possui A ( e se está privado de não-A) ou se possui não-A (e se está privado de A).

Não há possessão /privação fora da contradição, a meu ver. Aristóteles escreveu:

 

«Por sua vez,  a contrariedade primeira é possessão e privação, mas não qualquer privação (pois "privação" tem muitos sentidos), senão a completa. ( Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1055a, 30-35).

«A privação, por seu lado, é um tipo de contradição.» ( Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1055b, 1-5).

 

 

Questionemos Aristóteles. Por que razão só a contrariedade primeira é possessão-privação completa e a contrariedade segunda, como, por exemplo, mesa de madeira e fogueira, não é possessão e privação completa? A mesa de madeira está privada de fogo e possui moléculas de celulose e o fogo em si, nas suas partículas ígneas, está privado da mesa de madeira. Aristóteles situa, no texto acima, a privação-possessão como um tipo de contradição, uma espécie dentro do género contradição. Não está a ser exacto, a meu ver. Toda a contradição, incluindo a contrariedade, é, na sua estrutura, uma oposição entre posse e privação.


«E de certo modo a forma dos contrários é a mesma, posto que a substância da privação é a substância oposta, por exemplo, da doença a saúde, já que a ausência desta é a doença, e a saúde é, por sua vez, a noção que está na alma, quer dizer, o conhecimento.»( Aristóteles, Metafísica, Livro II, 1032b, 1-5).


Se a forma dos contrários é a mesma, o que os distingue? O conteúdo, a matéria (interior à forma). Assim há possessão e privação ao nível da forma, da essência, e ao nível da matéria, da existência. Neste último caso diremos, por exemplo, que há uma contradição entre estar e não estar nesta sala: estou nela às dezasseis horas de um dado dia mas às dezoito horas estou ausente. A contradição entre estar e não estar é diacrónica, os seus campos opostos desdobram-se no tempo, não são simultâneos, excepto no pensamento. Não é pois, possível, estudar o ser (entendido como essência) sem implicar o tempo (existência)- e isto contraria a linha de investigação heideggeriana, deficiente do ponto de vista dialético, porque atribui à ontologia tradicional a «confusão» entre ser e tempo, como se fosse possível isolar entre si estas duas dimensões .

 

Apesar de grande dialético, Aristóteles não conseguiu evitar estas duplicações do mesmo conceito: contradição (A versus não-A), possessão-privação (A versus não A). Ora a dialética divide cirurgicamente a realidade, as coisas, usando a díade (dualidade) e a tríade (trialidade). Há, no entanto, maior profundidade em Aristóteles, do que em Heidegger ou em Hegel, sem embargo de estes terem gerado doutrina filosófica distinta da do Estagirita. Em termos de estatura de pensamento: Aristóteles o maior, depois Hegel e, em terceiro lugar, Heidegger.

 

 

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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2012
A incompreensão de Eduardo Lourenço sobre a luta de contrários na dialética de Hegel

 

Eduardo Lourenço, prémio Pessoa, esforçou-se por refutar a dialética de Hegel. Citou a seguinte passagem do filósofo alemão do século XIX:

 

«É ele mesmo que é preciso interrogar: o que é isto? Tomemo-lo sob o duplo aspecto do seu ser como agora e aqui, e então a dialética tomará uma forma tão inteligível como o mesmo isto. Á questão: o que é agora? Nós respondemos, por exemplo: o agora é a noite. Para experimentar a verdade desta certeza sensível uma qualquer experiência será suficiente. Notemos por escrito essa verdade; uma verdade não perde nada em ser escrita e tão pouco em ser conservada. Vejamos, entretanto, ao meio-dia essa verdade escrita: devemos dizer então que ela desapareceu. O agora que é a noite é conservado, quer dizer que é tratado como aquilo que se fez passar como um sendo; mas ele demonstra-se como um não sendo.» (Hegel, Fenomenologia, pag 206 citado em Eduardo Lourenço, Obras Completas, I, Heterodoxias, pag 123, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

E prossegue Eduardo Lourenço na crítica a esta passagem de Hegel:

 

«Traduzamos a fraseologia para linguagem corrente. Hegel atribui à certeza sensível um conteúdo situado ou no tempo ou no espaço. Um instante decorrido ou uma mudança de situação ou perspetiva e o conteúdo da certeza sensível não é o que era, mas outro. Esse facto exprime realmente a dialética imanente ao ser sensível, mas por que motivo Hegel conclui de uma passagem de algo a outra coisa, como sendo a passagem de duas coisas contrárias?  Pelo facto de não serem idênticos, segue-se que sejam contrários?  Do sendo que era a primeira determinação do agora, como concluir necessariamente para o agora como não sendo? Não se vê nesta dialética nada que exprima um modo de verdade, uma determinação do absoluto

 

«A contrariedade absoluta não se manifestou. Antes pelo contrário: algo permanece que permite pensar o movimento da noite ao dia e é o agora.

«Contudo, o movimento descrito por Hegel não contém a ideia do contraditório e de facto não o é. A razão está em que esse movimento de pensamento que parece ser ele mesmo como mediação, o absoluto da unidade sintética dos opostos, só existe em função dessa ideia de absoluto. Esse é o segredo da dialética. O absoluto não é nem a construção da síntese nem o seu fim mas o seu pressuposto. O sendo do agora não passa a puro não sendo mas precisamente a não sendo do agora, o absoluto do agora (absoluto relativamente a esse sistema) participando simultaneamente das duas determinações. Mas não se vê como se possam chamar contrárias tais determinações nem como se possam mediar por si.»Eduardo Lourenço, Obras Completas, I, Heterodoxias, pag 123, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Eduardo Lourenço diz que, na passagem do dia à noite,a contrariedade absoluta não se manifestou. Isto é obviamente falso: o dia elimina a noite, enquanto céu de plena luz solar o dia é um contrário absoluto da noite. Não podem coexistir no mesmo lugar geográfico: se a luz do dia surge, a escuridão da noite desaparece. Logo o anoitecer ou o amanhecer descritos por Hegel contêm as ideias do contraditório e do contrário. Eduardo Lourenço, que não parece dominar a diferença entre contrário (exemplo: fogo e água são contrários) e contraditório (por exemplo: 7 e 9 são contraditórios mas não contrários) estabelecida por Aristóteles, confunde estes dois conceitos. Não percebe, sequer, que o intermédio (por exemplo: o lusco-fusco) é contraditório com cada um dos contrários que medeia (no caso: a noite e o dia luminoso).

 

Ao contrário do que sustenta Lourenço, Hegel tem razão se postula que o sendo do agora passa a puro não sendo: o dia, a esta hora, vai passar a noite dentro de algumas horas. O não sendo do agora é o passado e o futuro. O ser do dia de luz é o não ser da noite. E essa contrariedade manifesta-se dentro do agora - o que Eduardo Lourenço não intui - porque, neste instante, há regiões do globo terrestre onde é noite e outras onde é dia de luz solar.

 

Por isso a frase «O sendo do agora não passa a puro não sendo mas precisamente a não sendo do agora» é absolutamente confusa e vaga: o sendo do agora - por exemplo, o verão de 2012 -  passa a não sendo (não verão de 2012: outono, inverno) mas, no sentido formal, o sendo do agora como estrutura vazia nunca passa a não sendo do agora.  Porque o agora é uma dimensão do Absoluto dentro da qual corre o filme do Relativo.

 

O que Eduardo Lourenço não distingue, porque lhe falta a argúcia dialética, é os dois sentidos do sendo agora: o sentido formal e o sentido conteudal. Formalmente, o agora é imutavel, é o presente eterno e não muda: os seus contrários são o passado e o futuro. 

Em conteúdo, o agora está a mudar a cada instante: ora é dia, ora é lusco fusco, ora é noite. O dia é contrário à noite - o dia transforma-se em noite, os contrários transformam-se um no outro, é o que Hegel afirma. E nessa transformação, há a conservação do vencido ou dominado sob a auréola do vencedor ou dominante: o dia conserva, de facto, algumas coisas da noite, como por exemplo, o facto de a Lua se ver a certas horas de luz diurna. A mediação é o lusco fusco - o momento em que a sombra e a luz se igualam e o sol se oculta no horizonte ou desponta neste. A contrariedade e a contradição (toda a diferença é uma contradição) são as bases da dialética.  

 

Com a sua retórica abstracta, isenta de clareza, sem exemplos concretos, e a sua visão unilateral, católica estática, de que o Absoluto não pode manifestar-se através da luta de contrários mediada por intermédios, Eduardo Lourenço não conseguiu, nem de perto nem de longe, refutar a dialética de Hegel.


 

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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2011
Um desenvolvimento na dialéctica: diferenças intermédias e colaterais

 

São quatro os tipos de oposição delineados por Aristóteles : a contradição, a contrariedade, a relação (os termos relativos) e a privação-possessão.

 

Julgo que há quatro tipos de oposição: a contrariedade (exemplo: fogo versus terra),  a diferença intermédia (exemplo: homem é uma diferença intermédia entre dois contrários, espírito e animalidade), a diferença colateral ( exemplo: automóvel é uma diferença colateral ao casal que nele se encontra a conversar, o acidente do lugar, segundo Aristóteles; o número cinco tem uma diferença colateral com os números quatro e seis) e a contradição ( exemplo: ser /não ser, uma coisa ou é amarela ou não amarela). Talvez a concepção que neste artigo se expõe seja um pequeno contributo algo inovador para a consolidação da ciência dialéctica de que Aristóteles foi, na Antiguidade, um grande impulsionador. A «Metafísica» de Aristóteles é uma obra chave no pensamento dialéctico, ainda que não seja perfeita e contenha equívocos anti dialécticos..

 

DIFERENÇA INTERMÉDIA E DIFERENÇA COLATERAL

 

 

O que distingue a diferença intermédia da diferença colateral?

A primeira abarca no mesmo género ou intersecta no mesmo ente individual duas espécies ou géneros diferentes. Exemplo:  homem é um misto do género animal e do género racional, possui uma diferença intermédia com animal e uma diferença intermédia com racional, isto é, inclui-se em cada um desses géneros, como espécie ou como substância individual.

 

A segunda, isto é, a diferença colateral ou mínima,  engloba lado a lado entes de espécies diferentes ou espécies de géneros diferentes. Exemplo: há uma diferença colateral entre realismo e pragmatismo, porque pode ser-se, em simultâneo, realista e pragmático. A diferença colateral não significa mais do que uma oposição secundária, comporta ausência de intersecção ou pertença mútua entre os dois termos.   

 

A contradição é a mais extensa de todas as diferenças porque abarca as outras três. A mais intensa de todas é a contrariedade porque é feita de polos opostos que se atraem e repelem reciprocamente. A mais ténue ou menos intensa de todas é a diferença colateral - que está por assim dizer «encostada», contígua, ao ente de que se trata como ponto de referência.

 

TODAS AS DIFERENÇAS PERTENCEM AO SUPRA-GÉNERO RELATIVO

 

 

Estas diferenças são todas relativas, isto é, pertencem todas ao supra-género relativo.  Dois ou mais entes podem, num certo sentido (perspectiva), apresentar uma diferença colateral - estarem em géneros diferentes, como por exemplo, idealismo, no género ontognoseologia, e pragmatismo, no género  ergológico/praxiológico - e em outro sentido (perspectiva) formar uma contrariedade ou diferença extrema - estarem no mesmo género, como por exemplo, idealismo e realismo, ambos no género ontognoseológico. Nesta minha classificação, elimino o relativo teorizado por Aristóteles como um tipo particular de oposição, porque a relação, característica inerente à multiplicidade, impregna todas as formas de oposição, isto é, todos os tipos de diferença.

 

A contrariedade nasce, pois, da proximidade que torna incompatíveis dois entes, ou é anterior e externa a essa proximidade.

 

Se falassemos em termos de ângulos astronómico-astrológicos, dir-se-ia que a contrariedade ou oposição de contrários é o ângulo de 180º; a diferença intermédia é o quadrado ou ângulo de 90º , a diferença colateral os ângulos de 30º (semi-sextil ) e 45º (semi quadrado). A contradição é a diferença em toda a sua extensão - desde o ângulo de 1º até ao ângulo de 180º, em termos de amplitude do círculo.

 

Encontramos assim os quatro tipos de oposição em cada situação: a mais intensa, por isso mais próxima emocional ou electromagneticamente, é a contrariedade (exemplo: a contrariedade entre a Alemanha e a Grã-Bretanha entre 1940 e 1945, na guerra mundial, eram inimigos encarniçados, destruiam mutuamente as cidades, fábricas e forças militares); a moderada, é a diferença intermédia (exemplo: a posição de Portugal na segunda guerra mundial, neutral, por ter no governo de  Salazar anglófilos e germanófilos e por vender volfrâmio, quer à Alemanha, quer à Grã-Bretanha); a externa e indiferente ao conflito, isenta de qualquer um dos contrários, é a diferença colateral (exemplo: a Lua e os planetas do sistema solar ou zonas inóspitas de África onde o conflito não se fez sentir); a mais extensa, que nada deixa de fora mas abarca as diferenças nos seus diferentes graus, é a contradição (exemplo: a Alemanha nazi em guerra, de um lado, e a Inglaterra, os EUA, Portugal, o planeta inteiro, a galáxia e tudo o resto, do outro lado).

 

Em termos figurativos podemos ainda esboçar a seguinte imagem: a contrariedade e a diferença intermédia são simbolizáveis no globo terrestre, sendo a contrariedade consubstanciada na oposição entre as zonas dos polos norte e sul e a diferença intermédia nas zonas média e equatorial do globo, a diferença complementar no resto do universo que envolve a Terra e a contradição, consubstanciada no todo dividido arbitrariamente em duas metades desiguais como por exemplo, o polo norte e tudo o que não é polo norte, ou a Terra e tudo o que não é a Terra. 

 

 

 

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Segunda-feira, 5 de Setembro de 2011
Questionar Aristóteles: a privação está fora da contradição A ou não-A?

 

Aristóteles distinguiu quatro tipos de oposição: a contradição, a contrariedade, a relação (os termos relativos) e a privação-possessão. Sem embargo de possuir uma agudeza de pensamento filosófico muito acima do comum, cometeu alguns equívocos antidialécticos, se entendermos por dialética a ciência da hierarquização dos géneros e espécies. O Estagirita escreveu:

 

« Por sua vez, a contrariedade primeira é possessão e privação, mas não qualquer privação (pois privação tem muitos sentidos), mas a que é completa. E as demais coisas dizem-se contrárias por estes contrários, umas porque os têm, outras porque os produzem ou são capazes de produzi-los, outras por ser aquisições ou perdas de estes ou de outros contrários.»

E se a contradição, e a privação, e a contrariedade e os termos relativos são modos de oposição, e o primeiro deles é a contradição e se na contradição não há termo médio, enquanto que pode have-lo entre os contrários, é evidente que contradição e contrariedade não são o mesmo. » (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1055a 30-35, 1055 b, 1-5; o negrito é de minha autoria).

 

Aristóteles começa por mostrar muito justamente que a oposição possessão-privação ( exemplo: ser / não ser) é a primeira forma de contradição - eu diria: é  a contradição no sentido ontológico puro. Falta-lhe dizer que todas as outras formas de contradição - por exemplo (ser) branco / (ser) não branco ; terrestre/ não terrestre; feminino/ não feminino, etc) são simples concretizações eidéticas (são ser adicionado de uma dada essência ou de todas as outras) daquela contradição formal. Portanto, ao separar no segundo parágrafo da citação acima, a privação da contradição, («E se a contradição, e a privação...são formas de oposição».) Aristóteles mergulha no magma de uma certa confusão: a privação é um dos termos da contradição, é um fundo ontológico desta. Definir a contradição - algo é A ou é privação de A - é incluir privação na definição.

 

 Em outra passagem de "Metafísica" , Aristóteles afirma, de forma algo confusa, que toda a contrariedade - oposição de contrários como por exemplo, água versus fogo - é privação, ainda que em seguida reconheça que só  parcialmente é privação:

 

« Por outro lado, se as gerações na matéria se produzem a partir dos contráriose se geram, seja a partir da forma, quer dizer, da posse da forma, seja a partir de certa privação da forma e da estrutura, é evidente que toda a contrariedade será privação, mas seguramente nem toda a privação será contrariedade (e a causa disso estriba em que o que está privado de algo pode estar privado de muitas maneiras) posto que os contrários são os termos a partir dos quais se produzem as mudanças. Isto resulta evidente por indução. Com efecto, toda a contrariedade comporta a privação de um dos contrários, se bem que não da mesma maneira em todos os casos.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1055 b, 10-20; o negrito é colocado por mim).

 

Aristóteles deveria dizer que toda a contrariedade inclui privação e não que toda a contrariade é (está incluída em) privação. De facto, a contrariedade não é privação: é um conjunto posse-privação - como aliás, no excerto inicial mais acima, Aristóteles qualifica a contrariedade primeira - existência-inexistência, ser- não ser,  A contrariedade é pois um intermédio entre dois géneros opostos: a posse e a privação, o ser e o não ser. Em cada momento, só uma parte da contrariedade é privação e em sentido relativo, não em sentido absoluto. A água é privação do fogo mas não é privação em sentido absoluto, não é nada. É negação, sob determinada modalidade, do fogo. Opor a água ao fogo não é o mesmo que opor o fogo ao nada.

 

 

AMBIGUIDADE NO CONCEITO DE RELATIVO

 

Há ainda uma ambiguidade grande no genial Aristóteles ao definir relativos:

 

«Algo se diz que é relativo:

(i) Em um sentido, como o dobro a respeito da metade, o triplo a respeito do terço, e em geral, o múltiplo a respeito do submúltiplo e o que excede a respeito do excedido;

II) em outro sentido, como que é capaz de aquecer a respeito do aquecível, o que é capaz de cortar a respeito do cortável e, em geral, o activo a respeito do passivo.(3)  em outro sentido, como o mensurável a respeito da medida, do cognoscível a respeito do conhecimento e do sensível a respeito da sensação.

As citadas em primeiro lugar denominam-se relações "numéricas" e podem dar-se definida ou indefinidamente, seja a respeito dos números de que se trate, seja a respeito da unidade.» (Aristóteles, Metafísica, Livro V, 1020 b, 25-35).

 

 

 

Para haver uma terminologia lógica perfeitamente clara no quadro das oposições idealizado por Aristóteles, o termo relativos deveria designar a ligação entre uma espécie e os géneros a que pertence ou entre um ente individual e as espécies a que pertence e não designar os contrários. Tratar-se-ia assim de uma relação de internalidade, uma diferença moderada, distinta da relação entre contrários que, como diz Aristóteles, é uma diferença extrema. Mas tal não sucede quando Aristóteles denomina relativos o activo e o passivo. Estes são, frequentemente, contrários. Por exemplo: o homem activo copula com o seu contrário, isto é, a mulher passiva; o leão activo persegue, captura e despedaça a gazela, passiva, que lhe é contrária. Leão e gazela são relativos? Ou contrários? Ou ambas as coisas?. A ambiguidade aristotélica neste ponto está em chamar relativos tanto aos intermédios como aos contrários.

 

E abrindo o leque do seu pensamento multifacetado, escreveu ainda Aristóteles:

 

«O activo e o passivo são relativos segundo a potência activa e passiva, respectivamente, e segundo os actos de tais potências...» (Aristóteles, Metafísica, Livro V, 1021 a, 15-20)

 

«Ademais, algumas coisas são relativas segundo a privação da potência: assim, o im-potente, e todas as coisas que se exprimem desta maneira como, por exemplo, o in-visível.» (Metafísica, Livro V, 1021 a, 25-30).

 

Ora, impotente é contrário de potente, mas Aristóteles classifica-os de relativos neste excerto. E o mesmo sucede com visível e invisível, contrários entre si: Aristóteles classifica-os de relativos. A menos que a contrariedade e a contradição sejam consideradas espécies do género relativos, o que Aristóteles parece não ter postulado, há um erro antidialéctico ao considerar visivel e invisível só como relativos e não como contrários.

A EQUÍVOCA OPOSIÇÃO DO IGUAL AO GRANDE E AO PEQUENO

 

Sobre o igual, que Aristóteles posiciona como termo intermédio de maior e menor, lê-se na «Metafísica»:

 

«Ademais, Igual mostra-se como algo intermédio entre Maior e Menor, mas nenhuma contrariedade mostra ser intermédia, nem pode sê-lo por definição, posto que não seria completa se fosse termo intermédio de algo, mas antes, mais exactamente, é ela a que tem algo de intermédio em si mesma.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1056 a, 10-15).

 

«Mas não é privação necessariamente. Não é igual, com efeito, tudo o que não é nem maior nem menor, mas sim as as coisas que podem ser tal por natureza. O igual é, portanto, o não grande nem pequeno, mas o que por natureza pode ser grande ou pequeno. E opõe-se a ambos como negação privativa, e por isso é intermédio.» (Aristóteles, M, Livro X, 1056 a, 20-25; o negrito é de minha autoria).

 

 

Ora é falso que Igual seja intermédio entre grande e pequeno. Igual é uma noção obtida por comparação de entes e opõe-se a Desigual. Ambos pertencem ao género comparação. Grande e pequeno pertencem a outro género: tamanho, que se apoia no género comparação. O raciocínio vulgar  confunde estes dois géneros. 

 

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Sábado, 18 de Julho de 2009
Verdade e falsidade são contraditórios (Terceiro Excluído) ou são apenas contrários ( Não Contrariedade)?

São verdade e falsidade contraditórios ou contrários?

 

Na concepção de Aristóteles, há uma diferença entre contraditório e contrário. A  contradição, na terminologia aristotélica, é uma exclusão mútua de contrários sem termo médio - por exemplo: branco e não branco - ao passo que a contrariedade é uma coexistência de contrários através de um terceiro termo, o intermédio - por exemplo: branco e preto são contrários e têm o cinzento como intermédio.

 

«A contrariedade é diferença completa …E se a contradição, e a privação e a contrariedade e os termos relativos são modos de oposição, e o primeiro deles é a contradição, e se na contradição não há termo médio, enquanto, sim, pode havê-lo entre os contrários, é evidente que contradição e contrariedade não são o mesmo. A privação, por seu lado, é um tipo de contradição.»  (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1055a-b; o bold é nosso) .

 

Falso significa não verdadeiro (negação) e destituído ou privado de verdadeiro (privação). É uma oposição de privação: o falso é a ausência do verdadeiro. Podemos pois, arvorar o princípio do terceiro excluído: todas as entidades do universo, materiais ou imateriais, substâncias ou acidentes, géneros e espécies, são verdadeiras ou falsas. Não há terceira hipótese. Ainda que digamos com o positivismo lógico: «mas Deus, o Paraíso ou o Inferno são entidades incognoscíveis e, portanto, escapam à dicotomia verdadeiro-falso», diremos que só escapam, provisoriamente, a essa dicotomia no plano do sujeito cognoscente mas não no plano ontológico do «em si», pois de duas uma, ou é verdadeiro que Deus paraíso e inferno existem metafisicamente ou é falso.

 

Não há, por conseguinte, nada no universo, no homem ou no pensamento que possa escapar a figurar num dos pratos da balança verdade-falsidade, ou seja, realidade-irrealidade. O átomo, o quark e o leptão são partículas verdadeiras ou falsas tal como o seu conceito na mente humana é verdadeiro ou falso. Se as considerarmos como essências, como fazia Husserl com o seu método fenomenológico que retoma a epochê (suspensão do juízo), continuamos no plano da verdade enquanto essência ou forma ideal e transferimos para a potência (futuro) a sua existência no mundo real.

 

Há pois, dois géneros originais: o género verdade ou realidade e o género falsidade ou irrealidade.

A indecisão ou incognoscibilidade de algo é apenas a cortina que mascara os pólos verdadeiro e falso em toda a sua extensão. Essa incognoscibilidade faz parte do pólo do falso: é falso em potência. E faz igualmente parte do género verdadeiro: é verdadeiro em potência.

O incognoscível é pois, espécie dentro do género verdadeiro, se por verdadeiro se entende a apreensão necessária e infalível pela consciência da realidade imanente e transcendente a ela – o incognoscível é o verdadeiro que em acto, isto é, no presente, é impossível de conhecer - e dentro do género falso - o falso que em acto, isto é, no presente, é impossível de conhecer. Constitui um género que atravessa transversalmente os outros dois, contrários entre si, e tem metade do seu conteúdo em cada um daqueles dois géneros. Assim o terceiro (o incognoscível) está, em acto, englobado no primeiro (verdadeiro) e no segundo (falso).

 

O incognoscível existe em acto por parte do sujeito mas só existe em potência quanto ao objecto. De facto, nada é potencialmente incognoscível se é real: apesar da limitação inerente aos seres humanos podemos imaginar mentes mais poderosas (Deus, deuses, anjos, humanóides extraterrestres) que acedam ao conhecimento integral. E ainda que não houvesse deuses, homens  ou outras mentes cognoscentes, a verdade como realidade por si subsistiria, sem dimensão gnosiológica mas somente com caracter ontológico..

 

A solução é a seguinte: verdadeiro e falso são contrários no plano gnosiológico, uma vez que no conhecimento humano há dois contrários (verdadeiro e falso) e um intermédio (incognoscível, indeciso); verdadeiro e falso são contraditórios no plano ontológico porque cada entidade em toda a extensão do ser ou é verdadeira ou não é, não havendo termo médio. Neste último caso, verdadeiro não implica existir necessariamente uma ou várias consciências humanas ou outras para o apreender: é realidade em si, autosubsistente.

 

Verdadeiro é, pois, um termo com dois sentidos: ponte gnosiológica, infalível quanto à informação que transporta, entre a mente cognoscente e a realidade interior ou exterior (verdade para mim ou para nós); realidade em si, ontológica, autosubsistente, sem necessitar de mente que a apreenda (verdade em si mesma).

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