Sábado, 27 de Outubro de 2018
Equívocos no manual «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» (Crítica de Manuais Escolares- LVIII)

 

Há vários equívocos no manual de Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, sem embargo de o livro ter méritos.

 

SÓ O CONHECIMENTO PROPOSICIONAL PODE SER TRANSMITIDO?

 

Bertrand Russel teorizou haver três tipos de conhecimento: o saber fazer (exemplo: andar de bicicleta, nadar), o conhecimento por contacto (exemplo: olhar o rio Tejo a partir do cais das colunas, saborear gaspacho) e o conhecimento proposicional (exemplo: imaginar que o Big Bang se deu há 15 000 milhões de anos, supor que a matéria é composta de átomos, quarks e leptons).

 

O manual afirma.

«Apenas o conhecimento proposicional pode ser directamente transmitido de pessoa para pessoa».

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 130).

 

Isto não é verdade. O treinador de guarda-redes transmite o seu saber ao guarda redes rematando para este defender a bola e indicando-lhe se deve sair ou não ao encontro do avançado. Isto é saber fazer e conhecimento por contacto.

 

DAVID HUME OPUNHA-SE AO CEPTICISMO?

 

Sobre Hume escrevem os autores do manual:

«Tal como Descartes, David Hume recorre a uma abordagem fundacionalista para responder ao desafio cético.»

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 162).

 

Hume responde ao desafio céptico? Confusão dos autores. Hume sempre foi céptico, sempre duvidou da existência de objectos físicos exteriores à mente humana:

 

«A razão não nos dá e é impossível que alguma vez nos dê, em qualquer hipótese, qualquer convicção da existência contínua e distinta dos corpos. Esta opinião tem de se atribuir inteiramente à imaginação, que passa a ser o objecto da nossa investigação ».(Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, pag. 238; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O FUNDACIONALISMO OPÕE-SE AO CEPTICISMO?

 

O manual opõe erroneamente fundacionalismo a cepticismo sem compreender que este é, basicamente, uma modalidade de fundacionalismo. Lê-se o seguinte no manual:

 

«O fundacionalismo é uma das mais antigas respostas ao problema do cepticismo. Os fundacionalistas rejeitam a primeira premissa do argumento cético da regressão infinita. Para estes autores, nem todas as nossas crenças se justificam com base em outras crenças, pois existem crenças que são de tal modo evidentes que podemos considerar que se justificam a si mesmas».

 (Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 139).

 

Ora, nem todo o cepticismo sustenta a regressão infinita. E há fundacionalistas que sustentam a regressão infinita: por exemplo, os primeiros filósofos gregos como Tales de Mileto, que defendia a água como fundamento do mundo e uma regressão infinita do ciclo caos-cosmos, e Heráclito de Éfeso, que sustentava ser o fogo o fundamento do mundo e postulava a regressão infinita do ciclo caos (fogo em estado puro)- cosmos (fogo convertido em montanhas, rios, animais, homens, etc.). Quando o cepticismo afirma que «nada se pode conhecer, tudo é duvidoso» está a ser um fundacionalismo, estabelece uma verdade primeira que funda todo o seu sistema de pensamento.

 

A INCAPACIDADE DE DISTINGUIR COM CLAREZA "DISJUNÇÃO INCLUSIVA" DE "DISJUNÇÃO EXCLUSIVA", CONCEITOS FALACIOSOS

 

Os autores caem na falácia da lógica proposicional de colocar o mesmo tipo de disjunção sob duas formas diferentes baptizando uma de inclusiva e outra de exclusiva. E nem conseguem defini-las teoricamente limitando-se a exemplificar. Escrevem:  

«Disjunção inclusiva

«A disjunção inclusiva "O José ganhou o euromilhões ou a Vera ganhou o Euromilhões" só é falsa se ambas as disjuntas forem falsas; será verdadeira se, nas restantes combinações possíveis de valores de verdade, pelo menos uma das proposições for verdadeira.» (...)

 

«Disjunção exclusiva»

«A disjunção exclusiva "Ou Sócrates nasceu em Atenas ou nasceu em Roma" diz-nos que uma das disjuntas é verdadeira , mas não as duas, pois é falso que Sócrates possa nascer em Atenas e em Roma: ou nasceu numj lugar ou nasceu no outro, não sucede que nasça nesses dois lugares ao mesmo tempo.»

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 58).

 

Afinal o que distingue a "disjunção inclusiva" da "disjunção exclusiva", segundo os teóricos da lógica proposicional? É que a primeira exprime-se por "ou"  e a segunda exprime-se por "ou ...ou". Isto é ridículo. É o micropensamento de filósofos analíticos como Wittgenstein ou Bertrand Russel, imitado acriticamente por estes autores do manual. Chegamos a este ponto inacreditável: dizer «Sócrates nasceu em Atenas ou nasceu em Roma» é uma disjunção «inclusiva» mas dizer «Ou Sócrates nasceu em Atenas ou nasceu em Roma» é uma disjunção ...«exclusiva». Não há paciência para tanta ingenuidade «filosófica» que vê diferenças de conteúdo onde elas não existem...

 

Ou..ou.. é o mesmo que ou.

 

A ERRÓNEA TABELA DE VERDADE «CONDICIONAL» NA LÓGICA PROPOSICIONAL

Este manual escreve o seguinte sobre a tabela de verdade simples condicional:

 

«Condicional»

«A condicional "Se o conhecimento é sensação, então os porcos têm conhecimento» apenas é falsa se a antecedente for verdadeira e a consequente falsa. Deste modo na fórmula proposicional (P ⇒Q) todas as possíveis combinações de valor de verdade serão verdadeiras, exceto quando a antecedente for verdadeira e a consequente falsa

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 59; o destaque a negrito é posto por nós).

 

 

Segundo esta "lei" se antecedente e consequente são falsas a implicação é verdadeira. Eis um exemplo que desmente esta tabela de verdade:

 

Se os mares são imaginários (P), então os unicórnios existem na Terra (Q).

 

Ambas as frases são falsas e a sua implicação é falsa, ao contrário do que sustenta a lógica proposicional exposta neste manual.

 

UMA DESVALORIZAÇÃO INJUSTA DA SOFÍSTICA

 

Sobre a sofística na antiga Grécia, os autores do manual adoptam a posição clássica das filosofias católica e cristãs: Sócrates era «o pesquisador da verdade, o honrado filósofo», e os sofistas eram «filósofos desonestos, mentirosos, mestres na retórica manipuladora», ainda que fossem professores de gramática, dialética, aritmética, geometria, astronomia, música. Lê-se no manual:

 

«No entanto, os sofistas não olhavam a meios para atingirem os seus fins, ou seja, serem bem-sucedidos e eficientes nas disputas públicas, não se preocupando com a verdade. O que lhes interessava não era chegar à verdade, mas sim ganhar a todo o custo a discussão, por mais incoerentes que fossem as suas teses. Desta forma, a arte de argumentar tornava-se uma arte que recorria apenas a manipulações, falácias, apelo às emoções e sentimentos, entre outras ferramentas, para derrotar os adversários.»

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 105; o destaque a negrito é posto por nós).

 

«Sócrates opôs-se aos sofistas e à retórica manipulativa, e foi fundamentalmente um filósofo que procurou estimular o pensamento crítico na ágora(...) Portanto, a retórica em Sócrates é fundamentalmente distinta da dos sofistas. Vejamos as três características principais da retórica de Sócrates: a ironia, a maiêutica e o diálogo.» (ibid, pág. 107).

 

Quem pode garantir que a retórica de Sócrates era superior à dos sofistas? Sócrates procurava, por exemplo, demonstrar a imortalidade da alma humana recorrendo à analogia entre o ser humano e a árvore e a semente: a semente perpetuará a vida finita da árvore, etc.. Este raciocínio maieutico  está isento de manipulação? A sofística é percursora do idealismo ontológico, do fenomenismo de David Hume, da própria filosofia analítica do século XX. Górgias de Leontinos, um dos mais famosos sofistas, preocupava-se com a verdade quando expôs o seguinte:

 

 

«2. No livro intitulado «Do não ser ou da natureza», Górgias definiu três princípios, a saber: primeiro, que nada existe, segundo, se algo existe é incognoscível e, terceiro, se fosse cognoscível não poderia ser nem comunicado, nem divulgado». (Pinharanda Gomes, Filosofia Grega Pré-Socrática, Guimarães & C.ª Editores, pág. 273).

 

Isto é mentir? De modo nenhum. É buscar a verdade, de uma certa perspectiva. Uma coisa é a sofística como movimento filosófico respeitável, portador do subjectivismo, do cepticismo, do relativismo, do pragmatismo, outra coisa é a prática de sofistas, advogados, professores e políticos que lucraram e ganharam a vida apelando a conceitos filosóficos antiplatónicos ou não platónicos.

 

 

Como pode considerar-se Sócrates como o detentor e pesquisador da verdade, quando ele, tal como o seu discípulo Platão, escondia ou ignorava o determinismo planetário, isto é, que a vida humana e a vida em geral na Terra está e sempre esteve completamente submetida aos movimentos dos planetas e do Sol na esfera celeste?

 

Os filósofos (Descartes, Hume, Kant, Hegel, Heideger, Ludwig Wittgenstein, Bertrand Russel, Edmund Gettier, Richard Swinburne, Simon Blackburn, Jerry Fodor, Thomas Nagel, Collin McGinn, Anthony Kenny, etc.) e os professores de filosofia actuais, ao ignorarem e negarem a predestinação da vida humana pelas posições astronómicas dos corpos celestes, não fizeram ou não fazem mais do que sofismar a verdade, mentir, tal como Sócrates o fez.

 

E, se têm dúvidas, expliquem por que razão teria de ser «coincidência» e não lei astrofísica o facto de Júpiter, cujo ciclo é de 12 anos no Zodíaco, ter estado praticamente na mesma posição astronómica em duas vitórias do PS em eleições legislativas nacionais em Portugal: 25 de Abril de 1983, Júpiter em 9º do signo de Sagitário, vitória do PS de Mário Soares sobre o PSD de Mota Pinto; 1 de Outubro de 1995, Júpiter em 10º do signo de Sagitário, vitória do PS de António Guterres.

 

As cátedras universitárias de filosofia e a grande mídia continuam a esconder a verdade, a censurar os que foram mais longe que elas na aventura do conhecimento, na alethéia (desocultação da verdade). 

 

AUSÊNCIA DE REFERÊNCIA AO EU INEXISTENTE, UMA TESE CAPITAL DE HUME

Nas 17 páginas em que expõe a teoria de David Hume, da 162 à 179, o manual «Como pensar tudo isto?» omite um ponto capital, que não é empirista mas racionalista, da doutrina de Hume: a tese contraintuitiva de que o eu não existe.

 

Escreveu Hume (o negrito não é dele):

 

« Há certos filósofos que imaginam que temos permanentemente a consciência íntima do que chamamos o nosso eu; que sentimos a sua existência e a sua permanência; e que estamos seguros, mais do que através da evidência de uma demonstração, da sua identidade e simplicidade perfeita. »(....)

 

«Mas o eu, ou pessoa, não é uma impressão; é aquilo a que supostamente se referem as nossas diversas impressões e ideias. Se uma impressão gera a ideia do eu, essa impressão deve permanecer invariavelmente idêntica ao longo de toda a nossa existência, uma vez que se considera que o eu existe desse modo. Ora, não há nenhuma impressão constante e invariável. A dor e o prazer, as paixões e as sensações sucedem-se umas às outras, nunca existindo todas em simultâneo. A ideia do eu não pode, portanto, ter derivado de nenhuma dessas impressões ou de qualquer outra; consequentemente, uma tal ideia não existe.» (...)

 

«Pela minha parte, quanto penetro mais intimamente no que designo por eu, defronto-me sempre com uma ou outra percepção particular, de calor ou de frio, de luz ou de sombra, de amor ou de ódio, de dor ou de prazer. Nunca posso apreender-me a mim em momento algum, sem uma percepção, e apenas posso observar a percepção. Quando as minhas percepções deixam de operar por algum tempo, como durante um sono tranquilo, durante esse tempo deixo de ter consciência de mim, podendo realmente dizer-se que não existo».

(David Hume, A treatise of Human Nature, Oxford, Claredon Press, 1978, Livro I, 4ª Parte, Secção VI).

 

Hume não é um mero empirista porque usa a razão para negar o eu, centro do conhecimento humano. Há uma consciência empírica ou intuitiva do «eu» presente em Descartes e na apercepção pura transcendental em Kant mas que Hume, racionalmente, suprime.

 

PERSUASÃO OPÕE-SE A MANIPULAÇÃO?

 

Seguindo a distinção equívoca, estabelecida pelo programa de filosofia, entre persuasão e manipulação, que não são conceitos contrários mas colaterais, o manual expõe o seguinte:

 

« De acordo com o que foi dito podemos concluir que:

manipulação consiste em levar alguém a aceitar uma tese sem avaliar criticamente (isto é, sem examinar de ,modo rigoroso e imparcial) as razões que existem a seu favor e contra ela.

persuasão consiste em oferecer boas razões para que alguém seja conduzido a aceitar uma determinada tese.»

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida «Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano» da Editora Sebenta, pág. 104; o destaque a negrito é posto por nós).

 

Ora existe manipulação sem persuasão quando se trata de um auditório que escuta um discurso? Não. Hitler e o partido nazi persuadiram, isto é, manipularam uma parte do eleitorado alemão a darem-lhes uma maioria relativa de deputados no parlamento em Março de 1933.

 

duas formas de persuasão: manipulatória e aleteiológica, isto é, desocultadora da verdade. O programa de filosofia equivoca-se ao opor manipulação a persuasão.

 

 

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Sexta-feira, 11 de Julho de 2014
Conhecimento proposicional não contém crença?

 

No Prefácio de « A Ética da Crença» afirma Desidério Murcho:

 

« Todo o conhecimento proposicional - assim como a crença - é uma relação entre uma pessoa que conhece e uma proposição ou verdade conhecida.» (Desidério Murcho in Prefácio de «A ética da crença», Bizâncio, pág 33)

 

Vemos que Murcho separa artificialmente crença de conhecimento proposicional. Ora, muito deste  último inclui a crença, como por exemplo, o seguinte conhecimento proposicional: «Cada molécula de água é composta de dois átomos de hidrogénio e um átomo de oxigénio». Também o conhecimento proposicional «A economia é a força propulsora essencial da história social e política» inclui crença, isto é, conteúdo especulativo, incerto, já que há outras teses sobre a causa determinante da evolução histórico-social.

 

TODO O CONHECIMENTO PROPOSICIONAL É FACTIVO? 

 

Murcho sustenta que tanto o conhecimento proposicional, teórico ou teórico-prátivo, como o conhecimento por contacto, sensorial, são factivos, o que é um erro no que respeita ao primeiro deles:

 

« Dado que tanto o conhecimento proposicional como o conhecimento por contacto são factivos, o mesmo argumento aplica-se a refutar a ideia de que a fé poderia ser conhecimento por contacto.» (Desidério Murcho in Prefácio de «A ética da crença», Bizâncio, pág 49)

 

Ora, há muito conhecimento proposicional que não é factivo, isto é, não está ancorado em factos sólidos da experiência, irrefutáveis. Por exemplo, o seguinte conhecimento proposicional: «A matéria escura constitui 96% da massa do universo. O Big Bang ocorreu há cerca de 15 000 milhões de anos e consistiu na explosão de um pequeno ponto de matéria-energia dando origem ao universo». Nada disto é factual, factivo: não passam de especulações. É um conhecimento especulativo, duvidoso, o que contraria a tese antidialética de Desidério Murcho de que «todo o conhecimento é factivo».

 

A astrofísica actual é profundamente metafísica: e os mesmos que crêem na teoria das cordas e do Big Bang como Carlos Fiolhais, Desidério Murcho, Guilherme Valente e tantos outros são os que, paradoxalmente, duvidam da causalidade planetária dos factos sociais  ou lançam anátemas sobre o determinismo e o fatalismo planetários. É impossível demonstrar que o universo tem 10 ou 30 dimensões mas estas mentes atentas e veneradoras do «saber científico» crêem que se pode demonstrar.  É muito mais fácil demonstrar que a Alemanha é finalista do campeonato do mundo de futebol, em 13 de Julho de 2014 porque Marte está em 23º de Balança e Quirón em 17º de Peixes nesse dia, uma vez que, por analogia, a Alemanha Federal foi campeã mundial em 7 de Julho de 1974 quando Úrano estava em 23º de Balança e Júpiter em 17º de Peixes mas aquelas mentes «iluminadas» (iluminati?) não crêem na factualidade astronómico-histórica.

 

Afinal, acredita-se em fórmulas astrofísicas metafísicas (argumento da autoridade) e rejeita-se os factos empíricos palpáveis...O positivismo lógico e o conjecturalismo de Popper não passam de metafísica do avesso porque negam a ciêmcia da astrologia histórica, empírica e comprovável. Não é qualquer astrologia, claro: somente a astrologia histórico-social desenvolvida neste blog e em livros nossos.

 

NÃO EXISTE ÉTICA DA CRENÇA

 

Aliás, contrariando o título deste livro, importa notar que não existe ética da crença. A crença é um processo de cognição metaético: acontece espontaneamente, de forma «técnica», não ética. Os chamados «filósofos analíticos» metem a ética e a lógica proposicional em todo o seu discurso e no limitado horizonte do seu pensamento porque a inteligência neles é escassa para irem mais longe: o pensar ontológico e gnosiológico profundo é-lhes estranho.

 

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Domingo, 8 de Dezembro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano, turma B, Dezembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
4 de Dezembro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

1) Considere o seguinte silogismo:

 

«Nenhum urso é animal marinho».
«Esta foca é um animal marinho».
«Nenhuma foca é urso».

 

A) Indique, concretamente, duas regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

 

B) Indique o modo e a figura do silogisno.

 

 

II

David Hume escreveu: «Aquela acção da imaginação pela qual consideramos o objecto ininterrupto e invariável ...» e Parménides escreveu: «Ser e pensar são um e o mesmo».

 

2) Interprete estes pensamentos conexionando-os com idealismo, realismo, empirismo e racionalismo.

 

 

3) Relacione, justificando:

 

A) A lei do salto qualitativo e os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica à demonstração do mundo.

 

B)  As sete relações filosóficas segundo Hume e lei da contradição principal.

 

C) As três formas de conhecimento, segundo Bertrand Russel, e princípio do terceiro excluído

 

D) Retórica, sofística e democracia.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A) Eis duas regras de validade infringidas no silogismo acima: a conclusão segue sempre a parte mais fraca, se uma premissa é particular a conclusão tem de ser particular (ora isso não sucede, porque a premissa «Esta foca...» é particular e a conclusão «Nenhuma foca...» é universal); nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas (ora o termo "foca" é particular na premissa e universal na conclusão). (VALE DOIS VALORES).

 

1) B) O modo do silogismo é EIE (E= proposição universal negativa; I= proposição particular afirmativa). A figura do silogismo é a 2ª : PP (termo médio como predicado em ambas as premissas). (VALE UM VALOR)

 

2) Hume quer dizer as percepções empíricas são como que fotos desligadas umas das outras, não são contínuas e é a imaginação que fornece a ideia de continuidade dos objectos, a invariabilidade, o filme das percepções. Assim não há a alma, nem o eu, nem a casa, nem a árvore, nem a montanha - são ideias da imaginação formadas a partir de percepções cuja origem se desconhece. Isto é idealismo: a matéria passa a ser um conjunto de percepções empíricas. Nesta medida, pode atribuir-se a Hume um certo racionalismo, pois o idealismo é um racionalismo: através do raciocínio deixa de se acreditar na existência independente do mundo de matéria. Em Parménides dá-se algo inverso e algo análogo a Hume: o inverso é o facto de que não há descontinuidades, a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, invisível, esférico, eterno; o análogo é que a percepção sensorial não nos fornece o "ser". Ao empirismo de Hume (" as ideias nascem das impressões sensíveis e da imaginação") contrapõe-se o racionalismo de Parménides (" Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). São dois idealismos, numa certa interpretação; mas em Parménides pode tratar-se ainda, ao invés, de um realismo crítico, porque apesar de cores, sons, cheiros, formas mutáveis serem ilusões, a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos. (VALE QUATRO VALORES).

 

3) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ou Cepticismo Absoluto( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, e afinal os sentidos me enganam, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («No meio deste oceano de dúvidas, atinjo uma certeza fundamental: «Penso, logo existo» como mente, ainda que o meu corpo e todo o resto do mundo sejam falsos»). 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). 4º 4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos.

A passagem de um a outro destes quatro passos confirma a lei do salto qualitativo que se enuncia assim: a acumulação, lenta e gradual, quantitativa, de um certo factor num fenómeno origina, em dado instante, um brusco salto de qualidade nesse fenómeno. Neste caso o acumular de reflexões levou Descartes a demonstrar Deus (salto qualitativo) e, a partir deste, o mundo exterior (novo salto qualitativo). (VALE QUATRO VALORES).

 

 

3) B) As sete relações filosóficas são capacidades da nossa mente, modos de interpretar as coisas, não existem no mundo exterior: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Por exemplo, água e fogo não são contrários entre si fora da mente humana, real e objectivamente, mas são apenas contrários dentro desta que as coloca numa relação de contrariedade. A lei da contradição principal sustenta que um sistema de muitas contradições se pode reduzir a uma só grande contradição , a principal, composta de dois grandes blocos, deixando eventualmente na zona neutra uma ou outra contradição secundária. Neste caso posso aplicar assim, entre outros modos possíveis, a contradição principal: de um lado, as relações de tempo e lugar, que contextualizam o ente de modo especial, e do outro lado, todas as outras. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) C) Os três tipos de conhecimento segundo Bertrand Russell são: o saber-fazer, que é um conhecimento empírico-técnico, como andar de bicicleta, nadar, jogar futebol; o conhecimento por contacto, isto é, empírico directo, como ver uma planície alentejana, ouvir uma música dos Bubedanas, saborear gaspacho; o conhecimento proposicional, isto é, racional ou empírico-racional, como por exemplo, «A soma dos três ângulos internos de um triângulo é 180º», «Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1 de Janeiro de 1986». O princípio do terceiro excluído estabelece o seguinte: uma coisa ou qualidade ou pertence ao grupo A ou ao grupo não-A, não havendo terceira hipótese. Apliquemo-lo: o conhecimento  é proposicional ou é não proposicional, e nesta segunda hipótese inclluem-se o saber-fazer e o conhecimento por contacto (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) D) A retórica é a arte de bem discursar oralmente - ou por escrito, de forma derivada - a um auditório, no sentido de impressionar e persuadir. Bem discursar não significa estar isento de sofismas (erros voluntários de raciocínio) e paralogismos (erros involuntários de raciocínio). A sofística é a filosofia e a retórica dos sofistas, pensadores gregos anti essencialistas que ensinavam retórica, direito, política, etc, com remuneração. Assentava no cepticismo, que duvida de tudo o que fôr além das percepções empíricas, no relativismo que diz que a verdade varia com os povos, as classes e grupos sociais, no subjectivismo que postula que a verdade varia de pessoa a pessoa, no pragmatismo, que prefere os resultados práticos, a utilidade da situação real aos ideais "inúteis" e metafísicos. A democracia, entendida como autogoverno do povo através do debate livre nas ruas e em assembleias populares, de uma das quais emerge um governo votado pelos cidadãos, implica retórica: uns agentes políticos discursarão explicando por que se deve nacionalizar ou municipalizar certos bens, outros discursarão por que se deve privatizar esses bens. No meio destes discursos, existe a sofística, a arte de convencer o auditório com "habilidades" discursivas. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013
Teste de filosofia do 11º C, final de Novembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
29 de Novembro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

 

 

I

1) Considere o seguinte silogismo:

 

«Nenhuma cotovia é mamífero.
«Alguns macacos são maníferos».
«Nenhum macaco é cotovia».

 

A) Indique, concretamente, duas regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

 

 B) Indique o modo e a figura do silogisno.

 

 

II  

David Hume escreveu: «É assim que inventamos a existência contínua das percepções dos nossos sentidos, para remover a interrupção; e chegamos à noção de alma,...» e Parménides escreveu: «O ser é e o não ser não é...Ser e pensar são um e o mesmo».

 

2) Explique ambos os pensamentos e compare-os no tema do «ser».

                                                                            

                                                                                                      

3) Relacione, justificando:

 

A) Sete relações filosóficas em David Hume e binómio Idealismo/ realismo crítico.

 

B) Os três tipos de conhecimento, segundo Bertrand Russel, empirismo e racionalismo.

 

C) Indução amplificante e lei do salto de qualidade.

 

D) Retórica e sofística.

 

 

 

       CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) A) Eis duas regras de validade infringidas no silogismo acima: a conclusão segue sempre a parte mais fraca, se uma premissa é particular a conclusão tem de ser particular (ora isso não sucede, porque a premissa «Alguns macacos...» é particular e a conclusão «Nenhuns...» é universal); nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas (ora o termo "macacos" é particular na premissa e universal na conclusão). (VALE DOIS VALORES).

 

1) B) O modo do silogismo é EIE (E= proposição universal negativa; I= proposição particular afirmativa). A figura do silogismo é a 2ª : PP (termo médio como predicado em ambas as premissas). (VALE UM VALOR)

 

2)  Hume diz que as percepções empíricas são como que fotos desligadas umas das outras, não são contínuas e é a imaginação que fornece a ideia de continuidade dos objectos, o filme das percepções. Assim não há a alma, nem o eu, nem a casa, nem a árvore, nem a montanha - são ideias da imaginação formadas a partir de percepções cuja origem se desconhece. Isto é idealismo: a matéria passa a ser um conjunto de percepções empíricas. Em Parménides dá-se o inverso: não há descontinuidades, a percepção empírica é ilusão, o pensar está a todo o instante centrado no ser uno, imóvel, invisível, esférico, eterno.  Ao empirismo de Hume (" as ideias nascem das impressões sensíveis") contrapõe-se o racionalismo de Parménides (" Só o pensar, o raciocínio e a intuição inteligível captam o ser"). São dois idealismos, numa certa interpretação; mas em Parménides pode tratar-se ainda, ao invés, de um realismo crítico, porque apesar de cores, sons, cheiros, formas mutáveis serem ilusões, a esfera do ser pode ter carácter material, pode ser formada por uma matéria imperceptível aos sentidos.   (VALE QUATRO VALORES).

 

3) A) As sete relações filosóficas são capacidades da nossa mente, modos de interpretar as coisas, não existem no mundo exterior: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Por exemplo, água e fogo não são contrários entre si fora da mente humana, real e objectivamente,  mas são apenas contrários dentro desta que as coloca numa relação de contrariedade.  Assim, as sete relações filosóficas incluem-se no idealismo, que diz que o mundo material não passa de uma ideia. Ao contrário, o realismo supõe que semelhança, identidade, relações de espaço e tempo, quantidade, graus de qualidade, causa-efeito, etc, são modos de ser reais, exteriores às mentes humanas, porque o realismo afirma a realidade da matéria em si mesma. O realismo crítico diz que certas qualidades (cores, sons, cheiros, sabores) são subjectivas, secundárias, e nessa medida coincide em parte com o idealismo. (VALE QUATRO VALORES).

 

3) B) Os três tipos de conhecimento segundo Bertrand Russell são: o saber-fazer, que é um conhecimento empírico-técnico, como andar de bicicleta, nadar, jogar futebol; o conhecimento por contacto, isto é, empírico directo, como ver uma planície alentejana, ouvir uma música dos Bubedanas, saborear gaspacho; o conhecimento proposicional, isto é, racional ou empírico-racional, como por exemplo, «A soma dos três ângulos internos de um triângulo é 180º», «Portugal entrou na Comunidade Económica Europeia em 1 de Janeiro de 1986». Os dois  primeiros tipos de conhecimento são empirismo, doutrina segundo a qual as percepções empíricas são a fonte das nossas ideias e estas copiam aquelas. O conhecimento proposicional inclui, geralmente, racionalismo, doutrina segundo a qual o raciocínio é a fonte principal dos nossos conhecimentos, marginalizando ou mesmo contrariando as percepções empíricas. (VALE TRÊS VALORES)

 

3) C) A indução amplificante é aquela que a partir de alguns exemplos empíricos directos generaliza segundo uma lei necessária ou aparentemente necessária. Exemplo: «Como médico pediatra, receitei a 50 crianças com gripe e tosse que tomassem três copos de sumo de laranja diários com uma colher de mel e em todos os casos a gripe e a tosse atenuaram-se ou desapareceram, assim induzo que três copos de sumo de laranja e colheres de mel agem em sentido curativo em todas as crianças do mundo». A lei do salto qualitativo está presente nesta indução: acumulam-se, gradualmente, exemplos de cura (a criança A, a criança B, a criamça C) até que o salto de qualidade, brusco, se dá de X casos particulares para uma lei geral. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) D) A retórica é a arte de bem discursar oralmente - ou por escrito, de forma derivada - a um auditório, no sentido de impressionar e persuadir. Bem discursar não significa estar isento de sofismas (erros voluntários de raciocínio) e paralogismos (erros involuntários de raciocínio). A sofística é a filosofia e a retórica dos sofistas, pensadores gregos anti essencialistas que ensinavam retórica, direito, política, etc, com remuneração. Assentava no cepticismo, que duvida de tudo o que fôr além das percepções empíricas, no relativismo que diz que a verdade varia com os povos, as classes e grupos sociais, no subjectivismo que postula que a verdade varia de pessoa a pessoa, no pragmatismo, que prefere os resultados práticos, a utilidade da situação real aos ideais "inúteis" e metafísicos. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano (2º período, 2013)

 

Eis um teste de filosofia, o primeiro do segundo período lectivo, livre de perguntas de resposta múltipla com "X" que é típico da simplificação empobrecedora do pensamento, hoje muito em voga.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A
18 de Fevereiro de 2013. Professor: Francisco Queiroz

 

I

««As sete relações filosóficas segundo Hume correspondem, de certo modo, às categorias segundo Kant mas as primeiras são a posteriori e as segundas são a priori.  Em Kant, o entendimento é condicionado, reduz à unidade o diverso das intuições empíricas e a razão é incondicionada e produz antinomias. »

 

1) Explique, concretamente, este texto.

II

 

2) Relacione, justificando:

 

A) Os quatro passos gnosiológicos de Descartes desde a dúvida hiperbólica e o conjunto res cogitans, res extensa e res infinita.

B) A formação do fenómeno MESA e a formação do conceito empírico de MESA, segundo a gnosiologia de Kant,.

 

C) Substância e acidente, em Aristóteles, e substância em David Hume.

 

III

 

3) Disserte, livremente, sobre os seguintes temas:
«O anti empirismo do paradoxo de Zenão, e o conhecimento proposicional segundo Russell. O ser em Hegel, nas suas três fases, e o ser em Parménides. »

 

 

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) As sete relações filosóficas são, segundo David Hume: identidade, semelhança, relações de tempo e de lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. É discutível saber se são noções a posteriori, ou seja, que surgem na experiência sensorial e não antes desta, ou se são formas a priori, isto é, estruturas vazias que estão antes da primeira experiência. As categorias, em Kant,  são formas a priori do entendinento, isto é, mecanismos inatos do pensamento, anteriores a toda a experiência sensorial, como por exemplo, unidade, pluralidade e totalidade (categorias da quantidade). Podemos fazer corresponder a relação filosófica de causação (determinismo), em Hume, à categoria de necessidade (lei infalível de causa-efeito)  em Kant. Também podemos estabelecer correspondência entre a relação filosófica de identidade e a categoria de inerência e subsistência (substância e acidente). (ESTAS FRASES VALEM TRÊS VALORES). Em Kant, o entendimento, faculdade que pensa e conhece os fenómenos, é condicionado pela sua estrutura interna (a tábua das categorias e a tábua dos juízos puros) e pela sensibilidade onde se desenham os fenómenos (árvores, aviões, montanhas, etc). Reduz à unidade a diversidade das intuições empíricas: exemplo, o conceito de casa, formado no entendimento, é um só e resume as diferentes casas que se formam e percepcionamos na sensibilidade exterior ao corpo. A razão é incondicionada porque é livre, não tem regras que a limitem, e pensa o mundo metafísico, incognoscível. As antinomias da razão são as teses contrárias que ela produz, balançando de uma a outra, porque não tem conhecimento: por exemplo, «Deus existe, Deus não existe», «O mundo é finito, o mundo é infinito». (VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos:

Dúvida hiperbólica ( «Uma vez que quando sonho tudo me parece real, como se estivesse acordado, duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo »).

Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente). Este passo liga-se à RES COGITANS ou SUBSTÂNCIA PENSANTE, que é o pensamento de todos e de cada um dos entes humanos. 

Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe). Neste passo, emerge a RES INFINITA, isto é, a SUBSTÂNCIA INFINITA que é Deus, o criador de todas as coisas. 

Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, de existe fora de mim»). Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é. Descartes, realista crítico, sustentava que as qualidades secundárias, isto é, as cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores e que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. Este último passo liga-se à RES EXTENSA, ou seja, EXTENSÂO, o espaço material dotado de comprimento, largura e altura. (VALE QUATRO VALORES).

 

2) B) O fenómeno MESA forma-se na sensibilidade, uma das três partes do espírito humano, do seguinte modo: os númenos afectam, desde o exterior, a sensibilidade (isto é, o espaço e o tempo que rodeiam o corpo do sujeito) e fazem nascer nela um caos de sensações (cores, matéria, sons, etc). Esse caos é moldado pelo espaço (extensão e formas geométricas) e pelo tempo (duração, sucessão simultaneidade) e transforma-se numa mesa, no fenómeno mesa. O entendimento intervém na medida em que confere à mesa o carácter de substância, de divisibilidade (em partes: pernas, tampo, etc).

O conceito empírico de MESA forma-se no entendimento do seguinte modo: as imagens / intuições empíricas de mesa (as imagens das diferentes mesas que vimos) sobem da sensibilidade ao entendimento, passando pela imaginação. O entendimento, munido de categorias ou conceitos puros como unidade, pluralidade, realidade, recebe as diversas imagens de mesa e redu-las a uma imagem abstracta única, o conceito de mesa, de base empírica. (VALE TRÊS VALORES)

 

2) C) Substância, em Aristóteles, é, em primeira mão, o ente, o objecto material, o composto que resulta da união da essência ou forma da espécie (eidos) com a matéria-prima universal (hylé). Assim Sócrates é uma substância: une a forma comum homem à matéria prima informe, indeterminada e universal, e daí resulta este homem único, de nariz achatado, chamado Sócrates que não tem essência enquanto imdivíduo.

Substância, em David Hume, é uma ideia, a representação de um corpo supostamente exterior a nós, formada a partir de impressões de sensação (exemplo: a rosa que vejo e toco é só real na minha percepção) de impressões de reflexão . Em Aristóteles substância é uma coisa real material - realismo - em Hume substância é uma ideia - idealismo. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

3) O paradoxo de Zenão sustenta o seguinte: um corredor veloz, Aquiles, não consegue apanhar uma tartaruga que se move a uma certa distância à frente dele porque, em cada segundo, percorre metade da distância que o separa da tartaruga mas esta adianta-se um pouco nesse lapso de tempo, e embora Aquiles acabe por ficar colado a ela nunca a consegue atingir; assim se prova, racionalmente, que o movimento é ilusório. Isto é anti empirismo, ou seja, é racionalismo, porque nega as percepções empíricas, a imagem de Aquiles a ultrapassar a tartaruga. Isto é conhecimento proposicional, isto é, conhecimento teórico, como sustenta Bertrand Russell. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES). Hegel considerou o ser ou ideia absoluta como a essência da história universal: na primeira fase, a ideia absoluta (Deus) está sozinho e pensa em criar o universo, o espaço e o tempo; na segunda fase, a ideia absoluta aliena-se em matéria, em reino mineral, vegetal e animal; na terceira fase, a ideia absoluta renasce em forma de humanidade, que combina o espírito da primeira fase com a matéria da segunda fase, e progride em direção à liberdade. Em Hegel, o ser é móvel e transformável, passa a não-ser na segunda fase, ao contrário do ser teorizado pelo grego Parménides, imóvel e eterno, sem devir, uno, contínuo, contíguo, homogéneo, limitado como uma esfera, imutável e imperceptível aos sentidos, apenas perceptível à razão. (ESTAS FRASES VALEM DOIS VALORES).

 

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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Teste de Filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal.

 

Eis um modelo de teste de filosofia para o 11º ano de escolaridade para o final do primeiro período letivo, que me agrada bastante.

 

 

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

 

I

 

« As impressões podem dividir-se em duas categorias: as de sensação e as de reflexão. A primeira categoria surge originariamente na alma, a partir de causas desconhecidas. A segunda é, em grande parte derivada das nossas ideias, na seguinte ordem: primeiro uma impressão atinge os nossos sentidos e faz-nos perceber calor ou frio, sede ou fome, prazer ou dor de qualquer espécie. Desta impressão, a mente tira uma cópia…» David Hume (Tratado do Entendimento Humano)

 

 

 

1) É a teoria de David Hume um realismo gnosiológico? Ou outra corrente? Justifique, explicando, em particular, a expressão «a partir de causas desconhecidas».

 

 

 

2) Explique o que são as ideias, segundo David Hume, como se formam – em particular as ideias de “eu” e “substância”.

 

 

 

3) Exponha e problematize as sete relações filosóficas ou de conhecimento segundo Hume e o papel que desempenham.

 

 

 

4) Exponha os quatro passos do racionalismo de Descartes, que celebrizaram este filósofo, iniciados na dúvida hiperbólica, apontando alguma eventual incoerência..

 

 

 

5)Relacione, justificando:

 

A) Conhecimento por contato e conhecimento proposicional, segundo Ryle e Russel, e racionalismo/ empirismo.

 

B) Indução, por um lado, e falácias depois de por causa de, da composição e da derrapagem, por outro lado.

 

C) Lei do salto qualitativo e binómio percepção empírica/conceito.

 

 

 

6)Considere o silogismo :

 

«Alguns cubenses não são andaluzes».

 

«Os cubanos não são cubenses ».

 

«Os andaluzes não são cubanos».

 

 

A)Identifique o modo e a figura do silogismo. Justifique.

 

 

B)     Identifique e enuncie, em concreto, duas leis do silogismo regular formalmente válido que foram infringidas no silogismo acima.

 

 

 

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA. 20 VALORES)

 

1) A teoria de David Hume não é um realismo gnosiológico porque não postula existir um mundo de objetos materiais fora da nossa mente. Ou é  um idealismo similar ao de Kant e pioneiro em relação a este, uma vez que afirma que os objetos materiais como árvores, montanhas, animais, etc, são meras representações  em nós, de «causas desconhecidas» exteriores. Ou é  um ceticismo fenomenológico na linha de Pírron e Carnéades que se limita a descrever as aparências fazendo a epochê (suspensão do juízo) .

 

2) As ideias, segundo Hume, são junto com as impressões, as duas espécies de perceções que o espírito humano forma. Toda a ideia deriva de uma impressão, seja esta uma impressão sensível - exemplo: a ideia de maçã é uma cópia pálida das impressões sensíveis que são o objeto maçã, objeto esse não exterior ao espírito - ou seja uma impressão de reflexão- exemplo: a ideia de Deus é composta na base de impressões de reflexão e ideias como as de governante supremo, ser bondoso, criador, ser justo. Há ideias complexas e ideias simples. David Hume é um empirista:

«Não podemos formar uma ideia exata do gosto de um ananás, antes de realmente o saborearmos» (David Hume, Tratado do Entendimento Humano, pag 33, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

«As ideias produzem as imagens de si mesmas em novas ideias; mas, como se supõe que as primeiras ideias derivaram de impressões, continua ainda a ser verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, das impressões que lhes correspondem.» (David Hume, ibid, pag 35).

 

As ideias de "substância" e de "eu" derivam da ideia filosófica ou categoria de identidade, que supõe a permanência, a continuidade, e da relação filosófica de causação (determinismo, princípio segundo o qual as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos), entre outras. Não existe a substância, como por exemplo, maçã: a cor amarela, a forma redonda, o pedúnculo, o sabor açucarado são impressões sensíveis que se conjugam e, combinadas pela imaginação, fornecem a noção unitária ou ideia de substância maçã.

 

3)  David Hume escreveu:

     «Há sete espécies diferentes de relação filosófica: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Podem dividir-se estas relações em duas classes: as que dependem inteiramente das ideias que comparamos entre si e as que podem variar sem qualquer mudança de ideias.» (David Hume, Tratado do Entendimento, Humano, pag 103).

      

Estas sete relações são categorias ou estruturas lógico-ontológicas que, diferentemente do realismo aristotélico, se situam na mente do sujeito, no espírito humano. Se não possuíssemos em nós, a priori, a relação de semelhança não conseguiríamos perceber que um pinheiro e um sobreiro são coisas semelhantes enquanto espécies do género árvore. Se não possuíssemos em nós a relação de tempo não distinguiríamos entre o ontem, o hoje e o amanhã. As três relações mais estáveis, segundo Hume são as de identidade, tempo e lugar e causação.

 

 

4) Os quatros passos gnosiológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica são os seguintes:

 

1º CETICISMO ABSOLUTO - Se quando estou a dormir me parecem verdadeiros os meus sonhos, quem me garante que, acordado, não estarei a sonhar? Assim tudo se me afigura duvidoso, ilusório: o mundo que vejo, os outros, as teorias da matemática e das ciências, Deus, o meu corpo e eu mesmo.. Não tenho certeza de nada.

2º  IDEALISMO MONISTA E SOLIPSISTA - Neste mar de dúvidas, surge-me a primeira certeza, uma ideia evidente: «Eu penso, logo existo» (COGITO ERGO SUM). Existo, como mente, não como corpo. Assim, sou único e sou tudo.

IDEALISMO PLURALISTA - Se existo e tenho a perfeição de pensar, há-de existir alguém mais perfeito que eu que me colocou essa perfeição: Deus, um espírito sumamente bom e perfeito, fonte da criação.

4º  REALISMO CRÍTICO-  Se Deus existe e é infinitamente bom e verdadeiro, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e toco: assim, embora as cores, sons, cheiros, sabores, sensações de duro e mole, de calor e frio, não existam nos objetos fora de mim mas apenas no meu cérebro, há, fora de mim, um mundo de matéria indeterminada dotado de corpos extensos com as respetivas formas e tamanhos, números e movimentos. 

 

A problematização destes argumentos oferece múltiplas vias. Eis uma delas: se Deus é o garante da verdade por que razão admite que nos enganemos sobre cores, cheiros, sons, dureza dos objetos mas não nos deixa enganar sobre as formas, os tamanhos e os movimentos? Eis outra: como sei que só possuo um certo grau de perfeição e não a perfeição toda, a ponto de remeter o que me falta para a existência de um Deus criador?

 

5) a) O conhecimento por contato, segundo Ryle e Russell, é o conhecimento direto das coisas, por via sensorial - exemplo: conheço a ponte sobre o rio Guadiana ao olhá-la, junto dela, e ao atravessá-la -  e parece articular-se com empirismo, doutrina segundo a qual as nossas ideias são provenientes, direta ou indiretamente, das perceções sensoriais. O conhecimento proposicional - definição algo ambígua, porque há conhecimento proposicional por contato; exemplo: «Estou a ver a água do rio a correr, límpida...» - articular-se-ia com o o racionalismo, corrente segundo a qual as nossas ideias são provenientes na totalidade ou em grande parte da razão, do raciocínio, mas também se articularia com o empirismo como se vê no exemplo que acabo de dar.

 

B) As três falácias referidas representam formas de indução pouco sólida, isto é, partem de um ou vários dados empíricos e generalizam: a falácia depois de, por causa de, que associa com caráter determinista, de vículo necessário dois acontecimentos vizinhos por casualidade (exemplo: vi um gato preto e duas horas depois perdi o porta moedas, uma semana depois voltei a ver um gato preto e horas depois bateram-me no automóvel, ver um gato preto dá-me azar); a falácia de composição atribui ao todo uma qualidade da parte (exemplo: Luisão, jogador do Benfica, é muito alto, logo toda a equipa de futebol do Benfica é feita de jogadores muito altos); a falácia da derrapagem encadeia sucessivamente ideias que vão perdendo gradualmente o encadeamento lógico-material entre si, o que é visível na conclusão (exemplo: vou a Madrid e visito a Puerta del Sol; na Puerta del Sol, encontro uma dinamarquesa loira a quem falo; a dinamarquesa leva-me a uma discoteca e vai comigo para o hotel; no hotel entramos na sala do bar e há um apagão geral em Madrid; logo, se vou a Madrid há um apagão elétrico geral).

 

5) c)  A lei do salto qualitativo  estabelece que uma acumulação lenta e gradual de um aspeto num fenómeno ou ente gera, num dado instante, um salto de qualidade desse fenómeno ou ente. Vou acumulando percepções empíricas de pinheiros, faias, sobreiros, isto é, imagens visuais de árvores e em seguida dá-se o salto qualitativo - a imagem presente nos sentidos é substituída por uma imagem intelectual- forma-se em mim o conceito ou representação abstrata de árvore. 

 

6) a) Modo do silogismo (classificação deste com as letras A,E,I,O segundo a qualidade e a quantidade em cada uma das 3 proposições que o compõem): OEE. E significa proposição universal negativa e O significa proposição particular negativa.

        Figura do silogismo (classificação deste segundo a posição do termo médio nas premissas, como sujeito ou predicado): primeira figura.

 

6) B) De duas premissas negativas nada se pode concluir.         

A conclusão segue sempre a parte mais fraca: havendo uma premissa particular («Alguns cubenses...») a conclusão deverá ser particular e não universal como sucede («Os andaluzes não são...»).

 

 

 

 

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