Quarta-feira, 22 de Março de 2017
Teste de filosofia do 10º ano (17 de Março de 2017)

Eis o último teste de filosofia no segundo período de uma turma de 10º ano , em Portugal, sem duvidosas questões de escolha múltipla que «simplificam» excessivamente a filosofia.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

17 de Março de 2017. Professor: Francisco Queiroz

I

“Os totalitarismos de direita e o totalitarismo de esquerda rejeitam o Estado de direito democrático, invocando diferentes argumentos. O realismo crítico é uma modalidade dentro do racionalismo. Na teoria hilemórfica de Aristóteles, a proté ousía (substância primeira) resulta de dois princípios opostos e na cosmologia de Aristóteles existe teleologia nos movimentos em ambos os mundos.”

                                                                                                         

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Construa um diálogo sobre a propriedade das empresas e o tipo de Estado ideal e a liberdade de aborto voluntário e de casamento de gays e lésbicas, entre um anarquista, um socialista democrático e um conservador.

 

3)Relacione, justificando:

 

A)Objeção de consciência, subjectivismo e ética

B) Agir por dever e agir em conformidade com o dever, por um lado, e imperativos hipotético e categórico, na doutrina de Kant.

C) Metafísica, intuição inteligível, conceito empírico.

 

CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

 

1)  O totalitarismo, de direita (caso da ditaduras de Hitler e Mussolini) ou de esquerda (ditadura de Estaline ou de Kim Il Sung na Coreia do Norte) é todo o regime que suprime a autogestão e a democracia parlamentar, regime de liberdade de imprensa, greve, religião, associação política e sindical e impõe uma ditadura brutal de partido único, baseado na ideia de que «o Estado é tudo, o indivíduo é nada». Detenção arbitrária e por longos períodos de cidadãos sem culpa formada, assassínios e torturas cometidos pelas polícias políticas são o pão nosso de cada dia dos regimes totalitários, que podem ser teocráticos ou não (VALE TRÊS VALORES). Realismo crítico é a teoria segundo a qual a matéria é real e exterior às nossas mentes mas estas não espelham como ela é. O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O realismo crítico na medida em que  despreza parte das intuições empíricas (cores, sons, etc.) a favor da razão abstracta é uma corrente dentro do racionalismo, doutrina que afirma que a razão é o principal orgão de conhecimento dissipando ou subalternizando as impressões sensoriais (VALE TRÊS VALORES). A teoria hilemórfica (hyle é matéria-prima universal; morfos é forma) de Aristóteles sustenta que cada coisa individual ou primeira substância (proté ousía) como, por exemplo, este cavalo cinzento, se forma da união entre a forma eterna de cavalo (eidos)que existe algures e a hylé ou matéria-prima universal, indiferenciada, que não é água nem fogo nem ar, nem terra mas que passa a existir ao juntar-se à forma.No cosmos de Aristóteles há dois mundos, o mundo sublunar, composto de quatro esferas concêntricas, a Terra (imóvel no centro) e as esferas de água,ar e fogo, no qual o movimento dos corpos não é circular e é teleológico, obedece a finalidades inteligentes, isto é, os corpos desejam voltar à origem do seu constituinte principal (exemplo: a pedra largada no ar cai porque o seu télos, finalidade, é voltar à «mãe», a Terra); o mundo celeste, composto de 54 esferas de cristal incorruptíveis com astros incrustados, 7 delas de planetas (Lua, Mercúrio, etc) e 47 de estrelas, que giram circularmente de modo teleológico, finalista,  já que estrelas e planetas, seres inteligentes, desejam alcançar, fora do cosmos, Deus, o pensamento puro, que se pensa a si mesmo e não se importa com o cosmos. Deus não é a causa formal (o modelo) do cosmos nem a causa eficiente (o construtor) do cosmos, mas apenas a causa final, o télos, do movimento dos astros inteligentes e das respectivas esferas (VALE TRÊS VALORES).

 

2) Anarquista: «A propriedade das fábricas e de todas as empresas deve ser dos trabalhadores. Instituímos a autogestão, isto é, a assembleia geral de todos os operários, engenheiros e contabilistas toma decisões sobre salários, investimentos, vendas, etc. O patrão desaparece e desaparece o Estado de democracia parlamentar que não é mais que ditadura disfarçada dos capitalistas. Defendo o casamento livre de gays e lésbicas e o direito a abortar livremente para as mulheres».

 

Socialista democrático/ social-democrata: «A propriedade da grande maioria das empresas deve ser privada, isto é, estar na mão dos patrões que, em certos casos, devem aceitar a cogestão. Mas há empresas de sectores fundamentais - siderurgia, electricidade, televisão, etc - que devem estar na mão do Estado democrático. Este deve impor impostos progressivos aos capitalistas de modo a ter serviço nacional de saúde e escolaridade pública gratuita até ao final do curso universitário. Defendo a democracia parlamentar e o casamento de gays e lésbicas e a liberdade de aborto sem punição».

 

 Conservador: «A propriedade das empresas deve ser privada pois os empresários são os criadores de emprego os motores primeiros da economia. Os subsídios de desemprego e o rendimento social de inserção deviam acabar ou ser reduzidos para estimular o mercado de trabalho. Defendo as privatizações, a democracia parlamentar, a liberdade de imprensa. Mas a democracia não deve permitir o aborto livre, o casamento de gays e lésbicas, a eutanásia: deve ser guiada por bons princípios religiosos, cristãos.» (VALE QUATRO VALORES).

 

3-A) A objeção de consciência é o direito constitucional de um cidadão se recusar a cumprir uma lei ou disposição estatal que fere as suas convicções mais íntimas e sagradas. Exemplo: um médico católico pode recusar fazer um aborto a uma paciente invocando a objeção de consciência assente na convicção de que «é pecado extinguir uma vida intra uterina». Isto liga-se a subjectivismo, doutrina que afirma que a verdade varia de pessoa a pessoa - outros médicos aceitam o aborto voluntário, o que é uma questão de ética, doutrina dos valores de bem e mal, correcto e incorrecto (VALE DOIS VALORES).

 

3.B)A vontade autónoma reside no eu numénico, ou eu racional, na doutrina de Kant, e permite  a cada pessoa universalizar a sua máxima ou princípio subjetivo, agir de acordo com o imperativo categórico que cada um gera no seu eu racional ou seja agir por dever : trata cada ser humano como um fim em si mesmo, alguém digno de respeito, e nunca como um meio para chegares a fins egoístas. Agir em conformidade com o dever é obedecer às leis exteriores, político-administrativas, mas obedecendo por calculismo à  vontade heterónoma situada no eu fenoménico ou eu empírico e  governada por interesses materiais, instintos calculistas e paixões contrárias. No fundo é agir segundo o imperativo hipotético: age de modo a favoreceres-te sempre a ti mesmo e aos teus, sem critério de equidade universal. Exemplo: ao ver o carro patrulha da GNR o condutor abranda a velocidade do seu automóvel de 160 para 90 quilómetros por hora, cumpre a lei por receio de ser multado (VALE TRÊS VALORES).

 

3-C) Metafísica é o reino, real ou imaginário, de entidades invisíveis, incognoscíveis ou sobrenaturais como, por exemplo, deuses, demónios, almas humanas no «além», paraíso, infernos, buracos negros ou singularidades onde o espaço-tempo desaparece, etc. Intuição inteligível é a captação instantânea ou suposição de uma realidade ou irrealidade invisível, metafísica ou cisfísica. Conceito empírico é uma ideia abstraída de percepções empíricas - como por exemplo o conceito empírico de espiga de trigo nasce depois de se ver milhares de espigas de trigo - e está fora da esfera da metafísica, em princípio (VALE DOIS VALORES).  

 

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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015
Teste de filosofia do 11º ano, turma C (Outubro de 2015)

 

.Eis um teste do 11º ano de filosofia, o primeiro do primeiro período lectivo, numa escola secundária de vanguarda no campo da filosofia e em outros, no Baixo Alentejo e em Portugal. .

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C

26 de Outubro de 2015.

Professor: Francisco Queiroz

 

I

“Alguns operários são sindicalistas.».

Alguns sindicalistas são marxistas.

Logo, os operários são marxistas..”

 

1-A) Indique, concretamente, três regras do silogismo formalmente válido que foram infringidas na construção deste silogismo.

 

1-B) Indique o modo e a figura deste silogismo

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à seguinte proposição«Os alentejanos são bons cantores».

 

3) Distinga realismo crítico de Descartes do idealismo não solipsista subjetivo e da fenomenologia.

 

4) Aplique o princípio do terceiro excluído ao conjunto destas 3 correntes.

 

5) Tendo como primeira premissa a proposição «Se for ao aeroporto de Beja viajo de avião», construa:

 

A) Um silogismo condicional modus ponens

 

B) Um silogismo condicional modus tollens.

 

6) Construa um silogismo disjuntivo Tollendo/ ponens tendo como premissa inicial a frase «Ou és sportinguista ou és benfiquista» 

 

7) Distinga a intuição inteligível, do raciocínio e do conceito empírico.


 CORREÇÃO DO TESTE COTADO PARA 20 VALORES

1-A) Três regras infringidas da validade do silogismo acima exposto foram: de duas premissas particulares (alguns...alguns) nada se pode concluir; nenhum termo pode ter maior extensão na conclusão do que nas premissas (alguns operários / os (todos) operários); o termo médio (alguns sindicalistas) tem de ser tomado pelo menos uma vez universalmente. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

1-B) O modo do silogismo é IIA e a figura é PS (predicado e sujeito é a posição do termo médio nas premissas) ou 4ª figura.(VALE DOIS VALORES).

 

2) O quadrado lógico é o seguinte:

 

Os alentejanos são bons cantores    Nenhum alentejano é bom cantor

(TIPO A- Universal Afirmativa)          (TIPO E- Universal Negativa)

 

 

Alguns alentejanos são bons cantores.Alguns alentejanos não são bons cantores

(TIPO I - Particular Afirmativa)              (TIPO O -  Particular negativa)

  

VALE TRÊS VALORES                                          

 

3) O realismo crítico de Descartes é a teoria qiue sustenta que há um mundo real de matéria exterior às mentes humanas composto de uma matéria indeterminada, sem peso nem dureza/moleza, apenas formado de figuras geométricas, movimento, números (qualidades primárias, objetivas), sendo subjectivas, isto é exclusivamente mentais, as cores, os cheiros, os sabores, as sensações do tacto, o calor e frio (qualidades secundárias, subjectivas). O idealismo não solpsista ou pluralista e subjectivo é a teoria que sustenta que o mundo material é ilusório, existe apenas dentro de uma multiplicidade de mentes humanas e cada uma delas constrói esse mundo de modo diferente das outras ( «A torre de Belém que eu invento/vejo não é igual à torre de Belém que tu inventas/ vês), A fenomenologia é a ontologia que sustenta não saber se o mundo material subsiste ou não fora das mentes humanas. (VALE CINCO VALORES).

 

4) O princípio do terceiro excluído diz que uma coisa ou uma corrente de pensamento pertence ao grupo A ou ao grupo não A, excluindo a terceira hipótese. Comparando as três correntes da pergunta anterior pode enunciar-se assim: ou se é realista, afirmando a certeza de um mundo material extramental, ou não se é realista negando isso (idealismo) ou duvidando disso (fenomenologia).  (VALE DOIS VALORES)-

 

5) a)  Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião.

          Fui ao aeroporto de Beja.

          Logo, viajei de avião.     (VALE UM VALOR)

 

5.b)  Se for ao aeroporto de Beja, viajo de avião.

         Não viajei de avião.

         Logo, não fui ao aeroporto de Beja   (VALE UM VALOR)

 

6)  Ou és sportinguista ou és benfiquista.

     Não és sportinguista.

     Logo és benfiquista.  (VALE UM VALOR)

 

7) A intuição intelígivel é uma apreensão imediata de algo metafísico, invisível, que pode até não ser real. Exemplo: a intuição de Deus, dos quarks e leptons, etc. O raciocínio é uma articulação lógica de juízos que desembocam numa conclusão. Exemplo: As lareiras acesas deitam fumo/ Há fumo a sair pela chaminé daquela casa/ Logo, a causa deve ser uma lareira com lenha ou carvão a arder. O  conceito empírico é uma ideia nascida das percepções empíricas, do que vemos, tocamos, ouvimos. Exemplo: a ideia de girassol, nascida de eu ter visto um campo de girassóis (VALE DOIS VALORES).

 

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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2013
Teste de Filosofia do 10º Ano, Turma A, Novembro de 2013

 

 O presente teste de filosofia centra-se  nas rubricas do programa de Filosofia do 10º ano de escolaridade «1.1 O que é a filosofia», «1.2. Quais são as questões da filosofia», do módulo I- nas quais se incluem as noções de realismo e idealismo, os conceitos aristotélicos de tó ón e tó tí, a teoria do acto a teoria dos três mundos, das três partes  e as doutrinas da participação e ascese em Platão, as noções aristotélicas de hylé, eidos e proté ousía - e na rubrica  1.2 «Determinismo e liberdade na acção humana» do módulo II do programa, na qual se inclui a noção de fatalismo.   

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Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A
6 de Novembro de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

I

 

«O idealismo ontológico opõe-se ao realismo ontológico e considera-se, em regra, que isso não é do domínio da ética nem da estética. Em filosofia, há pelo menos dois sentidos da palavra «ser»: o tó on e o tó tí, dos gregos.»

 

1) Explique, concretamente, este texto.

 

2) Relacione, justificando:

 

A) As três partes da alma e os três estratos sociais da pólis, em Platão.

B) O processo de constituição dos entes individuais (árvores, cavalos, etc.)  segundo Platão e segundo Aristóteles.

C)  Fatalismo e teoria do acto e da potência.

D)  A percepção empírica, o conceito e o juízo.

E) A teleologia e os movimentos dos corpos nas duas regiões do cosmos aristotélico.

 

 

    CORREÇÃO DO TESTE, COTADO EM 2O VALORES

 

 

1) O idealismo ontológico é a doutrina que sustenta que o mundo material não é real em si mesmo mas é um conjunto de percepções sensoriais e ideias dentro da imensa mente do sujeito humano e o realismo ontológico é a doutrina segundo a qual o mundo material é independente das mentes humanas, real em si mesmo. É usual considerar que isto não é domínio da ética, doutrina do bem e do mal, do justo e do injusto, nem do domínio da estética, doutrina do belo e do feio, do sublime  e do horrível. (VALE TRÊS VALORES). O tó on é o ente, algo que existe, «o que é», o quod. O tó tí é a forma, essencial ou acidental, «o quê-é», o quid: o cavalo distingue-se de árvore porque possuem tó tís diferentes (VALE DOIS VALORES). 

 

2) A)  A correspondência entre a alma humana e a pólis ou cidade-estado grega é a seguinte: o Nous, ou razão intuitiva, que apreende a verdade dos arquétipos, equivale à classe dos filósofos-reis, um grupo de homens e mulheres, honestos e intelectualmente muito dotados, que vivem em comum numa casa do Estado,  não formam casais fixos mas trocam de parceiro, de modo a não saber quem é o pai de cada filho, não possuem ouro e prata nem bens materiais e fazem as leis da cidade e emitem as ordens; o Tymus ou Tumus, coragem ou brio militar, equivale à classe dos guerreiros, um grupo de homens e mulheres com treino militar, que vivem em comum  numa casa do Estado,  não formam casais fixos mas trocam de parceiro, não possuem ouro e prata nem bens materiais e aplicam ao povo as leis e a justiça decretada pelos filósofos-reis, mantendo a ordem na cidade e prendendo os malfeitores; a Epytimia ou concupiscência,  o conjunto dos prazeres da carne (comer e beber em excesso, adquirir e possuir ouro, prata, etc.,), que corresponde à população em geral, composta por classes ricas, médias e pobres, desde os proprietários de grandes terras e comerciantes, aos artesãos, servos e escravos. Esta população pode manipular ouro e prata mas não pode eleger os filósofos-reis e os guerreiros que a governam e julgam, os quais permanecem incorruptíveis. (VALE QUATRO VALORES).

 

 

2) B) Segundo Platão, a formação dos primeiros entes individuais ocorreu do seguinte modo: o demiurgo ou deus arquitecto, com a ajuda dos deuses do Olimpo, desceu à matéria informe, à chorá, e moldou nesta as árvores, as montanhas, os rios, os cavalos, os homens à semelhança dos arquétipos de árvore, montanha, rio, homem, etc.,.Segundo Aristóteles a formação dos primeiros entes individuais consiste na união da hylé ou matéria-prima universal indeterminada com as formas eternas e imóveis (eidos) de árvore, montanha, homem, etc, sem a intervenção de Deus, o pensamento imóvel, nem dos deuses. Assim se gera o indivíduo, a substância primeira ou proté ousía.(VALE TRÊS VALORES).

 

2) C) O fatalismo é a corrente que afirma que tudo está predestinado, não existe livre-arbítrio nem acaso . O acto é realidade presente de algo, a potência é o futuro previsível desse algo. Exemplo: uma semente de pinheiro é semente em acto e pinheiro grande em potência. Segundo o fatalismo, a potência está univocamente predestinada: só pode ocorrer de uma maneira, eliminando as outras hipóteses. A fatalidade predestina tanto o acto como a potência de cada coisa. (VALE DOIS VALORES)

 

2) D) A percepção empírica é um conjunto ordenado de sensações - exemplo: a visão e o cheiro da rosa diante de mós - e o conceito empírico é a ideia que se forma, por abstração,  a partir de percepções similares - exemplo: a ideia de rosa que tenho, fechando os olhos ou não tendo nenhuma rosa diante de mim. O juízo é uma afirmação ou negação, ligando dois ou mais conceitos - exemplo: a rosa é vermelha e bela. (VALE DOIS VALORES)

 

 

2) E) A teleologia é a existência e o estudo das finalidades nos processos da natureza ou da supra-natureza. Na região inferior do cosmos aristotélico, isto é, no mundo sublunar de 4 esferas concêntricas, o télos ou finalidade do movimento dos corpos é regressar à origem do seu constituinte: por exemplo, a pedra lançada para a esfera do ar cai para a esfera da terra porque deseja voltar à origem. Na região superior do cosmos, isto é, no mundo das 54 esferas de cristal com astros feitos de éter incrustados, o  télos do movimento circular dos planetas e estrelas, fazendo girar as respectivas estrelas, é (tentar) atingir Deus, que está além da última esfera de estrelas. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

 

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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Teste de filosofia 11º ano de escolaridade em Portugal (meio do segundo período letivo)

 

Vejamos um teste de filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal, suscetível de ser dado a meio do segundo período letivo, no modelo que preconizo para suscitar alunos cultos e criativos, .

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

 Fevereiro de 2012        Professor: Francisco Queiroz       

 

I

 

« Ninguém pode pretender, com razão, conhecer alguma coisa da causa transcendental das nossas representações do sentido externo…(Kant , Crítica da Razão Pura»)

 

1-I)      Explique a frase do texto acima.

 

2-I)      Explique, segundo a gnosiologia de Kant, onde e como se forma o fenómeno árvore, as cores verde e castanha da árvore e o juízo «A árvore é muito antiga».

 

3-I)      Explique a relação entre fenómeno e númeno, e, entre ambos, por um lado, e a sensibilidade, o entendimento e a razão, por outro lado.

 

II

 

«Não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções. Uma substância é inteiramente diferente de uma percepção. Não temos pois nenhuma ideia de substância. A inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária como suporte das nossas percepções. Nada parece necessário para servir de suporte à existência de uma percepção.» David Hume (Tratado do Entendimento Humano, pag 280)

 

 

 

2-1) Explique este texto reportando-o a realismo ontológico, idealismo ontológico, ceticismo, empirismo, racionalismo. Segundo este texto de Hume, parece-lhe que o empirismo conduz necessariamente ao realismo ontológico?  Justifique.

 

 

 

2-2)  A posição de Hume sobre inerência e substância é a mesma de Kant? Justifique.

 

III

 

3)Relacione, justificando:

 

 

 

3-1-           O ser-aí em Heidegger e as três fases da Ideia absoluta em Hegel, uma das quais  corresponde  àquele.

 

 

3-2-           Idealismo transcendental em Kant, e o idealismo volitivo de Schopenhauer e ideal-realismo em Hegel.

 

 

3-3-           Metafísica, categorias em Kant e sete relações filosóficas em Hume.

 

 

 

 

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO EM 20 VALORES NO TOTAL)

 I

 

I-1) Ninguém pode conhecer nada da causa transcendental - isto é, a priori - das nossas representações do sentido externo, isto é, dos objetos que vemos e tocamos no espaço, que é o sentido externo, porque essa causa é o númeno, o objeto real, incognoscível, exterior, em princípio, ao espírito humano composto de sensibilidade, entendimento e razão (VALE DOIS VALORES).

 

I- 2) O fenómeno árvore forma-se na sensibilidade, segundo Kant,  e do seguinte modo: os númenos ou objetos metafísicos transcendentes ao espírito humano afetam a sensibilidade, fazendo nascer nesta um caos de sensações, e as formas a priori da sensibilidade, o espaço (figuras geométricas, extensão) e o tempo, vão moldar esse caos material dando-lhe a forma de uma árvore (fenómeno). Esta última está fora do nosso corpo físico mas dentro da nossa sensibilidade e as cores verde e castanha da árvore não pertencem a esta mas ao modo de o eu percepcionar o fenómeno. Assim, se a árvore é ilusória - idealismo kantiano: a árvore não é uma coisa em si, desaparece se morrermos - as cores da árvore são duplamente ilusórias. O juízo «a árvore é muito antiga» forma-se no entendimento a partir da tábua dos juízos puros que são proposições vazias dotadas de certas formas e da tábua das categorias ou conceitos puros. Em primeiro lugar, as imagens do fenómeno árvore ascendem da sensibilidade, através da imaginação e são reduzidas à unidade pela categirias de unidade, pluralidade, causa-efeito, etc: forma-se o conceito de árvore. E as imagens de árvores muito antigas são igualmente enviadas ao entendimento e são transformadas no conceito empírico «árvore antiga». Aplica-se a tábua dos juízos a estes dois conceitos ligando-os através do verbo ser e surge o juízo empírico:«A árvore é muito antiga.» (VALE TRÊS VALORES).

 

I- 3)  O fenómeno é o objeto visível e palpável que nasce na sensibilidade por duas causas: uma externa, o númeno ou objeto metafísico, real e incognoscível (Deus, mundo como totalidade, etc) que afeta de fora a sensibilidade, fazendo nascer nesta o caos da matéria: outra, interna, as formas a priori do espaço (figuras, extensão) e do tempo que dão a forma ao fenómeno. (Não me refiro aqui ao númeno possivelmente interior ao espírito humano, mas impenetrável, que seria alma imortal do sujeito cognoscente).

 O entendimento não sente mas pensa o fenómeno e atribui-lhe unidade, necessidade, mas não pensa o númeno: o entendimento é a inteligência concreta virada para o campo da experiência. A razão desconhece os fenómenos e os conceitos empíricos do entendimento, pensa apenas os númenos que desconhece e que estão fora dela e do espirito humano. É a faculdade metafísica e filosófica por excelência. (VALE TRÊS VALORES)

 

2-1) Ao dizer "não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções"  Hume revela-se empirista (as perceções sensoriais são a fonte dos conhecimentos) e ao acrescentar "não temos pois nenhuma ideia de substância" Hume situa-se ou como cético (teoria que, em certa modalidade, duvida da existência da matéria) ou como idealista (teoria que afirma que o mundo material está na nossa mente, não existe fora desta). Ao dizer a "inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária como suporte das nossas perceções" Hume parece estar a criticar o racionalismo (doutrina que diz que as nossas ideias fundamentais são construídas pela razão, desprezando os dados da experiência) porque este, em regra, supõe que o acidente ou traço fortuito, ocasional, repousa sobre uma base sólida, a substância. Hume rejeita pois o realismo, doutrina da existência de um mundo material fora das mentes humanas. (VALE TRÊS VALORES)

 

2-2) Em Kant a inerência e subsistência é uma categoria, ou seja, uma forma a priori do entendimento: substância e acidente, por assim dizer, o castiçal (subsistência) que suporta a vela (inerência) e a vela nesse inserida, . As categorias são anteriores`a experiência, são a priori. Em Hume, a inerência parece não existir: « Nada parece ser necessário para servir de suporte à existência de uma perceção». Portanto, Kant e Hume sustentam posições diferentes nesta matéria. (VALE UM VALOR)

 

3-1) O ser-aí, na teoria de Heidegger, é cada homem, na sua situação, na sua verdade íntima e peculiar. Liga-se à terceira fase da teoria da ideia absoluta de Hegel. Segundo este, o motor da história universal é a ideia absoluta ou Deus que atravessa três fases: a do Ser em si, ou Deus sozinho como espírito, antes de criar o espaço, o tempo e o universo; a do Ser fora de si, ou Deus alienado em natureza física, mineral, vegetal ou animal; a do Ser para si, que começa com o surgimento da humanidade que é Deus incarnado voltando a si, à fase do espírito puro. Esta última fase é a do ser aí (Dasein) ou cada homem na sua circunstância. (VALE TRÊS VALORES)

 

3-2) Idealismo transcendental em Kant: a matéria é mera representação no sentido externo ou espaço, a sua causa remota é o númeno ou objeto metafísico, o espaço e o tempo são transcendentais ou a priori, estão inerentes ao sujeito. Idealismo volitivo em Schopenhauer: é bastante semelhante ao de Kant, a matéria é irreal, representação no sentido externo mas a causa da matéria é a vontade inconsciente do sujeito ou da espécie humana. Ideal-realismo em Hegel:o mundo material existe fora das mentes humanas mas as formas da natureza são ideias da Mente Divina. (VALE DOIS VALORES).

 

3-3) Metafísica é a região dos entes ou supostos entes invisíveis, impalpáveis, além da experiência física e sensorial. As sete relações em David Hume sao uma espécie de categorias ou formas que organizam a experiência tal como as doze categorias ou conceitos puros de Kant, ainda que as primeiras não possam existir fora dos atos e circunstâncias concretas.

Em Kant, as categorias são os moldes vazios dos conceitos empíricos, que sintetizam os dados recebidos da sensibilidade (experiência) e interpretam estes. São doze: unidade, pluralidade, totalidade; realidade, negação, limitação; inerência e subsistência (substância e acidente), causalidade e dependência (causa e efeito), comunidade (ação recíproca entre o agente e o paciente); possibilidade-impossibilidade, existência- não existência, necessidade-contingência.

Em Hume, as sete relações filosóficas são: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação.  Há algumas equivalências óbvias: a causação (causalidade determinista) em Hume equivale à necessidade em Kant; a unidade e a pluralidade em Kant equivalem à proporção de quantidade ou número, em Hume (VALE TRÊS VALORES).  

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

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Quinta-feira, 31 de Agosto de 2006
É a filosofia uma disciplina não empírica e não formal?

 

Estarão correctos aqueles que sustentam que a« filosofia é uma disciplina não empírica e não formal»?

Aires  Almeida e Desidério Murcho definem do seguinte modo a filosofia (o negrito é de nossa autoria):

 

«A filosofia trata de problemas conceptuais e não formais.Como a matemática, a filosofia não é uma disciplina empírica, isto é, não trata de problemas que se possam resolver pela observação ou pela experimentação. Assim a filosofia não é uma disciplina como a física ou a história que são disciplinas empíricas. Contudo, ao contrário da matemática, a filosofia não se ocupa de problemas que possam resolver-se por meio de provas formais. Os problemas da filosofia só podem resolver-se por via da discussão racional, cuidadosa e sistemática

«É enganador pensar que os problemas da filosofia por serem de natureza conceptual não são verdadeiros problemas ou não são problemas reais. O problema de saber se o aborto é eticamente permissível não é menos real só porque é um problema conceptual.»

(in «Textos e Problemas de Filosofia», organização de Aires Almeida e Desidério Murcho, Plátano Editora, Lisboa, pags. 10-11)

 

Um dos erros latentes deste texto é opôr formal a conceptual. Formal não se opõe a conceptual: todo o conceito é uma forma espiritual. Opõe-se sim a substancial ou «material». conceitos formais - como o conceito de um, de dois, de três, de todo e de parte - e há conceitos substanciais - como o conceito ou ideia de cão, de árvore, de aborto, de mar, de espírito, de matéria...A filosofia trata obviamente de problemas formais na medida em que se converte em lógica clássica ou proposicional simbólica e em dialéctica.

 

Por exemplo, o problema da Unidade geradora da Multiplicidade é, em si mesmo, formal e conceptual.

Ao contrário do que sustentam Aires de Almeida e Desidério Murcho, a filosofia é uma disciplina simultaneamente empírica e meta-empírica, isto é, metafísica. Se não possuisse uma vertente empírica, a filosofia não poderia produzir nenhuma ciência empírica ou prática como aconteceu ao longo dos séculos - o átomo de Demócrito e Leucipo, da Antiguidade Clássica, é um conceito filosófico que evoluiu num sentido empírico a ponto de se lhe determinar substancialidade (hidrogénio, oxigénio, cobre..) e correspondente número de massa - nem tão pouco influiria na reformulação das ciências.

 

Na verdade, a filosofia trata de problemas que se podem resolver pela experimentação biotecnológica ou político-social. Por exemplo, a filosofia da autogestão das empresas como «a melhor forma de criar justiça social e riqueza» nasce de problemas empíricos, possui um carácter parcialmente empírico e pode ser testada empiricamente. Do mesmo modo, sucede com o aborto: a sensibilidade de cada pessoa , o seu lado empírico, influi na filosofia dessa pessoa àcerca do aborto voluntário. A filosofia é a ciência empírica ou hermenêutica que duvida de si mesma: será que a função faz o orgão, como dizia Lamarck? Serão os sonhos manifestações dos desejos, muitas vezes distorcidas, como dizia Freud? Serão as vacinas úteis à saúde ou causarão arterioesclerose, cancro e um debilitamento geral das defesas orgânicas?

 

Separar a filosofia da realidade empírica, negar-lhe vertente empírica, é próprio de uma visão antidialética do mundo, hiper-analítica, que fragmenta o que não pode ser dissociado.

Igualmente se equivocam Aires e Desidério ao sustentar que «a filosofia não se ocupa de problemas que possam resolver-se por meio de provas formais». Mas é óbvio que se ocupa disso! Os princípios da lógica clássica (identidade, não contradição, terceiro excluído, razão suficiente) não são senão mecanismos ou provas formais e a filosofia ocupa-se deles, inclui-os no seu arsenal de pensamentos. A filosofia ocupa-se de todos os problemas que constituem o cerne das ciências, lógicas, empírico-formais ou hermenêutico-sociais: o surgimento de qualquer dúvida ou profundidade especulativa numa ciência (por exemplo o pensamento de um matemático sobre se «dois adicionado a três é o mesmo que quatro adicionado a um») converte instantânea e automaticamente a certeza científica em filosofia.

 

O erro de Desidério e Aires reside em confundirem conceptual com metafísico ou racional-abstracto, como se depreende da seguinte passagem (o negrito no texto abaixo é nosso):

 

«Dizer que um problema é conceptual é só dizer que não é um problema susceptível de ser resolvido recorrendo à experiência ou ao simples cálculo - mas pode ser um problema real e importante. Acontece apenas que é um problema cuja solução depende fundamentalmente do pensamento incluindo a avaliação crítica de pontos de vista diferentes».

(in «Textos e Problemas de Filosofia», organização de Aires Almeida e Desidério Murcho, Plátano Editora, Lisboa, pags.11)

 

Um mecânico que se apercebe que é necessário mudar a rótula do sistema de rodas de um automóvel observou sensorialmente e concebeu - formou um conceito - intelectualmente a solução do problema. E vai resolver ou traduzir esse conceito empírico num acto experimental: a mudança da rótula.

Falta a Aires e Desidério a distinção entre conceito empírico e conceito meta-empírico ou metafísico. Se possuíssem essa noção, não se equivocariam, não usariam de forma espúria o termo «conceptual».

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

(Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 01:36
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