Sexta-feira, 22 de Abril de 2016
O surrealismo de Heidegger no conceito de distância

 

Heidegger designou cada homem, a consciência individual de cada pessoa como o "ser aí" (Dasein). Mas este pensador alemão, nazi numa dada época, fora do comum na sua perspicácia, entrou no surrealismo, na liquidificação e confusão de conceitos, quando escreveu em «Ser e tempo»:

 

«O "ser aí" se mantém, enquanto "ser no mundo", essencialmente em um des-afastar. Não pode cruzar nunca este desafastamento, a lonjura do "à mão" para ele mesmo. A lonjura de algo "à mão" relativamente ao "ser aí" é sem dúvida algo que ele pode encontrar diante de si como distância, ao precisá-la em relação de uma coisa concebida "diante dos olhos" no sítio ocupado anteriormente por ele, "o ser aí". Este pode atravessar posteriormente o intervalo da distância mas só fazendo da própria distância uma distância des-afastada. O "ser aí" conseguiu tão pouco cruzar o seu des-afastamento, que mais precisamente o foi refazendo e refaz constantemente, porque ele mesmo é essencialmente des-afastamento , quer dizer, espacial. O "ser aí" não pode ir e vir dentro do círculo dos seus des-afastamento do caso, só pode mudar uns por outros. O "ser aí" é espacial naquele modo de descobrimento do espaço do "ver em redor" que consiste em conduzir-se relativamente aos entes que estão diante de si espacialmente assim des-afastando-os constantemente (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 123, Fondo de Cultura Económica; o destaque a bold é posto por nós).

 

Desafastamento é o mesmo que aproximação ou que imobilização ou congelamento da distância. Ao fixar o meu olhar numa montanha distante, estou a desafastá-la, a travar a sua desaparição do meu horizonte visual.  Heidegger entra em contradição quando afirma que cada homem, isto é, o "ser aí" «não pode cruzar nunca este desafastamento, a lonjura do "à mão" para ele mesmo» e, mais à frente, diz sobre o ser aí: «Este pode atravessar posteriormente o intervalo da distância mas só fazendo da própria distância uma distância des-afastada».

Primeiro, o ser aí não pode atravessar a distância que o separa dos entes em redor, por último já pode fazendo-o posteriormente. Porquê, posteriormente? E como se faz da distância uma distância desafastada ? Distância é um fenómeno objectivo ou é uma construção subjectiva do «ser aí»? Ao caracterizar o ser aí «essencialmente como des-afastamento, isto é, espacial» Heidegger identifica, o espaço com o desafastar. Mas não há espaço no afastamento? Nada disto é claro na prosa de Heidegger, muito avaro em exemplos concretos.

 

O que é fazer da distância uma distância desafastada, se afastamento está incluído no próprio conceito de distância? É possível encurtar a distância por meios extrasensoriais e intelectuais? Sim, se falarmos no domínio da telepatia e da clarividência. É possível desafastar os 305 quilómetros entre Porto e Lisboa ou estes são inamovíveis, reais, independentes do ser aí?

 

Heidegger brinca com as palavras, torna-as obscuras, dotadas de sentidos diversos, faz poesia e apresenta isso como ciência fenomenológica mas isso não mostra como a realidade é. O reino do verbo sem referentes sólidos é o grande pecado da filosofia: fala-se ou escreve-se «caro», com certa obscuridade, e escrevem-se livros de títulos sonantes, tiram-se doutoramentos. Desde que se tenha verbosidade retórica pode chegar-se às mais «altas teorias» e o público, que não entende, venera e cala-se. Heidegger era um filósofo? Sim, mas enquanto escritor surrealista, era um charlatão inteligente, em matéria de ontognoseologia...A filosofia está cheia de catedráticos pseudo-racionais.

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 08:59
link do post | comentar | favorito

Domingo, 5 de Agosto de 2007
Filósofos e professores de Filosofia, na óptica de Schopenhauer

Schopenhauer sustenta que os catedráticos de filosofia não são, em regra, autênticos filósofos porque estão obrigados a representar o papel de «sábios», com respostas para tudo, e isso impede-os de levar a cabo a investigação livre da verdadeira filosofia, desprendida de interesses económicos e de prestígios institucionais:

 

 «Descobrimos aqui em primeiro lugar que, desde sempre, muito poucos foram os filósofos que foram também professores de filosofia e, proporcionalmente, ainda menos os professores de filosofia que foram também filósofos. Podíamos dizer por consequência que, do mesmo modo que os corpos idioeléctricos não são condutores de electricidade, os filósofos não são professores de filosofia. Em verdade, para o que pensa por si mesmo esta tarefa estorva-o mais do que qualquer outra. Pois a cátedra de filosofia é de certo modo um confessionário público, onde um faz a sua profissão de fé coram populo (em presença do povo). Ademais, em ordem à aquisição autêntica de uma compreensão fundamental e profunda, quer dizer, em ordem a chegar a ser de verdade sábio, quase não há nada que seja mais contraproducente que a obrigação perpétua de parecer sábio, esse alardear de supostos conhecimentos ante uns alunos ávidos de aprender, esse ter à mão respostas para todas as perguntas imagináveis» (Arthur Schopenhauer, Sobre la Filosofía de Universidad, Editorial Tecnos, Madrid, pag. 46-47).

 

E mostra que há uma rede de solidariedades pessoais entre os professores catedráticos e os agregados que cria um corrupto aparelho de propaganda de prestígios e índices de saber aparente:

 

«Con los filósofos académicos de nuestros días las cosas van sin duda más aprisa. No tienen tiempo que perder: es suficiente que un profesor cualquiera proclame, ante los colegas importantes de la universidad más próxima, que la doctrina de su compañero constituye la culminación de la sabiduría humana, finalmente lograda. Enseguida se convertirá en un grande filósofo, pasando a ocupar sin más preámbulos el lugar que le corresponde en la historia de la filosofía, es decir, en la que un tercer colega está preparando para la próxima exposición» (Schopenhauer, ibid, pag 63)

 

O que vale o saber universitário institucional dos catedráticos, agregados e outros? Muito menos do que aquilo que aparenta. A entrada para o cargo de catedrático faz-se por cooptação: são os poucos que já lá estão que decidem sobre o valor da tese de doutoramento e, em regra, não permitirão que esta derrube as torres de prestígio que construiram para si mesmos...

 

Aliás, não são os melhores professores de filosofia quem faz os programas de filosofia, os testes nacionais de exame, os manuais. São aqueles que, mercê do seu activismo teórico  - em muitos casos marcado por inépcia - e da sua capacidade de promoção mediática - ora porque se constituiram em associação ou sociedade de professores de filosofia, ora porque contactaram na hora certa o editor X ou Y ou o funcionário do Ministério da Educação ligado ao Departamento de programas ou de avaliação de exames - conseguem conquistar lugares-chave. E em Portugal, um país de clientelas seculares, onde a «cunha» e o telefonema simpático que abre uma porta do poder ao "esperto" são comuns, mais se acentua o triunfo dos incompetentes que passam por «filósofos inovadores».

 

Como obstar a isto? É quase impossível. Só através de um largo movimento de crítica pensante, que inclui a publicação em papel ou na internet de numerosos artigos mostrando as falácias e insuficiências teóricas dos autores dos programas, manuais e exames nacionais de filosofia, é possível reduzir ou mesmo apagar a deletéria influência dos medíocres e dos pseudo-pensadores (licenciados, mestres e doutores) que, pretensamente críticos e organizados em rede, possuem no número vasto dos seus adeptos e iniciativas «filosóficas» a arma para triunfarem socialmente.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:38
link do post | comentar | ver comentários (4) | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Janeiro 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

12
13
15
16

23
24
25

26
27
28
29
30
31


posts recentes

O surrealismo de Heidegge...

Filósofos e professores d...

arquivos

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
blogs SAPO
subscrever feeds