Quinta-feira, 2 de Maio de 2013
Equívocos nos exercícios do livro de apoio ao «Lições de Filosofia 10º ano» da Didática Editora, parte II (Crítica de Manuais Escolares- LI)

 

O livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora, está recheado de  exercícios que apresentam como "correctas" respostas ambíguas ou erróneas a questões de escolha múltipla.

Continuemos  a analisar os equívocos de algumas das perguntas de escolha múltipla (uma só resposta certa de entre quatro hipóteses) gizadas por Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho.

 

No banco de questões, capítulo XV, figuram as seguintes:

 

«1. Em qual das seguintes opções é formulado um problema filosófico...

a. O que levará algumas pessoas a matar outras?

b. Será que as pessoas que matam outras se sentem satisfeitas com isso?

c. Matar alguém é sempre errado?

d. Matar alguém em Portugal pode levar à cadeia? ».

 

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, Livro de apoio ao manual «Lições de Filosofia 10º ano», pagina 99)

 

Segundo o manual, só a resposta 2-c é correcta.

 

Crítica minha: Tanto a resposta 2-a como as resposta 2-b e 2-c estão correctas. Por que razão a pergunta 2-a não seria filosófica?

Vê-se que  é filosófica se a explicitarmos do seguinte modo: o que levará algumas pessoas a matar outras, uma possessão diabólica instantânea, o determinismo planetário, uma natureza permanentemente homicida inerente ao ser humano? E por que razão a pergunta 2-b não será filosófica? Nota-se que o é se a explicitarmos deste modo: será que as pessoas que matam outras se sentem satisfeitas com isso porque o instinto de prazer engloba o instinto de assassínio ou, pelo contrário, não sentem satisfeitas mas manipuladas por uma "força oculta"?

 

«20. Os libertistas defendem que...

A. nada na natureza é causado.

B. o determinismo e o livre-arbítrio  são compatíveis.

C. o deterninismo e o livre-arbítrio não são compatíveis.

D. tudo na natureza é fruto do acaso.»

 

(ibid, pag. 102)

Segundo os autores, só a resposta 20-C está certa.

 

Crítica minha: A pergunta recoloca um vórtice de confusão no seio da filosofia analítica. Esta não tem uma definição unânime de libertismo. Uma parte dos adeptos diz que libertismo é o livre-arbítrio existir num mundo àparte do determinismo biofísico, a outra parte diz que existe livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, indeterminismo na natureza. Se se aceitar este segundo ponto de vista, as respostas 20-A e 20-D estão correctas. Em qualquer uma das interpretações, a resposta 20-B está correcta, porque o libertismo nunca é um incompatibilismo, nele o livre-arbítro compatibiliza-se sempre com a natureza, seja esta regida por leis fixas ou caótica. A resposta 20-c está, pois, errada.

 

 É de lastimar que os estudantes sejam alvo deste tipo de perguntas, muitas das quais mal concebidas. Há inúmeras injustiças na avaliação da capacidade filosófica dos alunos devido ao pensar unilateral e equívoco destes autores da escola da filosofia analítica. É possível conceber um outro programa de filosofia de 10º ano, mais substancial e equilibrado do que o actual, que contemple aspectos do platonismo, do aristotelismo,  da filosofia medieval, do cartesianismo, do empirismo inglês, do kantismo, do hegelianismo, do marxismo, da fenomenologia, da filosofia analítica - sem a preponderância desta, como sucede actualmente - do holismo.

  

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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013
Equívocos no manual «Lições de Filosofia, 10º Ano» da Didáctica Editora ( Crítica de Manuais Escolares - XLIX)

 

O manual «Lições de Filosofia 10º ano» de Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho, da Didáctica Editora,  incorre nos habituais erros da filosofia analítica sobre as correntes da acção humana no plano do livre-arbítrio, determinismo e indeterminismo. .

 

CONFUSÕES SOBRE LIBERTISMO E SEU SUPOSTO INCOMPATIBILISMO


 

Escrevem Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho:

 

«A teoria libertista combina duas teses: primeiro, que o determinismo é incompatível com o livre-arbítrio; segundo, que temos livre-arbítrio. Estas teses estão relacionadas: segundo o libertista, nem tudo está determinado precisamente porque temos livre-arbítrio» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 38, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Esta definição é uma incoerência, no seu conjunto: se nem tudo está determinado - ou seja, por exemplo, o movimento da água evaporando-se da superfície terrestre, condensando-se em nuvens e precipitando-se sobre a Terra é determinismo, o envelhecimento dos organismos vivos obedece a determinismos, etc - é porque temos livre-arbítrio, ou seja, há compatibilidade entre determinismo e livre-arbítrio. Se ambos existem, são compatíveis no quadro global da realidade. A compatibilidade é uma coexistência, não é necessariamente uma fusão ou interpenetração. Logo, é um erro dizer que o libertismo é um incompatibilismo - é um chavão, uma frase feita, sobre a qual não se opera reflexão.

 

E a definição de libertismo dada neste manual é, substancialmente, a mesma do compatibilismo ou determinismo moderado porque ambas admitem um livre-arbítrio e determinismo, e em ambas o livre-arbítrio pode agir contra o determinismo. Duplicação sob nomes diferentes, erro de raciocínio. É como dizer sobre uma dada estrada inclinada: «esta estrada que sobe não é a mesma estrada que desce».

 

Heráclito, do fundo dos séculos, ensina estes confusos «pensadores» analíticos: «o caminho que sobe e o caminho que desce são um e o mesmo». O caminho que sobe poderia ser o «libertismo» e o caminho que desce o «determinismo moderado». São, segundo estas definições, a mesma coisa, ora enfatizando verbalmente a liberdade, ora enfatizando o determinismo.

 

SOMOS SEMPRE CONSTRANGIDOS POR SITUAÇÕES ANTERIORES?

 

Lê-se neste manual:

«Comparemos as duas situações seguintes:

 

Situação 1. O João escolhe ficar em casa a estudar em vez de ir ao cinema.

Situação 2. O João é obrigado pelos seus pais a ficar em casa a estudar.

 

O determinista moderado defende que na situação 1 a acção do João é livre porque nada o obrigou a escolher uma coisa em vez de outra. Mas defende que na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa. Contudo, a única diferença entre 1 e 2 é o tipo de constrangimento em causa. Na situação 2, o João é constrangido pelos pais. Na situação 1, é constrangido pelos acontecimentos anteriores.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 42, Didáctica Editora).

 

Como se pode demonstrar que na situação 1 é constrangido pelos acontecimentos anteriores? Não pode. Sucede que, naquele momento, João acha que se vai aborrecer com o filme e por isso escolhe ficar em casa. É isto ser constrangido por acontecimentos anteriores?

 

É possível ainda argumentar contra a tese deste manual que «na situação 2 a escolha de João não foi livre, porque foi obrigado pelos pais a ficar em casa» com o pensamento de Sartre de que «nunca fomos tão livres como debaixo da ocupação alemã»  em 1940-1944 porque aí podíamos escolher sem meias tintas: resistir ao nazismo ou colaborar com ele. De facto, se João ficou em casa «obrigado» pelos pais foi porque não quis assumir a sua liberdade de rebeldia. Logo, a sua aceitação foi de livre vontade, derivou do exercício do livre-arbítrio porque, a menos que estivesse trancado no quarto e a chave da porta da parte de fora, preferiu a submissão do «animal doméstico». Podia ter saído de casa, desafiando a vontade dos pais. A sua decisão foi livre, apesar da condicionante. O mar da liberdade move-se sempre entre as rochas de condicionantes, mas a água flui, vai e vem, mesmo contornando as rochas ou submergindo-as.

 

ERROS NAS DEFINIÇÕES DE RELATIVISMO E OBJECTIVISMO

 

A definição de relativismo enferma do habitual erro da filosofia analítica:

 

«A tese central da teoria relativista é que os juízos de valor são relativos às sociedades. Quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada. Isto contrasta com os juízos de facto.» (Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 54, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição é falsa e incoerente. A sociedade francesa, até há um mês atrás condenava, maioritariamente, e rejeitava, juridicamente, a legalização dos casamentos gays e lésbicos e a adopção de crianças por casais homossexuais. Era, portanto, «relativista» segundo, o raciocínio dos autores deste manual e «não podia estar enganada». .. Há dias, em 23 de Abril de 2013, por votação na Assembleia Nacional francesa, com 331 votos a favor (socialistas, comunistas e outra esquerda) e 225 votos contra (direitas), foi aprovada a lei autorizando o casamento de gays e lésbicas e a adopção por estes de crianças. Isto, sim, é relativismo, variação de posição/ verdade teórica, axiológica, jurídica. E nega a definição de relativismo dada acima segundo a qual «quando uma sociedade condena ou aceita um determinado juízo de valor não pode estar enganada.» Esta definição do manual  é absolutismo e não relativismo.

 

Por outro lado, Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho persistem em ignorar, por limitação de inteligências ou subserviência  face às cúpulas universitárias ou ambas as coisas, que relativismo é o mosaico de opiniões e ideias no seio de uma mesma sociedade. É relativismo haver ecologistas, comunistas, conservadores, sociais-democratas, católicos, ateus, agnósticos, benfiquistas, sportinguistas, portistas, etc, cada um com a sua ideologia e valores.

 

Sobre objectivismo escreve o manual:

 

«A tese central da teoria objectivista é que alguns juízos de valor são objectivos; o objectivismo não defende que todos os juízos de valor são objectivos. Isto significa que quando uma pessoa ou uma sociedade condena ou aceita um dado juízo de valor, pode estar enganada, tal como acontece com os juízos de facto.»

(Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho,  «Lições de Filosofia 10º ano», pag. 57, Didáctica Editora; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

Esta definição peca por vagueza. É tautológica: objectivismo é... juízos de valor objectivos. Não se diz com clareza o que é objectividade, que esta se divide em duas modalidades: extra anima e intra anima. Coitados, não sabem, não têm precisão no pensamento... A dialética é, para eles, uma estranheza.

 

Aires Almeida, Célia Teixeira e Desidério Murcho continuam petrificados nas suas erróneas definições, atrelados ao frágil pensamento de Thomas Nagel, John Searle, Peter Singer e outros, apesar de lerem este blog há anos e terem obrigação de rectificar os seus gritantes equívocos em filosofia. Nada a fazer.. O poder corrompe. Os mestres e doutorados nas universidades estabelecem, em regra, entre si um pacto de silêncio e aceitação dos erros uns dos outros.

 

Antes de tudo, «há que preservar a autoridade sobre os alunos, não pôr em dúvida as cátedras, e estar nas boas graças da opinião pública (im)pensante», dos editores e jornalistas, da classe dominante.  Assim pensam os antifilósofos, dominados por um pragmatismo estreito de ganhar dinheiro com manuais das grandes editoras e popularizar a superficial filosofia analítica que os faz "ser alguém" no mundo burguês dos títulos universitários e das certificações.

 

 

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Segunda-feira, 19 de Março de 2012
David Hume considerava a matemática um conhecimento a priori? (Crítica de manuais escolares - XLI)

 

Diversas imprecisões sobre David Hume são veiculadas nos manuais de filosofia para o ensino secundário. Um exemplo é o do manual «A arte de pensar» da Didáctica Editora, no qual se lê que «David Hume reconhece que há conhecimento a priori»:

 

 

«A priori e a posteriori»

 

«Os exemplos mais óbvios de verdades necessárias são as verdades matemáticas, as quais se limitam a exprimir relações de ideias. Mas são também conhecidas a priori, pois basta-nos usar o conhecimento para conhecê-las ou o raciocínio dedutivo para demonstrá-las. Por sua vez as verdades sobre questões de facto são contingentes e são conhecidas a posteriori, defende Hume. Mas o que significa tudo isto? »

«Significa que o conhecimento a priori, apesar de absolutamente certo, não é acerca do mundo, pois a sua verdade é independente de qualquer observação do mundo. Portanto, Hume reconhece que há conhecimento a priori, mas acrescenta que este conhecimento não é substancial, no sentido em que nada nos diz sobre o que existe fora do pensamento, nem nos diz como são as coisas no mundo. Isso só a posteriori podemos sabê-lo. » (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 158, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ora, David Hume disse exatamente o oposto: em matemática, não há conhecimentos a priori. Vejamos o que escreveu:

 

«Geralmente, os matemáticos alegam que as ideias que lhes servem de objeto são de natureza tão refinada e tão espiritual que não entram na concepção da imaginação, mas devem ser compreendidas por uma visão pura e intelectual, de que só as faculdades da alma são capazes. A mesma opinião anda espalhada pela maior parte da filosofia e é principalmente utilizada para explicar as nossas ideias abstratas e para formar a ideia de um triângulo que, por exemplo, não seja nem isósceles, nem escaleno, nem se restrinja a um determinado comprimento e proporção dos lados. É fácil de ver por que é que os filósofos gostam tanto desta teoria das percepções espirituais e refinadas: é que por este meio encobrem muitos dos seus absurdos e podem recusar submeter-se ao juízo das ideias claras, recorrendo a ideias obscuras e incertas. Porém, para destruir este artifício não temos senão que refletir no princípio tantas vezes repetido de que todas as nossas ideias são cópias das nossas impressões.»( David Hume, Tratado da natureza humana, pags 106-107, Fundação Calouste Gulbenkian; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

 

Hume diz que é um absurdo pretender, como o fazem muitos matemáticos e filósofos, que as ideias abstratas são obtidas por uma visão pura e intelectual, que não derivam de dados empíricos, isto é, que são obtidas a priori. Para Hume, esta teoria das percepções espirituais ou refinadas, a priori, esquece que as ideias são sempre singulares e a ideia de triângulo isósceles é cópia de impressões sensíveis de um triângulo isósceles determinado. Não há, segundo Hume, ideias nem cálculos matemáticos a priori, ao contrário do que acima afirmam os autores de «A arte de pensar».

 

HUME É CÉTICO OU NÃO?

Escreve ainda a «Arte de pensar»:

 

 

«Cepticismo moderado»

 

«Apesar das suas conclusões céticas, Hume não é um cético. Isto porque, ao contrário dos céticos, Hume defende que não devemos abandonar as nossas crenças intuitivas na existência do mundo exterior ou na existência de relações causais reais. Isto porque abandonar as nossas crenças tornaria a nossa vida impossível e poria em causa o nosso instinto de sobrevivência.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag. 163, Didáctica Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Assim, segundo este texto, Hume produz conclusões céticas mas não é um cético. É cético e não é cético, diz a «Arte de pensar». É um pouco confuso, convenhamos...Quererão os autores dizer que Hume é cético em algumas áreas e dogmático noutras? É preciso ser claro. Em quais? É realista? É idealista? Sobre isto, a «Arte de Pensar» é omissa. Basta dizer que é cético? Não, porque, pelos vistos, o nevoeiro do ceticismo não cobre a totalidade das afirmações de Hume.  

 

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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008
A «operacionalidade cognitiva» dos «macacos» ou contradições de Desidério Murcho

Em artigo de «Público» de 25 de Novembro de 2008, intitulado «Escolher conteúdos», escreve Desidério Murcho:

 

«A operacionalidade cognitiva é o primeiro factor importante na escolha de conteúdos escolares. A operacionalidade cognitiva de um conteúdo escolar é tanto maior quanto mais esse conteúdo pode ser proveitosamente aplicado pelo estudante para adquirir por si outros conteúdos. Em filosofia, por exemplo, insiste-se por vezes em ensinar aspectos irrelevantes da lógica aristotélica, além de a própria lógica aristotélica ser irrelevante, quando se pode ensinar lógica proposicional, que é mais operacional e mais intuitiva. O estudante é assim obrigado a decorar um conjunto de conteúdos sem qualquer aplicação para ele descobrir seja o que for, posteriormente.» (D.Murcho, in «Público», 25-11-2008; o bold é posto por nós).

 

A lógica proposicional assenta em diversas regras de validade/invalidade erróneas que Murcho e outros apologistas não detectam ou, se acaso já detectaram, insistem em não reconhecer. Não é, por conseguinte, superior à lógica aristotélica: necessita desta para ser corrigida e sobreviver.

Por exemplo, sobre o silogismo hipotético, o manual «A arte de pensar», de que Murcho é co-autor, declara que a afirmação do consequente (na segunda premissa) é uma forma falaciosa, isto é, um raciocínio erróneo:

 

P ---> Q

Q

Logo P

(Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, pag 39)

 

Assim, segundo Murcho e os adeptos da lógica proposicional é erróneo o seguinte silogismo hipotético:

 

Se estou em Paris, visito a Torre Eifel.

Visito a Torre Eifel.

Logo, estou em Paris.

 

Ora, ao contrário do que postula a lógica proposicional, nada há de errado neste raciocínio: é válido tanto do ponto de vista substancial (verdade concreta, lógica informal) como do ponto de vista formal (validade ou verdade abstracta, lógica formal).

Por outro lado, para os defensores da lógica proposicional é necessariamente válida a seguinte forma do silogismo hipotético (modus ponens, isto é, afirmação da primeira parte da premissa condicional):

P ---> Q

P

Logo, Q

 

Assim segundo Murcho e os formalistas da lógica proposicional seria válido o seguinte raciocínio:

Se estou em Paris, visito a Torre Eifel.

Estou em Paris.

Logo, visito a Torre Eifel.

 

De facto, este raciocínio não possui validade dedutiva - a conclusão não brota necessariamente das premissas se o conexionamos com o referente, isto é, com a situação real a que se refere; é possível ir a Paris e não visitar a Torre Eifel - mas isso nem Murcho nem os teóricos desta lógica foram capazes de ver por... excesso de «operacionalidade cognitiva». A validade deste raciocínio é indutiva, contingente. A sua suposta «validade dedutiva» é uma mera tautologia.

 

UM AUTOR DE MANUAIS «CONTRA» OS MANUAIS

 

Outro dos traços da sofística de Desidério Murcho é criticar, teórica e demagogicamente, práticas que ele mesmo adopta, como se nada tivesse a ver com o assunto. Lembra o ladrão que grita «Agarra que é ladrão»:

 

«Dada a mentalidade aristocrática, não admira que muitos estudantes se sintam alienados da escola e não a valorizem: os manuais, programas e linguagens foram supostamente concebidos para eles, mas na verdade estão feitos contra muitos deles — que reagem desprezando, e com razão, essa escola. Os responsáveis educativos pensam então que a rejeição resulta do desinteresse dos alunos pelos conteúdos, e esvaziam programas e manuais de conteúdos, enchendo-os de mais linguagens rebuscadas, que alienam ainda mais os alunos. » (D.M. in Público de 25-11-2008; o bold é nosso)

 

Faz sentido esta crítica? Que seriedade existe nestas frases quando sabemos que o manual «Arte de Pensar», da Didáctica Editora, de que Murcho é co-autor, é o modelo (defeituoso) de quase todos os manuais de filosofia para o 10º ano publicados nos últimos anos em Portugal? 

 

O sofrível manual «Arte de Pensar- 10º ano» (volume I, pag 82) classifica as respostas ao problema do livre-arbítrio em 4 correntes: determinismo radical, determinismo moderado, indeterminismo e libertismo. É uma cópia do confuso Simon Blackburn no seu Dicionário de Filosofia -  alguém falou em macacos de imitação e na necessidade de os combater?

 

É tão erróneo distinguir determinismo radical de determinismo moderado como falar de lei da gravidade radical e lei da gravidade moderada: o determinismo é sempre o mesmo, a lei da gravidade é uma só.

 

É igualmente um erro lógico de palmatória de Simon Blackburn e dos seus imitadores (Murcho, Aires Almeida, Pedro Galvão, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Paula Mateus, Luís Rodrigues, etc) colocar o libertismo fora da dicotomia determinismo-indeterminismo: isso viola o princípio do terceiro excluído, segundo o qual uma coisa ou qualidade pertence ao grupo A ou ao grupo não A, exclúindo a terceira hipótese.

 

O libertismo é uma forma de determinismo ou de indeterminismo ou ambas as coisas, não podendo estar fora da dicotomia. Pelos vistos, o grande apologista da «superioridade» da lógica proposicional não sabe, sequer, aplicar o princípio do terceiro excluído no pensamento...

 

 

O problema do ensino da filosofia consiste, antes de mais, na deficiente conceptualização e sistematização das correntes e ideias filosóficas, mais do que na memorização mecânica. Não há filosofia sem memorização, que é o substrato «bruto» da filosofia, sem embargo de esta ultrapassar necessariamente a memorização. A filosofia emerge com a imaginação e a racionalidade construtiva-criativa operando sobre juízos, raciocínios e conceitos memorizados a partir dos textos ou do diálogo vivo.

 

A «OPERACIONALIDADE COGNITIVA» CONTRA O CONHECIMENTO AUTÊNTICO

 

Quando se troca a função primordial da filosofia - a delimitação cognitiva dos conceitos, a descoberta das pontes (correlações: juízos, raciocínios) que ligam aqueles - função essencialmente estática,  pela "operacionalidade dos conceitos", isto é , do movimento dos conceitos segundo regras mecânicas, não pensadas com madurez, função dinâmica, cai-se inevitavelmente naquilo que Murcho critica com aparente seriedade:

 

«Alguns professores tendem a complicar o óbvio e a baralhar o simples, para poder depois fazer perguntas de aparência sofisticada. O resultado é treinar o aluno como um macaco fazedor de exames e testes, e não como um ser humano que compreende os conteúdos em causa.» (Desidério Murcho, «Escolher conteúdos», in Público de 25-11-2008).

 

Ora a lógica proposicional é um fazer mecânico, não um pensar originário e livre. Esta robótica do pensamento para onde alguns subfilósofos "analíticos" empurram os estudantes de filosofia do 10º e 11º ano do ensino secundário ou do curso universitário é, de facto, um treinar «macacos» por fórmulas meramente decoradas.

 

Não venha Murcho com a sua habitual sobranceria, típica do pensamento superficial, dizer que «ultrapassou Aristóteles» e está na ponta de lança da modernidade. Essa propaganda não colhe junto dos que pensam em profundidade e não se deixam encadear pelo uso nos grandes media da «filosofia» simplex ( existe um paralelismo entre o político José Sócrates com o seu simplex e Murcho com o seu simplismo «lógico proposicional» mas não é tema deste artigo).

A lógica proposicional foi concebida para o raciocínio matemático, quantitativo, não para o raciocínio filosófico e científico-físico, qualitativo. Nestes dois últimos há conceitos intrínsecos a outros conceitos - emerge aqui a tríade substância primeira, espécie e género, posta em relevo por Aristóteles e que a lógica proposicional, defeituosa, esqueceu - como as bonecas russas, em que uma se abre e contêm outras mais pequenas lá dentro.

 

A lógica proposicional está para a lógica de predicados como a teoria de Newton, do espaço uniforme e formado de linhas rectas , está para a teoria de Einstein, do espaço heterogéneo que encurva na proximidade de grandes massas. É exactamente o oposto do que o lobby da «filosofia analítica/lógica proposicional» em Portugal propaga.

 

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