Quarta-feira, 9 de Março de 2011
Equívocos de Samir Okasha sobre realismo e anti-realismo

 

Samir Okasha, da Universidade de Bristol, equaciona de forma confusa a oposição realismo anti-realismo. À semelhança da generalidade dos catedráticos de filosofia de todo o mundo, não articula correctamente os princípios da não contradição ( em termos aristotélicos, deveria dizer-se: «da não contrariedade») e do terceiro excluído (que deveria, em termos aristotélicos, designar-se «da contradição»). Escreve Okasha:

 

«Há um debate antigo na filosofia entre duas escolas de pensamento opostas chamadas realismo e idealismo. O realismo sustenta que o mundo físico existe independentemente do pensamento e da percepção humana. O idealismo nega-o — afirma que o mundo físico é de algum modo dependente da atividade consciente dos seres humanos. A muitas pessoas, o realismo parece mais plausível do que o idealismo.

Pois o realismo se acomoda bem à perspectiva do senso comum de que os fatos sobre o mundo estão “lá fora” esperando ser descobertos por nós, ao passo que o idealismo não. » (Samir Okasha, da Universidade de Bristol, Realismo e Anti Realismo, extraído de Philosophy of Science: a Very Short Introduction, in Crítica na Rede).

 

Até aqui nada de especial a opor, a não ser que o autor não classifica o idealismo como uma modalidade do anti realismo. Isso já revela a sua confusão lógica que, no texto abaixo, se espelha nas águas da nitidez:

 

«Embora a disputa tradicional realismo/idealismo pertença a uma área da filosofia chamada metafísica, nada tem de particular, de fato, a ver com a ciência. O nosso interesse neste capítulo é por um debate mais recente que é especificamente sobre a ciência, e que de certo modo é análogo à disputa tradicional. O debate é entre uma posição conhecida como realismo científico e a sua oposta, conhecida como anti-realismo ou instrumentalismo. A partir de agora usaremos a palavra “realismo” para designar o realismo científico, e “realista” para designar o realista científico.

«O realismo e o anti-realismo científicos»

«Assim como muitos “ismos” filosóficos, o realismo científico aparece em muitas versões diferentes, e por isso não pode ser definido de uma maneira totalmente precisa. Mas a idéia básica é simples. Os realistas sustentam que o objetivo da ciência é fornecer uma descrição verdadeira do mundo. Isso pode parecer uma doutrina completamente inócua. Visto que ninguém pensa, certamente, que a ciência visa produzir uma descrição falsa do mundo. Mas não é isso que pensam os anti-realistas. Ao invés, os anti-realistas sustentam que o objetivo da ciência é fornecer uma descrição verdadeira de certa parte do mundo — a parte “observável.” Quanto à parte “inobservável” do mundo, não faz diferença se o que a ciência diz é verdadeiro ou não, presumem os anti-realistas.

 

«Ao que exatamente se referem os anti-realistas com “parte observável do mundo”? Referem-se ao mundo de mesas e cadeiras, de árvores e animais, de tubos de ensaio e bicos de Bunsen, de trovoadas e nevascas, e assim por diante. Coisas como essas podem ser percebidas diretamente pelos seres humanos — é isso o que quer dizer chamar-lhes “observáveis.” Alguns ramos da ciência tratam exclusivamente de objetos observáveis. Um exemplo é a paleontologia, ou o estudo dos fósseis. Os fósseis são facilmente observáveis — qualquer um com a visão funcionando normalmente pode vê-los. Porém, outras ciências fazem afirmações sobre a região inobservável da realidade. A física é o exemplo óbvio. Os físicos avançam teorias sobre átomos, elétrons, quarks, leptons, e outras partículas estranhas, nenhuma das quais pode ser observadas no sentido normal da palavra. As entidades deste tipo encontram-se além do alcance das faculdades de observação dos seres humanos.» (Samir Okasha, Realismo e anti-realismo, extraído de Philosophy of Science: a Very Short Introduction,in Crítica na Rede, 7 de Fevereiro de 2011; a letra negrita é colocada por mim).

 

O erro de Samir Okasha manifesta-se no texto que acabo de citar. Em vez de opor com clareza o realismo ao anti-realismo, considera este como uma versão empirista, anti metafísica, do realismo: ambos descreveriam a realidade visível e palpável do mundo material, realmente independente das mentes humanas, mas o realismo iria mais longe descrevendo o lado oculto do universo, as suas leis e mecanismos, os quarks, leptões, o Big Bang, etc, ao passo que o «anti realismo» faria uma epochê (suspensão da opinião, da especulação) sobre isso. 

 

A verdade é outra. Anti realismo diferencia-se de realismo, não por eliminar a região metafísica dos «quarks», «leptões», «Big Bang», «universo a 10 dimensões da teoria das supercadeias», etc,mas por postular que o mundo de matéria visível ou palpável não é real em si mesmo, ou está dentro da mente humana (idealismo ontognosiológico) ou não existe de todo (negacionismo ou privacionismo ontológico). Okasha não entendeu isto: usa a expressão "anti realismo" sem ponderação, de modo anti dialéctico.

 

O instrumentalismo não é anti realismo: é antimetafisismo, anti especulacionismo. Há um realismo instrumentalista, um idealismo instrumentalista. Instrumentalismo não pertence ao género ontológico (natureza do ser), como realismo e idealismo e anti realismo. Por isso, instrumentalismo não pode opor-se a realismo: são conceitos mutuamente neutros, do ponto de vista dialéctico. O que Okasha designa por anti realismo é o pragmatismo, filosofia da acção e dos resultados práticos.

 

ww.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:09
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