Domingo, 16 de Setembro de 2018
Equívocos nas Aprendizagens Essenciais de filosofia do 11º ano: teorias essencialistas versus teorias não essencialistas

A arrumação intelectual das teorias da arte no programa e nos manuais de filosofia em Portugal é confusa. Por exemplo, nas Aprendizagens Essenciais programa de Filosofia do 11º ano, que alguns atribuem a Aires Almeida da SPF,  lê-se como conteúdo a lecionar aos alunos:

 

O problema da definição da arte.

Teorias essencialistas: a arte como representação, a arte como expressão a arte como forma.

Teorias não essencialistas: a teoria institucional e a teoria histórica.

(11º Ano Filosofia, Aprendizagens Essenciais/ Articulação com o Perfil dos Alunos, página 10).

 

Há aqui a confusão de vários níveis: ontológico, sociológico, psicológico. A arte como expressão de emoções- nível psicológico ou psicopoiético- não pode ser posta em concorrência (no mesmo nível) que a arte como imitação da natureza/representação (nível ontológico: relação arte com a realidade exterior): a Mona Lisa de Leonardo da Vinci é simultaneamente arte como representação e arte como expressão de emoções do artista. A arte como expressão de emoções - género psicopoiético - devia emparelhar com a arte como inteleção, isto é, a gestação da obra de arte pelo intelecto mas este conceito é esquecido.

 

A arte como representação é um conceito vago: deveria dizer-se a arte como imitação da natureza e a arte como transfiguração da natureza (neste último caso cabem as grandes correntes artísticas da intura do sécuo XX como o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo, o abstracionismo, a concret art, etc.).

 

Aceitemos que tanto a arte como imitação como a arte como transfiguração do real são correntes essencialistas porque assentam em formas imutáveis ou quase imutáveis - as essências. Por exemplo, o surrealismo pode ser considerado essencialista porque, na pintura, desconecta partes de corpos ou objectos reais e combina-os ou refaz aqueles de modo surreal, onírico (exemplo: um quadro representando um corpo de mulher de modo naturalista mas em que a cabeça é substituída por uma maçã ou por uma árvore).

 

a arte como expressão de emoções e sentimentos tanto pode ser essencialista - imaginemos a pintura religiosa de Cristos sofredores de Bartolomé de Las Casas, transmitindo um persistente sentimento de dor e sacrifício - como pode ser existencialista - uma performance improvisada de teatro ou vídeo, entregue ao acaso, à flutuação do momento é arte não essencialista, existencialista, se por existencialismo entendemos a teoria da liberdade e da imprevisivibilidade da vida.

 

No que respeita à teoria da arte como forma - refere-se à teoria da forma significante (combinação de formas, cores ou sons, etc.) que, segundo Clive Bell, caracteriza a obra de arte - tanto pode ser classificada como essencialista, na medida em que engloba a teoria da arte como imitação da natureza, o cubismo, o surrealismo, etc., como pode ser classificada de não essencialista uma vez que o subjectivismo existe na atribuição, por cada pessoa, de forma significante a uma pintura abstrata (um diz« Parece-me um cavalo esta forma esfumada», outro diz «A mim parece-me o mapa da Península Ibérica», outra diz «Julgo que representa um orgão genital», etc).

 

A teoria institucional da arte é assim definida por alguns autores:

«Esta crítica às teorias essencialistas abriu o caminho à teoria da arte como instituição que faz depender o estatuto da obra de arte de factores extrínsecos à própria obra, estabelecendo que é o mundo da arte, artistas, críticos, historiadores da arte, galeristas, etc., quem confere tal estatuto». (Adília Maia Gaspar, António Manzarra, Filosofia 10º, Caderno de Atividades, Raíz Editora, pág. 62).

 

Por que razão a teoria institucional da arte é não essencialista, segundo a estrutura do programa de 11º ano? Não nos explicam. Pelo contrário: é uma teoria essencialista sociológica, situa a essência da arte no consenso social e na sua consagração, expansão e visibilidade ante o público e os críticos e negociantes.

 

Voltando aos conteúdos programáticos do início deste artigo: por que razão a teoria da história da arte é não essencialista se ela engloba os diversos essencialismos que se foram manifestando ao longo da história (o realismo natural da pintura clássica e renascentista, o impressionismo, o expressionismo, o surrealismo, etc.)?  

 

Quem estruturou esta divisão acima entre teorias essencialistas e existencialistas da arte não pensa dialeticamente mas caoticamente, como é próprio da filosofia analítica em voga que justapõe no mesmo nível definições de diferentes níveis ou regiões. E essa confusão vai recair sobre os estudantes nas provas de exame nacional de filosofia concebidas por mentes «analíticas» que querem dividir a meio um fio de cabelo e estabelecem divisões e uniões arbitrárias. 

 

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Domingo, 4 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Filosofia 11» da Raíz Editora (Crítica de Manuais Escolares- LXI)

 

 

Vários equívocos integram o livro do professor Filosofia 11º ano, de Adília Maia Gaspar e António Manzarra, tendo como consultor científico o Professor Doutor João Sàágua, da Raíz Editora.

 

 

OMISSÃO DA TEORIA DAS QUALIDADES SECUNDÁRIAS E PRIMÁRIAS EM DESCARTES

 

Uma das pedras de toque que distingue os autores que sabem e os que não sabem ontognosiologia é a explanação que fazem do racionalismo de Descartes, da sua teoria do conhecimento, do percurso desde a dúvida hiperbólica até à demonstração do mundo exterior de matéria. Ora esse percurso não é explanado devidamente neste manual, com os pormenores essenciais: 

 

«Admitida a existência de Deus, Descartes aceita a existência do mundo material e a possibilidade de o conhecer, uma vez que Ele, sendo perfeito, não iria querer que o pensamento estivesse enganado em relação à ideia da existência do mundo. Mas acautela para as exigências metodológicas a que o espírito se deve submeter:

 

  Partir de princípios evidentes -ideias claras e distintas, apreendidas por intuição racional.

  Raciocinar dedutivamente. »

(Adília Maia Gaspar e António Manzarra,  Filosofia 11º ano,  consultor científico Professor Doutor João Sàágua, Raíz Editora, pág. 159).

 

Falta explicar a transição, em concreto, da existência simultanea e única de Deus e do cogito humano ao mundo exterior e a constituição ontológica deste. O raciocínio de Descartes, que o manual ignora, é do seguinte teor:

 

4º PASSO (da Existência de Deus e do eu pensante à existência do mundo material)

 

«Se Deus existe e é verdadeiro nos seus actos, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo existe o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor.»

 

Nada isto é explicado no manual. É a habitual vagueza da filosofia analítica na ontognosiologia, excepção feita a Johnathan Dancy que, no entanto, comete erros notáveis.

 

Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é, mas distorcido por alguma percepção empírica. 

 

A RACIONALIDADE FILOSÓFICA NÃO É DEMONSTRATIVA? LIMITA-SE A SER ARGUMENTATIVA?

 

O manual sustenta que «a filosofia não pode demonstrar nada mas apenas pode argumentar críticamente»:

 

«Por outro lado, a própria filosofia, através dos tempos, mostrou bem pouca estabilidade, apresentando uma sucessão de sistemas filosóficos não só diferentes, como, por vezes, contraditórios.»

 

«Por tudo isto, hoje considera-se que a filosofia pode  tão-somente aspirar a ser razoavelmente persuasiva, socorrendo-se de processos retórico-argumentativos para defender as suas teses». (...)

 

« O facto de a racionalidade filosófica ser argumentativa não retira valor à filosofia. Continua a caber-lhe  um importante papel na elucidação de conceitos e de problemas e reveste-se de inegável valor para a humanidade».

(Adília Maia Gaspar e António Manzarra,  Filosofia 11º ano,  consultor científico Professor Doutor João Sàágua, Raíz Editora, pág. 128; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

 

A filosofia é apenas argumentativa e a ciência é demonstrativa? Este é o erróneo ponto de vista do positivismo lógico que não descobre a filosofia subjacente a teses científicas. É falsa a dicotomia : «a filosofia argumenta, a ciência demonstra.»  Aliás, segundo Popper, tanto a filosofia como as ciências empíricas argumentam, corroboram, não demonstram. Enganou-se, em parte.

 

O meu ponto de vista é outro. A filosofia de Hegel demonstra, por exemplo, que o processo dialético, inerente a todas as coisas, se caracteriza pela tríade tese-antítese- síntese através de numerosos exemplos: à contra-revolução dominante (tese)  segue-se um período revolucionário em que a radicalização aumenta até outro extremo (antítese) e depois há uma oscilação para o centro, estado de conciliação de extremos (síntese). A lógica triádica exposta por Hegel pode demonstrar-se e não apemas argumentar-se. E isto é mais demonstrativo do que a tese de o universo se ter originado no Big Bang ou de haver «quarks up» e «quarks down» ou de «se adquirir imunidade às doenças através da vacinação».

 

Também o princípio do terceiro excluído - uma coisa ou pertence a uma classe A ou pertence às classes não A, excluindo-se a terceira hipótese - é um princípio lógico, filosófico, que se pode demonstrar sem refutação possível.

 

 

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Quarta-feira, 2 de Abril de 2014
Acuso Gil, Pacheco, Boaventura, Lourenço, Barreto, Pulido, Fiolhais, as televisões e a universidade

 

Acuso José Gil, José Pacheco Pereira, Boaventura Sousa Santos, Eduardo Lourenço, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Pinto Balsemão, Alexandre Franco de Sá, Manuel Vilaverde Cabral, Fátima Campos Ferreira, Desidério Murcho, António Pedro Mesquista, António Manzarra, Viriato Soromenho Marques, José Mattoso, João Medina, Miguel Gonçalves, Carlos Fiolhais, as televisões e a universidade portuguesa, brasileira e mundial em geral de serem ignorantes àcerca do determinismo planetário na vida política e social e de transmitirem, através da indiferença ou da apologia contrária, a ideia de que «não há ciência astrológica  e não é sério fazer pesquisas nesse domínio».

 

Acuso-os de serem cúmplices ou mentores do grande silêncio (fascista) que os grandes media e as grandes editoras lançam sobre a astrologia histórico-social, confundindo-a com a astrologia comercial e «mística».

 

Acuso-os de ignorarem e, mesmo depois de informados, não se pronunciarem sobre factos objectivos como a regularidade ou lei de Júpiter em Virgem, uma vez em cada 12 anos, gerar um triunfo da direita liberal ou conservadora em Portugal como atestam os seguintes exemplos: em 27 de Setembro de 1968, com Júpiter em 20º do signo de Virgem, Marcelo Caetano, líder da ala reformista da direita fascista portuguesa assume o cargo de primeiro-ministro dada a invalidez física de Oliveira Salazar;  em 2 de Dezembro de 1979, com Júpiter em 9º do signo de Virgem, a Aliança Democrática de Sá Carneiro e Freitas do Amaral vence as eleições legislativas em Portugal;  em 5 de Outubro de 1980, com Júpiter em 25º de Virgem, a Aliança Democrática do primeiro-ministro Sá Carneiro e o PSD insular vencem, de novo, as eleições legislativas em Portugal; em 6 de Outubro de 1991, com Júpiter em 4º-5º do signo de Virgem, o PSD, do primeiro-ministro Cavaco Silva, vence com maioria absoluta - 135 deputados eleitos num total de 230 - as eleições legislativas em Portugal,

 

Acuso-os  de ignorarem e, mesmo depois de informados, não se pronunciarem sobre factos objectivos como a regularidade ou lei de Júpiter no signo de  Peixes (arco de 30º, de 300º a 330º da eclíptica) uma vez em cada 12 anos, gerar um triunfo da esquerda liberal ou socialista ou comunista em Portugal como atestam os seguintes exemplos: de 24 de Agosto a 28 Setembro de 1820, com Júpiter em 20º-16º do signo de Peixes, a revolução liberal triunfa em Portugal, com a sublevação de grupos de militares, inspirados pelo Sinédrio, organização maçónica; de 7 de Julho de 1832 a 28 de Janeiro de 1833, com Júpiter em 28º-18º- 27º do signo de Peixes, ocorre a instalação do exército liberal de D. Pedro IV no Porto e defesa persistente da cidade contra o exército absolutista de D.Miguel, com o desembarque na praia de Labruge, em Matosinhos (7-8 de Julho) e a entrada do exército liberal de 7500 homens de D. Pedro na cidade do Porto onde se fortifica (9 de Julho), o assalto geral  dos miguelistas ao Porto repelido pelos liberais com 2.000 mortos para cada lado (29 de Setembro); em 25 de Abril de 1974, com Júpiter em 10º de Peixes, um levantamento militar do movimento dos capitães (MFA) derruba a ditadura fascista de Américo Tomás e Marcelo Caetamo e abre portas à revolução social.

 

Acuso a burguesia portuguesa, os seus agentes políticos e culturais (PSD, PS. CDS, jornalistas, directores de informação, professores de filosofia e história, etc) de impedir o povo de conhecer as regularidades astronómico-sociais que permitem a previsão de múltiplos acontecimentos porque  dá jeito a essa burguesia manter a população na obscuridade. Acuso os mestrados e doutoramentos conferidos nas universidades, burguesas ou «populares», de constituirem fraudes parciais na medida em que rejeitam a causalidade zodiacal dos factos históricos. Acuso os partidos de esquerda não burguesa (em Portugal: o PCP, o BE, o MRPP, o POUS, etc) de participarem no mesmo «complot» que visa silenciar a verdade sobre a modelação da história social e política pelos movimentos planetários.

 

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Quinta-feira, 18 de Abril de 2013
Equívocos no manual de Filosofia do 10º ano da Raíz Editora (Crítica de Manuais Escolares-XLIII)

No manual «Filosofia 10º ano», da Raíz Editora, para o ensino secundário em Portugal, manual cujos autores são Adília Maia Gaspar e António Manzarra - e o catedrárico Michel Renaud como consultor científico - encontram-se, mais uma vez, as confusões inerentes à filosofia analítica contemporânea.   

 

CONFUSÃO DE DETERMINISMO COM FATALISMO E NÃO DISTINÇÃO ENTRE LIBERTARISMO E COMPATIBILISMO

 

Aponta o referido manual quatro concepções acerca do determinismo e do livre arbítrio:

 

«Determinismo- Nega a existência do livre-arbítrio. O ser humano, tal como todos os fenómenos da natureza, está determinado pelo princípio da causalidade.

 

Indeterminismo - Não assume a existência do livre-arbítrio, assim como os fenómenos físicos se dão aleatoriamente e não segundo uma determinação prévia ou uma vontade, o mesmo acontece com a acção humana.

 

Libertarismo - Afirma a existência do livre-arbítrio, pois havendo separação entre a natureza física e a mental, esta última não é determinada pelo princípio da causalidade, mas sim pela vontade.

 

Compatibilismo- Afirma a relação entre determinismo e livre-arbítrio ao admitir que o ser humano é determinado, mas a sua acção pode ser livre dentro dos limites em que não existem constrangimentos.» (Adília Maia Gaspar e António Manzarra, Filosofia 10º ano, pág. 74, Raíz Editora)

 

 

Comecemos por notar a ambiguidade da noção de determinismo: na primeira definição é dito que o determinismo exclui o livre-arbítrio, e é, portanto, uma lei totalitária sobre toda a natureza biofísica, incluindo a vida humana física, psíquica, social, espiritual. Na definição de compatibilismo, dada acima, a noção de determinismo já não exclui o livre-arbítrio. Onde está o erro? Na confusão entre determinismo e fatalismo. Onde se lê determinismo na primeira das quatro definições acima, deveria ler-se fatalismo, doutrina da predestinação absoluta. E note-se que o fatalismo pode, ou não, reger-se por leis fixas e imutáveis. Determinismo não é tudo estar predestinado: é o facto de, nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzirem sempre os mesmos efeitos, o que não exclui factores aleatórios exteriores como o livre-arbítrio.

 

Thomas Nagel, esse académico injustamente elevado à condição de «grande filósofo» por editores e académicos néscios, perfilha o mesmo erro de confundir determinismo com fatalismo:

 

«Algumas (pessoas) pensam que, se o determinismo é verdadeiro, ninguém pode ser razoavelmente elogiado ou condenado por nada, tal como a chuva não pode ser elogiada ou condenada por cair.» (Thomas Nagel, Que quer dizer tudo isto?, pag 57 citado in Adília Maia Gaspar e António Manzarra, Filosofia 10º ano, pág. 75, Raíz Editora).

 

O próprio John Searle cai em contradição:

 

«Naturalmente, tudo no mundo é determinado mas, apesar de tudo, algumas acções são livres. Dizer que são livres não é negar que sejam determinadas; é afirmar que não são constrangidas. Não somos forçados a fazê-las.» ( John Searle, Mente, cérebro e ciência, citado in Adília Maia Gaspar e António Manzarra, Filosofia 10º ano, pág. 77, Raíz Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Dizer que uma acção é livre não é negar que seja determinada? Claro que é: livre opõe-se a determinado. Como é que a acção livre de eu escolher entre tomar um café ou comer um bolo é determinada e livre ao mesmo tempo? Se é determinada, não é livre. E o determinismo não é um constrangimento da acção? Claro que é. Eis o «grande»John Searle, paladino da confusão analítica, no seu melhor! Como não hão-de os autores de manuais veicular erros se os teóricos que os inspiram mergulham no magma da confusão?

 

As definições, acima, de libertarismo e compatibilismo não se distinguem uma da outra: em ambas, se postula haver livre-arbítrio; em ambas (na primeira, de forma não explícita) se postula haver determinismo. É, pois, uma duplicação da mesma ideia, formulada em termos diferentes, um erro de «paralaxe». Não distinguindo correctamente os géneros das espécies e as diferentes espécies entre si, por ausência de racionalidade dialéctica, a filosofia analítica (Thomas Nagel, Simon Blackburn, Nigel Warburton, os autores do «Routledge Dictionary of Philosophy» como Michael Proudfoot e A.R. Lacey, e muitos outros) produz deformações teóricas da realidade.

 

A CONFUSÃO DE OBJECTIVISMO AXIOLÓGICO COM REALISMO AXIOLÓGICO

 

O manual define três correntes sobre os valores: subjectivismo axiológico, objectivismo axiológico e concepção relacional dos valores, divisão que só na aparência está certa. Sobre o objectivismo axiológico, escreve o manual:

 

«O objectivismo axiológico representado na época contemporânea por filósofos como Max Scheler (1874-1928) e Nicolai Hartman (1882-1950) que lhe aportaram um contributo próprio e original, remonta a Platão (século IV- a.c) e à Teoria das Ideias por ele defendida.(...)«

«Como podemos depreender, de acordo com esta concepção, os valores são independentes das coisas valiosas; estas só são coisas valiosas na medida em que deles participam; por exemplo, um quadro só é belo se conseguir corporizar o ideal de beleza...»(Adília Maia Gaspar e António Manzarra, Filosofia 10º ano, pág. 92, Raíz Editora).

 

Ora, esta definição não está certa, é redutora. O objectivismo não implica, necessariamente, que os valores sejam independentes das coisas valiosas. A teoria de Aristóteles é um exemplo de objectivismo imanentista dos valores, em que os valores residem apenas nas coisas valiosas: o belo só existe imanente às flores belas, às mulheres belas, às paisagens belas, à escrita e à pintura ou escultura belas e a um sem número de coisas ou actos reais; não existe o Belo como arquétipo num mundo inteligível de Ideias, como teorizava Platão.

 

Por outro lado, a axiologia de Max Scheler não é um realismo axiológico mas fenomenologia axiológica: os valores são objectivos mas não existem por si mesmos, sem humanidade e sem homens individuais que os definam e experienciem. Ora isto é a «concepção relacional dos valores» que Adília Gaspar, António Manzarra e Michel Renaud distinguem, erroneamente, de objectivismo dos valores. De facto, Scheler veiculava essas duas posições: objectivista e correlacional dos valores, posições que pertencem a géneros diferentes e, portanto, podem coexistir na mesma teoria. Mais uma vez a superioridade da dialéctica, contida na minha crítica, sobre a filosofia analítica, desengonçada e caótica.

 

OS UTILITARISTAS ACTUAIS SUBSTITUIRAM A FELICIDADE PELA PREFERÊNCIA?

O manual escreve:

 

«Na época contemporânea, utilitaristas como Richard Hare e Peter Singer substituiram o conceito de felicidade pelo de preferência. Singer pretende mesmo explicar o comportamento moral recorrendo à teoria da evolução.» ...»(Adília Maia Gaspar e António Manzarra, Filosofia 10º ano, pág. 151, Raíz Editora; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Mesmo que esta frase, assumida por Adília Maia Gaspar, António Manzarra e Michel Renauld, se possa imputar a Richard Hare e Peter Singer ela revela apenas a confusão intelectual dos filósofos analíricos e dos autores deste manual: a felicidade não pode ser substituída pela preferência porque são espécies de géneros diferentes, felicidade é um conteúdo hedónico e preferência é uma forma, um meio de manipular aquele conteúdo. Os universitários de filosofia não conhecem a dialética.

 

 

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