Sábado, 28 de Março de 2020
Confusões de Domingos Faria sobre Determinismo, Indeterminismo e Livre-Arbítrio

 

Domingos Faria, autor de manuais de filosofia, vende cursos de lógica erróneos a professores de filosofia do ensino secundário. Encontra-se no mesmo patamar de inteligência mediana em que estão os autores dos exames nacionais de filosofia do 11º ano do  ensino secundário sendo que cada um destes exames contem 10 questões de escolha múltipla, um terço das quais mal elaboradas. Domingos escreveu a seguinte cadeia de raciocínios falaciosos (falácia do determinismo versus livre-arbítrio):

 

«1. Ou o universo é determinista ou é indeterminista.

2. Por um lado, se o universo é determinista, não podemos agir de outra forma.

3. Se nunca podemos agir de outra forma, então não temos livre-arbítrio.

4. Logo, se o universo é determinista, nunca temos livre-arbítrio.

5. Por outro lado, se o universo é indeterminista, então as nossas ações resultam do acaso.

6. Se as nossas ações resultam do acaso, então não temos livre-arbítrio.

7.Logo se o universo é indeterminista, nao temos livre-arbítrio.

8. Logo, quer o universo seja determinista, quer seja indeterminista, não temos livre-arbítrio.»

 

Domingos Faria não tem uma noção clara do que é determinismo. Confunde este com fatalismo, doutrina segundo a qual tudo está predestinado e não temos livre-arbítrio. O determinismo é a teoria das leis constantes da natureza, isto é as mesmas causas, nas mesmas circustâncias, geram sempre os mesmos efeitos. Não é contrário do livre-arbítrio, é colateral (compatível com) deste. O livre-arbítrio não se opõe a todo e qualquer determinismo: escolhe a cada momento uma cadeia de ações deterministas. Exemplo: hoje posso deliberar jantar - se o fizer desencadeio o mecanismo determinista da digestão - ou posso deliberar jejuar ficando 15 ou 24 horas sem comer - se o fizer desencadeio o mecanismo determinista da autólise ou auto limpeza interna automática do organismo.

 

Portanto, está errado o raciocínio: «Por um lado, se o universo é determinista, não podemos agir de outra forma então não temos livre-arbítrio».

 

Está igualmente errado o raciocínio «se o universo é indeterminista, então as nossas ações resultam do acaso, então não temos livre-arbítrio». O que é um universo indeterminista? É aquele que não se rege por leis fixas de causa-efeito. Mas o indeterminismo biofísico não impede o livre-arbítrio nem impõe que as ações resultem do acaso. Exemplo: em um universo indeterminista, uma mulher pode dar à luz um gato mas pode usar o livre-arbítrio e deliberar acolher ou rejeitar o gato emanado do seu útero.

 

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Domingo, 4 de Dezembro de 2016
Teste de filosofia do 10º ano (2 deDezembro de 2016)

Eis um teste de filosofia de final de primeiro período do 10º ano de escolaridade em Portugal, salvaguardando a autonomia de conteúdos dados pelo professor, que ultrapassa o estereótipo dos manuais escolares, e que evita as perguntas de escolha múltipla que minimizam a capacidade filosófica.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja

Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

2 de Dezembro de 2016. Professor: Francisco Queiroz

I

“Na cosmologia de Aristóteles, há teleologia nos movimentos que ocorrem nos dois mundos que formam o cosmos. Aristóteles dizia que Deus é o acto puro sem potência. O fatalismo não é o mesmo que o determinismo biofísico sem livre-arbítrio (vulgo determinismo radical).”

 

1)Explique, concretamente este texto.

 

2)Relacione, justificando:

A) Essencialismo transcendente em Platão e Essencialismo imanente em Aristóteles.

B) Proté Ousía, Hylé e Eidos, em Aristóteles, e lei da tríade.

C) Esfera dos valores espirituais, esfera dos valores vitais, na teoria de Max Scheler e lei do salto de qualidade.

D).O tó on, o tó tí e a teoria das quatro causas de um ente, segundo Aristóteles.

 

CORREÇÃO DO TESTE ESCRITO COTADO PARA 20 VALORES

 

 1) No cosmos de Aristóteles há dois mundos, o mundo sublunar, composto de quatro esferas concêntricas, a Terra (imóvel no centro) e as esferas de água,ar e fogo, no qual o movimento dos corpos não é circular e é teleológico, obedece a finalidades inteligentes, isto é, os corpos desejam voltar à origem do seu constituinte principal (exemplo: a pedra largada no ar cai porque o seu télos, finalidade, é voltar à «mãe», a Terra); o mundo celeste, composto de 54 esferas de cristal incorruptíveis com astros incrustados, 7 delas de planetas (Lua, Mercúrio, etc) e 47 de estrelas, que giram circularmente de modo teleológico, finalista,  já que estrelas e planetas, seres inteligentes, desejam alcançar, fora do cosmos, Deus, o pensamento puro, que se pensa a si mesmo e não se importa com o cosmos. Deus não é a causa formal (o modelo) do cosmos nem a causa eficiente (o construtor) do cosmos, mas apenas a causa final, o télos, do movimento dos astros inteligentes e das respectivas esferas. Ele nada faz mas suscita e atrai o movimento das estrelas.  (VALE TRÊS VALORES). Deus é o acto puro, sem potência, porque acto é a realidade presente, a efectividade, e sendo a potência a possibilidade de mudança, Deus não muda nunca, é igual a si mesmo, pensamento que se pensa a si mesmo. (VALE DOIS VALORES). Fatalismo  é a teoria segundo a qual tudo na vida está predestinado e os homens não dispõem de livre-arbítrio nem existe o acasoDeterminismo sem livre-arbítrio (vulgo: determinismo radical) é a teoria segundo a qual, na natureza, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos e o homem não dispõe de liberdade racional de escolha (livre-arbítrio) mas existe o factor acaso na natureza. Exemplo: movido por uma força irracional, sem liberdade de escolha,  um homem atira-se do alto de um arranha-céus, sujeitando-se determinismo na lei da gravidade, que o faz cair para a Terra e morrer esmagado. No entanto, o acaso de uma rajada de vento,não predestinada, pode fazê-lo cair em cima de um toldo de um café e escapar quase ileso à morte. (VALE TRÊS VALORES).

 

2)A) Essencialismo é toda a filosofia que sustenta que a essência ou forma fundamental dos entes e dos fenómenos precede a existência destes. As essências são as formas eternas e imutáveis tanto em Platão como em Aristóteles. Em Platão, elas são arquétipos de Bem, Belo, Justo, Número Um, Número Dois, Triângulo, Homem, etc, existentes no mundo Inteligível acima do céu visível, por isso são transcendentes, estão além (trans) do universo físico. Em Aristóteles, as essências são formas eternas inerentes ou imanentes aos objectos físicos - exemplo: a essência sobreiro está em todos os sobreiros reais, físicos, porque não há mundo inteligível- daí ser um essencialismo imanente (VALE TRÊS VALORES). 

 

2-C) A teoria hilemórfica (hyle é matéria-prima universal; morfos é forma) de Aristóteles sustenta que cada coisa individual ou primeira substância (proté ousía) como, por exemplo, este cavalo cinzento, se forma da união entre a forma eterna de cavalo (eidos)que existe algures e a hylé ou matéria-prima universal, indiferenciada, que não é água nem fogo nem ar, nem terra mas que passa a existir ao juntar-se à forma. A lei da tríade estabelece que um processo dialéctico se divide em três fases: a tese ou afirmação, que neste caso pode ser o eidos ou essência; a antítese ou negação que, neste caso, será a hylé ou matéria-prima universal; a síntese ou negação da negação que colhe um pouco da tese e um pouco da antítese ultrapassando ambas que neste caso é a substância primeira, o composto de forma e matéria, a proté ousía. (VALE TRÊS VALORES) . 

 

 2-C) A esfera dos valores espirituais, na concepção de Scheler, engloba os valores estéticos (belo e feio), éticos ( bom e mau, justo e injusto), jurídicos (legal, ilegal; justo, injusto), filosóficos (verdade e erro) científicos (verdade e erro por referência, isto é, na experiência, no pragmatismo). Há valor de coisa - por exemplo, o quadro Mona Lisa de Leonardo da Vinci - valor de função - no exemplo olhar o quadro, apreciar o sorriso de Mona Lisa - e valor de estado - no exemplo: a felicidade resultante dessa contemplação visual. A esfera ou modalidade dos valores vitais e sentimentais é a esfera anímica que inclui os valores do nobre e do vulgar, ciúme e ausência deste, orgulho e humildade, coragem e cobardia, sentimento de vitória ou de juventude, sentimento de derrota ou de velhice, etc. A lei do salto qualitativo postula que a acumulação lenta e gradual em quantidade de um dado aspecto de um fenómeno leva a um salto brusco ou nítido de qualidade nesse fenómeno. A relação pode ser percebida de muitas maneiras, como por exemplo: acumulando percepções empíricas similares de atitudes nobres da esfera dos valores vitais(exemplo: salvar alguém com risco da própria vida ) chega-se a um salto qualitativo que é a formação do valor de ético de bem  no intelecto. (VALE TRÊS VALORES).

 

2-D) O tó tí é o quê-é ou seja a forma, essencial ou acidental, de algo, na filosofia de Aristóteles. Exemplo: o tó tí da espiga de trigo é a forma desta e distingue-se do tó tí da espiga de milho e do tó tí do rosto humano. Se Joana se distingue de Mariana e de Francisca isso deve-se aos acidentes, isto é, as particularidades singulares que as distinguem entre si e que são tó tís: o nariz arrebitado de uma e o nariz aquilino de outras, os olhos azuis de uma e os olhos verdes de outra, etc. O tó ón é o ente, o que é, o existente, qualidade que é comum às coisas ou seres com diferentes tó tís. As quatro causas de um ente segundo Aristóteles são: causa formal, a forma, que coincide con o to tí essencial ; causa material, ou matéria de que é feita que, de forma imperfeita, corresponde ao tó on ou existência ; causa eficiente, o agente que gerou esse ente; causa final, a finalidade desse ente, para que serve.

 

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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Equívocos de Desidério Murcho em «7 ideias filosóficas que toda a gente deveria conhecer»

 

No seu livro « 7 ideias filosóficas que toda a gente deveria conhecer», Desidério Murcho (18 de Maio de 1965; Brasil?) professor de filosofia na universidade de Ouro Preto e autor de manuais escolares, escreve:

 

« Hume não distingue, nos seus textos, entre três categorias filosóficas importantes: o necessário, o a priori e o analítico. A tudo isto chama Hume simplesmente "relações de ideias", que contrastam com as questões de facto, onde também não distingue o contingente, o a posteriori e o sintético. É uma questão de facto que está agora a chover, por exemplo, mas basta relacionar ideias, pensa Hume, para saber que cinco é um número ímpar.» ( Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas que toda a gente deveria conhecer, Bizâncio, pag. 84; a letra negrita é posta por mim). 

 

Onde estão as citações de Hume que comprovem estas asserções? Não existem. Desidério Murcho equivoca-se. Dá de Hume, superior em inteligência e erudição a Murcho, uma imagem caricatural.  Comecemos por constatar que David Hume distingue perfeitamente entre a contingência - que pode englobar a contiguidade e a sucessão - e a necessidade ou determinismo, isto é, a conjunção constante, a conexão infalível entre as mesmas causas e os mesmos efeitos, nas mesmas circunstâncias:

 

«Assim, ao seguir o nosso caminho, involuntariamente descobrimos uma nova relação entre a causa e o efeito, quando menos o esperávamos e quando estávamos inteiramente concentrados em outro assunto. Essa relação é a sua conjunção constante. A contiguidade e a sucessão não bastam para nos fazer afirmar que dois objetos são causa e efeito, a não ser que constatemos que estas duas relações se mantêm em muitos casos. Podemos ver a vantagem que há agora em abandonar o exame direto desta relação para descobrir a natureza daquela conexão necessária que constitui parte tão essencial dela.» (David Hume, Tratado da natureza humana, pag 123, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

Alguém pode negar que, no texto acima, o autor distingue entre o contingente, que não permite determinar invariavelmente a relação de causa-efeito, e o necessário, que vertebra esta relação?

 

HUME DISTINGUIU ENTRE A POSTERIORI (ACONTECIMENTO DA EXPERIÊNCIA OU DERIVADO DA EXPERIÊNCIA) E CONTINGENTE, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZ MURCHO

 

Hume escreveu ainda:  

 

«É preciso notar agora que embora o acaso e a causação sejam diretamente contrários, é-nos contudo impossível conceber esta combinação de chances, que é necessária para tornar uma possibilidade superior a outra, sem supor uma mistura de causas entre as chances e uma conjugação de necessidade nalguns pontos com indiferença total noutros.» (David Hume, ibid, pag 164; o negrito é posto por mim).

 

Nesta citação acima, Hume distingue conceptualmente o acaso, isto é, a contingência, da causação, isto é, o determinismo ou necessidade, afirmando que são diretamente contrários.

 

Contrariamente ao que afirma DM, Hume distinguiu entre a posteriori, isto é, acontecimento da experiência ou derivado da experiência, e contingente, isto é, sujeito à incerteza, dependente de uma certa margem de acaso:

 

«  O vulgo, que avalia as coisas pelas primeiras aparências, atribui a incerteza dos acontecimentos a uma incerteza de tal ordem nas causas que muitas vezes as priva da sua influência habitual, mesmo que na sua atuação elas não encontrem obstáculo ou impedimento. Mas os filósofos, observando que quase todas as partes da natureza contêm uma imensa variedade de molas e princípios, que estão ocultos em razão da sua pequenez ou afastamento, descobrem que é pelo menos possível que a contrariedade dos acontecimentos provenha não de uma contingência na causa, mas sim da atuação secreta de causas contrárias. Esta possibilidade transforma-se em certeza por uma observação ulterior, quando eles notam que, mediante rigorosa investigação, uma contrariedade de efeitos revela sempre contrariedade de causas, e provém de que elas se paralisam e opõem mutuamente.» (David Hume, ibid, pag 171; o negrito é posto por mim).

 

Neste excerto acima, Hume afirma que os acontecimentos ou factos a posteriori, empíricos, são frequentemente contingentes aos olhos do vulgo, mas não o são aos olhos dos filósofos. Isto significa distinguir o contingente do a posteriori, substituindo o primeiro pela categoria do necessário no reino a posteriori dos factos.

 

Quanto á afirmação de DM de que «Hume não distinguiu sintético de contingente e a posteriori», resta perguntar: que se entende por sintético? Será obrigatório que todos os filósofos definam sintético como o fazia Kant dizendo que juízo sintético é aquele em que o predicado acrescenta algo novo ao sujeito, como por exemplo, o juízo «A soma dos três ângulos de um triângulo é 180º graus» ou o juízo «A maçã é vermelha»?

 

Não, não é obrigatório. Portanto, David Hume fica livre do peso dessa crítica de Murcho. Sintético pode definir-se de outra maneira, diferente de Kant: é um resumo holístico de um sistema ou ente de partes múltiplas; é um resumo unitário e superador de dois momentos contrários entre si, a tese e a antítese (definição de Hegel).

 

HUME DISTINGUIU A PRIORI DE «NECESSÁRIO», CONTRA O QUE AFIRMA MURCHO

 

É também falsa a afirmação de Murcho de que Hume não distinguiu o a priori de necessário. Hume escreveu:

 

« Não há fundamento algum para uma conclusão a priori relativamente às operações ou à duração de qualquer objeto de que a mente humana possa formar uma concepção. De qualquer objeto se pode imaginar que se torne inteiramente inativo ou é aniquilado num instante; e é um princípio evidente que tudo o que podemos imaginar é possível.» (David Hume, ibid, pag 298).

 

Hume afirma que não há conhecimento  a priori...A priori é uma região do conhecimento, fora do mundo empírico, região que Hume nega formalmente, e necessário é um modo do ser e do conhecer, fora ou dentro do mundo empírico. São distintos entre si. Hume nega o raciocínio necessário:

 

«Segundo o meu sistema, todos os raciocínios são apenas efeitos do hábito, e o hábito só exerce influência enquanto aviva a imaginação e nos faz conceber fortemente um objeto. » (David Hume, Tratado da natureza humana, pag 189-190, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

Mas existe a causação como uma das sete relações filosóficas que são o equivalente às categorias de Kant, com a diferença marcante de que aquelas não existem a priori como estas últimas. A causação, segundo Hume, não é a priori mas derivada da experiência:

«A ideia de causação deve pois originar-se de qualquer relação entre os objetos, e é esta relação que agora deveremos esforçar-nos por descobrir. Em primeiro lugar, verifico que todos os objetos que consideramos causas ou efeitos são contíguos, e que nada pode agir num tempo e lugar distantes, por pouco que seja, do tempo e lugar da sua própria existência. (...) Podemos, pois, considerar a relação de contiguidade essencial à de causação. »(David Hume, Tratado da natureza humana, pag 110, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

 A imaginação é um poder à priori que formula habitualmente ideias a posteriori, como casa, nuvem ou cavalo, e ideias aparentemente a priori como, por exemplo, Deus, pois nunca ninguém viu Deus, mas este é uma ideia composta de várias ideias simples (pai, juíz, imperador, sábio, etc). Creio que ,segundo Hume, o a priori se reduz às faculdades (imaginação, memória) em repouso mas não no seu atuar.

Sendo a causação, entendida como conexão infalível entre causa A e efeito B, o mesmo que necessidade, esta é uma relação filosófica a posteriori, extraída pela imaginação da experiência. Logo, contra o que diz Murcho, necessidade e a priori são coisas distintas no sistema empirista de Hume.

 

Parece, pois, que Murcho não conhece com rigor a teoria de David Hume, não capta o essencial do pensamento deste, talvez demasiado complexo para o simplismo do parafilósofo luso-brasileiro.

 

Quanto à afirmação de Murcho de que Hume «não distinguiu necessário e a priori de analítico», cabe perguntar: o que se entende por analítico? Estaremos obrigados a aceitar como único significado do termo analítico a definição kantiana de juízo analítico como aquele em que o predicado nada acrescenta de novo ao sujeito como, por exemplo, «a esfera é redonda»?

 

Não, não estamos. Por isso, Hume fica livre da acusação de Murcho. Analítico pode significar: que decompõe em elementos um todo e aumenta o conhecimento. Isto é diferente da noção kantiana.

 

KANT NÃO DISTINGUIU COM RIGOR O NECESSÁRIO DO A PRIORI?

 

Desidério Murcho escreve sobre Kant:

 

«Kant introduziu uma distinção entre o a priori e o necessário, por um lado, e o analítico, por outro. Apesar de continuar a não distinguir com rigor o a priori do necessário, como fazemos hoje, distinguiu cuidadosamente o analítico deste par conceptual.» (Desidério Murcho, ibid, pag 84).

 

Não tem razão DM ao apontar a Kant o "não distinguir com rigor a priori de necessário". A tábua das categorias, na ontognosiologia de Kant, é uma estrutura do entendimento a priori, anterior à experiência e fora desta, que inclui doze categorias (a priori) uma das quais é a necessidade-contingência. Então, as restantes categorias ou conceitos puros -  Unidade, pluralidade, totalidade; realidade, negação, limitação; inerência e subsistência, causalidade e dependência, comunidade; possibilidade-impossibilidade, existência-não existência - são todas a priori. ou puras. 

 

«Esta é pois a lista de todos os conceitos, originariamente puros, da síntese que o entendimento a priori contém em si, e apenas graças aos quais é um entendimento puro; só mediante eles pode compreender algo no diverso da intuição, isto é, pode pensar um objeto dela.» (Kant, Crítica da Razão Pura, página 111, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Há alguma falta de rigor nesta distinção entre o a priori, que engloba o conjunto das doze categorias, e a necessidade que integra uma dessas categorias? Não há.

 

Kant apresenta o a priori como o não empírico, isto é, o transcendental. Por exemplo, no seguinte excerto:

 

«A qualidade da sensação é sempre meramente empírica e não pode, de modo algum, ser representada a priori (por exemplo, as cores, o sabor, etc). (...)

«É digno de nota que, nas grandezas em geral, só possamos conhecer a priori uma única qualidade, que é a continuidade, enquanto em toda a qualidade (no real dos fenómenos) nada mais podemos conhecer a priori a não ser a sua grandeza intensiva, o ter um grau; tudo o mais é da alçada da experiência.» (Kant, Crítica da Razão Pura, páginas 207-208, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

E sobre a necessidade diz:

 

«O esquema da necessidade é a existência de um objeto em todo o tempo.» (Kant, ibid, pag 186).

 

«Antes de mais, cumpre observar que as verdadeiras proposições matemáticas são sempre juízos a priori e não empíricos, porque comportam a necessidade, que não se pode extrair da experiência.» (Kant, ibid, pag 46).

 


 

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Sábado, 12 de Fevereiro de 2011
David Hume: a probabilidade e a «irrealidade» do acaso

David Hume, com o estilete fino   do seu raciocínio, considerou haver duas espécies de probabilidade: a que deriva do acaso e a que deriva de uma engrenagem aparentemente determinista, isto é, em que as mesmas causas parecem produzir sempre os mesmos efeitos, nas mesmas circunstâncias.

 

« Por conhecimento entendo a certeza que nasce da comparação de ideias. Por provas, os argumentos tirados da relação de causalidade e que são inteiramente livres de dúvida e de incerteza. Por probabilidade, a evidência que ainda é acompanhada de incerteza. É esta última espécie que passo a examinar.»

«A probabilidade ou raciocínio de conjectura pode dividir-se em duas espécies, a saber,a que se baseia no acaso e a que nasce de causas. Consideremos uma e outra por ordem. A ideia de causa e efeito é tirada da experiência que, apresentando-nos certos objectos constantemente conjugados, produz um hábito tal de os considerar nesta relação, que não podemos sem sensível violência considerá-los em qualquer outra relação. Por outro lado, visto que o acaso não é em si nada de real, e, falando com propriedade, é apenas a negação de uma causa, a sua influência na mente é contrária à da causação; e é essencial que deixe a imaginação perfeitamente indiferente para considerar a existência ou não-existência do objecto tomado como contingente.» (David Hume, Tratado da Natureza Humana, pags 163-164, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Comecemos por notar que Hume chama conhecimento, não a uma simples impressão dos sentidos mas, à comparação entre duas ideias. Isto sugere que, por exemplo, se vejo uma flor e reconheço nela uma rosa, comparo o conceito de flor que nasce da minha percepção empírica com o conceito ou ideia de rosa armazenado na minha memória - esse reconhecimento ou coincidência de ideias é o conhecimento, a certificação.

 

Creio que David Hume se enganou dizer que «o acaso não é em si nada de real», «é apenas a negação de uma causa». Só um fatalista pode fazer tal afirmação, e Hume parece não ser fatalista. Para um não fatalista, o acaso é tão real como o determinismo ou conexão necessária de causas e efeitos e esse acaso, não podendo entrar na essência do determinismo, infiltra-se no espaço junto da malha deste, combina-se com o determinismo. Assim, por exemplo, deixa-se cair uma bola plástica do alto de uma torre sobre um ponto determinado do chão mas o acaso de uma rajada de vento desvia a trajectória da bola e ela não cai no ponto em que era esperado bater. Este acaso que deriva de causas - uma delas a lei da gravidade que impõe a queda na vertical, outra o vento com direcção horizontal - não é, talvez, tão imprevisível como a queda repentina de uma árvore ou a eclosão de um sismo mas é real. Possui tanta realidade como as leis de causa-efeito de cuja colisão ou intersecção é o resultado.

 

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Quarta-feira, 25 de Março de 2009
Do acaso

O acaso é o não regido por leis conhecidas e o factor de inflexão ou variabilidade do efeito dessas leis.

Mas a pergunta eleva-se: é o acaso uma realidade ontológica ou apenas uma aparência? É real ou irreal?

O acaso transforma o determinismo rigoroso em regularidade estatística. É o mais anti absolutista dos factores na máquina mundi. É um ingrediente da ideia de liberdade.

Para o fatalismo, o acaso é irreal, não entra na esfera do ser. Não há acaso, tudo está rigorosamente interligado pela necessidade essencial e acidental.

Uma certa percentagem de acaso entra nas malhas do determinismo concebido como princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.

 

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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
Thomas Nagel confunde determinismo com fatalismo

No seu livro «What Does it All Mean?», de 1987,  o laureado Thomas Nagel comete alguns erros de raciocínio como o de atribuir significados contraditórios entre si ao termo determinismo. Vacila nas definições, contradiz-se, sem dar por isso. 

Escreve Nagel:

 

«Escolher o pêssego continua a ser para ti uma possibilidade em aberto até ao momento em que de facto escolhes bolo de chocolate. A tua escolha não está determinada à partida.»

«Algumas coisas que acontecem estão determinadas à partida. Por exemplo, parece estar determinado que o Sol se levantará amanhã a uma certa hora. O Sol não se levantar amanhã e continuar a noite não é uma possibilidade em aberto. Tal não é possível porque apenas poderia acontecer se a Terra parasse de rodar, ou se o Sol deixasse de existir, e não se passa nada na nossa galáxia que pudesse fazer com que alguma destas coisas acontecesse». (Thomas Nagel, Que Quer dizer tudo isto? Uma Iniciação à Filosofia, Gradiva, pag. 48).

 

Nesta passagem, Nagel interpreta determinismo como princípio segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas (neste caso: a rotação da Terra em torno do seu eixo) produzem sempre os mesmos efeitos ( neste caso: o nascer do Sol, entre as 5 e as 8 horas de cada dia). Embora não o defina explicitamente assim.

Noutra passagem escreve Nagel:

 

«Algumas pessoas pensam que nunca é possível fazermos qualquer coisa diferente daquilo que de facto fazemos(...)  Mas afirmam que, em cada caso, as circunstâncias que existem antes de agirmos determinam as nossas acções e tornam-nas inevitáveis. O total das experiências, desejos e conhecimentos de uma pessoa, a sua constituição hereditária, as circunstâncias sociais e a natureza da escolha com que a pessoa se defronta, em conjunto com outros factores dos quais pode não ter conhecimento, combinam-se todos para fazerem com que uma acção particular seja inevitável nessas circunstâncias.»

«Essa perspectiva chama-se determinismo.» (Thomas Nagel, Que quer dizer tudo isto? Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, pag 49)

 

Nesta passagem Nagel chama determinismo àquilo que deveria designar como convergência de determinismos vários culminando em fatalismo.

 

A fraqueza de Nagel está em confundir determinismo com fatalismo, teoria segundo a qual todos os acontecimentos estão predestinados, podendo ou não, encadear-se uns nos outros segundo o determinismo. O determinismo é sempre coexistente com o factor acaso («livre-arbítrio» da natureza) que introduz uma certa diferenciação nos efeitos produzidos pelas mesmas causas.

 

Por exemplo, dar uma certa quantidade de veneno a um cão provoca-lhe a morte mas dar a mesma quantidade de veneno a outro cão pode fazer adoecer gravemente este, sem o matar, e o animal recuperar a saúde passados dias ou semanas. Assim, o determinismo exerceu-se nos dois casos, produziu um efeito genericamente similar, mas diferente na particularidade.

Determinismo é não fatalismo, apesar de tomar a aparência de um fatalismo parcial ou mesmo global.

 

 

Nota: No Centro de Formação Margens do Guadiana, com sede na Escola Secundária com 3º Ciclo Diogo de Gouveia, R. Luís de Camões, 708-508 BEJA (telefone: 284 328 063), estão abertas as inscrições para a acção de formação para professores de filosofia (Grupo 410) «A teoria geral dos valores e a Ética, na perspectiva do método dialéctico», equivalente a dois créditos,50 horas de duração (50HP), CCPFC/ACC 52326/08 CF. O formador é o autor deste blog.

 

 

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