Segunda-feira, 2 de Junho de 2014
Teste de filosofia do 11º C (Maio de 2014)

 

Eis um teste de filosofia, para o terceiro período lectivo, para o 11º C. O teste centra-se na teoria do conhecimento (Hume, Descartes; idealismo solipsista, relativismo, fenomenologia) na ontologia (Parménides, Hegel, David Hume, Descartes) na teleologia/ sentido da existência (Kierkegaard, Hegel, Camus). Evitaram-se as escorregadias questões de escolha múltipla que, em muitos casos, não permitem ao aluno exibir e desenvolver o seu saber filosófico.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
30 de Maio de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 


I

 

“A perspectiva cristã situa-se nesta posição: o não-ser existe em toda a parte como o nada de que as coisas são feitas, como aparência e vaidade, como pecado, como sensibilidade afastada do espírito ..Deus é, não existe, o homem existe, mas não é“

Kierkegaard

 

1)-Explique estes pensamentos.

 

II

 

2) Disserte sobre o seguinte tema:

 

" O ser em Parménides, em David Hume e em Hegel".

 

III

 

 

3) Relacione, justificando:
A) Substância em Descartes e Substância em David Hume.
B) Realismo Crítico em Descartes e Fenomenologia.
C) O Existencialismo de Albert Camus e o Existencialismo de Kierkegaard.
D) Teoria de Karl Popper sobre as ciências, relativismo, idealismo solipsista.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE DE FILOSOFIA (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) Na visão cristã do mundo, segundo Kierkegaard, o não ser ou nada é a matéria física, incluindo o corpo humano, porque todas as coisas materiais - uma casa bela, um corpo jovem e belo, um automóvel, uma conta bancária bem recheada - se corrompem, desaparecem ou deixam de pertencer ao seu possuidor. Também as vaidades e aparências - por exemplo: ser deputado, ser dono de uma empresa, ser doutorado, vencedor de um prémio importante, etc - fazem parte do não ser porque se reduzem a nada ao ser confrontadas com a eternidade que a alma humana viverá ou no Paraíso ou no Inferno, já que nada se leva deste mundo ao morrer  (VALE UM VALOR E MEIO). "Deus é mas não existe" significa: Deus existe eternamente, fora do tempo, e como está fora das contingências da existência (nascer, crescer, tranalhar, morrer, etc) diz-se que não existe.». "O homem existe e não é" significa: o homem está em perpétuo devir, a existência é feita de mudanças, altos e baixos, por isso existe e deixa de existir, mas não é, se por é se entende ser eterno, sempre o mesmo (VALE UM VALOR E MEIO).

 

 

2) O ser em Parménides é, não foi nem será. É uno, homogéneo, imóvel, incriado, invisível e imperceptível aos sentidos, esférico. Ser e pensar é um e o mesmo. A alteração das cores, a mutação, o nascimento e a morte são ilusões, reais só na aparência.

Ser é um termo ambíguo, polissémico: por um lado é o existir em geral; por outro lado é o existente, algo que existe, o essente, uma essência ou substância de carácter universal. Parménides usa o termo nos dois sentidos, de existência e de essência. Neste segundo sentido, pode interpretar-se como o cosmos esférico ou como o pensamento divino estruturante do cosmos (sentido hegeliano). Fica em aberto a questão de saber se Parménides era idealista ou realista crítico.

 O ser em David Hume é antropológico: percepções empíricas ou impressões dos sentidos, razão, imaginação mas não um «eu-substância» coeso como em Kant ou em Descartes. O ser do mundo exterior é inexistente (idealismo) ou duvidoso (cepticismo) e, portanto, é não-ser efectivo ou provável.

Em Hegel, o ser é a ideia absoluta ou Deus que se desdobra em três etapas: ser em si, ou Deus sozinho, antes de criar o universo, o espaço e o tempo, pensamento puro; ser fora de si, ou Deus transformado em natureza física, alienado, em astros, céus, montanhas, rios, plantas e animais; ser para si ou Deus encarnado em hunanidade, evoluindo através de formas de estado -Estado Oriental, só um homem livre; Estado greco-romano, vários homens livres e os restantes, servos ou escravos; Estado cristão reformado por Lutero no século XVI em que todos os homens são livres pois autorizados a interpretar livremente a Bíblia sem a mediação do clero católico romano, liberdade essa alargada, no plano político-social,  com a revolução francesa de 1789 - em direcção à liberdade de espírito.(VALE QUATRO VALORES)

 

3) A) Na ontologia de  Descartes há três substâncias: a res divina, ou Deus, anterior às outras duas e criadora delas; a res cogitans, pensamento, que só existe nos humanos: a res extensa (extensão dotada de formas e tamanhos, comprimento, largura e altura), estruturadora do mundo material . Em David Hume, a noção de substância não corresponde a nenhum objecto exterior, é um acto da imaginação que liga percepções empíricas : o "eu" não é substância, não existe sequer (idealismo) ou é duvidoso (cepticismo) tal como não existem ou são duvidosas as noções de "alma", "substância", "essência" . Por outro lado, não existe ou é duvidoso o mundo exterior onde se albergariam as "substâncias" árvore, planície, corpos de animais e homens, etc. (VALE TRÊS VALORES)

 

B) O realismo crítico em Descartes consiste em postular o seguinte: há um mundo de matéria exterior às mentes humanas, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor.

A fenomenologia balança entre o idealismo e o realismo: para a fenomenologia o mundo de matéria existe fora do corpo físico do sujeito, mas não sabe se este mundo está dentro ou fora da mente (envolvente) do sujeito. Tanto o realismo crítico de Descartes como a fenomenologia usam o método céptico, duvidam.  (VALE TRÊS VALORES).

 

C)- O existencialismo é a corrente filosófica segundo a qual a existência precede a essência ou sobrepõe-se a esta, quer dizer, o homem faz-se e refaz-se a cada instante, escolhendo, através do seu livre-arbítrio, uma via de acção ou certo tipo de valores, sem que nenhuma essência pré-definida ( Deus, o destino, o carácter inato, a pressão social, etc) seja capaz de o dominar e determinar. Albert Camus representa, com Sartre, no século XX, um expoente do existencialismo ateu. Camus acentuava o carácter absurdo da existência humana, feita de guerras, de assassínios, de torturas e fome afectando milhões de seres humanos, e a inexistência de Deus ou deuses como criadores de um mundo de injustiças e fealdade. Usava o mito de Sísifo - um personagem que, por ajudar os homens, foi condenado a empurrar diariamente um rochedo até ao alto de uma montanha e a repetir sempre esse esforço, uma vez que os deuses faziam logo rolar o rochedo montanha abaixo- para descrever a situação do operário alienado no trabalho de fábrica, do trabalhador sem horizontes preso à roda do trabalho industrial ou burocrático como Sísifo. Camus considerava o suicídio como uma resposta insuficiente, embora filosófica, ao drama do absurdo da vida, porque significava a renúncia a um mundo mau que permaneceria, e preferia a resistência, a luta por uma existência mais digna, contra o fascismo e todas as formas de exploração do homem e da mulher, luta embora sem esperança de regeneração universal.

 

Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo.

Kierkegaard acentuava a noção de angústia, essa liberdade bloqueada, essa intranquilidade que surge antes ou durante muitos actos decisivos (exemplo: a angústia do aluno antes de saber a nota do teste, a angústia da mãe antes do parto, etc). Camus não resolve o paradoxo da existência, ela é absurda e ele postula não haver Deus, ao passo que Kierkegaard situa o paradoxo no interior do estado religioso e diz que se deve amar e seguir a vontade de Deus apesar de não compreendermos esta. (VALE QUATRO VALORES).

 

D) O princípio da falsificabilidade de Popper estabelece que as ciências são conjuntos de conjecturas (conjecturalismo), isto é, as suas leis ou teses são hipóteses, conjecturas potencialmente falsas, falsificáveis, refutáveis. Isso exige aplicar permanentemente o princípio da testabilidade: há que submeter a constantes testes experimentais as teses de uma ciência. Entre as várias teorias na mesma área científica ( exemplo: vacinar ou não vacinar na medicina preventiva; heliocentrismo versus geocentrismo na astrofísica) Popper defende que se deve escolher a mais verosímil, a que dá mais garantias, sublinhando que a ciência é uma aproximação incessante à verdade sem nunca abarcar o todo desta.

O relativismo é a doutrina segundo a qual a verdade, os valores éticos, estéticos, científicos, etc, variam de povo a povo, de grupo a grupo, classe a classe social, de época a época, etc. Pode dizer-se que a epistemologia de Popper é relativista porque a verdade, falível em cada campo das ciências, muda com frequência, é relativa à época.

O idealismo solipsista sustenta que o mundo material exterior se reduz a percepções empíricas e ideias, a matéria não existe em si mesma, dentro de uma única realidade, a minha mente de sujeito. Popper considerava-se realista e não idealista solipsista. (VALE TRÊS VALORES).

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

 

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:07
link do post | comentar | favorito

Sábado, 19 de Novembro de 2011
Equívoco de Hartmann sobre subjetivismo, ser-em-si e lógica

Nicolai Hartmann, o fundador de uma ontologia analítica,  identifica erroneamente subjetivismo com idealismo:

 

«É indispensável, se se quer dar à teoria do conhecimento um fundamento ontológico, que se possa demonstrar a existência de um irracional. Sem dúvida, bastaria em rigor provar que há um ser-em-si, para cortar pela raíz todo o subjetivismo. Mas esta prova só poderia ser fornecida permanecendo nas generalidades; ela daria simplesmente o ponto de vista abstrato da realidade ôntica em geral. Isso bastaria para cortar rente todas as formas de idealismo especulativo desde que o idealismo pretende trazer uma explicação positiva da origem do ser recorrendo seja ao subjetivismo seja à lógica; mas isso não suprimiria a possibilidade do ceticismo, a epoché puramente negativa.»

 

(Nicolai Hartmann, Les principes d´une méthaphisique de la connaissance, Tome I, pag 320, Aubier, Editions Montaigne, Paris, 1945; o negrito é posto por mim). 

 

Há erros noológicos importantes no pensamento de Hartmann aqui expresso. Existir o ser-em-si não elimina o subjetivismo, isto é, a teoria segundo a qual a verdade gnosiológica, ética, estética, etc, varia de sujeito a sujeito, é moldada de forma diferente no interior de cada consciência. Existe o ser-em-si chamado aparelho de Estado - governo, parlamento, finanças públicas, corpos de polícia e exército, escolas, hospitais e as respetivas sedes físico-arquitetónicas - e há uma multiplicidade de interpretações a favor ou contra esse ser-em-si, uma multiplicidade de subjetivismos. Um defende o regresso do Estado à forma monárquica corporativa, outro à forma de monarquia liberal constitucional, outro preconiza o Estado social-democrata, outro a extinção do Estado a favor do poder popular autogestionário, etc.

 

Também não é correto colocar em disjunção subjetivismo e lógica: «recorrendo seja ao subjetivismo, seja à lógica». O subjetivismo não se opõe, por essência, à lógica: cada subjetividade desenha uma lógica própria, particular, usando princípios lógicos gerais como o princípio da não contradição. Subjetivismo opõe-se a objetivismo como contrário, lógica opõe-se a absurdo como contrário. Saibamos arrumar as espécies e os géneros nas respetivas prateleiras.

 

 www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:09
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
Questionar Kierkegaard: é o nada o objecto da angústia?

Soren Kierkgaard (1813-1855), o grande filósofo dinamarquês fundador do existencialismo contemporâneo, escreveu sobre o conceito de angústia, central na sua doutrina:

 

«Em um sistema lógico é demasiado fácil dizer que a possibilidade passa a ser a realidade. Ao contrário, na própria realidade já não é tão fácil e necessitamos de lançar mão de uma categoria intermédia. Essa categoria é a angústia, a qual está tão longe de explicar o salto qualitativo como de justificá-lo eticamente. A angústia não é uma categoria da necessidade, mas tão pouco o é da liberdade. A angústia é uma liberdade travada, em que a liberdade não é livre em si mesma, mas que está travada, ainda que não travada pela necessidade, mas por si mesma. Não haveria nenhuma angústia se o pecado tivesse vindo ao mundo por necessidade- o que é uma contradição. Nem tão pouco a haveria se o pecado tivesse entrado no mundo mediante um acto de liberum arbitrium abstracto - o qual nunca existiu no mundo, nem ao princípio nem depois, posto que não é mais que um absurdo da mente». (Soren Kierkegaard, El concepto de angustia, Alianza Editorial, pag 99; o negrito nalgumas frases é colocado por mim).

 

É muito interessante a definição da angústia como «liberdade travada». Isso significa que a angústia é uma síntese, um intermediário, entre a liberdade e a necessidade que obriga, trava, como lei da natureza ou destino marcado. Contudo a travagem da liberdade que constitui a angústia não é uma fatalidade, não deriva da necessidade. Restam duas hipóteses: ou a angústia deriva de um livre-arbítrio concreto, singular, em cada indivíduo, em cada momento, ou nasce acidentalmente, sem ser por decisão livre, fruto da pressão do meio físico e social sobre o ego individual.

Note-se que, segundo Kierkegaard, o pecado não entrou no mundo por necessidade - a constituição biológica, sexual, do ser humano não o inclina obrigatoriamente ao pecado - mas também não entrou por . um acto abstracto de livre-arbítrio. Restam a hipótese que entrou no mundo por acidente, por acaso, ou por um acto de livre-arbítrio singular em Adão e em cada um dos posteriores indivíduos.

 

Escreve ainda Kierkegaard:

«A angústia pode comparar-se muito bem com a vertigem. A quem se põe a mirar de olhos fixos uma profundidade abismal acontecem vertigens. A causa está tanto nos seus olhos como no abismo. Se ele não tivesse olhado para baixo! Assim a angústia é a vertigem da liberdade: uma vertigem que surge quando, ao querer o espírito pôr a síntese, a liberdade lança a vista até baixo pelos roteiros da possibilidade, agarrando-se então à finitude para segurar-se. Nesta vertigem a liberdade cai desmaiada. A Psicologia já não pode ir mais longe, nem tampouco o quer. Nesse momento tudo mudou e quando a liberdade se incorpora de novo, vê que é culpada. Entre estes dois momentos há que situar o salto, que nenhuma ciência explicou nem pode explicar. A culpabilidade do que se faz culpado no meio da angústia  é ambígua até não mais poder. A angústia é uma impotência feminina na qual se desvanece a liberdade. A queda, falando em termos psicológicos, acontece sempre no meio de uma grande impotência. E ademais, a angústia é uma das coisas que maior egotismo encerra. Neste sentido nenhuma manifestação concreta de liberdade é tão egotista como a possibilidade de qualquer concreção. Esta é, uma vez mais, a opressão que traz consigo o comportamento ambíguo do indivíduo, a sua situação de simpatia e antipatia simultâneas. Na angústia reside a infinitude egotista da possibilidade, a qual não tenta uma pessoa como uma escolha que haja de fazer, mas que o angustia seduzindo com a sua doce ansiedade.»

 

«No indivíduo posterior a Adão, a angústia é mais reflexa. Isto pode exprimir-se de outro modo, dizendo que o nada - que é o objecto da angústia - parece que se torna más e mais um algo. Não dizemos que de facto se torne algo, ou que realmente signifique algo; nem tão pouco dizemos que o lugar do nada o tenha vindo a ocupar o pecado ou qualquer outra coisa. »

 (Soren Kierkgaard, El concepto de la angustia, pag 118-119, Alianza Editorial, Madrid, 2008; a letra a negrito é colocada por mim).

 

A angústia seria como um dado originário, uma "impotência feminina", uma pulsão que seduz o indivíduo a não ousar ser livre. A angústia como vertigem da liberdade compreende-se bem com o exemplo do homem à beira do precipício: a liberdade absoluta seria o homem poder lançar-se no precipício e aterrar suavemente, ileso; mas como esse facto é praticamente impossível surge a angústia, que trava o homem no seu desejo de liberdade infinita, que seria desastrosa no plano físico, pois levaria, por acto imprudente contra as leis biológicas, à morte ou a um estado de lesões irremediáveis.

 

Parece-me que a angústia é, ontologicamente, um fenómeno psíquico derivado do confronto entre as limitações do ego individual - a força física exígua face aos outros como um todo, a dificuldade em fazer-se ouvir e respeitar, etc- e o desejo de liberdade, expansivo, de tudo experimentar e dominar.

Por que se angustia o homem ao abordar sexualmente certas mulheres? Porque sabe poder ser rejeitado por elas. Por que se angustia o homem com a sua situação laboral? Porque sabe que se perder o emprego ficará sem dinheiro para se alimentar, pagar a renda de casa, sustentar os filhos, etc. O objecto da angústia não é o nada mas a possibilidade de redução ao nada da plenitude do ser e do viver. - o que não é exactamente a mesma coisa. O verdadeiro objecto da angústia é o ser, a preservação da vida e da integridade de cada indivíduo. A angústia é um mecanismo de defesa individual: instala um escudo de preocupação no indivíduo, antes de mais preocupação com a iminência da morte por agressão, doença, velhice, falta de bens materiais, etc.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 08:45
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 6 de Junho de 2007
Está o absurdo além da dicotomia Verdadeiro/ Falso ? (Crítica de Manuais Escolares- XXIII)

Vários autores da área da lógica sustentam que o conceito de absurdo se situa fora do eixo verdadeiro-falso.

Eis o que se lê num manual de filosofia português para o 10º ano de escolaridade:

 

«Há ainda frases declarativas que não são nem verdadeiras nem falsas - não têm valor de verdade - são absurdas.

Exemplos:

«A saudade é amarela.»

«O infinito está deitado.»

(in Filosofia 10º ano, Areal Editores, de Maria Margarida Moreira, revisão de Álvaro dos Penedos, página 30).

 

Em primeiro lugar, não é absurdo sustentar que a saudade é amarela. Os sentimentos podem exprimir-se através de cores invisíveis como dizem os místicos que, supostamente, vêem a aura de cada ser humano. É provavelmente falso, ou provavelmente verdadeiro, que a saudade seja amarela mas não é absurdo.

Deverá dizer-se, com rigor, que o conceito de absurdo, isto é, ilógico, contrário à razão ou à ordem da natureza, encontra-se ora no campo do falso ora no campo além do dilema verdadeiro-falso comprovado, ou seja, no terreno do provável (verosímil-inverosímil).

 

Ao contrário do que sugere este manual, o absurdo é, frequentemente, uma modalidade do falso confirmado e, nos restantes casos, uma modalidade do provavelmente falso. 

Exemplos de absurdo como falso comprovado: «Quatro é igual a doze vezes doze»; «aquele fardo de palha era um cavalo há minutos atrás».

Exemplo de absurdo como provavelmente falso: «O infinito nasceu do nada e este nasceu do infinito».

 

O absurdo pertence sempre à qualidade do falso, em acto ou em potência. Do mesmo modo que o conceito de validade pertence sempre à noção de verdade, em acto ou em potência. Logo, aqueles que propagam a tese de que «os argumentos são válidos ou inválidos mas nunca verdadeiros ou falsos» e que dizem que «validade está totalmente separada da verdade, situa-se além desta» lavram em erro: validade é verdade formal,

abstracta, esquemática, potencial e verdade (substancial) é realidade comprovada.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:17
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11

13
15
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


posts recentes

Teste de filosofia do 11º...

Equívoco de Hartmann sobr...

Questionar Kierkegaard: é...

Está o absurdo além da di...

arquivos

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds