Sexta-feira, 19 de Junho de 2020
Romano Amerio: o esquecimento da morte na teologia católica modernista

 

O homem é um ser para a morte» escreveu Heidegger em «Ser e Tempo». Romano Amerio,(22 de Junho de 1905, Lugano– 16 de Janeiro de 1997, Lugano), o grande teólogo suíço, crítico da teologia eclética da igreja católica romana pós Concílio Vaticano II, sublinhou que o problema da morte é esquecido na actual heresia que domina a igreja católica romana. Escreveu:

 

«Na fé católica inclusive a morte tem uma causa, um significado, um fim moral, como moral é o fim de todo o universo e dos seus defeitos, que a Providência reconduz em ordem a esse fim. O fenómeno significativo na sociedade contemporânea é a degradação axiológica da morte e a remoção de essa base religiosa sobre a qual todas as civilizações a situaram. O epicurismo fez da morte o problema de fundo e da mortalidade da alma a chave da beatitude. E posto que o terror da morte invade toda a vida, de forma aberta ou encoberta, perturbando-a desde o mais profundo, a filosofia foi um combate perpétuo contra o terror da morte e uma busca da serenidade que dominasse esse terror.»

 

«Convém que o combate contra o terror da morte teve em Epicuro um alto significado moral, porque era (naquele estádio religioso da humanidade) terror do mais Além, e o mais Além era concebido como uma pura duração sem cumprimento ou conclusão de vida moral, e sem compensação de méritos ou deméritos: abismo de vida inferior em que se precipitam todas as sombras. Era portanto o contrário do mais Além do cristianismo, no qual se consuma em justiça o destino moral do homem, ou mais precisamente o fim do universo. A celebração da mortalidade, negando aquela eternidade  insensata, pode por conseguinte considerar-se como uma propedêutica à doutrina e à esperança da religião. »

 

«A concepção cristã da morte está marcada por duas ideias: a morte é um acto do homem; a morte é um momento decisivo de todo o destino humano».

 

«Como vimos em S 303, a religião cristã considera a morte como pena do pecado, e portanto não desconhece a tristeza subsequente a ela; esta tristeza ante a morte encontra-se também no homem-Deus ( Mat, 26, 38 e Luc 22,44). Mas a morte é ademais o ponto no qual, encerrando a vida de prova, cessa o sincretismo de bem e de mal e se opera a justiça: quer dizer a conjunção definitiva da virtude e da felicidade; esta não é por outro lado mais que a consumação perfeita de aquela».

 

(Romano Amerio, Iota Unum, Estudio sobre las transformaciones de la iglesia catolica en el siglo XX, Salamanca 1994, pag. 453; o destaque a negrito é posto por nós).

 

A aprovação de leis da eutanásia - em Fevereiro de 2020 o parlamento português aprovou 5 projectos de lei de eutanásia - são a outra faceta do esquecimento da morte na sociedade actual pós cristã: apressa-se a morte de pessoas em estado crítico, real ou imaginário, para apagar a tese de que o sofrimento físico é redentor e deve ser aceite tendo como horizonte a morte, não precipitada, e a ulterior ascensão ao paraíso. 

 

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 20:18
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