Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
Questionar José Trindade Santos: fluxismo, sensismo e relativismo

 

No prefácio ao «Teeteto», José Trindade Santos expõe o seu estudo em que destaca os conceitos de fluxismo, sensismo e relativismo. Escreve sobre este importante texto de Platão que, a meu ver, inaugura a fenomenologia na Antiguidade:

 

«O exemplo da cor que não está nos olhos nem nas coisas, gerando-se entre ambos, concretiza a teoria de diversas perspectivas. Em primeiro lugar a cor não é em si, no sentido em que não é algo definido, que se acha em qualquer lugar concreto, pois resulta do impacto de um certo movimento no olho (153e-154a). Em segundo lugar, não é "uma coisa" "algo" ou de certo modo . Portanto não poderá aparecer a mesma a diversos sentintes ou até ao mesmo sentinte, pelo facto de resultar de concurso de distintos percipiente e percebido já que nem aquele será do mesmo modo, de si para si.»

 

«Vemos assim que a ontologia fluxista - tudo é movimento - não só constitui uma boa explicação da epistemologia relativista - as coisas são para cada um como lhe parecem - como a ultrapassa, a ponto de a reconfigurar por completo. Inicialmente, a dificuldade era a de compatibilizar as diferenças na percepção (aisthêsis) de um mesmo percepcionado (aisthêton) por diversos sentintes (aisthanomenoi) com a infalilibilidade, requerida pela equação da percepção da percepção com o saber.»

(José Trindade Santos, in prefácio de Teeteto, de Platão, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.62-63; o bold é acrescentado por nós).

 

«Mas não há continuidade entre as duas doutrinas, pois a coerência e consistência do sensismo nada devem ao relativismo. "As coisas não podem ser para cada um como lhe parecem", porque não há "coisas", não há "cada um", nem nada que se assemelhe a parecer. O sensismo constitui a epistemologia possível num real submetido a um fluxo infrene, totalmente alheio a uma operação cognitiva. (ibid pág. 171; o destaque a bold é nosso).

 

E Trindade Santos define assim o sensismo:

«É o princípio sensista (PS) de acordo com o qual nada há além da percepção, constituindo "percipiente", "percebido" e "percepção" meras referências (154 a-b; 156-e- 157c, vide 1823b).»

«A fundamentá-lo encontramos apenas o "princípio fluxista" (PF) segundo o qual a realidade se reduz ao movimento, sem que seja possível dizer "o que" se move, pois careceria de identidade (152d).»

 

(José Trindade Santos, in prefácio de Teeteto, de Platão, Fundação Calouste Gulbenkian, pág 70; o bold é acrescentado por nós).

 

Convém dizer, ao invés do que acima escreveu Trindade Santos, que o sensismo - o ser reduz-se a um fluxo de sensações - é uma modalidade do relativismo, entendido como teoria que sustenta que a verdade varia incessantemente com as épocas, os lugares, as classes sociais, as etnias religiosas e políticas, etc. Trindade Santos interpreta relativismo como variação da percepção de indivíduo para indivíduo e parece não conceber que, ao contrário do que diz, não há trânsito do relativismo para o sensismo uma vez que este último é, em si mesmo, relativismo. Relativismo, no sentido que Trindade Santos lhe dá,  pertence ao género sociognosiológico (quem ou quantos conhecem...) e sensismo pertence ao género ontognosiológico ( o quê, o que se conhece). Mas relativismo em sentido mais amplo, teoria de que a  verdade não é absoluta, mas varia, pertence ao género modalidade ontológica( ser estático, ser mutável) engloba o sensismo, o fluxo das sensações, a impermanência sensorial que, no século XVIII, David Hume retomaria no seu fenomenismo de impressões de sensação em fluxo e de  ideias sem objecto real no mundo exterior.

Sensismo não se opõe a relativismo. O sensismo fluxista é relativismo e o sensismo imobilista - se é que tal posição existe; corresponde a imobilizar a imagem de um vídeo, a ver sempre algo imóvel eimutável - é absolutismo.

 

ONTOLOGIA SENSISTA OU EPISTEMOLOGIA SENSISTA?

 

Uma primeira questão é saber se é lícito usar o termo ontologia sensista. Trindade Santos usa-o tal como usa, com mais propriedade quanto a nós, o termo epistemologia (teoria do conhecimento) sensista. Ora a sensação permanece sempre na esfera da gnosiologia, não constitui ser, não é ontológica.

 

Quanto à designação de ontologia fluxista não a contestamos. Apenas destaco que fluxismo não é o ser mas um modo intrínseco ao ser. O ser é: matéria exterior em si mesma (realismo), matéria interior ao espírito, ideia (idealismo), correlação matéria em si-espírito humano (fenomenismo /fenomenologia) sob a égide do cepticismo. José Trindade Santos está certo quando afirma:

 

«Neste contexto, a análise do fluxo não parece servir qualquer propósito construtivo, limitando-se a mostrar que um mundo dominado pela fenomenologia fluxista não alberga um mínimo de estabilidade que lhe permita ser acessível à percepção, logo, à linguagem e ao saber. (José Trindade Santos, in prefácio de Teeteto, de Platão, Fundação Calouste Gulbenkian, pág.106-107).

 

É necessário frisar que o fluxismo não conduz necessariamente a uma «ontologia» sensista. O materialismo dialético, tal como a doutrina de Heráclito, é fluxista, considera que todas as coisas estão em devir, em perpétuo fluxo, mas sustenta uma ontologia realista, isto é, há um mundo de objectos materiais para lá da consciência do sujeito, independente desta e anterior a ela. O fluxisno não é por si só uma ontologia mas um modo de ser desta. Contrapõe-se a imobilismo. Fluxismo pode conduzir a três ontologias distintas: realismo, idealismo ou fenomenismo/fenomenologia. O sensismo ou empirismo sensista- a realidade exterior não passa de um fluxo de imagens sensoriais - é uma espécie acidental, isto é, não contida na totalidade dentro do género fenomenismo. Há um fenomenismo sensório-intelectual - o de David Hume - que reduz a realidade exterior a um fluxo de imagens e ideias e que pode ser interpretado como idealismo.

  

E relativismo tem dois sentidos, o que não é clarificado por Trindade Santos: um deles, no género sociológico, é o de cada homem ou grupo de pessoas ver a realidade e os valores de forma diferente de outros homens ou grupos de pessoas;  o outro é o da mutação incessante da realidade em si mesma.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 21:32
link do post | comentar | favorito

4 comentários:
De José Trindade Santos a 9 de Maio de 2018 às 15:38
Agradeço as críticas. Não as contesto por me parecer que se limitam a opções terminológicas. O meu contexto é "Protágoras no Teeteto".


De Francisco Limpo Queiroz a 9 de Maio de 2018 às 20:03
Obrigado pelo seu comentário, professor José Trindade Santos. Não deixo de reconhecer a profundidade da sua reflexão, e o valor do seu estudo e divulgação da filosofia de Platão, apesar de algumas pequenas divergências.


De José Trindade Santos a 9 de Maio de 2018 às 20:49
Agradeço as suas palavras e a generosidade que as motiva.
Dependendo do meu trabalho, fico à sua disposição.
Abraço
José Trindade Santos


De Francisco Limpo Queiroz a 9 de Maio de 2018 às 22:14
Grato pela sua compreensão e amplitude de espírito . Um abraço.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Novembro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


posts recentes

Júpiter em 2º de Sagitári...

Vacinação ou o fascismo m...

17-19 November 2018: Mars...

17-19 de Novembro de 2018...

Equívocos no manual «Como...

Áreas 9º-10º de Touro, 26...

«Dicionário de Filosofia ...

Os filósofos, os astrónom...

Neptuno em 13º de Peixes:...

Equívocos nos manuais da ...

arquivos

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds