Terça-feira, 30 de Abril de 2019
Paradoxos em Heidegger: «desafastamento nada tem a ver com distância»

 

Heidegger (Meßkirch, 26 de setembro de 1889 – Friburgo em Brisgóvia, 26 de maio de 1976) caracterizou-se por desconstruir, de forma surrealista, conceitos filosóficos e do senso comum. Ao dizer que a espacialidade do "ser aí", isto é, de cada homem na sua subjectividade, não é estar em um espaço cósmico exterior mas um movimento subjectivo tecido por cada mente humana, Heidegger está a repetir o idealismo transcendental de Kant que sustenta que o espaço é uma forma a priori do sujeito, uma percepção/criação  subjectiva deste. Escreveu:

 

«A espacialidade do "ser aí", que essencialmente não é nenhum "ser diante dos olhos" não pode significar nem nada como estar em um lugar do "espaço cósmico" nem "ser à mão" em um sítio. Ambas as coisas são formas dos entes que fazem frente dentro do mundo. Mas o ser aí está "em" o mundo no sentido do "andar por aí", na familiariedade do "ocupar-se de" com os entes que o enfrentam dentro do mundo. De lhe convir de algum modo a espacialidade só será pois possível na base de este "ser em". Em uma espacialidade que ostenta os caracteres do des-afastamento e da "direção". »

«Por des-afastamento como forma do "ser aí" no que respeita a seu "ser no mundo" não entendemos o que chamamos "lonjura" ("proximidade") nem muito menos "distância". Usamos o termo "desafastamento" em um sentido activo e transitivo. O termo significa uma estrutura do ser do "ser aí" a respeito da qual o afastar algo, por exemplo tirando-o do meio, é só um modo determinado, fáctico. "Desafastar" quer dizer fazer desaparecer a lonjura de algo, quer dizer, aproximação. O "ser aí" é essencialmente des-afastador: enquanto é o ente que é, permite que em cada caso he façam frente entes na proximidade. O des-afastamento descobre a lonjura. Esta é, e o mesmo sucede com a distância, uma determinação categorial dos entes que não têm a forma de ser do "ser aí".

(Heidegger, El ser y el tiempo, Fondo de Cultura Económica, pág. 120; o destaque a negrito é posto por nós).

 

O discurso paradoxal de Heidegger é evidente: o "ser" aí pratica o desafastamento que «nada tem a ver com a noção de distância» - como se tal fosse possível!  O desafastamento, seja objectivo ou subjectivo, é o encurtamento da distância, inclui a intuição de distância. Heidegger está preso nas malhas da linguagem que ele pretende, com soberba, ultrapassar para uma diferente conceptualização do mundo. Os heideggerianos são os surrealistas da filosofia, blindados na sua linguagem ambígua.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 10:44
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
13
15
16
17

19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


posts recentes

As nossas universidades s...

David Icke: os sacrifício...

Vénus em 24º-25º de Leão ...

David Icke: os professore...

Equívocos no Exame Nacion...

Plutón en 20º 59´ de Capr...

Aprendizagens essenciais ...

Área 27º-29º do signo de ...

David Icke: la palabra in...

Áreas 21º-22º de Carangue...

arquivos

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds