Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
Equívocos no Exame Nacional de Filosofia, Prova 714, de 17 de Junho de 2019

 

O exame Nacional de Filosofia em Portugal, Prova 714, 1ª Fase, realizado em 17 de Junho de 2019, é uma das provas de exame mais confusas e mal elaboradas de que há memória. Isso parece comprovar a tese de que o ensino universitário de filosofia tem perdido qualidade a partir do momento em que se generalizou o comércio dos mestrados e doutoramentos que possibilita a indivíduos medianamente inteligentes ascender aos graus de mestre ou doutor em filosofia. Vejamos exemplos da versão 2 desta prova de exame que obriga a escolher apenas uma resposta entre quatro possíveis no grupo I:

 

GRUPO I

 

(3) «Imagine que o Luís precisa urgentemente de medicamentos e que a única maneira de os conseguir é pedir dinheiro emprestado a um amigo rico, sem ter a intenção de lho pagar. Neste caso, o Luís decidiu adotar a máxima «faz promessas enganadoras quando não há outra forma de resolver os teus problemas pessoais».

 

«Esta máxima pode ser usada para fazer uma crítica à ética kantiana, dado ser razoável argumentar que a máxima

 

(A) é imoral, ainda que venha a ter aprovação dos agentes envolvidos.

(B) não é imoral, ainda que não seja racional querer universalizá-la.

(C) não é imoral, embora seja um imperativo categórico condicional.

(D) é imoral, embora dê prioridade às consequências da ação.»

 

A resposta oficial da correção é: a alínea B, não é imoral, ainda que não seja racional querer universalizá-la.

 

Crítica nossa: A resposta correcta é A,  é imoral, ainda que venha a ter aprovação dos agentes envolvidos, porque se trata de uma máxima egoísta que visa apenas o lucro pessoal do agente que a formula.

 

5. «Popper defende que, quanto mais falsificável for uma dada informação, mais interessante ela é para a ciência. Qual das afirmações seguintes é, de acordo com Popper, mais interessante?

 

(A). Alguns corvos são negros

(B) Não existem corvos brancos.

(C) Todos os corvos são negros.

(D) Existem corvos brancos.»

 

Segundo a correção oficial há só uma resposta certa: a C, Todos os corvos são negros.

 

Crítica nossa: não há apenas uma, mas duas respostas correctas: a B e a C, porque ambas enunciam uma tese de carácter universal, ora em modo negativo ora em modo afirmativo, e Popper declarou ser impossível verificar ou estabelecer leis universais a partir da indução de alguns ou de muitos exemplos empíricos.

 

 

(6.) «Popper afirma que a ciência começou com a invenção do método crítico e considera que os cientistas agem de modo conscientemente crítico sobretudo quando

 

(A) procuram eliminar erros.

(B) inventam teorias.

(C) formulam conjecturas.

(D) tentam confirmar hipóteses.»

 

A correção oficial diz que só a resposta (A) está certa.

 

Crítica nossa: as quatro hipóteses estão correctas. Ao inventar uma teoria, ao formular conjecturas, ao tentar confirmar hipóteses os cientistas agem de modo conscientemente crítico, tanto quanto lhes permite a inteligência e a experiência de cada um.

 

7. «Há grandes diferenças entre a teoria newtoniana da gravitação e a teoria einsteiniana da gravitação. No entanto, a teoria newtoniana da gravitação pode ser traduzida em linguagem einsteiniana. Tal tradução foi feita, por exemplo, pelo professor de Física Peter Havas.

Este facto contraria a ideia, defendida por Kuhn, de que

 

A) há ciência extraordinária.

(B) os cientistas resistem à crítica.

(C) a escolha entre teorias rivais é subjetiva.

(D) os paradigmas são incomensuráveis.»

 

Segundo a correção oficial a resposta correcta é a D: os paradigmas são incomensuráveis.

 

Crítica nossa: nenhuma das 4 hipóteses está correcta. O facto de Peter Havas ter traduzido  a teoria newtoniana da gravitação em linguagem einsteiniana não elimina o facto de que são mutuamente incomensuráveis segundo Kuhn. A tradução não compara o valor de cada uma das teorias.

 

GRUPO II

 

2. «No discurso seguinte, é apresentado um argumento cuja conclusão é obtida de modo falacioso.

 

Ao longo dos tempos, muitos filósofos se têm interrogado sobre o que de mais valioso existe. Será a beleza? Será o amor? Será a justiça? Será o prazer? Ora, após muita reflexão, convenci-me de que a beleza é a coisa mais importante que há, pois tudo o resto é indubitavelmente inferior a ela.»

Identifique a conclusão do argumento e a falácia cometida.

 

A correção oficial indica que a conclusão do argumento é «a beleza é a coisa mais importante que há» e que a falácia é a da petição de princípio.

 

Crítica nossa: não há falácia nenhuma em argumentar que se considera a beleza um valor superior ao amor e à justiça. É um juízo de gosto, uma opinião pessoal, não um erro ou vício de raciocínio em que a conclusão repete a premissa. Portanto não existe a petição de princípio neste discurso cujo conteúdo pode ser formulado do seguinte modo:

 

«Reflecti muito comparando os valores  beleza, justiça, amor e prazer.

Concluí que a beleza é o mais importante que há, é o valor superior a todos os outros.»

 

GRUPO IV

  1. «Leia o texto seguinte.

Há uma questão que, na evolução do pensamento filosófico ao longo dos séculos, sempre desempenhou um papel importante: Que conhecimento pode ser alcançado pelo pensamento puro, independente da perceção sensorial? Existirá um tal conhecimento? […] A estas perguntas[…] os filósofos tentaram dar uma resposta, suscitando um quase interminável confronto de opiniões filosóficas. É patente, no entanto, neste processo […], uma tendência […] que podemos definir como uma crescente desconfiança a respeito da possibilidade de, através do pensamento puro, descobrirmos algo acerca do mundo objetivo.»

 

A.Einstein, Como Vejo a Ciência, a Religião e o Mundo, Lisboa,Relógio D’Água Editores, 2005, p. 163. (Texto adaptado)

 

Será que tanto Descartes como Hume contribuíram para a «crescente desconfiança» referida no texto?

Justifique a sua resposta.»

 

A correção oficial manda dar a cotação máxima ao aluno que «indica corretamente que é falso que tanto Descartes como Hume tenham contribuído para a desconfiança referida no texto.»

 

Crítica nossa: David Hume semeou desconfiança sobre a possibilidade de através do pensamento puro conhecer o mundo objectivo. Hume reduziu o conhecimento a impressões de sensação (ex: ver uma árvore, sentir o vento) e impressões de reflexão (ex: lembrar-se do calor da lareira acesa ou do canto dos pássaros) e a ideias, cópias menos vivas das impressões, e negou que o pensamento puro conseguisse demonstrar a existência de objectos materiais fora de nós. Portanto, os critérios de correção estão errados, quem gizou esta prova não conhece a filosofia idealista de David Hume. Eis a prova de que Hume sempre foi céptico, sempre duvidou da existência de objectos físicos exteriores à mente humana:

 

«A razão não nos dá e é impossível que alguma vez nos dê, em qualquer hipótese, qualquer convicção da existência contínua e distinta dos corpos. Esta opinião tem de se atribuir inteiramente à imaginação, que passa a ser o objecto da nossa investigação ».(Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, pag. 238; o destaque a negrito é posto por mim).

 

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publicado por Francisco Limpo Queiroz às 15:10
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