Quarta-feira, 5 de Setembro de 2018
Equívocos da Lógica Proposicional: disjunção inclusiva e disjunção exclusiva

Um dos equívocos da lógica proposicional é a falaciosa distinção entre disjunção inclusiva e disjunção exclusiva. No Manual Essencial  Filosofia 11º em voga em muitas escolas do ensino secundário em Portugal lê-se: 

 

«A disjunção inclusiva é representada por V.

«A disjunção exclusiva é representada por W.

Por exemplo: 

«Os livros estão escritos em prosa ou em poesia».

 

                                      PVQ

«Os livros estão escritos ou em prosa ou em poesia».

 

                                      PWQ

 

Neste último sentido, é claro que uma alternativa exclui por si só a outra».

 

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial Filosofia 11º, Santillana, pág 71).

 

Esta distinção é uma falácia. Dizer, por exemplo, «Vou ao Porto ou vou a Lisboa» (disjunção inclusiva segundo esta lógica) é o mesmo que dizer «Ou vou ao Porto ou vou a Lisboa» (disjunção exclusiva segundo esta lógica proposicional). A disjunção é exclusiva em ambos os casos: ir ao Porto exclui, no mesmo instante, ir a Lisboa. O «ou..ou» é apenas uma forma mais enfática de dizer «ou». Na substância, não há diferença alguma entre estas «duas» disjunções.

 

Andam os professores a ensinar erradamente os seus alunos. E o lobby dos catedráticos da filosofia analítica que assenta na lógica proposicional conseguiu impor esta última como obrigatória e exclusiva no programa de filosofia do 10º ano do ensino secundário em Portugal. Gravíssimo. Uma pseudociência do pensamento, uma formalização parcialmente arbitrária deste, elevada a tema central da filosofia!

 

A FALSA REGRA DA «DISJUNÇÃO EXCLUSIVA»

 

Há leis erróneas na lógica proposicional. Como a seguinte:

 

«Regra da disjunção exclusiva: A disjunção exclusiva é verdadeira quando as proposições simples apresentam valores lógicos diferentes. É falsa quando as proposições são ambas verdadeiras ou ambas falsas

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial Filosofia 11º, Santillana, pág 72).

 

Eis um exemplo que atesta o erro desta regra: a disjunção exclusiva PWQ «Ou o inverno é necessário à natureza (P) ou o verão é necessário à natureza (Q).» Ambas as proposições P e Q são verdadeiras e a disjunção é verdadeira mas segundo a regra acima deveria ser falsa.  

 

A FALSA REGRA DA «DISJUNÇÃO INCLUSIVA»

A lei da «disjunção inclusiva» é também errónea. É enunciada assim:

 

«Regra da disjunção inclusiva: a disjunção inclusiva de duas proposições é verdadeira em todos os casos, excepto quando as duas proposições simples são ambas falsas.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial Filosofia 11º, Santillana, pág 72).

 

Eis um exemplo que atesta o erro desta regra: a disjunção inclusiva PVQ «Somos portugueses (P) ou somos europeus (Q).» Ambas as proposições P e Q são verdadeiras, contudo a disjunção é falsa porque não podemos extrinsecar portugueses de europeus, mas segundo a regra acima é uma disjunção...«verdadeira».

 

Esta lógica proposicional é para deitar fora: foi concebida por sujeitos que vivem fora da realidade filosófica e científica. É típica de subpensadores.

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

  f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz

 



 

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:56
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2 comentários:
De Jorge a 7 de Outubro de 2018 às 21:37
Na disjunção inclusiva a verdade de uma proposição não impede a verdade da outra.

Na disjunção exclusiva a verdade de uma implica a falsidade da outra. Isto é uma verdade lógica.

Os exemplos dados nos manuais é que podem estar mal. E a questão do ou e do ou ou é uma espécie de convenção para distinguir as duas disjunções.

No exemplo de Lisboa e do Porto é uma inclusiva pois eu posso ir a Lisboa e ao Porto. Se disser que a Terra é redonda ou quadrada a verdade de uma implica a falsidade da outra. É exclusiva.


De Anónimo a 9 de Outubro de 2018 às 20:03
Comentário apagado.


De Francisco Limpo Queiroz a 10 de Outubro de 2018 às 06:34
Agradeço o seu comentário, Jorge. Permita-me discordar da sua tese «Na disjunção inclusiva a verdade de uma proposição não impede a verdade da outra.»

Vejamos um exemplo da «disjunção inclusiva», conceito confuso na lógica proposicional: «Estou no Porto ou estou em Lisboa». A verdade da minha presença no Porto neste momento, neste dia e hora, impede que seja verdade a minha presença em Lisboa. Portanto um dos termos, verdadeiro agora, impede a verdade do outro, agora.

Ora não é esta a definição de disjunção exclusiva que o Jorge dá ao dizer «Na disjunção exclusiva a verdade de uma implica a falsidade da outra. Isto é uma verdade lógica.»?

Há falta de clareza nisto, caro Jorge. E SE OS EXEMPLOS ESTÃO ERRADOS EM MANUAIS É PORQUE OS CONCEITOS BASE ESTÃO ERRADOS. A lógica proposicional não sabe explicar a diferença entre disjunção inclusiva e exclusiva. E quantos doutorados e mestres fizeram teses sobre ela subscrevendo-a com estes erros e confusões. E o lobby analítico português tornou-a exclusiva do programa de 10º ano de filosofia no ensino secundário, eliminando a lógica aristotélica! É puro fascismo filosófico (melhor: antifilosófico!).


As leis de Morgan estão erradas mas nem Bertrand Russel, nem Fregge, nem Wittgenstein, nem Simon Blackburn, nem Nigel Warburton, nem João Branquinho, nem João Sáagua, nem Ricardo Santos e tantos outros deram por isso. Faltou-lhes poder de reflexão e análise.

Ao diabo com a lógica proposicional! É terreno dos subintelectuais que julgam alçar-se através dela à verdade «indiscutível».


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