Terça-feira, 20 de Maio de 2014
Teste de filosofia do 11º B (Maio de 2014, 3º período)

 

Eis um teste de filosofia, para o terceiro período lectivo, para o 11º B. O teste centra-se na teoria do conhecimento (Hume, Descartes; idealismo, pragmatismo, fenomenologia) na ontologia  (Parménides, Pitágoras, David Hume, Descartes) na teleologia/ sentido da existência (Kierkegaard, Hegel). Evitaram-se as escorregadias questões de escolha múltipla que, em muitos casos, não permitem ao aluno exibir e desenvolver o seu saber filosófico.

 

Agrupamento de Escolas nº1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA B
16 de Maio de 2014. Professor: Francisco Queiroz

 


I

 

“A angústia é uma liberdade travada...Deus é, não existe, o homem existe, mas não é“ Kierkegaard

1-A) Explique estes pensamentos.

II

 

2) Disserte sobre o seguinte tema:

 

" O ser em Parménides, em Pitágoras e em David Hume".

 

III

 

 

3) Relacione, justificando:
A) Eu em Descartes e Eu em David Hume.

B) Realismo Crítico em Descartes e Conjecturalismo/falsificacionismo em Popper.

C) As três fases da Ideia Absoluta em Hegel e o Existencialismo de Kierkegaard.

D) Idealismo, Fenomenologia, Pragmatismo.

 

 

 

CORRECÇÃO DO TESTE DE FILOSOFIA (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A angústia é uma categoria da vida intermédia, entre a liberdade e a necessidade. Ao olharmos de cima um precipício, sentimos alguma angústia: desejo de voar (ser livre) e medo, ditado pela necessidade ou lei infalível de causa-efeito de morrer esmagados em consequência da queda. Por isso se diz que a angústia é uma liberdade bloqueada por si mesma devido a compreender os limites da possibilidade: queremos e não queremos porque receamos. (VALE UM VALOR E MEIO). "Deus é mas não existe" significa: Deus existe eternamente, fora do tempo, e como está fora das contingências da existência (nascer, crescer, tranalhar, morrer, etc) diz-se que não existe.». "O homem existe e não é" significa: o homem está em perpétuo devir, a existência é feita de mudanças, altos e baixos, por isso existe e deixa de existir, mas não é, se por é se entende ser eterno, sempre o mesmo (VALE UM VALOR E MEIO).

 

 

2)  O ser em Parménides é, não foi nem será. É uno, homogéneo, imóvel, incriado, invisível e imperceptível aos sentidos, esférico. Ser e pensar é um e o mesmo. A alteração das cores, a mutação, o nascimento e a morte são ilusões, reais só na aparência.

Ser é um termo ambíguo, polissémico: por um lado é o existir em geral; por outro lado é o existente, algo que existe, o essente, uma essência ou substância de carácter universal. Parménides usa o termo nos dois sentidos, de existência e de essência. Neste segundo sentido, pode interpretar-se como o cosmos esférico ou como o pensamento divino estruturante do cosmos (sentido hegeliano). Fica em aberto a questão de saber se Parménides era idealista ou realista crítico.

Em Pitágoras, o ser pode interpretar-se como: Deus, o supremo geómetra, o supremo arquitecto do cosmos; os quatro números figura essenciais - o um ou ponto, o dois ou recta, o três ou plano, o quatro ou tetraedro- que compõem todas as coisas materiais. 

O ser em David Hume é antropológico: percepções empíricas ou impressões dos sentidos, razão, imaginação mas não um «eu-substância» coeso como em Kant ou em Descartes. O ser do mundo exterior é inexistente (idealismo) ou duvidoso (cepticismo) e, portanto, é não-ser efectivo ou provável. (VALE QUATRO VALORES)

 

3) A) O "eu" em Descartes é uma substância: no essencial, é res cogitans, pensamento, e secundariamente, o corpo humano, res extensa (extensão dotada de formas, comprimento, largura e altura). Em David Hume, o "eu" não é substância, não existe sequer (idealismo) ou é duvidoso (cepticismo) tal como não existem ou são duvidosas as noções de "alma", "substância", "essência". No entanto, Hume discrimina sete relações filosóficas ou noções que, à falta de um "eu",  parecem ser estruturas a priori: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. (VALE TRÊS VALORES

 

B) O realismo crítico em Descartes consiste no seguinte:  há um mundo de matéria exterior às mentes humanas,  feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios de partículas exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor.

 

O princípio da falsificabilidade de Popper estabelece que as ciências são conjuntos de conjecturas (conjecturalismo), isto é, as suas leis ou teses são hipóteses, conjecturas potencialmente falsas, falsificáveis, refutáveis. Isso exige aplicar permanentemente o princípio da testabilidade: há que submeter a constantes testes experimentais as teses de uma ciência. Entre as várias teorias na mesma área científica ( exemplo: vacinar ou não vacinar na medicina preventiva; heliocentrismo versus geocentrismo na astrofísica) Popper defende que se deve escolher a mais verosímil, a que dá mais garantias, sublinhando que a ciência é uma aproximação incessante à verdade sem nunca abarcar o todo desta.

O que há de comum entre Descartes e Popper é o cepticismo como método de pesquisa da verdade e, por vezes, como horizonte final da investigação. Como é evidente, Popper não aceitou a hipótese cartesiana de Deus ser o garante da existência do mundo material porque a existência de Deus mão pode ser testada experimentalmente, não é falsificável. (VALE TRÊS VALORES).

 

C)- Hegel divide a história universal da ideia absoluta ou Deus em três fases:  a fase lógica ou do ser em si, na qual só existe um espírito, Deus, antes de criar o universo material o espaço e o tempo, espírito ou ideia absoluta que se limita a pensar (isto corresponde ao teísmo, doutrina segundo a qual há um ou vários deuses independentes da natureza física); a fase da natureza ou do ser fora de si em que Deus se aliena em matéria bruta, isto é, se transforma em astros, sol, montanhas, rios, rochas, plantas e animais não humanos (isto corresponde ao panteísmo, doutrina que sustenta que Deus é a natureza física e biológica); a fase da humanidade ou do ser para si, em que Deus renasce, como espírito livre, em forma de homens que lentamente, progridem em direcção à liberdade de espíriro que é regresso à primeira fase. (esta terceira fase corresponde ao panenteísmo, doutrina que afirma que Deus é tudo, a natureza material, a humanidade e é Ele mesmo como espírito transcendente). Este progresso exprime-se através de três formas de estado sucessivas- no início, o despotismo oriental, em que só um homem é livre, séculos depois o estado greco-romano, em que só alguns homens são livres e por último o estado do cristianismo reformado por Lutero em que todos os homens são livres de examinar a Bíblia sem a manipulação do clero católico romano, completado em 1789-1799 pela revolução francesa que implantou a democracia baseada na liberdade, igualdade e fraternidade. Hegel dizia «o Estado é tudo, o indivíduo é nada», é essencialista - a essência Deus planeia, à partida, a existência histórica, a natureza biofísica, os diversos tipos de sociedades humanas -  ao contrário do existencialista Kierkegaard que proclamava o primado do indivíduo sobre a massa, a sociedade, a imprevisibilidade da vida, e a não intervenção de Deus na história humana cheia de pecados.

 

Segundo Kierkegaard, filósofo existencialista cristão, há três estádios na existência humana: estético, ético e religioso. No estádio estético, o protótipo é o Don Juan, insaciável conquistador de mulheres que vive apenas o prazer do instante, e sente angústia se está apaixonado por uma mulher e teme não a conquistar. O desespero é posterior à angústia: é a frustração sobre algo que já não tem remédio ou que se esgotou. Ao cabo de conquistar e deixar centenas de mulheres, o Don Juan cai no desespero: afinal nada tem, o prazer efémero esvaiu-se. Dá então o salto ao ético: casa-se. No estado ético, o paradigma é do homem casado, fiel à esposa, cumpridor dos seus deveres familiares e sociais. Este estado relaciona-se com o essencialismo, doutrina que afirma que a essência, o  modelo do carácter ou do comportamento vem antes da existência e condiciona esta. A monotonia e a necessidade do eterno faz o homem saltar ao estádio religioso, em que Deus é o valor absoluto, apenas importa salvar a alma e os outros pouco ou nada contam. Abraão estava no estádio religioso, de puro misticismo, quando se dispunha a matar o filho Isaac porque «Deus lhe ordenou fazer isso». O estádio religioso é o do puro existencialismo, doutrina que afirma que a existência vive-se em liberdade e angústia sem fórmulas (essências) definidas, buscando um Deus que não está nas igrejas nem nos ritos oficiais. Neste estádio, o homem casado pode abandonar a mulher e os filhos se «Deus lhe exigir» retirar-se para um mosteiro a meditar ou para uma região subdesenvolvida a auxiliar gente esfomeada. A escolha a cada momento ante a alternativa é a pedra de toque do existencialismo.  (VALE QUATRO VALORES).

 

D)  O idealismo sustenta que o mundo material exterior se reduz a percepções empíricas e ideias, a matéria não existe em si mesma. A fenomenologia balança entre aceitar essa posição e a do realismo: para a fenomenologia o mundo de matéria existe fora do corpo físico do sujeito, mas não sabe se este mundo está dentro ou fora da mente (envolvente) do sujeito. Portanto, não se aventura na metafísica e nesse sentido é pragmática porque pragmatismo significa ater-se àquilo que é empírico e verificável e guiar-se pela utilidade das coisas (VALE TRÊS VALORES). 

 

 

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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2013
Teste de filosofia do 11º ano, turma C, Novembro de 2013

 

Eis um teste de filosofia sem perguntas de resposta múltipla que exigem responder com cruzes e não desenvolvem a capacidade discursiva escrita do aluno.  

Agrupamento de Escolas nº 1 de Beja
Escola Secundária Diogo de Gouveia, Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA C
1 de Novembro de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

 

1) Considere o seguinte silogismo:

 

«Algumas coisas belas são azuis.
«Os olhos da Catarina  são azuis».
«Os olhos da Catarina não são coisas belas».

 

Indique, concretamente, três regras da construção formalmente válida do silogismo que foram infringidas no silogismo acima.

 

2) Construa o quadrado lógico das oposições à proposição: «As mulheres de Castro Verde são independentes».

 

3) Relacione, justificando:

 A) Astúcia da razão, na doutrina de Hegel, e lei dialética dos 2 aspectos da contradição.

 

B) Ethos, Logos e Pathos, na retórica, e lei dialética da contradição principal.

 

C) Percepção empírica, Conceito empírico e pragmatismo.

 

4) Construa um silogismo condicional modus ponens e um silogismo modus tollens a partir da seguinte premissa: «Se reflectir, ultrapassarei o senso comum.»

 

5) Disserte livremente sobre o seguinte tema:

 

«As falácias e os argumentos não falaciosos: falácia depois de por causa de, falácia do homem de palha, argumento do apelo à ignorância, argumento/falácia ad populum, falácia da composição, falácia da divisão, argumento circular.

 

 

            CORRECÇÃO DO TESTE, COTADO PARA 20 VALORES

 

1) Eis três regras de validade infringidas no silogismo acima: o termo médio deve estar distribuído pelo menos uma vez (ora isso não sucede, sendo o termo médio «azuis»); nenhum termo pode ter na conclusão maior extensão do que nas premissas (ora o termo "coisas belas" é particular na premissa e universal na conclusão); duas premissas afirmativas não podem gerar uma conclusão negativa. (VALE DOIS VALORES).

 

2)     A         E

         

         I          O  

 

 

 

 

 A (proposição universal afirmativa),: As mulheres de Castro Verde são independentes.

 

 E  (proposição universal negativa):  As mulheres de Castro Verde não são independentes.

 

 I (proposição particular afirmativa): Algumas mulheres de Castro Verde são independentes.

 

 O (proposição particular megativa): Algumas mulheres de Castro Verde não são independentes. ( VALE DOIS VALORES)

 

  

3) a) A astúcia da razão, na doutrina de Hegel, é a manipulação das paixões dos grandes homens de Estado no sentido de os levar a conduzir o povo nesta ou naquela direcção. Exemplo: em 1799, a razão universal (Deus) usou a ambição e o carisma do general Napoleão Bonaparte para reduzir a cinzas a revolução popular iniciada em 1789 e, ao mesmo tempo, para impedir a restauração monárquica e criar a França burguesa do século XIX. Aplicando a lei dos dois aspectos da contradição que diz que em uma contradição  há dois aspectos, em regra desigualmente desenvolvidos, o principal e o secundário, à astúcia da razão, podemos dizer que Deus ou ideia absoluta é o aspecto dominante e os homens de Estado (Napoleão, Bismarck, Salazar, Álvaro Cunhal, etc) são o aspecto dominado, executam inconscientemente, através da sua paixão pela política, o que a ideia absoluta lhes pede. (VALE TRÊS VALORES).

 

 3) b ) Ethos é o carácter do orador na retórica ou arte de persuadir um público. Pathos é o sentimento colocado no discurso.Logos é o conteúdo intelectual, as ideias e raciocínios estruturantes do discurso. Segundo a lei da contradição principal, que resume a dois blocos a multiplicidade das contradições de um sistema, o Logos opõe-se ao bloco emocional formado pelo Ehos e pelo Pathos. (VALE TRÊS VALORES).

 

3) c) A percepção empírica é um conjunto ordenado de sensações e o conceito empírico é a ideia que se forma, por abstração,  a partir de percepções similares. O pragmatismo é a corrente filosófica de tonalidade empirista que preconiza ser prático e buscar a utilidade das coisas. Aparentemente o pragmatismo apoia-se nas percepções e conceitos empíricos. (VALE TRÊS VALORES)

 

4) Silogismo condicional tipo modus ponens:

 

Se reflectir, ultrapassarei o senso comum.

Reflecti.

Logo, ultrapassei o senso comum.

 

Silogismo tipo modus tollens.

 

Se reflectir, ultrapassarei o senso comum.

Não ultrapassei o senso comum.

Logo,não reflecti.     (VALE DOIS VALORES).

 

5)  As falácias são uma espécie dentro do género argumento:  são raciocínios incorrectos, equívocos, deliberados (sofismas) ou não (paralogismos). A falácia depois de por causa de é a que atribui uma relação necessária de causa efeito a dois fenómenos vizinhos por acaso. A falácia do homem de palha é a que falsifica o pensamento do nosso opositor de modo a assustar, como um espantalho assusta os pardais na horta, os que ouvem (exemplo: um homem disse «concordar com as nacionalizações de grandes empresas» e o adversário dele diz que «ele quer tirar a propriedade privada a toda a gente, sejam grandes, médios ou pequenos empresários»).  A falácia do apelo à ignorância é a que raciocina sobre um fundo desconhecido e o usa de forma tendenciosa (exemplo: Nunca ninguém viu Deus, logo Deus não existe). A falácia da divisão é a que atribui propriedades do todo a cada uma das partes (exemplo: «O povo alemão é rico, logo o mendigo alemão Hans, que dorme na rua, é rico»). A falácia da composição é a que generaliza precipitadamente atribuindo ao todo as características de uma parte (exemplo: «entre os animais, há muitos cavalos, logo todos os animais são cavalos»). O argumento ad populum é o que invoca a voz do povo ou o sentir maioritário da população (exemplo: «votamos em eleições porque a maioria do povo assim o quer, vacinamo-nos porque a população em geral o faz»). O argumento circular é aquele em que as premissas se fundam na conclusão, é um raciocínio em circuito fechado (exemplo: «Ela é bela porque é fisicamente agradável e é fisicamente agradável porque é bela») (VALE CINCO VALORES).

 

 

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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013
Algo de fascizante em teses de Wittgenstein

 

O célebre Ludwig Wittgenstein estabeleceu as teses do empirismo lógico e da filosofia analítica em geral com um carácter não isento de incoerência. Escreveu:

 

«4.112 O objectivo da filosofia é a clarificação lógica dos pensamentos.»

 

«A filosofia não é uma doutrina, mas uma actividade.»

 

« Um trabalho filosófico consiste essencialmente em elucidações.»

 

«O resultado da Filosofia não é «proposições filosóficas», mas o esclarecimento de proposições.»

 

«A filosofia deve tornar claros e delimitar rigorosamente os pensamentos, que doutro modo são como que turvos e vagos.»

 

(Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-Filosófico; Ed. Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1995. 4.112, pp. 62-63).

 

Nestas teses, Wittgenstein afirma o valor lógico da filosofia mas nega o seu valor metafísico. Ou seja, amputa a filosofia, negando que haja «proposições filosóficas»  e a correspondente doutrina. Reduz a filosofia à lógica e à epistemologia .Ora, há que não esquecê-lo, antes do mais a filosofia é, por sua própria natureza, a arquitectura do invisível concebida em cada mente humana, o ir além do que os sentidos directamente nos oferecem, o uso da imaginação ou da intuição inteligível sob o controlo da racionalidade lógica.

 

O revisionismo filosófico de Wittgenstein lembra o revisionismo das teses de Marx operado por Bernstein: «O movimento é tudo, o objectivo é nada». Para Bernstein, o objectivo do movimento operário socialista não seria a tomada do poder de Estado aos capitalistas e a construção de uma nova sociedade mas apenas a correção de algumas injustiças, mediante pequenas conquistas como aumentos de salário e melhoria das condições de trabalho. É o mobilismo permanente. Wittgenstein defende que a filosofia só pode corrigir, clarificar o discurso do senso comum ou de ciências, mas não pode assumir teses próprias. A filosofia seria o pagem, o escudeiro do cavaleiro das ciências empíricas. O seu lugar seria subalterno.

 

Mas indagar e não chegar a conclusão nenhuma em nenhum campo, excepto o dos sentidos aqui e agora, negando validade à actividade de especular, que, além de clarificar é um postular original, é uma incoerência. É o cepticismo moderado.

 

Por conseguinte, segundo Wittgenstein, Aristóteles não teria legitimidade para filosofar sobre um Deus que é pensamento puro (theoría) e estaria imóvel além da última esfera de estrelas, não intervindo no mundo. E Leibniz não teria legitimidade para defender que as mónadas, unidades elementares da percepção, são a fonte de todas as coisas do mundo. E Kant não poderia teorizar filosoficamente que espaço e tempo são formas a priori do conhecimento anteriores aos objectos físicos. E Marx não poderia postular que o comunismo é a etapa final da história humana uma vez que isso é uma doutrina metafísica. Aristóteles, Leibniz, Kant, Marx e milhares de outros colocar-se-iam fora do terreno que Wittgenstein delimitou para a filosofia...

 

qualquer coisa de fascizante no pragmatismo das teses de Wittgenstein mas não digo isto  pelo facto de ele ter nascido na Austria, onde também nasceu Adolf Hitler, em 26 de de Abril de 1889, seis dias após o nascimento de Adolf Hitler e dois dias antes do nascimento de António Oliveira Salazar, em Portugal. É o carácter de doutrinas, com maior ou menor lastro metafísico,  que as várias filosofias apresentam que torna possível a confrontação de ideias, a abertura de um campo de opções políticas, religiosas, sociais e económicas vertebradoras da democracia e do progresso das ideias.

 

 

 

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Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
Utilitarismo dos actos, um equívoco de Pedro Galvão e de Simon Blackburn

 

Úma falácia em voga entre os "novos filósofos" da ética é a distinção entre utilitarismo dos actos e utilitarismo das regras. No prefácio de "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", de Kant, publicado por Edições 70, Pedro Galvão, da Universidade de Lisboa, escreveu, com a supervisão ou cooperação de Desidério Murcho:

 

«Um defensor do utilitarismo dos actos, dado que pensa que um acto é moralmente presumível apenas se maximizar a felicidade geral, tem de defender o seguinte:

«1. É permissível fazer seja o que for (ex, mentir, roubar, trair) se fazê-lo for útil para promover a felicidade geral.

«2. É obrigatório fazer tudo o que esteja ao nosso alcance (por muito sacrifíciopessoal que isso envolva) para promover a felicidade geral

«A alternativa principal ao utilitarismo dos actos é a deontologia, uma perspectiva que se caracteriza em parte pela oposição a estas duas teses. E Kant, sem dúvida, diria que o imperativo categórico conduz a uma perspectiva deontológica, e não ao utilitarismo dos actos (Pedro Galvão, Prefácio de "Fundamentação da Metafísica dos Costumes", de Kant, pag XVIII, Edições 70; o negrito é da minha autoria).

 

 

Aquilo que Pedro Galvão define como utilitarismo dos actos não é utilitarismo. Porque o utilitarismo comporta em si mesmo uma deontologia, não é uma mera obtenção de resultados. Proporcionar a felicidade a uma maioria, sem olhar a meios, não é a doutrina de Stuart Mill. Este escreveu referindo-se ao indivíduo e aos seus desejos de dinheiro, poder, fama e outros:

 

«..Nada há que faça tão benéfico aos outros como o cultivo do amor desinteressado à virtude. E, por consequência, a doutrina utilitária, embora tolere e aprove estes outros desejos adquiridos, até ao ponto para além do qual se tornariam mais prejudiciais do que conducentes à felicidade geral, ordena e exige o cultivo do amor à virtude, até ao máximo que for possível, porque a considera acima de todas as coisas importantes para a felicidade geral.» (Stuart Mill, Utilitarismo, Atlântida, pag 64; o negrito é posto por mim).

 

Esta citação prova que o utilitarismo possui uma deontologia: cultivar a virtude e aplicá-la em proveito da maioria dos sujeitos envolvidos numa dada situação. É pois um erro instituído no campo da ética académica a dicotomia moral utilitarista/ moral deontológica. O utilitarismo de Mill, tal como o prescritivismo universalista de Kant, são ambos éticas deontológicas, O que Pedro Galvão denomina "utilitarismo dos actos" é hedonismo amoral de maiorias:  é suscitar, através do vício, a felicidade geral da maioria. Não é utilitarismo, mas pragmatismo sem escrúpulos.

 

 

Decerto, o equívoco de Pedro Galvão e Desidério Murcho é o reflexo do equívoco de Simon Blackburn, o catedrático inglês, cujas posições fielmente reproduzem. Blackburn escreve no seu "Dicionário Oxford de Filosofia":

 

«utilitarismo dos actos  Versão do utilitarismo especialmente associada a Bentham, de acordo com a qual a medida do valor de um acto consiste no grau em que este aumenta a utilidade ou felicidade geral. Um acto deve ser preferido a actos alternativos em função da maior felicidade que proporciona comparativamente a eles. Uma acção é asim boa ou má proporcionalmente ao grau em que aumenta ou diminui a felicidade geral, comparado com o grau que poderia ter sido alcançado ao agir-se de modo diferente. O utilitarismo dos actos distingue-se não apenas por sublinhar a utilidade, mas pelo facto de cada acção individual ser o objecto primitivo da avaliação ética. Isto distingue-o dos vários tipos de utilitarismo indirecto, bem como dos sistemas éticos que dão prioridade ao dever ou à virtude pessoal.»  (Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, páginas 447-448, Gradiva; a letra negrito é de minha autoria).

 

Esta definição de Blackburn é vaga. Não se percebe nela a diferença entre utilitarismo e utilitarismo dos actos. Nem sequer refere que «os piores meios servem, desde que se atinjam os fins práticos» como teoriza  acima Pedro Galvão ao definir "utilitarismo dos actos".  Blackburn tem erudição mas carece de profundidade de pensamento, de espírito de síntese radical e dialéctico.

 

 

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Sábado, 28 de Maio de 2011
Crítica a Sellars e a James Pratt: só o realismo crítico admite a ilusão e o erro?

Por "realismo crítico" entendeu-se, nos EUA, uma corrente que sustenta que as nossas percepções empíricas e o nosso intelecto não apreendem cada um dos objectos físicos do mundo real exterior no seu todo, mas deixam de fora alguns aspectos, desconhecidos ou incognoscíveis. As definições de "realismos crítico, natural e ingénuo" dada por "realistas críticos" como Roy Wood Sellars são pouco claras, padecem de confusões:

 

«O realismo ingénuo tem a pretensão impossível de intuir o objecto; impossível, porque suporia um salto sobre as barreiras do espaço e do tempo, contrário à natureza. O realismo crítico, pelo contrário, contenta-se com admitir o facto da mediação causal, ainda que proclamando que o objecto afirmado e proposto se conhece mediante o conteúdo que se oferece à pessoa que conhece.» (...)

«A posição a que chegamos é realista, e tão próxima ao realismo natural quanto o permitem as condições do conhecimento. Coisas materiais são o objecto do conhecimento, se bem que só podem conhecer-se em função dos dados que determinam dentro de nós. O postulado do conhecimento é o valor cognoscitivo e e revelador da ideia tomada como conteúdo ou conjunto de características, não como um ser com existência mental. Por outras palavras, o conteúdo que apreendemos deve ter a propriedade de reproduzir algo do objecto, e de transmitir com os seus próprios meios a forma do mesmo.»( Roy Wood Sellars, citado in Paul Kurtz, Filosofía norteamericana en el siglo veinte, páginas 344, Fondo de Cultura Económica, México, 1972; o negrito é colocado por mim).

 

Nesta definição de Sellars, há confusão, porque o realismo ingénuo não funde a consciência e o objecto real exterior, não confunde representação com objecto referente, exterior. Ao falar em ideia como "ser com existência mental" Sellars visa o realismo ingénuo, mas nem se percebe claramente o que esta expressão quer dizer. E ao falar em realismo natural parece designar a realidade exterior em si mesma e não um dos modos de apreensão desta como vários teóricos da gnoseologia o fazem. Não faz sentido a classificação de Sellars porque usa o termo realismo de forma ambivalente: o realismo natural seria a realidade em si mesma, o realismo crítico a apreensão crítica, algo céptica, dessa realidade, e o realismo ingénuo a apreensão dogmático-infantil dessa realidade.

 

Outro filósofo norte-americano da escola do "realismo crítico", James Bissett Pratt (22 de Junho de 1875, Elvira, Nova Iorque; 15 de Janeiro de 1944) escreveu:

 

«Os elementos agnósticos (se assim se quiser chamar-lhes) que o realismo crítico efectivamente inclui seriam em minha opinião mais um mérito do que um inconveniente. O realismo crítico vangloria-se, como São Paulo, das suas debilidades posto que, graças a elas, é capaz de dar melhor conta da verdade. Pois o que tanto o idealismo como o pragmatismo e o neorrealismo sejam insustentáveis é precisamente o facto de que nenhum deles pode acolher a ilusão ou o erro. Estruturaram-se com vista a "evitar o agnosticismo"  e o resultado foi que, por ser um mundo ideal de deuses e anjos que nunca se equivocam, não podem aplicar-se minimamente a seres tão falíveis como nós.»

«Ao contrário, o realismo crítico acolhe de forma adequada o erro e a ilusão...»(James Bissett Pratt , citado in Paul Kurtz, Filosofía norteamericana en el siglo veinte, páginas 341-342, Fondo de Cultura Económica, México, 1972; a letra a negrito é da minha autoria).

 

Não se percebe por que razão Pratt garante que o pragmatismo não tem lugar para a ilusão e o erro. Afinal o pragmatismo admite que há uma realidade metafísica incognoscível, só que não se ocupa dela mas da acção prática. É falso que o idealismo não acolha a dúvida. Existe um idealismo crítico, de que o de Kant é o paradigma, que admite que as cores, sabores, cheiros, etc, não existem nos fenómenos materiais mas apenas no nosso modo de os percepcionar. E existe um idealismo natural.

 

  

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Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011
Questionar Abbagnano: Ortega e Gasset não era fenomenólogo?

As histórias da filosofia possuem, em regra, a grande virtude de oferecer uma visão panorâmica, sinóptica, do percurso do pensamento filosófico desde Lao Tse ou Tales de Mileto até ao século XXI. Mas sobre elas pende a espada de Dâmocles de um risco: não conseguirem sintetizar todos os aspectos essenciais da filosofia de um pensador ou omitirem ou deformarem algum ou alguns desses traços. Sobre o filósofo espanhol José Ortega y Gasset,  escreveu Nicola Abbagnano na sua meritória «História da Filosofia»:

 

«No limite entre o pragmatismo e o existencialismo pode ser colocada a obra do filosófo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) que nasceu em Madrid mas estudou e se formou na Alemanha.» (Nicola Abbagnano, História da Filosofia, volume XIII, Editorial Presença, pag 34).

 

No limite entre pragmatismo e existencialismo ? Mas não há um limite nítido entre ambos: o pragmatismo e o existencialismo não são espécies do mesmo género, são géneros diferentes que se intersectam. Há um pragmatismo existencialista - uma parte do género existencialismo é espécie do género pragmatismo - e um pragmatismo essencialista. Pragmatismo opõe-se, directamente, a especulacionismo - ambos são espécie do género verificabilidade. Por outro lado, existencialismo opõe-se, directamente, a essencialismo - ambos são espécies do género eidologia. Não há, pois, uma linha fronteiriça nítida entre pragmáticos e existencialistas. Interpenetram-se. Como poderia estar Ortega no limite? Poderia, sim, estar na zona comum a ambos, na zona de intersecção.

 

Por outro lado, na súmula que fez da filosofia de Ortega y Gasset, Nicola Abbagnano não refere a posição ontognoseológica daquele: se o realismo, se o idealismo, se a fenomenologia... Ora Ortega é, sem dúvida, fenomenólogo. É, em certa medida, um émulo, na filosofia espanhola, do alemão Martin Heidegger. A sua filosofia da razão vital assenta na perspectiva da fenomenologia.

 

 

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Sábado, 20 de Março de 2010
Contra Rorty: A impossibilidade de a linguagem funcionar sem referente, real ou ideal, e a insuficiência do ironismo

 

Richard Rorty proclamou ser necessário renunciar definitivamente «à ideia de correspondência entre as orações e os pensamentos e ver as orações como se estivessem ligadas entre si em vez de com o mundo» (R.Rorty, Philosophy and the Mirror of Nature, Princeton, Pág. 359).

 

Há aqui uma confusão de Rorty: a linguagem é o vestuário, a casa que transporta o pensamento, a pele do pensamento, por assim dizer. Excepto no caso circunstancial de ouvirmos ou lermos um discurso incompreensível numa língua estranha para nós, a linguagem é indissociável do pensamento, suscita, exprime sempre um ou múltiplos pensamentos. Portanto há sempre correspondência entre linguagem e pensamento, nos humanos: a linguagem associa-se sempre ao pensamento mas o inverso nem sempre acontece. Essa correspondência assume formas concretas muito diversas, expressas antes de mais nas línguas de cada povo: por exemplo, em francês, a frase «l ´homme est à la table» é uma expressão linguística equivalente à portuguesa «o homem está à mesa» e à inglesa «the man is at the table» mas nos três casos as palavras diferentes entre si (jogos de linguagem) designam pensamentos similares e uma mesma realidade objectiva exterior.

 

O que Rorty sugere - desfazer a correspondência da linguagem com o pensamento - é absurdo. É possível desfazer a correspondência entre uma dada linguagem e um dado pensamento e o correspondente objecto físico - ou seja, é possível mudar de jogo de linguagem, como no caso da palavra «sujeito» que na filosofia medieval designava,por exemplo, a árvore, a catedral, isto é o objecto exterior a nós e, posteriormente, passou a designar o eu, a entidade interior a mim ou a cada humano - , mas não é possível abolir a correspondência entre a linguagem em geral e o pensamento em geral. A natureza da linguagem humana é ser pensamento e revestimento do pensamento.

 

Ao contrário do que sustentam Rorty e os seguidores da «hermenêutica solidária» que entendem por representacionalismo unicamente a descrição pela linguagem de um mundo exterior objectivo, toda a linguagem é representacionalista - ou de um mundo exterior, biofísico ou social, ou de um mundo interior, psíquico e simbólico, ou de um mundo misto, interior-exterior. Linguagem é representação gráfica, verbal, táctil, mental de um objecto, situação ou qualidade, real ou irreal.

 

O coerentismo - teoria segundo a qual a verdade é não dogmática, absolutamente segura, mas plausível, definindo-se em função da coerência entre si das diversas teses sobre o incerto ou problemático mundo exterior ou interior - de que Rorty participa, desliga a verdade da correspondência com o mundo exterior mas mantém um mundo interior de conceitos e teses, fixas ou mutáveis, onde há altos e baixos relevos da verdade em graus de plausibilidade, isto é, onde a noção de correspondência palavra-ideia-objecto se mantém fora do campo físico real. .Portanto, no coerentismo mantem-se a relação de correspondência entre orações (proposições) e pensamentos que, neste caso, se reportam a objectos ideais.

 

Em Rorty, há o mesmo erro que em Popper: nivelar todas as teorias num pirronismo conjectural o que é correcto apenas como uma precaução, como um método de abordagem livre, a priori, mas não pode ser a posição definitiva. Esta terá de ser o probabilismo - a posição céptica já enunciada na antiguidade grega por Carnéades e que Popper adopta embora o negue formalmente -  ou o dogmatismo. Posicionalmente, ou seja no que respeita à posição definitiva, há teorias integralmente verdadeiras, outras parcialmente verdadeiras, em graus diversos, e outras integralmente falsas.

Metodologicamente - método como caminho para a verdade - a posição de Rorty parece correcta: ela é a ironia de Sócrates, mas não a maiêutica. Não dá à luz nada: é um cepticismo, um ironismo.

Rorty escreveu:

 

«Definirei como ironista todo aquele que cumpra três condições: (1) tem dúvidas radicais e contínuas sobre o vocabulário final que usa porque ficou impressionado com outros vocabulários, vocabulários tidos como finais pela gente ou pelos livros com que se deparou; (2) dá-se conta de que os argumentos expressos no seu actual vocabulário não podem nem reforçar nem dissolver aquelas dúvidas: (3) ao filosofar sobre a sua situação, não crê que o seu vocabulário esteja mais perto da realidade do que outros, nem que esteja em contacto com algo que não seja ela mesma. (…)»

«O ironista, pelo contrário, é um nominalista e um historicista. Pensa que nada tem uma natureza intrínseca, uma essência real e crê, por isso, que a aparição de um termo como “justo” ou “científico” ou “racional” no vocabulário final do presente não é razão para pensar que a investigação socrática sobre a essência da justiça ou sobre a essência da racionalidade levará muito mais além dos jogos de linguagem do próprio tempo. O ironista gasta o seu tempo a preocupar-se com a possibilidade de haver sido iniciado na tribo equivocada e de que lhe tivessem ensinado a jogar o jogo equivocado. (...) Sem embargo, não pode fornecer critério nenhum sobre o que consiste em estar equivocado.» (Richard Rorty, Contingency, Irony and Solildarity, II, 4, Cambridge; a letra negrita é posta por mim).

 

O erro de Rorty, na sua apologia do ironista, é de dupla face: por um lado, consiste em proclamar a impossibilidade de fornecer um critério de verdade sobre as teorias e o mundo, isto é, a impossibilidade de abandonar o cepticismo pirrónico; por outro lado, reside no facto de proclamar a inconvertibilidade mútua entre os vários vocabulários filosóficos. Isso não é verdade: o termo “idealismo” em Kant não corresponde ao termo “idealismo” em Hegel mas é possível explicar cada um deles e convertê-lo num determinado termo do outro vocabulário. Para Kant, por exemplo, a doutrina do «idealismo» de Hegel seria classificada como um «realismo transcendental» de carácter metafísico. Os jogos de linguagem representam apenas o relativismo da linguagem, da relação desta com as essências e coisas que designa, mas não traduzem o "relativismo" dessas essências e coisas.

 

Estas têm uma consistência estável, por assim dizer absoluta, apesar de poderem ser relativizadas, conexionadas de diferentes modos com diferentes coisas ou circunstâncias. Exemplo: embora o peso de um corpo, definido como a força de atracção gravítica que sofre em relação à Terra, varie com a distância do corpo ao centro da Terra, podendo ser nulo quando o corpo se encontra em órbita no espaço (relativismo do peso) a essência "peso" é absoluta, isto é, a definição do que é peso é inalterável (absolutismo ou não relativismo de peso). Em suma: em meu entender, é aceitável ser ironista provisoriamente, numa atitude propedêutica inicial, mas há que passar ao probabilismo  ou ao dogmatismo ao entrar em cada jogo de linguagem porque se descobre uma arquitectura coerente nele.

 

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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010
A interpretação equívoca de Manuel Maria Carrilho sobre Kant e o pragmatismo

No seu livro «Que é Filosofia», editado em 1994, o catedrático português Manuel Maria Carrilho faz algumas equívocas apreciações sobre o kantismo e o pragmatismo: 

 

«O que o neopragmatismo sobretudo contesta é o passo que se dá desta intersubjectividade para a universalidade; ou, dito de outro modo, se há um erro de partida ele não se encontra em Hegel mas em Kant, no modelo epistemológico com que o criticismo pretendeu harmonizar a ciência e a ética. Este modelo tem na objectividade o seu ideal supremo, uma vez que, por um lado, a questão do conhecimento (do seu valor e limites) é decidida pela do objecto e do seu estatuto e, por outro, a moral exige a determinação a priori da legalidade da realidade em consideração. O pragmatismo rejeita completamente este modelo e o modo como ele aponta para um conhecimento a-histórico e acontextual, sugerindo como alternativa uma concepção em que os homens são pensados sempre em comunidade, em que o conhecimento e a acção se enraízam sempre num contexto e numa forma de vida.» (Manuel Maria Carrilho, O que é filosofia, Difusão Cultural, pág. 89; a letra negrita é posta por mim).

 

 Carrilho equivoca-se liminarmente ou é, no mínimo, de grande ambiguidade, ao dizer que na teoria de Kant « a questão do conhecimento (do seu valor e limites) é decidida pela do objecto e do seu estatuto». Mas é justamente o inverso! Afinal o que é a revolução coperniciana da gnoseologia de Kant?

 

É ó facto de o sujeito deixar de gravitar em torno do objecto físico exterior, centro do mundo do conhecimento, e a situação inverter-se, isto é, o objecto físico exterior passar a gravitar «em torno da» mente do sujeito, erigida agora em centro do processo de conhecimento. É a transferência da «objectividade» do objecto «exterior» para o sujeito interior, senciente e pensante.

 

Carrilho nem sequer precisa o que se entende por objectividade. O seu discurso retórico que, a cada passo nos remete para Kant, Hegel, Habermas, Apel, Austin, Heidegger, Derrida, Marx, Nietzschze, Foucault, Lacan, é escasso em definições claras e rigorosas. Voga no pássaro da anfibologia. Leu muito, mas não meditou o suficiente, não apreendeu a esmeralda multifacetada do sentido de certas palavras. Ora, na doutrina de Kant, a objectividade é a existência de leis e formas de conhecimento (espaço e tempo sensíveis, categorias e juízos puros do entendimento) interiores ao eu do sujeito, eu que engloba o espaço e o tempo: uma cadeira, por exemplo, não é objectiva em si mesma – porque nem sequer existe como ens a se, ser por si, real – mas a sua objectividade é uma intersubjectividade, isto é, a existência de um objecto ilusório, aparentemente real, que coincide nas mentes dos diversos sujeitos porque estas têm leis internas similares. Os números, por exemplo, são objectivos, para Kant, porque residem a priori no tempo, forma pura da sensibilidade, e são conceptualizados pela categoria de quantidade  do entendimento a priori, mas a côr ocre de um tronco de árvore e a própria substância madeira do tronco não são objectivas, são criações da sensibilidade e do entendimento, timbradas de subjectividade porque, ao nível do sensível, só a extensão e a figura possuem alguma objectividade na gnoseologia de Kant.

 

A matéria não é real para Kant, é um simples fenómeno, aparência de realidade:

 

«Devíamos, contudo, lembrar que os corpos não são objectos em si, que nos estejam presentes, mas uma simples manifestação fenoménica, sabe-se lá de que objecto desconhecido.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, nota de rodapé da Pág. 363).

 

 

Carrilho, tal como Popper, Russell e o próprio Heidegger, nem sequer percebeu esta fina tese de Kant de que o objecto físico, seja uma árvore, um rio ou um animal, é produzido na sensibilidade subjectiva do sujeito, exterior ao corpo físico, e não passa de representação, isto é imagem tridimensional, que desapareceria caso a mente do sujeito cessasse. A objectividade que a teoria de Kant proclama atingir não deriva do objecto físico, como supõem Carrilho e outros, mas sim das leis necessárias imanentes à consciência percipiente e, em alguma medida, do númeno, ou objecto real metafísico, incognoscível (Deus, mundo como totalidade incondicionada, liberdade). 

 

Não é também absolutamente exacto que teoria de Kant « aponta para um modelo de conhecimento a-histórico e acontextual»: isto só é verdade em parte, no que se refere ao modo de conhecer humano, às formas a priori do conhecimento; não é verdade no que se refere à moral, dado que o imperativo categórico é formal e autónomo, varia de pessoa a pessoa, carregando o lastro da historicidade individual. 

 

 

 

Aliás, existem pontos de convergência entre a noção de objectividade de Kant e a de William James fundador do pragmatismo, isto é, um modelo parcialmente comum. Um desses pontos é o de ambos acentuarem que a indução amplificante não é uma lei objectiva inteiramente independente da mente humana mas uma construção desta no sentido de facilitar a interpretação do mundo e a manipulação ou instrumentalização das coisas físicas.

 

 

 

James escreveu:

 

«A verdade descansa, na sua maior parte, num sistema de crédito. Os nossos pensamentos e crenças "passam"  enquanto ninguém os puser à prova, do mesmo modo que passa uma nota de banco enquanto ninguém a recusar. (...)  Outra grande razão - além da economia de tempo - para renunciar a uma verificação completa nos assuntos usuais da vida, é que todas as coisas existem como géneros, e não singularmente. O nosso mundo, de uma vez por todas, teve de mostrar essa peculariedade. Assim, uma vez verificadas directamente as nossas ideias sobre o exemplar de um género consideramo-nos livres de aplicá-los a outros exemplares sem verificação.» (William James, Pragmatismo, Ediciones Folio, Barcelona, Págs. 134-135, a letra negrita é posta por mim).

 

 

 

Ora este modelo de objectivismo em James que recusa segurança absoluta, universalidade, à indução, já havia sido teorizado por David Hume e por Kant quando este escreveu:

 

« Em segundo lugar, a experiência não concede nunca aos seus juízos uma universalidade verdadeira e rigorosa, apenas universalidade suposta e comparativa (por indução) de tal modo que, em verdade, antes se deveria dizer: tanto quanto até agora nos foi dado verificar, não se encontraram excepções a esta ou àquela regra.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Introdução (B), Fundação Calouste Gulbenkian, Pág. 38).

 

 

 

Ademais, a transformação, operada por Kant, das ideias de Deus, alma imortal e liberdade em postulados da razão prática, isto é, meros princípios reguladores do comportamento humano, impossíveis de provar experiencialmente, não é, senão, pragmatismo. Kant duvidou, tal como William James, da metafísica especulativa que dá como certo haver um ente transcendente, Deus, criador e senhor do universo e dos homens. Nada disto é sublinhado por Carrilho que opõe, de forma simplista e equívoca, as noções de verdade e objectividade em Kant e no pragmatismo.

 

 

 

A escrita de Manuel Maria Carrilho prima por um certo «impressionismo» filosófico, um estilo retórico feito de muitas pinceladas superficiais, onde está ausente, não poucas vezes, a clareza do verdadeiro pensamento filosófico que, contudo, existe na imensa maioria dos textos de Kant e de William James.  

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Domingo, 4 de Maio de 2008
Erros teóricos em "A Arte de Pensar, Filosofia 11º ano" (Crítica de Manuais Escolares -XXVII)

O manual português " A arte de pensar" para o 11º ano de Filosofia, da Didáctica Editora,  tem os seus méritos e deméritos. Entre estes, avulta uma característica ideológica que percorre todo o manual: o seu antimarxismo e a censura que objectivamente faz sobre as filosofias de esquerda (marxismo, anarquismo, internacional situacionismo, parte do surrealismo, grande parte do ecologismo, etc) e as críticas destas à sociedade capitalista, ao conceito e ao ritmo de desenvolvimento tecnocrático-industrial e à ciência como expressão ideológica e política das classes dominantes.

Encontra-se algum texto de Marx, neste manual, que contenha a crítica à alienação política, económica, social e cultural dos trabalhadores sob a dominação capitalista e pré-capitalista? Encontra-se algum texto de Paul Feyerabend criticando a medicina alopática (química) erigida em "verdade única" no sistema de saúde, a arrogância dos físicos galardoados com o Nobel ao recusar discutir a influência possível dos astros na vida humana com os defensores da Astrologia?

Há milhares de textos excelentes para despertar a verve filosófica dos alunos na área da crítica da ciência, da ideologia dominante e do modelo social vigente- de Guy Debord, de Marx e Engels, de Paul Feyereband, de Michael Foucault, de Jean Baudrillard, etc- dos quais nem um só é citado pela "Arte de Pensar". Politicamente, este manual convém ao CDS, ao PSD e à ala direita do PS - e não se pense que estamos a exagerar, porque a política está subjacente aos programas de filosofia aprovados pelo ministério, aos manuais e seus autores. Só quem fôr ingénuo atendo-se ao lema de que "filosofia não tem a ver com política" discordará de nós.

 A  filosofia não serve essencialmente para transmitir a lógica proposicional que, por si mesma, é incapaz de ensinar a pensar correctamente. Serve para pensar em todos os domínios e ajudar a transformar o mundo ou, pelo menos, o indivíduo.

UMA VISÃO INCORRECTA DO QUE É O PRAGMATISMO

Um exemplo de confusão neste manual é o conceito que têm de pragmatismo e a crítica a esta teoria:

«Críticas à teoria pragmatista

1. Verdade e utilidade nem sempre se conjugam. Há acções baseadas em crenças verdadeiras que são manifestamente prejudiciais e acções baseadas em crenças falsas que, por acaso ou não, proporcionam resultados desejáveis. Além disso, do facto de ser frequentemente útil adoptar ideias verdadeiras, não se segue que elas sejam verdadeiras por serem úteis. Pelo contrário, parece que só podem ser úteis precisamente por serem verdadeiras.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Didáctica Editora, pag 266; o bold é nosso).

Está presente aqui uma deturpação do conceito de pragmatismo, reduzindo-o à identidade verdade-utilidade. Ora para o pragmatismo, a verdade não engloba apenas utilidade empíricamente provada mas também a inutilidade empiricamente comprovada. Exemplo: muitos pragmatistas nunca concordaram com a "utilidade" definida pelo governo de Truman, dos EUA, de lançar duas bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasáqui, em 6 e 9 de Agosto de 1945; no entanto, aceitaram como verdadeiros esses factos, não só inúteis como terrivelmente nefastos para o povo japonês e a humanidade em geral.

Nunca os pragmatistas afirmaram que as ideias úteis se tornam ou são necessariamente verdadeiras. Se assim fosse, a metafísica religiosa, útil para a tranquilidade de milhões de pessoas, seria verdadeira, o que William James negou, colocando-a sob a cortina de nevoeiro do cepticismo.

O manual "A arte de pensar" obscurece ou ignora a faceta empírica do pragmatismo, destacando a faceta utilitarista ( que não é o mesmo que a empírica). Não compreendeu, pois, o que é o pragmatismo.

William James escreveu:

«El pragmatismo representa una actitud perfectamente familiar en filosofía, la actitud empírica; pero la representa, a mi parecer, de un modo más radical y en una forma menos objetable. (...) Se aleja de abstracciones e insuficiencias, de soluciones verbales, de malas razones a priori, de principios inmutables, de sistemas cerrados y pretendidos "absolutos" y "orígenes". Se vuelve hacia lo concreto y adecuado, hacia los hechos, hacia la acción y el poder. Esto significa el predominio del temperamento empirista y el abandono de la actitud racionalista. Significa el aire libre y las posibilidades de la Naturaleza contra los dogmas, lo artificial y la pretensión de una finalidad en la verad.» (William James, Pragmatismo, Folio, pag 49).

Não há aqui nenhuma identificação entre utilidade e verdade, tese não pragmatista contra a qual a "Arte de Pensar" esgrime lanças.

PRAGMATISMO CONDUZ AO RELATIVISMO (ANEXO A CEPTICISMO)?

E prossegue o manual "A arte de pensar":

«2. Conduz ao relativismo. O pragmatismo implica o relativismo, na medida em que, para algumas pessoas, pode ser útil acreditar numa coisa e, para outras pessoas, pode não ser útil acreditar nessa mesma coisa. Nesse caso, o que é verdade para uns pode ser falso para outros, o que não é fácil de explicar.» (Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Didáctica Editora, pag 266; o bold é nosso).

O pragmatismo implica o relativismo? Não necessariamente. O método pragmatista, isto é, da análise do mundo empírico e definição de soluções práticas, é compatível com o absolutismo de valores. Oliveira Salazar, por exemplo, era um político pragmático, movia o xadrez da sua política sem metafísica - é duvidoso que acreditasse em Deus, apesar do seu passado como dirigente do Centro Académico de Democracia-Cristã em Coimbra, na 1ª República Portuguesa - mas tinha valores absolutistas (para ele, «o bem corporiza-se nos regimes monárquicos ditatoriais, ou republicanos fascistas e o mal encarna nos regimes de democracia liberal ou de ditadura comunista ou anarquista e nos antitradicionalistas em geral»).

Seria, aliás, de precisar o que os autores de "A arte de Pensar" entendem por relativismo. E, já o sabemos de "A arte de pensar, 10º ano de Filosofia" , concebem relativismo como a teoria que sustenta que, uma vez que há diferentes posições sobre a mesma matéria (casamento, divórcio, religião, política, etc), todas valem o mesmo. Hilary Putnam, Richard Rorty e outros "notáveis filósofos" caem no poço do mesmo erro: definem relativismo desembocando em cepticismo... Ora há um relativismo em que todas as teorias têm diferentes valores entre si, o que os autores de "A arte de pensar" ignoram.

A frase: «o que é verdade para uns pode não ser verdade para outros, o que não é fácil de explicar" é de uma candura pré-filosófica tal que faz sorrir. Qualquer pessoa intui que os homens estão envolvidos em redes sociais que os opõem uns aos outros e que a "verdade dos "vencedores não é a "verdade dos vencidos"...

O PRAGMATISMO NÃO É UMA TEORIA SOBRE A NATUREZA DA VERDADE?

Terceira frágil crítica de "A arte de pensar" ao pragmatismo:

«3. Não é uma teoria àcerca da natureza da verdade. A teoria pragmatista não chega realmente a explicar-nos o que é a verdade, limitando-se apenas a indicar o que é verdadeiro. Por exemplo, apercebemo-nos que estamos perto de uma escola quando vemos crianças com pastas e mochilas, mas isso não quer dizer que "escola" signifique "local em que se podem ver crianças com pastas e mochilas». Ora, indicar o que é verdadeiro, sem nos esclarecer acerca da natureza da verdade é confundir o modo de descoberta da verdade - domínio da epistemologia - com a verdade - domínio da metafísica.(Aires Almeida, Célia Teixeira, Desidério Murcho, Paula Mateus, Pedro Galvão, A arte de pensar, Filosofia 11º ano, Didáctica Editora, pag 266; o bold é nosso).

É um erro dizer que o pragmatismo não é uma teoria sobre a verdade. É, de facto, uma teoria sobre o lado empírico da verdade, da verdade para nós, da manifestação sensorial e  observável desta. O pragmatismo opta pela «verdade do lado de cá, visível» em detrimento da «verdade do lado de lá, invisível».

Ademais, a epistemologia não é meramente um modo de descoberta da verdade - é a verdade nos quadros da ciência - e tão pouco a verdade (em geral) é domínio da metafísica, mas sim a verdade última, profunda.

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