Domingo, 18 de Setembro de 2011
Schopenhauer: tudo é belo enquanto não interferir connosco

 

A tese de Schopenhauer sobre a beleza  das coisas consiste em que esta só existe enquanto o ser humano possui uma relação impessoal, distanciada, desprendida, com essas mesmas coisas. Neste ponto, coincide com a estética de Kant: o desinteresse é a mola propulsora da apreensão do belo. Escreveu o filósofo alemão:

 

«Ao jovem, cujo intelecto intuitivo actua ainda com uma fresca energia, a natureza apresenta-se-lhe, amiúde, com uma completa objectividade e, por isso, com perfeita beleza. Mas o prazer dessa visão é perturbado às vezes pela entristecedora reflexão de que os objectos que tão belos se lhe apresentam não têm uma relação pessoal com ele em virtude da qual pudesse interessar-se ou alegrar-se com eles: com efeito, ele espera que a sua vida tenha a forma de uma interessante novela.»

(...)Tudo é belo enquanto não interferir connosco (Não falamos aqui da paixão amorosa mas do prazer estético). A vida nunca é bela, só o são as imagens da vida no espelho da arte ou da poesia que a transfigura; sobretudo na juventude, quando ainda não a conhecemos. » (Arthur Schopenhauer, El mundo como voluntad y representación, Complementos, pag 420-421, Editorial Trotta, Madrid)

 

 Isto exprime e reforça a teoria do distanciamento físico e, sobretudo, económico-laboral-comercial como base para a fruição da beleza: ao longe e não utilitário  é belo, ao perto, ao pormenor e utilitário é feio, quase poderia dizer-se.

 As relações de dominação, de extracção de lucro sobre certas coisas, de vizinhança permanente, diminuem ou fazem desaparecer a intuição do belo nessas coisas: operários que fabricam alheiras ou hamburgers não acharão, provavelmente, belos estes alimentos, ao contrário dos clientes de restaurantes que solicitam pratos com esses alimentos.  

 

 

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Sábado, 17 de Setembro de 2011
Schopenhauer: a matéria não é um «em si», é a «visibilidade da vontade»

 

Schopenhauer, (22 de Fevereiro de 1788- 21 de Setembro de 1860), filósofo idealista volitivo, rejeitou o materialismo e «o naturalismo que o originou ». Segundo ele, o mundo físico é um conjunto de ideias e imagens produzidas pelo nosso eu. Mas, ao contrário de Kant, que acentua o carácter ontológico (númeno) e imaginativo-lógico (formas a priori) da génese do conhecimento,  Schopenhauer sublinha o carácter volitivo ou bulesiológico do conhecimento (este deriva da vontade de viver).  Escreveu:

 

«A iniludível falsidade do materialismo consiste antes de tudo em que parte de uma petitio principii que, examinada mais de perto, se mostra inclusive como uma protón pseudos (primeiro erro)  a saber: a suposição de que a matéria é algo estrita e incondicionalmente dado que existe independentemente do conhecimento do sujeito, ou seja, propriamente uma coisa em si. O materialismo atribui à matéria (e com ela também aos seus pressupostos, o tempo e o espaço) uma existência absoluta, quer dizer, independente do sujeito que a percebe: este é o seu erro fundamental.» (Arthur Schopenhauer, El mundo como voluntad y representación, Complementos, pag 356, Editorial Trotta, Madrid; a ltra negrita é posta por mim).

 

«Pois na realidade a matéria não é, para o nosso conhecimento mais do que o veículo das qualidades e forças naturais que se apresentam como seus acidentes; e precisamente porque reduzi estes à vontade, é que chamo à matéria a mera visibilidade da vontade. Mas, despojada de todas essas qualidades, a matéria fica algo sem propriedades, no caput mortuum da natureza com o que honradamente nada há a fazer.» (ibid, pag 359; o negrito é colocado por mim).

 

Note-se que esta vontade em Schopenhauer não é a vontade livre associada ao livre-arbítrio mas uma vontade inconsciente da natureza inerente ao eu, uma força imperiosa ou necessária, que age dentro do eu englobante do universo. A vontade cria o mundo visível, audível e palpável. Por isso, Schopenhauer denomina a matéria que compõe o mundo de "visibilidade da vontade". Fazemos parte e estamos submetidos a essa Vontade de viver, verdadeira máquina de filmar-projectar que inventa e projecta na tela dos nossos sentidos o filme imaginário de um mundo que não é real, com a sua Nova Iorque, a sua Londres, a sua Amazónia, os seus cinco continentes terrestres, a galáxia e o resto do universo. A filosofia de Schopenhauer é um vitalismo idealista, não um materialismo, versão do género realismo,nem um ideomaterialismo tipo doutrina de Hegel.

 

A SUPERIORIDADE DO IDEALISMO, DA AUTOCONSCIÊNCIA, SOBRE O MATERIALISMO ENTENDIDO COMO REALISMO

 

E acentuando a sua matriz idealista - o mundo é ideia dentro da minha enorme mente, nasce e permanece nesta - Schopenhauer referindo-se à filosofia escreve:

 

«...Demonstrei a insuficiência do materialismo, enquanto é, como ali se disse, a filosofia de um sujeito que, nas suas contas se esquece de si mesmo. Mas todas estas verdades se baseiam em que tudo o que é objectivo, tudo o que é externo, ao ser sempre meramente percebido ou conhecido, continua a ser algo mediato ou secundário, pelo que nunca pode converter-se na razão explicativa última das coisas ou no ponto de partida da filosofia. Esta exige necessariamente como ponto de começo o estritamente imediato: mas só é tal o dado à autoconsciência, o interno, o subjectivo. Daí que seja um mérito tão eminente de Descartes o ter sido o primeiro em tomar a autoconsciência como ponto de partida da filosofia. Por esse caminho prosseguiram a partir de então, cada um à sua maneira, os autênticos filósofos, antes de todos Locke, Berkeley e Kant; e como resultado das suas investigações cheguei eu a ter o cuidado e a servir-me, não de um mas dos dois diferentes dados de conhecimento imediato que há na autoconsciência: a representação e a vontade, a aplicação de ambas em combinação permite avançar em filosofia tanto como quando em um problema algébrico se dão duas magnitudes conhecidas em lugar de uma.» (Schopenhauer, ibid, pag 356; o negrito é posto por mim).

 

 

Sem dúvida, Schopenhauer utiliza o termo materialismo não no sentido de ateísmo e protologia da matéria no universo mas no sentido de realismo, exterioridade da matéria a uma e a todas as mentes humanas.

 

AMBIGUIDADE NO SENTIDO DADO AO TERMO «MATERIALISMO» E REDUÇÃO DESTE A ATOMISMO

 

E acusa o materialismo de desembocar em atomismo, com o argumento algo paradoxal de que ignora por completo o intelecto:

 

«Mas o materialismo ignora por completo o intelecto como condição de todo o objecto e do conjunto dos fenómenos. A sua intenção é reduzir todo o qualitativo ao meramente quantitativo, incluindo as qualidades dentro da mera forma em oposição à verdadeira matéria: de esta só admite, dentro das qualidades empíricas, o peso, posto que já aparece em si mesmo como algo quantitativo, como a única medida da quantidade de matéria. Esse caminho condu-lo necessariamente à ficção dos átomos, que se convertem no material com que pensa construir as enigmáticas manifestações de todas as forças originárias.» (ibid, pag 357; o negrito é posto por mim)

 

Este materialismo atomista, quase insubstancialista, de que Schopenhauer fala é um realismo crítico, que faz das cores, sons, cheiros, sabores percepções subjectivas do sujeito e não qualidades objectivas exteriores. É obtido, ao contrário do que sugere o filósofo alemão, através do exercício do intelecto - razão e imaginação - contra os dados empíricos. Aproxima-se, pois, do idealismo. Dizer que o materialismo ignora por completo o intelecto não é adequado. Não posso concordar com Schopenhauer neste ponto

 

. Além disso, a concepção atomista - a matéria é composta de átomos, elementos infinitamente pequenos que giram no vazio e se combinam entre si - não é necessariamente uma concepção materialista (no sentido de realista, isto é matéria fora das mentes humanas). O idealismo (no sentido de imaterialismo, isto é, a matéria não é um em si fora das mentes humanas) é compatível com o atomismo.

 

 

 

 

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Domingo, 5 de Agosto de 2007
Filósofos e professores de Filosofia, na óptica de Schopenhauer

Schopenhauer sustenta que os catedráticos de filosofia não são, em regra, autênticos filósofos porque estão obrigados a representar o papel de «sábios», com respostas para tudo, e isso impede-os de levar a cabo a investigação livre da verdadeira filosofia, desprendida de interesses económicos e de prestígios institucionais:

 

 «Descobrimos aqui em primeiro lugar que, desde sempre, muito poucos foram os filósofos que foram também professores de filosofia e, proporcionalmente, ainda menos os professores de filosofia que foram também filósofos. Podíamos dizer por consequência que, do mesmo modo que os corpos idioeléctricos não são condutores de electricidade, os filósofos não são professores de filosofia. Em verdade, para o que pensa por si mesmo esta tarefa estorva-o mais do que qualquer outra. Pois a cátedra de filosofia é de certo modo um confessionário público, onde um faz a sua profissão de fé coram populo (em presença do povo). Ademais, em ordem à aquisição autêntica de uma compreensão fundamental e profunda, quer dizer, em ordem a chegar a ser de verdade sábio, quase não há nada que seja mais contraproducente que a obrigação perpétua de parecer sábio, esse alardear de supostos conhecimentos ante uns alunos ávidos de aprender, esse ter à mão respostas para todas as perguntas imagináveis» (Arthur Schopenhauer, Sobre la Filosofía de Universidad, Editorial Tecnos, Madrid, pag. 46-47).

 

E mostra que há uma rede de solidariedades pessoais entre os professores catedráticos e os agregados que cria um corrupto aparelho de propaganda de prestígios e índices de saber aparente:

 

«Con los filósofos académicos de nuestros días las cosas van sin duda más aprisa. No tienen tiempo que perder: es suficiente que un profesor cualquiera proclame, ante los colegas importantes de la universidad más próxima, que la doctrina de su compañero constituye la culminación de la sabiduría humana, finalmente lograda. Enseguida se convertirá en un grande filósofo, pasando a ocupar sin más preámbulos el lugar que le corresponde en la historia de la filosofía, es decir, en la que un tercer colega está preparando para la próxima exposición» (Schopenhauer, ibid, pag 63)

 

O que vale o saber universitário institucional dos catedráticos, agregados e outros? Muito menos do que aquilo que aparenta. A entrada para o cargo de catedrático faz-se por cooptação: são os poucos que já lá estão que decidem sobre o valor da tese de doutoramento e, em regra, não permitirão que esta derrube as torres de prestígio que construiram para si mesmos...

 

Aliás, não são os melhores professores de filosofia quem faz os programas de filosofia, os testes nacionais de exame, os manuais. São aqueles que, mercê do seu activismo teórico  - em muitos casos marcado por inépcia - e da sua capacidade de promoção mediática - ora porque se constituiram em associação ou sociedade de professores de filosofia, ora porque contactaram na hora certa o editor X ou Y ou o funcionário do Ministério da Educação ligado ao Departamento de programas ou de avaliação de exames - conseguem conquistar lugares-chave. E em Portugal, um país de clientelas seculares, onde a «cunha» e o telefonema simpático que abre uma porta do poder ao "esperto" são comuns, mais se acentua o triunfo dos incompetentes que passam por «filósofos inovadores».

 

Como obstar a isto? É quase impossível. Só através de um largo movimento de crítica pensante, que inclui a publicação em papel ou na internet de numerosos artigos mostrando as falácias e insuficiências teóricas dos autores dos programas, manuais e exames nacionais de filosofia, é possível reduzir ou mesmo apagar a deletéria influência dos medíocres e dos pseudo-pensadores (licenciados, mestres e doutores) que, pretensamente críticos e organizados em rede, possuem no número vasto dos seus adeptos e iniciativas «filosóficas» a arma para triunfarem socialmente.

 

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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2007
A História da Filosofia no Ensino da Filosofia

Desde há mais de uma década, procura impor-se, em Portugal como noutros países do mundo, uma corrente revisionista do ensino da filosofia que visa expurgar deste ou reduzir nele a uma ínfima dimensão, a história da filosofia. Desidério Murcho, um dos arautos desta corrente, escreveu no seu blog «www.pensologosou.no.sapo.pt» um artigo «O que é a Filosofia?» no qual diz o seguinte:

 

«Nas nossas escolas confunde-se filosofia com história da filosofia e esta última com história das ideias. Uma vez mais, esta confusão parece resultar da ideia de que a filosofia "morreu"; logo, só resta fazer a sua história. Isto é de tal forma subterrâneo que as pessoas não sabem distinguir filosofia de história da filosofia, havendo até quem afirme, com sabor a Hegel, que a filosofia consiste na sua história. É impressionante a quantidade de coisas que se inventam para fugir à filosofia; parece que a filosofia incomoda muita gente.

«A filosofia ocupa-se de problemas, teorias e argumentos. A história da filosofia não se ocupa do estudo dos problemas, teorias e argumentos da filosofia, a não ser como meio e não como fim em si. Para um estudante de filosofia, a história da filosofia é um meio para compreender melhor o que determinado filósofo queria realmente dizer; para compreender melhor determinado problema, teoria ou argumento. Mas é apenas um meio. O fim é perguntar-se se o filósofo tem razão, depois de ter compreendido o que ele queria dizer. Haverá boas razões para pensar que sim? Ou melhores razões para pensar que não? Estudar filosofia é aprender a pensar pela sua própria cabeça nos grandes problemas e argumentos da filosofia, e ter uma atitude crítica em relação às grandes teorias que os filósofos inventaram para tentar resolver esses problemas. » (Desidério Murcho; o negrito é da nossa autoria).

 

 

Desmontemos alguns dos sofismas do pseudopensador Desidério:

 

1) Desidério Murcho opõe, sofisticamente, filosofia a história da filosofia. Segundo ele, ensinar, por exemplo, que Platão sustentava a existência de três mundos - o dos Arquétipos ou do Mesmo; o do Tempo, dos Números Móveis e dos movimentos planetários ou do Semelhante; o da Matéria Física ou do Outro- é «fazer história da Filosofia, mas não filosofia». Destituído da racionalidade holística que é apanágio dos verdadeiros filósofos, Desidério Murcho não compreende sequer que a história da Filosofia é uma exposição de raciocínios e teses de filosofias geradas pelos filósofos A,B,C,D, e que, portanto, é, na sua essência, filosofia ou um mosaico de filosofias.

 

Pode não ser a filosofia que o aluno deseje mas é filosofia. Pela parte que me toca, na qualidade de professor de Filosofia no ensino secundário, exponho, em regra, aos meus alunos do 11º ano, as bases da teoria de Platão dos três mundos, e da teoria de Pitágoras dos quatro números figuras (um, o ponto; dois, a recta; três, o plano; quatro, o sólido), isto é, dou história da filosofia, que é, simultaneamente, filosofia. Mas não me cinjo a perguntas de memorização nos testes. Elaboro perguntas filosóficas - como por exemplo: Relacione o papel do número nas teorias de Platão e Pitágoras - a partir das quais emergem os alunos criativos e genuinamente filosóficos e toda a turma é solicitada à reflexão filosófica.

 

A concepção dialéctica é isto: a história da filosofia contém em certa medida o seu contrário, a filosofia, e viceversa.

Os professores que, seguindo Desidério Murcho e os apologistas do vácuo filosófico, não dão teses da história da filosofia e tentam apagar esta em nome da «liberdade de filosofar» conduzem, em regra, os alunos ao analfabetismo filosófico. Abolir a história da filosofia do ensino da filosofia é regressar à idade das cavernas.

 

É como se os arquitectos do século XXI decidissem derrubar o templo de Diana de Évora, o Mosteiro dos Jerónimos, as catedrais góticas, o Alhambra de Granada e todos os monumentos clássicos do mundo inteiro em nome da liberdade de «descobrir e criar a verdadeira arquitectura». Se as diversas ciências fizessem o mesmo, isto é, se a física não ensinasse as leis de Boyle e Gay-Lussac, a lei da gravitação universal de Newton, o modelo de átomo de Bohr, que aprenderiam os alunos, como se desenvolveriam intelectualmente em tempo útil nas escolas?

 

2) Não há contradição nenhuma entre ensinar filosofia e ensinar história da filosofia - a não ser, claro, nas mentes confusas de Desidério Murcho e do seu grupo de «iluminados». O ensino da filosofia compõe-se de duas vertentes: história da filosofia (ou história das ideias filosóficas, que é o mesmo) e heurística (arte de pensar e descobrir a verdade por si mesmo). Os professores inteligentes e competentes sabem combinar estas duas vertentes nas suas aulas (a tradição e a criação inovadora). A história da filosofia está dentro da filosofia embora não esgote a extensão desta. Não são mutuamente extrínsecas entre si.

 

Ao invés do que sugere Desidério, estudar as ideias de Platão, Guilherme de Ockam, Nicolau de Cusa, Leibniz ou Schopenhauer não impede ninguém de filosofar, de pensar pela sua própria cabeça, antes pelo contrário, estimula a verve filosófica de cada aluno. Existe o risco da memorização na avaliação? Sim, mas a memória é necessária à inteligência criativa e não é má, em si mesma. Há um risco ainda maior nos que optam por abolir a tradição filosófica: o do vacuismo anti historicista e conteudal, susceptível de produzir alunos «livres» e ignorantes, porque não solicitados aos desafios do pensamento consagrado historicamente.

 

Aristóteles escreveu, por exemplo:

´

«O agora é a continuidade do tempo, como já dissemos, pois enlaça o tempo passado com o tempo futuro e é o limite do tempo, já que é começo de um tempo e fim de outro. Mas isto não é evidente como é o ponto, que permanece. O agora divide potencialmente, e enquanto divide é sempre distinto, mas enquanto une é sempre o mesmo, como no caso das linhas matemáticas. Porque no pensamento o ponto nem sempre é uno e o mesmo...»  (Aristóteles, Física Livro IV, 222 a)

É antifilosófico estudar isto? De que tem medo Desidério Murcho, senão do pensamento profundo de Aristóteles que o ultrapassa infinitamente, como ultrapassa a grande maioria dos catedráticos de filosofia contemporâneos?

 

3) Não é verdade que a história da filosofia seja apenas um meio para os estudantes compreenderem os problemas filosóficos. É um meio e também um fim porque há correntes - lembro o estruturalismo - que recusam dissociar o conteúdo filosófico do contexto social, político, cultural e religioso em que foi gerado. É também um fim do ensino da Filosofia saber, por exemplo, que o «cogito» de Descartes foi formulado no século XVII no contexto da Contra Reforma e que o «imperativo categórico» de Kant se estruturou nos alvores da revolução burguesa em França de 1789-1795.

 

Só um pseudopensador antidialéctico como Desidério Murcho, que reduz a slogans superficiais e populistas a sua crítica à filosofia genuína, opõe filosofia a história da filosofia. Separa a reflexão, atitude por excelência filosófica, do seu conteúdo ou produto, tal como Descartes separou o cogito (EU PENSANTE) das ideias pensadas. Mecanicismo...

 

O sofisma de Desidério formula-se assim:

 

«A história da filosofia não é filosofia».

«Os professores do secundário ensinam, em regra, história da filosofia,

«Logo, os professores do secundário não ensinam filosofia».

 

E refuta-se deste modo:

 

«A história da filosofia é, em parte não filosofia (história) e em parte filosofia.»

«Os professores do secundário ensinam história da filosofia».

«Os professores do secundário ensinam filosofia, sobretudo aqueles que insistem na heurística adicionada à transmissão da filosofia tradicional».

 

Desidério não é um pensador genuíno, profundo, ainda que a sua produção de artigos, livros e entrevistas seja abundante e o seu trabalho como tradutor de livros de filosofia seja notável. De facto, é um sofista "analítico", um antifilósofo cujas teses e artigos são abundantes em paralogismos que temos posto a nú noutros artigos deste blog. Quase reduz a filosofia à argumentação retórica, não compreendendo sequer que há uma vertente de rigor científico no interior da filosofia que ele não domina e teme - daí o seu «ódio» ao hegelianismo e ao positivismo e a outras correntes.

 

No entanto, o seu activismo jornalístico de homem do marketing «filosófico» - escreve um pouco de tudo em toda a parte, com a insustentável leveza do «não ser» dos cronistas sociais, aproveita o elogio do Eduardo Prado Coelho, ou de outro catedrático, a amizade de editores de filosofia com fraco critério de qualidade para espalhar, em livros, artigos de jornais e revista, as «suas» teses- conferiram-lhe uma projecção que o elevará ao doutoramento no Kingston College ou no Brasil («para inglês e brasileiro ver»).

 

Assim, se somará a uma plêiade de catedráticos mais ou menos incompetentes e arrogantes, «bispos» da igreja «filosófica» que se consubstancia nas cátedras de filosofia institucional em Portugal, Reino Unido e noutros países.

Enquanto nós, talvez os genuínos filósofos, meditamos e produzimos teses, na sombra da pirâmide do conhecimento, sem a vertigem do sucesso fácil a que Desidério acedeu.

 

Nota: Por muito que pareça o contrário, a nossa crítica a Desidério Murcho não é de carácter pessoal. Ele é  decerto, uma pessoa estimável, melhor que muitos catedráticos de Filosofia entronizados nas suas vaidades. Criticamos, sim, as suas ideias e o modelo de Universidade que representa.

 

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