Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012
Crítica de Aristóteles a Platão: o Relativo não é uma Forma, uma Substância separada

 

Em «Metafísica», livro de oiro da filosofia, Aristóteles critica a doutrina platónica do Uno e da Díade do Grande e do Pequeno como princípios geradores dos entes. Escreveu:

 

«Os que põem o Desigual como algo uno e constituem a Díada Indefinida a partir do Grande e do Pequeno dizem coisas demasiado afastadas do comunmente admitido e do possível. Sucede que essas coisas, melhor do que sujeitos, são afeções e acidentes dos números e do tamanho - o Muito e o Pouco do número, o Grande e Pequeno do tamanho - do mesmo modo que Par e Ímpar, Liso e Rugoso, Recto e Curvo. A este erro há que somar que Grande e Pequeno e todas as coisas que são tal, são necessariamente termos relativos. Ora bem, o relativo é, de todas as categorias, a que tem natureza e substância em muito menor grau, e é posterior à qualidade e à quantidade. E, como se disse, a relação é uma afeção da quantidade, mas não matéria, já que outra coisa é a matéria que serve de substrato tanto ao relativo em geral como às suas partes e espécies» ( Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1088a, 15-25; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

No fundo, Aristóteles critica Platão não só por teorizar uma região de essências aparte - o mundo Inteligível, acima do céu visível - mas também por não hierarquizar, em termos de anterioridade e posterioridade, a essência- substância (exemplo: a árvore) como anterior à essência- acidente (exemplo: o belo) no mundo dos arquétipos.  Platão coloca o arquétipo de Belo como anterior ao arquétipo de Árvore, ressalvando que em algum dos seus textos coloca em dúvida a existência da forma arquetípica árvore, e Aristóteles faz o inverso: coloca a essência ou forma eterna de Árvore como anterior à qualidade de Belo que apenas surge nas coisas belas. Aristóteles considera o mundo platónico das essências uma abstração onde as formas aparecem desarticuladas entre si, todas num mesmo plano,  como as peças de Lego que servem para construir uma casa. No pensamento aristotélico, o relativo não é sequer uma substância (ousía) uma forma substancial,  e esta é, em princípio, anterior ao acidente.

 

Aristóteles hipostasiou as Ideias de Platão nos próprios objectos sensíveis da matéria, ao passo que Platão hiperestasiou a essência e os acidentes dos objectos sensíveis num mundo inteligível, situado acima do céu visível.

 

Aristóteles opôs-se à ontogénese matemática definida por Platão:

 

«Desde logo, nem a Díada Indefinida nem o Grande e o Pequeno ´são causas de que haja dois «brancos», o de que haja muitas cores, sabores e figuras. Mas em tal caso, essas coisas seriam também números e unidades. » (..)

«Este erro é causa também de que, ao buscar o oposto de O que é e do Uno (de aquele e deste proviriam as coisas que são) propuseram o Relativo e o Desigual, que não é nem o contrário nem a negação de eles, mas é uma das coisas que são, uma natureza particular como o quê e a qualidade. E isto haveria também que investigar, como os relativos são muitos e não só um.» (Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1089a, 35/ 1089b, 1-5; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 Por lacuna parcelar de pensamento dialético, Aristóteles coloca o relativo fora da oposição uno-múltiplo, ignorando que o relativo engloba o uno e o múltiplo, e é portanto o uno e o seu contrário, uma determinação holística. Continuando a referir-se aos platónicos, escreveu Aristóteles:

 

«E falam de mais espécies ainda do Relativo. Qual é, então, a causa de que estas sejam muitas? Assim, pois, é necessário, como dizíamos, estabelecer aquilo que é potência a respeito de cada tipo de realidade ( o que propôs esta teoria explicou o que é potencialmente um isto (tóde tí) e uma substância, sem sê-lo por si mesmo, dizendo que tal coisa é o Relativo; ao mesmo teria podido ocorrer dizer que tal coisa é a qualidade, a qual nem é potencialmente o Uno nem O que é, nem é tampouco negação do Uno e de O que é, mas uma, em particular das coisas que são) e muito mais ainda, como se disse, se se trata de  investigar como são muitas as coisas que são, e não de investigar, dentro da mesma categoria, como é que são muitas as substâncias, ou muitas as qualidades, mas como é que são muitas as coisas que são». (Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1089, 15-20, )

 

É contestável o que Aristóteles aqui escreveu. A identificação de Uno com O que é permanece equívoca, constitui um dos calcanhares de Aquiles da «Metafísica» de Aristóteles: o Múltiplo é, tanto como o Uno, o que é. Esta é a visão dialética que sustento: não há uno sem múltiplo, ambos são em igual grau. O relativo abarca uno e múltiplo: os contrários são relativos entre si, os contraditórios são relativos entre si, o que Aristóteles não soube equacionar correctamente no Livro X da Metafísica, uma vez que classificou os relativos como uma espécie extrínsexca às espécies contraditórios e contrários.  Por que razão a Qualidade é uma das coisas do Uno? Não é o Uno uma Qualidade? De acordo com a filosofia aristotélica o uno ou é substância, ou é acidente, e neste último caso, será Qualidade, Quantidade ou Relação ou as três coisas ao mesmo tempo.

 

Diga-se o que se disser, a «Metafísica» de Aristóteles é um livro mais importante que «Ser e Tempo» de Heidegger ou de que «O Ser e o Nada» de Sartre. Aristóteles é muito mais preciso nos pormenores de definição, do polimento das faces do "diamante" do ser, o diamante ontológico, que a generalidade dos filósofos posteriores.

 

 

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Quarta-feira, 14 de Março de 2012
Dois testes de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal (final do 2º período)

 

Eis dois testes de filosofia do 10º ano de escolaridade em Portugal, nos moldes que preconizo para desenvolver a capacidade filosófica dos alunos, fazer deles seres cultos e raciocinantes. Não tem perguntas de resposta quádrupla em cruz que, normalmente, abundam nos testes dos professores de filosofia de nível mediano ou medíocre que se recusam a pensar ou são incapazes de pôr os seus alunos a pensar em profundidade. Respostas de cruz a perguntas de escolha múltipla em testes de filosofia é sinal de anti-filosofia ou pseudofilosofia, unidimensionalidade do pensamento, em regra.

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA D

 

Março de 2012,   Professor: Francisco Queiroz              

 

I

 

“A filosofia hermética dos construtores aplicava, na construção das catedrais da idade média, o princípio do microcosmos- macrocosmos que é, de certo modo, um princípio metafísico. A ascese em Platão, a noese e a dianóia ligam-se ao racionalismo mas a epithimia liga-se ao empirismo. A epochê dos estóicos visa atingir a ataraxia e tem semelhanças com a ética do taoísmo. Thomas Hobbes tinha uma visão do estado de natureza diferente daquela que tinha John Locke, e por isso o contratualismo de Hobbes é distinto do de John Locke e um destes dois liga-se ao iluminismo».

 

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

 

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A) Valores ético-políticos das esquerdas e das direitas, liberdade e igualdade económica.

 

B) Determinismo com livre-arbítrio e fatalismo.

 

C) Princípio da maior felicidade em Stuart Mill e empirismo.

 

D) Propriedade privada das empresas e autogestão operária, por um lado, e liberalismo, comunismo leninista e anarquismo, por outro lado.

 

E) Imperativo categórico e imperativo hipotético em Kant e dualismo antropológico no estoicismo.

 

F) Uno e múltiplo, por um lado, conceito e percepção empírica, por outro.

 

  

 

CORREÇÃO DO TESTE ( COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A filosofia hermética, isto é, esotérica, inspirada em princípios metafísicos secretos atribuídos a Hermes Trimegistus, dos arquitetos das catedrais medievais incluía o princípio de que o microcosmos (pequeno universo; por exemplo, uma montanha, uma igreja) era o espelho do macrocosmos (grande universo: o céu com as estrelas, as galáxias). Assim, os templários erguiam os seus castelos de modo a que a planta arquitetónica destes imitasse o desenho da constelação do Boeiro ou de outras constelações celestes. A catedral medieval - como vimos na visita de estudo a Sevilha - é um microcosmos que imita o imaginário corpo cósmico de Cristo de braços abertos: a abside representava a cabeça de Cristo e deveria estar voltada a Oriente, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo; o transepto representava os braços abertos de Cristo e o altar o coração; as naves, central e lateral, o tronco e as pernas de Cristo. O princípio da correspondência entre o superior e o inferior é metafísico porque se apreende por intuição noética, não pelos orgãos sensoriais (ESTAS QUATRO FRASES ANTERIORES VALEM DOIS VALORES). A ascese em Platão, ou seja, ascensão da alma racional ao inteligível, mediante a filosofia, a matemática e a música, desligando-se da matéria, a noese ou apreensão direta dos arquétipos de Bem, Belo e outros e a dianóia ou raciocínio demonstrativo são formas de racionalismo, doutrina que diz que a razão e os seus raciocínios é a fonte do conhecimento e da verdade, negando ou desvalorizando as sensações, ao passo que a epithimia ou parte inferior da alma localizada no ventre e baixo-ventre (desejos de comer, beber, possuir riquezas materiais, etc) se liga ao empirismo, doutrina que afirma que a grande fonte dos nossos conhecimentos é a experiência sensorial, o que vemos, cheiramos, saboreamos e tocamos (VALE DOIS VALORES). A epochê dos estóicos é a suspensão do juízo de valor ( exemplo: «Dizem-te que a tua casa ardeu, faz epochê, não consideres isso uma tragédia») e visa atingir a ataraxia, isto é, a calma absoluta e é semelhante à ética quietista do taoísmo porque esta preconiza «não ter ambições, não agir, não procurar desvendar os segredos do Estado». (VALE DOIS VALORES). Thomas Hobbes achava que o estado de natureza, isto é, a sociedade sem leis, nem Estado, era perigosa e nela «o homem é o lobo do homem» e preconizava um contratualismo absolutista, ou seja, um acordo de milhares ou milhões de homens para, a troco da sua segurança, entregar o poder a um rei absoluto, um ditador ao passo que John Locke via aspetos positivos no estado de natureza e sustentava o contratualismo liberal, ou seja, o acordo de milhões de homens para a criação de um Estado liberal, que garantisse a propriedade privada e liberdades individuais políticas, dotado de um parlamento livremente eleito, residindo a soberania no povo. É Locke quem se inspira nos princípios iluministas consagrados depois dele: liberdade, igualdade e fraternidade, os homens nascem livres e iguais por direito natural e devem pensar e agir autonomamente, de forma racional (VALE DOIS VALORES).

 

2) A) Os valores ético-políticos das esquerdas (anarquistas, comunistas leninistas, socialistas ou sociais-democratas) são: limitar ou aniquilar o poder dos muitos ricos, da alta burguesia, e promover uma moderada ou radical igualdade económica ( os socialistas, através de impostos progressivos sobre as grandes fortunas, os comunistas nacionalizando estas, os anarquistas impondo a autogestão operária nas empresas), dando liberdade aos sindicatos e correntes de esquerda (excetuando as ditaduras comunistas neoestalinistas onde a liberdade é letra morta). Os valores ético-políticos das direitas (liberais e neoliberais, conservadores e fascistas) são: fazer crescer o poder dos ricos e dos muito ricos, privatizar muitas empresas estatais, na convição de que o capitalismo de concorrência é o melhor sistema possível que dá emprego a quase toda a gente, combatendo o igualitarismo económico dos comunistas e anarquistas e defendendo a democracia liberal capitalista (exceção feita aos fascistas, que desejam uma ditadura direitista). (VALE DOIS VALORES)

 

2) B) Determinismo com livre-arbítrio, chamado no manuais determinismo moderado, é a corrente segundo a qual a natureza se compõe de leis necessárias, infalíveis ( nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos) e o homem dispõe da capacidade de escolher,livremente, mediante a reflexão, esta ou aquela cadeia determinista, realizar ou não certo ato, certo valor. O fatalismo é diferente uma vez que sustenta que tudo está predestinado e não há livre-arbítrio humano. (VALE DOIS VALORES)

 

2) C)  O princípio da maior felicidade de Stuart Mill sustenta que a acção moral deve ser altruísta, visar a felicidade de uma maioria das pessoas envolvidas, ainda que com prejuízo de uma minoria de pessoas ou do próprio agente da ação. O empirismo sustenta que quase todas as nossas ideias derivam das sensações, das perceções sensoriais. Assim, por exemplo, a noção de maior felicidade para os alunos de uma dada escola no ultimo dia de aulas exige uma visão empírica ou empirista: se a maioria dos alunos se acumula com prazer no ginásio grande da escola a ouvir música dos «Feedback Line», dos «Contraluz» ou de outro grupo musical adolescente aí está a prova da ligação entre a felicidade da maioria e a apreensão empírica dela. (VALE DOIS VALORES)

 

2) D) A propriedade privada das empresas é o facto de as fábricas, lojas, supermercados, herdades agrícolas, transportadoras aéreas, fluviais ou terrestres, etc, serem, juridicamente, pertença de um ou vários capitalistas ( os acionistas). É defendida pelo liberalismo como sendo a base do progresso e da liberdade mas é combatida por comunistas leninistas - que numa fase inicial defendem as pequenas empresas - e por anarquistas. Estes últimos são os grandes defensores da autogestão operária, isto é, a doutrina da expropriação e expulsão dos patrões das empresas que ficam a funcionar sob o comando da assembleia geral de todos os operários, engenheiros e contabilistas. Os marxistas-leninistas apoiam algumas empresas em autogestão mas preferem as empresas nacionalizadas sob governo comunista porque isso lhes permite centralizar a economia e dirigi-la. ( VALE DOIS VALORES)

 

2) E) O imperativo categórico em Kant é a verdadeira lei moral que se enuncia assim: «Age como se quisesses que a tua ação fosse a lei universal da natureza, aplicando a tua máxima a todos por igual, sem distinções e sem egoísmo.» Brota do eu numénico ou racional. Corresponde às máximas estóicas do tipo «Actua com benevolência em relação a todos os seres humanos, mesmo em relação aos que te ofendem, porque a razão universal é uma só e uma só é a tua linhagem, a espécie humana»  geradas no eu interior ou racional. O imperativo hipotético em Kant, lei amoral ou de falsa moral, diz o seguinte: «Age por interesse egoísta, de modo a beneficiares primeiro que tudo a ti mesmo ou a ti e aos teus familiares e amigos, prejudicando ou desprezando outras pessoas ou a humanidade em geral». Brota do eu fenoménico ou empírico e corresponde, no estoicismo, ao "eu exterior" ou corpo físico de cada um. Assim se correspondem os dois dualismos, sendo designados de dualismo antropológico porque dividem o homem em dois pólos, o racional e o físico-empírico. (VALE DOIS VALORES)

 

2) F) Uno é o Um e múltiplo é o dois, três, quatro e assim infinitamente. O conceito parece ser uno em relação às percepções empíricas similares que são múltiplas. Exemplo:o conceito ou ideia de sobreiro é um só e corresponde às muitas imagens (percepções empíricas) de sobreiros que estou, neste momento, a ver neste campo do Alentejo. (VALE DOIS VALORES) .

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

Vejamos um segundo teste de filosofia.

 

NOTA: A esmagadora maioria dos professores de filosofia, centrados na lógica proposicional clássica - que, no 11º ano mergulha os alunos nos inspetores de circunstâncias, nos operadores verofuncionais, nos silogismos disjuntivos, hipotéticos e dilemas, na «avaliação de argumentos», na negação do condicional, do bicondicional, das leis de Morgan, conhecimentos de lógica inúteis para o verdadeiro filosofare centrados em conteúdos mais ou menos confusos, infetados pelo desprezo da ontologia dos clássicos (Platão, Aristóteles. Leibniz, Hegel, etc), desprezo que os manuais de 10º ano editados veiculam, não pode nem sabe dar testes da qualidade dos que aqui apresento: dá testes superficiais, sem amplitude filosófica autêntica, insubstanciais. E, no entanto, quanta arrogância nesta geração de licenciados, mestres e doutorandos (entre os 25 e os 50 anos de idade) de faculdades de filosofia! Estas estão instrumentalizadas por catedráticos destituídos de visão holística que, entre outras asneiras, declaram que «a astrologia histórica é uma superstição anticientífica» sem, como é óbvio, terem investigado minimamente o assunto! Nenhum dos famosos "vinte e cinco melhores pensadores do mundo" segundo o «Nouvel Observateur», entre eles José Gil, consegue conceber que o destino das pessoas e sociedades é determinado pelas movimentações do Sol, da Lua e dos planetas no Zodíaco. São, cosmologicamente, néscios. A filosofia universitária bloqueia, a partir das cátedras, a aletheia, a desocultação da verdade.

 

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

 Março de 2012         Professor: Francisco Queiroz           

 

I

 

“A filosofia hermética dos construtores aplicava, na arquitectura das catedrais da idade média, o princípio do microcosmos- macrocosmos que é, de certo modo, um princípio metafísico. A substituição do Estado social pelo Estado liberal é uma expressão da luta entre as direitas e as esquerdas no quadro do capitalismo e do Estado de direito democrático inspirado no iluminismo. Thomas Hobbes tinha uma visão diferente da de Rousseau sobre o estado de natureza e, por isso, preconizava um contratualismo diferente do de John Locke e do de John Rawls, o último dos quais se opunha explicitamente ao socialismo autoritário.”

 

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

                                                        II

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A) Princípio da maior felicidade em Stuart Mill e imperativo categórico em Kant.

 

B) Essência, acidente e reminiscência em Platão.

 

C) Realismo ontológico, idealismo ontológico e objetividade.

 

D) Ética do taoísmo e ética do estoicismo.

 

E) Relativismo e teoria do acto e da potência em Aristóteles.

 

F) Indeterminismo biofísico  com livre-arbítrio (libertismo) e fatalismo.

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA 20 VALORES)

 

1) A filosofia hermética, isto é, esotérica, inspirada em princípios metafísicos secretos atribuídos a Hermes Trimegistus, dos arquitetos das catedrais medievais incluía o princípio de que o microcosmos (pequeno universo; por exemplo, uma montanha, uma igreja) era o espelho do macrocosmos (grande universo: o céu com as estrelas, as galáxias). Assim, os templários erguiam os seus castelos de modo a que a planta arquitetónica destes imitasse o desenho da constelação do Boeiro ou de outras constelações celestes. A catedral medieval - como vimos na visita de estudo a Sevilha - é um microcosmos que imita o imaginário corpo cósmico de Cristo de braços abertos: a abside representava a cabeça de Cristo e deveria estar voltada a Oriente, onde nasce o Sol, símbolo de Cristo; o transepto representava os braços abertos de Cristo e o altar o coração; as naves, central e lateral, o tronco e as pernas de Cristo. O princípio da correspondência entre o superior e o inferior é metafísico porque se apreende por intuição noética, não pelos orgãos sensoriais (ESTAS QUATRO FRASES ANTERIORES VALEM DOIS VALORES). A substituição do Estado social, isto é, do Estado social-democrata, - um Estado capitalista de centro-esquerda, que oferece saúde e ensino gratuitos ou quase gratuitos a toda a população, subsídio de desemprego, rendimento de inserção social e pensões diversas aos desfavorecidos à custa de impostos progressivos sobre os ricos - pelo Estado liberal - um Estado mínimo capitalista, que reduziu ou aboliu a gratuidade do ensino e dós cuidados de saúde, reduziu ao mínimo a segurança social, deixando milhões de desempregados entregues à sorte -  reflete a luta entre a direita (liberais, conservadores e fascistas), adepta das privatizações de empresas,  e as esquerdas (socialistas ou sociais-democratas, comunistas e anarquistas) adeptas da nacionalização de empresas estratégicas ou mesmo da autogestão operária. As esquerdas querem manter, no imediato, o Estado social e as direitas fazem-no emagrecer transformando-o em Estado liberal, não intervencionista na economia, quase reduzido só aos corpos militares e policiais, fiscais, judiciais e político-parlamentares. Ambos - Estado Social e Estado Liberal - são formas do Estado de direito democrático, isto é, um Estado baseado numa constituição que consagra a tripartição de poderes (legislativo, executivo e judicial) e que consiste numa democracia multipartidária, com eleições periódicas de um parlamento nacional e parlamentos locais, liberdade de imprensa, greve operária, propriedade privada de empresas, manifestação de rua e reunião, associação sindical e política, culto religioso e ateísmo, etc, de acordo com os princípios do iluminismo, filosofia da liberdade, igualdade e fraternidade entre todos os homens, que nascem livre e iguais em direitos e deveres e devem pensar e agir autonomamente, de forma racional. (ESTAS FRASES ANTERIORES VALEM TRÊS VALORES NO CONJUNTO). Thomas Hobbes achava que o estado de natureza, isto é, a sociedade sem leis, nem Estado, era perigosa e nela «o homem é o lobo do homem» e preconizava um contratualismo absolutista, ou seja, um acordo de milhares ou milhões de homens para, a troco da sua segurança, entregar o poder a um rei absoluto, um ditador ao passo que Rousseau via o estado de natureza de forma positiva, uma sociedade de homens livres em estado selvagem, cada um alimentando-se dos frutos de árvores à sua disposição, sem impor escravidão ou servidão a outros (doutrina do bom selvagem). John Locke,  e mais tarde, no século XX, John Rawls, sustentavam o contratualismo liberal-democrático, ou seja, o acordo de milhões de homens para a criação de um Estado liberal, que garantisse a propriedade privada e liberdades individuais políticas, dotado de um parlamento livremente eleito, residindo a soberania no povo. Rawls defendia que os cidadãos deveriam votar as leis a coberto de um véu de ignorância sobre a riqueza e o poder de cada um e rejeitava o socialismo autoritário, isto é, a ditadura comunista marxista-leninista que expropria a burguesia tradicional (VALE DOIS VALORES). 

 

2) O princípio da maior felicidade de Stuart Mill sustenta que a acção moral deve ser altruísta, visar a felicidade de uma maioria das pessoas envolvidas, ainda que com prejuízo de uma minoria de pessoas ou do próprio agente da ação.  O imperativo categórico em Kant, a verdadeira lei moral segundo este,  enuncia-se assim: «Age como se quisesses que a tua ação fosse a lei universal da natureza, aplicando a tua máxima a todos por igual, sem distinções e sem egoísmo e trata cada ser humano como um fim em si e não um meio .» Brota do eu numénico ou racional. Stuart Mill contenta-se com a felicidade de uma maioria mas Kant deseja a felicidade ou a infelicidade de todos, uma vez que o seu objetivo é a equidade universal da ação emanada de um mesmo sujeito. (VALE DOIS VALORES).

 

2- B) Em Platão, as essências são os arquétipos do mundo inteligível, as formas imóveis e eternas do Bem, do Belo, do Justo, do Dois, do Quatro, etc. A reminiscência é a lembrança vaga desses arquétipos que a alma na sua descida ao mundo material ou sensível conserva, depois de quase tudo esquecer no rio Letes. O acidente é um traço ou acontecimento fortuito que não existe no arquétipo em si mas no modo como a alma se comporta ante ele: há almas que não contemplam o arquétipo de Justo ou de Sábio e isso é por acidente. (VALE DOIS VALORES).

 

2-C) Realismo ontológico: o mundo material subsiste por si mesmo, fora das mentes humanas. Idealismo ontológico: o mundo material está dentro da imensa mente humana de cada um. Objetividade é o caráter de objeto, coisa ou situação visível para todos ou compreensível para todos mediante uma razão comum. Aparentemente, o realismo ontológico é «mais objetivo» que o idealismo. Mas... (VALE DOIS VALORES).

 

2-D) A ética do taoísmo preconiza o não agir, o refrear os desejos, aceitar uma vida calma e trabalhosa como a de um camponês sedentário, desconfiado dos estudos e dos políticos, astuto, que estuda o seu inimigo elogiando-o, até um dia o poder derrubar. A ética do estoicismo preconiza a aceitação do destino, o autodomínio obtido mediante o eu racional, o «guia interior», a benevolência face a todos os seres humanos, a epoché ou suspensão do juízo de valor («Falam mal de ti? Não consideres isso mau nem bom. Suspende o juízo») visando a ataraxia ou impassibilidade da alma. Tanto o taoísmo como o estoicismo recomendam contenção dos desejos, autodomínio. (VALE DOIS VALORES)

 

2-E) Relativismo é a doutrina segundo a qual as coisas e suas propriedades, os valores, mudam conforme o tempo, o lugar, as sociedades, as culturas. Ato é a realidade presente de algo, potência é a capacidade de esse algo se transformar no futuro e o resultado previsível dessa transformação. Exemplo: a semente é semente em ato e árvore em potência. O relativismo exprime-se na dualidade ato potência: as coisas são algo em ato e são algo diferente em potência, o seu ser é relativo ao tempo em que se encontra. (VALE DOIS VALORES)

 

2-F) Indeterminismo biofísico com livre-arbítrio é a doutrina segundo a qual não há leis fixas, necessárias, de causa-efeito na natureza (exemplo: nem todos os seres humanos envelhecem, nem todos se alimentam de sólidos e sobrevivem) e há livre-arbítrio, possibilidade de deliberar racionalmente sobre as ações. Fatalismo é o oposto, sob certo aspeto: não há livre-arbítrio, todos os acontecimentos estão rigorosamente predestinados. (VALE DOIS VALORES). 

 

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
Heidegger inverteu o conceito tradicional de fenómeno

 

Heidegger inverteu o sentido tradicional da palavra fenómeno (phainomenon= o que aparece, o visível, audível e palpável, em grego).  :

 

« O conceito fenomenológico de fenómeno entende por "o que se mostra" o ser dos entes, o seu sentido, suas modificações e derivados. E o mostrar-se não é um mostrar qualquer, nem muito menos o que se diz "aparecer". O ser dos entes é o que menos pode ser algo atrás do qual esteja algo que não apareça.»

«"Atrás" dos fenómenos da fenomenologia, não está essencialmente nenhuma coisa, mas sim, pode estar, oculto o que pode tornar-se fenómeno. E precisamente porque os fenómenos não estão dados imediata e regularmente, é necessária a fenomenologia. Encobrimento é o conceito contrário de "fenómeno". 

«A forma na qual os fenómenos podem estar encobertos é variada. Em primeira instância, pode estar encoberto um fenómeno no sentido de estar ainda não descoberto. (...)»

«"Fenoménico" chama-se ao que se dá e é explanável na forma peculiar de enfrentar o fenómeno, daqui o falar-se de estruturas fenoménicas. "Fenomenológico" diz-se de tudo o que entra na forma de mostrar e explanar e o que constitui os conceitos requeridos nesta disciplina.»

« Fenómeno em sentido fenomenológico é só aquilo que é ser, mas ser é sempre ser de um ente: daqui que quando se visa libertar o ser, seja necessário fazer comparecer o ente na forma apropriada.» (Martin Heidegger, El Ser y el tiempo, páginas 46-47)

 

 

Kant já havia distinguido fenónemo de aparência - exemplo: o vinho é um fenómeno, mas a cor e o sabor do vinho são aparências - de tal modo que se poderia dizer que o fenómeno é um objeto ilusório ou semi-real, acidental, algo inaparente. Se em Kant o fenómeno é "o objeto indeterminado de uma intuição empírica" e se situa na sensibilidade, no espaço ou sentido externo, em Heidegger o fenómeno - não falamos do fenómeno psíquico mas dos fenómenos janela, casa, Estado, etc - situa-se no mundo, fronteira do eu com os objetos reais - «janela» entre o eu e os objetos exteriores, já que o cão e a abelha não têm mundo, só o homem possui mundo - ou é o conjunto de objetos intemporais e transmundanos equivalentes aos númenos em Kant e aos arquétipos em Platão.

 

A inversão do conceito tradicional de fenómeno feita por Heidegger é paralela a outras inversões terminológicas operadas por este pensador alemão : com Heidegger, existência deixa de ser o ato ontológico (o estar, a presença indeterminada) de qualquer essência e passa a ser a essência de cada ente, a forma fundamental, o ser plasmado no ente determinado. Heidegger quis notabilizar-se mudando, se não as regras do jogo do pensar filosófico, ao menos as fichas, a terminologia. Estava no direito de o fazer. Mas não foi transparente ao explicar estas mudanças terminológicas e isso rendeu-lhe uma aura suplementar de veneração junto do público que gosta do que é misterioso e admira o que não entende.  

 

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Sábado, 24 de Dezembro de 2011
O infinito espacial e corporal é mera abstração, segundo Aristóteles

 

A filosofia Aristóteles distingue-se da de Platão na medida em que procura demonstrar que as essências não existem separadamente em si mesmas, fora do mundo material e vital.  Assim acontece com a essência infinito espacial :

 

 «Ora bem, é impossível que o infinito seja separável das coisas sensíveis e que algo seja  infinito em si mesmo. Porque se o próprio infinito não fosse uma magnitude nem uma pluralidade, mas sim uma substância e não um atributo, seria então indivisível; porque o divisível ou é uma magnitude ou uma pluralidade. Mas se é indivisível não é infinito, salvo que o fosse como a voz é invisível. Mas os que afirmam a realidade do infinito não dizem que seja desta maneira, nem que é isso o que buscamos, mas que o infinito é algo "que não pode ser percorrido". Mas se o infinito existe como atributo nunca poderá ser, enquanto infinito, um elemento constitutivo das coisas, como tampouco o invisível o é da linguagem, ainda que a voz seja invisível.»

«Ademais, como é possível que exista o próprio Infinito, se não existem o próprio Número e a própria Magnitude, dos quais o infinito é em si uma propriedade? A necessidade de que exista este infinito é ainda menor do que a do número ou da magnitude em si.» (Aristóteles, Física, Livro III, 204 a, 5-20; a letra negrita é posta por mim)


É muito interessante a visão aristotélica: o infinito no espaço e no mundo corporal é uma abstração, não existe em si mesmo, salvo na imaginação. As coisas são finitas. O infinito é uma ilusão da mente. É nele, a meu ver,  que a física se converte em matemática, uma vez que o universo físico material é limitado, por muito que falem da divisibilidade infinita dos corpos, e a matemática devido à sua natureza monádica (os números não ocupam lugar) suscita a ideia de infinito. A matemática faz a ponte entre a física e a metafísica. Não espanta que Aristóteles a classifique como a primeira das ciências a seguir à filosofia primeira ou - termo não usado pelo filósofo grego - ontologia-eidologia. Aristóteles sabia , verdadeiramente, produzir ontologia: o ser real é o finito ou o conjunto dos finitos, mas não o infinito que é ser virtual, atributo. A crença de Einstein de que o universo é finito, como uma esfera fechada, radica, assim, na concepção aristotélica do mundo.

 

 

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Domingo, 18 de Dezembro de 2011
A central filosófica transcendente

 

Continuamente, a central filosófica transcendente, essa «internet» noética, que atravessa o cosmos e abrange cada um de nós como um seu prolongamento- refiro-me aos que pensamos profundamente, que somos uma minoria reduzida entre os cidadãos de  um país e somos também uma minoria escassa entre os milhares de professores de filosofia nos ensinos público e privado - envia-nos ondas de reflexão que plasmamos na escrita. Eis algumas breves reflexões, relativamente comuns, se excetuarmos o que se refere à sincronicidade onomástica, que a inteligência cósmica me dispensou.

 

AS DUAS ORDENS QUE CONFLUEM EM CADA UM DE NÓS- Há duas ordens que confluem em cada ser humano: a da espiritualidade, centrada no saber teorético e na tranquilidade, e a da corporalidade, centrada no alimentar-se, vestir-se, empregar-se e ganhar dinheiro, relacionar-se sexual ou socialmente com outras pessoas, etc. Se nos entregarmos unicamente à primeira dessas ordens, a segunda começa a protestar através da fome e enfraquecimento corporal, da perda de conforto material, de contatos sociais, etc. Se nos entregamos exclusivamente à segunda, a primeira começa a turvar-se e a requerer o seu espaço. Há que equilibrar.

 

AMAR É COMO COMER - Amar é o alimento da alma e de algumas glândulas corporais. Nesse sentido, equipara-se perfeitamente a comer. Ao amarmos outra pessoa deglutimos essa pessoa no "esófago" da alma e incorporamo-la em nós. Por isso, na inflamada cena da paixão, dizemos: «Vou-te comer..» Mas se uns comem «o corpo de Cristo» na forma de hóstia, porque não havemos de comer, ainda que momentaneamente, a alma sentimental de uma pessoa que nos agrada? 

 

 AMAS? NÂO AMAS? - É tudo uma comédia. Levamos demasiado a sério o amor à pessoa A ou B, por instinto de sobrevivência: «Preciso dela ou dele...». É o nosso ego que está primeiro.Ter um parceiro certo é um sedativo, um apoio, uma massagista ou uma cortesã de cama. Nada mais. Mas isso é muito e nada...No mar dos afetos que são milhões de pessoas, a caravela do nosso "eu" tem que lançar âncora ou encontrar águas calmas e estáveis. Casamento, união amorosa duradoura - tudo biombos que nos protegem da plena abertura à luz que cega ao sairmos da caverna de nós mesmos. E os deuses são as balizas deste caótico jogo de futebol...

 

ESCRAVIDÃO - Não somos escravos do ato sexual, os que atingimos um certo promontório espiritual. Mas somos escravos da beleza, seja ela beleza de corpos, de almas, de ações, de livros e teorias, de leis e costumes, ou do Belo em Si arquetípico.

 

 A CASUALIDADE NÂO EXISTE - Milhares de exemplos extraídos quotidianamente do fluxo das notícias nos telejornais "demonstram" que a casualidade não existe. Somos governados por séries de factos que obedecem à mesma onomástica, aos mesmos sons e ideias - o que revitaliza a tese de Platão no «Crátilo» de que as palavras são pinturas do ser, da essência das coisas e a tese da sincronicidade de que «a mesma ideia ou forma se dá em simultâneo em contextos diferentes, desligados uns dos outros na aparência».

 

 

Em 29 e 30 de Março de 2012, as ideias e nomes de FRANCISCO, FRANÇA, RIBEIRO, BI, AMORIM e CASTELO estão em foco:no dia 29, o sucateiro FRANCISCO Leitão, o "rei Ghob", residente numa casa-CASTELO, é condenado pelo tribunal de Torres Novas a 25 anos de prisão pelo assassinato de duas jovens e um jovem, com ocultação de cadáveres; no dia 30, passa mais um aniversário sobre o nascimento de FRANCISCO Sabaté, «El Quico», o mais. célebre guerrilheiro antifranquista do "maquis", que na Catalunha vibrou sucessivos golpes armados, até 1960, contra a ditadura de Franco, a polícia prende 19 radicais islâmicos em FRANÇA, José RIBEIRO e CASTRO (sugere: CASTELO) é o único deputado das direitas PSD-CDS que, no parlamento, vota contra a proposta de revisão do código laboral apresentado pelo governo de Passos e Portas, o BIc de Mira Amaral assina o contrato de compra do Banco ao Estado português, o funcionário do BIngo (evoca:BI) do Benfica é assaltado por 2 homens na praceta Celestino RIBEIRO, na Cruz de Pau, sendo roubado em 5000 euros, noticia-se que Américo AMORIM, vai em breve tornar-se o novo chairman da GALP, Carlos Abreu AMORIM, deputado do PSD, reune com a Associação Nacional de Freguesias, para suavizar o impacto da lei que eliminará cerca de 1400 freguesias de Portugal.

 

Em 28 e 29 de Março de 2012, as ideias e nomes de SÂO JOSÉ e de TOLA estão em foco: um incêndio florestal assola a povoação de TOLA, em Penela, realiza-se em TOULOse (evoca: TOLA) o funeral de Moahamed Merah, membro da revolução islâmica mundial, que assassinou 3 soldados franceses e um professor e 3 alunos de uma escola judaica em Toulouse, França, o telejornal da RTP exibe professores do colégio de SÃO JOSÉ em Coimbra, preocupados com a decisão das freiras da congregação de Santa Catarina de Siena que, no dia 28, anunciaram o fecho do colégio em Junho de 2012, um telejornal noticia que Anabela Borges, de 38 anos, foi mal operada às varizes no dia de SÂO JOSÉ, 19 de Março, no hospital Garcia da Orta de Almada e, dias depois, viu ser-lhe amputada uma perna abaixo do joelho, por imperativo de sobrevivência.

 

 

Em 27 e 28 de Março de 2012, os nomes e ideias de LISTA, FARMÁCIA, META e SIM estão em foco nos noticiários televisivos: no dia 27, o 1º ministro Pedro Passos Coelho visita o porto de SINES (evoca: SIM), um incêndio eclode junto ao tribunal de SINtra (evoca: SIM), a equipa de futebol do METALIST (evoca: META e LISTA) chega a Lisboa onde irá defrontar o Sporting, a Polícia Judiciária (PJ) faz buscas em 30 FARMÁCIAS e residências numa investigação de fraude lesiva do Serviço Nacional de Saúde e concretizada através de farmácias, apreende um iate, 14 automóveis de luxo, e quadros valiosos; no dia 28, são distribuídas LISTAS telefónicas da Portugal Telecom na cidade de Beja, a família luso-brasileira GraCINdo (evoca: SIM), que inclui atores de telenovelas, faz um espetáculo de rua em Póvoa de Lanhoso, Minho, em homenagem ao falecido Paulo GraCINdo cujas raízes são minhotas, a RTP1 emite o programa «Rua dos REMÉDIOS» (evoca: FARMÁCIA) que revela como toxicodependentes trocam a METAdona que lhes é dado por heroína e cocaína.

 

Em 23 e 24 de Março de 2012, as ideias e nomes de MAL, MASCARENHAS, EDUARDO e LARANJA estão em foco: no dia 23, eclode um golpe militar no MALi (evoca: MAL), noticia-se que José Vaz de MASCARENHAS (evoca: ), o telejornal da TVI exibe EDUARDO MASCARENHAS, pai de uma criança que, supostamente, recebe maus tratos no infantário que frequenta; nos dias 23 e 24, decorre o 34º Congresso do PSD, o partido côr de LARANJA, decorre em Vidigueira, Beja, a feira alimentar-artesanal «A pão e LARANJAS» com figurantes e cenas alusivas à época de D. Manuel I e do envio da esquadra de Vasco da Gama à Índia; no dia 24, desloco-me a esta feira na Vidigueira e reencontro Joana que não me via há anos e me trata por "EDUARDO", mais de 100 voluntários do movimento "Limpar Portugal" recolhem lixo lançado sobre as rochas e terras da Boca do INFERNO (evoca: MAL), no concelho de Cascais.

 

De 18 a 20 de Março de 2012, o morfema FBI está em em foco: no dia 18, o estudante FáBIo (sugere: FBI) Palma, de Baleizão, cumpre aniversário; no dia 20, é exibido em Beja, em sessão única, o filme «J. Edgar» sobre a vida de J.Edgar Hoover, o fundador do FBI, a polícia de investigação criminal dos EUA

 

 

Em 18 e 19 de Março de 2012, BARBOSA e BRANCO e FORTE em foco: no dia 18, o telejornal da SIC exibe uma Grande Reportagem sobre jovens que têm 20 anos de idade em 2012, na qual Maria Teresa BARBOSA, atriz de teatro, de 20 anos, declara que «hoje há uma banalização do sexo entre os adolescentes, as pessoas oferecem-se muito (no plano corporal íntimo)», 37 ativistas do grupo Damas de BRANCO que exigem a libertação dos presos políticos em Cuba, são detidas pela polícia em Havana, a nova Cidadela de Cascais, Pousada de Cascais do grupo Pestana, na antiga FORTALEZA (evoca: FORTE) de Nossa Senhora da Luz, abre as suas portas ao público; no dia 19, o Presidente do Automóvel Clube de Portugal (ACP), Carlos BARBOSA, declara ser “despropositado” e incompreensível o novo aumento do preço dos combustíveis que entra hoje em vigor e diz esperar que o ministro da Economia lhe explique as razões porque diz que «Nem eu nem nenhum português entende como é que em 2008 o barril de Brent estava "a 160 dólares e nós tínhamos combustível mais barato, ao passo que hoje o preço do barril é de 124,98 dólares», António BARBOSA e os restantes membros da Comissão de Trabalhadores dos Estaleiros de Viana do Castelo ouvem da boca do ministro da Defesa, Aguiar BRANCO, o plano de privatização dos Estaleiros que o governo levará a cabo, José Luis FORTES, Inspetor Geral do Trabalho, declara aos media que o acosso sexual e moral nas empresas e serviços tem vindo a aumentar.

 

Em 18 e 19 de Dezembro de 2011, os nomes de DOMINGOS e VÍTOR estão em foco: no dia 18, o Sporting Clube de Portugal, treinado por DOMINGOS Paciência, perde 2 pontos ao jogar contra a Académica, em Coimbra; no dia 19, o ex diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, DOMINIQUE Strauss Kahn, volta à vida pública num evento em Pequim, onde exprime críticas ao presidente francês e à chanceler alemã, e compara o euro a uma jangada prestes a afundar-se, VÍTOR Constâncio declara ser impensável a dissolução do euro, VÍTOR Bento, em entrevista a «Público», afirma «Sou contra a saída do euro, mas o país deve discutir esse assunto.»

 

 

 

Em 16 de Dezembro de 2011, CINCO, TREZE E RIO em foco: de manhã, a torre CINCO de TREZE pisos do bairro do Aleixo na cidade do Porto é implodida por mais de 150 explosivos num espetáculo presenciado pelo presidente da câmara do Porto, Rui RIO, num barco sobre o RIO Douro, à noite, o Benfica vence por CINCO golos contra um o RIO Ave, de Vila do Conde, na jornada TREZE da Liga de Clubes.

 

 Em 14 e 15 de Dezembro de 2011, INSPETOR DA PJ, ALBERGUE, ROXO e LETRAS em foco: no dia 14, um INSPETOR da PJ é baleado numa perna por um traficante de armas que foge de automóvel, junto às portagens de ALBERGARIA-A-Velha (evoca: ALBERGUE) na A1, é posto à venda mais um número, desta vez com capa de cor ROXA, da revista "Interage" dos professores da Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja, o advogado Ricardo Sá Fernandes acusa de incompetência o INSPETOR DA PJ João ROUXInol (evoca: ROXO) em sessão do caso desaparecimento de Rui Pedro no tribunal de Lousada; no dia 15, cumprem aniversário a professora bejense Manuela LETRAS e o poeta, homem de LETRAS e professor de matemática José António Martinho Marques, natural de ALBERnoa (evoca: ALBERGUE), Beja.

 

Em 11 e 12 de Dezembro de 2011, CARDOSO, MAR e PALMA em foco: de madrugada, José Rui CARDOSO, operário da construção civil, é morto à facada em Fânzeres, GondoMAR, e à noite, Oscar CARDOZO marca o único golo do jogo entre o MARítimo e o Benfica, no Funchal; no dia 12, a Casa Real espanhola considera que o comportamento do genro de Juan Carlos, Iñaki Urdangarín, investigado por alegados delitos de falsificação de documentos, prevaricação, fraude e desvio de fundos públicos, não parece ser exemplar e anunciou que o duque de PALMA deixará de participar em actividades oficiais, o jornalista João PALMA Ferreira fala na SICN.

NOTA: O rosto de José Rui CARDOSO - fotografia no «Correio da Manhã» de 12 de Dezembro - é muito parecido com o do futebolista CARDOZO, o que é notável como analogia.
 
Em 10 e 11 de Dezembro de 2011, as ideias de MOURO, A LIDERAR BRANCOS E NU em foco: no dia 10, o Real Madrid, clube de equipamento BRANCO, treinado por José MOURINHO (evoca: MOURO) é vencido por 1-3 pelo Barcelona FC, clube que tem o estádio de Camp NOU (evoca: NU); no dia 11, devido a avaria num avião Falcon, o ministro da Defesa José Pedro AGUIAR-BRANCO e a sua comitiva ficam retidos em NOUakchott (evoca: ), capital da MAURItânia (evoca: MOURO), onde termina uma reunião da iniciativa 5 + 5, os telejormais mostram um ladrão a conduzir a carrinha roubada nos EUA.

AGUIAR BRANCO na MAURITÂNIA sugere... MOURINHO A GUIAR OS (JOGADORES) DE BRANCO. Não é curioso que no espaço de poucos horas ambos sofram percalços?

 

  

Em 9 e 10 de Dezembro de 2011, RICARDO, AMARAL/TAMARA, GIL e 22 em foco: no dia 9, RICARDO AMARAL, tenente da Força Aérea que pilotou o helicóptero que salvou 6 pescadores de Caxinas, em 2-12 (sugere: 22), é homenageado em Viseu, o BIC de Mira AMARAL compra o BPN, GIL Garcia, líder da minoria revolucionária do Bloco de Esquerda, anuncia que vai abandonar este com 200 militantes; no dia 10, o jornalista RICARDO Jorge Pinto comenta a situação europeia no programa «Bom dia Portugal» da RTP-1, Miguel Gonçalves, coordenador da Sociedade Planetária, fala na RTP1 do planeta Kepler 22-b, bastante similar à Terra na sua posição em torno de uma estrela, eu como TÂMARAS (evoca: AMARAL), João Vasconcelos, da comissão de utentes da A 22, no Algarve, apela ao não pagamento de portagens nessa via, num telejornal, chega ao fim a era GILberto Madaíl como presidente da Federação Portuguesa de Futebol.
 
Em 8 e 9 de Dezembro de 2011, as ideias de CUBO, CARVALHO, VILA e BELO em foco: no dia 8, às 0.30 horas, um grupo com cerca de 20 jovens, todos entre os 18 e 20 anos, envolve-se num cenário de pancadaria à porta da discoteca BBC, em BELÉM (evoca:BELO), Lisboa, um homem de 67 anos é encontrado morto com um tiro na cabeça em CUBOS, Mangualde, o Vaticano anuncia para breve uma visita do papa a CUBA, o professor da ESDG Fernando VILAS CARVALHEIRAS cumpre aniversário; no dia 9, o telejornal da SIC noticia que a teleportagem na A 25 em VILAR (evoca: VILA) FORMOSO (evoca: BELO) não funcionou na véspera e noticia ainda que, em 14 de Novembro, o médico anestesista Mário CARVALHO fez anestesias em 17 operações cirúrgicas, algumas em simultâneo, no Hospital de Braga, o que é ilegal.

 

 

BONDADE DA CRISE: DIMINUIR A VACINAÇÃO - «Não faz sentido fazer 3 doses da vacina da meningite C - diz Francisco George, diretor-geral de saúde a um telejornal - porque só houve 6 casos em adultos em Portugal.» Eis uma confissão dos vacinadores: as vacinas não servem para nada. Só têm sido incentivadas porque os laboratórios farmacêuticos faturam milhões de dólares ou euros junto do Estado ao vender a este o pus de animais doentes batizado com o nome de «vacina» que o povo ignorante e estúpido aceita.

 

 

A factualidade abundante, que a história quotidianamente nos traz, permite-nos erguer torres de teorias filosóficas. Ninguém diga, com propriedade, que a filosofia nada tem a ver com o mundo empírico, uma vez que ela é, em grande parte, uma abstração deste após imergir sensorialmente nele.    

 

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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Testes de filosofia criativos para o 10º ano de escolaridade em Portugal (final do primeiro período letivo)


 

Eis dois testes de filosofia para o 10º ano de escolaridade em Portugal, de final de primeiro período letivo, feitos com criatividade e riqueza de conteúdos, longe do simplismo monótono dos testes dos professores medianos que imitam os manuais de filosofia vigentes em Portugal.  Todos estes últimos são muito limitados pela inércia do pensamento e pela «filosofia analítica» em voga (Oxford Dictionary of Philosophy, Routledge Dictionary of Philosophy, etc) cujas definições erróneas - do tipo «o libertismo é um incompatibilismo», «o relativismo não pode ser objetivista» ou «o subjetivismo contradiz-se» - e cujo vício lógico-formalista impedem a amplitude do pensamento livre, profundo e criador.  

 

 

Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA A

 

Dezembro de 2011          Professor: Francisco Queiroz

 

 

I

 

“O realismo gnosiológico liga-se, sobretudo, à ideia de transcendência e o idealismo gnosiológico à ideia de imanência. Os juízos de valor assentam quase sempre na intersubjetividade e levam muitas vezes ao relativismo ou mesmo ao ceticismo.»

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

                                                                       II

 

 

“Entendi ser injusta uma cena em que duas raparigas agrediam uma terceira, enchi-me de coragem e intervim libertando a vítima, depois fui apreciar os quadros do Museu Regional de Beja, fiz um teste de matemática na escola, almocei frango assado e agradeci à Divindade sob um sol agradável.”

 

 

2), Identifique, nos termos a negrito deste texto, as quatro esferas de valores segundo Max Scheler e ainda valores de coisa e valores de função.

 

 

 

3) Relacione, justificando:

 

A) Imperativo categórico e imperativo hipotético em Kant e duas partes da alma humana segundo Platão.

 

B) Princípio lógico do terceiro excluído e lei dialética da contradição principal.

 

C) Hierarquia dos valores, ideologia e teleologia.

 

 

4) Disserte sobre o seguinte tema:

 

“A teoria das quatro causas e a teoria do ato e da potência de Aristóteles aplicada a:

 

 A) A acção voluntária de marcar uma grande penalidade contra a equipa adversária num jogo de futebol.  

 

 

5) Disserte sobre os seguinte tema:

 

a)- É compatível a existência dos arquétipos e da reminiscência da teoria de Platão com o livre-arbítrio? Justifique.

 

b)- Onde há maior grau de liberdade humana: no determinismo com livre-arbítrio ou no indeterminismo com livre-arbítrio ou no fatalismo? Justifique.

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA: 20 VALORES)

                                                                       

1)  (NOTA: A FRASE VALE 2 VALORES). O realismo gnosiológico é a corrente que sustenta que há um mundo material exterior ás mentes humanas e, portanto, é transcendente a estas, ao passo que o idealismo gnosiológico é a corrente que sustenta que o mundo material está contido dentro da minha imensa mente cósmica e é irreal, desaparece se eu me extinguir, logo é imanente a mim. (A FRASE SEGUINTE VALE 3 VALORES).Os juízos de valor, isto é, as proposições que opinam com base no belo e no feio, no justo e injusto, no bem e no mal assentam quase sempre na intersubjetividade ou modo de pensar comum a várias subjetividades e conduzem muitas vezes ao relativismo, doutrina que afirma que os valores e a verdade variam de pessoa a pessoa, de povo a povo, de classe a classe social, de época a época, e ao ceticismo, doutrina que duvida das teorias científicas, religiosas, políticas, etc, e mesmo da existência dos entes ausentes ou invisíveis. 

 

 2)  (NOTA: VALE DOIS VALORES). «Entendi ser injusta» é valor de função espiritual , isto é, um modo de perceber os valores éticos (justo e injusto) que, segundo Scheller, integra a esfera dos valores espirituais. «Enchi-me de coragem e intervim » é valor de função vital sendo o meu corpo um valor de coisa - a esfera dos valores vitais é a que se centra no anímico, no estado da alma, englobando o nobre e o vulgar, o excelente e o ruim, o sentir-se corajoso ou cobarde, jovem ou velho, vencedor ou vencido, etc. «Fui apreciar» é valor de função espiritual-estética, «os quadros do Museu Regional de Beja» é valor de coisa e pertence à esfera dos valores espirituais, que engloba a estética. «Fiz um teste de Matemática» é valor de função espiritual-científica, já que a ciência se centra nos valores de verdadeiro e falso, num sentido utilitário. «Almocei» é valor de função sensível e «frango assado» é valor de coisa, situada na esfera dos valores sensíveis. «Agradeci à divindade» é valor de função da esfera do santo e do profano, «sob um sol agradável» é valor de coisa da esfera dos valores sensíveis. 

 

3) A) (VALE 2 VALORES) O imperativo categórico ou verdadeira lei moral segundo Kant - age como se quisesses que a tua ação fosse uma lei universal, isto é. aplicável imparcialmente a todos e sem te beneficiar a ti em exclusivo - equivale ao Nous, ou inteligência filosófica em Platão, que é a parte racional e superior da alma humana. O imperativo hipotético ou falsa lei moral segundo Kant - age beneficiando-te antes de mais a ti mesmo ou a ti e alguns amigos, secundarizando ou prejudicando outras pessoas - e equivale à epithimya ou concupiscência, isto é, à parte inferior da alma, aos instintos de comer, beber, possuir riquezas, devaneios sexuais egoístas, etc.

 

3) B) (VALE 2 VALORES) O princípio do terceiro excluído afirma que cada coisa ou qualidade é ou não é, pertence ao grupo A ou ao grupo não A, cria dois campos, e é similar à lei da contradição principal porque esta reduz a dois polos fundamentais as múltiplas contradições de um sistema. Exemplo: a contradição principal na II Guerra Mundial foi a que opôs os Aliados (Grã-Bretanha, EUA, Canadá, França livre, Brasil, etc) ao Eixo (Alemanha, Itália, Japão) havendo alguns países neutrais como Portugal, Espanha, Suíça, polos fora da contradição principal (esta deveria chamar-se, em rigor, contrariedade principal, de acordo com a terminologia aristotélica)..

 

4) A) (VALE 2 VALORES) Hierarquia de valores é a escala de valores, desde os mais elevados aos mais baixos ou contravalores. Em cada ideologia, isto é, sistema de ideias e valores de um dado grupo social ou povo há uma hierarquia de valores e uma teleologia ou estudo das finalidades dos processos naturais ou das finalidades dos valores. Exemplo: na ideologia burguesa, a hierarquia de valores coloca como valor supremo o direito a enriquecer através da acumulação de capitais como empresário ou investidor na bolsa em regime liberal, e põe como contravalores o comunismo, o anarquismo coletivista, a expropriação dos capitalistas e o fim da economia livre de mercado e tem por teleologia os valores do crescimento económico e de uma vida de prazer e conforto material material em liberdade.

 

4) a)(VALE 2 VALORES) A ação voluntária de marcar uma grande penalidade tem como causa formal - neste caso uma sucessão de formas- a corrida do jogador para a bola e o pontapé nesta rumo à baliza. Como causa material, a chuteira do jogador e a bola de couro. Como causa eficiente, o jogador que remata. Como causa final, marcar golo. Em ato, é o remate, em potência é a bola entrar ou não entrar na baliza.

 

5) a) (VALE 2 VALORES) O livre-arbítrio ou liberdade racional de deliberar como agir é compatível com os arquétipos de Bem, Belo, Justo, Número e outras formas espirituais puras existentes, segundo Platão, num mundo inteligível acima do céu visível. Podemos ou não inspirar-nos nos arquétipos. ao desenvolver ações terrenas - e isso é livre-arbítrio. As reminiscências são lembranças vagas dos arquétipos e são compatíveis com o livre-arbítrio.

 

5) b) (VALE 2 VALORES) O maior grau de liberdade, aparentemente, existe no determinismo com livre-arbítrio (os manuais chamam-lhe: determinismo moderado), doutrina segundo a qual a natureza se rege por leis necessárias, fixas e inflexíveis (as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos) e temos liberdade para escolher este ou aquele determinismo, cujos efeitos conhecemos. Em seguida, com menor grau de liberdade, porque não conhecemos os seus contornos, vem o indeterminismo com livre-arbítrio (alguns manuais chamam-lhe libertismo...) isto é a doutrina segundo a qual a natureza não tem leis fixas e absolutamente previsíveis (exemplo: ao partir um ovo de galinha, não é certo encontrar clara e gema dentro, posso encontrar um trevo ou uma pérola) e sou livre de escolher. No fatalismo, doutrina segundo a qual os acontecimentos estão predestinados desde a mais remota antiguidade, não há livre-arbítrio.

 

NOTA: Há respostas alternativas a estas em algumas perguntas. O professor corretor deve ser flexível na captação de outras vias de racionalidade sugeridas por alguns alunos. Os conteúdos filosóficos deste teste estão todos contidos potencialmente no programa de filosofia, basta discerni-los,  trazê-los à superfície. Na rubrica «O que é a filosofia» é possível a um professor dotado de visão holística e de rigor concetual ensinar a teoria de Platão (arquétipos, Mundos do Mesmo, do Semelhante e do Outro, reminiscência, participação, etc) princípios da lógica e leis da dialética, as teorias do ato e da potência de Aristóteles,etc.

Vejamos um segundo teste.  

 Escola Secundária com 3º ciclo Diogo de Gouveia, Beja

 

 

TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA D

 

Dezembro de 2011           Professor: Francisco Queiroz

 

I

 

“ A hierarquia de valores implica sempre o preferir e o postergar de valores. A lei dialética do uno parece relacionar-se mais com o tó on de Aristóteles mas a lei do devir parece ligar-se mais ao tó tí. Os juízos de valor levam muitas vezes ao relativismo ou mesmo ao ceticismo.»

 

 

1) Explique, concretamente, cada uma destas frases.

 

                                                                II

 

“ Estive a contemplar e apreciar um quadro de Picasso, depois bebi um sumo de laranja, senti-me animado com um telefonema em que me prometiam emprego por eu ter altas classificações em informática e agradeci à Divindade no meio de um campo sob um sol agradável.”

 

 

2), Identifique, nos termos a negrito deste texto, as quatro esferas de valores segundo Max Scheler e ainda valores de coisa e valores de função.

 

 

 

3) Relacione, justificando:

 

 

A) Dualismo antropológico e moral em Kant e duas partes da alma humana segundo Platão.

 

B) Realismo e idealismo gnosiológico.

 

C) Arquétipo em Platão, metafísica e conceito noético ou metaempírico.

 

 

4) Disserte sobre o seguinte tema:

 

A teoria das quatro causas e a teoria do ato e da potência de Aristóteles aplicada a:

 

 

A) A escola Diogo de Gouveia.

 

B)  A acção voluntária de recolher alimentos a favor dos mais carenciados.

 

 

5)Disserte sobre os seguinte tema:

 

 

A)- Poderia haver valores éticos, estéticos e científicos se não houvesse livre-arbítrio? Justifique.

 

 B)- Onde há maior grau de liberdade humana: no determinismo com livre-arbítrio ou no indeterminismo com livre-arbítrio ou no fatalismo? Justifique.

  

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA: 20 VALORES)

 

1) A) (A FRASE SEGUINTE VALE 1 VALOR) A hierarquia dos valores, isto é, o escalonamento ou escala destes de cima a baixo, implica o preferir, isto é, adotar alguns, e o postergar, isto é, o rejeitar ou colocar em último lugar de outros (exemplo: se prefiro a honestidade estou a postergar a desonestidade). (AS FRASES SEGUINTES VALEM 2 VALORES, NO TODO) A lei dialética do uno sustenta que no universo todas as coisas estão ligadas entre si fazendo um imenso Um ou Uno e o tó on, isto é, o ente, o que existe, referido por Aristóteles, é uma qualidade universal de todas as coisas, algo que as une, uma existência comum. A lei do devir sustenta que tudo está em devir ou incessante mudança e isso parece ligar-se ao tó tí, isto é, ao quê é, à forma ou essência particular, ao aspeto definidor (exemplo: o tó tí da semente, isto é, a sua forma distintiva, transforma-se no to tí da árvore, etc).(A FRASE SEGUINTE VALE DOIS VALORES). Os juízos de valor, isto é, as proposições fundadas nas noções de belo/feio, justo/injusto, bom/mau, levam muitas vezes ao relativismo, doutrina que constata que os valores variam de pessoa a pessoa, de classe a classe social, de povo a povo, de época a época, etc, e ao ceticismo, doutrina que duvida das teorias científicas, religiosas, políticas, etc, e de tudo o que esteja ausente à observação direta.

 

2) ( VALE 3 VALORES) "Estive a contemplar e apreciar" é valor de função estética ou valor de perceber o belo (esfera dos valores espirituais), "um quadro de Picasso" é valor de coisa, segundo a teoria de Max Scheler. «Bebi um sumo de laranja" é valor de função sensível (esfera dos valores sensíveis). «Senti-me animado com um telefonema» é valor de estado vital (estado de alma refere-se à esfera dos valores vitais) sendo o telefonema um valor de função vital, porque me anima, e de função espiritual, porque me comunica intelectualmente o valor de verdadeiro contido na informação de eu "ter altas classificações em informática" (estas representam um valor espiritual-científico de coisa). "Agradeci à divindade" é um valor de função da esfera do santo e do profano , "sob um sol agradável"é um valor de função e de coisa da esfera dos valores sensíveis.

 

3) A) (VALE DOIS VALORES) Dualismo antropológico e moral em Kant significa a divisão do ser humano (antropos) , feita por este filósofo, em dois polos, no plano moral: o eu numénico ou racional, gerador do imperativo categórico ou verdadeira lei moral, baseado na equidade universal e na ausência de egoísmo, e o eu fenoménico ou corporal, gerador do imperativo hipotético ou falsa lei moral, baseado no interesse egoísta do sujeito e na falta de equidade. O primeiro, numénico, equivale ao Nous, ou parte superior e racional da alma que contempla os arquétipos, segundo Platão, o segundo, fenoménico, equivale à Epithimya ou concupiscência, parte inferior da alma.

 

3) B) (VALE DOIS VALORES) O realismo gnosiológico sustenta que o mundo material é real em si mesmo e transcendente às mentes humanas. Ao invés, o idealismo gnosiológico sustenta que o mundo material está contido dentro da única ou das múltiplas mentes humanas, não sendo real em si mesmo.

 

3) C) (VALE DOIS VALORES) Arquétipo, em Platão, é uma forma espiritual eterna, imutável, imóvel e perfeita, situada acima do ceu visível, que serve de modelo aos entes do mundo terrestre: os arquétipos de Bem, Belo, Justo, Igual, Número Dois, etc. Conceito noético ou metaempírico é a ideia, formalmente subjetiva, que a mente humana forma de arquétipo, a representação deste no Nous ou inteligência superior. Tanto o arquétipo como o conceito noético que dele temos são metafísicos, visto que metafísica é a região dos objetos invisíveis e impalpáveis que transcendem a esfera dos sentidos e a natureza física percetível.

 

4) A) (VALE 2 VALORES)  A teoria das quatro causas, de Aristóteles, aplicada à Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja, resulta assim: a causa formal é a forma do edifício escolar, incluindo as salas, laboratórios, etc; a causa material é a matéria usada na construção, isto é, tijolo, ferro, cimento, mármore, telha, plástico, alumínio, etc; a causa eficiente é quem fabricou a escola, isto é, o onjunto dos pedreiros, carpinteiros, eletricistas, canalizadores, arquitetos, engenheiros, empreiteiros; a causa final é o desenvolvimento dos conhecimentos cientíicos e humanísticos e das habilidades técnicas dos alunos, a sua certificação e a constituição de um polo de saber irradiante, em que os professores são peça fundamental. A teoria do ato e da potência aplicada é a seguinte: a escola é uma escola secundária em ato ou realidade presente e é uma universidade ou qualquer outra coisa em potência, isto é, no futuro previsível.

 

4) B) (VALE UM VALOR) A ação de recolha de alimentos a favor dos carenciados tem como causa formal os gestos sucessivos de agarrar alimentos e transportá-los (gestos são formas moventes). Como causa material, tem os alimentos e os corpos dos que os carregam. Como causa eficiente, os doadores dos alimentos e os voluntários que os levam. Como causa final, alimentar as pessoas carenciadas.

 

5) A) (VALE DOIS VALORES) O livre-arbítrio ou liberdade racional de deliberar como agir é compatível com os valores éticos de bem e de mal, justo e injusto, com os valores estéticos de belo e feio, sublime e horrível, e com os valores científicos de verdadeiro, falso e verosímil. Livre-arbítrio é uma faculdade racional e valores são qualidades ou essências exteriores a essa faculdade racional.

 

5)B) (VALE 2 VALORES) O maior grau de liberdade, aparentemente, existe no determinismo com livre-arbítrio (os manuais chamam-lhe: determinismo moderado), doutrina segundo a qual a natureza se rege por leis necessárias, fixas e inflexíveis (as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos) e temos liberdade para escolher este ou aquele determinismo, cujos efeitos conhecemos. Em seguida, com menor grau de liberdade, porque não conhecemos os seus contornos, vem o indeterminismo com livre-arbítrio (alguns manuais chamam-lhe libertismo...) isto é a doutrina segundo a qual a natureza não tem leis fixas e absolutamente previsíveis (exemplo: ao partir um ovo de galinha, não é certo encontrar clara e gema dentro, posso encontrar um trevo ou uma pérola) e sou livre de escolher. No fatalismo, doutrina segundo a qual os acontecimentos estão predestinados desde a mais remota antiguidade, não há livre-arbítrio.  

 

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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
Aristóteles: o erro àcerca das essências só ocorre por acidente

 

Não há dúvida de que Aristóteles era um platónico «envergonhado». Postulava que as formas, como, por exemplo, azul, cavalo, homem, existiam desde a eternidade. Se existiam anteriormente às coisas materiais, constituíam um mundo inteligível similar ao de Platão - com a única diferença de que as formas em Platão eram singulares e únicas e em Aristóteles são singular-colectivas, anteriores aos objectos mas actualizáveis nestes. Senão atente-se nesta passagem:

 

«Mais exactamente, a verdade e a falsidade consistem nisto: a verdade em captar e enunciar a coisa (pois enunciar e afirmar não são o mesmo); enquanto que ignorá-la consiste em não a captar (já que não tem lugar o erro acerca do quê-é, a não ser acidentalmente) e o mesmo sobre as substâncias carentes de composição: não é possível, certamente, o erro acerca delas; e todas elas são em acto, não em potência, já que, se não fosse assim, gerar-se-iam e destruir-se-iam, mas o que é mesmo não se gera nem se destrói, pois teria que gerar-se a partir de outra coisa. Assim, pois, a respeito das coisas que são uma essência, e que são actos, não é possível errar, mas captá-las ou não» (Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1051 b, 20-30; o negrito é de minha autoria).

 

Que significa que o erro sobre a essência só pode ocorrer acidentalmente ? Vou dar um exemplo de como interpreto esta frase. Suponho que todos apreendem as essências de sete, dezanove e trinta e três. Mas, embora a generalidade das pessoas saiba que multiplicar o número-essência 7 pelo número-essência 19 dá como resultado o número-essência 153,  pode ocorrer que uma, por acidente, cometa o equívoco de considerar o número-essência 163 como resultado da multiplicação.

 

.As essências estão em acto em si mesmas e em potência para os objectos físicos que virão a surgir no tempo - esta é a leitura dialética da posição de Aristóteles. Ao dizer que «o que é mesmo não se gera nem se destrói» Aristóteles revela-se um platónico: a essência é eterna e imutável e tem de subsistir, em acto, fora dos objectos físicos, para além de existir nestes. No entanto, o Estagirita não crê no mundo inteligível de Platão acima do céu visível, com os arquétipos. Fez este mesmo mundo descer à imanência, imergir na matéria prima universal ou hylé.

 

 

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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011
Aristóteles interpreta Platão: o Grande e o Pequeno não seriam Formas mas Princípios imanentes à matéria

 

Aristóteles compara do seguinte modo o platonismo ao pitagorismo: 

 

« Platão afirma ademais, que entre as coisas sensíveis e as Formas existem as Realidades Matemáticas, distintas das coisas sensíveis por serem eternas e imóveis, e das Formas porque há muitas semelhantes,enquanto que cada forma é somente uma e ela mesma. E posto que as Formas são causas do resto, pensou que os elementos de aquelas são os elementos de todas as coisas que são , que o Grande e o Pequeno são princípios enquanto matéria e que o Uno o é enquanto substância. Com efeito, a partir de aqueles, por participação no Uno, as Formas são os Números. E quanto a que o Uno é, por seu lado, substância, e não se diz que é uno sendo outra coisa, pronunciou-se de modo muito próximo aos Pitagóricos, e igual a estes a respeito de os Números serem causa da substância das demais coisas.

 

«Sem embargo, é próprio dele ter posto uma Díade em vez de entender o Ilimitado como uno, assim como haver afirmado que o Ilimitado se compõe do Grande e do Pequeno e ademais distingue-se em que ele situa os Números fora das coisas sensíveis, enquanto que aqueles que afirmam que os Números se identificam com as próprias coisas, e, portanto, não situam as realidades matemáticas entre as Formas e o sensível. O situar, de modo diferente dos pitagóricos, o Uno e as Números fora das coisas e a introdução das Formas surgiu como consequência de que a sua investigação se manteve ao nível dos conceitos.» (Aristóteles, Metafísica, Livro I, 987 b, 15-30; o negrito é posto por mim).

 

 

Neste texto, Aristóteles além de distinguir Platão de Pitágoras quanto à natureza respectivamente transcendente (platonismo) ou imanente (pitagorismo) dos Números, afirma que, na doutrina de Platão, o Grande e o Pequeno compõem o Ilimitado, isto é, o espaço vazio material (a Chora) que Platão teorizava como oposto ao mundo inteligível das Formas ou Arquétipos. A matéria seria dual, não una, ao contrário do mundo das Formas, Uno primordialmente e em simultâneo e de forma derivada, múltiplo. Aparentemente, a dimensão ou extensão - isto é, o Grande e o Pequeno - constituem a essência primordial, imanente, da matéria. Terá Descartes ido beber aqui a ideia da extensão como a natureza do mundo material?

 

A frase algo enigmática «a partir de aqueles (Grande e Pequeno) as Formas são Números» parece-me significar o seguinte: os Números, como intermédio, entre o singular único ( exemplo: o Belo, o Triângulo, o Cubo) e as coisas materiais multiplicam as imitações da Forma (teoria da participação) de maneira a que estas configurem as coisas. Esta configuração das coisas faz-se através da Díada do Grande e do Pequeno, dois princípios aparentemente residentes na matéria indiferenciada que espera receber a imagem das Formas através dos Números.

 

Se o Igual, o Maior e o Menor são arquétipos, formas do mundo inteligível, não deveriam igualmente o Grande e o Pequeno figurar nesse mundo? Sim, a menos que Grande e Pequeno designem quantidades definidas, aprisionadas na matéria  - exemplo: homem com estatura de 160 centímetros é pequeno, com estatura de 170 a 175 centímetros  é moderamente grande, com estatura de 200 a 220 centímetros é muito grande - e não tenham o carácter abstracto e perene das Formas.

 

 

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Sábado, 10 de Setembro de 2011
O noológico inclui o ontológico?

 

O noológico inclui o ontológico ou é concomitante mas exterior a este? O nous inclui o ser ou é apenas o pensar, o intuir intelectualmente o ser? O nous é o espírito, uma faculdade superior que habita o ente humano e tem um mundo imaterial próprio. Esse mundo superior é noético ou inteligível e, na doutrina de Platão, é autosubsistente, em si e por si.

 

O noológico enquanto faculdade de apreensão dos arquétipos, realidades ontonoológicas, não inclui o ontológico (em sentido geral) porque é antropológico: está centrado no homem e canaliza-se para o ser arquetípico objectivo. Engloba o eidético ou eidológico (a forma reflectida) mas não o ontológico (o ser em si mesmo) de cada arquétipo. Mesmo chegando a intuir o arquétipo de Belo em si, chegamos ao eidológico, mas não ao ontológico pois esse é a realidade substancial de cada arquétipo, é o próprio arquétipo a partir de dentro.

 

Poderíamos dizer que há um noológico objectivo e um noológico transubjectivo: o primeiro é composto pelos arquétipos em si mesmos, exteriores à mente humana, pensáveis mas não pensantes; o segundo é o reflexo do primeiro na mente de cada homem e supõe um movimento de apreensão intelectual-espiritual, que designo de transubjectivo - ultrapassa a subjectividade, embora iniciando-se nela - que se patenteia, por exemplo, nas intuições intelectuais de Belo, de Mesmo, de  Diferente.


 

 

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Terça-feira, 5 de Julho de 2011
Sobre "O Ente e a Essência": ambiguidades em São Tomás e em Santiago de Carvalho

 

Com prefácio do catedrático medievalista Mário Santiago de Carvalho, a Contraponto editou em 1995 "O ente e a essência"  de São Tomás de Aquino. Servi-me dessa edição para leccionar a estudantes alentejanos uma parte do já "desaparecido", na minha escola, programa de Filosofia do 12º ano do ensino secundário em Portugal, que incluía a escolha de três entre vinte obras conceituadas de filosofia. Tanto o texto original de São Tomás como o prefácio de Mário Santiago de Carvalho padecem de imprecisões teóricas, algumas das quais passo a explanar.

 

O ARISTOTELISMO NÃO É ESSENCIALISMO?

 

Em prefácio de uma edição portuguesa de "O Ente e a Essência" de São Tomás de Aquino escreveu Mário Santiago de Carvalho:

 

« Como se insistiu, este é um mérito de Tomás de Aquino, e ele terá consistido em servir-se com rigor da lógica, elucidando-a e pondo-a ao serviço das tarefas da ontologia Este é portanto um aspecto que não quereríamos desvalorizar , pois é, de facto, a linguagem da lógica, o aristotelismo, com o avicenismo e o essencialismo, que galvanizam este texto. » (Mário Santiago de Carvalho in prefácio de "O Ente e a essência" , pag 61, Contraponto, Porto).

 

Que significa para Mário Santiago o termo essencialismo? Tudo leva a crer que significa platonismo, pois separa aristotelismo de essencialismo. Trata-se de um equívoco: o aristotelismo é um essencialismo, uma vez que nele as essências antecedem a existência das coisas materiais, tal como em Platão.

 

A AMBÍGUA DISTINÇÃO ENTRE ESPÉCIE E "NATUREZA HUMANA"

 

São Tomás, enquanto fiel a Aristóteles, distinguiu entre a essência em si mesma (segundo a sua absoluta consideração) e a essência individuada (segundo o ser que possui em cada indivíduo):

 

«Mas a natureza ou essência assim compreendida pode ser considerada de dois modos. Do primeiro modo, segundo a sua noção própria, que é a sua absoluta consideração. (...) Por exemplo, ao homem enquanto homem, corresponde-lhe "racional" e "animal" e outros predicados que entram na definição; mas ser branco ou negro, ou qualquer outra coisa semelhante que não pertença à noção de "humanidade" não corresponde ao homem enquanto homem». (...)

 

«Do segundo modo considera-se (a essência)  segundo o ser que possui neste ou naquele indivíduo. Neste caso, pode atribuir-se-lhe algo por acidente, em razão daquilo em que se encontra. Por exemplo, diz-se que o homem é branco, porque Sócrates é branco, embora isso não pertença ao homem enquanto homem.» (São Tomás de Aquino, "O Ente e a Essência", pag 82-83)

 

«Compete pois à "natureza humana", segundo a sua consideração absoluta, ser atribuída a Sócrates. A noção  de espécie, por sua vez, não lhe compete segundo a sua absoluta consideração, mas deriva de acidentes que a acompanham segundo o ser que possui no intelecto. Por esse motivo, o termo de espécie não é atribuído a Sócrates, como se se dissesse "Sócrates é espécie". Mas isso teria necessariamente de suceder, se a noção de espécie conviesse ao homem segundo o ser que tem em Sócrates, ou segundo a sua absoluta consideração, quer dizer enquanto é homem.» (Tomás de Aquino, ibid, pag 85).

 

Se a "natureza humana", que é o mesmo que a essência homem, como .São Tomás diz no início do livro, convém ao indivíduo Sócrates, porque razão "espécie ´não poderia ser atribuída a homem? É óbvio que, no sentido da extensão, da quantidade dos indivíduos que a integram, Sócrates não é a (toda a) espécie humana, e neste sentido, espécie não lhe convém. Mas do ponto de vista da essência, da forma comum à espécie, esta convém a Sócrates a ponto de se poder dizer: "Sócrates é uma incarnação ou exemplificação da espécie humana" . Aristóteles identificou bem a essência com a espécie (eidos) .O texto de Aquino acima tem falta de clareza.

 

O ABSOLUTO É EXTERIOR AO SINGULAR E AO UNIVERSAL? A ESSÊNCIA É MÚLTIPLA NA ALMA?

 

Referindo-se aos dois modos de considerar a essência teorizados por São Tomás, escreveu Mário Santiago de Carvalho:

 

«A consideração absoluta é evidentemente o ideal da ciência, o índice de que é genuinamente científica a linguagem que fazemos. (...) Sempre que possível, o ontólogo deve privilegiar este plano que não é singular nem universal, mas é absoluto

«No segundo modo, a natureza ou essência já não se considera na sua significação, mas na sua realização. Encontramo-nos a um nível menos abstracto. Neste segundo plano acontece aquilo que se recusava ao primeiro. Se, neste, a essência não podia ser una nem múltipla, já no segundo caso é isso que acontece, ela é múltipla na alma (qualquer conceito é universal) e é una na realidade (os unissingulares)». (Mário Santiago de Carvalho, in introdução de "O Ente e a Essência", pag 36; o negrito é de minha autoria).

 

 

Por que razão o plano da essência na sua consideração absoluta (exemplo: "o homem enquanto homem") «não é singular, nem universal, mas absoluto», segundo Santiagpo de Carvalho?

Há uma confusão antidialéctica de níveis neste pensamento de Mário Santiago. O absoluto engloba o singular, o particular (no sentido de parte, regional, grupo de entes da mesma espécie) e o universal. Absoluto não se opõe a singular e universal mas  sim a relativo: há um singular absoluto e um universal absoluto, um singular relativo e um universal relativo.

 

Mário Santiago de Carvalho afirma que no caso do seu modo da consideração absoluta «a essência não poderia ser una nem múltipla». Mas sustentar isto é violar o princípio do terceiro excluído: ou as coisas são unas ou não unas, isto é, são múltiplas. Há coisas que são unas e múltiplas em simultâneo, segundo a perspectiva. A essência é sempre una. A essência "cavalo" no seu modo de consideração absoluta - o cavalo enquanto cavalo - é única em todas as mentes humanas: um quadrúpede, mamífero hipomorfo, da ordem dos ungulados, com crinas, veloz, uma das três sub-espécies da espécie Equus Ferus.

Como pode Mário Santiago asseverar que a essência não é una? É um paralogismo.

 

E afirma ainda que a essência no modo que tem em cada singular "é múltipla na alma (qualquer conceito é universal) e una na realidade (os unissingulares).» Grande nuvem de confusão aqui paira!  A essência de Sócrates, que é a essência homem individuada em Sócrates, é una na alma (na percepção, no pensamento) e não múltipla. Podemos admitir que diferentes pessoas conceptualizem Sócrates de modo diferente - e aqui entra a multiplicidade - mas cada uma delas o conceptualiza de forma una.

 

Quando Santiago de Carvalho diz que «qualquer conceito é universal» equivoca-se no que toca à filosofia de Aristóteles: segundo este, as espécies não são conceitos universais mas sim comuns, isto é, «regionais», abrangendo comunidades sectoriais. Só o género e os universais supra-genéricos, como o ser, o uno, o semelhante, etc, são universais.

 

ARISTÓTELES NÃO CONCEBIA COMO UMA ESSÊNCIA CHEGA À EXISTÊNCIA?

 

Escreve ainda Mário Santiago de Carvalho, referindo-se à pretensa superioridade  do pensamento de Tomás de Aquino sobre o de Aristóteles:

 

«Podemos dizer, em resumo deste capítulo, o seguinte: ao substituir a teoria do hilomorfismo universal São Tomás pôs em relevo um tipo de composição muito particular, o da essência com a existência. (...) Considerada deste ponto de vista, à substância ou ao concreto como primeiro objecto da ontologia acresce uma consideração que Aristóteles não podia conceber (como é que uma essência chegou à existência? - como é que esta essência se mantém em existência?)» (Mário Santiago de Carvalho in Introdução de "O Ente e a Essência", pag 49: o negrito é posto por mim).

 

Ao contrário da tese que sustenta Mário Santiago de Carvalho de que o Estagirita grego não  concebia como é que as essências se mantinham em existência, Aristóteles concebia as essências como autosubsistentes, eternas, incriadas, acto, e, portanto, não se punha o problema de as essências chegarem à existência como o põe o cristianismo de São Tomás que identifica Deus com a existência pura, suporte das essências:

 

«As coisas eternas são, quanto à substância, anteriores às coisas corruptíveis e nada que esteja em potência é eterno. (...) O corruptível em sentido absoluto é o corruptível quanto à substância. Portanto, nenhuma das coisas que são incorruptíveis em sentido absoluto está em potência em sentido absoluto. (Nada impede que o esteja em algum aspecto, por exemplo, quanto à qualidade ou ao lugar.) Logo todas elas estão em acto. Tão pouco está em potência qualquer das coisas que são necessariamente. (Certamente, estas são as realidades primeiras; e, desde logo, se elas não existissem, não existiria nada.)» (Aristóteles, Metafísica, Livro IX, 1050 b, 15-20)

 

Este texto é muito claro: as essência, por exemplo a essência cavalo ou a essência árvore são incorruptíveis, anteriores aos cavalos e às nuvens físicas, e estão em acto. Isto é platonismo. Essas essências, actos em si mesmas, estão em potência para os cavalos e nuvens que se gerarem, materialmente, no futuro próximo ou longínquo. 

 

 

O mundo em Aristóteles, é eterno e incriado. Tanto quanto me é dado perceber, o cosmos apenas passou do repouso ao movimento dos astros e esferas celestes quando os planetas e estrelas contemplaram Deus, o pensamento puro e imóvel, e desejaram alcançá-lo pondo-se a rodar. As essências eternas - Sol, Lua, Vénus, Júpiter, esferas celestes, árvore, montanha, homem, cavalo, etc - não foram criadas por Deus, como sustentavam São Tomás e os teólogos cristãos, coexistem desde a eternidade com o próprio Deus, não recebem deste a existência.

O problema da essência (to ti en einai) e da existência (einai, to ón) já está colocado por Aristóteles, não é um tema que principiasse com São Tomás de Aquino. A essência eterna, forma pura, já possui existência, uma existência imaterial.

 

A INTENÇÃO (INTENTIO) É UM CONHECIMENTO DE MÉDIA DIMENSÃO?

 

Sobre a intenção (intentio), noção existente na filosofia do Aquinate e em outras da escolástica, escreveu Mário Santiago de Carvalho:

 

«Examinando mais atentamente o que isto quer dizer,  verifica-se que entre a singularidade individual (cada um dos homens) e a universalidade (o conceito, que enuncia o que há de comum aos homens) há um modo de ser próprio, intermediário, que é o modo de ser de uma determinada natureza na inteligência. O modo de ser na inteligência (i.e. o modo como se concebe uma dada realidade) partilha de ambas as notas. Ele é universal (porque se aplica uniformente aos vários indivíduos da mesma espécie) e particular (porque é apenas e sempre a representação mental do indivíduo que num certo momento pensa,»

«É este modo de ser intermediário (a que se dá o nome de "intencional") com as suas notas, que mais nos deve ocupar...» (Mário Santiago de Carvalho, Introdução a "O ente e a essência", pag 37, Contraponto; o negrito é colocado por mim). 

 

 

A intentio é a percepção empírica, o dado fenoménico, ou o conceito, isto é a ligação entre o cérebro/ inteligência ou orgão sensorial e os objectos físicos exteriores,que pode ou não exprimir integralmente o ser dos objectos exteriores. Guilherme de Ockham escreveu:

 

«É pois, a saber, que se chama intenção da alma algo que há nela apto para significar outra coisa (...)assim as palavras são signos secundários daquelas coisas das quais são signos primários as intenções da alma. Isso que há na alma, e que é signo da coisa, e do qual se compõe a proposição mental ao modo como a proposição oral se compõe de palavras, se chama algumas vezes intenção da alma; outras, conceito da alma; outras, paixão da alma; outras, semelhança da coisa..» (Ockham, Suma de la lógica in Los filósofos medievales, selección de textos, de Clemente Fernandez, pag 1074, Biblioteca de Autores Cristianos; o negrito é por mim colocado)

 

Daqui se conclui apenas que a intentio é posicionalmente um intermédio entre o mundo físico exterior e a consciência vazia ou parcialmente vazia do indivíduo. Mas não se pode dizer que a intentio é, por natureza, um intermédio no plano gnosiológico, um conhecimento misto de singular e universal, como sustenta Santiago de Carvalho no texto acima. Os números um, dois, três e quatro são intenções e constituem conceitos universais que se aplicam a biliões de singulares. Em si o conceito de dois não é singular: é um universal, aplicável universalmente a casos singulares.

 

A ESSÊNCIA DE HOMEM E A DE SÓCRATES DIFEREM SÓ NA QUESTÃO DO LIMITADO/ILIMITADO? OU TAMBÉM NO QUID DA FORMA?

 

 

Por matéria delimitada, São Tomás de Aquino entende a matéria concreta, tridimensional, com dimensões corporais definidas. Por exemplo: este homem de 189 centímetros de altura, aquela casa de 120 metros quadrados de área coberta. Escreveu o Aquinate:

 

 

«Por esta razão, deve saber-se que o princípio de individuação não é a matéria considerada de qualquer modo mas unicamente a matéria delimitada. Chamo "matéria delimitada" à que se considera submetida a dimensões determinadas. Ora esta matéria não entra na definição de homem, mas entraria na definição de Sócrates, se Sócrates tivesse definição. Na definição de homem, ao contrário, entra a matéria não-delimitada. Na definição de homem, não se põem estes ossos e esta carne, mas os ossos e a carne tomados em abstracto, que constituem a matéria não-delimitada do homem. É evidente, por conseguinte, que a essência de homem e a essência de Sócrates não diferem senão quanto ao "delimitado" e ao "não-delimitado" ». (Tomás de Aquino, O Ente e a Essência, pag 75, Contraponto; o negrito é posto por mim).

 

O equívoco de São Tomás é considerar o delimitado como a diferença entre a essência Sócrates com a essência homem que não tem limites mas apenas a proporção entre as diferentes partes. Mas falta uma diferença essencial que reside no "quid" de cada uma das essências, a individual e a específica: a forma de Sócrates, calvo, nariz achatado, lábios grossos difere da forma homem como espécie - homem não calvo, nariz correcto, etc. É, pois, a disparidade entre duas formas, a que envolve a matéria de cada corpo e a que paira como espécie. 

 

A FORMA É RECIBIDA NA MATÉRIA DELIMITADA?

 

 

Depois de se referir a duas modalidades de essências - a de Deus, que é apenas existir puro, e a das inteligências separadas, que são forma e existência - São Tomás escreve:

 

 

«Na terceira modalidade, a essência encontra-se nas substâncias compostas de matéria e de forma, nas quais o existir é igualmente recebido e finito, já que recebem o existir a partir de outro. Além disso a sua natureza ou quididade é recebida na matéria delimitada. Por esse motivo são finitas, quer pela parte superior quer pela inferior.» (Tomás de Aquino, O ente e a essência, pag 96, Contraponto; o negrito é posto por mim).

 

Neste texto há um erro de São Tomás: originalmente, e na natureza, a forma não é, em regra, recebida na matéria delimitada mas sim na matéria não delimitada, delimitando ou confinando uma porção desta. Pois a matéria só se torna delimitada, isto é, condensada, sujeita a dimensões singulares e concretas, ao receber a forma específica. As árvores nasceram quando a forma árvore se uniu à matéria-prima indeterminada, infinita, não delimitada (hylé). É óbvio que o oleiro faz o vaso imprimindo a forma numa matéria delimitada: uma certa porção de barro. Mas aqui trata-se da arte humana de produzir e não da génese originária na natureza.

 

 

 

A CONTRADIÇÃO DE ARISTÓTELES PATENTE EM SÃO TOMÁS: A ESSÊNCIA SÓ EXISTE NAS COISAS SINGULARES MAS TEM DE EXISTIR PREVIAMENTE  ÀPARTE COMO FORMA ETERNA

 

Toda a "Metafísica" de Aristóteles gira em torno de um eixo dinâmico: um essencialismo ( "as formas ou essências são eternas e preexistem aos objectos materiais" e nisto é igual a Platão) que se procura converter em existencialismo (" as formas essenciais não existem fora dos objectos materiais, fora da existência material" e aqui opõe-se a Platão) mas não tem como fazê-lo, senão mediante uma certa incoerência

 

Aristóteles é um platónico envergonhado. Critica a existência das formas platónicas mas ele mesmo é levado a admitir que as formas são eternas e têm de subsistir por si, fora da matéria. Mário Santiago de Carvalho não dá conta de se ter apercebido desta inconsistência do aristotelismo na introdução à edição que traduziu para português. Neste excerto da "Metafísica" Aristóteles admite que há formas eternas não geradas, ou seja, formas fora da matéria, tal como Platão postulava, e em seguida afirma que não existe a essência esfera fora das esferas materiais (de bronze, pedra, etc) nem a forma casa fora das casas plasmadas na matéria:

 

«Assim pois, é evidente por aquilo que foi dito que não se gera o que se denomina forma ou substância, enquanto que o composto que se denomina segundo esta gera-se, sim, e que em todo o gerado há matéria, e um é isto, e outro é aquilo.»

«Mas existe acaso uma esfera fora de estas ou uma casa fora dos tijolos? A ser assim, não ocorreria que não se geraria nenhum objecto determinado? (...) Assim, pois, é evidente que se existem realidades fora dos indivíduos, tal como alguns costumam falar das Formas, a causalidade das Formas não terá utilidade nenhuma para explicar as gerações e as substâncias.»  (Aristóteles, Metafísica, Livro VII, 1033 b, 15-30).

 

São Tomás cai na mesma incoerência inerente ao aristotelismo:

 

« De maneira semelhante, também não se pode dizer que as noções de género ou de espécie correspondam à essência, enquanto que esta é uma realidade fora das coisas singulares. como afirmavam os PLATÓNICOS» ( Tomás de Aquino, O ente e a essência, pag 82; o negrito é posto por mim).

 

Neste excerto acima, o Aquinate nega que a essência exista fora do objecto singular.

Compare-se agora com o excerto seguinte em que o filósofo dominicano afirma que a essência está fora do objecto singular e fora da alma, o que nega o nominalismo e o conceptualismo irrealista e afirma um realismo platonizante das essências:

 

«Com efeito, é falso dizer que a essência do homem, enquanto tal, tem o ser neste singular. Na verdade, se ser neste singular pertencesse ao homem enquanto é homem, nunca estaria fora deste singular. Paralelamente também, se pertencesse ao homem enquanto é homem não ser neste singular, nunca seria nele. A verdade porém está em dizer que o homem enquanto é homem, não tem que existir neste singular ou naquele, nem na alma.» (Tomás de Aquino, O ente e a essência, paginas 83-84, Contraponto; o negrito é posto por mim).

 

De duas uma: ou a essência «Homem» existe no colectivo de todos os homens e não em cada homem singular; ou existe, algures, aparte, para gerar cada homem ao unir-se à matéria-prima indeterminada (hylé).

 

A única diferença significativa entre Platão e Aristóteles, neste aspecto da cosmogénese, é que o primeiro introduz o demiurgo, um deus-operário, que imprime formas dos arquétipos na matéria e o segundo faz desaparecer, aparentemente, o demiurgo e confere às formas eternas mobilidade, autonomia, para se imprimirem na matéria, uma vez que o Deus aristotélico é imóvel e não intervém no mundo.

 

 

 

 

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f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)

 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:57
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