Domingo, 25 de Janeiro de 2015
Ambiguidade de Hannah Arendt sobre o «ser»

 

Hannah Arendt (14 de Outubro de 1906- 4 de Dezembro de 1975), judia alemã, discípula de Heidegger, usou, como este, a palavra «ser» com uma certa ambiguidade:

 

«A destruição do conceito antigo de ser só foi levada até ao meio. Kant destruiu a velha identidade do ser e do pensamento e com ele a ideia da harmonia préestabelecida entre o homem e o mundo. O que não destruiu, o que implicitamente preservou, foi o não menos antigo conceito, intimamente ligado à ideia de harmonia do ser preexistente cujas leis, em todos os casos, se impõem aos homens. » (Hannah Arendt, Compreensão política e outros ensaios, Antropos, Outubro de 2001, pág. 52; o destaque a negrito é posto por mim.)

 

Por que razão Kant só "destruiu metade do velho conceito de ser"? A que ser se refere Hannah Arendt: ao mundo material com suas leis? A Deus, espírito primordial? Não esclarece. Ambígua, tal como o seu mestre Martin Heidegger...É este o tipo de discurso habitual dos retóricos que triunfam entre as nuvens da imprecisão no céu institucional da filosofia.

 

A visão germanófila da filosofia, que Heidegger e Hannah Arendt possuíam,  apaga o papel do bispo irlandês George Berkeley, predecessor de Kant, e verdadeiro autor, no século XVII, da revolução idealista que destruiu a exterioridade do ser, entendido como mundo de matéria, face ao pensamento, incluindo-o dentro deste último, reduzindo-o a ideia.

Kant é um imitador de Berkeley que desdenha este, falsificando o seu pensamento.

 

Prossegue H. Arendt:

« Sem dúvida, o homem de Kant tem a possibilidade de determinar os seus actos na base da sua boa vontade; ora esses actos encontram-se, eles próprios, submetidos à lei da causalidade, uma esfera essencialmente estranha ao homem. A partir do momento em que um acto do homem sai da esfera subjectiva, entra na esfera objectiva que é a causalidade, perdendo assim a sua qualidade de liberdade (...)»

«Quando Kant fez do homem o senhor e a medida do homem, rebaixou-o simultaneamente à condição de escravo do Ser. Cada um dos filósofos que se lhe seguiram a partir de Schelling, protestou contra esta degradação. A filosofia moderna ocupa-se ainda hoje com esta humilhação do homem acabado de se emancipar. É como se ainda o homem nunca se tivesse elevado tanto nem caído tão baixo...» (Hannah Arendt, Compreensão política e outros ensaios, Antropos, Outubro de 2001, pág. 93.o destaque a negrito é posto por mim. ) 

 

Há vários erros de Hannah Arendt nestes textos. 

 

Um deles consiste em que a liberdade não se limita à esfera subjectiva, como diz Hannah, mas objectiva-se em acções políticas, económicas, etc., da esfera exterior: um sinal da liberdade, relativa, do povo grego, é a votação de 25 de Janeiro de 2015 que dá a vitória ao Syriza. Portanto, a liberdade entra na lei da causalidade social, exterior, e influi ou retorce esta enquanto lhe for possível.

 

Ao definir a lei da causalidade, como «uma esfera essencialmente estranha ao homem» Hannah Arendt equivoca-se: sendo o homem composto por dois «eu», o numénico e o fenoménico, encontra-se, este último, isto é, o eu corpóreo, físico, sujeito às leis de causalidade da fome, da sede, respiração, sono e vigília. Portanto, a causalidade necessária é inerente ao corpo humano que é parte integrante do homem. Não é estranha ao homem, como sustenta H.Arendt.

 

A afirmação «Quando Kant fez do homem o senhor e a medida do homem, rebaixou-o simultaneamente à condição de escravo do Ser.» é absolutamente ambígua, inconsistente. Que Ser é este? A natureza física? Deus? Ou nem um nem outro, como sustentava o seu mestre Heidegger, sem contudo definir o ser que caracterizava como «o mais próximo e o mais distante»? Arendt não é clara, joga na ambiguidade do termo.

 

Hannah Arendt não passa de uma vulgar filósofa de segunda categoria, ao alcance dos medianos que hoje dominam a quase totalidade das cátedras de filosofia.

 

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Segunda-feira, 14 de Julho de 2014
Vitória da Alemanha e da Ciência da Astrologia, derrota do «racionalismo» universitário

 

A vitória da Alemanha sobre a Argentina por 1-0 na final do campeonato mundial do Brasil, neste dia 13 de Julho de 2014, é também uma vitória da Astrologia Científica, Histórico-Desportiva que desenvolvo. Explanei leis astronómicas necessárias que, probabilisticamente (a probabilidade está no nosso modo imperfeito de conhecer, não na realidade em si mesma) apontavam a Alemanha como a mais provável vencedora do mundial. Leis descobertas através do estudo histórico: indução e analogia.

 

 

Este resultado de vitória alemã é igualmente uma derrota para o «racionalismo» estreito que impera em todas as universidades do mundo, que troça da astrologia e proclama «não haver determinismo nem fatalismo planetário na vida social, ´política e desportiva». Os Descartes, Kant, Hegel, Karl Popper, os Carl Sagan, os Russel, os Einstein, Schrodinger, Deleuze, Derrida, Heidegger, Feyneman, Zizeck, Badiou, Singer, Alan Renault e todos os académicos famosos, publicados pelas editoras, com cátedras e subsidiados por Estados e Fundações, foram ou são «burros».

 

Quem nega que tudo ou quase tudo está predestinado pelas movimentações dos planetas no Zodíaco é «burro», isto é, ininteligente - e é mentiroso, objectivamente. As universidades estão dominadas por ininteligentes, «burros» de forte poder retórico! Mentirosos e arrogantes. Gente má, como dizia Paul Feyerabend, incapaz de autocrítica e de abandonar o poder. Os mestrados e doutoramentos em filosofia nada valem, estão infectados de pensamento fragmentado, anti-astrologia, antidialéctico. Os verdadeiros racionalistas somos nós os que possuímos razão holística («Tudo se relaciona com tudo, segundo leis determinadas; o devir dos factos sociais, em baixo (na Terra), é o reflexo do devir ou movimentos planetários, em cima») e investigamos detalhadamente os factos astronómico-sociais.

 

Breve explicação (parcial) do triunfo da Alemanha neste mundial é a semelhança de posições no Zodíaco entre duas finais de vitória alemã: em 7 de Julho de 1974, com  Júpiter em 17º 52´ de Peixes, Úrano em 23º 40´  de Balança e Vénus em 13º 3´ / 14º 14´ de Gémeos,  a Alemanha Federal vence por 2-1 a Holanda na final do Mundial de Futebol no Estádio Olímpico em Munique; em 13 de Julho de 2014com planetóide Quirón em 17º 32´ / 17º 30´ de Peixes, Marte em 23º 32´/ 23º 40´  de Balança e Vénus  em 23º 16´ /24º 29´ de Gémeos, a Alemanha derrota a Argentina por 1-0 na final do campeonato mundial de futebol no Brasil.

 

Conjunturas astrais similares geram acontecimentos sociais e desportivos similares. Tão simples quanto isso.

 

Transcrevo o artigo publicado neste blog em 25 de Março de 2014 intitulado «Marte em 23º-24º de Balança sugere a Alemanha como vencedora do Campeonato do Mundo de 2014»:

 

«Em 25 de Março de 2014, com Marte retrógrado em 24º 7´/ 23º 49´ do signo de Balança, o Bayern de Munique sagra-se campeão da Bundesliga com sete jornadas de antecipação. A Alemanha está em destaque. Ora, em 13 de Julho de 2014, Marte estará praticamente na mesma posição, ainda que o sentido do movimento seja directo: em 23º 32´/ 24º 0´ do signo de Balança.

Isto sugere que a Alemanha será o vencedor do mundial do Brasil. Não podemos garantir em absoluto, claro. Há outros planetas em outras posições no dia da final e desconhecemos várias leis planetário-desportivas.»

 

OS GRAUS 22º-24º DE BALANÇA, TÍPICOS DA ITÁLIA E DA ALEMANHA EM SITUAÇÃO DE FINALISTAS

 

«Os graus 22º-24º do signo de Balança exaltam, com frequência significativa, Alemanha e a Itália como finalistas de uma grande competição de futebol,

 

Em 7 de Julho de 1974, com Úrano em 23º 40´/ 23º 41´ de Balança, a República Federal da Alemanha conquista o título de campeã do mundo de futebol ao vencer por 2-1 a Holanda no Estádio Olímpico, em Munique; em 11 de Julho de 1982, com Plutão em 24º 8´ de Balança, a Itália vence o Campeonato do Mundo de Futebol ao derrotar por 3-1 a RFA, no estádio Santiago Bernabéu em Madrid;em 16 de Outubro de 1985, com Sol em 22º 34´/ 23º 33´ de Balança, em Estugarda, Portugal classifica-se para o Mundial no México ao vencer por 1-0 a Alemanha; em 6 de Setembro de 1997, com Vénus em 22º 53´/ 24º 3´ de Balança, a Alemanha empata 1-1 com Portugal, em Berlim; em 19 de Maio de 2012, com Saturno em 23º 52´/ 23º 49´ de Balança, o Chelsea sagra-se campeão da Europa ao derrotar, por grandes penalidades, após 1-1 em 120 minutos, o Bayern de Munique; em 1 de Julho de 2012, com Saturno em 22º 47´/ 22º 48´ de Balança, a Espanha sagra-se campeã europeia de futebol ao vencer, na final, a Itália por 4-0; em 8 de Fevereiro de 2014, com Marte em 24º 56´/ 25º 9´ de Balança, a Itália sagra-se campeã da Europa em futsal ao vencer por 3-1 a Rússia, na final, em Antuérpia.

 

Em 13 de Julho de 2014, com Marte em 23º 32´/ 24º 0´ de Balança, jogar-se-á a final do campeonato do mundo. Por que não poderá ser a Itália ou a Alemanha finalista, primeira ou segunda classificada, no campeonato mundial de 2014?

 

O problema da previsão científica em astrologia é que cada grau do Zodíaco é polissémico, isto é, refere-se a vários países ou outras entidades em simultâneo e é imprescindível o estudo de diversos graus na mesma data para que o prognóstico seja sólido.»

 

 

JÚPITER EM CARANGUEJO: 80% DE HIPÓTESES DE A ALEMANHA SER FINALISTA

 

«Em 13 de Julho de 2014, com Júpiter em 29º 14´/ 29º 28´ de Caranguejo, disputar-se-á a final do campeonato mundial de futebol Estatisticamente, a presença de Júpiter nas finais do mundial de futebol no signo de Caranguejo, está, sobretudo, associada à Alemanha, como vencedora ou segundo classificado: em cinco finais em que Júpiter se moveu em Caranguejo, no período 1954-2002, a Alemanha foi finalista em quatro, sendo vencedora em duas (1954, 1990) . Segue-se-lhe a Argentina: finalista duas vezes, vencedora na final em 1978, derrotada na final de 1990.

 

Em 4 de Julho de 1954, com Júpiter em 9º 7´ / 9º 21´ de Caranguejo, a Alemanha Federal vence por 3-2 a Hungria na final do campeonato mundial em Berna; em 30 de Julho de 1966, com Júpiter em 18º 33´/ 18º 47´ de Caranguejo, a Inglaterra vence por 4-2 a Alemanha Federal, na final do campeonato mundial em Londres; em 25 de Junho de 1978, com Júpiter em 14º 21´/ 14º 35´ de Caranguejo, a Argentina vence por 3-1 a Holanda na final do Campeonato do Mundo de Futebol no Estádio Monumental, em Buenos Aires; em 8 de Julho de 1990, com Júpiter em 20º 52´/ 21º 5´ de Caranguejo, a República Federal da Alemanha conquista o título de campeã do mundo de futebol ao vencer por 1-0 a Argentina no Estádio Olímpico, em Roma; em 30 de Junho de 2002, com Júpiter em 22º 43´/ 22º 56´ de Caranguejo, o Brasil conquista o Campeonato do Mundo de Futebol ao derrotar por 2-0 a Alemanha em Yokohama, no Japão.» (fim de citação)

 

 

Os homens do mito aceitavam o fatalismo planetário, possuíam uma inteligência holística - faltavam-lhes muitas vezes as tabelas astronómicas que os computadores hoje, facilmente, elaboram e disponibilizam. Esses pensadores míticos eram, como diz Feyerabend, superiores aos filósofos «racionalistas» que desdenharam a ciência astrológica, a invocação aos deuses segundo certos ritos, os sincronismos. Os filósofos enquanto pensadores fragmentários, foram e são obscurantistas, taparam ou tapam  a abóbada celeste e o seu sistema de conexões objectivas com os factos sociais e terrestres.

 

 

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Quarta-feira, 12 de Março de 2014
Is it expectable a great accident in New York on 27-31 March 2014 because of Venus in 20º-24º of Aquarius sign?

 

Shoud we expect a big accident in New York on 27-31 March 2014, when Venus will transit at 20 º -24 º Aquarius area? Yes, we should, although the forecast is not infallible. We base our prediction in the induction, ie, the accumulation of empirical cases historically verifiable.

 

On June 15, 1904 , with Saturn in 20º 51´/ 20º 49´ Aquarius, the tourist ship General Slocum catches fire in East River,New York City, causing 1030 deaths ,on  December 31, 1909, with Venus in 22º 7´/ 22º 47´ of Aquarius,  Manhattan Bridge is opened, in New York; on February 26, 1993, with Saturn  in 22º 53´/ 23º 0´ of Aquarius, a bomb detonates at basement garagement of World Trade Center, in New York City, killing 6 people and injuring at least other 1,040; on September 11, 2001, with Uranus in 21º 51´/ 21º 49´ of Aquarius,two passenger aircraft deflected by Islamic suicide members of Al-Qaeda, probably manipulated by Mossad, CIA, FBI and Bush Administration, crash against theTwin Towers in Manhattan, New York City, provoking apparently the collapse of these two buildings, where bombs explode inside, and the death of 2.749 people,a missile is launched into the Pentagon Building, in Washington, killing 189 people and another aircraft, taken by terrorists, crashes in Pittsburgh, Pennsylvania, dying 44 people; on February 11, 2007, with Sun in 21º 51´/22º 52´ of Aquarius, a fire irrupts at Lenox Ave and 116thStreet; on May 4, 2008, with Moon´s North Node in 24º 15´/ 24º 5´ of Aquarius,  a Brooklyn bound "N" train derails at the 57th Street/7th Avenue station on the BMT Broadway Subway in NewYork City; on February 13, 2009, with Neptune in 23º 58´/ 24º 0´ of Aquarius,  just after 1:00pm, a Coney Island bound "D" train derails at the 81st Street/Museum of Natural Historystation on the IND 8th Avenue Line in New York subway; on March 12, 2014 , Mercury in 23 º 54 ' / 24 º 49' of Aquarius ,in East Harlem, Manhattan, New York, two Park Ave. buildings are reduced to scraps, the flames, dust and smoke billowing high into the sky in consequence of a gas explosion killing 7 people , four of them  Camacho, Carmen Tanco, 67, a dental hygienist, Rosaura Hernandez-Barrios, 21 and Andreas Panagopoulos, 43, and eight people are still reported missing and some 20 others wounded.

 

 

These datas and calculs represent Historical Astrology  we develop here in Portugal, in an isolated but honorable position. Philosophers, astronomers and historians in general, as Karl Popper, Carl Sagan, Stephen Hawking, Penrose, Zizec, Heidegger, Sartre, John Rawls, Peter Singer, John Searle ignored and even derided Astrology because they had no sufficient intelligence or practical spirit of inquiry of history by using the astronomical positions.

 

So, today universities and mainstream media, due to its fragmentary intelligence, continue to propagate the lie that "men are free and the planets in the Zodiac do not  command the human history of each individual, social classes and nations." People are dominated by ignorant doctoral and masters who practice an epistemic fascism consisting in forbiding free discussion on Historical and Social Astrology.

 

I am waiting for a purposal of a great publisher in English or French or other language to bring to the attention of the public thousands of facts and historical astronomical laws.

 

 

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Domingo, 29 de Setembro de 2013
Hegel: a matéria é um universal, é lei e não coisa

 

Na sua obra fundamental «Fenomenologia do espírito», Hegel define a matéria como um princípio universal, semi indeterminado. A forma seria então o factor de individualização.  

 

Isto parece opor-se a Aristóteles e a Tomás de Aquino que sustentaram ser a matéria o princípio de individuação, aquilo que deforma, ao aplicar-se à matéria, uma mesma essência ou forma específica (eidos) e cria este e aquele indivíduo singular (Sócrates e Heráclito teriam a mesma essência ou forma específica, que é homem, mas a matéria de cada um deles estabeleceu as singularidades, o nariz achatado de Sócrates diferente do de Heráclito, etc).  Escreveu Hegel:


«E assim também a relação entre ácido e base e o seu movimento mútuo constituem uma lei, na qual estas contraposições se manifestam como corpos. Sem embargo, estas coisas separadas não têm nenhuma realidade; a força que as dissocia não pode impedi-las de entrar de novo em um processo, já que não são senão esta relação. Não podem, como um dente ou uma garra, permanecer para si e mostrar-se de este modo. O facto de que a sua essência consista em passar de um modo imediato a um produto neutro é o que faz do seu ser um ser superado em si ou um universal; e o ácido e a base só possuem verdade como universais. Assim, pois, do mesmo modo que o vidro e a resina podem ser tanto electricidade positiva como negativa, o ácido e a base não se acham vinculados como propriedade a esta ou àquela realidade, mas que cada coisa só é ácida ou básica relativamente; o que parece ser decididamente ácido ou base adquire nas chamadas "sinsomatías" a significação contraposta relativamente a outro. Deste modo, o resultado das experiências  supera os momentos ou as animações como propriedades das coisas determinadas e liberta os predicados dos seus sujeitos. Estes predicados devêm, como de verdade o são, encontrados somente como universais; em razão de esta independência recebem, portanto, o nome de matérias, que não são nem corpos nem propriedades, e há que guardar-se muito, com efeito, de chamar corpos ao oxigénio, etc, à electricidade positiva e negativa, ao calor, etc. »

 

«A matéria, pelo contrário,  não é uma coisa que é, mas o ser como universal ou em modo de conceito. A razão que é ainda instinto estabelece esta atinada diferença sem a consciência de que , ao experimentar a lei em todo o ser sensível supera precisamente, assim, o seu ser somente sensível e de que ao apreender os seus momentos, como matérias, a sua essencialidade converte-se para ela em algo universal e enuncia-se, nesta expressão, como algo sensível não sensível, como um ser incorpóreo e, sem embargo, objectivo».

 

(Hegel,Fenomenología del espíritu, pag 155-156, Fondo de Cultura Económica, México; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Esta é uma grande passagem de Hegel, de grande profundidade, sobre a dialética: o ser das coisas é transitório e aguenta-se ou firma-se no seu contrário, com o qual dá o salto para um novo estado; a matéria não é uma coisa que é mas o ser como universal, dado que é o substrato de todas as transformações ou mudanças de forma de cada ente concreto. .

 

Cada um dos contrários é susceptível de passar ao outro ou a um estado intermédio: o ácido e a base, que são termos relativos, produzem um sal ou neutro. A matéria é lei e não coisa, com a ressalva de que a lei atravessa a coisa, todas as coisas. E a matéria aparece definida em dois planos: como ser universal, sensível (exemplo: o ar que há por toda a parte, a terra que pisamos e cheiramos) e como conceito (exemplo: o ar concebido como mistura de oxigénio, azoto, hidrogénio, gases raros, etc). Como sempre, a dialética do ser e do conceito ou reflexão do ser.

 

É notável ainda a tese de Hegel de que há um instinto da razão que leva esta, por exemplo, a generalizar que todas as pedras caem para a Terra ao serem largadas no ar, uma vez que nos limitamos a fazer esse tipo de experiências 100, 1000 ou 50 000 vezes e a generalização que daí parte é por instinto ou intuição da razão. Assim a indução (amplificante) não é cem por cento lógica, racional, mas tem a sua quota parte de pressentimento, instinto.

 

Karl Popper e Heidegger, entre outros, atacaram a dialética sem a compreender verdadeiramente: nenhum deles possuía a profundidade de Hegel que foi, talvez, o Aristóteles dos nossos dias.

 

Os filósofos analíticos, com as suas divisões intelectualmente imperfeitas - por exemplo, Simon Blackburn com a sua divisão das correntes metaéticas em determinismo duro/ determinismo moderado/ libertismo/ indeterminismo, sem conseguir encaixar o "libertismo" no determinismo nem no indeterminismo... - também se revelaram incapazes de pensar de forma genuinamente dialetica.  Thomas Nagel, Kripke ou Peter Singer não foram nem são capazes da profundidade e da riqueza conceptual de Hegel.

 

 

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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013
Confusões de José Reis sobre ser e ver em Kant, Hegel e Heidegger

No seu livro «Nova Filosofia», publicado em 1990, José Reis, um catedrático de filosofia da universidade de Coimbra, produz um vórtice de confusão sobre o que são ser e ver nas doutrinas de Kant, Hegel, Heidegger e outros filósofos. Aferrando-se ao pressuposto idealista de que o ver do sujeito tem a primazia sobre o ser dos objectos físicos exteriores, Reis revela-se incapaz de perceber, verdadeiramente, o ponto de vista de alguns filósofos consagrados como Kant e Hegel.

 

Uma tese basilar de Reis, de recorte fenomenológico, decalcada de «O ser e o nada» de Sartre, é a de que não há conhecimento.

 

«E agora sim, se não há conhecimento e se, como é óbvio, também não o havia ao princípio, como surgiu ele? Se ao princípio não havia nem sujeito nem objecto, não havia nem o ver de um lado nem o ser para ver do outro, antes só havia o ser já visto (que, por ser já visto, recordemo-lo, dispensa o ver) como surgiram eles? É o problema: o problema da origem do conhecimento, com toda a história subsequente.» (José Reis, Nova Filosofia, pag 169, Edições Afrontamento, Porto).

 

Sustentar que o conhecimento não existe porque não há a dualidade sujeito-objecto é dizer:

A) Que havia ou há o autoconhecimento instintivo,. que não admite dúvida, por intuição.

B) Ou, em alternativa,  que há apenas as coisas, desaparecendo o sujeito. Esta é, explicitamente, a posição de José Reis.

 

É, numa certa interpretação, a tese de Parménides de que «ser e pensar são um e o mesmo», o pensamento é o autoconhecimento do ser. Isto é, no fundo, a tese de Heidegger de que o conhecimento é a desocultação do ser, ser que vive em grande parte dentro do ser-aí ou consciência individual de cada homem. José Reis não parece sublinhar a paternidade heideggeriana desta tese que ele mesmo veicula.

 

Mas enquanto Heidegger mantem como fontes de investigação o passado e o futuro, Reis reduz o ser a uma mera percepção-inteleção actual (nem sequer existe o «eu») e ao respectivo referente visível (as coisas: a casa, o automóvel, etc) no momento presente, suprimindo o «ser para ver», a metafísica, o prescrutar a transcendência ou simplesmente o desconhecido:

 

«O ser é já visto, não só sempre mas também de si mesmo, e, não há, em absoluto, mais ver nenhum. (...) Quando se tiver percebido - justamente através dessa fórmula - que não havendo mais nenhum ser para ver (quer no tempo, quer de si mesmo) também não há mais ver nenhum, será claro que tudo o que há é tão-simplesmente o ser e que podemos, que podemos, que devemos, pura e simplesmente varrer o ver do nosso vocabulário.  Se se quiser, e entretanto, substitua-se o ver por haver; embora nem sempre dê frases particularmente elegantes (sobretudo se se mantèm o sujeito do ver: eu vejo a porta= eu há a porta), poderá ajudar-nos a compreender o que há.

«Não desapareceu tudo portanto. Só desapareceu o para ver e consequentemente o ver, do ser para ver.» (José Reis, Nova filosofia, pag 128, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Temos, pois, uma ontologia instantaneísta actualista: tudo o que existe está no agora, visível e palpável. Nem Deus cabe nisto. Nem a consciência humana geradora do mundo material, como no idealismo de Berkeley, Kant e outros, subsiste. É o materialismo do instante presente.

 

 

 

UMA INCOMPREENSÃO SOBRE A REVOLUÇÃO KANTIANA NA GNOSIOLOGIA

 

Sobre Kant, José Reis escreveu, após distinguir, sem exemplificar, númenos de fenómenos:

 

«A representação foi pois, historicamente, o grande problema do conhecimento. Já que este último, no seu essencial, isto é, no ver e no ser para ver, é uma impossibilidade que em si nada tem a ver com a representação, poderia sem dúvida chegar-se à sua destruição sem se passar por esta representação. Mas isso é o reino dos possíveis, não é o real; o que é facto é que foi pela representação que tal aconteceu: foi por ela que em Descartes se descobriu o ver e foi por ela que em Kant se descobriu o ser como o absolutamente outro.» (...)

«E então o nosso problema agora é este: onde está a revolução kantiana? Já o dissemos. Em ter descoberto o ser como o absolutamente outro.» (José Reis, Nova Filosofia, páginas 203-204, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 

Tomemos o ser no seu sentido mais plenamente usado em filosofia: essência permanente, principial e eterna. Note-se que Reis fala no "ser" sem o definir claramente. Chama-se a isto vagueza, imprecisão conceptual.

 

 É um erro dizer que «a revolução kantiana consiste em ter descoberto o ser como absolutamente outro». É justamente o inverso que sucedeu: a revolução gnosiológica de Kant consistiu em reduzir o universo das coisas materiais a mera criação da mente humana, a um conjunto de fenómenos (montanhas, mesas, rios, animais, corpos humanos, etc) interiores à vastíssima mente humana. O ser permanente e eterno para Kant é dual: por um lado, é os númenos; e por outro lado, é o espírito de cada homem composto de sensibilidade (onde se formam os fenómenos materiais), de entendimento (onde se formam os conceitos e juízos de base empírica como, por exemplo, o conceito de casa, ou de base matemática a priori, como, por exemplo, o juízo "Dois mais sete é igual a nove") e de razão transcendental (onde se formam as ideias de Deus, liberdade, alma imortal e de outros númenos).

 

Por conseguinte,  Kant descobriu e postulou, na linha do idealista George Berkeley, o homem como inventor e criador, dentro da sua imensa mente, da matéria, do mundo material - idealismo. Logo, o ser para Kant não é absolutamente outro: se exceptuarmos os númenos, o ser para Kant é o sujeito cognoscente em si mesmo, pois não é posto ou criado por Deus, mas é autosubsistente e nele, no seu campo perceptivo chamado sensibilidade, se geram as paisagens urbanas e rurais ou marítimas e os entes visíveis.

 

NA TEORIA DE KANT, O HOMEM CRIA OS FENÓMENOS, NÃO OS RECEBE

 

José Reis supõe erroneamente que, na doutrina de Kant, o homem recebe os fenómenos, como imagem distorcida, dos númenos. Escreve:

 

«A substância, em Kant, não é como ainda em Locke, uma coisa criada por Deus à imagem e semelhança da Sua ideia, uma coisa exterior à ideia que dela tem Deus, mas, ao contrário, há só a ideia. Criar, com efeito, é ver originariamente.  Por isso, a substância pelo seu lado positivo (nós só a pensamos de forma vazia) se chama númeno. E por isso o que nós conhecemos se chama fenómeno, aquilo que nos aparece: nós, ao contrário de Deus, cujo ver cria as coisas, só as recebemos.  Para Deus, não pode haver coisas: aquilo que, aparecendo-lhe, lhe seria transcendente.»(José Reis, Nova Filosofia, pag 201)

 

Ao contrário do que sustenta José Reis, para Kant, não há só a ideia, não há só uma ideia: Deus. Há vários númenos ou ideias reais, objectivas mas incognoscíveis: Deus, almas racionais, liberdade, mundo como um todo. Reis atribui a Kant a tese de que «o ver de Deus cria as coisas». É um erro. Para Kant, que nisto é distinto de Hegel e de Berkeley, Deus não criou as coisas, os céus, os mares, as árvores, os animais, o corpo do homem. Estas coisas são criações do sujeito cognoscente, de cada espírito humano, dotado de formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo),  de fornas a priori do entendimento (categorias e juízos puros),  e de ideias da razão, metafísicas, livres.

Sobre o espaço, por exemplo, Kant sustentou que ele é criação subjectiva do sujeito homem e não de Deus:

 

«a. O espaço não representa qualquer propriedade das coisas em si, nem essas coisas nas suas relações recíprocas; quer dizer que não é nenhuma determinação das coisas inerentes aos próprios objectos e que permaneça mesmo abstraindo de todas as condições subjectivas da intuição. (...)

« b. o espaço não é mais do que a forma de todos os fenómenos dos sentidos externos, isto é, a condição subjectiva da sensibilidade, única que permite a intuição externa.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 67, Fundação Calouste Gulbenkian)

 

 

Ademais, o texto de Reis acima sofre de incoerência: Deus «cria as coisas ao ver originariamente», mas para Ele, «não há coisas porque lhe seriam transcendentes. 

 

KANT ERA REALISTA?

 

José Reis considera erroneamente Kant um realista:

 

«Significa, em primeiro lugar, que Kant continua um realista, e um realista que não vê nada do problema cartesiano, porque nem a absoluta alteridade do ser (para além da sua simples transcendência) o leva a duvidar da sua existência.» (José Reis, Nova Filosofia, pag. 204, Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Um realista postula que a matéria é exterior aos espíritos humanos e subsistente por si mesma, seja criada por deuses ou não. Kant, que se intitulou «realista empírico» que é o mesmo que «idealista transcendental»,  negou a realidade da matéria em si mesma:

 

«Deve, portanto, haver certamente algo fora de nós a que corresponde esse fenómeno a que chamamos matéria. Porém, na qualidade de fenómeno, não está fora de nós, mas simplesmente em nós, como um pensamento» (Kant, Crítica ds Razão Pura, pagina 362, Fundação Calouste Gulbenkian; o negrito é posto por mim).

 

Kant é idealista: a matéria é como pensamento, isto é mera sensação. Kant duvida do ser material como duvida do ser espiritual transcendente, o númeno. Foi, portanto, mais longe que Descartes. Este colocou a res extensa - a forma espacial, sem cor, nem peso, nem cheiro, nem densidade - fora da mente do sujeito ou res cogitans e, nessa medida ainda figura no campo do realismo, quase idealista, mas Kant colocou dentro da res cogitans a res extensa. Reis é que não percebeu, deveras, a ontognosiologia idealista de Kant.

 

 

HEGEL DESTRUIU O SER ABSOLUTAMENTE OUTRO?

 

José Reis escreveu ainda sobre a doutrina de Hegel:


 

«§ 71  Hegel


 

«E estamos em Hegel. Que levando a sério o ser absolutamente outro de Kant, o destruiu. E o destruiu, sem dúvida, em nome do ver: é porque ele é nada para nós que ele é nada. Mas, precisamente, esse ver é só suposto, não é tematizado e em consequência problematizado. O problema em Hegel, tal como em Kant, é só o da recepção-alteração do ser. É porque esse ser, ao ser recebido em nós, se altera radicalmente, que ele é nada. (...) O ser não se destrói pois porque pura e simplesmente não se vê - o ver nem se tematiza -  mas porque, tendo de ser recebido, é em absoluto alterado. (...)»

 

«Hegel, como pós-kantiano que é, passa pois também completamente ao lado do verdadeiro problema do conhecimento. O seu sistema, por mais monumental que seja, continua a ser um desvio. Se Hegel não se desviasse, se tematizasse o vere prestasse atenção ao que efectivamente se vê (para só nos referirmos ao problema do conhecimento) nem sequer daria o primeiro passo.» (José Reis, Nova Filosofia, pag. 205, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Há diversos erros capitais neste texto de Reis. Começa por não definir o que é para Hegel, o ser.

 

Ora este termo tem dois sentidos para o grande filósofo alemão: ser-existência que na sua pureza absoluta é igual ao nada, porque apenas é, sem qualidades nenhumas; ser-essência universal ou ideia absoluta em Hegel -ou Eu Absoluto, não humano - que é prévio ao ver humano e se desdobra em três fases, a do ser em si (Deus antes de criar o universo, o espaço e o tempo) , a do ser fora de si (panteísmo: Deus transformado em astros,montanhas, plantas e animais, ou seja, em natureza biofísica) e a do ser para si (panenteísmo: Deus renascido em humanidade que progride em direção à liberdade de espírito. Nada disto José Reis compreendeu.

 

 

A frase «O ser não se destrói pois porque pura e simplesmente não se vê» é uma adulteração do pensamento de Hegel: a humanidade - os antigos aristocratas e escravos  gregos e romanos, os senhores feudais e os servos da Idade Média, os artífices da Renascença, o proletariado moderno - é o ser para si, o ser que volta a si, e é e foi visível e tangível.

 

A frase «(o ser) tendo de ser recebido, é em absoluto alterado» é incompreensível no quadro da doutrina de Hegel. Recebido por quem, se a própria humanidade, o sujeito cognoscente é ser, é uma parte do ser?

 

Hegel escreveu:

«Deus é a Ideia absoluta da razão, não um ser-posto, fantasia, não simplesmente algo de possível; é Ideia necessária não posta por um pensar estranho.

«O conhecimento de Deus é imediato e mediato»  ( Georg Friederich Hegel, Propedêutica Filosófica, pag 235, Edições 70, Lisboa) .

 

«Deus é 1. o ser em todo o ser, simplesmente primeiro e imediato. Este ser é apenas a abstração de toda a determinidade, o indeterminado, o imóvel (Hegel, ibid, pag. 336).

 

«A natureza vegetal é o começo do processo individual ou subjectivo de autoconservação ou efectivamente orgânico que, no entanto, não possui ainda a força plena da unidade individual, porque a planta, a qual é um indivíduo, possui apenas partes que podem, por seu turno, considerar-se como indivíduos independentes.» (Hegel, Propedêutica filosófica, pag 52, Edições 70; o destaque a bold ).

 

Nestes excertos de Hegel há a teoria realista do conhecimento, culminando 1800 anos de história das igrejas cristãs: a natureza vegetal é anterior ao homem, Deus não é uma fantasia, uma possibilidade, é uma realidade anterior aos homens e geradora destes que são incarnação de Deus, na terceira fase. E neste ponto Hegel é radicalmente diferente de Kant visto que este duvida da existência de Deus que rotula de númeno, ser incognoscível. Como pode José Reis dizer que Hegel, que lhe é superior intelectualmente, passou ao lado do verdadeiro problema do conhecimento? Em Hegel, o ser suplanta o ver e este é apenas uma dimensão do ser. Isto é uma ontologia e uma teoria do conhecimento: uma ontognosiologia, a que Hegel chama «idealismo absoluto» mas que, em rigor, é um ideal-realismo.

 

HEIDEGGER QUIS PENSAR O SER COMO NADA OU RECONHECEU O PODER DE O SER NADIFICAR?

 

Sobre Heidegger escreve José Reis :

 

 «Heidegger quis e bem pensar o ser como nada, porque quis pensar o ser antes do ver. E levado por essa evidência que conhecer é ver o que antes não se via, manteve, com uma consciência absolutamente tranquila, apesar de se tratar de um nada, o seu projecto até ao fim». (José Reis, Nova Filosofia, pag. 213; o destaque a negrito é posto por mim ).

 

Não é exacto que Heidegger pensasse o ser como nada. O ser tem uma estrutura, tem regras próprias que impõe ao homem:

 

«O ser é a protecção que guarda o homem em sua essência ex-sistente, de tal maneira, para a sua verdade, que ela instala a ex-sistência na linguagem. É por isso que a linguagem é particularmente a casa do ser e a habitação do ser humano.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, pag. 118, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa). 

 

Se o ser é uma protecção do homem não é um nada, obviamente. E se vive na linguagem como sua casa é porque é o conjunto de referentes da linguagem ou, pelo  menos, as regras internas linguísticas. O nadificar ou reduzir a nada, próprio de um momento da dialética, exerce-se no seio do ser mas não é todo o ser. Escreveu Heidegger:

 

 

«O nadificar desdobra o seu ser no ser, e de maneira alguma, no ser aí, na medida em que este ser aí é pensado como a subjectividade do ego cogito(...)

«O nadificar no ser é essência daquilo que eu nomeio o nada. Por isso, porque pensa o ser, o pensar pensa o nada.» (Heidegger, Carta sobre o humanismo, pag. 116-117, Guimarães & C.ª Editores, Lisboa; o destaque a negrito é posto por mim).

 

    

Os grandes filósofos são raros nas cátedras universitárias de hoje. E José Reis não é um grande filósofo, sem embargo de ser uma inteligência acima da média entre os académicos. A grande maioria das cátedras são dominadas por indivíduos medianos, razoavelmente ou mesmo altamente eruditos, mas intelectualmente confusos, em maior ou menor grau, com apreciável poder retórico. Na área da filosofia, pode dizer-se que as universidades são inimigas da grande filosofia, da verdade, pois os absurdos, as deturpações do pensamento original de certos filósofos e os lugares-comuns são frequentes nas teses de doutoramento e nas lições de cátedra.

 

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Quinta-feira, 27 de Junho de 2013
A analítica existenciária do ser-aí não foi exclusivo de Heidegger

Heidegger (26 de Setembro de 1889; 26 de Maio de 1976) foi um filósofo petulante. Mediante mudanças de terminologia no vocabulário filosófico, apresentou-se como um pioneiro na história da filosofia, aparentando romper com a ontologia tradicional.

 

Lembra aqueles políticos com um discurso demagógico do tipo «Eu trago uma nova forma de fazer política que supera a tradicional dicotomia entre esquerdas e direitas. Estas deixaram de existir» Ora, se por esquerda se entender o interesse da maioria - ou de metade - da população, a massa trabalhadora assalariada, e se por direita se entender o interesse da minoria - ou metade - da população, a massa empresarial privada, não é possível fugir sistematicamente a esta dicotomia: ou se alinha à direita ou se alinha à esquerda, em cada caso. Por exemplo, uma medida como a liberalização dos despedimentos é de direita e outra medida como impedir os bancos de expulsar de suas casas os devedores que ficaram desempregados e não podem pagar a prestação mensal do empréstimo à habitação é de esquerda. A terceira via não existe.

 

Heidegger escreveu:

 

«O "problema da realidade" no sentido da questão de se é "diante dos olhos" um mundo exterior e se se pode provar, revela-se um problema impossível, não porque conduza a consequências que são outras tantas insolúveis aporias, mas porque o próprio ente que é tema de este problema repele, por assim dizer, a colocação de semelhante questão. Não há que demonstrar nem como é "diante dos olhos" um "mundo exterior" , mas há que mostrar por que razão o "ser aí" tem enquanto "ser no mundo" a tendência de começar sepultando "gnosiologicamente" o "mundo exterior" no nada, para logo prová-lo»(Martin Heidegger, El ser y el tiempo, pag 227, Fondo de Cultura Económica; o destaque a bold é posto por mim).

 

Neste excerto acima Heidegger exprime a posição da fenomenologia: não há certezas sobre a natureza do mundo exterior, nem realismo nem idealismo estão fundamentados. Chama a atenção para o nó do problema do conhecimento estar no "ser aí", isto é, no sujeito acompanhado de mundo. E prossegue:

 

«É necessário, mais precisamente, ver de raíz que as diversas direções gnosiológicas não falham precisamente enquanto gnosiológicas, mas que nem sequer chegam a pisar o terreno de um posicionamento fenomenicamente seguro dos problemas, devido à omissão da analítica existenciária do "ser aí". Tão pouco é possível chegar a este terreno por meio de ulteriores correcções fenomenológicas dos conceitos de sujeito e objecto.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 227, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Heidegger sustenta que, só com ele, se começou a "ver" em profundidade o abismo da ontologia, que só com ele se iniciou, na história da filosofia, a analítica existenciária do "ser aí" que Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Leibniz, Hume, Kant, Hegel, Scheler, Hartman e tantos outros, supostamente, nunca teriam feito.

 

 

KANT FEZ "ANALÍTICA EXISTENCIÁRIA DO SER-AÍ", COM OUTROS NOMES: ESTÉTICA TRANSCENDENTAL E ANALÍTICA TRANSCENDENTAL

 

 

Kant fez uma analítica existenciária do ser-aí, isto é, uma investigação e teorização das estruturas ontognosiológicas do homem, ocultas: determinou que espaço e tempo são estruturas subjectivas, transcendentais ou a priori, e não existem fora do sujeito como mente cósmica, dilatada (estética transcendental); determinou que a unidade, a pluralidade, a causa-efeito, a necessidade (causa-efeito determinista) não são, originariamente, qualidades dos fenómenos da natureza mas «leis» (inter)subjectivas do entendimento (analítica transcendentai). Assim, espaço e tempo, unidade, pluralidade, totalidade, causalidade e outras categorias são existenciários, «ferramentas» primordiais com que o sujeito «constrói» os objectos «materiais» ou fenómenos (céu, casas, árvores, rios, animais, etc).

 

Eis um exemplo da "analítica do ser aí" em Kant, em concreto, a definição da apercepção pura, anterior a todas as percepções empíricas concretas:

 

«A unidade sintética do diverso das intuições, na medida em que é dada a priori, é pois o princípio da identidade da própria apercepção, que precede a priori todo o meu pensamento determinado. A ligação não está, porém, nos objectos, nem tão-pouco pode ser extraída deles pela percepção e, deste modo, recebida primeiramente no entendimento; é, pelo contrário, unicamente uma operação do entendimento, o qual não é mais  do que a capacidade de ligar a priori e submeter o diverso das representações à unidade da apercepção. Este é o princípio supremo de todo o conhecimento humano.» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag 134, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

Esta apercepção pura, vaso da consciência, é um "existenciário" ( terminologia heideggeriana) em Kant e corresponde à compreensão, que é um existenciário na doutrina de Heidegger.

 

É, pois, uma descarada mentira de Heidegger dizer que, antes de si, nenhum filósofo fez uma analítica existenciária do sujeito. David Hume, Kant, entre outros , fizeram-na. Sem ler Kant, intelectualmente maior e mais claro nas definições que Heidegger, este não teria edificado a sua ontologia fenomenológica.

 

A MUDANÇA DE SENTIDO DO TERMO «EXISTÊNCIA», UM TRUQUE DE PRESTIDIGITADOR

 

 

Outro dos eixos da arrogância de Heidegger é o da transmutação de sentido que deu à palavra existência, reservando-a para designar a essência oculta, existenciária, do ser e dos entes. É um puro truque de prestidigitador da linguagem: à estrutura basilar ou essência primordial do homem a que os filósofos deram diferentes nomes («eu transcendental», «cogito», «consciência», «si mesmo», «essência», «corrente da consciência», «alma», «res cogitans», etc,) Heidegger passa a chamar existência. Ao criticar Max Scheler, Heidegger afirma, erroneamente, que Kant interpretou existência como conjunto dos fenónenos ingenuamente percepcionados («ser diante dos olhos») :

 

 «Scheler define uma teoria volitiva da existência. A existência é compreendida em sentido kantiano como "ser diante dos olhos".» (Heidegger, ibid, pag.230).

«Antes de tudo há que advertir expressamente que Kant usa o termo "existência" para designar a forma de ser que na presente investigação se chama "ser diante dos olhos". "Consciência da minha existência" quer dizer para Kant consciência do meu "ser diante dos olhos" no sentido de Descartes. O termo "existência" significa tanto o "ser diante dos olhos" da consciência como o "ser diante dos olhos" das coisas». (Heidegger, ibid, pag 224).

 

Ora, ao contrário do que sustenta Heidegger, Kant incluiu as formas a priori, invisíveis, imanentes ao sujeito, no conceito de existência. Kant não concebeu a existência como «ser diante dos olhos», isto é, numa concepção realista natural que diz, por exemplo, que o céu azul e a montanha verde estão fora de mim e eu sou dissociável, independente, desse céu e dessa montanha. Segundo Kant, o céu e a montanha são imagens tridimensionais (fenómenos) que eu, sujeito, projecto em mim mesmo, no espaço aparentemente fora de mim, no eu exterior.

 

Não são, portanto, "ser diante dos olhos" mas entes gerados por um mecanismo transcendental (existenciário, no vocabulário de Heidegger): a forma a priori do espaço, com as suas figuras,  molda o caos da matéria das sensações e dá-lhe a configuração de céu e montanhas e o sujeito - presume-se: a forma a priori do tempo, - atribui a cor azul ou verde e o som do vento ao céu e à montanha, que não são em si coloridos nem sonoros. Cores, sons e sabores, segundo a gnosiologia de Kant, seguindo Descartes, não são propriedades ´dos objectos (qualidades primárias) mas propriedades do sujeito, aparências (qualidades secundárias).

 

Heidegger não se apercebe disto: é fraco nos «pormenores» da  gnosiologia e distorce, grosseiramente, Kant . «O ser e o tempo» não é um grande livro de filosofia. É inferior à «Crítica da Razão Pura» de Kant, à «Metafísica» e à «Física» de Aristóteles e a muitas outras obras de consagrados. Se Heidegger é venerado por muitos leitores de «O ser e o tempo» é por ser obscuro para esses muitos leitores- o povo venera aquilo que não compreende bem, ajoelha perante os símbolos ambíguos (neste caso o discurso retórico de Heidegger, viveiro de ambiguidade, onde verdade e mentira se combinam).

 

No panorama mundial das universidades, dominadas pela mediocridade de catedráticos e professores agregados de filosofia, salvo raras excepções, impõe-se gritar que o rei Heidegger vai nú.

  

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Sábado, 22 de Junho de 2013
Da ambiguidade do «ser no mundo» em Heidegger e do surrealismo em «Ser e Tempo»

Heidegger fala do «ser no mundo» como uma das divisões do ser. Mas a expressão é equívoca:  pressupõe que o ser é uma coisa e o mundo é outra, totalmente independente. Ora o mundo desabrocha a partir do ser, e não o inverso como sugere a expressão «ser no mundo», isto é, ser situado ou colocado no mundo. E ser tem, obviamente – o que Heidegger não esclarece - o sentido de o grande Ente, isto é, a essência geral e universal como, por exemplo, o «Eu» em Kant, portador do espaço e do tempo, e gerador dos objectos materiais que são percepções objectivas suas, ou a «Ideia absoluta» de Hegel, isto é, Deus que, ora está em si como Espírito puro, ora devém transformado em árvores e natureza biofísica ou em humanidade, espírito de cada povo, formas de Estado, religião, etc. 

 

 

Acresce a isto que «mundo» não é, na terminologia heidegeriana, uma região de entes (uma planície com árvores e campos de trigo, um planeta com continentes e oceanos, uma ou várias galáxias) independente do sujeito mas sim uma parte do ser humano, uma ponte, uma abertura entre o sujeito humano (o ser-aí, o Dasein) e os objectos situados no espaço à sua volta (o ser diante dos olhos).

 

«O "mundo" não é ontologicamente uma determinação de aqueles entes que o "ser aí", por essência, não é, mas um carácter do próprio «ser aí» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 77, Fondo de Cultura Económica).

 

 

Só o homem tem mundo. Os animais e as plantas não têm mundo. Assim o mundo é uma correlação entre substâncias - a substância do «eu» Da-sein e as substâncias exteriores como montanha, planície, rebanho de ovelhas, casas, nuvens, rios, etc - e não uma colecção de substâncias.

 

«A analítica existenciária do "ser aí" tem por tema directivo no seu estado preparatório a constituição fundamental de este ente, o "ser no mundo". (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 147, Fondo de Cultura Económica).

 

«O "ser junto" ao mundo, no sentido de absorver-se no mundo, sentido que haverá que interpretar de modo ainda melhor, é um existenciário fundado no ser em. (...)

«O "ser junto" ao mundo em sentido existenciário não significa nunca nada de semelhante ao "ser diante dos olhos junto" às coisas que vêm a estar diante dentro do mundo. Não há nada semelhante a uma "contiguidade" de um ente chamado "ser aí" a outro ente chamado "mundo". (pag.67)

 

A contradição do pensamento heideggeriano é usar a expressão "junto de" para dizer, depois, que ela não significa "junto de", contiguidade. Esta desapropriação da linguagem dos seus referentes é uma técnica surrealista, uma subversão do sentido que transcende por vezes a fronteira do conhecimento filosófico. Heidegger considera inacessível a estrutura do "ser em", ou seja, não dá uma definição clara desta:

 

«O conhecimento (noein) do mundo ou o dizer (lógos) do "mundo" funciona, portanto, como o modo primário do "ser no mundo", sem que se conceba este "ser no mundo" enquanto tal. Esta "estrutura de ser" permanece ontologicamente inacessível, enquanto que onticamente se experimenta como a "relação" entre um ente (o mundo) e outro ente (a alma), e ao mesmo tempo se compreende imediatamente o ser apoiando-se ontologicamente nos entes intramundanos...» (Heidegger, El Ser y el Tiempo, pagina 71).

 

Afinal, aqui, Heidegger acaba por postular que o ser no mundo é incognoscível. Sabe o que não é mas não sabe o que é - numa espécie de ontologia ou teologia negativa, na linha dos místicos cristãos alemães. Não faz sentido dizer que «o ser junto a se funda no ser em» se não se define este último. 

 

 

 

«A LONJURA NÃO SE TOMA COMO DISTÃNCIA» E OUTRAS SUBVERSÕES DA LINGUAGEM

 

 

Uma das estratégias surrealistas de Heidegger em «O ser e o tempo» - porque se trata, de um livro com traços surrealistas coberto de uma camada de açúcar de racionalismo e vocabulário clássico- é levar o leitor a reflectir com uma dada terminologia e depois negar ou inverter essa terminologia usada. Eis um exemplo:

 

«O des-afastar não implica necessariamente uma expressa estimativa da lonjura de algo "à mão" em relação ao "ser aí". Antes de tudo, a lonjura não se toma nunca como distância. Se houvesse de se calcular o afastamento, far-se-ia relativamente a des-afastamentos em que se mantèm o "ser aí" quotidiano. »(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 121, Fondo de Cultura Económica).

 

A lonjura não se toma nunca como distância? É verdadeiramente ridículo. A lonjura interpreta-se sempre como distância, seja esta física, real, ou ideal, imaginada. A espacialização empírica corresponde, de certo modo, não mecânico, à espacialização mental e um dos traços comuns às duas é as noções de lonjura, de desafastamento, de aproximação.

 

«O ocupar um sítio tem de conceber-se como um des-afastar o "à mão" no mundo circundante dentro de um lugar previamente descoberto pelo "ver em torno". O "ser aí" compreende o seu "aqui" pelo "ali" do mundo circundante. O "aqui" não significa o "onde" de algo "diante dos olhos" mas o junto a um «quê» de um ser "desafastador" junto a, em uníssono com esse desafastamento.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 123, Fondo de Cultura Económica).

 

"O permitir que entes estejam frente a frente dentro do mundo, constitutivo do "ser no mundo", é um "dar espaço". Este dar espaço, que também chamamos "espacializar", é dar liberdade ao "à mão" na sua espacialidade. Este "espacializar" é o prévio descobrimento de uma possível totalidade de sítios determinada pela conformidade que torna possível a orientação fáctica do caso.»(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 127, Fondo de Cultura Económica).

 

Eis, pois, a ontologia desenhada com base na espacialidade: o "ser aí" está aqui  - espaço mais próximo, interior - é o «eu» de cada um, e tem fora de si ou diante de si os entes "à mão" (os automóveis, as casas, as ruas, as ferramentas, etc). E como o espacializar é obra do sujeito que cria o espaço temos um decalque da doutrina de Kant da estética transcendental, - o espaço é uma forma a priori do sujeito, não é real em si mesmo - com a diferença de que, em Kant, o espaço, enquanto depósito de formas, cria os objectos materiais e em Heidegger não cria mas separa os objectos materiais que estariam como que num estado de caos ou promiscuidade. E Heidegger prossegue:

 

«Nem o espaço está no sujeito, nem o mundo está no espaço. O espaço está, mais precisamente, "no mundo" , enquanto  o "ser no mundo", constitutivo do "ser aí" , abriu um espaço. O espaço não se encontra no sujeito, nem este contempla o mundo "como se" estivesse em um espaço, mas o "sujeito" ontologicamente bem compreendido, o "ser aí", é espacial.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 127, Fondo de Cultura Económica).

 

Ora este pensamento é incoerente: o ser-aí é o sujeito, é cada pessoa, e uma vez que a sua dimensão de ser no mundo abriu um espaço e o sujeito é espacial não tem sentido dizer que o espaço não está no sujeito: está, ao menos em parte, no sujeito.  Por outro lado, o mundo não está no espaço mas o espaço está no mundo. É, ao menos à primeira vista, o absurdo elevado ao estatuto de "grande filosofia". O espaço aparece como a forma estruturadora, o sopro de ar emitido pelo sujeito que levanta do chão o balão vazio dobrado sobre si mesmo que é o mundo e faz aparecer os entes deste, como pseudópodes de um balão não esférico, diferenciados e distantes entre si.  Eis um exemplo da retórica sofística de Heidegger:

 

«No fenómeno do espaço não pode encontrar-se nem a única determinação ontológica do ser dos entes intramundanos, nem sequer a primária. Ainda menos constitui o fenómeno do mundo. O espaço unicamente pode conceber-se retrocedendo para o mundo. »(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 129, Fondo de Cultura Económica).

 

O mundo é ontologicamente anterior ao espaço - é a tese de Heidegger. Imaginemos que casa, esfera, montanha são seres intramundanos primordiais. São, primitivamente, isentos de espaço, na visão heideggeriana. Mas como poderiam sê-lo, se não forem mónadas, isto é, pontos sem localização? As formas implicam espaço, não são anteriores a este. Logo, não poderia existir um mundo feito de objectos, sem espaço.

 

Outro exemplo da subversão da terminologia filosófica  que Heidegger leva a cabo - legítima, até certo ponto - é o de interpretar o termo fenómeno como númeno ou estrutura existenciária, oculta e profunda, que os sentidos e o realismo natural não conseguem apreender  :

 

«"Fenómeno" em sentido definiu-se formalmente assim: o que se mostra como ser e estrutura do ser.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 76, Fondo de Cultura Económica).

«A forma de estar diante do ser e das suas estruturas no modo de fenómeno tem de começar por ser arrancada aos objectos da fenomenologia. Portanto o ponto de partida da análise tal como o acesso ao fenómeno e a passagem através dos encobrimentos dominantes exigem ser assegurados sob um ponto de vista metódico. Na ideia de apreensão e explanação "intuitiva" e "original" dos fenómenos está implícito o contrário da ingenuidade de uma acidental "visão" "directa"  e irreflexiva.» (Martin Heidegger, ibid, pag. 47; o destaque a bold é posto por mim).

 

A INTUIÇÃO E O PENSAMENTO SÃO DERIVADOS LONGÍNQUOS DO COMPREENDER?

 

Heidegger abusa das roupagens barrocas de uma retórica sofística, isto é, enganosa. Sustenta que o compreender é o existenciário -o alicerce  oculto mais fundo - do "ser no mundo" e que consiste no "estado de aberto", isto é, de correlação entre o sujeito e outros entes:

 

«Posto que o compreender e a interpretação constituem a estrutura existenciária do "ser aí" , tem de conceber-se o sentido como a armação existenciário-formal do "estado de aberto" inerente ao compreender.» (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 170, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

«"Intuição" e "pensamento" são ambos derivados já longínquos do compreender. ». (ibid, pag 165)

 

Eis uma contradição flagrante: como pode o compreender, que implica sempre pensamento e intuição sensível-inteligível, estar isento destes que seriam «derivados longínquos» daquele? Heidegger não explica como pode o compreender não incluir pensamento nem intuição. É surrealismo puro: compreender... sem pensar nem intuir.

 

 

O COMPREENDER É UM "VER" E... ESTE FUNDA-SE NO COMPREENDER?

 

 

Em passagens de "O Ser e o Tempo" Heidegger identifica o compreender com o "ver":

 

«Em seu carácter de projecção, o compreender constitui existenciariamente aquilo que chamamos o "ver do "ser aí". (Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 164, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Mas, em outras passagens, o "ver" aparece fundado no compreender, derivado de este:

 

«Mostrando como todo o "ver" se funda primariamente no compreender - e o "ver em torno" do "cuidar de" é o compreender no sentido do que se chama "compreender do que se trata" - despoja-se o puro intuir da sua primazia, que responde noeticamente à tradicional primazia do "diante dos olhos" (...) Também a "intuição eidética" da fenomenologia se funda no compreender existenciário. Sobre esta forma do ver só cabe decidir depois de ter obtido os conceitos explícitos de ser e estrutura do ser, que são as únicas coisas que podem chegar a ser fenómenos em sentido fenomenológico. »(Heidegger, ibid, pag. 165).

 

Uma coisa é "ser" algo, outra é "fundar-se em" esse algo. Um filho não é o seu pai: funda-se, geneticamente, no seu pai. Heidegger oscila: o "ver" ora é um compreender, ora não é mas funda-se neste.

 

O SENTIDO É POSTERIOR AO COMPREENDER?

 

Heidegger sustentou que o sentido é posterior ao compreender e sustentou o contrário disso:

 

«Quando os entes intramundanos são descobertos ao mesmo tempo que o ser do "ser aí", quer dizer, chegaram a ser compreendidos, dizemos que têm sentido. Mas o compreendido não é, tomadas as coisas com rigor, o sentido, mas os entes e o ser. Sentido é aquilo em que se apoia o "estado de compreensível" de algo. O articulável no abrir compreensor é o que chamamos sentido.»(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 169, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Neste fragmento, Heidegger teoriza que os entes e o ser podem ser compreendidos mas isso não implica descobrir sentido ou haver neles sentido. Questão: compreender não será atribuir sentido? E na frase seguinte estabelece o paradoxo: o "estado de compreensível", isto é, um dos polos do acto de compreensão repousa no sentido. Este seria, pois, prévio à compreensão e não posterior a ela. São estas guinadas teóricas incoerentes, - entre um sentido ou nexo objectivo das coisas, anterior ao pensar, e um sentido subjectivo, interpretativo, distinção que Heidegger não faz - blindadas num discurso difícil, que passam despercebidas ao grande público e à canalha filosófica institucional (os licenciados, os mestres e os doutores que carecem de pensamento profundo mas não de vaidade..).

 

O PROJECTAR DO COMPREENDER GERA OS ENTES INTRAMUNDANOS?

 

A obscuridade heideggeriana na ontologia atravessa «O ser e o tempo». Heidegger tem derivas idealistas (redução do mundo ao sujeito) no meio da teoria fenomenológica da intercorporeidade (o eu e os entes externos são coetâneos e indissociáveis):

 

«No projectar do compreender está aberta a possibilidade dos entes. O carácter de possibilidade responde em todos os casos à forma de ser dos entes compreendidos. Os entes intramundanos são projectados sem excepção sobre o fundo do mundo, isto é, sobre um todo de significação a cujas relações de referência se fixou previamente o «curar de » («cuidar de») enquanto "ser no mundo". (Heidegger, ibid, pag. 169; o bold é colocado por mim)

 

Quem projecta os entes intramundanos? O ser-aí ? O ser ? Ou eles mesmos, os entes? Heidegger não esclarece.

 

A SUPOSTA PROVA DA EXISTÊNCIA DE UM MUNDO "FORA DE MIM" PELO TEMPO, ATRIBUÍDA A KANT

Heidegger interpreta erroneamente Kant ao sustentar que este faz do tempo, uma forma a priori da sensibilidade, uma dimensão subjectiva, a alavanca da prova da existência de um mundo real exterior:

 

«O tempo é quem dá o ponto de apoio para o salto demonstrativo ao "fora de mim".».»(Martin Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 225, Fondo de Cultura Económica; o bold é posto por mim).

 

Ora Kant nega isso:

«Não querendo considerar o espaço e o tempo formas objectivas de todas as coisas, resta apenas convertê-las em formas subjectivas do nosso modo de intuição, tanto externa como interna; modo que se denomina sensível, porque não é originário, quer dizer, não é um modo de intuição tal que por ele nos seja dada a própria existência do objecto da intuição (modo que se nos afigura só poder pertencer ao Ser supremo)..» (Kant, Crítica da Razão Pura, pag. 86, Fundação Calouste Gulbenkian; o bold é colocado por mim).

 

Em Kant, o tempo é apenas idealidade transcendental, fluxo mutável de aparências e fenómenos, sentido interno, sucessão, duração e simultaneidade. Ver o nascer e o põr do sol no tempo de doze horas, ver um rio a correr durante uma hora ou todos os dias não prova que sol, céu, rio e demais objectos materiais existam fora da nossa mente. Ao contrário do que Heidegger diz, em Kant o tempo não prova a existência de mundo exterior ao ser humano.

 

Heidegger foi um filósofo em que o talento elevado se misturou com charlatanismo retórico que não resiste a uma análise cuidada da sua teoria. Bertrand Russell e a filosofia analítica não foram capazes de fazer esta crítica a Heidegger porque viveram sempre no fascínio do paradoxo e careceram de alguma visualização intelectual ontológica.

 

 

 

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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013
The vagueness of Being , a capital error on Heidegger ´s philosophy

Martin Heidegger begins «Being and Time» with a capital error on philosophy. He wrote:

 

«2. The concept of "being" is indefinable. This conclusion was drawn from its highest universality. And correctly so - if definitio fit per genus proximum et differentiam specificam ( if "definition is achieved through the proximate genus and the specific difference"). Indeed, being cannot be understood as being. Enti non additur aliqua natura : "Being" cannot be defined by attributing beings to it. "Being" cannot be derived from higher concepts by way of definition and cannot be represented by lower ones. But does it follows from this that "being" can no longer constitute a problem? Not at all. We can conclude only that "being" is not something like a being. Thus the manner of definition of beings which has its justification within limits - the "definition" of traditional logic which is itself rooted in ancient ontology - cannot be applied to being. The indefinability of being does not dispense with the question of its meaning but forces it upon us».

«3.  "Being" is the self-evident concept.»

(Martin Heidegger, Being and Time, pages 2-3, State university of New York Press; the bold is put by me).

 

The highest universality of being is existence and belonging. That is the sense of being in Aristote, as universal predicate, above all genus. But being is also a general essence, determinated - as Plato sostained for archetypes - a general structure - and, in this sense, can be considered a genus or even  a species -  which penetrates all particular beings or entities like rivers, men, buildings, Earth, friendship, hate. Heidegger is not clear about this distinction. Thus, he will never explain clearly the difference between being and time.

 

By not giving a definition of being,  on his «new» ontology - which is a copy, in some sense, of the unknown being of dominican philosopher Meister Eckhart (1260-1328) - Heidegger allows thought of slipping on ice of inconsistency. Heidegger is not a dialectical thinker, he hasn´t enough precision: he does not distinguish being-essence from  being-existence and this capital error  allows him to produce an ambiguous discourse about being. Because of this ambiguity, he will get an immense prestige among readers of his work. On mystic, talking about being with indeterminacy is acceptable, not in philosophy.

 

 

 

 

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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013
Heidegger: uma distorcida visão sobre como Parménides e outros gregos antigos concebiam o ser

Em «Caminhos do Bosque», Martin Heidegger escreveu sobre a representação e o ser (em grego: einai):

 

«Pensar é representar, uma relação representadora com o representado (ideia como perceptio).»

«Representar significa aqui situar algo diante de si a partir de si mesmo e assegurar como tal o elemento situado de este modo. Esse assegurar tem de ser uma forma de cálculo O representar já não é essa captação do presente a cujo desocultamento a própria captação pertence, como um modo próprio da presença, a isso que se apresenta de forma não oculta. O representar já não é o descobrir-se para...é a apreensão e compreensão de.. Já não reina o elemento presente mas sim a apreensão. O representar é agora, em virtude da nova liberdade, um proceder antecipador que parte de si mesmo dentro do âmbito do estabelecido que previamente há que estabelecer. O ente já não é o presente, mas aquilo situado do lado oposto no representar, isto é, o que está em frente. O re-presentar é uma objectivação dominadora que rege à partida. O representar empurra tudo para dentro da unidade do assim objectivado. O representar é uma cogitatio.» (Martin Heidegger, La época de la imagen del mundo, in Caminos de bosque, pag 87, Alianza Editorial; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Mais uma vez Heidegger busca a originalidade subvertendo o significado de termos filosóficos consagrados: Hegel distinguia o pensar, que é próprio da filosofia, geradora de conceitos, do representar, uma espécie de pensamento-imagem, arracional ou pouco racional, próprio da religião, mas Heidegger ignora essa distinção. Fixar o pensamento na imagem do nascimento de Jesus é representação, segundo Hegel, mas raciocinar que a ideia absoluta sai fora de si e transforma-se em natureza física é pensamento, segundo o mesmo Hegel.

 

No texto acima, Heidegger define o ser como a presença, o pre-sente. Mas no presente há uma dupla faceta que Heidegger, como filósofo não dialético, não explicita: momento temporal, ou seja, instante do «agora», e essência atemporal, ou seja, forma (ou forma preenchida por matéria). A crítica de Heidegger à desocultação do ser-presença opondo-o à apreensão é uma crítica débil, um exercício sofístico: Heidegger coloca o ente (tó ón)- que deveria definir como essência geral - fora do ser, isto é do presente, mas o ente está, de facto, situado no presente no passado e no futuro. Em Parménides, existe apreensão e não mera desocultação da presença, ao contrário do que sugere Heidegger. Parménides escreveu;´«Ser e pensar são um e o mesmo». Ora , o pensamento é o que permite a apreensão do passado e do futuro, portanto o ser sai fora do momento presente e reconstrói as catedrais do sido, do que já ocorreu e não se pode alterar, ou esboça as catedrais do por-vir, daquilo que virá.

 

O passado e o futuro imaginado estão dentro do presente eterno. Há de facto duas noções de ser: presença eterna e presença efémera no agora. O passado está, enquanto representação, no presente actual e o futuro previsível ou idealizável idem. O passado só é passado em relação ao presente e o futuro só é futuro em relação ao presente. Portanto, o ser no sentido de Parménides engloba passado, presente e futuro do mundo em devir. Não é meramente o presente, como Heidegger sustentou.

 

Heidegger não está aqui para responder ao licenciado em filosofia autor deste blog, que despreza os mestrados e doutoramentos por não reconhecer nestes, em regra, mais do que um trabalho de quantidade, de acumulação de dados, raramente dotado de brilhantismo e clareza superior. Mas os heidegerianos não respondem: são um rebanho obediente ao pensamento, ora brilhante ora medíocre, do mestre falecido em 26 de Maio de 1976.


As universidades não passam de escolas de formação de professores do ensino secundário. É o seu único  mérito. Nelas vivem os professores que constroem obtusos exames nacionais de filosofia com perguntas de escolha múltipla, frequentemente com respostas erradas na grelha de correção oficial. Não há nelas, salvo uma ou outra excepção, os mais altos picos do pensamento, a que só os pensadores grandes e isolados ascendem, sem medo de vertigens. Há uma cultura de submissão interesseira dos doutorandos ao catedrático, impera o espírito de rebanho: os catedráticos analíticos, os catedráticos hegelianos, os catedráticos heideggerianos, etc...O rebanho não pensa: imita o pastor ou o carneiro que vai à frente. 

 

 

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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012
Heidegger accused, without reason, traditional ontology

 

Heidegger complains, without reason, the traditional ontology of  confusing being with time:

 

"Time has long served as the ontological - or rayher ontic - criterion for naïvely  distinguishing the different regions of beings.  "Temporal" beings (natural processes and historical events) are separated from "atemporal" beings (spatial  and numerical relationships). (...) Further, a gap between  "temporal being "and " supratemporal "eternal" being is found, and the attempt made to bridge the gap. "Temporal" here means as much as being  "in time," an  obscure enough definition to be sure. The fact remains that time in the sense of "being in time" serves as criterion for separating the regions  of Being "(Heidegger, Being and Time,  page 16, State University of New York Press, translated by Joan Stambaugh).

The question is: can we study being disconnecting it from time? No. Being in the theory of Thales of Miletus, is water and the determination of these one as the being is due to  its ubiquitous form (spatiality, materiality) and eternal permanence (in infinite succession of chaos and cosmos, composed of, time, time cycles, in which  everything is water). Being in the theory of Hegel is the idea (God, the Spirit pre-existing the material universe) and only is possible to realize the idea as the being if we apprehend the march of history in time, i.e., the idea transformed in matter, alienated, during millions of years, and then the idea transformed in humanity with its creations (moral, right, state, art, religion, philosophy in different times).

 

Time is not the only ontological criterion but it is an indispensable  ontological criterion.


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