Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010
Um equívoco de São Tomás: «tudo o que está na espécie está, como não delimitado, no género»

São Tomás de Aquino não possuía uma visão absolutamente dialéctica das relações género-espécie e espécie-indivíduo:

 

«Pelo contrário tudo o que está na espécie está também, como não delimitado, no género. Portanto, se o animal não fosse tudo o que o homem é, mas apenas uma sua parte, ele não poderia ser-lhe atribuído, pois nenhuma parte que o integre se pode atribuir ao seu todo.» (Tomás de Aquino, O Ente e a Essência, Contraponto, pag 76)»  

 

Ora, não é verdade que tudo o que está na espécie tenha de estar contido no género. Uma espécie integra-se simultaneamente em vários géneros, facto que o Aquinate parece não ter discernido claramente. Por exemplo, a espécie homem integra-se no género animal, juntamente com as espécies paquiderme e ave, mas, diferentemente destas, a espécie homem integra-se no género "ser racional", juntamente com os anjos e outras criaturas de inteligência abstracta. Isto é dialéctica, visão multifacetada e móvel de cada realidade. Portanto a frase do texto do Aquinate acima deve ser rectificada assim: tudo o que está na espécie está também, como não delimitado, repartido pelos diferentes géneros em que essa espécie se encaixa.

 

Do mesmo modo, nem tudo o que está contido no indivíduo está contido na espécie. Por exemplo, a inteligência de seres humanos mongolóides não é comum à espécie humana, não é característica intrínseca desta

 

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Domingo, 12 de Julho de 2009
O Uno é predicado, como sustenta Aristóteles?

Aristóteles criticou Platão e os Pitagóricos por considerarem o Uno como uma substância, isto é, algo que subsiste por si, de modo individualizado. Segundo Aristóteles, o Uno não é substância nem é género (um grupo que engloba várias espécies de substâncias individuais; por exemplo: género animal, género figura geométrica, género cor) mas sim um predicado universal .

 

«Devemos investigar, do ponto de vista da substância (ousía) e da natureza, que tipo de realidade possui o Uno de acordo com o tratamento que fizemos na Discussão das Aporias, o que é a unidade e como há-de entender-se; se o uno, em si, é uma certa substância, como disseram os Pitagóricos primeiro e Platão depois, ou se, mais precisamente, há alguma natureza que lhe serve de sujeito, e como convém explicar isso para maior claridade, e mais precisamente segundo o proceder dos filósofos da natureza. Algum destes, com efeito, afirma que o Uno é Amizade, outro afirma que é o ar, ouro que é o Indeterminado (apeiron). Pois bem, se - como se disse nos tratados acerca da substância e acerca do que é - nenhum universal pode ser substância, se considerado em si mesmo não pode ser substância ao modo de unidade separada da pluralidade (já que é algo comum), é evidente que tampouco pode sê-lo o «uno»: com efeito, «algo que é» e «uno» são os predicados mais universais. Por conseguinte, nem os géneros são naturezas e substâncias separadas das demais coisas, nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tampouco pode sê-lo «o que é» e a substância. »(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b; o bold é nosso). (…) 

 

Mas contradiz-se Aristóteles ao afirmar o seguinte:

 

«Mais precisamente, nas cores, o uno é uma cor, por exemplo, o branco, e as demais parecem gerar-se sucessivamente a partir dele e do negro, e o negro é privação do branco, como o é também da luz a obscuridade (esta é, com efeito, privação da luz) de modo que se as coisas que são fossem cores, as coisas que são constituiriam um certo número, mas de quê?  Evidentemente, de cores, e o uno seria algo que é uno, por exemplo, o branco.» (...)

«E igualmente, no caso dos sons, as coisas que são constituiríam um certo número de letras e o «uno» seria uma letra vocal»

(Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b, 1054a; o bold é nosso).

 

«É pois evidente que em cada género, o uno é uma certa natureza, e que o uno não é substância de nenhuma delas, mas que, assim como no caso das cores há-de buscar-se o uno, como tal, em certa cor que é una, assim também o uno, como tal, no caso da substância, há-de buscar-se em certa substância que é una.» (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1054a; o bold é nosso).

 

O branco não é uma substância, para Aristóteles, mas um acidente, uma qualidade. Aristóteles achava impossível o branco existir em si mesmo: só existe na camisa branca, na parede branca e noutros objectos brancos, ou na mente do homem por abstracção. No entanto, branco é uma essência - uma qualidade comum a vários entes, neste caso, a vários acidentes ou particularidades acessórias das coisas - e ao conceber branco como fonte das cores, isto é como essência primordial em relação às essências de azul, amarelo, vermelho, verde, roxo e outras cores, Aristóteles está a adoptar uma posição idêntica à de Platão: preenche com um conteúdo substancial a forma vazia do Uno. De facto, o Uno é aqui concebido como essência (branco), ou seja, componente principal da substância ou conteúdo do acidente. É concebido como um sujeito eidético, um suporte de todas as cores, não apenas um predicado.

 

Uno é uma definição formal - por isso, é um universal acima dos géneros, isto é, uma determinação comum a tudo o que existe e se pensa: Deus é uno, a Terra é una, o calor é uno, o verde é uno, a árvore em geral é una, esta amendoeira é una, este «agora» é uno. Ao postular que uno é branco e não amarelo ou azul, Aristóteles rompe esse formalismo e transforma-o em essencialismo primigénio: «o uno é a essência primeira dentro de cada género». Certamente branco é duplamente uno, se aceitarmos que é a união de todas as cores - essencialismo primigénio- , mas nem por isso azul ou amarelo deixam de ser, em si mesmos, algo que é uno. Aristóteles admite que a espécie branco é «uno» mas nega que o género côr seja uno, ao afirmar acima «que nem «uno» pode ser um género, pelas mesmas causas pelas quais tampouco pode sê-lo «o que é» e a substância. » (Aristóteles, Metafísica, Livro X, 1053b). Isto é, em rigor, uma incoerência: acentua o significado de uno como espécie matriz de outras espécies - sentido intensivo - e e nega-o como género,aglomerado de  espécies - sentido extensivo e holístico.

 

O Uno não é somente predicado, como diz Aristóteles. É a própria substância do ponto de vista formal, é o contorno geral de cada substância e o conteúdo dela enquanto indeterminado. O Uno é, pois, sujeito e predicado.

 

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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009
Aporías de Aristóteles: «No hay esencia de hombre blanco»

Intentando la redución de una pluralidad de individuos a una sola espécie y de una pluralidad de especies a un sólo género, Aristóteles cayó en el platonismo más de prisa de lo que imaginara y naufragó en aporías.

Segun Aristóteles, hay esencia de hombre pero no hay esencia de hombre blanco. Blanco sería un accidente, una categoría de cualidad que se añade a la esencia «hombre».

 

«Y es que hombre blanco es blanco, pero su esencia no es ciertamente, aquello en que consiste ser-blanco. En qualquier caso, ¿ser-vestido constituye una esencia en sentido pleno? ¿O no? Desde luego la esencia es precisamente algo determinado, y cuando se predica de otra cosa, no es algo en si mismo determinado, por ejemplo, «hombre blanco» no es precisamente algo determinado, dado que el ser algo determinado pertenece exclusivamente a las sustancias (ousía). Por consiguiente hay esencia de todas aquellas cosas cuyo enunciado es definición.» (Aristóteles, Metafísica, 1029a-1030b).

 

 Aquí se patentiza una de las dificultades de la teoría de Aristóteles: la negación de la esencia de las categorías accidentales, al menos en este texto.  Hombre es algo determinado (einaí todí) pero blanco también lo es, aunque Aristóteles niega la última parte de esta proposición (el blanco como ser-determinado) en este pasaje.

 

El pensamiento de Aristóteles es el de que el blanco y cualquier color no pueden ser en sí mismo, por si (kath autó). Así se demarca de su maestro Platón. Entonces, blanco no puede ser sustancia, es decir, sujeto portador de una esencia (eidos). Si blanco no es materia prima indeterminada, ni sustrato individualizado, es, sin duda, esencia (forma específica), en cuanto cualidad capable de existir separada, y accidente en la realidad material ( ejemplo: rosa blanca; blanco es accidente porque la rosa pudiera ser roja).

 Para tener coherencia, Aristóteles hubiera de admitir que hay esencia de hombre blanco, diferente a la esencia de hombre negro y a la de hombre asiático. El color de piel y otros rasgos físicos entran en la definición de cada espécie del género hombre. Pero para Aristóteles, hombre no es género sino espécie.

 Hay, además, una contradicción entre lo enunciado por encima de Aristóteles – el blanco y el hombre blanco no son esencias, no son determinados – y el siguiente texto del filósofo:

 

«Y es que si las afecciones no existen aparte de las sustancias – por ejemplo, estar en movimiento o blanco - «blanco» será anterior a «hombre blanco» cuanto à la definición, pero no en cuanto a la sustancia, puesto que no puede existir separado, sino que siempre se da conjuntamente en el compuesto (y llamo «compuesto» al hombre blanco). Es evidente, por tanto, que ni lo sustraído es anterior, ni lo añadido es posterior.  Y es que «hombre blanco» se enuncia por adición de “hombre” a “blanco”» (Aristóteles, Metafísica, 1077b)

 

En este pasaje Aristóteles admite que “blanco” tiene definición, esencia, es decir, es algo determinado y anterior – en lo que concierne a la esencia, no a la existencia – a “hombre blanco”. Y debería decir que la suma de dos esencias (hombre y blanco) convierte una (blanco) en accidente de otra (hombre), lo que plantea el accidente no como una entidad absoluta sino relativa.

 

 

 

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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Duas, três ou cinco noções de matéria, na teoria do Aquinate? (Leituras de Guénon e Aquino)

Um dos melhores livros de filosofia do século XX é «O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos», de René Guénon. Aí se esgrimem as teorias platónica e aristotélica da forma e da matéria, com uma clareza dialéctica que hoje os filósofos da moda, anglo-saxónicos ou outros, não possuem. Guénon separa rigorosamente a forma ou essência da substância ou matéria. Subverte a terminologia aristotélica porque, nesta, o termo substância designa, em primeira mão e em regra, forma mais matéria. Embora invocando Tomás de Aquino, Guénon, numa posição platónica, desvia-se do Aquinate.

 

São Tomás sustentou que há cinco tipos de matéria:

 

1) A matéria-prima indeterminada, que é ser em potência, e não possui qualidade alguma. É uma matéria absolutamente abstracta, que ainda é nada. Só a forma actualizará esta matéria-prima (género) em matéria sensível e inteligível (espécie). Esta continuará em potência para a formação do indivíduo, da ousía (substância individual).

 

2) A matéria comum sensível que é a textura da espécie - o constituinte interno, a argamassa de algo, sem forma configuradora - (exemplo: a humidade e o grau de frio da água constituinte do conceito de água do mar; o calor do fogo, matéria constituinte do conceito de labareda). É a parte «informal» da essência ou espécie de algo. É uma matéria abstracta.

 

3) A matéria comum inteligível que é a textura das formas matemáticas  como a superfície do círculo, o conteúdo volumétrico da esfera. É uma matéria abstracta .

 

4) A matéria individualizada, designada, ou matéria delimitada, isto é, o corpo físico que resulta da união entre o conceito (matéria comum inteligível: por exemplo, a ideia de homem) e a matéria física ( exemplo: Sócrates é este homem de carne e osso, com dimensões bem definidas, resultante da união da essência sensível-inteligível homem com o plano da matéria real). É o princípio da individuação. É a matéria concreta, palpável, visível.

 

5) A matéria inteligível individual, isto é, a forma individual de cada corpo, abstraindo da côr, som, cheiro, consistência,etc, que se encontra, a meu ver, no plano conceptual. Exemplo: «Esta forma do edifício do Mosteiro dos Jerónimos, antes de plasmar-se na matéria, forma diferente de todos os outros mosteiros, isto é, da espécie».

 

Ora Guénon, tal como Platão, «suprime» a matéria não-delimitada ou matéria comum sensível-inteligível, uma vez que a considera pura forma intelectual. Mas se o próprio São Tomás designa como matéria segunda a matéria física, deve existir uma matéria terceira que nem o Aquinate nem Guénon nomeiam desse modo, embora a intuam: a espécie, a textura ou componente interna do conceito específico, comum, de um ente material (como por exemplo: árvore, homem, casa), conceito que é a união da forma (matéria inteligível) e de uma matéria sensível comum (abstracta).

 

A matéria comum sensível e a matéria comum inteligível, que não são a matéria prima indeterminada pois, ao contrário desta, já possuem uma forma, são definidas com nitidez na seguinte passagem da Suma Teológica:

 

«Creyeron algunos que la especie del objecto natural es solamente la forma, y que la materia no es parte de la especie. Pero, según esto, no entraría la materia en la definición de los seres naturales.Hay que distinguir más bien dos clases de materia, a saber, la común y la determinada o individual. Es materia común, por ejemplo, la carne y los huesos; e individual, esta carne y estos huesos. Pues bien, el entendimiento abstrae de la materia sensible individual, no de la materia sensible común. Así abstrae la espécie de hombre de esta carne y de estos huesos que, como dice el Filósofo, no pertenencen a la esencia de la especie, sino son partes del individuo, no entrando, por lo mismo, en su noción esencial. No puede el entendimiento, en cambio, abstraer  la especie de hombre de la carne y de los huesos

 

«Sin embargo, el entendimiento puede abstraer las especies matemáticas no sólo de la materia sensible individual, sino también de la común; aunque no de la materia inteligible común, sino solamente de lo individual. Se llama, en efecto, materia sensible a la materia corporal en cuanto sujeto de cualidades sensibles, como el calor, el frío, la dureza, la blandura, etc; y materia inteligible a la substancia en cuanto sujeto de la cantidad. Ahora bien, no cabe duda de que la cantidad le sobreviene a la substancia antes que las cualidades sensibles. Por eso las cantidades - como números, dimensiones y figuras, que son sus límites - pueden ser consideradas sin las cualidades sensibles, lo cual es abstraerlas de la materia sensible; mas no pueden concebirse sin referencia a la sustancia sujeto de la cantidad, lo cual sería abstraerlas de la materia inteligible común. Sin embargo, no es preciso la referencia a esta o aquella sustancia; lo que equivale a abstraerlas de la materia inteligible individual».

 

(Santo Tomás de Aquino, Suma teológica, CUESTION 85, Artículo 1; o bold é de minha autoria)

 

Está aqui explícita a súmula da teoria das qualidades primárias ou reais nos objectos(forma, tamanho, número) e das qualidades secundárias ou irreais nos objectos(côr, cheiro, sabor, dureza, frio/calor, etc) que Descartes e John Locke (re)formularam séculos mais tarde.

 

A MATÉRIA DESIGNADA É A MATERIA SECUNDA ?

 

Criticando a imprecisão do conceito de matéria dos físicos modernos, René Guénon escreveu:

 

«Podemos perguntar agora, pondo de parte a pretensa "inércia da matéria", que no fundo, não passa, de um absurdo, se essa mesma "matéria" dotada de qualidades mais ou menos bem definidas que a tornariam susceptível de se manifestar aos nossos sentidos, é a mesma coisa que a materia secunda do nosso mundo tal como a entendem os escolásticos. Podemos já duvidar que uma tal assimilação seria inexacta se repararmos que, para ter um papel relativamente ao nosso mundo análogo ao da materia prima ou da substância universal relativamente a qualquer manifestação, a materia secunda não deve, de modo nenhum, ser manifestada neste mundo, mas servir exclusivamente de "suporte" ou de "raíz" ao que se manifesta nele, por conseguinte, as qualidades sensíveis não lhe podem ser inerentes, mas procedem, pelo contrário, de "formas" recebidas em si, o que mais uma vez significa que tudo o que é qualidade deve ser posto em relação com a essência.» (René Guénon, O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos, Publicações Dom Quixote, pag 23; o bold é nosso).

 

Isto parece-nos racional: a matéria secunda como, por exemplo, as essências fogo, água, madeira, pedra, existe no abstracto, como potência para a "materialização" deste fogo aceso que queima, desta água onde molho as mãos, desta pedra e desta madeira que toco. Mas Guenón nega qualidades sensiveis a essas essências ao passo que Tomás de Aquino teorizou a matéria comum sensível, isto é, essências ou espécies dotadas de côr, som, cheiro, dureza. Há aqui uma contradição terminológica: o sensível existe na essência supra-física ou apenas na matéria física?

 

Guenón sustenta que São Tomás classificou a matéria física designada, (matéria signata) como materia secunda:

 

«A materia secunda não deve, no entanto, ser desprovida de determinação, porque se assim fosse confundir-se-ia com a própria materia prima na sua completa indistinção...É necessário, pois, precisar qual a natureza desta determinação, e é o que faz Tomás de Aquino ao definir a materia segunda como materia signata quantitate » (René Guénon, ibid, pags 23-24).

 

Será deveras assim? A nosso ver, a matéria designada na quantidade (exemplo: este corpo de 1,80 metros de altura, mãos finas, rosto pálido e olhos azuis com X medidas...) é a matéria terceira, não a segunda.

 

São Tomás escreveu:

 

«Por isso há que ter em conta que a matéria é princípio de individuação, não tomada de qualquer maneira mas só como matéria designada (signata). Chamo matéria designada à matéria enquanto considerada sob certas dimensões. Esta matéria não entra na definição de homem , mas entraria na definição de Sócrates se Sócrates tivesse definição. Na definição de homem põe-se a matéria não designada;assim, não pomos na definição de homem estes ossos e esta carne, mas sim ossos e carne em geral, que são a matéria não designada do homem....(São Tomás de Aquino, Sobre o ser e a essência; o negrito é nosso)

 

Aparentemente, há uma falha de numeração na hierarquia da matéria. E note-se a ambiguidade do termo matéria: ora é a substância não física, ideia (matéria comum, sensível ou inteligível) ora é a substância física, palpável e visível (matéria signata, designada, determinada ou delimitada). Para a terminologia de hoje, a linguagem de Aquino que, sem embargo, é um magnífico pensador, suscita a confusão entre os conceitos de matéria ( género ou materia prima e espécie ou materia secundae a matéria real existente (materia designada ou delimitada e, a nosso ver... materia tertia).

 

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2006
O universal é qualidade sem quantidade , como sustentou José Reis?

A questão dos universais - conceitos ou realidades gerais que abarcam multidões de indivíduos da mesma natureza - notabilizou a Idade Média na Europa.

De acordo com o grego Aristóteles, um mestre simultaneamente brilhante pela vasta erudição e, por vezes, confuso pela hiper-análise, há a substância primeira, o indivíduo (por exemplo: «Aristóteles»), que se integra na espécie (por exemplo: homem) e esta no género (por exemplo: animal).

 

Apesar de os universais, para Aristóteles não incluirem a espécie (um grupo intermédio a que pertence o indivíduo, por exemplo: «o grupo dos filósofos gregos em que Aristóteles se integra») mas sim o género ( o grupo maior que engloba o indivíduo e a espécie; por exemplo: «o grupo dos homens, em que se inserem Aristóteles e os filósofos gregos»), a translação desta temática para a Idade Média fez com que espécie e género fossem classificados como universais.

 

Existem os universais? Ou são erros do pensamento? Se existem, onde existem? Na matéria? Em um mundo de arquétipos áparte desta? Na mente humana?

Estas foram questões correntes na disputa medieval dos universais.

 

José Reis, professor catedrático de Filosofia na Universidade de Coimbra - a meu ver, um dos poucos académicos portugueses de Filosofia que pensam com profundidade, num mundo universitário recheado de pequenos «pensadores», mais ou menos eruditos, ciosos dos seus títulos de «mestres» e «doutores»- postulou que os universais existem na matéria, constituem as essências gerais dos seres materiais e distinguem-se dos singulares porque são pura qualidade, ao passo que estes são qualidade adicionada de quantidade, de números. Ouçamo-lo:

 

«E eis tudo: o universal é uma pura qualidade, isto é, uma qualidade sem a determinação numérica, e o singular, essa qualidade com a determinação numérica. Sem esta, a qualidade diz só o que uma coisa é, não diz ainda os casos em que ela existe; ela é precisamente o aberto em relação aos seus casos. Com a determinação numérica, ela é ainda imediatamente cada caso e, como tal, não é mais o aberto mas o fechado a qualquer outro, e em relação ao universal, que é o aberto por definição.» (José Reis, Nova Filosofia, Afrontamento, Porto, 1990, pag 150).

 

E comentando o facto de, na tradição filosófica, o universal ser um duplo do singular, continua José Reis:

 

«As razões que assim o fizeram nascer foram aquelas: já a tendência que advém da simples abstracção, mas sobretudo o não se ver que a multiplicidade das coisas não está na sua própria realidade, antes está na diferença numérica. Esta a razão profunda por que, embora Aristóteles e depois S. Tomás ponham o singular no número, afinal logo o percam reduzindo-o à matéria; e essa a razão por que Husserl, embora dizendo claramente que o singular está no hic et nunc, logo o esqueça por completo e diga, impressivamente, que se a casa arder não arde o seu universal. Agora, porém, é claro que, se o universal é a pura qualidade e o singular a sua diferença numérica, a sua situação, o universal não é mais duplo nenhum. E então, não sendo senão justamente a própria realidade dos singulares (só que unificada), ele é função de todos os seus casos e já arde na exacta medida em que um deles arder; se arderem todas as casas, pura e simplesmente não há mais o respectivo universal. Este é só e exclusivamente do mundo sensível; ele não é senão o mundo sensível sem as suas diferenças numéricas» (ibid,pag 157).

 

O texto de José Reis é brilhante: coloca a numeração, e não a matéria, como princípio de individuação, tem um sabor neopitagórico. Para Pitágoras de Samos, as essências dos entes são os números-figuras, isto é, as quantidades-qualidades: o 1 designa o ponto (qualidade espacial), o 2 traduz-se na recta (qualidade espacial), o 3 exprime-se no plano (qualidade espacial) e o 4 entifica-se na pirâmide de três lados (qualidade espacial). Contabilizando estes quatro números físicos primordiais nos diversos entes, Eurito de Crotona, um pitagórico, definiria o homem pelo número 250 e as plantas pelo número 360. A sugestão-objecção neopitagórica que coloco à teoria de José Reis é a seguinte: a qualidade não é senão quantidade «arredondada», não discriminada numericamente aos nossos sentidos.

 

Tomando o exemplo do universal Casa, coloco a questão, numa perspectiva de recorte neopitagórico, do seguinte modo: a ideia ou essência de Casa exprimir-se-ia, por hipótese, pelo número 55 milhões (55 000 000) e cada casa singular por um número oscilando entre 55 000 000 e 55 999 999. Assim haveria uma casa singular A, situada em Montalegre, cuja essência se exprimiria pelo número-figura 55 232 856, e outra casa singular B, situada em Alcalá de Henares, cuja essência se consubstanciaria pelo número-figura 55 654 321. A essência comum de ambas seria o 55 000 000, a qualidade Casa, com o correspondente número idiossincrásico, diferentemente do que postulou José Reis, que separa a qualidade da quantidade e parece não admitir, por conseguinte, que o universal Casa contenha,em si, um número.

 

Para a Física contemporânea, a côr vermelha, uma qualidade, é ou equivale a um comprimento de onda de 6200 angströms. A côr verde, outra qualidade, possui o comprimento de onda de 4120 angströms e a côr azul, também uma qualidade, tem o comprimento de onda de 4750 angströms. Toda a qualidade exprime um conjunto de quantidades combinadas de uma determinada maneira.

 

A quantidade é intrínseca à qualidade e não extrínseca - embora no texto de José Reis pareça  correcta a

dissociação entre a qualidade como essência e a quantificação desta desta nos existentes. Se a quantidade não fosse intrínseca à qualidade, como poderia esta dotar-se de quantidade e variar segundo a quantidade? Um triângulo equilátero não é aquele em que cada um dos ângulos mede 60º de arco? E isto nãoé quantidade dentro de uma essência que é qualidade ou forma?

 

 

Separar, pois, a qualidade da quantidade na determinação do universal é, a nosso ver, um equívoco antidialéctico, na linha de Kant, Bergson, Husserl e Heidegger.

 

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