Segunda-feira, 19 de Março de 2012
Teste de filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal (final do 2º período)

 

Eis um teste de filosofia de 11º ano de escolaridade que trata com substancialidade e razão dialética a temática " O conhecimento e a racionalidade científico-tecnológica".

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia com 3º Ciclo, Beja

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

Março de 2012            Professor: Francisco Queiroz   

 

I

 

«Chamamos a estas faculdades entendimento e razão; esta última, sobretudo, distingue-se propriamente e, sobremodo, de todas as forças empiricamente condicionadas, porque examina os seus objetos segundo ideias, determinando, a partir daí o entendimento ».

 

 (Kant , Crítica da Razão Pura», pag. 471)

 

 

 

1-1) Explique a frase do texto acima.

 

1-2) Explique, segundo a gnosiologia de Kant, o que é e “onde” existe o númeno e onde e como se forma o fenómeno sobreiro.

 

1-3) Explique onde e como se forma o juízo empírico «os sobreiros estão na planície».

 

 

 

II

 

 

2) Relacione, justificando:

 

 

 

A)  Os quatro passos do percurso gnosiológico de Descartes desde a dúvida hiperbólica,  e ser em si e ser para si na teoria de Hegel.

 

B) Anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend e conjeturas na ciência em Popper.

 

C) Finalidade dos diversos tipos de movimentos dos entes no cosmos segundo Aristóteles e Vontade em Schopenhauer.

 

D)  Realismo crítico em Descartes e idealismo em David Hume.

 

E)  Verificacionismo/ Corroboracionismo segundo Karl Popper e o positivismo lógico e  causação /necessidade em David Hume.

 

F)  Ciências hermenêuticas/ Ciências empírico-formais, por um lado, e método hipotético-dedutivo, por outro lado.

  

 

 

 CORREÇÃO DO TESTE (COTADO PARA 20 VALORES)

 

 

1-1) A razão é a faculdade das ideias, conceitos metafísicos, incondicionados, e é a faculdade dos princípios: pensa os númenos e a estrutura do entendimento a priori. O entendimento é a faculdade dos conceitos, a priori (exemplo: número dois, unidade) ou a posteriori (exemplo: átomo, cão), e a faculdade dos juízos, puros ou empíricos: pensa os fenómenos mas não sente. O entendimento recebe os dados empíricos da sensibilidade, a razão não. As forças empíricamente condicionadas, isto é, sujeitas a leis da natureza ou do espírito são a sensibilidade com os fenómenos e o entendimento com as suas formas a priori, categorias e juízos puros. Estão, pois fora da razão que é incondicionada, livre. (VALE DOIS VALORES).

 

 

1-2) O númeno, objeto metafísico incognoscível, como Deus e mundo (como totalidade), está, em princípio, fora do espírito humano que se compõe de três níveis essenciais, a sensibilidade, o entendimento e a razão. O fenómeno está dentro da sensibilidade, no espaço ou sentido externo, no caso de fenómenos físicos como árvores, casas, rios. O fenómeno sobreiro forma-se deste modo: do exterior ao espírito, o númeno afeta a sensibilidade e cria nesta um caos de matéria, de intuições, a que o espaço e o tempo, como formas a priori da sensibilidade, vão dar forma e enquadramento temporal e assim surge o sobreiro. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

1-3) O juízo empírico "os sobreiros estão na planície"  forma-se no entendimento do seguinte modo: em primeiro lugar, a imaginação reprodutora transporta para o entendimento as intuições empíricas de sobreiro e de planície que são transformadas em conceitos empíricos pelas categorias de unidade, pluralidade, realidade, etc. Estes conceitos acedem à tábua de juízos puros e aqui são unidos em forma de juízo afirmativo «S é P». (VALE DOIS VALORES).

 

 

2-A) Os quatro passos do raciocínio de Descartes são pautados pelo racionalismo, doutrina que afirma que a verdade procede do raciocínio, das ideias da razão e não dos sentidos: 1º Dúvida hiperbólica ( «Duvido da existência do mundo, das verdades da ciência, de Deus e até de mim mesmo uma vez que quando sonho tudo me parece real»); 2º Idealismo solipsista («Penso, logo existo» como mente); 3º Idealismo não solipsista («Se penso tem de haver alguém mais perfeito que eu que me deu a perfeição do pensar, logo Deus existe); 4º Realismo crítico («Se Deus existe, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, existe fora de mim»). Podemos dizer que o segundo passo («Existe a minha mente») conjugado com o quarto passo («Existe o meu corpo e o mundo físico») formam o ser-para-si da doutrina de Hegel, que significa a humanidade, o homem, que é a Ideia absoluta voltando a si mesma. E o terceiro passo («Existe Deus») significa o ser em si, a Ideia absoluta antes de criar o universo. (VALE TRÊS VALORES).

 

2- B) O realismo crítico em Descartes é a doutrina segundo a qual existe um mundo de matéria real em si mesmo fora das mentes humanas destituído de qualidades secundárias (cores, sons, cheiros, sabores, calor, frio, prazer, dor), consistindo apenas em qualidades primárias ou geométricas. Assim, por as árvores não são duras nem moles, não têm cor, só têm qualidades primárias: figura, matéria impenetrável indeterminada, número, movimento. O idealismo de David Hume vai mais longe do que o idealismo parcelar de Descartes, uma vez que afirma que os objetos materiais são apenas ideias confirmáveis por impressões de sensação, isto é, existem na nossa perceção, mas não necessariamente no mundo exterior cujo conteúdo é incognoscível para nós. Hume insiste, ademais, na impermanência das coisas, no caráter fictício de substância, objeto permanente: é a nossa imaginação que atribui a continuidade a um mesmo objeto em tempos diferentes. (VALE DOIS VALORES)

 

2- C) No mundo sub-lunar de Aristóteles, a finalidade do movimento dos corpos, que nunca é circular, é o regresso à origem do seu constituinte fundamental: assim, a pedra lançada na esfera do ar cai em direção à esfera da Terra, que é a sua origem, porque as pedras integram a terra. No mundo celeste, estrelas e planetas giram em círculos agarrados às suas esferas de cristal com o objetivo de tentar alcançar Deus, o pensamento puro que está fora do universo e funciona como motor imóvel. A vontade em Schopenhauer é a força criadora do universo material e podemos, nesta complexa comparação com o universo de Aristóteles, identificá-la quer com as esferas do mundo sub-lunar, alvos do movimento dos corpos e de certo modo "criadoras" destes movimentos, quer com Deus, que não criou o mundo mas desperta o movimento das esferas celestes. (VALE DOIS VALORES)

 

2-D) O anarquismo epistemológico de Paul Feyerabend é a teoria segundo a qual o motivo de haver ciências universitárias proeminentes que excluem ciências antigas (medicina natural, astrologia, etc) ou práticas religiosas e mágicas é o interesse egoísta dos "cientistas" e académicos e industriais do setor em auferirem de prestígio e grandes financiamentos por parte dos Estados e a visão filosófica deficiente desses cientistas e académicos. Assim, o anarquismo de Feyerabend defende a pluralidade de métodos e a improvisação ad hoc de novos métodos e exige que todas as ciências e rituais não científicos de comprovada utilidade sejam postos em plano de igualdade e sujeitas a testes, a controlos, que eliminem a ideologia dominante. Popper, por sua vez, reconhece que todas as ciências de base empírica são conjuntos de conjeturas ou suposições mas aceita hierarquizá-las, provisoriamente, dizendo que são melhores as que resistiram aos testes de falsificabilidade, e não põe em causa a medicina oficial alopática, classifica a astrologia como "superstição" e afasta a acusação de «má intenção e abuso de poder» que Feyerabend faz aos círculos científicos e tecnocráticos dominantes hoje. (VALE DOIS VALORES)

 

2- E) O verificacionismo é, segundo Popper, impossível de comprovar porque estende, por indução amplificante, alguns casos empíricos (uma amostra) a todos os casos . Assim, verificacionismo e indução amplificante são sinónimos na perspetiva do positivismo lógico: por exemplo, observar 1000 pedaços de quartzo e constatar que em todos  há uma estrutura cristalina trigonal composta de tetraedros de sílica autoriza proclamar que em todo o quartzo existente no mundo há uma estrutura trigonal. Popper discorda desta indução amplificante e prefere dizer que o estudo dos 1000 pedaços de quartzo corroborou ou confirmou nesses casos e só nesses (corroboracionismo) a estrutura trigonal do quartzo, mas não verificou esta.

David Hume é um percursor de Popper ao teorizar que o princípio do determinismo, segundo o qual nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos, denominado causação, não é real na natureza porque há muitas excepções ou porque é impossível verificar a totalidade dos casos da lei, mas é apenas uma construção da nossa mente, uma das sete relações filosóficas. (VALE DOIS VALORES)

 

2-F) As ciências hermenêuticas ou sociais são aquelas que não assentam num rigoroso determinismo, quantificável, mas sim em teses mais ou menos metafísicas, desdobrando-se em várias interpretações ( hermenêutica, arte da (boa) interpretação de textos e símbolos diversos) sobre um mesmo tema. A psicanálise, por exemplo, é uma dessas ciências: a hipótese de os meninos de 3 a 5 anos de idade sentirem o complexo de Édipo (desejo de matar ou afastar o pai e casar com a mãe) não se verifica em todas as sociedades, segundo Margaret Mead, logo não é universalmente induzível. De um modo geral, estas ciências hermenêuticas não utilizam o método hipotético-dedutivo que comporta quatro fases: a observação, a hipótese (e sua matematização numa fórmula), a dedução da fórmula (para casos concretos) e a experimentação. Ao contrário, às ciências empírico-formais, isto é, construções racionais matematizadas a partir de uma infinidade de dados sensoriais, aplica-se perfeitamente o método hipotético-dedutivo.  (VALE DOIS VALORES)

 

 

Nota para a correção: nas perguntas de relacionação entre dois ou mais conceitos, a cotação para cada resposta dada deve obedecer a um princípio de premiar o aluno que estuda e sabe as definições separadamente: assim deverá receber 50% a 60% da cotação da pergunta desde que defina correctamente os conceitos, embora não consiga interligá-los.

 

 

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Sábado, 17 de Dezembro de 2011
Teste de Filosofia do 11º ano de escolaridade em Portugal.

 

Eis um modelo de teste de filosofia para o 11º ano de escolaridade para o final do primeiro período letivo, que me agrada bastante.

 

 

 

TESTE DE FILOSOFIA, 11º ANO TURMA A

 

 

I

 

« As impressões podem dividir-se em duas categorias: as de sensação e as de reflexão. A primeira categoria surge originariamente na alma, a partir de causas desconhecidas. A segunda é, em grande parte derivada das nossas ideias, na seguinte ordem: primeiro uma impressão atinge os nossos sentidos e faz-nos perceber calor ou frio, sede ou fome, prazer ou dor de qualquer espécie. Desta impressão, a mente tira uma cópia…» David Hume (Tratado do Entendimento Humano)

 

 

 

1) É a teoria de David Hume um realismo gnosiológico? Ou outra corrente? Justifique, explicando, em particular, a expressão «a partir de causas desconhecidas».

 

 

 

2) Explique o que são as ideias, segundo David Hume, como se formam – em particular as ideias de “eu” e “substância”.

 

 

 

3) Exponha e problematize as sete relações filosóficas ou de conhecimento segundo Hume e o papel que desempenham.

 

 

 

4) Exponha os quatro passos do racionalismo de Descartes, que celebrizaram este filósofo, iniciados na dúvida hiperbólica, apontando alguma eventual incoerência..

 

 

 

5)Relacione, justificando:

 

A) Conhecimento por contato e conhecimento proposicional, segundo Ryle e Russel, e racionalismo/ empirismo.

 

B) Indução, por um lado, e falácias depois de por causa de, da composição e da derrapagem, por outro lado.

 

C) Lei do salto qualitativo e binómio percepção empírica/conceito.

 

 

 

6)Considere o silogismo :

 

«Alguns cubenses não são andaluzes».

 

«Os cubanos não são cubenses ».

 

«Os andaluzes não são cubanos».

 

 

A)Identifique o modo e a figura do silogismo. Justifique.

 

 

B)     Identifique e enuncie, em concreto, duas leis do silogismo regular formalmente válido que foram infringidas no silogismo acima.

 

 

 

 

 

 

CORREÇÃO DO TESTE (COTAÇÃO MÁXIMA. 20 VALORES)

 

1) A teoria de David Hume não é um realismo gnosiológico porque não postula existir um mundo de objetos materiais fora da nossa mente. Ou é  um idealismo similar ao de Kant e pioneiro em relação a este, uma vez que afirma que os objetos materiais como árvores, montanhas, animais, etc, são meras representações  em nós, de «causas desconhecidas» exteriores. Ou é  um ceticismo fenomenológico na linha de Pírron e Carnéades que se limita a descrever as aparências fazendo a epochê (suspensão do juízo) .

 

2) As ideias, segundo Hume, são junto com as impressões, as duas espécies de perceções que o espírito humano forma. Toda a ideia deriva de uma impressão, seja esta uma impressão sensível - exemplo: a ideia de maçã é uma cópia pálida das impressões sensíveis que são o objeto maçã, objeto esse não exterior ao espírito - ou seja uma impressão de reflexão- exemplo: a ideia de Deus é composta na base de impressões de reflexão e ideias como as de governante supremo, ser bondoso, criador, ser justo. Há ideias complexas e ideias simples. David Hume é um empirista:

«Não podemos formar uma ideia exata do gosto de um ananás, antes de realmente o saborearmos» (David Hume, Tratado do Entendimento Humano, pag 33, Fundação Calouste Gulbenkian).

 

«As ideias produzem as imagens de si mesmas em novas ideias; mas, como se supõe que as primeiras ideias derivaram de impressões, continua ainda a ser verdade que todas as nossas ideias simples procedem, mediata ou imediatamente, das impressões que lhes correspondem.» (David Hume, ibid, pag 35).

 

As ideias de "substância" e de "eu" derivam da ideia filosófica ou categoria de identidade, que supõe a permanência, a continuidade, e da relação filosófica de causação (determinismo, princípio segundo o qual as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos), entre outras. Não existe a substância, como por exemplo, maçã: a cor amarela, a forma redonda, o pedúnculo, o sabor açucarado são impressões sensíveis que se conjugam e, combinadas pela imaginação, fornecem a noção unitária ou ideia de substância maçã.

 

3)  David Hume escreveu:

     «Há sete espécies diferentes de relação filosófica: semelhança, identidade, relações de tempo e lugar, proporção de quantidade ou número, graus de qualidade, contrariedade e causação. Podem dividir-se estas relações em duas classes: as que dependem inteiramente das ideias que comparamos entre si e as que podem variar sem qualquer mudança de ideias.» (David Hume, Tratado do Entendimento, Humano, pag 103).

      

Estas sete relações são categorias ou estruturas lógico-ontológicas que, diferentemente do realismo aristotélico, se situam na mente do sujeito, no espírito humano. Se não possuíssemos em nós, a priori, a relação de semelhança não conseguiríamos perceber que um pinheiro e um sobreiro são coisas semelhantes enquanto espécies do género árvore. Se não possuíssemos em nós a relação de tempo não distinguiríamos entre o ontem, o hoje e o amanhã. As três relações mais estáveis, segundo Hume são as de identidade, tempo e lugar e causação.

 

 

4) Os quatros passos gnosiológicos que celebrizaram Descartes a partir da dúvida hiperbólica são os seguintes:

 

1º CETICISMO ABSOLUTO - Se quando estou a dormir me parecem verdadeiros os meus sonhos, quem me garante que, acordado, não estarei a sonhar? Assim tudo se me afigura duvidoso, ilusório: o mundo que vejo, os outros, as teorias da matemática e das ciências, Deus, o meu corpo e eu mesmo.. Não tenho certeza de nada.

2º  IDEALISMO MONISTA E SOLIPSISTA - Neste mar de dúvidas, surge-me a primeira certeza, uma ideia evidente: «Eu penso, logo existo» (COGITO ERGO SUM). Existo, como mente, não como corpo. Assim, sou único e sou tudo.

IDEALISMO PLURALISTA - Se existo e tenho a perfeição de pensar, há-de existir alguém mais perfeito que eu que me colocou essa perfeição: Deus, um espírito sumamente bom e perfeito, fonte da criação.

4º  REALISMO CRÍTICO-  Se Deus existe e é infinitamente bom e verdadeiro, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e toco: assim, embora as cores, sons, cheiros, sabores, sensações de duro e mole, de calor e frio, não existam nos objetos fora de mim mas apenas no meu cérebro, há, fora de mim, um mundo de matéria indeterminada dotado de corpos extensos com as respetivas formas e tamanhos, números e movimentos. 

 

A problematização destes argumentos oferece múltiplas vias. Eis uma delas: se Deus é o garante da verdade por que razão admite que nos enganemos sobre cores, cheiros, sons, dureza dos objetos mas não nos deixa enganar sobre as formas, os tamanhos e os movimentos? Eis outra: como sei que só possuo um certo grau de perfeição e não a perfeição toda, a ponto de remeter o que me falta para a existência de um Deus criador?

 

5) a) O conhecimento por contato, segundo Ryle e Russell, é o conhecimento direto das coisas, por via sensorial - exemplo: conheço a ponte sobre o rio Guadiana ao olhá-la, junto dela, e ao atravessá-la -  e parece articular-se com empirismo, doutrina segundo a qual as nossas ideias são provenientes, direta ou indiretamente, das perceções sensoriais. O conhecimento proposicional - definição algo ambígua, porque há conhecimento proposicional por contato; exemplo: «Estou a ver a água do rio a correr, límpida...» - articular-se-ia com o o racionalismo, corrente segundo a qual as nossas ideias são provenientes na totalidade ou em grande parte da razão, do raciocínio, mas também se articularia com o empirismo como se vê no exemplo que acabo de dar.

 

B) As três falácias referidas representam formas de indução pouco sólida, isto é, partem de um ou vários dados empíricos e generalizam: a falácia depois de, por causa de, que associa com caráter determinista, de vículo necessário dois acontecimentos vizinhos por casualidade (exemplo: vi um gato preto e duas horas depois perdi o porta moedas, uma semana depois voltei a ver um gato preto e horas depois bateram-me no automóvel, ver um gato preto dá-me azar); a falácia de composição atribui ao todo uma qualidade da parte (exemplo: Luisão, jogador do Benfica, é muito alto, logo toda a equipa de futebol do Benfica é feita de jogadores muito altos); a falácia da derrapagem encadeia sucessivamente ideias que vão perdendo gradualmente o encadeamento lógico-material entre si, o que é visível na conclusão (exemplo: vou a Madrid e visito a Puerta del Sol; na Puerta del Sol, encontro uma dinamarquesa loira a quem falo; a dinamarquesa leva-me a uma discoteca e vai comigo para o hotel; no hotel entramos na sala do bar e há um apagão geral em Madrid; logo, se vou a Madrid há um apagão elétrico geral).

 

5) c)  A lei do salto qualitativo  estabelece que uma acumulação lenta e gradual de um aspeto num fenómeno ou ente gera, num dado instante, um salto de qualidade desse fenómeno ou ente. Vou acumulando percepções empíricas de pinheiros, faias, sobreiros, isto é, imagens visuais de árvores e em seguida dá-se o salto qualitativo - a imagem presente nos sentidos é substituída por uma imagem intelectual- forma-se em mim o conceito ou representação abstrata de árvore. 

 

6) a) Modo do silogismo (classificação deste com as letras A,E,I,O segundo a qualidade e a quantidade em cada uma das 3 proposições que o compõem): OEE. E significa proposição universal negativa e O significa proposição particular negativa.

        Figura do silogismo (classificação deste segundo a posição do termo médio nas premissas, como sujeito ou predicado): primeira figura.

 

6) B) De duas premissas negativas nada se pode concluir.         

A conclusão segue sempre a parte mais fraca: havendo uma premissa particular («Alguns cubenses...») a conclusão deverá ser particular e não universal como sucede («Os andaluzes não são...»).

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Setembro de 2011
Aristóteles interpreta Platão: o Grande e o Pequeno não seriam Formas mas Princípios imanentes à matéria

 

Aristóteles compara do seguinte modo o platonismo ao pitagorismo: 

 

« Platão afirma ademais, que entre as coisas sensíveis e as Formas existem as Realidades Matemáticas, distintas das coisas sensíveis por serem eternas e imóveis, e das Formas porque há muitas semelhantes,enquanto que cada forma é somente uma e ela mesma. E posto que as Formas são causas do resto, pensou que os elementos de aquelas são os elementos de todas as coisas que são , que o Grande e o Pequeno são princípios enquanto matéria e que o Uno o é enquanto substância. Com efeito, a partir de aqueles, por participação no Uno, as Formas são os Números. E quanto a que o Uno é, por seu lado, substância, e não se diz que é uno sendo outra coisa, pronunciou-se de modo muito próximo aos Pitagóricos, e igual a estes a respeito de os Números serem causa da substância das demais coisas.

 

«Sem embargo, é próprio dele ter posto uma Díade em vez de entender o Ilimitado como uno, assim como haver afirmado que o Ilimitado se compõe do Grande e do Pequeno e ademais distingue-se em que ele situa os Números fora das coisas sensíveis, enquanto que aqueles que afirmam que os Números se identificam com as próprias coisas, e, portanto, não situam as realidades matemáticas entre as Formas e o sensível. O situar, de modo diferente dos pitagóricos, o Uno e as Números fora das coisas e a introdução das Formas surgiu como consequência de que a sua investigação se manteve ao nível dos conceitos.» (Aristóteles, Metafísica, Livro I, 987 b, 15-30; o negrito é posto por mim).

 

 

Neste texto, Aristóteles além de distinguir Platão de Pitágoras quanto à natureza respectivamente transcendente (platonismo) ou imanente (pitagorismo) dos Números, afirma que, na doutrina de Platão, o Grande e o Pequeno compõem o Ilimitado, isto é, o espaço vazio material (a Chora) que Platão teorizava como oposto ao mundo inteligível das Formas ou Arquétipos. A matéria seria dual, não una, ao contrário do mundo das Formas, Uno primordialmente e em simultâneo e de forma derivada, múltiplo. Aparentemente, a dimensão ou extensão - isto é, o Grande e o Pequeno - constituem a essência primordial, imanente, da matéria. Terá Descartes ido beber aqui a ideia da extensão como a natureza do mundo material?

 

A frase algo enigmática «a partir de aqueles (Grande e Pequeno) as Formas são Números» parece-me significar o seguinte: os Números, como intermédio, entre o singular único ( exemplo: o Belo, o Triângulo, o Cubo) e as coisas materiais multiplicam as imitações da Forma (teoria da participação) de maneira a que estas configurem as coisas. Esta configuração das coisas faz-se através da Díada do Grande e do Pequeno, dois princípios aparentemente residentes na matéria indiferenciada que espera receber a imagem das Formas através dos Números.

 

Se o Igual, o Maior e o Menor são arquétipos, formas do mundo inteligível, não deveriam igualmente o Grande e o Pequeno figurar nesse mundo? Sim, a menos que Grande e Pequeno designem quantidades definidas, aprisionadas na matéria  - exemplo: homem com estatura de 160 centímetros é pequeno, com estatura de 170 a 175 centímetros  é moderamente grande, com estatura de 200 a 220 centímetros é muito grande - e não tenham o carácter abstracto e perene das Formas.

 

 

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Segunda-feira, 7 de Março de 2011
Equívocos de Rambaldi sobre o Pirronismo e a Teoria Conjecturalista de Popper

 

Em «Oposição/ Contradição», um artigo muito interessante sobre a dialéctica, Enrico Rambaldi desenvolveu variados equívocos.  Passemos a analisar alguns.

 

O REALISMO DA CONTRADIÇÃO NÃO É EXCLUSIVO DA DIALÉCTICA (INTERNALISTA) 

 

Após descartar o senso comum por rejeitar a racionalidade da existência de contradições e oposições e "não ser significativo", Rambaldi escreve:

 

«Entre os modos de entender a oposição e a contradição que, pelo contrário, são significativos, um é o de evidenciá-las, para negar que seja possível um juízo de verdade, ou para contradizer um discurso e sobre ele construir outro; um segundo é o de analisá-las para delimitar o campo do saber; um terceiro, realista, é o de considerá-las o motor de todo o desenvolvimento.» (Enrico Rambaldi, Oposição/Contradição, Enciclopédia Einaudi, volume 10, pag 45, Casa da Moeda).

 

Esta distinção está confusa: há realismo da contradição - ou seja existência autónoma desta, fora da mente humana - tanto na segunda posição como na terceira, esta última heraclitiana/ hegeliana /marxista. O realismo não pode restringir-se à doutrina que coloca a contradição como motor interno de desenvolvimento de todos os entes e processos. É realista também a doutrina que reconhece a contradição como forma externa às coisas e entre estas mas não situada na essência interna de cada coisa.

 

Quanto ao cepticismo, não se trata de privação absoluta: o cepticismo apenas nos priva da certeza ontológica, mas não da imagem sensorial gnoseológica. Assim, o céptico possui algo, a verdade da aparência em si mesma e a dúvida metódica sobre a meta-aparência, a essência oculta, o ser do fenómeno.

 

O CEPTICISMO PIRRÓNICO É SUBJECTIVISMO RADICAL NEGATIVO? E O CONJECTURALISMO DE POPPER É SUBJECTIVISMO MODERADO CONSTRUTIVO?

 

Rambaldi designa o cepticismo de subjectivismo radical negativo:

 

«Subjectivismo radical negativo»

«(...) Na sua forma mais rigorosa (pirronismo), o cepticismo não deixa qualquer possibilidade de que este ou aquele juízo possa, mesmo fortuitamente, ser verdadeiro, mas demonstra , pelo contrário,  a necessidade da dúvida universal. » (Enrico Rambaldi, Oposição/Contradição, Enciclopédia Einaudi, volume 10, pag 45-46, Casa da Moeda; o negrito é colocado por mim).

 

Esta definição de cepticismo é parcialmente errónea: o cepticismo comporta juízos verdadeiros, para o cepticismo pirrónico o juízo «sinto calor neste dia de verão» é verdadeiro, porque se reporta a sensações, a percepções empíricas. Para os cépticos, a dúvida não é universal no sentido de extensão total, de abrangente de todo o tipo de representação e ideação. A dúvida hiperbólica desenvolvida por Descartes, essa sim, foi total, mas não coincide com o pirronismo. Descartes duvidou das percepções empíricas, do "eu", de tudo, Pirron duvidou só do lado oculto, física ou especulativamente falando.

 

Na verdade, o cepticismo pirrónico não é um subjectivismo radical negativo: Pirrón não negava que vissemos o céu como azul e sentíssemos como salgada a água do mar, simplesmente negava que pudéssemos saber (intelectualmente ou sensório-idealmente)  o que é o sabor salgado e se a côr existe mesmo no céu ou não. É um objectivismo antimetafísico e anti-racionalista: objectivismo no seu duplo sentido, porque a doutrina é perfilhada por muitos e porque capta o objecto exterior tal como é, na sua aparência visível e palpável; anti-racionalismo porque nega à razão o poder de arquitectar certezas por si mesma, para além da evidência sensorial E a teoria de Popper de que «as ciências são conjuntos de conjecturas, inverificáveis como teses» não é, senão, um cepticismo pirrónico.

 

Rodolfo Mondolfo escreveu:

 

«Os primeiros cépticos, PIRRÓN e TIMÓN, colocam três problemas capitais para o sábio: qual é a natureza das coisas; que atitude devemos assumir face a elas; que resultará dessa atitude. À primeira questão respondem (desenvolvendo motivos do relativismo de Heráclito e de Protágoras): só conhecemos o que sentimos; podemos afirmar que o fenómeno tal como nos aparece, por exemplo que o mel nos parece doce, mas que tal seja o seu ser em si. E por isso, a resposta à segunda questão é que devemos reconhecer e seguir os fenómenos, mas suspender o juízo sobre o que está oculto (a coisa em si); desta maneira temos no fenómeno o critério necessário para a conduta prática, sem possuir o inalcançável critério da verdade objectiva.» ( Rodolfo Mondolfo, Breve Historia del pensamento antiguo, Editorial Losada, pág 75, Buenos Aires, 1953; o negrito é posto por mim).

 

E Rambaldi classifica, de forma errónea, a teoria das conjunturas e refutações de Karl Popper de subjectivismo moderado construtivo:

 

«1.2 Subjectivismo moderado construtivo»

«Nem todas as perspectivas que excluem (ou se recusam a examinar a examinar se) os conceitos podem recapitular o mundo exterior implicam, no entanto, um tal pessimismo. Existem, pelo contrário, algumas que desenvolvem um uso heurístico positivo de contradições e oposições. Assim, Popper critica grande parte da epistemologia sua contemporânea porque ela lhes não concedia espaço adequado.» (Enrico Rambaldi, Oposição/Contradição, Enciclopédia Einaudi, volume 10, pag 46, Casa da Moeda; o negrito é colocado por mim).

 

Popper não é, em termos de princípio filosófico, mais construtivo do que Pirron ou Carnéades, autor do probabilismo, um cepticismo diferencial. Sucede que Popper é um céptico pragmático e, como tal, valoriza a acção, os exemplos corroborados, mas nega certeza a qualquer doutrina científica fundada na indução, excepto à matemática e à ontologia realista (o mundo material subsiste fora do meu espírito). Não há, pois, razão para esta distinção entre subjectivismo radical negativo e subjectivismo moderado construtivo, quando se põe Pirron num prato da balança e Popper no outro. Decerto, a obra de Popper é muito mais substancial do que a de Pirron mas a posição filosófica é, talvez salvo uma ou outra diferença, a mesma: cepticismo.

 

Nem o cepticismo pirrónico clássico nem a teoria de Popper são espécies do género subjectivismo. Subjectivismo pertence ao género "número de sujeitos que perfilham uma doutrina" e cepticismo é espécie do género «grau de certeza de uma doutrina».

 

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Sábado, 27 de Fevereiro de 2010
El método filosófico no existe, como sostuvo Richard Rorty?

Hay un método filosófico? Richard Rorty (1931-2007) uno de los más influyentes filósofos del pragmatismo contemporáneo aseguró que no:

 

«Hay que abandonar la idea de que existe algo llamado "método filosófico" o “técnica filosófica” o el “punto de vista filosófico” que permite al filósofo profesional, ex officio, tener puntos de vista interesantes, acerca de, por ejemplo, la respetabilidad del psicoanálisis, la legitimidad de determinadas leyes dudosas, la resolución de dilemas morales, la “ortodoxia” de escuelas historiográficas o de crítica literaria, o acerca de cuestiones análogas.» (Richard Rorty, Philosophy and the Mirror of Nature, VIII, 5; la letra negrita es colocada por mi).

 

La palabra filosofía mienta una esencia: filosofía. Que es esencia? Es una idea, un juicio, un razonamiento, un ente o una cosa material, vital o energética que tiene forma algo estable como mínimo. Filosofía es una esencia. Si el viento sopla fuerte no digo «eso es filosofía»  pero si un adolescente me dice «Me planteo si habrá varios dioses para explicar lo bueno y lo malo que me acaece» yo digo «esto es filosofar, es filosofía». Entonces, la idea de filosofía tiene límites comunes en las conciencias de todos los que saben lo que significa la palabra. Rorty no puede negar esto. Si filosofía es una esencia, hay un modo o varios modos de poner en práctica o alcanzar esa esencia: ese modo es el método o métodos.

 

La incoherencia de Rorty reside en que su pragmatismo anti esencialista rechaza esencias como el método filosófico pero acepta, tácitamente, el concepto-esencia de filosofía.

 

Hay, por supuesto, un método filosófico general que tiene dos vertientes:

 

1)      Delimitar a través de conceptos, juicios, razonamientos , la estructura y el ser , la génesis, el desarrollo y la teleología, si la hay, de los mundos físico, onto-ideal, moral, psicológico y otros.

 

2)      Definir y problematizar los medios de hacer esa delimitación, esto es, el significado y el uso de las palabras y proposiciones (filosofía del lenguaje, retórica).

 

Todas las filosofías delimitan sus objetos - Descartes, por ejemplo, define la res cogitans y la res extensa, Kant el fenómeno y el noúmeno, Hegel distingue al Yo Absoluto y a sus manifestaciones en la naturaleza, Rorty define al mundo ahí afuera y a la verdad, interior a la mente -  y casi todas se cuestionan sobre el significado de los términos usados para caracterizar aquellos objetos. Entonces, cada filosofía tiene un método propio que participa del método general cuyas características he delineado.

 

  

 

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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
Erros teóricos em "Um Outro Olhar sobre o Mundo", 11º ano de Filosofia (Crítica de Manuais Escolares - XXVIII)

O Manual português "Um Outro Olhar sobre o Mundo" do 11º Ano de Filosofia contém um certo número de confusões conceptuais. Vejamos algumas.

 

O APRIORISMO CONSISTE EM PRODUZIR CONHECIMENTOS FORA DA EXPERIÊNCIA

 

«O apriorismo defende que os conhecimentos provêm da sensibilidade e do entendimento, capacidades a priori do sujeito que actuam numa matéria que lhes é exterior.» (Maria Antónia Abrunhosa, Miguel Leitão, "Um Outro Olhar sobre o Mundo", 11º Ano de Filosofia, volume 2, Edições Asa, pag 34; o bold é nosso).

 

Eis uma confusa definição de apriorismo. Podemos dizer que o empirismo defende que os conhecimentos provêm da sensibilidade - ou da sensibilidade e do entendimento - mas isso não faz dele um apriorismo.

A priori quer dizer, antes da experiência e independentemente desta. Ora isto é omitido na definição. Não se percebe na definição a frase: «Capacidades que actuam numa matéria que lhes é exterior...» Os autores visavam, decerto, definir apriorismo a partir da teoria de Kant. Mas engendram confusão, nada mais que confusão.

DOGMATISMO : EMPIRISTA E RACIONALISTA

Diz ainda o manual:

 

«O dogmatismo considera que o homem tudo pode conhecer, mesmo em áreas em que não é possível a observação.» (Maria Antónia Abrunhosa, Miguel Leitão, "Um Outro Olhar sobre o Mundo", 11º Ano de Filosofia, volume 2, Edições Asa, pag 34).

 

Esta é uma definição imperfeita do dogmatismo, teoria que afirma o conhecimento baseado em certezas. Há um dogmatismo racionalista e metafísico que se adequa à definição dada, mas há um dogmatismo empirista que dela fica excluído. O dogmatismo empirista, como por exemplo, o positivismo lógico não concebe que o homem possa conhecer tudo: a metafísica é um domínio incognoscível, «sem sentido» verificável.

DESCARTES E LEIBNIZ NÃO TENDEM PARA O DOGMATISMO?

 

Em um dos exercícios propostos neste manual pergunta-se o valor de verdade da seguinte frase:

 

«2. Descartes e Leibniz são pensadores com tendência para o dogmatismo».

(Maria Antónia Abrunhosa, Miguel Leitão, "Um Outro Olhar sobre o Mundo", 11º Ano de Filosofia, volume 2, Edições Asa, pag 34; )

 

E na página 165 vem a resposta: assegura-se que a proposição "2" é falsa...

Então Descartes, sem embargo de gerar a dúvida hiperbólica, não tem tendência para o dogmatismo? Postular que o mundo se baseia em duas substâncias - res cogitans e res extensa - não é dogmatismo? É óbvio que é.

E Leibniz não foi dogmático, ao teorizar as mónadas, unidades indivisíveis dotadas de percepção, como os constituintes elementares da realidade? É óbvio que foi.

 

Então, ao contrário do que sustenta o manual, Leibniz e Descartes foram criadores de sistemas filosóficos dogmáticos, apesar de manejarem o cepticismo.´

Há demasiada superficialidade no modo como este manual concebe e utiliza estes conceitos filosóficos.

 

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