Segunda-feira, 6 de Outubro de 2014
Incoerências de Aristóteles sobre a verdade e o lugar da verdade

Sobre o que é a verdade, Aristóteles escreveu:

«A falsidade e a verdade não se dão, pois, nas coisas (como se o bom fosse verdadeiro, e o mau imediatamente falso) mas sim no pensamento e, tratando-se das coisas simples e do quê-é (tó tí), nem sequer no pensamento.» (...) «E posto que a combinação e a divisão têm lugar no pensamento e não nas coisas, e o que é neste sentido é distinto das coisas que são em sentido primordial (pois o pensamento junta ou separa seja o quê-é de uma coisa, seja a qualidade, seja a quantidade, seja alguma outra determinação sua) o que é no sentido de "é acidentalmente" e "é verdadeiro" há-de deixar-se de lado.»

(Aristóteles, Metafísica, Livro VI, Capítulo VI, 1027 b, 25-30; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Que significa esta tese aristotélica? Que os objectos físicos, em si mesmos, não são verdadeiros nem falsos. Uma planície de sobreiros no Alentejo não é verdadeira nem falsa mas o juízo «Esta planície do Alentejo está recheada de sobreiros» é verdadeira. Isto é, obviamente, errado porque reduz a noção de verdade ao juízo, excluindo dela a intuição sensível (exemplo: planície enquanto a vejo) e a intuição inteligível (exemplo: átomo, mundo de espíritos invisíveis e imperceptíveis).

 

É absurdo dizer que o conceito «Deus» não é verdade nem mentira e que o juízo «Deus existe» é verdadeiro ou falso porque a própria intuição intelectual «Deus» é verdadeira já no plano da imaginação. Dizer que o conceito não é verdadeiro nem falso mas que o juízo, que integra esse e outros conceitos, é verdadeiro ou falso abre a porta à incongruência do pensamento. As coisas ou são verdadeiras ou falsas, não há terceira via: a falsidade é a não verdade, contrapõe-se à verdade como o não-ser ao ser. Não há uma zona neutra entre verdade e erro, como supunham Aristóteles e, no século XX, Bertrand Russel e os adeptos da filosofia analítica anglo-saxónica. A neutralidade expressa no cepticismo ("Não sei se é verdadeiro ou falso que X...") é um modo gnosiológico não um modo ontológico ("As coisas X e Y ou são reais ou irreais..").

 

Aristóteles afasta-se do realismo modal - ou pelo menos reduz o âmbito deste - ao considerar que a combinação e a divisão não existem nas coisas mas apenas no pensamento. Ora, no pôr do sol, há uma combinação de cores - azuis, rosas, laranjas, vermelhos - que se vai alterando a cada momento, uma combinação objectiva, real em si mesma, que está para lá do nosso pensamento.

 

Quando acima refere as "coisas simples" e as "coisas que são em sentido primordial" Aristóteles refere-se, certamente, às formas eternas que Platão designa por Ideias, os arquétipos. Elas existem, pois, fora do pensamento e da realidade física. Como platónico «envergonhado», Aristóteles admite que o quê-é  (exemplo: a forma conceptual de cavalo, de triângulo, de número quatro, etc.) existe mas não nas coisas físicas nem no pensamento - o que equivale a dizer que existe em um mundo objectivo suprafísico ou infrafísico, metafísico, antes de haver coisas físicas. Isto é platonismo, com a diferença de que Aristóteles aboliu o lugar do mundo inteligível acima do céu visível e transferiu-o «para baixo», para lugar nenhum.

 

 

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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2014
Aristóteles y la aporía de la filosofia primera en «Metafísica»

Aristóteles consideró que hay tres ciencias teoréticas, superiores, basadas en principios no empíricos: las matemáticas, la física y la teología.  En su célebre tratado «Metafísica» escribió:

 

«Con que tres serán las filosofías teóricas: las matemáticas, la física y la teología (no deja de ser obvio, desde luego, que lo divino se da en esta naturaleza, si es que se da en alguna parte), y la más digna de estima de ellas ha de versar sobre el género más digno de estima. Y es que las ciencias teóricas son, ciertamente, preferibles a las demás y de las teóricas, ésta es la preferible.»

 

«Cabe plantearse la aporía de si la filosofia primera es acaso universal, o bien se ocupa de un género determinado y de una sola naturaleza (en las matemáticas, efectivamente, no todas las disciplinas se hallan en esa misma situación, sino que la geometría y la astronomía versan sobre una naturaleza determinada, mientras que la matemática general es común a todas ellas). Así pues, si no existe ninguna otra entidad fuera de las físicamente constituidas, la física sería ciencia primera. Si, por el contrario, existe alguna entidad inmóvil, ésta será anterior, y filosofía primera, y será universal de este modo: por ser primera. Y le corresponderá estudiar lo que es, en tanto que es, y qué-es, y los atributos que le pertenecen en tanto que algo  (Aristóteles, Metafísica, Libro VI, 1026 a, 20-30; traducción de Tomás Calvo Martínez; la negrita es añadida por mí no como contenido sino como forma visual).

 

La aporía reside en que Aristóteles atribuye un doble sentido al término «filosofía primera»: teología, es decir, estudio de Díos o dioses; ontología, es decir, estudio del ente y del ser, es decir, de la pura existencia o de la estructura general de la existencia. Cuando la filosofía primera estudia «lo que es, en tanto que es» es pura ontología, nada tiene que ver com Díos - pero Aristóteles no puntualiza ésto. Cuando estudia el qué-es es pura eidologia - el término es mío: estudio de la esencia o forma común a muchos entes - puesto que Díos, el pensamiento inmóvil, es un qué-es (tó tí), al igual que el sol, las estrellas, las nubes, o los animales son qué-es, esencias (eidos).

 

Lo que es - el ser, el existir puro: einai - no es exactamente lo mismo que algo que es - el ente, la sustancia y el accidente en abstrato: tó on - ya que algo que es posee una forma y lo que es no tiene forma.

 

EL PRIMER PRINCIPIO

 

Aristóteles indicó a Díos, la entidad que por su perfección genera el deseo de movimiento en las estrellas y planetas,  como la causa primera. Debe notarse que el concepto de primer motor no es exactamente el de motor inmóvil: Díos es el motor inmóvil, no hace nada y es la causa final del movimiento de los astros en sus esferas de cristal concentricas, y la última esfera de estrelas, que empieza a moverse en círculo cuando ve a Díos intentando alcanzarle es el primer motor (primum mobile). Escribió el filósofo:

 

«Es pues, evidente, que se llega a algun principio que ya no puede retrotraerse a otra cosa. Este será, por tanto, el principio de lo que ocurre fortuitamente, y no habrá ninguna otra causa de la producción de este principio».

«Ha de investigarse muy especialmente, sin embargo, hacía que tipo de principio y hacía qué tipo de causa conduce tal reducción, si a la que lo es como materia, o como el para-qué o como aquello que produce el movimiento

(Aristóteles, Metafísica, Libro VI, 1027 b, 20-30; traducción de Tomás Calvo Martínez; la negrita es añadida por mí no como contenido sino como forma visual).

 

 ¿Como puede Díos, el pensamiento puro e inmóvil, que se piensa a sí mismo y no a los árboles ni a los astros, a los que indirectamente puso en movimiento por el deseo de aquéllos de alcanzarle, ser el principio de lo que sucede fortuitamente? No puede, logicamente. Éste es un fallo del pensamiento de Aristóteles, a mi opinión. La causa de los accidentes, de lo que sucede fortuitamente, como por ejemplo, el surgimiento de una enfermedad grave en una persona, es la materia, causa del movimiento, y la forma eterna ( de pulmón, de cuerpo humano) en tanto que se añadió a la materia. Pero esta forma eterna (eidos) no es Díos y, al parecer, no ha sido creada por Díos, que no es obrero sino pensador puro.

 

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Sexta-feira, 13 de Junho de 2014
O desvio de Hegel da tradição da visualização grega

 

Hegel dividiu a sua ontologia e teodiceia em três vertentes diacrónicas: o ser, a essência, o conceito, equivalendo a tese, antítese e síntese.

 

«Pelo facto  de que o conceito (a noção) envolve, por este lado, o ser e a essência que aparecem como suas condições precedentes e que se afirmam como sua razão de ser absoluta (lado ao qual correspondem em outro ponto de vista a sensibilidade, a intuição e a representação) fica o outro lado que traz este terceiro livro de Lógica e cujo objecto consiste em expor de que modo o conceito constrói em si mesmo extraíndo de si mesmo esta realidade absorvida nele.» (Georg W.F. Hegel, Lógica II y III, Folio, Barcelona, pág 103).

 

De facto, na teoria geral da ideia absoluta parece haver um desvio de Hegel em relação à tradição grega platónica e mesmo aristotélica: do ser, que é o puro existir abstracto (Deus antes de criar o mundo,o espaço e o tempo)  passa-se à essência, que é um existir material concreto (Deus transformado em planetas, estrelas, rios, árvores, animais não humanos)  e desta última, passa-se ao conceito que é uma forma esvaziada de matéria (Deus incarnado em humanidade pensante), um regresso (enriquecido) ao existir abstracto do ser. Em Parménides, nunca se sai do ser, que além de consubstanciar o existir, é uma essência-forma: uma esfera homogénea, una, imutável, invisível, impalpável. Em Aristóteles, o ser (einai) é um atributo, o existir ou o pertencer a algo, que está acima das essências ou formas específicas: o Ente, no sentido de essência divina, é a forma pura sem matéria, o acto sem a potência.

 

Se, em Hegel, Deus ou ideia absoluta pensa o mundo que irá criar não pode ser, meramente, o ser. Tem de ser sujeito, essência, pois alberga em si a totalidade das formas em que se virá a converter nas fases seguintes.

 

Hegel distingue a essência do ser determinado e considera-a o fundamento deste, o que coincide, aparentemente,  com o pensamento aristotélico:

 

«A essência deve manifestar-se, uma vez porque o ser determinado se dissolve em si mesmo e retorna ao seu fudamento -o fenómeno negativo; e outra vez, porquanto a essência como fundamento é simples imediatidade e, portanto, ser em geral - Por mor da identidade do fundamento e da existência, nada há no fenómeno que não esteja na essência e, inversamente, nada há na essência que não esteja no fenómeno» (Georg Hegel, Propedêutica Filosófica, Edições 70, pág. 228; o destaque a negrito é posto por mim). 

 

O problema da formulação «a essência como fundamento é simples imediatidade e, portanto, ser em geral» é o seu carácter paradoxal. Aristóteles nunca diria isto: distinguiria o tó on (o ser-existência) do tó tí (a forma acidental ou essencial). Hegel reduz a uma amálgama a distinção entre ser imediato e essência. O ser em geral imediato não tem forma. Ora a essência, o eidos aristotélico, é uma forma de uma dada espécie. Não é possível a dissolução da essência no inessencial ser em geral - são contrários e os contrários não se dissolvem um no outro, permanecem numa irreconciliável oposição, embora possam trocar de posição (dominante e dominado). A essência é um sujeito geral ou individual e o ser um predicado (exemplo: a rosa é, existe). Não é possível dissolver o sujeito no predicado, a menos que se confunda essência com matéria. E esta confusão subsiste em Hegel.

 

A MATÉRIA COMO CATEGORIA DA ESSÊNCIA EM HEGEL, AO CONTRÁRIO DE ARISTÓTELES

 

Note-se a confusão terminológica de Hegel:

                                                                                   

(11-43)

«b-  As categorias da essência são a matéria, a forma e o fundamento.»

 

(12-44)

«A matéria é a essência enquanto igualdade consigo mesmo.»

 

(Georg Hegel, Propedêutica Filosófica, Edições 70, pág. 110). 

 

Hegel está longe de Aristóteles ao incluir a matéria na essência. Aristóteles usou o termo substância (ousía) como síntese entre a forma (eidos) e a matéria (hylé) mas Hegel introduz a matéria na essência. O que é o fundamento, senão a forma original, o protótipo? Nem se percebe a frase «A matéria é a essência enquanto igualdade consigo mesmo» - e a forma não é uma igualdade consigo mesma? Decerto, Hegel define substância mas de forma algo retórica sem enfatizar a matéria nela contida:

 

«O efectivamente real é substância. É essência que contém em si as determinações do seu ser determinado como simples atributos e leis e põe os mesmos como um jogo existente determinantemente ou como os seus acidentes, cuja ab-rogação não constitui um desvanecimento da substância, mas o seu retornar a si mesma» (Georg Hegel, Propedêutica Filosófica, pág 29).

 

Aquilo que é artificial e, em certa medida, chocante, na divisão hegeliana do movimeno da ideia em ser-essência-conceito  é o facto de a matéria física conferir a essência, constituir a essência. É uma concessão ao materialismo, uma subversão do conceito grego da preexistência da forma. Tanto em Platão como em Aristóteles a forma é ontologicamente anterior à matéria na formação do ente. Em Hegel, aparentemente, não é assim: ele antepõe o ser à essência, a qualidade abstracta do existir à essência, à substância. O seu pensamento assemelha-se ao taoísmo: do não-ser provêm todas as coisas.

 

 

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Sábado, 14 de Setembro de 2013
Questionar a «nova concepção do tempo» em José Reis

No seu livro «Nova Filosofia», publicado em 1990, José Reis, um catedrático de filosofia da universidade de Coimbra, propõe uma «nova concepção do tempo», que fica bastante aquém do que Aristóteles escreveu sobre o tempo na «Física». Escreveu José Reis:

 

«O tempo é, como já acontece sempre que olhamos para a sucessão das coisas sem qualquer concepção meta-física, essa simples sucessão. »

«Mas,é claro, não basta abstrair - quando efectivamente já abstraímos - das concepções meta-físicas: é preciso destruí-las, vendo por dentro toda a questão. E aqui, no que toca à causalidade, tudo começou pela espacialização do tempo. Porque o imediato é conceber o futuro - o momento temporal que antes de mais nos interessa para a causalidade - como aquilo que ele é no presente, ou seja, como nada, é então esse nada que, na articulação que fazemos entre os momentos temporais, passa ao presente. O presente, porém, é o ser; como se transforma tal nada em ser? Eis que os fenómenos privilegiados da força e do movimento nos trazem a potência; sendo por definição o ser em forma de nada, ela serve-nos à maravilha: as coisas vêm dessa potência. Só que acontece que essa potência é mesmo  nada; e admitindo que fosse alguma coisa, nunca seria suficiente para as coisas. E apenas há as coisas. As coisas, no seu tempo próprio e só nele. As coisas que - não derivando da potência de que eram dotadas as coisas anteriores, potência que por sua vez derivava (bem como as primeiríssimas coisas) duma Potência eterna - são o absoluto. (José Reis, Nova Filosofia, pag 77, Edições Afrontamento, Porto; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Comecemos por questionar a definição de tempo como «simples sucessão das coisas». Há a sucessão espacial das coisas - por exemplo, uma fila de peças de dominó encadeadas umas nas outras, em sucessão, mas que eu fotografo no mesmo instante - e a sucessão temporal, em que os momentos se eliminam uns aos outros - por exemplo, as modificações que o meu corpo experimenta dia a dia, mês a mês. José Reis não faz esta distinção, com clareza.

 

 

«O ser é o presente» - eis um erro de José Reis, baseado na confusão entre ser-existência (o presente) e ser-essência (o passado, o presente e o futuro de determinada forma ou essência).   Quando dizemos, por exemplo, que «o ser na doutrina de Nietzsche é a vontade de poder, movendo-se no círculo do eterno retorno» estamos a perspectivar o ser como passado-presente-futuro, não podemos reduzi-lo apenas ao acto presente.

 

Se não investigássemos o passado e prevíssemos o futuro, se não possuissemos a visão holística e histórica do que foi e previsivelmente será (por indução), não poderíamos saber o que é o ser. José Reis é um actualista (só o momento actual é real): o seu combate ao essencialismo, à permanência das essências, assemelha-se ao de David Hume, o pai da moderna filosofia analítica, e ao de Wittgenstein. A pretensão de «destruir a meta-física para ver as coisas por dentro» é uma tarefa inglória: o futuro associa-se sempre a uma certa dose de metafísica e ninguém, em bom juízo, se dissocia de pensar o futuro, a potência da sua vida e das vidas de outros.

 

O passado e o futuro fazem parte da essência do tempo, de qualquer tempo de qualquer ente. A essência do tempo não coincide, pois, com a existência: engloba esta como o momento actual mas engloba também o sido e o porvir, a potência. A essência é o sido, o momento presente, e a potência (o futuro em esboço). Ora o ser é essência: passado, presente, futuro, ainda que destes três momentos só um seja acto (o presente) e outro tenha sido acto (o passado).

 

Quanto à espacialização do tempo que José Reis aponta como um erro do pensar filosófico, gerador da ideia da causalidade, ela é inevitável e não constitui um erro. Einstein falava do espaço-tempo, não do tempo separado do espaço. O tempo não é, na minha óptica, o espaço globalmente considerado mas as mudanças contínuas de posição (kinésis, em grego) ou de forma (aloiósis, em grego: alteração) dos corpos e figuras que ocupam o vasto espaço. Divergindo da minha conceptualização do tempo, Aristóteles não define o tempo como um movimento mas como um acidente intrínseco ao movimento, o número que marca este :

 

«É então evidente que não há tempo sem movimento nem mudança. Logo é evidente que o tempo não é um movimento, mas não há tempo sem movimento.» (Aristóteles, Metafísica, Livro IV, 218 b, 25-30)

 

«Assim pois, quando percebemos o agora como uma unidade, e não como anterior e posterior no movimento, ou como ele mesmo relativamente ao anterior e ao posterior, então não parece que tenha transcorrido algum tempo, já que não houve nenhum movimento. Mas quando percebemos um antes e um depois, então falamos de tempo. Porque o tempo é justamente isto: número do movimento segundo o antes e o depois».(Aristóteles, Metafísica, Livro IV, 219 b, 1-5; o destaque a negrito é da minha autoria).

 

 

Sobre a «refutação da causalidade necessária» realizada por Hume e reafirmada por José Reis, basta dizer que as leis da natureza, as leis da física e da astrofísica demonstram que a causalidade existe. Ninguém, de bom senso, se atreveria a beber amoníaco ou a atirar-se de um avião em voo sem páraquedas porque sabe que tais actos seriam causa de morte ou de gravíssimos danos no seu corpo.

 

A ABOLIÇÃO DO SER ETERNO: PODE PROVAR-SE?

 

No seu ver anti-metafísico, José Reis sustenta que o absoluto não existe como eternidade mas é apenas o ser temporal, finito. Decreta, pois a abolição do ser eterno. Mas como pode José Reis garantir, com fundamento, que não há um ser-essência eterno? O seu ver anti metafísico é muito limitado. É um empirismo rasteiro, de visão curta. Escreve Reis:

 

«O ser temporal é, pois, porque só se pode pensar, durante o tempo em que ele existe, como ser e não como nada, tão absoluto como o ser eterno.»

«E mais: ele não é só tão absoluto como o ser eterno, ele é mesmo o único absoluto. Não havendo causalidade, como agora sabemos, e sendo esse ser eterno exigido apenas como causa do ser temporal, este, longe de ser si mesmo um nada sempre à espera da esmola do ser eterno, é que é até o único absoluto. Por muito que custe aos nossos hábitos, é ele agora a medida de tudo. Há só esse ser temporal, tal como ele é na sua temporalidade, isto é, na sua sucessão - o ser temporal, repitamo-lo, não é temporal porque seja de si mesmo o nada mas só porque é uma sucessão - e é tudo.» (José Reis, Nova Filosofia, páginas 78-79, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O ser temporal é temporal porque é uma sucessão, diz José Reis . Mas o movimento da esfera celeste que acompanha o tempo e de que Aristóteles fala na «Física» é eterno e é sucessão posicional. Eterno não significa necessariamente imóvel, sem sucessão. Por conseguinte, definir o temporal pela sucessão é insuficiente. Há um movimento eterno, intemporal, e movimento é sucessão posicional.

 

Dizer que o ser temporal - com início e fim no tempo - é tão absoluto como o ser eterno é dizer que o finito é tão absoluto quanto o infinito. É certo que o infinito não existe, em acto, segundo Aristóteles. Há um limite em todas as coisas, até no imenso universo. Mas enquanto essências o eterno é o absoluto e o temporal não é o absoluto mas o relativo. Como existência, o presente é o absoluto, como essência o «agora» não é absoluto porque se relaciona com o sido e o porvir.

 

Aristóteles distinguiu bem o ser, do tempo, com clareza superior à de Heidegger e de José Reis:

 

«Todas as coisas se geram e se destroem no tempo. Por isso, enquanto alguns diziam que o tempo era o mais sábio, o pitagórico Paron chamou-o, com clareza, de "o mais néscio", porque no tempo esquecemos. É claro, então, que o tempo tomado em si mesmo é mais precisamente causa de destruição do que de geração, como já se disse antes, porque a mudança é em si mesma, um sair fora de si, e o tempo só indirectamente é causa de geração e de ser.  Um indício suficiente disso está no facto de que nada se gera se não se move e actua, enquanto que algo pode ser destruido sem que se mova, e é, sobretudo, de esta destruição que se diz ser obra do tempo. Mas o tempo não é a causa disto, mas dá-se o caso de que a mudança se produz no tempo» .

( Aristóteles, Física, Livro IV, 222 b, 15-20; o destaque a negrito é posto por mim).

 

O PASSADO SÓ EXISTE ENQUANTO O PENSO AGORA?

 

 

José Reis sustenta que o passado só existe enquanto o pensamos agora. Na linha descontinuísta de David Hume, que combateu as noções de necessidade/ causalidade infalível e de continuidade das coisas em todo o tempo, Reis postula os momentos do tempo como desligados entre si de modo que um nunca é causa do outro. Dando o exemplo de olharmos sucessivamente as seis faces de uma caixa - e cada vez que vemos uma é o ver imediato - escreveu:

 

«Uma vez que só agora o penso, esse passado só agora existe. Supor que a face, porque ela durante esse tempo não foi vista e,uma vez que estava ocupado em ver as outras faces, nem sequer foi pensada, existiu lá em absoluto desligada do pensamento  é precisamente esquecer que ela só existiu lá, e existiu sem ser vista nem pensada, porque agora a penso lá dessa maneira; sem isso pura e simplesmente não haveria lá nada . Por muito que custe aos nossos hábitos, esse passado da face só agora existe, durante o tempo em que o penso. (...) O agora, digamo-lo assim, é só esse passado; mas, se tirarmos o agora, esse passado, seja ele uma duração de segundos ou de milénios, pura e simplesmente desaparece. - É irremediável. Se houvesse causalidade e Deus criasse o mundo, Ele não criaria as coisas que nós depois veríamos de tempos a tempos mas criaria as coisas vistas e vistas durante o tempo e segundo o modo como se vêem: criaria o agora em que a face se vê pela primeira vez, criaria o agora em que ela se vê pela segunda vez e criaria o agora em que ela se pensa no intervalo. Só isso existe.» (José Reis, Nova Filosofia, página 129-130, Edições Afrontamento; o destaque a negrito é posto por mim). )

 

Refutar estas teses idealistas não é difícil: o passado não existe no agora, nem sequer existe, porque já passou; no agora existem apenas a lembrança ou a idealização ou vestígios  físicos do passado, isto é, de uma imensidão de agoras  ab-rogados.

 

José Reis é um exemplo de junção entre filosofia analítica e fenomenologia, ambas nascidas do idealismo de David Hume.  

 

 

 

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Quinta-feira, 29 de Agosto de 2013
Equívocos de Aristóteles sobre géneros e contrários em «Categorias» e «Tópicos»

 

Sem embargo do seu brilhantismo como o maior pensador dialético da antiguidade ocidental, Aristóteles cometeu alguns erros. Escreveu:

 

«É evidente que os contrários surgem por natureza em torno de uma coisa idêntica, seja em espécie, seja em género: com efeito, a enfermidade e a saúde surgem no corpo do animal, a brancura e a negrura no corpo simplesmente, a justiça e a injustiça na alma. E é necessário que todos os contrários estejam ou no mesmo género, ou em géneros contrários, ou que sejam eles mesmos géneros: com efeito o branco e o negro - pois o seu género é a cor - enquanto a justiça e a injustiça estão em géneros contrários - pois o género de aquela é a virtude, o de esta é o vício - e o bem e o mal não estão em um género, mas eles mesmos vêm a ser géneros de algumas coisas.»

 

(Aristóteles, Categorias, capítulo XI, 15-30; o bold é colocado por mim).

 

Ao contrário do que disse Aristóteles, justiça e injustiça estão no mesmo género: o género "distribuição ou regulação do bem entre os indivíduos". E  bem e mal estão no mesmo género: o género ética.  E branco e preto pertencem a (sub)géneros diferentes: branco ao género cores claras e negro ao género cores escuras. Cada coisa ou qualidade pertence, em simultâneo a dezenas de géneros. Os contrários pertencem ao mesmo género e cada um deles em separado pertence a géneros diferentes.

 

OS GÉNEROS SÃO SEMPRE ANTERIORES ÀS ESPÉCIES?

 

Aristóteles escreveu:

 

«Assim, pois, serão também simultâneas por natureza todas aquelas coisas que procedem de um mesmo género na mesma divisão; mas os géneros são sempre anteriores às espécies: com efeito, não são reversíveis segundo a implicação; por exemplo, existindo o aquático, existe o animal, enquanto que existindo o animal, não existe necessariamente o aquático.» (Aristóteles, Categorias, Capítulo 13, 15 a, 5-10; o bold é posto por mim)

 

Aristóteles falha, aqui, na  pensamento dialético: do mesmo modo que não há alto sem baixo, nem dia sem noite, não há género sem espécies. O género não é, pois, anterior às espécies que o compõem, em geral, mas pode ser anterior a esta ou àquela espécie que nele tenham surgido posteriormente. Género e espécies são concomitantes, coetâneos, nascem em simultâneo, do mesmo modo que alto e baixo, grande e pequeno.

 

A DIFERENÇA NÃO É GÉNERO DE NADA?

 

Aristóteles escreveu ainda:

 

«A diferença não é género de nada. Que isto é verdade resulta evidente: pois nenhuma diferença indica quê é, mas mais precisamente qual, como por exemplo, o pedestre e o bípede. (...)

Também se  se incluiu a diferença no género, por exemplo (dizendo que) o impar é uma diferença do número, não uma espécie: tão pouco é plausível que a diferença participe do género. Com efeito, tudo o que participa do género ou é uma espécie, ou é um indivíduo; ao contrário, a diferença não é espécie nem indivíduo: assim, pois, é evidente que a diferença não participa do género. De modo que tão pouco o ímpar será, uma espécie, mas sim uma diferença, posto que não  participa do género.» (Aristóteles, Tópicos, Livro IV, Capítulo II, 122 b, 15-25; o destaque a bold é posto por mim)

 

Aristóteles equivoca-se: o ímpar é uma diferença no género número e, portanto, é o princípio constitutivo da espécie número ímpar, é a essência desta. O  género número é divisível em duas espécies, sob uma certa óptica: a espécie número par e a espécie número impar, consoante a metade de cada número de cada espécie seja número inteiro ou não o seja.

 

Aristóteles erra igualmente ao dizer que a diferença não pode ser género. Senão vejamos: como se forma a diferença específica, ou seja, a particularidade que distingue uma espécie das outras? Forma-se através da intersecção de dois ou mais géneros distintos. Exemplo: racionalidade e corporeidade humana (uma cabeça, dois braços, duas pernas, etc) é a diferença específica entre a espécie homem e as espécies galinha, macaco, elefante, cão, etc, que existem no seio do género animal. Mas racionalidade é género autónomo: há racionalidade positivista e racionalidade metafísica, há racionalidade nos seres humanos e em outras criaturas como extraterrestres, anjos, deuses. Foi da intersecção entre o género animal e o género racional, que nasceu animal racional, e da intersecção entre o género animal e o género Portanto, a diferença específica - neste é género, numa área distinta do género em que ela se insere.

 

QUATRO TIPOS DE OPOSIÇÃO QUE SÃO AFINAL TRÊS

 

«De quatro maneiras se diz que uma coisa se opõe a outra: ou bem como a respeito de algo, ou bem como os contrários, ou bem como privação e possessão, ou como afirmação e negação. Para dizê-lo com um exemplo, cada uma das coisas deste tipo se opõe: como o a respeito de algo, por exemplo, o dobro e a metade; como os contrários, por exemplo, o bom e o mau; como a privação e a possessão, por exemplo, a cegueira e a vista; como afirmação e negação, por exemplo, está sentado- não está sentado.» (Aristóteles, Categorias, Capítulo X, 11 b, 20-25; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

Crítica: a  afirmação e a negação são espécies dentro do género contrariedade. Não podem ser extrinsecadas deste. São um aspecto proposicional da contrariedade e da contradição. Também a privação-possessão são o aspecto formal da contrariedade: cada contrário está privado do outro, por exemplo, o bom é a privação do mau e vice-versa. Bom e mau são apresentados por Aristóteles como contrários mas poderiam ser simultâneamente apresentados como possessivo (de bom)-privativo (de bom).

 

Há, a meu ver,  três tipos de opostos no mesmo plano: contrários (exemplo: bom e mau, fogo e madeira, fogo e água), semi-contrários - que Aristóteles designa de intermédios - e colaterais ( adjacentes, diferentes mas isentos de contrariedade como,por exemplo, os números 5 e 6, ou a casa e a horta que a rodeia). E todos eles pertencem ao género supremo contradição, que se encontra num plano acima.

 

  

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Quarta-feira, 10 de Julho de 2013
Sobre a Analogia e as Causas do Homem na «Metafísica» de Aristóteles

 

A analogia é, segundo Aristóteles, um nível transgenérico, superior aos géneros. Tal como o género, a analogia é um universal. A primeira analogia teorizada por Aristóteles é entre ser e uno.

 

Uno pode ser interpretado de duas maneiras diferentes: como quantidade, visão de Aristóteles, isto é acidente interno da substância (exemplo: «Esta árvore é una, é uma só»); como substância, visão de Platão, isto é ser-essência geral (exemplo: « O ser é o mundo dos arquétipos, englobando o Bem, o Belo, o Justo, o Uno, a Sabedoria»). Nesta óptica, Uno é adjectivo ou numeral em Aristóteles e substantivo em Platão.

 

«Ademais, mas em outro sentido, os princípios são os mesmos analogicamente: assim é com acto e potência, se bem que estes são também distintos, e de distintos modos, para coisas distintas. » (Aristóteles, Metafísica, livro XII, 1071 a, 1-5).

 

Acto e potência são análogos? Não serão espécies do género «modos de ser»? E as espécies são análogas entre si? Ou são genericamente unas?

 

«Ademais, ainda que as causas das substâncias o sejam de todas as coisas,sem embargo, como foi dito, as causas e os princípios são distintos para coisas distintas que não pertencem ao mesmo género - cores, sons, substância, qualidade - a não ser analogicamente.» (Aristóteles, Metafísica, livro XII, 1071 a, 25-30).

 

Cores e sons, em certo sentido, não pertencem ao mesmo género: cores e formas visíveis são espécies do género visão e sons e silêncio são espécies do género audição. Mas, na verdade, sendo árvore e homem  espécies do género ser vivo, podemos detectar uma analogia de forma entre ambas: as raízes da árvore são análogas aos pés do homem, o tronco da árvore é análogo às pernas e ao tronco do homem, os ramos são análogos aos braços, a copa é análoga à cabeça.  Assim, neste caso, a analogia instala-se no seio do género e não está acima dele.  

 

Mas há, certamente, analogia entre géneros como, por exemplo, a analogia entre o género "ser" (ontologia)  e o género "conhecer" (gnosiologia).

 

O SOL E A ECLÍPTICA, CAUSAS DO HOMEM,  NÃO TÊM FORMA?

 

Como causas do homem, Aristóteles aponta os elementos, a forma ou essência, o pai e a mãe, o sol e a roda das constelações atravessada pela trajectória aparente do sol designada por eclíptica:

 

«Assim, do homem, são causa os elementos - fogo e água enquanto matéria - e a forma própria e também algum agente exterior como o pai; e além de tais coisas, o sol e a eclíptica, os quais não sendo matéria nem forma nem privação, nem sendo da mesma espécie são, sem embargo, produtores de movimento»

«Além do mais, há-de observar-se que algumas coisas podem enunciar-se universalmente, mas outras não. Os princípios imediatos de todas as coisas são o isto primeiro em acto e outra coisa que está em potência. Portanto, aqueles universais não existem, já que o indivíduo é princípio dos indivíduos.»

( Aristóteles, Metafísica, livro XII, 1071 a, 10-20; o destaque a bold é da minha autoria).

 

Nestes excertos, Aristóteles frisa a primazia do individual concreto sobre o universal. Ao dizer que os universais não existem, Aristóteles está a criticar a teoria das Ideias em Platão segundo a qual, por exemplo, a Ideia de Homem - uma forma imutável, eterna e perfeita de homem - existe separada, num mundo inteligível, supra-terreno.

 

Mas questionemos o que Aristóteles escreve sobre o sol. Este tem forma circular e matéria ígnea - aliás, matéria etérea ou quinta essência no sistema aristotélico, se não erro. Como pode Aristóteles negar forma ao sol?  E como pode algo sem forma nem matéria produzir movimento, exceptuando Deus, o pensamento imóvel e eterno? E a eclíptica ou trajectória aparente do Sol não tem forma ou é uma forma sem matéria em permanente actualização?

 

Suponho que Aristóteles nega que o sol e a eclíptica tenham forma comum (eidos) ou essência mas não nega que possuam forma ou configuração individual.


É de salientar que ao dizer que o sol e a eclíptica são causas do homem e produtores do movimento Aristóteles pode estar a querer significar que há um determinismo astral, solar e zodiacal, na vida do homem: o nascimento, o crescimento, a estabilização na maturidade, do homem - e quiçá as suas acções ou grande parte destas - são geradas pelo movimento do sol na eclíptica e pelos graus desta (graus do Zodíaco). 

  

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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012
Crítica de Aristóteles a Platão: o Relativo não é uma Forma, uma Substância separada

 

Em «Metafísica», livro de oiro da filosofia, Aristóteles critica a doutrina platónica do Uno e da Díade do Grande e do Pequeno como princípios geradores dos entes. Escreveu:

 

«Os que põem o Desigual como algo uno e constituem a Díada Indefinida a partir do Grande e do Pequeno dizem coisas demasiado afastadas do comunmente admitido e do possível. Sucede que essas coisas, melhor do que sujeitos, são afeções e acidentes dos números e do tamanho - o Muito e o Pouco do número, o Grande e Pequeno do tamanho - do mesmo modo que Par e Ímpar, Liso e Rugoso, Recto e Curvo. A este erro há que somar que Grande e Pequeno e todas as coisas que são tal, são necessariamente termos relativos. Ora bem, o relativo é, de todas as categorias, a que tem natureza e substância em muito menor grau, e é posterior à qualidade e à quantidade. E, como se disse, a relação é uma afeção da quantidade, mas não matéria, já que outra coisa é a matéria que serve de substrato tanto ao relativo em geral como às suas partes e espécies» ( Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1088a, 15-25; o destaque a negrito é colocado por mim).

 

No fundo, Aristóteles critica Platão não só por teorizar uma região de essências aparte - o mundo Inteligível, acima do céu visível - mas também por não hierarquizar, em termos de anterioridade e posterioridade, a essência- substância (exemplo: a árvore) como anterior à essência- acidente (exemplo: o belo) no mundo dos arquétipos.  Platão coloca o arquétipo de Belo como anterior ao arquétipo de Árvore, ressalvando que em algum dos seus textos coloca em dúvida a existência da forma arquetípica árvore, e Aristóteles faz o inverso: coloca a essência ou forma eterna de Árvore como anterior à qualidade de Belo que apenas surge nas coisas belas. Aristóteles considera o mundo platónico das essências uma abstração onde as formas aparecem desarticuladas entre si, todas num mesmo plano,  como as peças de Lego que servem para construir uma casa. No pensamento aristotélico, o relativo não é sequer uma substância (ousía) uma forma substancial,  e esta é, em princípio, anterior ao acidente.

 

Aristóteles hipostasiou as Ideias de Platão nos próprios objectos sensíveis da matéria, ao passo que Platão hiperestasiou a essência e os acidentes dos objectos sensíveis num mundo inteligível, situado acima do céu visível.

 

Aristóteles opôs-se à ontogénese matemática definida por Platão:

 

«Desde logo, nem a Díada Indefinida nem o Grande e o Pequeno ´são causas de que haja dois «brancos», o de que haja muitas cores, sabores e figuras. Mas em tal caso, essas coisas seriam também números e unidades. » (..)

«Este erro é causa também de que, ao buscar o oposto de O que é e do Uno (de aquele e deste proviriam as coisas que são) propuseram o Relativo e o Desigual, que não é nem o contrário nem a negação de eles, mas é uma das coisas que são, uma natureza particular como o quê e a qualidade. E isto haveria também que investigar, como os relativos são muitos e não só um.» (Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1089a, 35/ 1089b, 1-5; o destaque a negrito é posto por mim).

 

 Por lacuna parcelar de pensamento dialético, Aristóteles coloca o relativo fora da oposição uno-múltiplo, ignorando que o relativo engloba o uno e o múltiplo, e é portanto o uno e o seu contrário, uma determinação holística. Continuando a referir-se aos platónicos, escreveu Aristóteles:

 

«E falam de mais espécies ainda do Relativo. Qual é, então, a causa de que estas sejam muitas? Assim, pois, é necessário, como dizíamos, estabelecer aquilo que é potência a respeito de cada tipo de realidade ( o que propôs esta teoria explicou o que é potencialmente um isto (tóde tí) e uma substância, sem sê-lo por si mesmo, dizendo que tal coisa é o Relativo; ao mesmo teria podido ocorrer dizer que tal coisa é a qualidade, a qual nem é potencialmente o Uno nem O que é, nem é tampouco negação do Uno e de O que é, mas uma, em particular das coisas que são) e muito mais ainda, como se disse, se se trata de  investigar como são muitas as coisas que são, e não de investigar, dentro da mesma categoria, como é que são muitas as substâncias, ou muitas as qualidades, mas como é que são muitas as coisas que são». (Aristóteles, Metafísica, Livro XIV, 1089, 15-20, )

 

É contestável o que Aristóteles aqui escreveu. A identificação de Uno com O que é permanece equívoca, constitui um dos calcanhares de Aquiles da «Metafísica» de Aristóteles: o Múltiplo é, tanto como o Uno, o que é. Esta é a visão dialética que sustento: não há uno sem múltiplo, ambos são em igual grau. O relativo abarca uno e múltiplo: os contrários são relativos entre si, os contraditórios são relativos entre si, o que Aristóteles não soube equacionar correctamente no Livro X da Metafísica, uma vez que classificou os relativos como uma espécie extrínsexca às espécies contraditórios e contrários.  Por que razão a Qualidade é uma das coisas do Uno? Não é o Uno uma Qualidade? De acordo com a filosofia aristotélica o uno ou é substância, ou é acidente, e neste último caso, será Qualidade, Quantidade ou Relação ou as três coisas ao mesmo tempo.

 

Diga-se o que se disser, a «Metafísica» de Aristóteles é um livro mais importante que «Ser e Tempo» de Heidegger ou de que «O Ser e o Nada» de Sartre. Aristóteles é muito mais preciso nos pormenores de definição, do polimento das faces do "diamante" do ser, o diamante ontológico, que a generalidade dos filósofos posteriores.

 

 

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Sábado, 7 de Janeiro de 2012
Questionar Kant: a totalidade é categoria de quantidade?

 

Kant definiu doze categorias ou conceitos puros do entendimento que permitem modelar e pensar os fenómenos. Como categorias da quantidade colocou:

 

 

Unidade.

Pluralidade.

Totalidade.

 

(Kant, Crítica da Razão Pura, página 110, Fundação Calouste Gulbenkian).  

 

Mas a totalidade é uma categoria da quantidade? Qual é a quantidade que há num todo? Unidade sugere um, pluralidade designa dois, três, quatro, cinco, vinte, mil, um milhão, etc. A totalidade opõe-se à parcialidade, o todo opõe-se à parte. Por que razão o todo não é uma qualidade mas sim uma quantidade? Parece-me que o todo é simultaneamente uma quantidade determinada (um) e uma qualidade (por exemplo: energia; alma; turma de alunos; sabedoria; vitalidade, etc). Note-se que emprego o termo qualidade num sentido distinto, mais vasto, do que o usado em Aristóteles - neste a qualidade é um predicado, um acidente da substância, como por exemplo a cor branca é uma qualidade da substância "este cavalo" - abrangendo as substâncias ou entes individuais (exemplo: esta cidade de Beja, esta região do Alentejo, são qualidades do ente ou «ser» Portugal, etc, etc). Mas, no todo, aquilo que o faz ser todo é a continuidade e contiguidade das suas partes entre si, ou seja, uma qualidade unitária que subjaz à pluralidade das partes, se as houver.

 

Em suma: se Kant colocou a totalidade como categoria da quantidade, deveria igualmente colocá-la como categoria da qualidade. E deveria emparelhar a totalidade com a parcialidade, visto que estão dialeticamente ligadas.

 

O todo é uma espécie dentro do género unidade, é uma modalidade de unidade. A parte é outra espécie do género unidade.

 

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Sábado, 24 de Dezembro de 2011
O infinito espacial e corporal é mera abstração, segundo Aristóteles

 

A filosofia Aristóteles distingue-se da de Platão na medida em que procura demonstrar que as essências não existem separadamente em si mesmas, fora do mundo material e vital.  Assim acontece com a essência infinito espacial :

 

 «Ora bem, é impossível que o infinito seja separável das coisas sensíveis e que algo seja  infinito em si mesmo. Porque se o próprio infinito não fosse uma magnitude nem uma pluralidade, mas sim uma substância e não um atributo, seria então indivisível; porque o divisível ou é uma magnitude ou uma pluralidade. Mas se é indivisível não é infinito, salvo que o fosse como a voz é invisível. Mas os que afirmam a realidade do infinito não dizem que seja desta maneira, nem que é isso o que buscamos, mas que o infinito é algo "que não pode ser percorrido". Mas se o infinito existe como atributo nunca poderá ser, enquanto infinito, um elemento constitutivo das coisas, como tampouco o invisível o é da linguagem, ainda que a voz seja invisível.»

«Ademais, como é possível que exista o próprio Infinito, se não existem o próprio Número e a própria Magnitude, dos quais o infinito é em si uma propriedade? A necessidade de que exista este infinito é ainda menor do que a do número ou da magnitude em si.» (Aristóteles, Física, Livro III, 204 a, 5-20; a letra negrita é posta por mim)


É muito interessante a visão aristotélica: o infinito no espaço e no mundo corporal é uma abstração, não existe em si mesmo, salvo na imaginação. As coisas são finitas. O infinito é uma ilusão da mente. É nele, a meu ver,  que a física se converte em matemática, uma vez que o universo físico material é limitado, por muito que falem da divisibilidade infinita dos corpos, e a matemática devido à sua natureza monádica (os números não ocupam lugar) suscita a ideia de infinito. A matemática faz a ponte entre a física e a metafísica. Não espanta que Aristóteles a classifique como a primeira das ciências a seguir à filosofia primeira ou - termo não usado pelo filósofo grego - ontologia-eidologia. Aristóteles sabia , verdadeiramente, produzir ontologia: o ser real é o finito ou o conjunto dos finitos, mas não o infinito que é ser virtual, atributo. A crença de Einstein de que o universo é finito, como uma esfera fechada, radica, assim, na concepção aristotélica do mundo.

 

 

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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
Heidegger deturpou a teoria do tempo concebida por Aristóteles

 Com a pretensão de se apresentar como o criador da mais elaborada e filosófica doutrina do tempo, Martin Heidegger falsificou a teoria do tempo de Aristóteles. Também Kant falsificou a posição idealista de George Berkeley para atacar e superar este na opinião pública: Kant usou a frase de Berkeley de que «o espaço é impossível», descontextualizando-a, para ridicularizar o próprio Berkeley e classificá-lo de idealista dogmático, e para se apresentar com uma teoria original, quando ele mesmo, Kant, perfilhou a mesma tese idealista de Berkeley de que «o espaço é impossível em si mesmo», isto é, fora da mente humana. Os filósofos e os aspirantes a filósofos não escapam à vaidade de serem prestigiados, de "ficarem na história" e, com certa  frequência, adulteram as ideias dos seus opositores ou apropriam-se delas dando-lhes uma nova roupagem.

 

Sobre o tempo, Aristóteles é mais claro e mais profundo na Física do que Heidegger em O Ser e o Tempo, livro este que pretende ser uma réplica e uma superação da Física.

.

Referindo-se aos que interpretam o tempo a partir do movimento dos ponteiros do relógio,Heidegger escreveu:

 

«O tempo é o numerado que se mostra no seguir, apresentando e numerando, o ponteiro peregrinante, de tal maneira que o apresentar se temporaliza na sua unidade extática com o reter e o estar na expetativa patentes no horizonte do anteriormente e do posteriormente. Mas isto não é outra coisa que a interpretação ontológico-existenciária a definição que Aristóteles dá do tempo: «Isto, a saber, é o tempo, o numerado no movimento com que se depara no horizonte do anteriormente e do posteriormente.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 219b, 2).(...) A origem do tempo assim patente não constitui para Aristóteles nenhum problema.» (...)

«Toda a dilucidação posterior do conceito de tempo atém-se fundamentalmentre à definição aristotélica, quer dizer, faz do tempo um tema naquela forma em que se mostra no "cuidar de" , "olhando em redor". (...) Ao apresentar o móvel no seu movimento, diz-se: "agora aqui", "agora aqui" e assim sucessivamente. O numerado são os agoras. E estes mostram-se "em cada agora" como "em seguida já não"

«O tempo resulta compreendido como "um atrás do outro", como "fluxo" dos agoras, como "curso do tempo". (Martin Heidegger, El ser y el tiempo, pag 454, Fondo de Cultura Económica; o negrito é posto por mim).

 

Heidegger falsifica a posição de Aristóteles ao dizer que este descreve o tempo como uma linha contínua feita de agoras em contiguidade uns com os outros e que a sua concepção do tempo não constitui nenhum problema, é ingénua. É falso, como se pode ver pelas citações abaixo da Física de Aristóteles.  

 

ARISTÓTELES NEGA QUE O TEMPO SEJA FORMADO DE "AGORAS", AO CONTRÁRIO DO QUE DELE DIZ HEIDEGGER

 

Heidegger acusa Aristóteles de nivelar os momentos do tempo, dizendo:

 

«Na interpretação vulgar do tempo como sequência  de agoras falta assim a databilidade como também a a significatividade» :

«A constituição horizontal-extática da temporalidade, em que se fundam a databilidade e a significatividade do agora, resulta nivelada por obra desse encobrimento.» (Heidegger, El Ser y el Tiempo, pag 455).

 

 

Não vejo como esta crítica possa atingir a textura da teoria aristotélica do tempo. Sem embargo de alguma oscilação de posição, Aristóteles não inclui o "agora" (nyn) ou instante no tempo: antes concebe o "agora" como um limite, indivisível, entre o passado e o futuro que constituem o fio do tempo. Portanto, Aristóteles defende a descontinuidade entre o agora e o passado e o agora e o futuro. Não se vê com clareza onde está o tal nivelamento do tempo em Aristóteles que Heidegger denuncia. O senso comum possui uma concepção atomística do tempo (este seria uma soma de agoras) mas não é essa a concepção de Aristóteles que torna o tempo semisubjetivo ou fenomenológico:

 

 

«Ademais, se o que nos permite dizer que uma coisa se moveu na totalidade do tempo AC, ou em qualquer outro tempo, é o facto de tomar o extremo desse tempo, a saber, um "agora" (pois o "agora" é o que delimita o tempo e o que se encontra entre dois "agoras" é tempo).. (Aristóteles, Fisica, Livro VI, 237a , 1-5).

 

«Assim, pois, enquanto limite, o agora não é tempo, mas um acidente deste; mas, enquanto numera, é número.» (Física, Livro VI, 220a, 20)»

 

Se o "agora" é um acidente do tempo, significa que não é a  essência deste. Há um movimento não local, não espacial, no tempo que o agora não incorpora, porque é estático. E prossegue Aristóteles:

 

«O "agora", considerado em si mesmo e primariamente, não em sentido derivado, quer dizer, como um lapso de tempo, é também necessariamente indivisível, e como tal é inerente a todo o tempo. Pois o "agora" é de algum modo o limite extremo do passado e nele não há nada de futuro, e é também o limite extremo do futuro e nele não há nada do passado; justamente por isso dizemos que é o limite de ambos. Quando se tiver demonstrado que é em si tal como o descrevemos, e que é um e o mesmo, ficará claro que o "agora" é indivisível.» (Aristóteles, Física, Livro VI, 233b, 30-35, 234 a, 1-59; o negrito é posto por mim).

 

 

 

O desmentido mais contundente da interpretação falaciosa de Heidegger sobre Aristóteles é dado por esta citação:

 

«Mas ainda que o tempo seja divisível, algumas das suas partes já foram, outras estão por vir, e nenhuma "é". O agora não é uma parte, pois uma parte é a medida do todo, e o todo tem que estar composto de partes, mas não parece que o tempo esteja composto de agoras. (...) Porque há que admitir que é tão impossível que os agoras sejam contíguos entre si, como um ponto o seja com outro ponto. Então se não se destruísse no seguinte agora, mas sim em outro, existiria simultaneamente com os infinitos agoras que há entre ambos, o que é impossível.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 218 a, 5-10; 15-20; o negrito é posto por mim).

 

«O tempo não está composto de "agoras", nem uma linha de pontos, nem tampouco um movimento em ato de movimentos já cumpridos, pois quem afirme o anterior não faz senão supor que o movimento está composto de átomos de movimento, como se o tempo estivesse composto de "agoras" ou a magnitude de pontos.» (Aristóteles, Física, Livro VI, 241 a, 1-5; o negrito é posto por mim).

 

O tempo é contínuo, divisível até ao infinito e é número de movimento. É como uma linha, possui duração - o passado tem uma duração experienciada, enquanto há notícia dela, e o futuro possui uma duração ainda em potência -  e o agora é como um ponto que divide a linha do tempo. Ora uma linha não é, em rigor, um conjunto de pontos porque um ponto não possui extensão: do mesmo modo o tempo, que é duração, não é um conjunto de agoras, cada um dos quais não tem duração. Assim para Aristóteles, o tempo é numeração movente entre os agoras - o agora é formalmente sempre o mesmo, o limite, mas substancialmente, no seu conteúdo, altera-se a cada fração de segundo - e não, como diz Heidegger, um fluxo formado de agoras.

 

Ao contrário do que diz Heidegger, apresentando Aristóteles como defensor do tempo como um "fluxo" de "agoras" ou instantes presentes, o tempo é como um segmento de reta entre dois agoras ou uma linha reta lançada para trás a partir do limite que é o agora .  

 

«O tempo é, pois, contínuo pelo agora e divide-se no agora, mas também sob este aspeto segue a deslocação e a coisa deslocada» (Física, Livro IV, 220a, 5-10).

 

Esta frase, para ser compatível com a tese de que o tempo não se compõe de agoras, pode ser interpretada neste sentido: o tempo é composto de passado e futuro, descontínuos entre si, um já morto (o passado) o outro ainda por nascer (o futuro) separados pelo agora que faz nascer o tempo, incessantemente. 

 

«O agora é a continuidade do tempo, como já dissemos, pois enlaça o tempo passado com o tempo futuro e é o limite do tempo ...(Física, )  

 

 Ocorre-me ser possível comparar o agora com as fotografias da fita de celulóide que a máquina de projeção cinematográfica faz correr e o tempo com o filme. As fotos ("agoras") delimitam o filme, que é movimento .

 

A Física de Aristóteles é rica em definições precisas:

«Entendo por "contínuo" o que é divisível em divisíveis sempre divisíveis; e se temos por assente que isto é a continuidade, então o tempo tem que ser necessariamente contínuo» (Física, Livro VI, 232b, 20-25).

 

UMA CONCEPÇÃO FENOMENOLÓGICA E UMA CONCEPÇÃO REALISTA EM ARISTÓTELES: TEMPO E ALMA SÃO INDISSOCIÁVEIS E TEMPO É A MEDIDA DO MOVIMENTO DA ESFERA

 

 

A meu ver, a concepção do tempo em Heidegger não constitui nenhum passo adiante em relação à concepção aristotélica do tempo, mal compreendida ou intencionalmente falsificada pelo filósofo alemão. Ora Heidegger escreveu:

 

«O tempo tornado público na medição do mesmo não se converte de maneira alguma em espaço por obra de datá-lo mediante relações métricas espaciais. » (Heidegger, El Ser y el Tiempo, Fondo de Cultura Económica, Madrid, pag 450).

 

Aristóteles não converteu o tempo em espaço. E Heidegger prossegue:

 

«"O tempo" não está "diante dos olhos" nem no "sujeito" nem no "objeto", nem "dentro" nem "fora", e "é" anterior a toda a subjetividade e objetividade representa a própria condição de possibilidade de este "anterior". Tem em geral "um ser"?  E se não tem, é um fantasma ou é mais que todo o ente possível? (...) Antes de tudo, trata-se de compreender que a temporalidade, enquanto horizontal-extática, temporaliza o que chamamos um tempo mundano, que constitui a intratemporalidade do "à mão" e do "diante dos olhos". Mas então estes entes nunca podem chamar-se "temporais" em sentido rigoroso. São intemporais, como todos os entes que não têm a forma de ser do "ser-aí", dêem-se, gerem-se e corrompam-se "realmente" ou subsistam "idealmente" .» (Heidegger, ibid, pag 452),

 

O que Heidegger nos oferece é uma interpretação do tempo inspirada nas doutrinas de Kant - o tempo é criado pelo sujeito, não existe fora dele - e de Bergson - há um tempo psicológico interno, duração pura, diferente do tempo dos relógios. A temporalidade existenciária, mecanismo oculto, obscuro e profundo do "ser", na doutrina de Heidegger, não é senão a forma a priori do tempo, na doutrina de Kant,  que «temporaliza» isto é introduz a "aparência empírica temporal" nos fenómenos: o café de há minutos atrás, a rosa ressequida de há cinco dias, etc.Heidegger admite que os objetos são intemporais, estão fora do tempo à maneira de arquétipos em Platão ou das essências eternas em Aristóteles situadas em nenhum lugar ou de númenos em Kant.

 

Aristóteles parece ser mais preciso que Heidegger sobre a natureza do tempo. Começa por atribuir-lhe um ser próprio que não é a mudança visto que esta é um sair fora de si e o tempo não sai de si mesmo senão no "agora".

 

«Todas as coisas se geram e destroem no tempo. Por isso, enquanto alguns diziam que o tempo «era o mais sábio», o pitagórico Parón chamou-lhe com mais propriedade «o mais néscio», porque no tempo esquecemos. É claro, então, que o tempo tomado em si mesmo é mais causa de destruição do que de geração, como já se disse antes, porque a mudança é em si mesmo um sair fora de si, e o tempo só indirectamente é causa de geração e de ser. Um indício suficiente disso está no facto de que nada se gera se não se move de alguma maneira e actua enquanto que algo pode ser destruído sem que se mova e é sobretudo de esta destruição de que se costuma dizer que é obra do tempo. Mas o tempo não é a causa disto, mas dá-se o caso de que a mudança se produz no tempo.» (Física, Livro IV, 22b, 15-25).

 

A tese «o tempo só indiretamente é causa de geração e ser» é profunda e desafia o senso comum. Heidegger passou em claro isto, apostado que estava em liquidar a doutrina de Aristóteles. A concepção realista do tempo, em Aristóteles, não é um realismo ingénuo mas um realismo crítico nos umbrais da fenomenologia:

 

«É também digno de estudo o modo segundo o qual o tempo está em relação com a alma e por que razão se pensa que o tempo existe em todas as coisas, na terra, no mar e no céu. Acaso porque o tempo é uma propriedade ou um modo de ser do movimento, já que é o seu número, e todas essas coisas são movíveis, pois todas estão em lugar, e o tempo e o movimento estão juntos tanto em potência como em ato?»

 

«Quanto à primeira dificuldade, existiria ou não o tempo se existisse a alma? Porque se não puder haver alguém que numere tão pouco poderia haver algo que fosse numerado, e por consequência não poderia existir nenhum número, pois o número é o numerado ou o numerável. Mas se nada que não seja a alma, ou a inteligência da alma, pode numerar por natureza, resulta impossível a existência do tempo sem a existência da alma, a menos que seja aquilo que quando existe o tempo existe, como seria o caso se existisse se existisse um movimento sem que exista a alma; haveria, então, um antes e um depois no movimento, e o tempo seria estes enquanto numeráveis.» (Aristóteles, Física, Livro IV, 223 a, 15-30; o negrito é colocado por mim).

 

Neste pensamento acima Aristóteles esboçou as duas hipóteses: a fenomenológica, isto é, o tempo só existe se existir a alma que o concebe; a realista, o tempo existe como número do movimento (circular), isto é, objetivamente, sem que exista a alma humana, a mente.

 

«Em sentido absoluto, o tempo é número de um movimento contínuo, não de uma qualquer classe de movimento.» (Física, 223 b, 1-5)

«.. então o movimento circular uniforme é a medida por excelência, porque o seu número é o mais conhecido. Nem a alteração nem o aumento nem a geração são uniformes, só a deslocação o é. Por isso pensa-se que o tempo é o movimento da esfera, porque por este são medidos os outros movimentos, e o tempo por este movimento.» (Física, 223 b, 15-25).

 

Aristóteles definiu o tempo como o número do movimento circular - e note-se que há números finitos e infinitos, pelo que a definição é muito rica - mas Heidegger nem isso conseguiu, remetendo a noção de tempo para o mecanismo obscuro do tempo originário situado no ser-aí (cada homem, na sua existência) - que equivale à alma, em Aristóteles, potência que numera - ou no ser em geral.  A vaidade de Heidegger, plasmada, ademais, na construção de um discurso difícil de perceber, e com ambiguidades importantes, impediu-o de reconhecer a inteligência  e a criatividade superiores de um filósofo que, vinte e três séculos antes, foi maior que ele: Aristóteles, talvez a maior inteligência de toda a história da filosofia.  

 

 

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