Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011
Kierkegaard: a inocência não é o imediato a abolir dialeticamente

 

Na sua divergência com Hegel, cuja dialéctica faz de todas as coisas entes transitórios votados à desaparição, escreveu o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard:


 

«Não era necessário que Hegel tivesse vindo para nos dizer que o imediato tem de ser abolido, nem tampouco representa um mérito imortal para aquele tê-lo dito, já que nem sequer no sentido do pensamento lógico isso é exacto, posto que o imediato nunca existiu, não tem por que ser abolido.(..)»

«Em uma palavra, é imoral afirmar que a inocência tem de ser abolida. Ainda que fosse certo que também ela ficava anulada no mesmo momento de a nomear, sem embargo, a Ética sempre nos proibiria que esquecessemos que a inocência não pode ser anulada mais que por uma culpa.» (..)

«Todo o homem, na realidade, perde a inocência do mesmo modo que a perdeu Adão, isto é, mediante uma culpa.»

 

(Sören Kierkegaard, El concepto de angustia, Alianza Editorial, paginas 77-78; o negrito é por mim colocado).

 

É interesante notar que, neste texto, Kierkegarrd nega o imediato, o instante aqui e agora.  Kierkegaard fustiga a lógica dialéctica e transfere para o terreno ético a sucessão das atitudes e posicionamentos humanos.

Sobre o instante escreveu:


 

«O instante vem a designar o presente como algo que não tem nenhum passado nem futuro; e nisto radica cabalmente a imperfeição da vida sensível. O etermo também vem a designar o presente que não tem nenhum passado nem futuro, mas esta é a perfeição da eternidade.»

«Se , em definitivo, se pretende empregar o instante para designar o tempo, fazendo que o primeiro signifique a eliminação puramente abstracta do pasado e do futuro e que asim seja o presente, então temos de afirmar taxativamente que o instante não é de modo nenhum o presente, pela simples razão que semelhante intermediário entre o passado e o futuro, concebidos de um modo meramente abstracto, não existe em absoluto.»

«O instante, assim entendido, não é um átomo do tempo, mas um átomo da eternidade. É o primeiro reflexo da eternidade no tempo. Poder-se-ia dizer que é como que o primeiro intento da etrernidade para travar o tempo.» (Sören Kierkegaard, El concepto de angustia, paginas 160 e 162; o negrito ).


 

Eis uma concepção dialéctica do instante: sendo aquilo que passa, um devir, o instante possui em si o que não pasa, o ser estático e eterno. Em cada Yang (movimento, expansão) há um pouco de Yin ( repouso, contracção).

 

 


 

www.filosofar.blogs.sapo.pt
f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 11:41
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