Terça-feira, 8 de Maio de 2007
O método filosófico é extrínseco aos métodos científicos? ( Crítica de Manuais Escolares - XX)

A grande maioria dos autores de manuais de filosofia e dos filósofos sustenta que o método filosófico é absolutamente distinto do método científico.

Eis um exemplo dessa concepção da filosofia expressa no manual «Pensar é preciso, Filosofia 10º ano» da Lisboa Editora:

 

«O método- Quanto aos procedimentos adoptados, para já, basta dizer que a filosofia é um empreendimento racional: quer compreender, quer compreender através da razão.

«Todavia, falar em razão neste contexto não é falar numa razão empírica que procura as suas provas na experiência, como acontece com as chamadas ciências da natureza que estudam fenómenos susceptíveis de ser observados e manipulados por instrumentos e técnicas laboratoriais.»

«Nem tão-pouco se trata de uma razão demonstrativa, como encontramos nas ciências matemáticas que demonstram, por meio de razões que se impõem pela sua coerência e necessidade lógica, de forma irrefutável, as afirmações que produzem partindo de determinados postulados e axiomas aceites por todos. Assim, por exemplo, na Geometria, as conclusões a que os processos demonstrativos conduzem são universalmente aceites.»

«A razão do filósofo é uma razão mais maleável, mas não deixa de ser razão; ele procura sempre a melhor, ou as melhores razões, que consegue apresentar em apoio das teses que defende, daquilo que hoje se designa por razão argumentativa».

(in «Pensar é preciso, Filosofia 10º ano» de Adília Maia Gaspar, Revisora Científica: Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Lisboa Editora, 2007, pags. 9-10; o negrito é de nossa autoria).

 

Ao invés do que sustenta este texto, a filosofia deriva simultaneamente da razão empírica, da razão demonstrativa-teórica (na verdade, a razão empírica também se poderá designar como demonstrativa: demonstra através dos factos empíricos...) da razão argumentativa - e da razão especulativa que impregna subtilmente aquelas três. O texto de Adília Maia Gaspar, em consonância com o horizonte de degradação que a filosofia tem vindo a sofrer nas últimas décadas ao ser reduzida quase só a uma «arte de argumentar racionalmente», destaca, erradamente, como essência da filosofia a razão argumentativa.

 

A filosofia procura, em muitíssimos casos, as suas provas na experiência. A filosofia «hippie» do amor livre, do pacifismo e da recusa do trabalho na sociedade industrial procurou as suas provas na experiência: milhares de jovens abandonaram os seus estudos universitários ou os seus empregos, nos EUA e noutros países, agruparam-se em comunas, onde se fumava haxixe, praticava o amor livre e fazia meditação transcendental. Nunca haveria filosofia «hippie» sem razão empírica, sem experiência. E é nesta que a filosofia «hippie» busca as provas do seu grau de solidez.

 

O que distingue a filosofia da ciência não é aquela estar fora do campo da experiência e a ciência estar imersa no pântano da experiência. Não. Nem sequer se pode dizer que a ciência é mais rigorosa que a filosofia, em termos gerais. O que as distingue é o facto de a filosofia adicionar metafísica, interpretação imaginário-racional à experiência em que participa, e a ciência se limitar a uma racionalidade positiva, adstrita a leis empíricas e a factos de resultados práticos. É evidente que, hoje, há ciências filosóficas como a física cósmica teórica ou cosmologia que concebe o nascimento, ou não, do universo, um espaço a dez ou trinta dimensões, e é especulativa por excelência.

 

A filosofia é como um sol, uma estrela gigante em fusão, a crepitar em labaredas de pensamento vivo (interrogações, especulações) e as diferentes ciências são como que pedaços desse sol que se alienaram dele, arrefeceram e se tornaram planetas de linhas bem definidas, obedecendo ao determinismo da matéria sólida e líquida. Em cada ciência há uma filosofia adormecida, moribunda, que ao acordar ou ressuscitar, convulsiona em maior ou menor grau a solidez dessa ciência. Logo o método filosófico engloba os diversos métodos científicos adicionados do método especulativo, que pode subverter aqueles.

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:25
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