Domingo, 10 de Outubro de 2010
Equívocos de Desidério Murcho sobre a "Pístis" e o "Conhecimento factivo", Frase e Proposição

O livro " A Ética da crença"  - título algo paradoxal porque existe crença sem ética, o processo gnosiológico é independente da valoração moral -  dá-nos a conhecer textos de W.K. Clifford, William James e Alvin Plantinga e, sobretudo, o pensamento do tradutor, Desidério Murcho.


No longo prefácio de Murcho, que absorve práticamente metade das cerca de 200 páginas do livro, subsistem diversos equívocos que passo a expor.


A PÍSTIS NÃO É A FÉ METAFÍSICA MAS A CRENÇA NOS OBJECTOS FÍSICOS


Escreveu Murcho:


«O termo crença é usado em filosofia no sentido em que muitos filósofos gregos usavam o termo dóxa. Já o termo é usado em filosofia no sentido do termo grego pístis e do termo latino fides. »


«Podemos distinguir três tipos de conhecimento ou saber (as duas palavras são usadas como aproximadamente simbólicas):


1) Conhecimento proposicional ou de verdades (saber que);


2) Conhecimento por contacto; e


3) Saber-fazer.»


( Desidério Murcho in prefácio de “A Ética da Crença”, Bizâncio, pag 29)


Ora, há, nestas linhas acima, um engano de Desidério Murcho, que presumivelmente não conhece a fundo a teoria de Platão e o vocabulário grego: a pístis não é exterior à doxa (opinião do senso comum), mas constitui a parte essencial desta, e consiste na crença espontânea nos objectos físicos. Exemplo: vejo um barco no mar azul diante de mim e creio (pístis)  que ele se encontra ali sobre as ondas. Pístis não corresponde a fides. Não designa a fé metafísica em entidades e reinos invisíveis, teológicos e angeleológicos, mas sim o oposto: a crença nos objectos visíveis e palpáveis, resultante da percepção destes. É esta pístis que Platão designa como a crença verdadeira, contrapondo-a à ciência. Exemplo: "A erva é verde (pístis)  aparentemente, mas, de facto, a cor verde é um intermédio que não está na erva mas resulta da interacção entre esta e os meus olhos (dianóia, raciocínio da ciência).


Os três tipos de conhecimento postulados por Desidério Murcho acima são os que Gilbert Ryle (1900-1976), filósofo britânico, um dos expoentes da filosofia analítica, consagrou no seu livro "The concept of Mind" (1949). Note-se a imperfeição da classificação: ao designar o conhecimento proposicional - ou intelectual discursivo - como "conhecimento de verdades" exclui implicitamente que o conhecimento por contacto, isto é, empírico, sensorial, apreenda verdades...Isto é, obviamente, uma posição anti empirista, anti intuicionista..


INCAPACIDADE DE DEFINIR CLARAMENTE "CONHECIMENTO FACTIVO"


Sobre o conhecimento, que designa por factivo, sem o definir conceptualmente com clareza, Desidério Murcho tece uma cúpula de argumentos:


«O conhecimento é factivo, o que provoca por vezes confusões desnecessárias. Quando se diz que no tempo de Ptolomeu se sabia que a Terra estava imóvel e agora se sabe que a terra não está imóvel, vive-se em plena confusão conceptual. Se a Terra está imóvel, nós hoje não podemos realmente saber que se move - apenas podemos considerar erradamente que sabemos isso. E se a Terra sempre se moveu, ninguém pôde algum dia saber se esteve imóvel - apesar de muitas pessoas poderem ter tido essa falsa crença.


«O conceito de factividade não é exclusivamente filosófico: é também linguístico, dizendo respeito ao tipo de pressuposições associadas a certos termos e às suas regras de funcionamento. As definições rigorosas de factividade, infactividade e contrafactividade são as seguintes, sendo X uma pessoa qualquer, V um verbo e p uma afirmação ou proposição:


«Um verbo V é factivo se, e só se, “x V que p»  implica p»


«Um verbo V é infactivo (ou não factivo) se, e só se, “x V que p»  não implica p».


«Um verbo V é contrafactivo se, e só se, “x V que p»  implica a negação de p».


«Por exemplo, o verbo ver é factivo porque se o Asdrúbal vê que está a chover, então está a chover. Claro que o Asdrúbal pode acreditar erradamente que está a ver chover quando na realidade está a sonhar ou a ter uma alucinação ou a confundir a água da rega com a chuva (...) »


«Ao contrário do conhecimento, a crença não é factiva - mas também não é contrafactiva pois tanto podemos ter crenças verdadeiras como falsas. Não são só os verbos que são factivos: advérbios, adjectivos e quaisquer modificadores ou operadores podem ou não ser factivos. »( Desidério Murcho in prefácio de "A Ética da Crença”, Bizâncio, pags 31-32; o negrito é posto por mim).


Note-se que Desidério Murcho (DM) não consegue definir de forma absolutamente clara o que entende por factividade. Principia por dar um exemplo, isto é, rodear o conceito, para ele envolto numa capa de nebulosidade, sem o clarificar. Está longe da capacidade de definição precisa de um Aristóteles - por exemplo, a "Metafísica" de Aristóteles, pela sua profusão de conceitos, raciocínios e definições, sem embargo de alguns equívocos, supera de longe tudo quanto Murcho e os seus mentores Simon Blackburn, Thomas Nagel escreveram, 24 séculos depois,  até hoje. A definição de factividade dada por Murcho é feita mediante a fórmula «Um verbo V é factivo se, e só se, “x V que p»  implica p», mas essa fórmula falha, como não podia deixar de ser para quem como Murcho raciocina segundo uma lógica proposicional binária que "reduz as cores ao preto e ao branco".


Suponhamos que, no lugar de V, na fórmula, colocamos o verbo suspeitar. A frase poderia tomar a seguinte forma: «Joana (x) suspeita (V) que o átomo  existe (p) e isso implica que  o átomo existe (p)»  O verbo suspeitar é factivo?  Designa ou aponta, necessariamente, para algum facto real? Por amor de Deus, Desidério!  Tenha rigor no que escreve! Veja bem os sofismas que engendra ao produzir vagas definições como bolas de sabão que rebentam ao ser confrontadas com o ar da realidade! O verbo, salvo «ser» ou «existir», em certos casos, não é factivo nem contrafactivo. A factividade só pode ser avaliada pelo conjunto da proposição ou frase, isto é, comportando o verbo, o nome predicativo do sujeito, os complementos directo ou indirecto, circunstanciais de lugar, tempo, modo, etc. Aliás, a factividade é garantida, em última análise, pela intuição, inteligível ou sensível, que está além das proposições. No entanto, para DM a proposição é o limite, a última zona da realidade, além da qual não há mais nada. Circunscrevendo a realidade ao seu cosmos lógico, como é próprio de alguma filosofia da linguagem, apaga a distinção entre a proposição e o mundo dos objectos em si, o referente. "Não há nada" para lá da linguagem estruturada...Só o caos inapreensível.


O CONHECIMENTO SENSORIAL, POR CONTACTO, É FACTIVO?


Murcho sustenta que a concepção geocêntrica do mundo mantida por Ptolomeu não era conhecimento, isto é, saber factivo, mas sim crença, ao passo que a concepção heliocêntrica de Copérnico e Galileu com os acréscimos da astronomia actual, é conhecimento, é factiva. Muito bem. Mas que critério seguro nos oferece para distinguir o conhecimento, factivo, absoluto, da simples crença, se assegura que «tanto o conhecimento proposicional, intelectual, como o conhecimento por contacto, sensorial» são factivos?


De facto escreveu:


«Dado que tanto o conhecimento proposicional como o conhecimento por contacto são factivos, o mesmo argumento aplica-se para refutar a ideia de que a fé poderia ser conhecimento por contacto: aceitar que a fé é conhecimento por contacto implica a tese implausível de que a maior parte da humanidade ao longo da maior parte da história não teve realmente fé, apesar de parecer que a tinha.» (Desidério Murcho, ibid, pág 49).


Ptolomeu construiu o seu sistema geocêntrico com a ajuda do conhecimento por contacto, sensorial: ele via o sol mover-se no céu e este rodar e inferiu que a Terra estava imóvel no centro do universo e o sol viajava. Se o conhecimento por contacto é factivo, como sustenta DM, então Ptolomeu via o sol mover-se no céu ao longo do Zodíaco e isso é factivo, portanto o sol move-se e a Terra é imóvel. Logo o geocentrismo é conhecimento, não crença. Para não resvalar no abismo da inconsistência, DM deveria dizer que algum conhecimento por contacto é factivo e outro não.


EQUÍVOCOS SOBRE FRASE E PROPOSIÇÃO


Sobre proposição e frase, Desidério expõe a posição de Stephen Downes e de outros, que consideram a proposição como um juízo, diferente das frase (interrogativa, imperativa, etc). Mas uma certa viscosidade de confusão atravessa o raciocínio de DM:


«Por proposição entende-se geralmente o que é expresso por uma frase verdadeira ou falsa. A frase "Está calor" exprime a proposição se for proferida noutro dia ou noutro local. Portanto, a mesma frase pode exprimir diferentes proposições.» (Desidério Murcho, ibid, pag 33).


Há falta de clareza nisto. Quais são as diferentes proposições que a frase "está calor" exprime?  "Está calor em Ouro Preto"?  "Está calor em Veneza"? "Está calor nesta sala?"


E prossegue:


«As frases são inequivocamente entidades espácio-temporais- um certo conjunto de sons articulados num dado intervalo de tempo. Isto porque as proposições não são inequivocamente entidades espácio-temporais. Isto porque as proposições não se confudem com os pensamentos, no sentido psicológico do termo, enquanto ocorrências físicas no cérebro. Quanto penso que está a chover e outra pessoa pensa o mesmo, o meu pensamento, enquanto ocorrência física no meu cérebro, é diferente do pensamento dela enquanto ocorrência no seu cérebro; mas ambos estamos a pensar, num certo sentido, o mesmo pensamento - ou seja estamos a pensar na mesma proposição. A existência de proposições não é pacífica: alguns filósofos consideram que não existem tais coisas sendo forçados então a explicar o que há de comum entre várias frases ou pensamentos que exprimem o mesmo (a via mais óbvia é insistir que tudo o que há de comum nas várias frases e pensamentos que dizem que a neve é branca é representarem a neve como branca.» (Desidério Murcho, ibid, pags 33-34; a letra negrita é de minha responsabilidade).


Ao admitir que as frases são pensamentos e as proposições o pensamento último, o referente da frase, Desidério Murcho escorrega no gelo da ambiguidade: é diferente de dizer que as frases são o significante, o continente de sons e letras, e a proposição, o significado, o conteúdo. Pela lógica de DM, as frases seriam "o pensamento (espácio-temporal?)  do pensamento-proposição ( não espácio-temporal)"... É o pensamento duplicado e a confusão sinais linguísticos- representação intelectual-referente ... três em um. Em última análise, o que aqui se vislumbra é uma ontologia linguística como a de Dummet.


 


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© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 01:05
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