Segunda-feira, 12 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Pensar, Filosofia 11º ano» da Texto Editora (Crítica de Manuais Escolares-LXIII)

 

 

Vários equívocos integram o manual  do professor Pensar, Filosofia 11º ano, de Fátima Alves, José Arêdes, Patrícia Bastos, com revisão científica de Luís Gomes (Tema III) e Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Temas IV e V), da Texto Editora.

 

UMA EQUÍVOCA DEFINIÇÃO DE SENSO COMUM

 

No manual lê-se a seguinte definição de senso comum:

 

«O senso comum

«Dizemos que o conhecimento vulgar ou senso comum:

1. resulta de uma organização espontânea da racionalidade humana a partir da:

   - actividade sensitiva e da experiência pessoal acumulada ao longo da vida;

   -  transmissão social da

 

 

2. é um conhecimento perceptivo, pois:

    - é o modo mais elementar de conhecer o mundo;

    - permite uma apropriação do mundo, associando representação e significado;

    - fixa essa apropriação através de uma linguagem comum;

    - é um conhecimento subjectivo;

    - é acrítico ou dogmático, sem justificação racional, e identifica a representação com a realidade;

    - é assistemático;

 

(Fátima Alves, José Arêdes, Patrícia Bastos, Pensar, Filosofia 11º ano, revisão científica de Luís Gomes (Tema III) e Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Temas IV e V), Texto Editora., pág 186)

 

Esta definição é confusa, apesar de consensual entre os estudiosos de filosofia. Confunde o sociológico - a noção de senso comum designa a opinião da imensa maioria das pessoas, pertence ao género sociológico,  ao qual pertence igualmente a noção de senso incomum (doutrinas esotéricas, filosofias complexas, ciências especializadas e abstractas) - com o epistémico.

 

O senso comum é subjectivo? Não parece. As matemáticas elementares com as suas operações do tipo « oito vezes oito é igual a sessenta e quatro», «trinta e cinco mais dezassete é igual a cinquenta e dois» pertencem ao senso comum. E não são conhecimento assistemático. Há, por conseguinte, muitas ciências e teses da ciência dentro do senso comum como por exemplo, "deve-se lavar as mãos para evitar doenças", "beber chá de folhas de oliveira faz descer a tensão arterial", "usar protector solar na pele durante a exposição ao sol na praia pode evitar cancro da pele", "votar em eleições autárquicas ou parlamentares nacionais assegura, em princípio. a eleição de deputados da nossa preferência".

 

O senso comum comporta: uma larga dose realismo ingénuo (por exemplo: a tese de que os corpos mais pesados caem sempre mais depressa para a Terra do que os mais leves; a tese de que as vacinas imunizam das doenças) e alguma dose de realismo epistémico, não ingénuo (por exemplo: a Terra é redonda). Portanto, o conhecimento «assistemático» e «subjectivo»  é o conhecimento ingénuo, eivado de erros e superficialidade, e constitui apenas uma parte do senso comum, parte essa que se tem reduzido com a elevação do nível cultural das massas. O que este manual designa por "senso comum" deveria designar-se  realismo ingénuo ou conhecimento ingénuo e fica aquém da vastidão do senso comum.

 

 

OMISSÃO DA TEORIA DAS QUALIDADES SECUNDÁRIAS E PRIMÁRIAS EM DESCARTES

 

Uma das pedras de toque que distingue os autores que sabem e os que não sabem ontognosiologia é a explanação que fazem do racionalismo de Descartes, da sua teoria do conhecimento, do percurso desde a dúvida hiperbólica até à demonstração do mundo exterior de matéria. Ora esse percurso não é explanado devidamente neste manual, com os pormenores essenciais:

 

«Descartes demonstra a existência de Deus e torna-o como garantia da indubitabilidade do critério da evidência, o critério da verdade que adoptou.»

 

«Neste sentido, por confiar nas capacidades da razão para atingir o conhecimento certo e indubitável, o racionalismo cartesiano é considerado uma teoria dogmática, ou um dogmatismo.»

 

(Fátima Alves, José Arêdes, Patrícia Bastos, Pensar, Filosofia 11º ano, revisão científica de Luís Gomes (Tema III) e Maria Luísa Ribeiro Ferreira (Temas IV e V), Texto Editora., pág 156)

 

Nem uma palavra há no manual sobre a demonstração do mundo material exterior, isto é, sobre o raciocínio que transita da existência, simultanea e única de Deus e do cogito humano, ao mundo exterior e à constituição ontológica deste. O raciocínio de Descartes, que o manual ignora, é do seguinte teor:

 

4º PASSO (da Existência de Deus e do eu pensante à existência do mundo material)

 

«Se Deus existe e é verdadeiro nos seus actos, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo existe o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor.»

 

Nada isto é explicado no manual. É a habitual vagueza da filosofia analítica na ontognosiologia, excepção feita a Johnathan Dancy que, no entanto, comete erros notáveis.

 

Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é, mas distorcido por alguma percepção empírica.

 

NENHUMA REFERÊNCIA AO IDEALISMO DE KANT E UMA ERRÓNEA SEPARAÇÃO ENTRE RACIONALISMO E APRIORISMO

 

À semelhança dos outros manuais, não há, neste, nenhuma referência ao idealismo de Kant. A teoria deste filósofo é classificada apenas de apriorismo. Os autores estabelecem como três perspectivas de conhecimento: racionalismo (Descartes), empirismo (Hume),  apriorismo (Kant). (pág. 178).

 

Há uma confusão grande porque o apriorismo de Kant é um racionalismo. No espaço a priori, segundo Kant, encontram-se as intuições puras de triângulo, círculo e outras figuras geométricas - que são ideias inatas em Descartes. No entendimento a priori estão as categorias ou conceitos puros de unidade, pluralidade, realidade, causa e efeito, etc. A priori não se opõe a racional, opõe-se sim a a posteriori. A priori e a posteriori pertencem ao género origem formal  do conhecimento, ao passo que empírico e racional pertemcem ao género origem "material" do conhecimento. A teoria de Descartes também constitui um apriorismo porque as ideias inatas, pilares do conhecimento cartesiano, são conhecimentos a priori.

 

O kantismo é, pois, um racionalismo idealista (a matéria é ilusão sensorial), ao passo que o cartesianismo é um racionalismo realista crítico (a matéria é real embora as suas propriedades cor, som, cheiro, sabor, dureza, calor e frio, etc, sejam ilusão). É nesta distinção que o manual é omisso por incompreensão de aspectos essenciais, quer da teoria de Descartes, quer da teoria de Kant.

 

 

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Sexta-feira, 9 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Como pensar tudo isto? Filosofia 11ºano» da Sebenta (Crítica de Manuais escolares LXII)

 

 

Vários equívocos impregnam o manual  do professor Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano, de Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida,  revisão científica de Sofia Miguens, da editora Sebenta

 

 

O CEPTICISMO É AUTORREFUTANTE? É INSUSTENTÁVEL?

 

Sobre o cepticismo, lê-se no manual:

 

« Objecções ao cepticismo

O cepticismo é insustentável

 

«Alguns autores encaram o cepticismo como uma posição autorrefutante. Uma perspectiva é autorrefutante quando se refuta a si mesma, isto é, quando demonstra a sua própria falsidade. Em que medida se pode considerar que o cepticismo incorre neste tipo de erro? Bem, a resposta salta à vista: é simplesmente contraditório afirmar que se sabe que o conhecimento não é possível.  Afinal de contas, se o conhecimento fosse verdadeiramente impossível nem isso se poderia saber. Mas será que isto constitui uma ameaça séria para o cepticismo?» (...)

«Há, contudo, uma crítica mais séria com a qual o cepticismo tem de lidar. No texto que se segue, Bertrand Russell, um dos mais importantes filósofos do século XX, faz notar que, embora possamos ter razões para suspender a crença em relação a este ou àquele assunto, é implausível pensarmos que temos razões para colocar em suspenso todas as nossas crenças em simultâneo.

 

"É claro que é possível que todas ou qualquer uma das nossas crenças possa estar errada, e consequentemente todas devem ser adoptadas com pelo menos um ligeiro elemento de dúvida. Mas não poderemos ter razão para rejeitar uma crença excepto com base noutra crença qualquer" . (Bertrand Russell, Os problemas da filosofia, Trad. Desidério Murcho, Lisboa, Edições 70, 2008, p.87)

 

«Com estas palavras, Russell pretende defender que, embora uma certa forma de cepticismo seja recomendada para nos prevenir de dar assentimento precipitado a algumas crenças, o cepticismo extremo é uma posição insustentável do ponto de vista racional. »

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida, Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano,  revisão científica de Sofia Miguens,  editora Sebenta, pág. 137)

 

Esta argumentação dos autores do manual, e de Bertrand Russell, de que "o cepticismo é autorrefutante, insustentável" cai pela base se atentarmos na definição integral de cepticismo: «Corrente filosófica que afirma ser impossível o conhecimento em todos os domínios, à excepção do conhecimento da tese de que "nada se pode conhecer, tudo são aparências fugazes ou ilusões". Esta definição não se auto contradiz. A definição é a ilha no meio do mar da incerteza. O mar não submerge a ilha. Uma das falhas do pensamento analítico é a destruição da barreira entre definição e objecto definido, fazendo com que este último absorva e destrua a definição que o engloba e transcende.

 

Qual é o valor da argumentação de Russell contra o cepticismo? Nenhum. Ao dizer que «não podemos refutar uma crença a não ser que tenhamos outra» Russell não demonstra nada, faz uma profissão de fé (pistis, em grego) nos orgãos dos sentidos e nos conhecimentos erguidos a partir de estes. Ademais o cepticismo radical rejeita todos os conhecimentos/ crenças, com base na crença de que «nada se pode conhecer», portanto, cumpre a exigência de Russell no texto acima de não se ficar no vazio, sem crer em nada.

 

Por que razão podemos, segundo Russell, ser parcialmente cépticos mas não globalmente cépticos? Já sabemos que o céptico global é só 99% céptico porque aceita um único dogma, o  de que «tudo é incognoscível»; em todo o yang há um pouco de yin.  Russell não justificou a sua tese. Ninguém pode justificar o anti cepticismo de maneira categórica, excluente. É uma questão de gosto, de perspectiva. Do mesmo modo que ninguém pode refutar o comunismo leninista dizendo que «há mais liberdade individual sob o capitalismo de mercado e a democracia parlamentar». A refutação é intersubjectiva: os conservadores, os liberais e socialistas aceitam que o «leninismo é mau, ditatorial», os comunistas, vivendo em democracia capitalista, preferirão sempre a vida da Cuba leninista da "ditadura do proletariado" à vida dos EUA ou da Europa capitalista.

 

FALSA DICOTOMIA CEPTICISMO-FUNDACIONALISMO

 

O manual estabelece uma dicotomia entre cepticismo e fundacionalismo (ver gráfico da página 178, com bifurcação entre estes dois conceitos):

 

«O cepticismo é a perspectiva segundo a qual devemos suspender o juízo relativamente à verdade ou falsidade de uma proposição, pois no geral as nossas pretensões de conhecimento são injustificadas.» (...)

«O fundacionalismo rejeita a conclusão do argumento céptico da regressão infinita, pois defende que nem todas as crenças se justificam com base noutras crenças - existem crenças básicas, que são de tal modo evidentes que se justificam a si mesmas.»

 

(Domingos Faria, Luís Veríssimo e Rolando Almeida, Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano,  revisão científica de Sofia Miguens,  editora Sebenta, pág. 178-179)

 

 

Esta dicotomia cepticismo-fundacionismo é falsa, fruto do magma da confusão dos autores e revisora. O cepticismo pertence ao género ontognosiológico, ao passo que fundacionismo pertence ao género protológico. Não podem opor-se: são espécies de géneros diferentes. Sobre isto Blackburn, Zizeck e a multidão de autores analíticos ou fenomenológicos nada sabe. É dialéctica, no sentido mais alto do termo.

 

David Hume era céptico sobre a natureza da matéria exterior ao dizer que não se pode demonstrar que há objectos físicos como mesas, casas e montanhas, fora do nosso espírito, e ao mesmo tempo, era fundacionista ao colocar as impressões empíricas e as relações filosóficas inerentes à razão como fundamento do limitado conhecimento que o ser humano possui.

 

Os primeiros cépticos gregos Pirron e Timón eram fundacionistas uma vez que afirmavam poder conhecer as aparências - fundavam-se nas aparências - mas não a essência oculta e o sentido oculto das coisas. Assim, fundavam-se nos sentidos. Eram empiristas, de certo modo como David Hume seria séculos mais tarde.

 

 

 

A AUSÊNCIA DE REFERÊNCIA À OPOSIÇÃO REALISMO-IDEALISMO

 

Se consultarmos o glossário deste manual, não encontramos as definições de idealismo nem de realismo. Ora é impossível explicar cabalmente a gnosiologia de Descartes sem explicar e posicionar as teses do realismo e do idealismo ontognoseológico. Em 20 páginas a explicar o pensamento de Descartes, - da página 141 à página 161 - não há uma única referência aos conceitos de realismo e idealismo gnosiológicos, o que prova a fragilidade teórica do manual.

 

ERROS NAS RESPOSTAS DE ESCOLHA MÚLTIPLA

 

Como é habitual nas perguntas de escolha múltipla forjada por autores (de)formados pela escola da filosofia analítica, este manual e guias anexos contêm erros abundantes. Vejamos exemplos no «Guia do Professor,  Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano».

 

No Teste Sumativo 4, figura a seguinte questão que pede uma única resposta certa, excluindo as outras:

 

6. En filosofia recorre-se à argumentação, ao diálogo e à discussão racional para:

 

A. descobrir como as coisas realmente são.

B. descobrir como prever o futuro.

C. descobrir a opinião de cada um.

D. descobrir como as coisas são para cada um. («Guia do Professor,  Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano», pág. 32)

 

Segundo o manual, a única resposta certa é a 6-A.

 

Crítica Minha: não há uma mas três respostas certas, a 6-A, 6-C e 6-D. É absolutamente arbitrário e ilógico dizer que a filosofia visa «descobrir como as coisas realmente são»  (hipótese A) mas não visa «descobrir como as coisas são para cada um» (hipótese D). Isso é fechar a porta da subjectividade à filosofia. E está ainda certo dizer que a filosofia visa «descobrir a opinião de cada um» (hipótese C). Por aqui se pode ver a roleta russa a que os alunos estão sujeitos com uma pergunta mal concebida de várias respostas certas.

 

No Teste Sumativo 5, figura a seguinte questão que pede uma única resposta certa, excluindo as outras:

 

2. O objecto do conhecimento prático é...

A.  uma pessoa, lugar ou objecto.

B.  uma proposição.

C.  uma proposição verdadeira

D.  uma actividade.

 

Guia do Professor,  Como pensar tudo isto? Filosofia 11º ano», pág. 32)

 

Segundo o manual, a única resposta certa é a 6-D.

 

Crítica minha: há duas respostas certas, 6-A e 6-D. Que é o conhecimento prático? Não é apenas o saber-fazer. É também o conhecimento por contacto, isto é, a visão, audição, tacto, sabor, etc, das coisas diante de nós. Ora ver uma pessoa ou um objecto, vivenciar um lugar, é conhecimento prático. Opõe-se ao conhecimento teórico ou proposicional.

 

 

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Quarta-feira, 7 de Maio de 2014
Apresentação de livro de astrologia histórica em Portimão



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Domingo, 4 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Filosofia 11» da Raíz Editora (Crítica de Manuais Escolares- LXI)

 

 

Vários equívocos integram o livro do professor Filosofia 11º ano, de Adília Maia Gaspar e António Manzarra, tendo como consultor científico o Professor Doutor João Sàágua, da Raíz Editora.

 

 

OMISSÃO DA TEORIA DAS QUALIDADES SECUNDÁRIAS E PRIMÁRIAS EM DESCARTES

 

Uma das pedras de toque que distingue os autores que sabem e os que não sabem ontognosiologia é a explanação que fazem do racionalismo de Descartes, da sua teoria do conhecimento, do percurso desde a dúvida hiperbólica até à demonstração do mundo exterior de matéria. Ora esse percurso não é explanado devidamente neste manual, com os pormenores essenciais: 

 

«Admitida a existência de Deus, Descartes aceita a existência do mundo material e a possibilidade de o conhecer, uma vez que Ele, sendo perfeito, não iria querer que o pensamento estivesse enganado em relação à ideia da existência do mundo. Mas acautela para as exigências metodológicas a que o espírito se deve submeter:

 

  Partir de princípios evidentes -ideias claras e distintas, apreendidas por intuição racional.

  Raciocinar dedutivamente. »

(Adília Maia Gaspar e António Manzarra,  Filosofia 11º ano,  consultor científico Professor Doutor João Sàágua, Raíz Editora, pág. 159).

 

Falta explicar a transição, em concreto, da existência simultanea e única de Deus e do cogito humano ao mundo exterior e a constituição ontológica deste. O raciocínio de Descartes, que o manual ignora, é do seguinte teor:

 

4º PASSO (da Existência de Deus e do eu pensante à existência do mundo material)

 

«Se Deus existe e é verdadeiro nos seus actos, não consentirá que eu me engane em tudo o que vejo, sinto e ouço, logo existe o mundo de matéria, feito só de qualidades primárias, objetivas, isto é, forma, tamanho, número, movimento. As cores, os cheiros, os sons, sabores, o quente e o frio só existem no interior da minha mente, do organismo do sujeito, pois resultam de movimentos vibratórios exteriores já que o mundo exterior é apenas composto de formas, movimentos e tamanhos. .Assim, a rosa não é vermelha, é apenas forma e tamanho. O ramo de rosas é apenas formas, tamanho e um certo número de unidades, não tem cor, nem cheiro, nem peso. O mármore não é frio nem duro, o céu não tem cor.»

 

Nada isto é explicado no manual. É a habitual vagueza da filosofia analítica na ontognosiologia, excepção feita a Johnathan Dancy que, no entanto, comete erros notáveis.

 

Realismo crítico é a teoria gnosiológica segundo a qual há um mundo de matéria exterior ao espírito humano e este não capta esse mundo como é, mas distorcido por alguma percepção empírica. 

 

A RACIONALIDADE FILOSÓFICA NÃO É DEMONSTRATIVA? LIMITA-SE A SER ARGUMENTATIVA?

 

O manual sustenta que «a filosofia não pode demonstrar nada mas apenas pode argumentar críticamente»:

 

«Por outro lado, a própria filosofia, através dos tempos, mostrou bem pouca estabilidade, apresentando uma sucessão de sistemas filosóficos não só diferentes, como, por vezes, contraditórios.»

 

«Por tudo isto, hoje considera-se que a filosofia pode  tão-somente aspirar a ser razoavelmente persuasiva, socorrendo-se de processos retórico-argumentativos para defender as suas teses». (...)

 

« O facto de a racionalidade filosófica ser argumentativa não retira valor à filosofia. Continua a caber-lhe  um importante papel na elucidação de conceitos e de problemas e reveste-se de inegável valor para a humanidade».

(Adília Maia Gaspar e António Manzarra,  Filosofia 11º ano,  consultor científico Professor Doutor João Sàágua, Raíz Editora, pág. 128; o destaque a negrito é de minha autoria).

 

 

A filosofia é apenas argumentativa e a ciência é demonstrativa? Este é o erróneo ponto de vista do positivismo lógico que não descobre a filosofia subjacente a teses científicas. É falsa a dicotomia : «a filosofia argumenta, a ciência demonstra.»  Aliás, segundo Popper, tanto a filosofia como as ciências empíricas argumentam, corroboram, não demonstram. Enganou-se, em parte.

 

O meu ponto de vista é outro. A filosofia de Hegel demonstra, por exemplo, que o processo dialético, inerente a todas as coisas, se caracteriza pela tríade tese-antítese- síntese através de numerosos exemplos: à contra-revolução dominante (tese)  segue-se um período revolucionário em que a radicalização aumenta até outro extremo (antítese) e depois há uma oscilação para o centro, estado de conciliação de extremos (síntese). A lógica triádica exposta por Hegel pode demonstrar-se e não apemas argumentar-se. E isto é mais demonstrativo do que a tese de o universo se ter originado no Big Bang ou de haver «quarks up» e «quarks down» ou de «se adquirir imunidade às doenças através da vacinação».

 

Também o princípio do terceiro excluído - uma coisa ou pertence a uma classe A ou pertence às classes não A, excluindo-se a terceira hipótese - é um princípio lógico, filosófico, que se pode demonstrar sem refutação possível.

 

 

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Sexta-feira, 2 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Cogito, Filosofia 11ºano» da Asa (Crítica de Manuais Escolares- LX)

 

 

Vários equívocos caracterizam o livro do professor Cogito, Filosofia 11º ano, de Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão, da Asa.

 

DESASTRE EM PERGUNTAS DE ESCOLHA MÚLTIPLA

 

O manual comporta várias questões de escolha múltipla mal concebidas. Vejamos exemplos:

 

«Para cada uma das questões que se seguem, indique a única resposta correcta.

 

«1. De acordo com a definição tradicional de conhecimento proposicional, uma crença é conhecimento:

a. se for verdadeira.

b. só se derivar da experiência.

c. só se for verdadeira

d. se derivar da experiência.»

(Cogito, Filosofia 11º ano, Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,  Asa, pág. 181)

 

Segundo os autores do manual a única resposta certa é a 1-c.(Guia do Professor, Cogito, 11º ano, pág 83).

 

Crítica minha: há duas respostas certas, 1-a e 1-c. A palavra «só» da hipótese c é redundante. Como se pode negar que a resposta a está correcta? Só por miopia, ultra-detalhismo deformante...

 

Eis outra questão da ficha informativa da página 181 do manual:

 

«2. O conhecimento a priori:

a. tem de basear-se na experiência

b. pode não se basear na experiência.

c.  resulta de ideias inatas.

d.  não pode basear-se na experiência.»

(Cogito, Filosofia 11º ano, Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,  Asa, pág. 181)

 

Segundo os autores do manual a única resposta certa é a 2-b.(Guia do Professor, Cogito, 11º ano, pág 83).

 

Crítica minha:  Há duas respostas certas ,  c e d, e uma semi certa,  b. De facto, o conhecimento a priori resulta de ideias inatas, anteriores à experiência, e, como tal não pode basear-se na experiência. Custa a crer como os autores se equivocam e equivocam os alunos de forma tão grosseira...

 

Vejamos outro exemplo:

 

«4. De acordo com o falibilismo, uma crença justificada:

a. baseia-se na experiência.

b. pode ser falsa.

c. não pode ser falsa

d. baseia-se na intuição racional.»

 

(Cogito, Filosofia 11º ano, Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,  Asa, pág. 181)

 

Segundo os autores do manual a única resposta certa é 4-c.(Guia do Professor, Cogito, 11º ano, pág 83).

 

Crítica minha: a resposta correcta é b, e não c como assevera o manual. Senão vejamos: a teoria de Popper sobre as ciências é falibilista, isto é, admite que qualquer tese ou crença justificada das ciências empíricas - como por exemplo: «a molécula de água é composta por dois átomos de hidrogénio e um átomo de oxigénio», «o efeito Doppler, a deslocação da luz para o vermelho prova que o universo está a expandir-se» - pode ser falsa, ou sendo verdadeira, apresentar falhas, excepções significativas às regras..

 

Outro exemplo:

 

«2. Para dar uma explicação científica de um fenómeno é preciso:

a. referir uma previsão útil. que melhore a vida da humanidade.

b. indicar a lei geral dentro da qual o fenómeno não podia deixar de ocorrer, considerando as condições iniciais verificáveis.

c. descrever uma regularidade observável, em termos muito exactos.

d. subsumir o fenómeno numa lei geral muito precisa e informativa, que apenas permite explicar outras ocorrências do mesmo fenómeno.»

 

(Cogito, Filosofia 11º ano, Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,  Asa, pág. 248).

 

b.(Guia do Professor, Cogito, 11º ano, pág 83).

 

Crítica minha: há três respostas certas, b,c,d. As respostas b e d são praticamente indistinguíveis. Com que direito e racionalidade opta o manual por excluir a d? A resposta c também está certa porque «descrever uma regularidade observável» é esboçar ou formular uma explicação científica. Exemplo: ainda que não se saiba bem o que é um OVNI, várias aparições de objectos deste tipo nos céus possibilitam descrever certo tipo de comportamentos físicos e electromagnéticos, com regularidades.

 

 

Com este tipo de questões, de resposta errónea ou equívoca, os alunos ficam sujeitos à pura arbitrariedade, o que é desastroso para a justiça na avaliação de conhecimentos e para a imagem da filosofia como disciplina prestigiada e ensinável.

 

A EXISTÊNCIA DO EU É UMA QUESTÃO DE FACTO PARA HUME?

 

Nas páginas que se referem à teoria de David Hume o manual propõe como actividade:

 

1. "Eu existo" é uma relação de ideias ou uma questão de facto?»

 

E dá a seguinte resposta:

«1. Uma questão de facto. Ao afirmar a minha existência, estou a afirmar a existência de uma entidade concreta. Além disso, eu poderia não ter existido: negar a proposição não leva a uma contradição.»

(Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,Cogito, Filosofia 11º ano,   Asa, pág. 153).

 

Crítica minha: Ao contrário do teor desta resposta, Hume considerava o "eu" uma relação de ideias, não um facto provado. Cito Hume:

 

«Mas o eu ou pessoa não é uma impressão, mas aquilo a que se supõe que as várias impressões têm referência. (...) Nunca consigo apanhar-me a mim próprio, em qualquer momento, sem uma percepção, e nada posso observar a não ser a percepção».

 

(David Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pág 300).

 

Portanto, a existência do eu é indemonstrável, segundo Hume. É uma suposição pois os homens são fluxos de perceções em constante devir:

 

 

«... Atrevo-me a afirmar do resto dos homens que cada um deles não passa de um feixe ou colecção de diferentes percepções que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez e que estão em perpétuo fluxo e movimento.» (David Hume, ibidem, pág 301).

 

Lembra a teoria budista dos dharma ( à letra: lei) ou qualidades existenciais de cada ser humano ( exemplo: percepção visual, percepção táctil, memória, inteligência, etc) que flutuam como átomos no espaço vazio e se juntam, por acaso, para produzir este ou aquele indivíduo concreto.

 

 

 

HUME ACEITA O REALISMO INDIRECTO OU REALISMO CRÍTICO?

 

 

Na ficha formativa da página 181 deste manual «Cogito» figura a seguinte questão:

 

«3. Leia o texto seguinte:

 

«Os realistas indirectos aceitam que a minha chávena de café existe independentemente de mim. Consideram, no entanto, que eu não tenho uma percepção directa desta chávena. O realismo indirecto afirma que a percepção envolve imagens mediadoras. Quando olhamos para um objecto não é esse objecto que vemos directamente, mas sim um intermediário perceptual. (...) Para o realista indirecto, a chávena de café na minha secretária causa a presença de um dado dos sentidos bidimensional: vermelho na minha mente, e é este objecto que eu percepciono directamente. Consequentemente, a chávena de café só é por mim percepcionada indirectamente, isto é, eu só a percepciono porque estou ciente do dado dos sentidos que a causou na minha mente.» (Dan O´Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento, Lisboa, Gradiva, 2013, pag 82).

 

3.1.  Será que Descartes defende o realismo indirecto? Porquê?

3.2   Será que Hume defende o realismo indirecto? Porquê? »

(Cogito, Filosofia 11º ano, de Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,  Asa, pág. 181)

 

As respostas que os autores dão são as seguintes:

 

«3.1.

Sim Descartes defende o realismo indirecto.

- Em seu entender, os objectos imediatos da percepção são ideias. Embora coloque a possibilidade céptica de as ideias sensíveis não serem representações de objectos físicos. Descartes argumenta que provando que Deus existe e não é um ser enganador, podemos ficar certos de que as nossas ideias sensíveis são, de facto, "imagens mediadoras"  de objectos físicos.

- Assim, através dessas ideias, percepcionamos realmente objectos físicos.»

(Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,Guia do Professor, Cogito, 11º ano, pág 83).

 

3.2

«Hume aceita o realismo indirecto, mas não parece defendê-lo propriamente.

«- Acredita, sem dúvida, que os objectos imediatos da percepção são impressões e que estas são causadas por objectos físicos.

«- No entanto, julga ser impossível justificar esta crença. Pois, em seu entender, só podemos estabelecer relações causais a partir de conjunções constantes observadas. Mas, acrescenta, nunca podemos observar uma conjunção constante entre impressões e objectos físicos, pois só as primeiras podem ser directamente percepcionadas». (Paula Mateus, Pedro Galvão, Ricardo Santos e Teresa Cristovão,Guia do Professor, Cogito, 11º ano, pág 83).

 

Crítica minha:

3.1.

Descartes perfilha, sim, o realismo indirecto ou crítico. Os autores enganam-se ao dizer que «os objectos imediatos da percepção são ideias». É uma confusão: os objectos imediatos da percepção são as cadeiras, as nuvens, os corpos de animais ou de humanos, isto é, os corpos físicos, as ideias essas, são, sim, as percepções - refiro-me às ideias adventícias.

Os autores manifestam ignorância ao não distinguirem, na gnosiologia de Descartes, as qualidades primárias (forma, tamanho, movimento, número) existentes realmente nos objectos físicos e as qualidades secundárias (peso, dureza, cor, odor, som, prazer, dor, etc) que existem apenas dentro da mente e não nos objectos exteriores. Por isso quando dizem «Assim, através dessas ideias, percepcionamos realmente objectos físicos.» fica-se sem perceber de que tipo de ideias se trata em concreto, isto é, não se percebe como são os objectos físicos segundo Descartes: a rosa vermelha na visão (ideia adventícia) corresponde a uma rosa vermelha na realidade exterior? Vaguismo, nebulosidade do manual, incompreensão da ontognoseologia cartesiana... Eis uma amostra do saber dos que pontificam na universidade portuguesa actual e na Sociedade Portuguesa de Filosofia.

 

Crítica minha:

3.2.

 

A frase dos autores «Hume aceita o realismo indirecto, mas não parece defendê-lo propriamente» é confusa, incoerente. Hume não aceita o realismo, seja este directo, ingénuo, ou indirecto, crítico. É um erro grave dizer que Hume «acredita, sem dúvida, que os objectos imediatos da percepção são impressões e que estas são causadas por objectos físicos». Se assim fosse, Hume seria realista. Um dos pilares da doutrina idealista de Hume é, justamente, afirmar a impossibilidade de demonstrar que há um mundo físico real fora das nossas mentes. Logo, ao contrário do que diz o manual, Hume não acreditava que as impressões eram causadas por objectos físicos exteriores:

 

«Esta mesa que, neste momento, se me apresenta, é apenas uma percepção e todas as suas qualidades são qualidades de uma percepção. Ora a mais óbvia de todas as suas qualidades é a extensão». (David Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pág 286).

 

«Não temos ideias perfeitas de nada senão das percepções. Uma substância é inteiramente diferente de uma percepção. Não temos, pois, nenhuma ideia de substância. A inerência a qualquer coisa é, segundo se supõe, necessária, como suporte das nossas percepções. Nada parece necessário para servir de suporte à existência de uma percepção.» (David Hume, Tratado da Natureza Humana, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, pág 280; o destaque a negrito é posto por mim).

 

Ricardo Santos, Paula Mateus ou Pedro Galvão são doutorados? São. E são «especialistas em lógica proposicional»? Diz-se que sim. E de que lhes serve isso, se não são capazes de visualização ontológica das doutrinas de Descartes, Hume, Kant, etc, o que só uma lógica intuitiva, informal, dialética pode proporcionar? Note-se que, neste manual, por não dominarem a ontognosiologia,  os autores omitem a oposição frontal entre idealismo material e realismo material e, no seio deste, entre realismo ingénuo e realismo crítico, em particular na teoria de Descartes, evitam definir o idealismo de Kant, etc.

 

A filosofia analítica é uma filosofia menor, feita de cortes e sobreposições de conceitos, organizados em hierarquias mais ou menos disformes. As universidades oficiais são um viveiro de doutorados medianamente inteligentes que burocratizam a filosofia, isto é, a fazem decair rapidamente na vulgaridade e no lodo dos equívocos. As perguntas de escolha múltipla, tão em voga nos manuais e testes escolares de quase todos os docentes de filosofia do secundário, são um exemplo dessa burocratização e fraca qualidade de pensamento.

 

 

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Quinta-feira, 1 de Maio de 2014
Equívocos no manual «Filosofia 11º ano» da Plátano Editora (Crítica de Manuais Escolares - LIX)

 

 

Algumas imprecisões integram o livro do professor  Filosofia 11º ,de Luís Rodrigues,  com Fernando Rua como consultor científico, da Plátano Editora.

 

A FILOSOFIA ´DISTINGUE-SE DA CIÊNCIA PELO MÉTODO? OU PELO DOMÍNIO EM QUE SE AVENTURA?

 

Lê-se no manual:

 

«1. O que distingue a filosofia de outros saberes?»

«A filosofia é uma forma de saber racional que se distingue de outros saberes, especialmente da ciência pelo método - à argumentação crítica sem recurso a testes empíricos ou provas formais.» (Luís Rodrigues,  Filosofia 11º , Fernando Rua como consultor científico,  Plátano Editora, pág 266).

 

Crítica minha: o que distingue, essencialmente, a filosofia da ciência não é a ausência de recurso a testes empíricos - a filosofia usa-os, como por exemplo, ao referir os 6 milhões de judeus exterminados na 2ª Guerra Mundial pelos nazis, no caso da filosofia antinazi; ao referir os exemplos de Júpiter em Peixes nas revoluções liberal de esquerda 24 de Agosto de 1820, radical de 14 de Maio de 1915 e antifascista de 25 de Abril de 1974 no caso da nossa filosofia da astrologia histórica. Ademais, a ciência argumenta criticamente muitas vezes sem provas empíricas como é o caso da teoria do Big Bang: há quem defenda que há galáxias com 70 000 milhões de anos o que contraria a tese de o Big Bang se ter dado há 15 000 milhões de anos.

 

O que distingue a filosofia, das ciências, é o movimento do pensamento filosófico na metafísica, no reino além dos factos positivos, visíveis e palpáveis. As ciências estão todas impregnadas de filosofia - desta ou daquela filosofia. Por exemplo, dizer que a vacina (vírus e toxinas) «ensina o corpo a defender-se contra futuros ataques de certa doença» é pura filosofia subjectiva que já foi incorporada no senso comum. Cada filosofia prolonga a investigação das ciências além da fronteira do visível e do palpável, e por isso decompõe-se, como a luz branca, em múltiplas «cores» ao atravessar o prisma limite do mundo visível. Há muitas filosofias sobre o mesmo tema testável. Platão faz residir as essências no mundo inteligível, Aristóteles fá-las residir no mundo da matéria, cujo fundo é também metafísico. O método racional, tanto quanto possível assente em dados empíricos, é comum à filosofia e às ciências, ainda que estas recorram a métodos particulares.

 

A FILOSOFIA NÃO É SUBJECTIVA?

 

Diz o manual:

 

«2. Podemos dizer que a filosofia é subjectiva?

Não. Há verdades objectivas em filosofia porque esta não é o reino da pura e simples opinião. O problema é alcançar a resposta objectivamente verdadeira a uma questão básica e fundamental.» (Luís Rodrigues,  Filosofia 11º , Fernando Rua como consultor científico,  Plátano Editora, pág 266).

 

Crítica minha; a filosofia é um misto de subjectividade e objectividade. Por isso,é parcialmente incorrecto dizer que não é subjectiva. O existencialismo, de Kierkegaard a Sartre, acentua a subjectividade do indivíduo como a fonte da filosofia livre e criadora. Dizer que o nosso eu racional tem capacidade para dominar, em certa medida, os instintos mais baixos é uma verdade objectiva mas dizer, como o filósofo estóico Marco Aurélio, que se pode permanecer impassível enquanto nos torturam ou cortam aos pedaços é uma tese subjectiva.

 

AS CONFUSAS PERGUNTAS DE ESCOLHA MÚLTIPLA

No caderno do professor, que faz parte do Filosofia 11º ano de Luís Rodrigues, figuram questões de escolha múltipla mal formuladas. Eis exemplos.

 

«Considere os enunciados seguintes. Selecione a alternativa correcta.

 

1.1 A. Deves cumprir o prometido.

       B. Não há homens em Marte.

       C. Precisarias de ajuda.

       D. Não achas que me fizeste esperar muito?

        (Luís Rodrigues,Caderno do professor, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, pág 56) 

 

Segundo o autor só a frase b é proposição.

 

Crítica minha: há duas proposições ou frases declarativas, a B e a C («Precisarias de ajuda»). A frase «precisarias de ajuda» pode ser tomada como uma frase assertiva: «Sem dúvida, precisarias de ajuda naquela conjuntura», o que é o mesmo que dizer, como uma proposição 

 

1.2  A.  A guerra na Síria é imoral e fraticida.

        B. Qualquer vacina contra a malária tem de ser barata.

         C. Em geral, os quadros de Miró têm menos valor do que os de Picasso.

         D. O aquecimento global pode ameaçar a subida do nível do mar.»

   (Luís Rodrigues,Caderno do professor, Filosofia 11º ano, Plátano Editora, pág 56).

 

Segundo Luís Rodrigues, só a hipótese A está certa.

 

Crítica minha: As quatro respostas estão certas, são todas frases declarativas. Não sabemos o que Luís Rodrigues entende por proposição mas reduziu, sem dúvida, o conceito desta de forma inaceitável. Dizer que «os quadros de Miró valem menos que os de Picasso» não é uma proposição? Ora vamos lá a pensar seriamente, Luís Rodrigues! A proposição é uma afirmação ou negação construída sobre a realidade efectiva ou sobre a possibilidade. Dizer «é possível que o aquecimento global faça subir o nível do mar»  é uma proposição porque se ancora em duas contrárias entre si: «o aquecimento global faz ou fará subir o nível do mar» ; «o aquecimento global não faz ou não fará subir o nível do mar». Como pode uma proposição englobante - pois a possibilidade abarca o "sim" e o "não" - deixar de ser proposição? Como podem a tese e antítese comstituirem proposições e a síntese não?  

 

Este tipo de perguntas de escolha múltipla formam um terço das questões da prova de exame nacional de filosofia do 11º ano. E, em regra, este possui algumas dessas questões mal formuladas.

 

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Equívocos no Manual «Essencial, Filosofia 11º» da Santillana - Crítica de Manuais Escolares LVIII)

 

Algumas imprecisões impregnam o livro do professor Essencial, Filosofia 11º ,de Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Santillana, sem embargo de me parecer ser o melhor para o ensino secundário, em rigor conceptual, no mercado português, neste momento .

 

A SENSAÇÃO NÃO É UNICAMENTE EXTERNA

 

Diz o manual:  

 

«A experiência pode ser externa ou interna: a externa refere-se à sensação, ou seja à forma como apreendemos as impressões fornecidas pela experiência sensível» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 199).

 

Crítica minha:há sensações internas, como por exemplo, o prazer e a dor, as cenestesias (sensações interiores de calor e frio, de circulação, de batimentos do coração, etc) ; a sensação não é a forma como apreendemos as impressões, é essas mesmas impressões. A sensação é a impressão resultante de estímulos exteriores, em regra.

 

EQUÍVOCA DEFINIÇÃO DO PRINCÍPIO DO DETERMINISMO

O manual define assim os princípios da causalidade e do determinismo:

«O princípio da causalidade afirma que tudo tem de ter uma causa e, nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.»

«O princípio do determinismo afirma que os fenómenos naturais são determinados por outros fenómenos que os precedem e originam.» (ibid, pág. 23).

 

Há confusão nestas definições. O princípio do determinismo enuncia-se assim: «nas mesmas circunstâncias, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos.»

 

NO OBJECTIVISMO, NEM SEMPRE O OBJECTO DETERMINA O SUJEITO

 

Diz ainda o manual:

 

«O que é o objectivismo?

Para o objectivismo é o objecto que determina o sujeito; o sujeito apenas recebe as características do objecto, fazendo uma mera reprodução destas em si.

 

«Platão pode ser considerado um objectivista, uma vez que a sua Teoria das Ideias defende que estas são realidades objectivas; o reino objectivo das ideias é onde assenta o conhecimento.»

(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 210)

 

Nem todo o objectivismo implica a preponderância do objecto sobre o sujeito. A definição dada  pelo manual de objectivismo como uma aceitação passiva das propriedades do objecto exterior pelo sujeito (reprodução) não se aplica ao racionalismo ou realismo crítico das ciências onde, segundo Bachelard, "nada é dado, tudo é construído": as ideias de  átomo com o seu núcleo e as órbitas electrónicas ou de Big Bang são  objectivas porque  partilhadas por centenas de milhar de pessoas no mundo inteiro, mas são, de certo modo, subjectivas porque criação do sujeito, da mente científica, não estão patentes aos sentidos de toda a gente.

 

Em sentido físico, a árvore que está diante de nós ou a Torre de Belém, em Lisboa, é  muito mais objectiva (objectivismo extra anima) do que a explosão do Big Bang há 15 000 milhões de anos (objectivismo intra anima ou intersubjectivismo) Na verdade, só alguns átomos são visíveis ao microscópio electrónico, os outros são descrições da imaginação e razão científicas, tal como o Big Bang que ninguém fotografou ou filmou.

 

Objectivismo é uma noção que pertence ao género sociológico: assenta no número de pessoas que coincidem na visão ou compreensão do mundo ou de um dado aspecto da natureza. A definição correcta é: objectivismo é a doutrina segundo a qual a totalidade das pessoas ou a grande maioria das pessoas de um país ou continente interpreta ou conhece da mesma maneira a realidade exterior ou interior. .  Há dois tipos de objectivismo:

 

A) Extra anima. Exemplo: o Mosteiro dos Jerónimos é uma realidade objectiva, exterior e consensual.

B) Intra anima. Exemplo: a tabela periódica dos elementos que atribui ao Hélio o número atómico 2 e ao Silício o número atómico 14. É uma realidade verosímil na matéria exterior, mas é realidade ideal, no interior das mentes.

 

O manual não aprofunda esta questão.

 

INCOMPREENSÃO PARCELAR SOBRE O IDEALISMO

Lê-se no manual:

 

«O idealismo é a posição que sustenta que não há coisas reais independentes da consciência. Segundo esta perspectiva, toda a realidade está encerrada na consciência do sujeito; as coisas são somente conteúdos da consciência; apenas os conteúdos da consciência são reais.»

 

«Berkeley (1685-1753) representa na Filosofia essa forma de abordar o problema, manifestando que o ser das coisas consiste em ser percebidas, o ser das coisas esgota-se no seu ser percebido. Ser é ser percebido - esse es percipi.» (Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 211).

 

Ora, existe idealismo sustentador de que há coisas reais fora da consciência: é o caso do idealismo de Kant. Este postula que os númenos «Deus» , «mundo como totalidade», objectos metafísicos, são independentes das mentes humanas. O facto de o manual, à semelhança de todos os outros, não indicar David Hume e Kant como idealistas revela a nebulosidade gnosiológica sobre o que é idealismo, a incompreensão de que Berkeley, Hume e Kant militaram na mesma barricada ontológica do idealismo material, sem embargo das diferenças conceptuais (teísmo, agnosticismo, etc) ou terminológicas entre eles.

UMA ERRADA DEFINIÇÃO DA FALÁCIA DO FALSO DILEMA

 

Escreve o manual:

«O que é uma falácia do falso dilema?

«A falácia do falso dilema reduz todas as alternativas possíveis apenas a duas. Apresentam-se duas opções, geralmente opostas e injustas, e a pessoa terá de optar por uma delas no dilema que lhe é colocado.

Por exemplo, um aluno vai estudar para uma universidade no estrangeiro. O pai pondera a situação e comenta um pouco contrafeito:

«- Ou compramos um apartamento ou vais para uma residencial».(Amândio Fontoura, Mafalda Afonso e Maria de Fátima Vasconcelos, Essencial, Filosofia 11º, Santillana Editores, pag 139).

O exemplo aqui dado  é de um verdadeiro dilema, não de um falso dilema. Apresentam-se duas opções que se excluem mutuamente e há que optar por uma delas. Não importa que haja outras alternativas. Falso dilema é aquele em que um dos termos da disjunção está contido no outro. Exemplo:

«Ou és bejense ou és alentejano».

Ora, os bejenses fazem parte do conjunto dos alentejanos, pelo que se trata de um falso dilema.

Outro exemplo:

«Ou conduzes um automóvel ou praticas uma acção». Ora, conduzir um automóvel já é praticar uma acção. Trata-se, pois, de um falso dilema.

 

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