Sábado, 9 de Janeiro de 2010
O equívoco de Heidegger ao interpretar a ontognoseologia de Kant

 

Em «Que é uma coisa?» (Título original: Die Frage nach dem Ding), Martin Heidegger analisa a Crítica da Razão Pura de Kant, em particular a Estética Transcendental, teoria do espaço e do tempo e dos objectos (fenómenos) neles nascidos e situados. E aí denota não ter compreendido a perspectiva de Kant sobre a natureza dos objectos físicos e psíquicos, os primeiros exteriores ao corpo físico, os segundos interiores ou imanentes (imanente pode significar não só «interior»  também «exterior muito próximo de», «colado a») ao mesmo corpo físico.

 

 

 

Na verdade, Heidegger não foca e ignora o seguinte pilar da ontognosiologia de Kant: a natureza biofísica - árvores, montanhas, céus, oceanos, casas, cidades, etc - está toda, sem qualquer redução de tamanho, dentro do eu do sujeito perceptivo. Heidegger, como aliás mais de 95% dos catedráticos de filosofia actuais, nunca afirma esta tese capital de Kant. Este sustentou que a matéria é irreal em si mesma, mas Heidegger passa ao lado desta concepção idealista imaterialista que, verdadeiramente, não compreendeu.

 

 

O que Heidegger escreve é o que a generalidade dos intérpretes superficiais da gnoseologia de Kant afirmam:

 

«"Coisa" é o objecto da nossa experiência. Na medida em que a natureza é a mais alta representação do que é possível experimentar, a coisa deve ser, em verdade, concebida como coisa da natureza. Kant, de facto, distingue a coisa, da coisa-em-si. Mas a coisa-em-si, quer dizer independente de nós e retirada de qualquer relação de manifestação para connosco, permanece, para nós mesmos, um mero X. Em cada coisa como fenómeno pensamos inevitavelmente esse X; mas apenas a coisa da natureza, que nos aparece, é verdadeiramente determinável e possível de conhecer, a seu modo, como coisa. Resumimos, a partir de agora, em duas proposições, a resposta de Kant acerca da coisa acessível para nós; 1) a coisa é uma coisa da natureza; 2) a coisa é o objecto de uma experiência possível. Aqui, cada palavra é essencial e é-o, de facto, no sentido determinado que obteve através do trabalho de Kant.» (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, Pág. 129)

 

 

Note-se que Heidegger escamoteia aqui a natureza da natureza biofísica, isto é a sua coisalidade: não diz se as árvores e as planícies são materialmente reais ou apenas ideias, percepções tridimensionais ilusórias a flutuar fora do corpo do sujeito (esta segunda é a posição de Kant, doa a quem doer).

 

 

E o equívoco de Heidegger é patente na seguinte frase:

 

«Tendo em vista a determinação kantiana da essência da coisa, como coisa da natureza, podemos avaliar que, desde o princípio, Kant não levanta a questão da coisalidade das coisas que nos rodeiam. Para ele, tal questão não tinha nenhuma importância. O seu olhar dirige-se imediatamente à coisa como objecto da ciência físico-matemática.» (Martin Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, Pág. 130)

 

 

EM KANT, SER CASA É SER INTUÍDO, CONTRA O QUE DIZ HEIDEGGER

 

Heidegger não entendeu que os objectos físicos, na teoria de Kant, são em absoluto constructos, construções dentro do balão cósmico que é a sensibilidade do sujeito que não estão, de nenhum modo, fora, além desta, como «númenos» ou como objectos materiais. Por isso escreveu:

 

«A casa é intuída na medida em que é encontrada; mas ser casa não significa ser intuído. Kant nunca teria determinado a essência da casa deste modo». (Martin Heidegger, «Que é uma coisa?», Pág 192).

 

 

Equivoca-se Martin Heidegger. Na doutrina de Kant «ser casa» é «ser intuído» - exactamente como na doutrina de Berkeley «ser é ser percebido» - caso contrário Kant seria realista e não idealista transcendental.

 

O fenómeno casa não é senão um conjunto de intuições «objectivas», geradas na sensibilidade pura, isto é no espaço e tempo a priori com uma matéria (cores, sons, cheiros, dureza, substância) a posteriori nascida na mesma sensibilidade sob o impacto exterior do númeno.

 

«Assim, quando separo da representação de um corpo o que o entendimento pensa dele, como seja substância, força, divisibilidade, etc, e igualmente o que pertence à sensação, como seja, impenetrabilidade, dureza, cor, etc, algo me resta ainda dessa intuição empírica: a extensão e a figura. Estas pertencem à intuição pura que se verifica a priori no espírito, mesmo independentemente de um objecto real dos sentidos ou da sensação, como simples forma da sensibilidade.» (Kant, Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Pág 62; o negrito é de minha autoria).

 

 

Que é um corpo físico, para Kant?  Um conjunto de linhas, figuras, sem substância (madeira, ferro, pedra ou outra coisa) existentes na intuição pura que é o espaço ou «meu eu exterior». A extensão e a figura de uma nuvem ou de um moinho de vento, por exemplo, pertencem, de acordo com o texto acima, à intuição pura - ao formal-sensível - que forra as paredes da sensibilidade. Estamos, pois, em puro idealismo ou imaterialismo: os corpos da natureza são figuras matemáticas, preenchidas pela nossa imaginação subjectiva com cores, conteúdos materiais, etc. A matéria é pura sensação, dado subjectivo. Logo, toda a natureza biofísica, material, é um vasto aglomerado de sensações constituintes dos fenómenos ou objectos para mim, sejam estes oceano, montanha, floresta, planície ou céu - facto que Heidegger passa em silêncio. A matéria, para Kant, não é real em si mesma fora do sujeito: a matéria está fora do corpo físico do «eu» mas dentro do imenso eu-espírito. Isto não é frisado nem compreendido com clareza por Heidegger nem pela generalidade dos intérpretes de Kant. Uma honrosa excepção é Hegel, que escreveu a propósito da matéria e das duas forças, atracção e repulsão, que a impregnam:

 

 

«Además, Kant ha enseñado expresamente que no hay materia en si misma, y después de haber dotado, sí se puede decir así, a la materia de estas dos fuerzas, ha enseñado también que se debe tener su unidad exclusivamente en ellas.» (George W.F. Hegel, Lógica I, Ediciones Folio, Pág. 167; a letra negrita é posta por mim).

 

A matéria não existe em si mesma - eis uma tese kantiana que a imensa maioria dos intérpretes de Kant não assimilou.

 

 

PARA KANT, O ESPAÇO E OS OBJECTOS MATERIAIS NELE EXISTENTES SÃO IRREAIS, COMO UM FILME PROJECTADO NA TELA DA MINHA SENSIBILIDADE EXTERIOR AO MEU CORPO

 

 

 

Não é verdade, pois, que Kant não levante a questão da coisalidade das coisas que nos rodeiam:

 

 

 

 

 «..o próprio espaço não é outra coisa que simples representação, portanto nele apenas pode haver de real o que é representado...» ( Kant, “Crítica da Razão Pura”, pag.354, Fundação Calouste Gulbenkian; a letra negrita é nossa)

 

«.. o próprio espaço, com todos os seus fenómenos como representações, só existe em mim; mas, nesse espaço, contudo, é dado o real ou a matéria de todos os objectos da intuição externa, verdadeira e independente de toda a ficção; e é também impossível que, nesse espaço, seja dada qualquer coisa de exterior a nós ( no sentido transcendental) porque o próprio espaço nada é fora da nossa sensibilidade. Por conseguinte, o idealista mais rigoroso não pode exigir que se prove que à nossa percepção corresponda o objecto exterior a nós (no sentido estrito)...” “ O real dos fenómenos externos é, portanto, apenas real na percepção e não pode sê-lo de nenhuma outra maneira” (CRP, página 54-355) .

 

“ O espaço não é mais do que a forma de todos os fenómenos dos sentidos externos, isto é, a condição subjectiva da sensibilidade, única que permite a intuição externa” (CRP, pág. 67).

 

“O espaço não representa qualquer propriedade das coisas em si, nem essas coisas nas suas relações recíprocas; quer dizer, não é nenhuma determinação das coisas inerente aos próprios objectos e que permaneça, mesmo abstraindo de todas as condições subjectivas da intuição” (CRP, pág. 67).

 

 

 

Isto significa apenas o seguinte: o espaço, isto é, o mundo da natureza terrestre, com seus continentes e oceanos, e o espaço cósmico sideral, com estrelas e galáxias, só existe em mim, possui uma coisalidade ideal e perceptiva, meramente mental. Por outras palavras, o meu “eu” (mental) engloba o mundo inteiro como uma imensa redoma de vidro e produz esse mesmo mundo, produz inclusive o meu minúsculo organismo físico, dentro de si, com as ferramentas das intuições puras da sensibilidade (o espaço- extensão e figuras geométricas -  e o tempo, que sou eu mesmo, a priori) e do entendimento ( os conceitos puros ou categorias).

 

Kant trata, pois, da coisalidade dos fenómenos, das coisas da natureza, ao contrário do que postulou Heidegger: para Kant, o espaço e a matéria nele existente (árvores, casas, animais, nuvens, etc) nada são fora de nós, isto é, são ideias ou percepções a flutuar dentro da nossa mente que se estende até aos confins do universo e é a realidade por si (além dos númenos: Deus, almas imortais, mundo não físico como totalidade, liberdade).

 

Heidegger não viu isto e interpretou Kant como se este fosse um realista ontológico que sustentasse haver um mundo de matéria real fora do nosso espírito, embora oculto na sua essência («númeno»). Esta é aliás a interpretação que mais de noventa e cinco por cento dos catedráticos de filosofia de todo o mundo dão da ontognoseologia de Kant: em termos simples, dizem, por exemplo, que há um copo de vidro que vejo e é fenómeno e um copo de vidro real, material, incognoscível, que é númeno; ora, contraponho eu, não há nenhum copo de vidro númeno, porque, de acordo com Kant, toda a matéria é fenómeno, palpável, visível, e ao mesmo tempo ilusória, não real em si mesma (idealismo transcendental).

 

 

O idealismo de Kant é, no fundamental, o mesmo que o idealismo de George Berkeley - um idealismo ou irrealismo da matéria -, ainda que nem Kant tenha querido reconhecer isso nem Heidegger se tenha apercebido disso.

 

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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010
Casamento gay: sim ou não?

O problema do casamento gay acende as esferas da ribalta em Portugal. País da tolerância envergonhada, emerso há 35 anos de uma longa ditadura fascista e clerical, Portugal hesita sobre se há-de institucionalizar ou não a união homossexual.


Parece-me que o conceito de casamento gay é um epifenómeno: o essencial encontra-se mais além do rótulo «matrimónio entre pessoas do mesmo sexo».


Filosoficamente, parece-me incontornável que os gays podem usar a palavra casamento. As palavras não são património especial de nenhuma ideologia cultural, religiosa, política, artística, económica. Afinal, a palavra «casamento» pode interpretar-se como situação de amor e comunhão de vida de um casal, isto é, de duas pessoas que vivem ou decidem viver juntas sob o signo da fidelidade e devoção mútua. O fim da procriação não é condição necessária ao casamento. Os casais gays não procriam – exceptuando as lésbicas que aceitam inseminação.


Por tudo isto, parece lógico que os gays se possam casar. E que possam chamar «casamento» à sua união legal e tendencialmente estável. O verdadeiro problema está para além disso e comporta duas vertentes:


A)     O carácter de desvio/ doença psíquica benigna que constitui a prática homossexual.


B)     A adopção de crianças por um casal homossexual.


 


A HOMOSSEXUALIDADE NÃO TEM, NO PLANO MORAL, O MESMO VALOR QUE A HETEROSSEXUALIDADE



 


O valor homossexualidade é, nas esferas dos valores vitais e dos valores espirituais, inferior ao valor heterossexualidade. E é-o, por si mesmo, do mesmo modo que o valor ser diabético é inferior ao valor gozar de saúde sem padecer diabetes.


O valor homossexualidade arrasta consigo, num certo número de casos,  o sentimento de sofrer humilhação – a humilhação é um valor vital negativo ou desvalor - que um homem experimenta ao ser penetrado por outro homem – independentemente do prazer erótico que a zona anal propicia, misturado com dor ou desconforto e risco de lesões intestinais. Não é por acaso que a punição dada por certos grupos a indivíduos heterossexuais – por exemplo, em prisões, casas de redes pedófilas, lugares ermos, etc – é a violação anal. É um enxovalho brutal. O sentimento de vergonha que um homem experimenta por ser possuído por outro não é um mero preconceito: é, pelo menos aparentemente,  um valor negativo em si mesmo e é anterior à moral judaico-cristã e esta emana, em parte, desse sentimento de repulsa.


Segundo Jung, a prática homossexual constitui um desvio – não um desvio PRIMARIAMENTE sociológico, mas um desvio arquetípico – ao modelo sexual, eterno e hegemónico, que a natureza estabeleceu. É o modelo secundário, decaído, «satânico», do amor.


Decerto, Platão em «O Banquete» faz uma clara apologia do amor homossexual classificando-o como superior ao amor heterossexual.


Ao invés, Aristóteles condenou a homossexualidade:


«Há outros hábitos maus que procedem de doenças ou de maus costumes, como o arrancar cabelos a si mesmo ou roer as unhas , ou comer carvões ou terra; do mesmo modo, o ajuntamento de machos com machos.»  (Aristóteles, Ética a Nicómaco, Livro VII, Capítulo v, 1149 a; o negrito é posto por mim).


Não estou a negar que em todo o homem  haja um resquício de tendência homossexual. Há. Até porque a natureza estabeleceu também o modelo homossexual como um derivado para casos específicos (inexistência de exemplares do sexo oposto no contexto de um dado indivíduo, desequilíbrios hormonais, etc). A lei geral é a da bissexualidade psíquica desigual, com a heterossexualidade psicofísica, actuante, como aspecto dominante e exclusivo, na prática.


Neste campo, o cristianismo não romano, a igreja católica, o Islão e outras religiões conduzem um combate contra a "anomia" no campo dos valores sexuais- sem esquecer evidentemente o lado extremista desse combate, patente no fundamentalismo islâmico de apedrejar os adúlteros, prender, chicotear ou enforcar os gays  ou escravizar a mulher aos ditames masculinos, impondo-lhe o uso da burka, a reclusão no lar, a privação de ter carta de condução ou conta bancária própria, etc.


A homossexualidade é uma componente essencial, junto com o «swing» ou casamento aberto, do comunismo sexual – cus para todos – que invadiu a sociedade capitalista nos fins do século XX e no século XXI. Busca-se a felicidade na multiplicidade de parceiros sexuais, o que em muitos casos é aconselhável. Na Grécia e na Roma antigas, a homossexualidade, legalmente vigente entre as classes dominantes, liga-se ao sistema esclavagista. Neste momento, a homossexualidade expande-se a grande velocidade no seio da elite dominante, e com lentidão entre a massa popular onde os princípios da tradição estão mais enraizados.


Está em aberto a questão de saber se uma sociedade maioritariamente homossexual desembocará no totalitarismo: o carácter extremamente promíscuo dos homossexuais poderia representar a invasão da esfera privada e ameaça liberdades individuais como a concepção de um Deus transcendente ao homem, a castidade e a vida monástica - ainda que alguns vejam nestas uma antecâmara da homossexualidade. Participo da seguinte opinião: para se desenvolverem, as forças do mais alto intelecto têm de contrariar a libido ou energia sexual em alguma medida, isto é, necessitam de poupança da libido ( como dizia Freud, a cultura intelectual e a filosofia são libido recalcada e sublimada).


O pansexualismo gay e bissexual levado à escala de centenas de milhões ou biliões de pessoas engendrará um totalitarismo? Uma visão conservadora alegará que o direito individual de um homem possuir a sua mulher em exclusivo, o direito de uma jovem se conservar virgem até ao casamento seriam dificultados, ridicularizados até, pela ideologia dominante, o comunismo sexual informe. O pansexualismo informe, sentimento colectivo da horda, faria recuar as liberdades individuais, o princípio da individuação.


 


A igreja católica resiste ao lobby gay, na aparência, mas está repleta de padres e bispos gays – as relações intergays são, em regra, de tipo esclavagista, mais vitalmente intensas e "menos espirituais" do que as relações heterossexuais.


É a cultura luciferina – a luz científica da gnose e da maçonaria – a triunfar sobre a luz crística. Diónisos contra Apolo, na linguagem de Nietzschze. A maçonaria em Espanha e no Brasil já se deu ao luxo de ameaçar com processos em tribunal bispos e sacerdotes católicos e pastores evangélicos que condenam a homossexualidade. Seria, pois, um “crime“ criticar a homossexualidade! Eis o totalitarismo comunista instalado parcelarmente no seio da democracia liberal. É ilegal um social-democrata ou um liberal criticarem os modelos fascista e comunista totalitário, classificando-os como moralmente inferiores à democracia liberal por espezinharem os direitos individuais dos cidadãos? Não. Então porque há-de ser “crime” condenar a homossexualidade como um desvio, uma doença psíquica?


Freud, Jung, Wilhelm Reich apontaram a homossexualidade como uma deslocação do objecto libidinal, uma perversão do comportamento. E é-o, de facto. Segundo Jung, o homossexual masculino identificou-se com a sua «anima» - arquétipo feminino que habitualmente se reporta à mãe, à amante, à esposa – e tomou por objecto sexual o seu «animus» - arquétipo masculino que designa o pai, o irmão, o amigo. A intolerância dos homossexuais face aos heterossexuais está por descobrir mas existe. Podemos ter a certeza de que as obras de Freud e de Carl Jung, mestres da psicanálise e da psicologia analítica, não serão queimadas em auto de fé no mundo maioritariamente homossexual que se desenha virtualmente? Sem embargo, reconheço o contributo imenso dos homossexuais para o edifício da cultura e da arte: Fernando Pessoa, José Gomes Ferreira e José Carlos Ary dos Santos, grandes poetas portugueses, eram homossexuais. E Pessoa será sempre genial, supremo, sem prejuízo  das suas tendências sexuais.


Há, pois duas tendências erróneas: a primeira, a que elimina ou pune fisicamente e exorciza os homossexuais, praticada nos séculos anteriores ao XX, e no século XX com os regimes nazis fascistas e comunistas estalinistas, católicos ou islâmicos tradicionalistas; a segunda, hoje em voga, a que persegue os que proclamem a superioridade da moral heterossexual e se esforça por conferir à homossexualidade um estatuto moral idêntico à heterossexualidade, o que resulta na confusão entre os planos jurídico e moral. Os homossexuais têm direito a existir, a viver livremente, a conviver nos seus bares, apartamentos, bairros, a produzir as suas paradas carnavalescas de rua, os seus filmes, jornais, revistas, etc. Mas não têm direito a impor a consagração na lei da «igual dignidade moral» entre as condições hetero e homossexual e a penalização, por lei, dos que condenam a homossexualidade como «doença» e «desvio» e usam métodos democráticos e pacíficos para confinar a expansão desta.


A palavra de ordem correcta que preconizo é: condenar/ desaconselhar a homossexualidade, proteger e respeitar os homossexuais. Combater/ prevenir  a doença e proteger os doentes.


A institucionalização do casamento gay serve para   alguns  proclamarem uma «igualdade moral» que, de facto, não existe na esfera dos valores. A esta esfera, ontológica, existente por si mesma na comunidade humana e em cada pessoa, acede-se por intuição sentimental como dizia Max Scheler ou inteligência senciente, na terminologia de Zubiri.


 


Para o ponto de vista da heterossexualidade como ortodoxia, é tão ridículo o amor homossexual - decaído, destituído da componente da polaridade das formas homem-mulher: pénis versus vagina, peito raso versus seios femininos, etc - reclamar que deixem de o considerar um «desvio», uma «segunda natureza, degenerada»  como os diabéticos exigirem que a diabetes deixe de ser considerada doença e passe a ser classificada como «um estado normal de saúde.»


 


CARACTERIZAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE POR WILHELM REICH


 


Importa reproduzir a caracterização da homossexualidade por Wilhelm Reich, um dos grandes mestres da psicanálise, no seu livro «O combate sexual da juventude», obra outrora incensada por alguns actuais teóricos da expansão gay que se esqueceram da seguinte passagem em que aborda as duas formas de homossexualidade (a genética, baseada em desequilíbrio hormonal, e a meramente psíquica, de seres constitucionalmente normais que, devido a desgostos, se viraram para seres do mesmo sexo):


 


«As duas espécies de homossexualidade são pois formas anormais do desenvolvimento sexual que é preciso chamar de doença uma vez que os indivíduos sofrem com isso, como é quase sempre o caso. É um erro crer que estes sofrimentos têm unicamente causas sociais e são devidos à perseguição jurídica dos homossexuais. Muitos homossexuais (é difícil dar uma percentagem) estão também perturbados psiquicamente e sexualmente, quer dizer, nevróticos. Muitos homossexuais que se acomodaram ao seu desvio e se sentem bem vivendo assim protestam contra o facto de se considerar a homossexualidade como um mal ou como o resultado de um desvio do desenvolvimento sexual. Entrevêem nisso uma depreciação da sua tendência sexual; muitos deles, com efeito, consideram-se como o chamado «terceiro sexo», como uma espécie sexual particular e não um desenvolvimento sexual defeituoso; devemos opor o argumento decisivo seguinte: cada homossexual pode cessar de experimentar tais sentimentos graças a um tratamento psíquico absolutamente preciso, enquanto que nunca acontece que um indivíduo normalmente desenvolvido se torne homossexual pelo mesmo tratamento. Se a homossexualidade não é demasiado antiga e se não cobriu completamente as relações heterossexuais, se além disso o indivíduo em questão não a suporta muito bem e quer desfazer-se dela, pode em princípio ser curada por um tratamento psicanalítico que elimina o desvio infantil do desenvolvimento sexual.»


«O que dissemos até agora é uma realidade cientificamente verificada que podemos tornar ainda mais cortante pelo facto seguinte: nos povos primitivos, que levam uma vida sexual satisfatória e tranquila e que não impedem o desenvolvimento sexual das crianças, a homossexualidade, salvo sob a sua forma espiritual, a amizade, não existe. De acordo com as mais recentes investigações de Malinovski, o etnólogo inglês, a homossexualidade não aparece nos povos primitivos senão na medida em que os missionários, estes batedores do capital, começaram a introduzir a moral cristã na vida sexual natural e a separar os sexos. Isso confirma também a seguinte observação que se pode sempre repetir, a saber, que a homossexualidade não se desenvolve senão na medida em que a relação normal entre homem e mulher se tornou impossível ou difícil ( internatos, exército, marinha, etc).» (...)


«A constatação de que a homossexualidade é um desvio do desenvolvimento sexual e não tem, por conseguinte, causas naturais, não autoriza ninguém a condenar ou a punir. Deve-se tentar curar os homossexuais da sua particularidade, porque sofrem com ela ou porque não estão suficientemente satisfeitos com ela, mas não se deve em caso algum forçar seja quem for.»


( Wilhelm Reich, O Combate sexual da juventude, Textos Marginais, Porto, 1972, Págs. 105-107; a letra negrita é posta por mim).


 


Note-se que Reich culpa a moral cristã de produzir a homossexualidade ao gerar a segregação dos sexos, como acontecia, por exemplo, nas ditaduras do nacional-catolicismo de Franco e de Salazar que criavam liceus para rapazes e liceus para meninas. Isto é como sustentar que a existência de Deus gera a existência do Diabo: onde a dualidade se instalou, um dos polos é a homossexualidade. Há aqui uma questão pertinente: será o papel da Igreja Católica dúplice nesta matéria, isto é, na ordem consciente combate a homossexualidade com proclamações e anátemas e, na ordem inconsciente, fomenta a homossexualidade ao impedir os padres e bispos de terem relações sexuais com mulheres e segregar os jovens futuros padres dentro de seminários masculinos onde o objecto sexual de um rapaz só pode ser... outro rapaz? Terá Deus, se existe, desejado confrontar os seus padres com o abismo da homossexualidade, tornando-os misóginos?


Dado que se comprovou recentemente que alguns peixes submetidos a stress se tornam homossexuais, perguntemo-nos se o aumento de stress da sociedade pós-industrial e tecnológica do século XXI, capitalista, com biliões de assalariados intranquilos quanto à manutenção dos empregos e do seu status social, não contribuirá para a expansão da onda gay...Será o aumento exponencial da velocidade nas comunicações e operações bancárias, burocráticas e outras, que hoje ocorre, gerador ou pelo menos correlativo de um aumento exponencial da velocidade dos «engates» que caracteriza uma boa parte da comunidade gay onde o viver cada noite é com um parceiro diferente da noite anterior?


 


A ADOPÇÃO DE CRIANÇAS PELOS CASAIS GAYS VIOLA A LEI DA POLARIDADE ARQUETÍPICA INTERSEXUAL


 


A adopção de crianças pelos casais gay decorre, quase inevitavelmente da legalização do casamento gay. A ciência psicológica estabeleceu que uma criança necessita, na sua educação, de uma figura parental masculina como pai e de uma figura parental feminina como mãe, do mesmo modo que o ser humano necessita de ver e sentir o dia e a noite, o sol e a lua para ter o indispensável equilíbrio psicosomático.


Educada por dois homens no interior do lar, a criança, menino ou menina, sofrerá um desvio do ponto de vista dos modelos arquetípicos impressos no seu código genético. Ela não verá «o sol e a lua» mas sim «dois sois» ou «duas luas» e isso suscitará nela estranheza e uma noção de disformidade do mundo social. Incliná-la-á para a homossexualidade, induzida por esse modelo. Há, portanto, uma violação da lei da polaridade psíquica masculino-feminino na alma da criañça condicionada por este tipo de ambiente familiar.


Em suma: sim ou não ao casamento gay? Considerado isoladamente, na sua essência, a resposta é sim. Mas considerado na conexão de essências com a adopção de crianças por casais gays, a resposta, circunstancial, é.. não.


 


NOTA:  Este artigo é, obviamente, discutível. Se o autor tivesse tido alguma experiência homossexual no plano físico, gratificante, não escreveria tudo o que escreveu.


 


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