Domingo, 18 de Abril de 2010
O conceito não tem projecção na figura, como defendem Deleuze e Guattari?

Gilles Deleuze e Félix Guattari apresentaram a filosofia não como contemplação, nem reflexão, nem como comunicação, mas como actividade criadora de conceitos. Diga-se de passagem que há aqui uma nuvenzinha de confusão: a reflexão é, muitas vezes,  criação de conceitos. Estes autores distinguem figura de conceito ao referirem-se às diversas religiões e sagezas filosóficas ancestrais, ao modo como visual e sensorialmente se projectam na multidão dos seus crentes:


 


«Em todos estes casos, unidade imperial ou império espiritual, a transcendência que se projecta sobre o plano da imanência pavimenta-o ou povoa-o de Figuras. Se é uma sabedoria ou uma religião, pouco importa. É somente deste ponto de vista que se podem reaproximar os hexagramas chineses, as mandalas hindus, os sefirós judeus, os “imaginais” islâmicos, os ícones cristãos: pensar por figuras. (…) É porque a figura tem uma referência, e uma referência por natureza plurívoca e circular. Ela não se define certamente por uma semelhança exterior, que permanece proibida, mas por uma tensão interna que a liga ao transcendente no plano da imanência do pensamento. Em poucas palavras, a figura é essencialmente paradigmática, projectiva, hierárquica, referencial, (as artes e as ciências também desenham potentes figuras, mas o que as distingue de toda a religião, não é pretender aceder à semelhança proibida, é emancipar tal ou tal nível para dele fazer novos planos de pensamento sobre os quais as referências e projecções, vê-lo-emos, mudam de natureza.»


«Precedentemente, para ir depressa, dizíamos que os Gregos tinham inventado um plano de imanência absoluta. Mas a originalidade dos gregos, é necessário procurá-la, de preferência, no laço entre o relativo e o absoluto. Quando as desterritorialização relativa é, ela mesma, horizontal, imanente, conjuga-se com a desterritorialização absoluta do plano da imanência que leva ao infinito, que impele ao absoluto os movimentos da primeira transformando-os (o meio, os amigos, a opinião). A imanência é reduplicada. É então que se pensa, não já por figuras, mas por conceitos. É o conceito que vem povoar o plano da imanência. Já não há projecção numa figura, mas conexão no conceito. É porque o próprio conceito abandona toda a referência para não reter mais que conjugações e conexões que constituem a sua consistência. O conceito não tem outra regra além da vizinhança, interna e externa. A sua vizinhança ou consistência interna está assegurada pela conexão dos seus constituintes nas zonas de indiscernibilidade: a sua vizinhança externa ou exo-consistência é assegurada pelos pontos que vão de um conceito a outro, quando os constituintes de um estão saturados. É precisamente o que significa a criação de conceitos: ligar os constituintes interiores inseparáveis até ao fechamento ou saturação, de tal modo que não se possa juntar ou retirar um deles sem alterar o conceito; ligar o conceito com um outro, de tal maneira que outras conexões mudariam a sua natureza. A plurivocidade do conceito depende unicamente da vizinhança (un conceito pode ter várias). Os conceitos são camadas de tinta da mesma superfície sem níveis, são ordenadas sem hierarquia. Daí a importância em filosofia das questões: que meter num conceito e com que co-metê-lo? Que conceito é necessário colocar ao lado deste, e que constituintes em cada um? São as questões da criação de conceitos.» (Gilles Deleuze e Félix Guatari, Qu est-ce que la philosophie?, Les Éditions de Minuit, Pág 86; a letra negrita é posta por mim)


 


Parece-me haver aqui, logo de início, uma ideia sem telhado, isto é, parcialmente sofística: a ideia de que a racionalidade grega desterrou ou desterritorializou os deuses, a metafísica. Não é assim: os gregos «inventaram» a filosofia mas, de um modo geral, sem renegar ou desterritorializar os seus deuses. Os grandes filósofos gregos (Heraclito, Parménides, Platão, Anaxágoras, Pitágoras, Aristóteles) conservaram a ideia da existência de deuses ou Deus – possuíam, pois, conceitos sobre estes – e não estavam fechados no plano da “imanência redobrada”. Reformularam a religião, nos seus círculos esotéricos, criando a visão religiosa dos filósofos, diferente da religião popular. É mecanicismo antidialéctico contrapor, como fazem Deleuze e Guattari, o conceito-imanente à transcendência aconceptual. As religiões, sob a óptica dos filósofos, são ricas em conceitos.


Ao perguntarem-se: «Que meter num conceito?» Deleuze e Guattari consideram o conceito como algo formal, vazio, onde se vão colocar constituintes. É uma visão construtivista atomística em que se postula dois momentos: o conceito como forma vazia, o conceito adicionado de injunções, conexões. É no fundo a dissociação entre a forma e o conteúdo. E não explicitam quais são esses constituintes. Por exemplo, o conceito de água tem como constituinte a substância “água” ou os elementos “hidrogénio” e “oxigénio”? A verdade é que o conceito nunca deixa de ter constituintes definidos: é uma unidade forma-conteúdo “material”. A forma do conceito não está antes do conteúdo. O conceito de átomo nunca é absolutamente abstracto: ele nasce da conjugação da visão física de pequenas bolas ou grãos, da fragmentação de um pedaço de matéria, com a faculdade racional de análise, de decomposição de um todo em partes. Pode esvaziar-se, em termos relativos, o conceito: por exemplo do átomo tipo sistema solar com o núcleo sol no centro e os electrões-planetas em órbitas bem definidas passar ao conceito de átomo nuvem com os electrões em torvelinho, mas esse esvaziamento ou abstracção é um movimento feito a partir do conceito original que é, em regra, minimamente rico em determinações (cores, forma, substância, etc) – o nada extrai-se do «cheio», do ser e não o inverso. Mesmo outros conceitos «não figurativos» como Deus ou Paraíso não são vazios à priori: existem com as suas determinações (exemplo: Deus como inteligência reinante e geral do universo, ou como uma Trindade em que um majestoso Pai de barbas brancas se une ao Filho Cristo e ao Espírito Santo como pomba)  A consideração do conceito como algo de não figurativo, «que abandona toda a referência» é, a meu ver, equívoca. O conceito resume-se a conexões e conjugações? É um “caranguejo sem casca nem conteúdo cárneo central”, só "com as patas viradas para fora"? A vizinhança é uma referência - o conceito é vizinho da coisa física, é "imagem" intelectual desta. Como poderia ser sem referência? O pensamento racional, baseia-se em conceitos figurativos. O conceito não é senão a figura sensível retocada, sublimada, renascida no plano intelectual. É óbvio que, ao contrário do que defendem Deleuze e Guattari, o conceito tem projecção figurativa. O conceito de círculo projecta-se em todas as laranjas redondas, bolas de futebol e outros objectos circulares existentes neste planeta. O conceito de uno projecta-se em cada coisa e na totalidade das coisas: em cada árvore, em cada pessoa, na natureza como um todo, etc. Não afirmo que o conceito nasce integralmente das sensações empíricas e entra num intelecto vazio: afirmo que o conceito está geneticamente no intelecto e se activa e reverbera sob o impacto das sensações, dos objectos da experiência.


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f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 16:55
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