Sexta-feira, 8 de Março de 2013
Teste de filosofia de 10º ano de escolaridade (final de segundo período, 10º B)

 

Eis um teste de filosofia, o segundo do segundo período lectivo do ano escolar 2012-2013 em Portugal, livre de perguntas de resposta múltipla com "X" que é típico da simplificação empobrecedora do pensamento, hoje muito em voga. O teste recolhe já o tema dos valores ético-políticos, imprescindível à formação de cidadãos conscientes.

 

Escola Secundária Diogo de Gouveia , Beja
TESTE DE FILOSOFIA, 10º ANO TURMA B
7 de Março de 2013.            Professor: Francisco Queiroz

 

 

“Aparentemente, pelo menos, o utilitarismo de Stuart Mill utiliza, sobretudo, a indução ao passo que o imperativo categórico de Kant tem um carácter forte de dedução ao ser aplicado. Lao Tse, do taoísmo, escreveu que «a virtude suprema é sem virtude, por isso é que é virtude» e isso faz a distinção entre a aparência e o rito, de um lado, e a essência, de outro lado.
1) Explique concretamente este texto.

II

2) Relacione, justificando:

A) Epokê, dualismo e racionalidade,no estoicismo, e lei dialéctica das causas internas e causas externas.
B)  Esfera dos valores espirituais em Max Scheler e polaridade dos valores.
C) Liberalismo social de John Rawls, Estado minimalista e Estado social.

 

III

3) Construa um diálogo entre um anarquista, um comunista leninista, um social-democrata (socialista democrático), um liberal e um fascista sobre a propriedade das fábricas e quem as deve gerir, e sobre o Estado e as eleições multipartidárias

 

 

 

CORRECÇÂO DO TESTE, COTADO PARA UM TOTAL DE 20 VALORES

 

1) O utilitarismo de Stuart Mill identifica o bem com o prazer físico e intelectual da maioria ou com o prazer intelectual de uma minoria especializada e baseia-se na indução directa e restrita, isto é, no conhecimento empírico de uma situação diante de mim - exemplo: «As pessoas que vejo aqui sentem-se felizes ao provar queijos de ovelha, vinhos e paio, descubro-o por indução» - e preconiza o princípio da maior felicidade, isto é, estender o prazer à maioria, se possível, a todas as pessoas. O imperativo categórico é a verdadeira lei moral da equidade, segundo Kant, e enuncia-se assim: «Age como se quisesses que a tua acção fosse lei universal da matureza.» Sendo uma das definições de dedução a aplicação de uma lei geral a casos empíricos singulares e particulares, podemos dizer que aplicação, por exemplo, do imperativo categórico é a dedução de uma lei geral a todos os casos particulares possíveis. «Sê gentil com todas as pessoas» é uma dedução sempre que se lida com a pessoa A, B ou C (VALE QUATRO . Lao Tse, filósofo do taoísmo, a filosofia da aceitação do grande ritmo da natureza Yang (dilatação, sol, dia)/ Yin (contração, lua, noite), quer dizer que a virtude superior não tem aparência (social) de virtude: a essência da virtude não é o bem parecer mas sim o ser - exemplo, um grande escritor pode ser ignorado e não ser editado nem comparecer em cerimónias literárias, isto é, ritos, gestos e palavras convencionais, aparências de "ser o melhor" ou de "estar entre os entendidos". (VALE TRÊS VALORES).

 

2) A) A epokê é a suspensão do juízo de valor ("Não te digas mais do que as coisas te anunciam à primeira vista, evita fazer especulações") e úsada no estoicismo a fim de tranquilizar a alma. O dualismo estóico é a divisão do homem em duas partes, a interior e essencial, isto é, a sua razão, e a exterior e acidental, isto é, o corpo. A lei das causas internas e causas externas diz que em cada ente existem ambos estes tipos de causa mas que as mais importantes na sua caracterização e desenvolvimento são as causas internas. A razão é a causa interna do homem e o corpo é causa externa relativamente àquela, e aqui se manifesta a racionalidade do estoicismo, ou seja, o uso da razão como critério número um do conhecimento. No estoicismo, a razão é superior à saúde corporal, pois, se dominarmos os nossos pensamentos aguentamos as doenças, a tortura ou a mutilação, baseados na ideia de que o guia interior ( o eu racional) é invulnerável, ninguém o consegue ferir.  (VALE TRÊS VALORES)

 

2) B) A esfera dos valores espirituais, a segunda a contar de cima, na hierarquia desenhada por Max Scheler, engloba os valores estéticos (belo e feio, etc), os valores éticos (bem, mal) e os concomitantes valores de referência do direito (legal, ilegal) e os valores filosóficos (verdadeiro e falso) e concomitantes valores de referência das ciências empíricas. Em todos estes domínios há polaridade, isto é, oposição de polos contrários: o belo opõe-se ao feio, o bem opõe-se ao mal, o verdadeiro opõe-se ao falso (VALE TRÊS VALORES).

 

2) C)  John Rawls, liberal social, era um filósofo centrista adepto do Estado social, isto é, um Estado de uma sociedade capitalista de economia de mercado dotado de importantes funções sociais de proteção aos mais desfavorecidos: ensino e medicina pública gratuitos ou quase, subsídio de desemprego, pensões de reforma e invalidez, rendimento mínimo garantido, etc. Rawls preconizava que os cidadãos se deviam reunir a coberto de um «véu de ignorância» ( não sabendo a profissão nem o grau de riqueza material de cada um) para deliberarem numa base de igualdade (posição original) sobre as leis e finalidades do Estado e da vida social. Centristas e sociais-democratas são adeptos do Estado social que não é o Estado socialista autoritário (marxista-leninista). Por outro lado, Rawls opunha-se ao Estado mínino ou minimalista que o capitalismo neoliberal, selvagem, à direita defende: um Estado que dispensa ou quase dispensa a segurança social, as cantinas e lares sociais, a gratuidade do ensino público e da saúde e que quer privatizar quase tudo, até as prisões, de modo a não ser um peso para os mais ricos. (VALE TRÊS VALORES)

 

 

3) Anarquista: «A propriedade das fábricas deve ser dos trabalhadores e elas devem ser geridas pela assemleia geral de todos os trabalhadores. Queremos a autogestão e não a nacionalização (o Estado patrão) nem a privatização (o patrão capitalista privado).
Comunista : «A propriedade das fábricas deve ser de todo o povo, elas devem ser nacionalizadas a fim de garantir emprego aos trabalhadores e dirigidas por funcionários comunistas que asseguram a realização do plano de produção colectivista decidido pelo governo leninista».
Social-democrata: «As fábricas devem estar, em grande parte na mão de capitalistas privados, aos quais serão aplicados altos impostos progressivos, mas algumas (minas, siderurgia, armamento, etc) devem estar nacionalizadas, ser propriedade do Estado, a fim de fortalecer a classe média.»
Liberal: «As fábricas devem estar todas ou quase todas nas mãos de capitalistas privados, que são o motor da economia.»
Fascista: «As fábricas devem ser dos patrões mas estes não poderão fechá-las nem despedir operários a seu bel-prazer. O Estado nacional fascista terá algumas empresas nacionalizadas - electricidade, minas, siderurgia, etc - e  zelará para que não haja greves nem protestos de esquerda ou outros nas fábricas em geral.»
Anarquista: « A democracia parlamentar é um Estado e todos os Estados são ditaduras da classe capitalista ou das classes feudais e semifeudais sobre os trabalhadores. Os anarquistas desprezam as eleições ao parlamento pois estas nunca levam à autogestão, ao poder do povo.»
Comunista leninista:« A democracia parlamentar é melhor que o fascismo mas é um regime que protege os capitalistas privados e a desigualdade social. Os comunistas concorrem às eleições legislativas e autárquicas locais mas gostariam mais de uma ditadura de esquerda, em que a economia fosse nacionalizada sob um governo comunista.»
Socialista democrático: «A democracia parlamentar é o melhor regime político porque os cidadãos gozam de liberdades de greve, imprensa, manifestação de rua, iniciativa empresarial e escolhem livremente através do voto quem os deve governar.»
Liberal: «A democracia parlamentar é o melhor regime político porque os cidadãos gozam de liberdades de greve, imprensa, manifestação de rua, iniciativa empresarial e escolhem, livremente, através do voto quem os deve governar.»
Fascista: «A democracia parlamentar é um regime de fraca qualidade porque permite a liberdade de acção de anarquistas, comunistas, socialistas, gays, lésbicas, emigrantes indesejados, e entrega aos riquezas da pátria áo capital estrangeiro. Os fascistas desejam um Estado nacional, de partido único, uma ditadura de direita.» (VALE QUATRO VALORES)

 

 

www.filosofar.blogs.sapo.pt

 

f.limpo.queiroz@sapo.pt

 

© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 18:43
link do post | favorito

Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres




O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

mais sobre mim
pesquisar
 
Julho 2020
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


posts recentes

Erros no Exame nacional d...

Breves reflexões de Julho...

Manuel Ayllón: os partido...

Mart en 25º de Aries a la...

Júpiter em 18º de Capricó...

Marte em 25º de Carneiro ...

A morte de Pedro Lima: Ma...

Romano Amerio: o esquecim...

Júpiter nas eleições para...

El ciclo de 12 años de Jú...

arquivos

Julho 2020

Junho 2020

Maio 2020

Abril 2020

Março 2020

Fevereiro 2020

Janeiro 2020

Dezembro 2019

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Agosto 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

tags

todas as tags

favoritos

Teste de filosofia do 11º...

Pequenas reflexões de Ab...

Suicídios de pilotos de a...

David Icke: a sexualidade...

links
blogs SAPO
subscrever feeds