Domingo, 13 de Junho de 2010
Equívocos de Anthony Kenny na «Nova História da Filosofia Ocidental»

O volume I da Nova História da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny, é uma obra de méritos, assente numa investigação detalhada de uma extensa lista de obras. No entanto, comporta alguns equívocos que importa assinalar. Kenny, apesar do prestígio académico mundial de que goza, não é um filósofo de águas profundas. Falta-lhe alguma clareza. É um erudito, mas não um verdadeiro pensador.


 


UMA CONCEPÇÃO ERRÓNEA DE CAUSA FORMAL ARISTOTÉLICA


 



Sobre a teoria das quatros causas de um ente, exposta por Aristóteles, escreve Kenny:


«Aristóteles dá-nos uma classificação dos primeiros filósofos gregos de acordo com a estrutura do seu sistema de quatro causas. Acreditava que a investigação científica estava acima de toda a investigação das causas das coisas e que havia quatro tipos diferentes de causa: a causa material, a causa eficiente, a causa formal e a causa final. Eis uma ilustração tosca do que tinha em mente: quando Alfredo confecciona um risotto, as causas materiais do risotto são os ingredientes necessários à confecção, a causa eficiente é o próprio cozinheiro, a receita é a causa formal e a satisfação dos clientes no restaurante, a causa final.» (Anthony Kenny, Filosofia Antiga, Volume 1 da Nova História da Filosofia Ocidental, Gradiva, pág 19; a letra a negrito é de minha autoria).


 


Ora a causa formal do risotto é a forma arredondada deste prato italiano e de cada um dos grãos de arroz injectados de caldo de carne que o compõem. Não é a receita. Esta é uma causa eficiente teórica – conceito que Aristóteles, ao que suponho, não desenvolveu. A receita do risotto não é a forma final deste, é o método para o confeccionar.


Kenny não concebe a causa formal do risotto como a forma física deste, o que constitui um erro grave ao interpretar Aristóteles.


  


ARISTÓTELES IDENTIFICOU “EXISTÊNCIA” COM “SER EM ACTO OU PLENAMENTE REALIZADO” NO LIVRO V DA METAFÍSICA, AO CONTRÁRIO DO QUE AFIRMA KENNY


 


Vejamos, agora, os equívocos de Kenny sobre a identificação de ser com existência operada tanto nas filosofias de Parménides como na de Aristóteles, o que não significa que para estes filósofos a amplitude do ser não exceda a da existência, espraiando-se na essência in-existente ou essente:


 


«Em Aristóteles, como em Parménides, é um erro identificar ser com existência. Na entrada “ser”  do léxico filosófico da “Metafísica” Δ, a existência nem sequer é mencionada como um dos sentidos da palavra. Isto é surpreendente, já que, de tempos a tempos, nas suas obras de lógica, parece ter identificado a existência com um sentido especial de ser.» (Anthony Kenny, Filosofia Antiga, Volume 1 da Nova História da Filosofia Ocidental, Gradiva, pág 241; a letra a negrito é de minha autoria).


 


A primeira frase desta citação de Kenny está parcialmente errada. Em vez de dizer «Em Aristóteles, como em Parménides, é um erro identificar ser com existência»  a frase deveria ser a seguinte: «Em Aristóteles, como em Parménides, é um erro identificar ser exclusivamente com existência. ». Porque tanto em Parménides como em Aristóteles ser possui um sentido de existir, ser verdadeiro, ser em acto.


Também não é rigorosamente verdade que «na entrada “ser” do léxico filosófico da “Metafísica” Δ, a existência nem sequer é mencionada como um dos sentidos da palavra. »  A referência à existência está implícita na expressão “está plenamente realizado” ou “está em acto”: Aristóteles escreveu aí, no livro Δ:


«84) Ademais, e a respeito de todos estes sentidos enumerados, “ser” e “o que é” significam tanto o que se diz que é em potência como o que se diz que é já plenamente realizado: efectivamente, tanto do que pode ver como do que está vendo dizemos que é alguém que vꅻ (Aristóteles, Metafísica, Livro V, 1017 a-b)


 Ao contrário do que sustenta Kenny, Aristóteles aponta neste livro V da Metafísica “ser” como “acto”, isto é, existência presente. Falta perspicácia ao nosso historiador inglês da filosofia…


  


O SER DE PARMÉNIDES NÃO TEM QUALIDADES COMO ÁGUA, TERRA, QUENTE E FRIO, AO INVÉS DO QUE DIZ KENNY 


Kenny expõe de maneira ambígua, a concepção de ser em Parménides:


«Para Parménides, o Ser é não só aquilo que existe, mas também aquilo acerca do qual qualquer frase que contenha “é” seja verdadeiro. Do mesmo modo, ser não é apenas existir (ser simplesmente) mas ser seja do que for: ser quente ou ser frio, ser terra ou ser água, e assim por diante.» (Anthony Kenny, Filosofia Antiga, Volume 1 da Nova História da Filosofia Ocidental, Gradiva, pág 218; a letra a negrito é de minha autoria).


O ser em Parménides é fundamentalmente existencial – é eterno e a eternidade é existência ou in-sistência - e como essência é holístico, quase absolutamente indeterminado, formal. A água, o fogo, ou a terra não possuem um ser água, nem um ser fogo, nem um ser terra, porque são alteráveis e o ser é imutável. No entanto, repousam no ser uno, imóvel, eterno, homogéneo, imutável, que subjaz à via das aparências.


«Como poderia o que é depois disso perecer? Como poderia nascer? Pois se nasceu, não é, nem há-de ser alguma vez. Portanto, fica extinto o nascimento e ignorada a destruição.» (Parménides in Simplício, Física, 145, 1)


A água enquanto água ou a terra enquanto terra não são “ser”; apenas a água enquanto não água e a terra enquanto não terra, isto é, enquanto substância indeterminada e imóvel integram o ser, são “ser”. É isto que Kenny não consegue intuir com clareza nem explicar.


AMBIGUIDADE SOBRE A DEFINIÇÃO OU QUIDIDADE DE SÓCRATES QUE PARA ARISTÓTELES NÃO EXISTE


Aristóteles foi bastante claro sobre as substâncias individuais como Sócrates, Platão, Alexandre Magno, templo de Delfos, farol de Alexandria, etc: não têm definição, não possuem essência enquanto singulares. A essência de Sócrates, Platão e Alexandre é uma forma específica que, de certo modo, lhes é exterior: homem.


«Assim, pois, não haverá essência das coisas que não sejam espécies de um género, mas somente de estas...» (Aristóteles, Metafísica, Livro VII, 1030a).


Todavia, Anthony Kenny é pouco claro ao interpretar Aristóteles neste campo: reconhecendo embora que a carne e os ossos de Sócrates ou de Platão não pertencem à essência homem, tal como Aristóteles deixou bem expresso, Kenny deixa na dúvida se existe definição e quididade de Sócrates:


«O corpo de Sócrates faz parte claramente de Sócrates, mas fará parte da definição ou quididade de Sócrates?» (Anthony Kenny, Filosofia Antiga, Volume 1 da Nova História da Filosofia Ocidental, Gradiva, pág 241).


Posto isto, pergunto: podemos fazer fé nos catedráticos de filosofia se, a quase totalidade deles comete erros de palmatória ao expor doutrinas filosóficas? Não será verdade que quase todos as teses de doutoramento em filosofia padecem de erros, mais ou menos graves, que passam inapercebidos mercê da discutível categoria dos júris? Desconfiemos da autoridade em filosofia! Dá-se o caso de que, na grande maioria das situações, quanto mais títulos académicos ostenta, quanto mais alto sobe na esfera universitária, editorial e televisiva, mais incompetente é o apregoado filósofo ou filodoxo.


www.filosofar.blogs.sapo.pt


f.limpo.queiroz@sapo.pt


© (Direitos de autor para Francisco Limpo de Faria Queiroz)


 



publicado por Francisco Limpo Queiroz às 17:29
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